segunda-feira, 21 de maio de 2012

Frei Domingos Maria Frutuoso – Vigário Geral do Mestre da Ordem para Portugal

Continuamos a apresentação da resenha sobre a vida e obra de frei Domingos Maria Frutuoso na restauração da Província de Portugal da Ordem dos Pregadores.

Ainda não tinham passado quatro meses sobre a sua profissão solene na igreja do Corpo Santo, quando a 2 de Fevereiro de 1898 é convidado pela Rainha D. Amélia a apresentar-se no Palácio das Necessidades para tratar da formação religiosa e do ensino do catecismo aos Príncipes Reais, D. Luís Filipe e D. Manuel.
Querendo Sua Majestade a Rainha minha Augusta Ama, que Suas Altezas Reais comecem a aprender a doutrina cristã pela voz autorizada de um Sacerdote, dignou-se escolher o Senhor Padre Frutuoso, o que agora comunico a Vossa Reverência.”
Frei Domingos Frutuoso ocupou esta função até 1906, ensinando os Príncipes Reais que no final da formação se apresentavam em exame ao Cardeal Patriarca de Lisboa. De acordo com o que confessa, numa carta escrita a D. Manuel II já então no exílio, frei Domingos Frutuoso nunca recebeu qualquer remuneração por este serviço prestado à Família Real.
A Vossa Majestade basta dizer o que muito bem sabe, aliás. Se o Padre Domingos Frutuoso entrou sempre nos Paços Reais de cabeça levantada durante os oito anos que teve a grande [honra] de ser mestre de Religião de Suas Alteza Sereníssimas, levando sempre a sua isenção a não receber a mais ligeira remuneração, pois nenhuma valia aquela honra tão grande, compreenderá alguém que o actual Bispo de Portalegre se curve diante dos homens que dirigem a coisa pública, ou os adule, ou aceite ostensivamente o novo regime?”

A partir do Corpo Santo, onde reside na comunidade dos dominicanos irlandeses, e na qual tem alguns ofícios como o de Sacristão e de Secretário do Conselho da Casa, frei Domingos desenvolve paralelamente ao serviço prestado no Palácio Real um trabalho intenso de pregação e acompanhamento espiritual, destacando-se neste âmbito o Colégio e Mosteiro do Bom Sucesso e o Mosteiro do Sacramento a Alcântara, então na posse das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, e nos quais não só celebra a Eucaristia, como confessa e prega retiros.
É face a este trabalho imenso, que se estende a outras cidades do país, que frei Domingos Frutuoso concebe de uma forma mais prática a ideia da restauração da Província de Portugal, adquirindo nesse sentido a 11 de Agosto de 1908 uma casa na Rua de São Tiago, número 92, em Viana do Castelo, bem perto do antigo convento de São Domingos.
Liberto da educação dos Príncipes Reais em 1906, e após a morte da mãe, ocorrida a 12 de Setembro de 1908, frei Domingos Maria Frutuoso dirige-se a Roma para expor ao Mestre da Ordem Jacinto Cormier o seu desejo e projecto de restaurar a Província Dominicana Portuguesa. Em Fevereiro desse ano de 1909 consegue do Mestre da Ordem o aval do seu projecto, regressando a Portugal como Vigário Geral.
Graças a Deus! Decidiu ontem, 14, o Conselho que eu fosse o Vigário do meu Superior Geral em Portugal. Graças a Deus!”
Com este estatuto e autoridade frei Domingos dá início a uma nova etapa no ressurgimento e restauração da Província de Portugal.

Neste sentido em finais de Março, princípios de Abril deixa o Comunidade do Corpo Santo e fixa moradia na Parede, onde como diz “terei muito mais tempo para estudar”.
Ainda neste mês de Abril de 1909, e aproveitando uma viagem a Viana para ver a casa que tinha comprado, fala com o Arcebispo de Braga sobre a abertura de uma Casa dominicana em Viana, projecto que tem um acolhimento positivo. Em Julho tudo se prepara.
Já dei ordem de se comprarem os tarecos indispensáveis para a casa de Viana, como panelas, tachos frigideiras, cadeiras bem sólidas, candeia para a cozinha, etc., e eu metido nestes arranjos caseiros que até me fazem rir! Nunca pensei nestas coisas senão agora. (…) Também há quem me dê as roupas para a casa e os paramentos para a nossa capelinha interior. Com a ajuda de Deus viveremos sempre muito contentes.”
Pouco tempo depois estão já ali o irmão António, que cuidadosamente trata do jardim e do quintal e mais tarde os padres espanhóis Maximino Llaneza e Raimundo Castaño, que serão vítimas da guerra civil espanhola de 1936.
No final do ano de 1909 estão já a caminho de Itália dois postulantes.
Já tive notícias dos meus postulantes de Lourdes. Devem ter chegado a Florença há dias. Que Nossa Senhora os faça crescer em número e qualidade.” Enquanto que em Viana prosseguem as obras e o acolhimento, que como comenta foi de alguma forma triunfal.
No início de 1910 consegue do Mestre da Ordem a transferência da Casa da Parede para Lisboa.
Já estou com desejos de ver a nossa casa nova, que me faz ter por vizinhos muitas das pessoas a quem mais quero neste mundo. (…) O nosso Padre Geral aprovou plenamente a minha resolução de nos transferirmos da Parede para Lisboa, o que me deu a maior consolação.”

A necessidade da mudança da Parede era premente face à enorme quantidade de solicitações na cidade. Ainda assim, frei Domingos Frutuoso fixa a sua residência em Viana, estabelecendo a primeira semana de cada mês como o tempo para estar em Lisboa e servir os seus fiéis no Mosteiro do Sacramento
Assistimos por esta altura a uma actividade de pregação frenética, pois frei Domingos Frutuoso ora se encontra em Lisboa, como se encontra em Viana, passa por Aveiro ou está pregando em Braga. Neste ano de 1910 passou quase todo o mês de Fevereiro pregando na cidade de Braga, pregação muito aplaudida e com ecos nos principais jornais da cidade e do Porto.
É numa destas pregações, no mês de Junho, no seminário da Guarda, que o Bispo D. Manuel Vieira de Matos lhe propõe a abertura da primeira escola apostólica na Guarda. Não contente com as condições, frei Domingos Frutuoso acaba por abdicar da oferta e optar por abrir a escola apostólica na casa de Viana do Castelo, facto que não se chegou a verificar devido à implantação da Republica a 5 de Outubro de 1910.

Ilustrações:
1 – Fotografia da Rainha D. Amélia de Orleães e Bragança, tirada em Londres.
2 – Fotografia de Frei Domingos Maria Frutuoso.
3 – Fotografia da Igreja do Corpo Santo em Lisboa no início do século XX.
4 – Fotografia da Igreja de São Domingos em Viana do Castelo. Maio de 2011.

1 comentário:

  1. Frei José Carlos,

    Grata, Frei José Carlos, pela continuação da apresentação da resenha sobre a vida e obra de Frei Domingos Maria Frutuoso na restauração da Província de Portugal da Ordem dos Pregadores. É interessante a forma como construiu e ilustrou o texto. Voltei a rever brevemente alguns dos textos que classificou como Século XX. Nos dois textos que publicou sobre Frei Domingos Maria Frutuoso sinto a necessidade, por vezes, de ler nas entrelinhas ... Talvez seja cedo demais para que haja um melhor entendimento no papel que desempenhou na restauração da Província de Portugal da Ordem dos Pregadores.
    Imagino o trabalho que estes textos requerem mas ao mesmo a satisfação por podermos compreender algumas questões que a Ordem dos Pregadores viveu particularmente no século passado. Bem-haja.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

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