segunda-feira, 6 de abril de 2009

ELOGIO DA OBEDIÊNCIA


ELOGIO DA OBEDIÊNCIA NOS “DIÁLOGOS”

No livro “Os Diálogos” de Santa Catarina de Sena encontramos um tratado, um conjunto de diálogos, sobre a obediência. É o último conjunto de diálogos do livro. Nesse último diálogo encontramos um elogio da obediência que transcrevemos para meditação.

Elogio da obediência

Oh obediência deleitável, oh obediência agradável, obediência suave, luminosa, porque dissipastes as trevas do amor-próprio. Oh obediência vivificadora, que dás a vida da graça à alma que te elegeu por esposa e se livrou da morte da vontade própria, que dá guerra e morte à alma.
És generosa, fazendo-te submissa a toda a criatura racional, és benigna e piedosa. Com benignidade e mansidão sofres qualquer trabalho, por estares acompanhada da fortaleza e da verdadeira paciência.
Estás coroada com a coroa da perseverança e não diminuis porque o prelado é inoportuno ou porque te impõe sem descrição tarefas pesadas. Tudo suportas à luz da fé.
Estás tão unida à humildade que nenhuma criatura te pode arrancar da mão do santo desejo da alma que te possui.
Que diremos caríssima filha de esta excelentíssima virtude? Que é um bem sem mal algum. Ela permanece escondida na barca de uma forma que nenhum vento a pode danificar; faz navegar a alma nos braços da Ordem e do prelado e não nos seus, porque o verdadeiro obediente não tem que dar conta de si, mas do prelado de quem é súbdito.
Enamora-te queridíssima filha desta gloriosa virtude.

domingo, 5 de abril de 2009

DOMINGO DE RAMOS HOMILIA


DOMINGO DE RAMOS –Ciclo B – Homilia

Quando Samuel estava a terminar os dias da sua vida, os anciãos de Israel foram ter com ele e pediram-lhe um rei. Os filhos que Samuel tinha instituído como juízes do povo tinham-se deixado corromper, tinham-se deixado levar pela avareza e portanto tinham-se tornado indignos da missão que seu pai lhes havia atribuído. Para além disso, o povo queria ser como os outros povos, queria ter um rei como os outros povos, alguém que administrasse a justiça e que caminhasse à frente do povo nos combates das guerras.
Esse pedido dos anciãos do povo, de um rei que os governasse, não agradou a Samuel, e para os tentar mudar de ideias apresentou-lhes os direitos que um futuro rei exigiria, os deveres a que o povo se submeteria. Contudo, tal não foi suficiente para demover os anciãos de quererem um rei e Samuel, por revelação de Deus, acedeu a conceder-lhes o rei solicitado. A história bíblica conta as desilusões que o povo sofreu com os reis demasiado humanos que sucederam a David, o rei que se apresenta como modelo da realeza, apesar de todas as suas infidelidades.
Os contemporâneos de Jesus procuravam também um rei, alguém que correspondesse à promessa do rei Messias e que levantasse o povo contra o jugo do império romano. O milagre da multiplicação dos pães, que São João narra no capítulo sexto do seu Evangelho, foi visto por muitos como a manifestação do rei Messias esperado e por isso após o milagre um grupo procura Jesus para o fazer rei. Perante este desejo e à equivocação daqueles que o procuravam Jesus refugia-se na montanha e escapa à entronização. A fuga de Jesus está relacionada com a divisão que existia entre os judeus sobre o papel exacto desse rei, profeta e Messias. Jesus foge porque ele não é profeta como era esperado pelo povo que fosse, ele foge porque não é rei como a multidão esperava que ele fosse.
A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e que a liturgia comemora neste Domingo de Ramos, torna-se assim de alguma forma enigmática e paradoxal, uma vez que contradiz a atitude geral de Jesus de recusar esse tipo de manifestação, de assumir as expectativas erradas das pessoas.
Para a compreender temos que ter presente que ela acontece após a ressurreição de Lázaro em Betânia, a realização do último sinal revelador da messianidade e realeza de Jesus. Quase que podemos afirmar que o cortejo triunfal começou em Betânia e que é dali que trazem Jesus para Jerusalém para ser coroado rei.
A entrada em Jerusalém é triunfal e os cânticos e gritos da multidão proclamam a realeza de Jesus, realeza que se inscreve na tradição bíblica, pois este rei é já anunciado nos Salmos e é do Salmo 118 que a populaça retira os gritos de louvor. A multidão reserva a Jesus uma recepção que se pode qualificar de três modos, real, aderente e eufórica. É uma recepção real na medida em que pelas suas aclamações se reconhece Jesus como rei de Israel, em virtude de uma missão que Deus lhe conferiu. É uma recepção aderente na medida em que a multidão aceita essa missão real e se submete espontaneamente a ela. É uma recepção eufórica porque é na alegria que é celebrada a chegada do rei, e portanto toda a dor e sofrimento estão banidos e esquecidos.
Entre a multidão delirante e o hóspede, o rei que chega, parece assim estabelecer-se um acordo sobre o papel de cada elemento. Jesus assume-se no papel de rei enquanto que a multidão se assume como o povo de Israel. A realeza que preside ao momento da entrada real continua assim de forma ambígua, mas ao contrário do momento imediatamente a seguir à multiplicação dos pães, Jesus aqui não foge, bem pelo contrário, assume a sua condição real.
Esta mudança no comportamento de Jesus prende-se com o facto de que a entrada em Jerusalém nesta condição é inevitável, a entrada messiânica é um processo obrigatório para o Messias, e portanto Jesus submete-se a esse processo, reservando-se para mais tarde o direito e a possibilidade de esclarecer o tipo de realeza que estava disposto a encarnar e viver. A referência às Escrituras e à incompreensão por parte dos discípulos antes da ressurreição demonstram claramente a distância que existia entre a escolha de Jesus e as expectativas da multidão sobre a forma de ser rei.
A realeza manifestada neste acontecimento compreende-se quando temos presente a referência à profecia de Zacarias e a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumentinho, filho de uma jumenta. Ao entrar desta forma, e ainda que com símbolos de guerra como são as folhas de palmeira desde o tempo dos Macabeus, Jesus apresenta-se como um príncipe da paz. A entrada triunfal de Jesus em Jerusalém é a entrada triunfal do príncipe da paz e neste sentido a entrada triunfal do Messias, do Filho de Deus, ainda que esta acepção e leitura só se possa fazer depois da ressurreição.
Acompanhemos Jesus nesta entrada, não de forma equivocada, com expectativas ou esperanças humanas de poder, mas com o espírito de construtores da paz com que Jesus entrou e se deixou aclamar.

sábado, 4 de abril de 2009

SOLILÓQUIOS DE SANTA CATARINA



ORAÇÕES E SOLILÓQUIOS DE SANTA CATARINA DE SENA

Quando se publicou em 1496, em Bréscia, a edição latina de “Os Diálogos” foi-lhe acrescentado como apêndice “As Orações e Solilóquios”. Desde essa data quase todas as edições do livro de Santa Catarina comportam esse apêndice.
A tradução latina das orações foi feita pelos discípulos de Santa Catarina, que não só conheciam o pensamento e método da autora, como também a língua vulgar, o dialecto toscano em que Santa Catarina originalmente tinha proferido as orações.
A maioria das orações recolhidas foi composta entre 1378 e 1379, embora se encontrem orações desde 1376 até 1380, ano da morte de Santa Catarina. A época mais fecunda de composição corresponde aos anos da redacção dos “Diálogos”, pelo que é fácil encontrar uma proximidade temática e espiritual.
Frei Bartolomé Dominici narra como habitualmente se procedia à recolha e fixação da oração, procedimento determinado pela própria Santa Catarina depois de um arrebatamento.
Recebida a Eucaristia o seu espírito elevava-se de tal modo a Deus que perdia o uso dos sentidos, e deste modo permanecia insensível durante três horas ou mais. Com frequência, também em êxtase, falando com Deus, proferia com voz clara profundas e devotas orações, as quais na sua maior parte foram transcritas palavra por palavra; algumas por mim e muitas por outros, quando ela, como se disse, as pronunciava com voz clara e distinta”.
Em 12 de Agosto de 1379, dia em que se celebrava a Oitava da Festa de São Domingos, estando em Roma, compôs a oração “A Imagem Divina”, que apresentamos.

“A IMAGEM DIVINA”
Oh alta e eterna Divindade, incompreensível e inestimável Amor!
Dizes, Pai Eterno, que o homem que se olha a si mesmo Te encontra dentro dele, uma vez que foi criado à tua imagem e semelhança. Tem memória, para se recordar de Ti e dos teus benefícios, participando desta forma no teu poder; tem entendimento, para conhecer-te e conhecer a tua vontade, participando da sabedoria do teu Filho Unigénito, Nosso Senhor Jesus Cristo; e tem a vontade, para amar-te, participando da clemência do Espírito Santo. Assim, não só criastes o homem à tua imagem e semelhança, como também há em Ti semelhança com o que ele é, e deste modo estás nele e ele em Ti.
Não te conheci em mim, Deus; nem a mim em Ti, Deus Eterno. Esta é a ignorância dos néscios que Te ofendem, porque se compreendessem não poderiam menos que amar a Deus. Esta ignorância procede da privação da luz da graça, e a privação provém do amor próprio sensitivo. Tal é a semelhança entre um e outro, que quando não se amam se apartam da sua própria natureza.[1]
[1] Cf. OBRAS DE SANTA CATALINA DE SIENA, Edição preparada por José Salvador y Conde. Madrid, BAC, 2007, 491-492.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

FESTA DOS ESTIGMAS DE SANTA CATARINA


AINDA A FESTA DOS ESTIGMAS DE SANTA CATARINA DE SENA
1 DE ABRIL

A notícia que Frei José da Natividade dá no “Agiológio Dominico” sobre a origem da Festas das Chagas de Santa Catarina de Sena, narra também a estigmatização ocorrida em Pisa em 1375. É esse acontecimento e consequente narração que está na origem da principal representação iconográfica de Santa Catarina de Sena. Por isso o trazemos aqui.

“Faltavam cinco meses, e dezoito dias para completar-se um lustro, depois que a nossa Seráfica Virgem, e Doutora gozou aquele grande benefício, com que a favoreceu o seu Amabilíssimo Jesus; e entrando o verão do ano de 1375, achando-se a fidelíssima serva de Deus na cidade de Pisa com outras suas companheiras, e com o Beato Raimundo de Cápua (que era agora o seu Confessor) e todos viviam em uma casa próxima à igreja de Santa Cristina, foi este mesmo sagrado templo o digno teatro das glórias da nossa maior Heroína.
Entrava aquele Abril lisonjeando a terra com flores, e os ânimos com esperanças, e Catarina para quem o Abril das virtudes era igualmente perpétuo que florescente para dar a este mês o princípio, a que dirigia todas as suas acções, buscou no Sacramento da Flor da vara de Jessé, o imarcescível Lírio dos Vales, a cuja duração todas as quadras do ano são primaveras, por ser superior aos gelos do inverno, e aos calores do estio, que tão longe estão de fazer-lhe ofensa, que antes (como cantavam os meninos da fornalha) são tributários dos seus louvores.
Acabou a nossa grande Dominicana de comungar, e dali a pouco perdeu o uso dos sentidos, ficando em um puro delíquio espiritual. Estavam presentes algumas pessoas; e todas com o Beato Raimundo presenciaram que no princípio deste maravilhoso rapto se elevava no ar, assim de joelhos como estava, a serva de Deus, cujo rosto parecia uma brasa viva, e nesta elevação persistiu com os braços abertos ao modo de cruz por algum tempo, até que caiu em terra com sintomas de se lhe haver atravessado o coração.
Acordou, como de um sono, Catarina, e chamando ao Beato Raimundo, lhe disse em muito segredo: Não quero encobrir a Vossa Paternidade o mimo que agora acaba o meu amorosíssimo Esposo de fazer-me; é tão bom este Senhor, que pondo de parte os meus deméritos, se dignou estampar no meu corpo as suas preciosíssimas Chagas.
Diga-me (tornou o Beato Raimundo) de que modo lhe participou o Senhor uma graça tão sublime?
Vi (replicou obediente) que meu Senhor Crucificado me buscava cheio de tanta luz, e majestade, que faltando-me as forças para beber os raios da sua amabilíssima Presença, caí por terra, vendo clara e distintamente que das Mãos, do Lado, e dos Pés de meu Senhor saíam a ferir-me o coração, mãos e pés cinco fios do seu Divino Sangue. Como eu entendi que meu Celestial Esposo queria honrar-me com um distintivo que igualmente me excita à confusão, que ao agradecimento, clamei, e exclamei deste modo: Oh meu Amorosíssimo Senhor, já vejo até onde quereis realçar a minha indignidade; eis me aqui tendes rendida às vossas disposições; somente vos peço que pois vos inclinais a abrir em tão indecente barro os extremosos sinais da redenção humana, que fique oculto esse admirável testemunho das vossas finezas aos olhos do mundo; padeça eu os sensíveis efeitos das vossas Chagas, mas fiquem estas invisíveis no meu corpo; porque assaz favor me fazeis em dar-me que penar, para se quer em alguma coisa vos corresponder.
Acabei de fazer esta súplica, e imediatamente vi, que aquelas cinco linhas sanguíneas tomavam aparência de flávas [douradas], e chegando ao meu peito, mãos e pés ao modo de cinco puríssimos raios de luz, me abriram outras cinco profundíssimas chamas. A dor que me causam é muito aprazível; mas tão veemente que se não me vale a Providência de quem me feriu com sobrenaturais alentos, não bastarão os naturais para que eu possa viver: porque atormentando-me com suma intenção as mãos e pés, não é dizível o que padeço no coração, aonde me parece que se tem acastelado todas as ânsias e todas as penas.
Assim falou Catarina; e pouco tardou em verificar-se o que acabava de dizer, caindo em um desmaio tão rigoroso, que ainda o mesmo Beato Raimundo, que era tão experimentado nos raptos desta sua filha espiritual, ficou agora muito temeroso da sua morte; e aconselhou aos que estavam presentes que todos uniformemente pedissem a sua Divina Majestade, que não os privasse tão intempestivamente da piíssima comunicação de sua serva, e até determinou a esta mesma para que fosse mais bem ouvida a Oração, que rogasse a seu Amado Esposo, que lhe concedesse mais larga vida para ganhar mais almas para o céu.
E ainda que a Seráfica Santa estava tão prostrada, o amor que tinha à santa obediência lhe deu esforço para acompanhar a comum deprecação de seus devotos; e não era passado muito tempo, quando Catarina falou assim ao seu Confessor: Não sei, meu Padre, se me devo queixar, ou se hei-de agradecer, atento o preceito que Vossa Paternidade pouco há me impôs; porque quem me tira de morrer, também me retira de gozar; mas dilate-se me muito em hora esta felicidade até quando meu Deus for servido; porque somente o que Ele quer é que eu quero. Bendita seja a sua Grandeza e Majestade, que não desprezou a minha humilde e imperfeita oração, deferindo favoravelmente aos desejos de Vossa Paternidade. Queira Ele que eu gaste dignamente em seu serviço o tempo que me prorroga.
Cumpriu-se a promessa Divina; porque no domingo seguinte, que se contavam oito de Abril, buscou a Bem-Aventurada serva de Deus seu Sacramentado Esposo, a quem recebeu com pureza e amor de um Serafim; e deste dia em diante ficou muito aliviada, e restituída da sua primeira aptidão para prosseguir, como prosseguiu, as meritórias operações das suas virtudes.
Ficaram impressas as chagas, se bem que ainda que se negavam aos olhos, não se ficavam estes em total carência desta maravilha; porque muitas vezes conheceram os seus prodigiosos efeitos, especialmente nas sextas-feiras, que (segundo alguns autores) era quando se lhe avivava com mais excesso o seu tormento”[1].
[1] NATIVIDADE, Frei José da – Agiologio Dominico, Tomo Sexto. Lisboa, Na Officina de Manoel Soares, 1750, 2-4.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

FESTA DOS ESTIGMAS DE SANTA CATARINA


FESTA DOS ESTIGMAS DE SANTA CATARINA DE SENA
1 DE ABRIL

No antigo calendário litúrgico da Ordem dos Pregadores, o primeiro dia de Abril era dedicado à Festas das Chagas de Santa Catarina de Sena.
Como diz Frei José da Natividade no “Agiológio Dominico” podia consagrar-se todo o mês de Abril a Santa Catarina de Sena, porque se o mês começa com a festa da impressão dos estigmas, ele termina com a festa da sua memória e acções. Nós aqui vamos dedicar-lhe este mês de Abril, começando por apresentar um texto do século XVIII sobre o acontecimento que deu origem à festa.

“Corria o ano do Senhor de 1370, e estando a nossa Santa em 18 de Agosto a ponto de comungar, abismada no profundo caos do seu conhecimento próprio, levada dos afectos que lhe fomentou a consideração com que a Divina Bondade, mediante aquele sacramento de Amor se inclina a entrar na tosca habitação de um peito humano, disse com extraordinário fervor: Não mereço, não mereço, meu Deus e Senhor, que Vós entreis em uma casa tão indigna, como é o meu coração; e ouviu que o Senhor lhe respondia: Se te falta merecimento para Eu entrar em ti, sou Eu digno de que tu entres em Mim.
Acabou de comungar abrasando-se em ânsias e afectos; e então experimentou uma transformação maravilhosíssima de amor, parecendo-lhe que as duas almas, a do seu Senhor e a sua, entravam reciprocamente uma na outra, ao modo com que a esponja entra na água, e a água na esponja.
Tornou para sua casa com muito custo, porque não se atrevia a sair daquele lugar, que era o especioso centro para onde propendiam todas as sua inclinações; e vendo que em um dia de tantos favores tinham bom cabimento as suas petições, com que de contínuo instava a sua Divina Majestade pelo bem espiritual, e temporal do seu próximo, dirigiu agora as suas rogativas a beneficio principalmente de seu Confessor (que a este tempo era o Padre Frei Tomás de Sena) suplicando ao Pai das misericórdias que se dignasse de o fazer um seu grande servo, inflamando-o nas invencíveis chamas do seu Amor, e admitindo-o ao felicíssimo grémio dos seus escolhidos.
Estava o mesmo Padre àquele tempo na igreja bem descuidado, quando se sentiu de repente comovido de uns toques do Espírito Santo, os mais fortes e extraordinários que se podem imaginar. Parecia-lhe ao bom religioso que lhe tinha caído aquela bênção de David, que pedia a Deus que lhe introduzisse novamente outro coração, e outro espírito para o amar com inocência e rectidão; e pasmava de ver esta repentina metamorfose não sabendo a que causa a referisse.
Mas pouco tempo durou esta confusão, porque brevemente soube o motivo da boca da nossa grande Santa: O ansioso desejo (lhe disse ela) que eu tenho do maior aproveitamento de Vossa Paternidade me empenhou a instar a meu Adorado Esposo para que se dignasse de lhe dar a Vossa Paternidade aquelas sólidas virtudes por onde se chega ao logro da sua maior amizade, fazendo-o assim digno de ser escrito no livro da Vida. Dignou-se o mesmo Senhor, pela sua infinita Bondade condescender com os meus desejos, prometendo-me que Vossa Paternidade alcançaria a felicidade da salvação, e para que eu sempre conservasse a memória deste alto benefício me penetrou, em penhor da sua Palavra, com um dos seus cravos a minha mão direita, deixando-me no meio dela impressa (ainda que invisível) uma das suas sacratíssimas Chagas, cuja dor é impossível de explicar.
Com este favor principiou o Divino Amante a preveni-la para os excessos de amor, com que passados mais de quatro anos, a enobreceu com a Impressão de todas as suas cinco gloriosas Chagas; porque era muito próprio que uma esposa tão benemérita fosse em tudo semelhante ao seu protótipo”
[1].
[1] NATIVIDADE, Frei José da – Agiologio Dominico, Tomo Sexto. Lisboa, Na Officina de Manoel Soares, 1750.

NO PRINCÍPIO...


No Princípio…

Os Capítulos Gerais de 1255 e 1256 ordenaram que se fizesse uma investigação sobre a vida de São Domingos, fundador da Ordem dos Pregadores e falecido em 1221. Juntamente com a vida dele devia ser investigada também a vida dos primeiros irmãos que o acompanharam nessa aventura da pregação e da difusão da Ordem por toda a Europa. Os que tinham vivido esses acontecimentos fundacionais estavam a desaparecer e era necessário guardar as suas memórias.
Gerard de Frachet lançou mão da árdua tarefa e em quatro anos reuniu as histórias, as tradições, os milagres que os vários conventos lhe foram fornecendo para a elaboração daquela que se queria que fosse a primeira história da Ordem dos Pregadores e ficou conhecida desde 1259 como “Vitae Fratrum Ordinis Praedicatorum”, “A Vida dos Irmãos da Ordem dos Pregadores”.
Setecentos e cinquenta anos depois lançamo-nos também nesta aventura, de contar a nossa história, passada e presente, mas igualmente futura, pois acreditamos que há uma história ainda a viver e construir. Neste sentido, este blog será um espaço de partilha de dados e informações históricas, mas também de reflexões sobre o momento presente e de interrogações sobre o futuro. Será um blog que olha para o passado com o intuito de pensando o presente não perder o futuro
E ao iniciarmos este projecto de ciberespaço e intercomunicação neste mês de Abril pedimos a protecção de Santa Catarina de Sena, irmã insigne da Ordem dos Pregadores e Doutora da Igreja.