quinta-feira, 7 de julho de 2011

Meditação do Mistério da Apresentação por frei José da Câmara

No seguimento dos Mistérios Gozosos meditados por frei José da Câmara no seu livro “Arte da Perfeição Cristã” apresentamos hoje a meditação sobre o Mistério da Apresentação de Jesus no Templo e a Purificação de Nossa Senhora.

“Meditação
Considera, alma minha, aquela suma obediência, e profunda humildade de Maria Santíssima, que sendo Virgem Imaculada, ficando muito mais pura ao conceber, no parto, e depois do parto sempre Virgem, quis ir ao Templo a purificar-se, sendo mais pura que o sol, para cumprir com o que determinava a Lei às outras mães; obrando assim para nos dar exemplo, e ensinar o como devemos cumprir com as Leis Divinas. Oh como imitas pouco, alma minha, esta obediência da Virgem Santíssima, pois tão pouco cuidas em cumprir com aquilo que Deus te manda! Passa pela memória os preceitos Divinos, e pondera o pouco que os tens cumprido, quando a Mãe de Deus assim os observava, que até os, a que não está obrigada, executava. Tempo é já de te aproveitares do exemplo, que Maria Santíssima te oferece, cuidando em cumprir com a Lei de Deus, e tendo um vivo pesar de ter faltado à observância desta Lei.
Ofereceu Maria Santíssima seu bento Filho ao Eterno Pai com um par de Rolas, que era a oferta dos pobres. Oh como Deus Menino ama a pobreza, que como pobre quer ser tratado! Sempre, que desprezas os pobres, alma minha, desprezas uma Imagem de Cristo; e se te prezas de ser alma Cristã, não o mostras nestas obras! Que mais havia de fazer um Gentio, que desprezar a Imagem do verdadeiro Deus? Mas o Gentio despreza-a, porque lhe falta o lume da Fé; e tu tendo esta virtude, obras como se a não tiveras! Também não corresponde bem à pobreza de Deus Menino o amor, que tens aos bens da terra: cuida só nos bens da Glória, que estes te adquiriu o Menino Deus. Se ao Eterno Pai ofereceu Maria Santíssima seu bento Filho pelos homens, também por ti o ofereceu; e fiado nessa oferta, com grande confiança pede perdão a Deus das tuas culpas, que pelos merecimentos de Deus Menino, e de sua Mãe Santíssima to oferece o Eterno Pai, se muito de veras lho suplicares.
Considera, como querendo a Virgem Senhora nossa neste Mistério ocultar a quase infinita dignidade de Mãe de Deus, a não pode esconder ao Santo velho Simeão, que adorando por verdadeiro Deus aquele Menino, lhe começou a dizer louvores, e a sua Mãe Santíssima, exclamando com grande veneração e alegria: Agora, Senhor, morrerei em paz, pois meus olhos viram a Saúde e Salvação de Israel. Com que ternuras, e afectos diria aquele Santo Velho estas palavras, considerando que tinha ao mesmo Deus em seus braços? Nestes louvores acompanhava ao justo Simeão a Santa viúva Ana, que assistia no Templo, e tinha sido a Mestra da Maria, Senhora nossa. Oh como faria suave consonância no Céu o eco desta harmonia!
Pede à Virgem Santíssima te alcance a graça para louvares o Filho, e a Mãe, como deves, que assim viverás alegre nesta vida, e o possuirás na eterna.”

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meditação do Nascimento de Jesus por frei José da Câmara

Continuamos a apresentação das meditações do pequeno livro “Arte da Perfeição Cristã”, do dominicano frei José da Câmara. Desta feita encontramo-nos com a meditação sobre o nascimento de Jesus em Belém, terceiro Mistério Gozoso do Rosário.

“Meditação
Considera, alma minha, aquela inefável alegria e inexplicável complacência que a Virgem Santíssima teria, vendo o Divino Verbo feito homem, de quem era Mãe, ficando Virgem! Oh com que humildade profunda, e com que devoção afectuosa o adoraria? Pondera as muitas lágrimas de alegria, amor, e ternura, em que romperia o coração desta Senhora, vendo ao Divino Verbo feito Menino para remir, e resgatar o Mundo da escravidão do pecado, vendo ao Senhor do Universo tão pobre, que nascia num Presépio por não achar outro lugar! Oh que confusão, alma minha, para aquele insaciável apetite que tens de adquirir riquezas, Palácios, Alfaias, e tudo o mais de que usa a vaidade do Mundo! Conformam-se estes desejos com não ter o Menino Deus naquele presépio outro berço mais que um pouco de feno? Que dizem as riquezas, que desejas, com tanta pobreza, como a que estás observando neste Supremo Rei da glória? Os Palácios com um presépio, que lhe serve de morada? As alfaias supérfluas com uns pobres panos, em que sua Mãe Santíssima o envolveu?
Sendo Senhor do Mundo todo, não houve quem lhe oferecesse uma casa, em que nascer! Oferece-lhe o teu coração, alma minha. Porém se esse coração está ocupado com afectos mundanos, é certo que aquele Deus menino te não há-de aceitar essa oferta; nem tu te atreverás a oferecer-lhe para morada o teu coração ocupado de semelhantes afectos. Mas considera bem, que o Menino Deus está chorando, sendo o motivo das suas lágrimas o ver, que para o teu coração o não convidas! Lança fora de teu coração todos os afectos terrenos, e oferece-o ao Menino Deus para aposento.
Ainda que o vês dos homens tão desconhecido naquele presépio, em que está reclinado, nele Maria Santíssima, e seu Esposo o adoram, os Anjos como a seu Deus o veneram, os Pastores o reverenciam, o Céu, a terra, e todas as mais criaturas insensíveis, no modo que lhes é possível, como a seu criador lhe tributam obséquios, porque todas as criaturas se derretem em doçuras à vista de tal prodígio. E há-de ser possível, alma minha, que não vás render adorações ao teu Deus, que por amor de ti se fez menino, padecendo frios e experimentando pobrezas? Ora seja este o mais eficaz motivo para de hoje em diante sobre todas as coisas o amares.
Pede ao Menino Deus por intercessão da Virgem Santíssima, sua Mãe, queira com o seu frio abrasar teu coração, com o seu desamparo amparar-te, e com a sua pobreza enriquecer-te do seu soberano amor e da sua Divina graça.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Meditação de frei José da Câmara sobre o Mistério da Visitação

Continuamos a publicação das meditações compostas por frei José da Câmara para o seu livrinho “Arte da Perfeição Cristã”. Desta feita a meditação tem por tema a visita de Nossa Senhora a sua prima Isabel.

"Meditação
Considera, alma minha, a grande Caridade, diligência e pressa, com que a Virgem Santíssima, sendo Mãe de Deus, menina de quinze anos, a mais delicada e perfeita de todas as mulheres, costumada ao retiro e recolhimento, por moção do Espírito Santo não recusou pôr-se a caminho na companhia de seu Esposo, andando dezanove léguas a pé pelas ásperas montanhas da Judeia, para ir dar os parabéns a sua Prima Santa Isabel de haver concebido o Sagrada Baptista. A toda a pressa caminha, porque lhe serve de guia o Amor Divino. Não é o Amor Divino vagaroso, nem sabe ir passo a passo; por isso pelas montanhas da Judeia não só caminhava, mas corria aquela delicada Donzela sem que lhe servissem de embaraço as asperezas dos montes, ou o dilatado da jornada. Para quem se abrasa no amor de Deus, tudo é suave, nada é penoso. Se sentes, alma minha, os trabalhos desta vida, é porque anda engolfada nestas caducas temporalidades: se só cuidasses em amar a Deus, nada te havia de penalizar, porque os maiores trabalhos te haviam de ser suaves, padecidos por seu amor; assim, como à Virgem Santíssima pareceu suave esta jornada tão dilatada, em que a guiava o Divino Amor.
Acompanha, alma minha, na sua jornada a esta Soberana Senhora, observa-lhe as acções, sem te escaparem até os seus pensamentos. Como iria entretida em colóquios Divinos com o Filho, que levava em seu puríssimo ventre! Quem soubera meditar os actos fervorosos de amor de Deus, em que se iria exercitando! As graças, que a Deus daria por tão supremo benefício, como o de se ver exaltada à dignidade de Mãe de Jesus! Como caminharia nesta contemplação elevada, admirando-se seu Esposo do silêncio que na Virgem observava, reverenciando a sua rara Santidade e prodigiosas virtudes? Oh que pouco imitas esta Caridade, que a Rainha dos Anjos te ensinou para acudires ao teu próximo! Sabes qual foi o fim desta jornada tão custosa? Foi para o Divino Verbo, no puríssimo ventre de Maria recluso, santificar o Baptista, livrando-o da culpa original, e para que Santa Isabel se enchesse da graça do Espírito Santo. Logo que foi concebido o Menino Deus, obrou tais finezas pelos homens: e tu nem por teu Deus obras finezas!
Considera como a Senhora entrando em casa de Zacarias foi a primeira, que saudou a sua Prima. Pondera a humildade, com que esta recebe a tão grande Senhora, confessando-se indigna de mercê tão soberana. Quantas vezes tem entrado o mesmo Deus humanado em teu peito na Mesa da Comunhão? Com que humildade o recebestes em tua morada, sendo ele o Rei da Glória e tu uma vil criatura? Ora aprende de Santa Isabel humildade para com a mais profunda receberes ao teu Deus quando na soberana Mesa o comungares. Considera, como entrando a Rainha dos Anjos em casa de Zacarias, tudo nesta casa foi harmonia e música suave de louvores; Santa Isabel louva a Senhora dizendo: Sois bendita entre as mulheres, bento é o fruto do vosso ventre: com muito afecto deves dizer à Rainha dos Anjos estes louvores, quando rezares a Ave-Maria.
Pede à Virgem Santíssima alcance de seu bento Filho te visite, para que sempre a ele, e a ela louves, e te faças digna de alcançar a sua Divina graça."

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Meditação do livro "Arte da Perfeição Cristã" de frei José da Câmara

Deixamos hoje uma meditação que frei José da Câmara, religioso da Ordem dos Pregadores, compôs para o seu livro “Arte da Perfeição Cristã”, livro dedicado ao Sereníssimo Senhor D. António, Infante de Portugal, e publicado em Lisboa, na Oficina Silviana da Academia Real, em 1739.

"Meditação
Considera alma minha o infinito amor de Deus que o moveu a obrar por ti tantas finezas, vindo ao Mundo em pessoa para te remir e resgatar. Não obrou estas finezas pelos Anjos, e só as obrou por ti, que nada lhe merecias e tão mal lhe havias de corresponder! Com que tens gratificado estas finezas? Com que tens correspondido a este amor? Pondera devagar o que tens obrado na tua vida, e acharás que tudo tem sido em ti ingratidões? Cuida em seres agradecida a quem por teu amor tanto obrou. Veio Deus do Céu à terra a buscar-te e tu ainda lhe queres fugir? O que pretende de ti é que o ames; e sendo ele tão digno de ser amado, hás-de deixar de o amar? Obrando por ti tantas finezas, hás-de faltar ao seu amor?
Considera aquela humildade suma de Maria, Senhora Nossa, pois anunciando-lhe o Anjo estar para Mãe de Deus escolhida, respondeu: Aqui está a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a sua vontade. Oh humildade a mais profunda! A soberba de Eva foi a origem do nosso mal, e a humildade de Maria foi o princípio de todo o nosso bem; pois com tão humilde resposta, do Sangue puríssimo do Coração da Senhora formou o Espírito Santo um corpo, e criando uma alma, naquele Corpo inefável a infundiu, o qual unido à pessoa do Divino Verbo, resultou em um instante um Menino Deus encerrado no puríssimo ventre de Maria Santíssima. Deus feito homem com corpo passível! Oh amor imenso! A natureza humana unida tanto a Deus? Oh amor infinito! De Deus à natureza humana vai uma infinita distância, e tudo isto se venceu! Mas tudo vence um amor Divino!
Pede, alma minha, ao Espírito Santo, que te assista, para poderes meditar tão inefáveis excelências, como as que se encerram neste soberano Mistério. Considera as graças, que aquele Deus Menino, já com perfeitíssimo uso de razão, renderia ao Eterno Pai no mesmo instante da sua Conceição, por lhe dar Corpo passível para padecer pelos homens, oferecendo-se desde logo a padecer e morrer. Quis estar por nove meses recluso no ventre de sua Santíssima Mãe, começando desde logo com esta reclusão a obrar finezas pelos homens. Que fosse possível que a Sabedoria de Deus estivesse dissimulada e calada por tanto tempo! Oh Divino amor! E há-de ser possível, que considerando eu toas estas finezas, não me assombre? Não me eleve ao mais alto de tanto amor? Neste amor me abraso já; só a vós, meu Deus, quero amar, e só o que for vossa vontade quero cumprir, para assim de alguma sorte corresponder ao infinito do vosso amor.
Pede, alma minha, à Virgem Santíssima te queira fazer participante da sua viva fé, da sua pronta obediência, e da sua profunda humildade."

domingo, 3 de julho de 2011

Homilia do XIV Domingo do tempo Comum

No trecho do Evangelho de São Mateus que escutamos neste domingo, Jesus convida-nos de uma forma muito clara a tomar sobre nós o seu jugo, que segundo as suas mesmas palavras é suave e nos dará descanso e alívio.
Na nossa liberdade e desejo de auto-suficiência este convite a tomar o jugo aparece-nos como uma capitulação, uma subjugação a um poder estranho e superior que parece querer escravizar-nos. O jugo de que fala Jesus aparece-nos mais como estratégia, como mecanismo de subjugação do império romano relativamente aos povos conquistados, que como instrumento ou objecto de madeira destinado à unificação de animais de carga e trabalho.
E não podemos deixar de ter presente que as palavras de Jesus, e a própria redacção dos Evangelhos, se inserem numa cultural rural, agrícola, e que muitas das imagens e das referências têm por fundo essa mesma cultura e o seu contexto natural. Desta forma, quando Jesus fala do jugo, fala dessa trave de madeira que se coloca sobre o cachaço dos animais para lhes facilitar o exercício da força no transporte da carga ou no lavrar da terra.
Há assim no convite de Jesus uma dimensão de partilha e de suavidade, de misericórdia para connosco e os nossos esforços, que não podemos esquecer nem deixar de ter presente no nosso horizonte e compromisso de assumir o jugo de Jesus. Ao convidar-nos a tomar o seu jugo Jesus convida-nos a partilhar com ele a caminhada, a sabê-lo ao nosso lado nos esforços de puxar o nosso carro com as suas cargas históricas e humanas.
Neste sentido o jugo é e será sempre suave porque se partilhará, será equilibradamente dividido, e se partilhará com aquele que sabe já, desde a sua obediência e do seu amor, levar o jugo do peso da cruz. Pelo que, e de alguma forma, mais do que carregar com o jugo somos nós os carregados nesse jugo, a nossa força e o nosso esforço ainda que exigidos e exigentes estão suavizados pela companhia daquele que já fez o caminho e conhece os tropeços.
Na natureza e no trabalho agrícola, numa junta de animais há sempre um mais forte que vai um pouco mais à frente, que incentiva o outro a caminhar e a carregar. No nosso jugo é Jesus que vai à frente, é ele o mais forte e afinal aquele que verdadeiramente puxa a carga e puxa por nós.
E é por esta razão que Jesus convida aqueles que andam cansados e oprimidos a dirigirem-se a ele e a aceitar o seu jugo; ou seja, a partilhar com ele os esforços da carga do peso diário e da nossa condição humana finita e frágil, que também ele carregou por amor e para nos aliviar desse mesmo peso finito e frágil, e para nos ensinar e mostrar que é possível não ficar cativo e escravo dessa mesma condição.
A aceitação do convite ao jugo implica no entanto um espírito prévio, uma abertura de espírito que se traduz nessa pequenez de que fala Jesus. Porque foi aos pequeninos que o Pai revelou estas verdades e não aos sábios ou poderosos. Os sábios, inteligentes e poderosos procurarão de todas as formas carregar os jugos sem a ajuda de ninguém, confiantes apenas nas suas forças e capacidades, no seu engenho e perspicácia.
Pelo contrário, os pequeninos, aqueles que são como crianças, saberão que sozinhos não serão capazes, interiormente terão o gosto e a alegria da partilha dos esforços e da companhia e por isso não só procurarão ajuda como aceitarão aquela que lhes for oferecida. E neste caso a ajuda de Jesus e a sua fraternidade.
Cabe assim fazer eco das palavras da Carta de São Paulo aos Romanos e pedir ao Senhor que habite em nós e dê vida aos nossos corpos mortais, que nos vivifique e fortaleça para caminharmos lado a lado com Jesus, sabendo que a carga que levamos é partilhada e foi já aliviada pelo seu compromisso de caminhar juntamente connosco.

domingo, 26 de junho de 2011

Homilia do XIII Domingo do Tempo Comum

Há um aforismo do mundo da política e das finanças que algumas vezes ouvimos e que diz que “não há jantares de graça”. Ou seja, o que aparentemente parece gratuito e dom tem um preço, tem um retorno, uma compensação.
Olhando sob o prisma desta mesma regra e lógica para o que escutávamos no Evangelho de São Mateus, parece que também a nível do cumprimento dos mandamentos de Deus e sobretudo do preceito da caridade, as coisas funcionam da mesma maneira, ainda que aqui o mecanismo seja bastante claro e não apresente nenhuma ambiguidade.
Ou seja, e tendo em conta as palavras de Jesus, quem recebe um profeta ou um justo por ele ser profeta ou ser justo, recebe a recompensa de profeta e de justo. Quem dá o que tem e quem acolhe o outro, recebe o dom oferecido e a hospitalidade prestada. Há portanto uma reciprocidade e uma justiça no retorno e na compensação daquilo que se faz.
Esta matemática e estes cálculos não traduzem no entanto toda a dimensão daquilo que Jesus nos quer dizer, e por isso, culminando esta formulação sobre o dom e a dádiva, Jesus deixa-nos a promessa de que aqueles que derem um simples copo de água a um dos seus mais pequeninos, por ser seu discípulo, não perderá a recompensa. Há portanto um lucro, um “superavit”, na dádiva feita e no acolhimento prestado tendo em conta a pessoa de Jesus ou de Deus.
E podemos ver como este mecanismo funciona tendo presente a leitura do Segundo Livro dos Reis, quando o profeta Eliseu promete à sunamita que o acolheu em sua casa um filho para daí a um ano. Esta mulher, de comum acordo com o seu marido, prepara para aquele que ela pensa que é um santo homem de Deus um quarto no terraço, um quarto de tijolo, mobilado e iluminado. Prepara um aposento com tudo o que tem de melhor, sem qualquer interesse ou pedido de retribuição, apenas porque vislumbra naquele homem alguma coisa que a faz pensar que é um santo homem de Deus.
Perante esta oferta, este cuidado no acolhimento e na preparação da oferta apresentada, e perante a infelicidade da mulher que não tem filhos, o profeta deixa-lhe a promessa de um filho, de uma posteridade que a colmará de alegria, a si e ao seu marido. Desta forma, e por esta promessa, percebemos que a retribuição do dom, pela parte de Deus, é sempre uma retribuição de fertilidade, de felicidade e de alegria. Deus não se contenta em retribuir na mesma moeda, equitativamente, mas retribui sempre num crescendo, no sentido da possibilidade de uma fertilidade e de outra vida.
À luz deste princípio e desta oferta de Deus percebemos melhor as palavras de Jesus sobre o tomar da cruz e sobre o perder da vida para ganhá-la. De facto, é na entrega e na dádiva do que temos, que somos compensados, e o que julgamos perder acaba afinal por ser um lucro, um ganho, ainda que numa outra dimensão que possivelmente nos escapa devido aos nossos olhos calculistas. Afinal a recompensa de Deus é sempre a vida e a sua fertilidade e tanto uma como a outra não são por vezes imediatamente visíveis.
Mas este mecanismo tem ainda implicações mais radicais e profundas se tivermos em conta as palavras de São Paulo aos Romanos, ou seja, pela fé e pelo baptismo acreditamos que se morremos com Cristo também com Cristo viveremos, a morte já não tem poder sobre nós uma vez que foi vencida por Cristo. Assim, tudo o que na vida se aproxime e assemelhe à morte de Cristo, nessa realidade de entrega de vida e de amor, de dom total e de acolhimento do outro, acaba por se transformar em vida, acaba de alguma forma por ressuscitar em outra vida, outra possibilidade de vida. Neste sentido, todo o dom é sempre um caminho para uma outra vida, um caminho de fertilidade contrário às esterilidades do nosso egoísmo e do nosso desejo de possessão.
Estes princípios enunciados deviam dar-nos uma paz e uma alegria face a tantas perdas que vamos sofrendo na vida e que devíamos procurar transformar em dons, em tantas cruzes que carregamos e que devíamos converter em árvores da vida. Na medida da entrega generosa e livre elas transformar-se-ão em fertilidade de vida.
Peçamos ao Senhor que nos envie o seu Espírito para sabermos dar o que temos de melhor em nós e para aceitarmos o que não podemos ter como processos de fecundidade, portas abertas a uma outra vida.

domingo, 19 de junho de 2011

Homilia da Solenidade da Santíssima Trindade

Hoje celebramos na Igreja a Solenidade da Santíssima Trindade, esse mistério de um Deus que é único mas que se revela em três pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Podemos em qualquer momento questionar-nos sobre este mistério e a sua elaboração pela mente e inteligência do homem, num processo de purificação do chamado ópio do povo, mas deparamos com um mistério tão grande e tão único na sua concepção que não podemos acreditar nele senão pela fé, como um dado da revelação divina, uma realidade eterna e transcendente que nos foi sendo revelada ao longo da história de Deus com o homem. É demasiado inusitado para poder ser uma criação da fraqueza e do medo do homem.
E é neste processo de revelação, nesta história de Deus com os homens, que através do Apóstolo São João nos é dito que Deus é amor, este Deus uno e trino é Amor, o que nos conduz a concluir que o Pai é amor, o Filho é amor e o Espírito Santo é amor.
Contudo, nas nossas elaborações mais simples e do dia a dia acabamos por dizer que o amor é o Espírito Santo, esse laço que une o Pai e o Filho numa relação íntima e de profundo conhecimento. Há o Pai, há o Filho, há essa entrega mútua de amor que é o Espírito Santo. Em muitas das nossas orações, e nos textos que redigimos, o Espírito Santo acaba por se afigurar dessa forma, como uma laço, uma relação, uma realidade que se poderia dizer impessoal, despersonalizada.
Ora, esta despersonalização do Espírito Santo é a negação do mesmo Espírito e da sua presença e realidade no mistério da Santíssima Trindade, no qual não é apenas uma relação mas é de facto e de essência uma pessoa, uma pessoa divina. O Deus uno compõe-se de três pessoas distintas.
Neste sentido da personalização, da valorização do Espírito Santo no mistério da Santíssima Trindade não podemos esquecer as palavras de Jesus aos seus discípulos antes da paixão e que ainda há muito pouco tempo escutávamos no tempo pascal. Como dizia Jesus, havia a necessidade de partir, de regressar ao Pai para que os discípulos pudessem receber o Espírito Santo, o defensor, aquele que lhes recordaria todas as palavras ditas e todos os ensinamentos. É uma pessoa, uma realidade pessoal, à qual Jesus se refere e para a qual Jesus pede abertura e acolhimento.
Assim, não se pode pensar a Santíssima Trindade, e as pessoas do Pai e do Filho, sem essa relação com a terceira pessoa que é o Espírito Santo. Não podemos conceber, nem imaginar, a relação do Pai e do Filho como uma simples relação dual, uma entrega mútua da qual o Espírito Santo surge como um produto ou consequência. Bem pelo contrário, é essa terceira pessoa que viabiliza a relação, que impossibilita a aniquilação e possibilita a pessoalidade, como terceiro ângulo de um triângulo que se constrói em unicidade e diferença.
Esta realidade do mistério, inabarcável pela nossa inteligência, é no entanto extremamente importante para o nosso ser de homens e mulheres, para a nossa condição humana e a sua realização, uma vez que também nós, nas nossas relações, necessitamos desse terceiro elemento, dessa terceira pessoa que nos equilibra.
Assim, e neste sentido, é muito claro aquilo que os apóstolos nos dizem, quando nos confrontam com a necessidade do amor aos irmãos para que o nosso amor a Deus seja verdadeiro e concreto. Não podemos amar a Deus verdadeiramente se não amamos os irmãos, ou seja, a relação de fé e de amor para com Deus necessita esse terceiro elemento pessoal que são os outros, que necessitam do nosso amor e da nossa confiança.
Por outro lado, nas nossas relações humanas, de amizade, de amor e matrimónio e até de filiação e paternidade se esquecemos o terceiro elemento que é a presença de Deus, o seu convite de amor, as nossas relações pessoais e bilaterais acabam por naufragar no nosso próprio egoísmo e necessidade de possessão.
No conjunto das nossas relações humanas e sociais necessitamos traduzir a realidade e o mistério da Trindade, com a presença de Deus como fundamento e meta de toda a relação. E na nossa relação com Deus, na nossa fé, não podemos deixar de lado os outros, os nossos irmãos e companheiros, que tornam visível e concreta a relação invisível com Deus.
Desta forma manifestamos o mistério da Santíssima Trindade na sua essência, bem como a presença de Deus entre os homens, o cumprimento desse pedido feito por Moisés de o Senhor caminhar no meio do povo. Ele caminha e está presente, como também nos diz São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios, quando vivemos na alegria, na paz, e quando nos animamos uns aos outros a trabalhar pela perfeição, a configurar-nos com Deus que é amor no Pai, no Filho e no Espírito Santo.