Espantados e cheios de medo julgavam ver um espírito! (Lc 24,37)
Quantas vezes paira na nossa cabeça
esta questão, esta dúvida: a ressurreição de Jesus, as suas aparições aos discípulos
não são uma ilusão, uma alucinação colectiva, uma construção narrativa. Não estaremos
de verdade diante de um fantasma?
A narração da aparição de Jesus aos discípulos
após o encontro a caminho de Emaús vem responder a este medo, a esta dúvida. A fé
em Jesus ressuscitado não é uma ideia, uma construção ou ilusão, até uma emoção
passageira fruto da dor e da desilusão.
As aparições de Jesus aos discípulos são
um facto, e um facto bem real, são um encontro com uma presença real que se pode
ver e tocar, que se alimenta para que não haja qualquer dúvida, qualquer engano
nos sentidos tão fáceis de iludir e enganar. A manifestação de Jesus mostra que
não há qualquer ambiguidade, não é possível estarmos iludidos e enganados.
Resulta assim necessário
perguntar-nos se a nossa fé em Jesus ressuscitado é uma emoção, um sentimento
vago, ou verdadeiramente um facto, um encontro que aconteceu ou acontece na
nossa vida.
As emoções evaporam-se, extinguem-se
com as circunstâncias mais ou menos adversas com a passagem do tempo. Como diz
o ditado popular “o tempo cura tudo”, o tempo desvanece as cores e corrói as
formas, levanta o pó e arrasta-o para longe dispersando-o na imensidão do
deserto ou na escuridão da noite.
O que é real, o facto em si, o
encontro pessoal permanece no tempo da memória, nas cicatrizes da pele, deixa
uma marca em nós porque o outro levou uma marca nossa. Quem parte leva uma
parte de nós e quem fica guarda uma parte daquele que partiu. O encontro
pessoal com Jesus deixa-nos algo de si e leva algo de nós.
A aparição de Jesus aos discípulos que
pensam ver um fantasma é uma lição, uma expressão da aprendizagem que devem
fazer da sua presença. Ele permanece, ele está vivo, ele está presente e
acompanha-nos para que o encontremos em qualquer virar de esquina da vida, uma vez
mais com as mãos marcadas pelos cravos e disposto a sentar-se à mesa connosco
para construirmos memória.
Ilustração:
Elemento do Crucifixo do Museu de San
Matteo, Pisa.

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