quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Eu vos aliviarei! (Mt 11,28)

Chega ao fim um dia mais e o corpo denuncia o cansaço dos trabalhos e preocupações. Os olhos cansados semicerram-se e quase já não deixam ver o que vai surgindo preto no branco do papel que se escreve ou se lê. E tu dizes-nos Senhor que nos aproximemos de ti, que a todos os cansados e oprimidos nos aliviarás.
E tão cansados que andamos Senhor, cansados deste mundo complicado e cheio de violência, cansados do tempo que não temos e que cada dia mais nos é exigido, cansados das nossas relações cada vez mais virtuais e menos fraternas, cansados de tudo e de nada, cansados do sem sentido do que fazemos.
E o teu convite permanece, continuas a pedir-nos que deixemos tudo e saiamos ao teu encontro, ao encontro do teu jugo que é suave e da tua carga que é leve. Continuas a dizer-nos pela voz do profeta Isaías que aqueles que esperam em ti renovam as suas forças, correm sem se fatigarem e caminham sem se cansarem.
Nesta caminhada de Advento fortalece-nos Senhor na esperança que nos renovas sem cessar, que nos dás asas como as das águias para voar bem alto, para voar serenamente no horizonte do projecto do teu Reino.
Alivia Senhor o nosso cansaço, dá forças aos que andam exaustos e vigor aos que andam enfraquecidos, renova-nos no teu jugo de amor e de humildade.

 
Ilustração:
“Jesus cura os doentes”, vitral da igreja de São Bartolomeu de Roeschwoog, Alsácia.

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição

Celebramos a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, realidade da natureza da Virgem Maria proclamada dogma da Igreja em 1854 pelo Papa Pio IX.
Esta proclamação não foi no entanto uma novidade, uma mudança radical na concepção do papel da Virgem Maria no mistério da encarnação e da salvação, mas foi o cristalizar de um sentimento que a Igreja desde sempre manifestou pela Mãe do Salvador.
Tal como escutávamos na Epístola de São Paulo aos Efésios, os cristãos sempre sentiram que Maria era alguém que Deus tinha escolhido, que Deus tinha predestinado, tinha constituído de modo particular para realizar uma missão, para ser um hino de louvor à sua glória.
Por isso, considerar que ela era imaculada, que tinha sido concebida sem pecado, não era estranho ao projecto de Deus nem ofendia a dignidade de qualquer um dos outros filhos, bem pelo contrário colocava-os em evidência e desafiava-os numa resposta.
A concepção imaculada da Virgem Maria é assim uma realidade que nos diz respeito, que não pode ficar encerrada na exclusividade de Maria, porque tal como ela também nós fomos escolhidos, fomos eleitos e para a mesma missão, a de dar à luz o Filho de Deus, ainda que em circunstâncias e modos completamente diferentes.
A concepção imaculada de Maria tinha por fim primeiro e único a encarnação do Filho de Deus, e em atenção aos méritos do Filho, à missão salvadora que o Filho de Deus deveria desenvolver, ela foi preservada de todo o pecado, foi cuidada com a graça divina para poder gerar o Filho de Deus com toda a pureza na nossa humanidade.
Com cada um de nós, tal não acontece nem é necessário, pois o Filho de Deus feito homem como nós no seio da Virgem Maria, realizou a missão única e eterna que lhe estava destinada, e da qual todos beneficiamos, e por isso não necessita mais de um seio virginal para se fazer homem.    
Neste aspecto distanciamo-nos radicalmente de Maria, ela é verdadeiramente única, foi a que foi necessária para que o mistério de salvação se iniciasse, mas aproximamo-nos dela na medida em que, tal como aconteceu com Maria, Deus não deixa de solicitar o nosso consentimento à obra que deseja realizar.
Também nós fomos escolhidos, predestinados, chamados a dar o nosso sim ao projecto de Deus, a permitir que o Filho de Deus se faça carne hoje, não já carne que se gera num útero durante nove meses, mas carne habitada pelo espirito divino que o mesmo Filho de Deus nos alcançou pelo mistério da redenção, pela sua morte e ressurreição.
Hoje somos chamados a dar à luz o Filho de Deus ressuscitado, glorioso, o Filho de Deus que nos fez herdeiros do Reino, que nos alcançou a dignidade divina que se tinha perdido pelo pecado de Adão. E tal acontece sempre que vivemos no amor, na justiça, na verdade, sempre que procuramos viver com dignidade, com essa dignidade de filhos de Deus que somos pela encarnação do Filho Primogénito no seio virginal de Maria.
E se o temor e a surpresa nos assaltam diante deste mistério, não podemos estranhar, não podemos ficar indiferentes, porque também a Virgem Maria se sobressaltou quando ouviu a saudação do anjo. O toque de Deus, o apelo de Deus à porta do nosso coração provoca inevitavelmente o nosso estremecimento, deixa-nos estarrecidos, afinal todos sabemos que não somos dignos, todos sabemos que estamos nus diante de Deus.
Que a resposta de Maria, o seu consentimento ao projecto de Deus, o sim para que se cumprisse a vontade divina, seja também a nossa resposta, seja o nosso consentimento ao projecto de Deus, ao mistério da incarnação do Filho que deve acontecer em cada um de nós nas suas circunstâncias e limitações, aqui e agora.
Que Maria nos proteja com a sua intercessão e nos ilumine diante de qualquer temor que possamos ter, para que sem medo a Palavra Eterna se faça em nós vida em plenitude.

 
Ilustração:  
“Imaculada Conceição”, de Juan de Frias, Museu de Belas Artes de Córdova.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Pegou na enxerga e foi glorificando a Deus! (lc 5,25)


As histórias de Jesus não são simples, muitas vezes desenvolvem-se num enredo que nos obriga a uma paragem, a um olhar mais atento.
É o caso do paralítico que é introduzido junto de Jesus pelo telhado, uma vez que aqueles que o transportavam não conseguiam passar a multidão aglomerada diante da porta.
Espectáculo excepcional, inusitado, e que nos mostra a confiança daqueles homens e muito particularmente daquele paralítico, certamente vexado pela multidão face à ousadia de aparecer como caído do céu.
Para Jesus o objectivo é bem claro desde o primeiro momento e os fins são proporcionados ao que se pretende, encontrar-se face a face com Jesus para ser curado.
Cura que passa antes de mais pelo perdão dos pecados, pela restituição da dignidade como filho de Deus. Só depois acontece a cura física que não é mais que uma manifestação, um sinal, da cura interiormente operada.
Como consequência do perdão e da cura realizadas a invectiva de Jesus é clara, aquele homem deve levantar-se, pegar na sua enxerga e ir para casa. Há uma nova vida, este é o começo dessa nova vida e portanto não pode permanecer ali nem deixar a sua enxerga para trás.
Ao sair carregando a sua enxerga, o Evangelho mostra-nos que aquele homem assume a sua condição, o seu passado, e certamente o seu pecado, mas é só carregando com ele que pode partir glorificando o Senhor.
Também nós, quando carregamos com as nossas fraquezas e debilidades, com as nossas faltas e pecados, transformados pelo perdão de Deus, podemos seguir em frente na nossa vida e glorificar o Senhor. Porque os nossos pecados foram perdoados, transportamos já connosco o dom do perdão e da salvação, e portanto louvamos a Deus pela graça alcançada, pelo tesouro de uma vida nova que nos confiou.

 
Ilustração:
“A crua do paralítico”, vitral da Catedral de Saint Colmans, Cobh, Irlanda.

domingo, 6 de dezembro de 2015

Homilia do Domingo II do Advento

Celebramos o segundo domingo do Advento e a Liturgia da Palavra, as leituras que escutámos, coloca-nos face a face com a acção de Deus, com a iniciativa de Deus em todo o processo de salvação.
O excerto do livro de Baruc que escutámos na primeira leitura é neste sentido muito clara, pois diz-nos que Deus decidiu, que Deus vai mostrar, que Deus dará, que Deus tem a iniciativa antes de mais.
A Carta de São Paulo aos Filipenses, da segunda leitura, vai no mesmo sentido, pois diz-nos que Deus começou em nós uma obra boa, uma obra que levará a bom termo.
E o Evangelho de São Lucas, ao apresentar-nos a figura de João Baptista no deserto, confirma esta ideia ao dizer-nos que a palavra de Deus foi dirigida a João para que ele pregasse um baptismo de penitência e arrependimento.
Assim, se Deus tem a iniciativa, se a acção tem o seu princípio em Deus, a cada um de nós corresponde a participação nessa iniciativa de Deus pelo acolhimento da acção, pela disponibilidade para que ela aconteça em nós.
O apelo de João Baptista no deserto, fazendo eco da profecia de Isaías, é assim um apelo à abertura, à disposição para o acolhimento, à eliminação de todos os obstáculos que possam impedir a iniciativa de Deus de se realizar.
Disposição para o acolhimento que é processo de conversão, e que não pode ser vivido na tristeza nem na amargura, no desalento, pois o que se nos pede para endireitar, para aligeirar, para desprender é sempre em função de um bem maior, da plenitude que Deus tem na origem da sua iniciativa.
Somos assim convidados, tal como o profeta Baruc convidava Jerusalém, a deixar o nosso manto de luto e tristeza, a nossa aflição pelas coisas que não funcionam ou que correm contrariamente aos nossos planos e expectativas.
É a beleza da justiça que devemos vestir, a glória de Deus que devemos colocar como diadema sobre a nossa cabeça, é a esperança que deve animar os nossos gestos e atitudes, é no final das contas a dignidade de filhos de Deus que devemos assumir e procurar viver.
É a caridade que deve crescer, uma caridade que não é espontânea, que não surge do nada, mas que é fruto da ciência e do discernimento, de um trabalho pessoal e à luz da graça e da Palavra de Deus, e que nos permite distinguir o que é melhor, o que nos torna mais puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo.
Fizemos uma semana de caminhada neste tempo de Advento e certamente alguma coisa fizemos de diferente, algum discernimento com ciência elaborámos e iluminou as nossas acções e palavras.
Pelo que fizemos e também pelo que nos propusemos fazer mas ainda não fomos capazes, temos que dar graças a Deus, com alegria e fé, porque Deus vai actuando em nós e o nosso coração vai estando mais disposto e disponível à acção de Deus.
Ao iniciarmos a segunda semana do Advento não podemos dar-nos por satisfeitos pelo que já fizemos, nem cruzar os braços pelo que ainda ficou aquém do desejado, mas devemos solidificar o que já fizemos e continuar a insistir no que nos falta fazer.
Uma vez mais somos convidados a compromissos concretos, e realistas, a pequenos gestos que podem marcar a diferença junto do outro e até junto de mim próprio, a uma oração mais intensa, ou até mais simples mas mais unitiva com Deus.
Tal como São Paulo, manifestemos a nossa confiança na acção de Deus, no seu amor para connosco e na sua promessa de que não nos deixaria sós neste caminhar e nesta luta. Esta confiança produzirá a mudança que desejamos e esperamos.

 
Ilustração:
“São João pregando no deserto” de Luca Giordano, Los Angeles County Museum of Art.

Começou em vós tão boa obra! (Fl 1,6)

Uma voz clama no deserto, é a voz de João Baptista a convocar-nos a preparar os caminhos do Senhor.
Convocatória provocante, umas vezes tomada em sério, outras vezes nem tanto, umas vezes interpelativa ao ponto de nos mover a um gesto a uma palavra, outas vezes ricocheteando na nossa indiferença ou distracção.
E contudo, tal como diz São Paulo na Carta aos Filipenses, a obra já foi começada, já nem somos obrigados ao esforço inicial de qualquer obra.
O mistério do nascimento do Filho de Deus integrou-nos já na obra, num processo para o qual não tínhamos forças nem qualificações para iniciar por nós próprios, e por tanto o que se nos pede, a preparação do caminho que nos é solicitada, é apenas a do acolhimento, a do acolhimento do dom que Deus nos faz.
O apelo no deserto de João Baptista é assim um apelo ao abrir do nosso coração, a uma limpeza, a um desimpedimento das vias para que a graça do dom flua serena e intensa e nos transforme.
Pelo baptismo, porta de entrada na vida cristã, iniciou-se em nós a obra divina, foi-nos concedido o dom do Espirito; que pela nossa verdade de vida, pela nossa coerência e fidelidade, pela justiça dos nossos actos e pelo amor das nossas palavras, essa obra possa desenvolver-se, brilhar e alcançar a sua plenitude.

 
Ilustração:
São João Baptista em letra capitular de Antifonário, de Lorenzo Monaco, Gemäldegalerie, Berlim.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Recebestes de graça dai de graça! (Mt 10,8)

Está a chegar ao fim a primeira semana do Advento e após a leitura do Evangelho do dia não deixam de ecoar em mim as palavras “recebestes de graça”.
Tantas e tantas coisas que recebemos de graça, que recebemos da generosidade e do amor de Deus, do carinho e da amizade dos amigos, das próprias realizações em que nos envolvemos e empenhámos. Tantas e tantas coisas, que nem damos por elas, pois já as damos como adquiridas, como fazendo parte da nossa vida e do nosso quotidiano.
O dom da vida, que o Senhor nos concede em cada dia, em cada momento a saúde e a alegria, a família e os amigos, o trabalho e o descanso, o braço amigo e a palavra carinhosa, o apoio do colega e até a exigência do chefe.
A gargalhada de felicidade, o olhar compassivo para quem amamos e desculpamos, a flor entregue por amor, o trabalho realizado com esforço mas satisfação, o momento de silêncio, as palavras da oração em cada fim de jornada.
Recebemos tanto de graça que não podemos deixar de agradecer a Deus o recebido. Mas temos também que agradecer o entregue, aquilo que fomos capazes de dar aos outros.
Se temos algo para agradecer do entregue aos outros, da generosidade e do amor do nosso coração para com os outros, é sinal de que os dons recebidos frutificaram, de que não os transformámos em propriedade nossa mas os assumimos como bens comuns para o serviço de todos.
Nesta caminhada de Advento que seja sempre maior a nossa alegria ao dar que ao receber, que a nossa acção de graças seja sempre mais intensa pelo que fomos capazes de dar que pelo que recebemos.

 
Ilustração:
Jardim com flores diversas.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Seguiram Jesus dois cegos. (Mt 9,27)

Já estamos tão habituados que já não nos estranha, já não nos coloca nenhum problema ou interrogação. Jesus era procurado por todo o tipo de gente, com todo o tipo de enfermidades e problemas.
Neste conjunto de gente, encontramos dois cegos que seguem Jesus, e a pergunta que não colocamos por pudor ou educação, mas que o próprio Jesus coloca num outro contexto, é se um cego pode conduzir outro cego.
Jesus responde à questão concluindo que dois cegos acabarão inevitavelmente num barranco, acabarão por conduzir-se mutuamente ao desastre e à tragédia, e ainda que não pareça é o que acontece com estes dois cegos que seguem Jesus.
É incontestável que foram curados por Jesus, que o seu pedido de visão foi satisfeito, mas também é incontestável que imediatamente a seguir Jesus os proíbe de divulgar a cura alcançada.
Podemos assumir, como Jesus assume no Evangelho de São João, que esta recomendação deriva do facto de ainda não ter chegado a sua hora. Podemos assumir que Jesus procurava gerir a sua missão e o impacto dela, afinal estamos ainda no início da vida pública.
Contudo a questão é bem mais profunda e o silêncio recomendado por Jesus prende-se com o milagre operado, com a visão alcançada por aqueles cegos, uma visão exterior, uma visão imediata, uma visão do taumaturgo triunfante, poderíamos dizer uma visão equivocada.
Aqueles dois cegos recuperaram a vista mas não chegaram de facto a ver quem tinham diante deles, porque para o verem necessitavam permanecer, fazer intimidade, guardar silêncio, ter cuidado e não sair imediatamente para fora a contar o sucedido. Aqueles cegos viram o Filho de David mas não tiveram tempo para ver o Filho de Deus.
Como os cegos também nós corremos suplicantes atrás de Jesus, não só porque queremos ver o Filho mas também porque queremos que ele nos mostre o Pai.
Para que nos seja alcançada a visão que buscamos necessitamos de tempo, tempo para que os nossos olhos se abram para a humanidade do Filho do Homem, para a carne da nossa carne feita ternura numa criança, para a humildade do amor exposta nua numa cruz, para o aniquilamento de si para que a visão do rosto do Pai aconteça.
Concede-nos Senhor um coração puro, porque prometestes que os puros de coração veriam a Deus! Mas sobretudo, concede-nos Senhor o dom do tempo para ti!

 
Ilustração:
“Jesus cura o cego de nascença”, de Orazio de Ferrari, Colecção de Arte do Banco Carige.