segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tu já preparastes o bem

 
Porque não rezar a Deus suplicando-lhe desta forma: “Tu não me proporias escolher o meu bem, se tu não o tivesses já preparado para me o oferecer, na tua mão. Que seja a tua vontade e não a minha.”
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Flor da Estufa Quente do Jardim Botânico de Genebra.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Homilia II Domingo do Advento

Neste segundo domingo do Advento, e como acontece todos os anos, encontramo-nos com a figura de João Baptista e confrontamo-nos com a sua pregação. Uma vez mais somos convidados a preparar o caminho do Senhor, a endireitar as veredas e a aplanar os montes para que toda a criatura veja a salvação de Deus.
Este convite e esta tarefa ganham contudo um outro significado e uma outra dimensão se tivermos presente o que São Paulo escreve aos cristãos da comunidade de Filipos, palavras redigidas aquando da prisão do apóstolo em Éfeso.
Neste sentido, não podemos deixar de ter presente a confiança a que São Paulo convida os filipenses, uma confiança que radica no facto de Deus ter começado uma obra boa em cada um deles e na comunidade.
De facto, muitas vezes esquecemos este pormenor fundamental e caímos na tentação de que tudo está na nossa mão, somos tentados a pensar que a perfeição e a santificação são obra nossa, esquecendo-nos que quem verdadeiramente nos aperfeiçoa e santifica é Deus pela sua graça em nós.
Deus já começou a sua obra em nós, não só pelo baptismo que recebemos mas igualmente pelo facto de nos ter criado, de nos ter dado a vida. Somos já obra das suas mãos e por isso devemos viver confiantes de que Deus não a deixará abandonada nem por completar.
Contudo, tal obra de Deus, tal acção em nós, não nos desvincula da obrigação de colocarmos o que nos compete, de realizar a tarefa que está na nossa mão, e que mais não é que prepararmos o nosso coração para a acção mesma de Deus, é abrir-nos à acção de Deus, é acolher Deus que vem ao nosso encontro.
Somos assim convidados e à luz das palavras da pregação de João Baptista a endireitar as nossas veredas, a aplanar os nossos montes, a procurar viver libertos daquelas realidades intrínsecas ou extrínsecas a nós mesmos que impedem ou dificultam a plena acção de Deus, o processo de santificação e perfeição.
São Paulo na carta aos Filipenses aponta-lhes como instrumento para esta libertação que somos convidados a realizar o crescimento da caridade em ciência e discernimento, para que se possa distinguir o que é melhor e nos tornemos puros e irrepreensíveis.
Necessitamos por isso, no nosso processo de conversão, de partir da confiança de Deus em nós e do amor que nos é natural e intrínseco, centelha da vida divina em nós.
Como todos sabemos, aquilo que é objecto de amor é mais cuidado, recebe maior atenção e protecção, e na nossa vida de fé tais atitudes devem estar presentes não só na nossa relação com Deus mas também com aqueles com quem vivemos.
Porque não aplanar o nosso egoísmo, o nosso egocentrismo, a nossa avidez de consumo ou poder, amando aquilo que de facto nos pode realizar e levar à plenitude da perfeição e da vida que em nós já foi começada.
Porque não procuramos verdadeiramente o amor de Deus e o amor dos irmãos, a prossecução da vontade de Deus quando sabemos que isso é garante de uma felicidade?
Tarefas exigentes e para as quais necessitamos, como São Paulo nos recorda, da ciência e do discernimento, de um exercício diário de ajustamento ao bem, à verdade e à justiça a partir do amor a que Deus nos convida a todos.
Deus vem ao nosso encontro, vem completar a obra que iniciou em nós, obra para a qual deseja e espera a nossa colaboração através do exercício da sabedoria de escolhermos o bem e rejeitarmos o mal para que a sua acção seja mais profícua e completa em nós.
O tempo do Advento, esta preparação para a comemoração do nascimento do nosso Salvador, é mais uma oportunidade de nos reencontrarmos com esta necessidade de discernir, de aferirmos da nossa abertura à acção de Deus que vem ao nosso encontro.
Procuremos pois aproveitá-la, recordando com alegria a parte que Deus já tomou em nós, e apresentando-lhe o que ainda não deixámos que fosse tomado pelo pouco amor que lhe votamos.
 
Ilustração: “A Criação de Adão”, por Michelangelo Buonarroti, Capela Sistina, Vaticano.

 

Imaginado por Deus

 
Foi Ele quem preparou a escolha que vou fazer, pois ele já me chamou. Não sou eu que o imagino, mas foi ele que me imaginou. Um pascaliano diria: “Tu não me procurarias se não me tivesses já escolhido”.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Céu de nuvens atravessado por avião em final de tarde.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Homilia Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria

Encontramo-nos aqui reunidos para celebrar a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, um mistério da incarnação do Filho de Deus cuja formulação dogmática não deixou de causar conflitos, pelo que nos deparamos no século dezassete com uma ordem real para que os professores da Faculdade de Teologia da Universidade de Coimbra confessassem o dogma da Imaculada se quisessem continuar a ensinar na universidade.
Contudo, não é por causa dessa formulação dogmática que hoje nos encontramos aqui, mas pelo facto de que o mistério que ela explicita nos alcança a todos, nos permite uma condição e uma vida que só por ele nos é possível, a vida divina em virtude dos méritos de Cristo.
Neste sentido não podemos deixar de ter presente a distância e o contraste que nos é proposto pelas leituras que escutámos, nomeadamente do Livro do Génesis e do Evangelho de São Lucas.
Por um e outro texto percebemos que o projecto de Deus não abdica do homem nem da sua participação e colaboração. Se no momento da criação Deus tinha entregado ao homem o jardim da terra para que ele o cuidasse e o fizesse florescer, no momento da redenção o mesmo Deus solicita a colaboração de uma jovem donzela.
Deus não abdica assim da participação do homem na sua obra criadora e redentora, o que nos devia dar uma outra esperança, um outro sentido de responsabilidade face aos nossos actos, que de facto podem ser destruidores ou construtores de um mundo novo.
Por outro lado não podemos deixar também de ter presente a liberdade que Deus deixa ao homem para esta colaboração, ainda que ela seja regulada por algumas normas e possa ser questionada. No caso da anunciação do Arcanjo Gabriel a Maria vemos como é possível o diálogo com Deus, o seus questionamento, enquanto que no momento da criação o primeiro homem e a primeira mulher não foram capazes desse diálogo.
Por esta incapacidade percebemos também como a liberdade mal vivida leva à condenação do outro, pois quando Deus pergunta a Adão o que fez, este desculpa-se com a mulher e esta com a serpente. Há assim uma desresponsabilização pessoal e uma culpabilização do outro, manifestando dessa forma a falta de amor para com o outro.
No caso da anunciação a Maria deparamos com um assumir pessoal das responsabilidades e das consequências, de alguma forma mais agravadas, na medida em que estava desposada com José e era-lhe proposto uma missão no qual ele não teria o papel humanamente esperado.
Percebemos assim, que a solicitação de Deus à participação na sua obra é uma solicitação radical, exigente, que obriga a decisões que podem colocar em causa a própria vida. Neste sentido, e no caso muito concreto de Maria, é como se Deus necessitasse de uma prova fiel e total dessa mesma aceitação e colaboração, desafiando Maria face ao compromisso que tinha com aquele que era o seu marido e se esperava que fosse o pai dos seus filhos.
Mas se Maria foi capaz de na sua liberdade fazer essa opção, arriscar a sua vida comprometendo-se com o projecto de Deus, não foi apenas pelos méritos futuros de Cristo, ou pela preparação desde a sua concepção para esta missão, ainda que uma e outra realidade sejam favorecedoras da resposta.
De facto, a resposta de Maria, a sua colaboração humilde na realidade divina em que estava inserida, deve-se também à sua esperança, à sua confiança num Deus que não tinha abandonado nunca aqueles que se tinham consagrado e entregado livremente. Maria assume na sua resposta livre e arriscada as vidas de todos os profetas, de todas as santas mulheres, de todos os patriarcas, de todos os justos que desde o primeiro momento esperavam alguém capaz de dar essa resposta.
Também nós, como Maria, somos chamados à mesma resposta e à mesma humilde confiança e esperança. De facto, há muitos irmãos nossos, muitos homens e mulheres que esperam de nós uma resposta que faça acontecer a vinda de Deus. Hoje como há dois mil anos o mundo espera e necessita corações purificados pela graça divina para que nas mais diversas situações sejam ventre para a encarnação do amor de Deus.
Saibamos com a ajuda do Espirito Santo aceitar e acolher a proposta que Deus nos continua a fazer a todos, e de modo particular nestes nossos dias em que se nos apresenta a necessidade de uma esperança e de uma fé mais fortalecida.


Ilustração: Imaculada Conceição, de Francisco Rizi, Museu do Prado de Madrid.


  

Imaculada e Humilde Virgem Maria

 
Maria, ainda que sejam grandes os méritos de sua existência terrestre após a graça inicial, é o tipo perfeito do justificado que encontra os motivos da sua humildade numa santidade que lhe foi conferida gratuitamente.
Dom Samuel

Ilustração: Imagem da Imaculada em mármore de Carrara da autoria do escultor italiano Forzani, oferecida aos católicos de Genebra pelo Papa Pio IX em 1859 e que se encontra na Catedral de Genebra.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Ser adulto e santo

 
O adulto é aquele que compreendeu que, entre o entusiasmo do adolescente e a resignação do idoso, há um lugar para realizar o que se pode, a partir do que se é, e com os meios que possuímos. Esta afirmação de Albert Camus pode-se aplicar à santidade.
Dom Samuel

Ilustração: Relógio das Flores no Jardin Anglais em Genebra.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A acção de Deus

 
O que nós fazemos, tudo sem excepção, não pode produzir frutos sobrenaturais sem a condição de que Deus coloque aí a sua mão, sem que envolva a nossa acção na sua acção poderosa.
Dom Samuel

Ilustração: Folhas de Outono no jardim Promenade des Bastions em Genebra.