Caríssimos Irmãos
Não podemos dissociar a leitura do Evangelho de hoje da leitura do
Evangelho do domingo passado. Se ainda nos recordamos, Jesus convidava-nos à
correção fraterna, a irmos ter com os nossos irmãos, que nos possam ter
ofendido, e a recuperar junto deles a relação existente anteriormente entre
nós.
É na sequência deste desafio que o discípulo Pedro pergunta a Jesus sobre
o perdão, sobre quantas vezes podemos perdoar; até sete vezes? E ao estabelecer
este valor, esta barreira, Pedro está já a ser generoso, amigo do ofensor, uma
vez que os escribas e doutores da lei ditavam que para além de quatro vezes o
perdão deixava de ter justificação e era inviável, o outro era incorrigível.
Contudo, a aritmética de Jesus não é a aritmética de Pedro nem a nossa, e
por isso Jesus responde a Pedro que perdoar sete vezes não é suficiente, não
tem sentido, para se perdoar deve-se perdoar até setenta vezes sete, ou seja,
de uma forma incomensurável.
Para entendermos esta resposta de Jesus e a sua lógica não podemos deixar
de procurar na Sagrada Escritura a sua origem, ou a sua semelhança, a qual se
encontra no capítulo quarto do livro do Génesis (Gn 4,24), quando Lamec diz às
suas mulheres que se Caim é vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta
vezes sete.
Lamec estabelece com estas palavras todo o mecanismo da vingança, do ódio
e da violência, num crescendo que não tem fim se não com a aniquilação total do
outro, princípio militar presente nos manuais clássicos de guerra.
A resposta de Jesus é a inversão desta lógica, pois se o espírito de
vingança vai num crescendo, como uma bola de neve, só um espírito em crescendo
de compaixão pode pôr fim à violência, pode combater este processo de vingança
e eliminação do outro. À escalada da vingança Jesus opõe a compaixão e o
perdão.
E como muitas vezes os discípulos não entendem a lógica e o pensamento de
Jesus, este apresenta-lhes a parábola do devedor a quem é perdoada uma grande
dívida; mas que não tem um final feliz, pois o beneficiado pela compaixão e
pelo perdão não sabe viver nela nem o exercer junto dos seus.
Como em todas as parábolas de Jesus há uma mensagem, uma verdade que vai
para além da simplicidade narrativa e por isso não podemos deixar de olhar
atentamente para o que o Evangelista nos apresenta da história.
Antes de mais temos de olhar o valor da dívida, uma quantia astronómica,
que não seria passível de ser liquidada nem com seis longas vidas trabalhadas
de sol a sol. Por isso podemos perguntar-nos como foi possível o senhor deixar
chegar a dívida àquele valor; mas ela apenas tem a função de espelhar a
grandeza incomensurável do perdão que vai ser concedido.
Diante desta grandeza de dívida, o pedido de tempo para pagar, por parte
do servo devedor, é puramente anedótico, inconsciente; ou se quisermos olhar
pelo prisma dos mecanismos da vingança e da mentira um mero esquema de fuga à
responsabilidade, quase um ultraje ao senhor a quem se deve.
Por isso o acto de perdão do senhor é um gesto de coerência e de verdade
diante daquele que uma vez mais o tenta ludibriar com uma promessa de
pagamento. O senhor sabe que não há forma de pagamento possível e por isso abre
o seu coração compassivo e perdoa a dívida, cujo alcance o miserável devedor
não percebe, pois no seu coração continua a funcionar o mecanismo da vingança e
da mentira. O senhor vê a armadilha em que o devedor se move, na qual está
encarcerado e por isso perdoa-lhe não só a divida como lhe dá a liberdade.
Esta sequência de actos não é, contudo, a que nos é apresentada pelo
Evangelho e pela narração da parábola, pois o que ali encontramos é que o
senhor o libertou primeiro e só depois lhe perdoou a divida.
O perdão está assim intimamente ligado à liberdade. Se o perdão acarreta
uma libertação, um desenlaçar das cadeias que aprisionam a dor e a mágoa, essa
libertação deve começar por nós próprios. Podemos dizer que se não nos
perdoamos a nós próprios jamais poderemos perdoar ao outro, se não nos
libertarmos da mágoa e da ferida jamais podermos libertar aquele que nos magoou
ou feriu. Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que este prisioneiro
somos nós próprios antes de mais.
O desejo de vingança, o ódio, o rancor, são infernos que mantém o ofensor
encarcerado em nós, nos nossos pensamentos e por isso ao libertar-nos do ódio,
do desejo de vingança, da mágoa, estamos a dar através dessa libertação o
primeiro passo para o perdão
O perdão, fundamento das relações humanas, não é assim um acto instantâneo,
nem uma manifestação de fraqueza, mas bem pelo contrário é um acto de força, de
vontade, de domínio sobre si, nos quais deve funcionar a inteligência e o
coração. Começo por me dominar a mim mesmo, liberto-me, para poder libertar o
outro e devolver-lhe a sua liberdade pessoal.
À luz das palavras da Carta aos Romanos que hoje escutámos, é
deixarmo-nos morrer no nosso orgulho ferido para vivermos para a liberdade das
relações construídas sobre a verdade das nossas fragilidades e limitações. É morrermos
para nós próprios para vivermos para Deus porque a ele pertencemos, é a Ele que
todos nós somos devedores.
O servo devedor e perdoado não percebeu nada do que lhe tinha sido
concedido, encorpou-se no seu pedido de perdão, orgulhosamente, como se o
tivesse conquistado; e sem consciência do dom recebido, vai actuar com alguém
que lhe deve de forma completamente contrária ao bem que lhe tinha sido
facultado. Ele que tinha uma divida incomensurável não é capaz de acatar o pedido
de alguém que lhe deve algo que poderia ser pago com três anos de trabalho, uma
dívida insignificante. Diante desta atitude é fácil perceber que o servo
perdoado não é capaz de conformar a sua vida com o dom recebido, mantém-se cego
no sistema de vingança.
Assim, podemos e devemos perguntar-nos se estamos dispostos a perdoar, a
libertar-nos dos desejos de vingança, do ódio e rancor, da mágoa que alguém nos
pode ter causado.
Sabemos que não é fácil, que exige tempo, boa vontade e compromisso,
implicação pessoal de todo o nosso ser, mas como nos recorda a parábola devemos
ser misericordiosos porque recebemos misericórdia, devemos ser compassivos
porque fomos objectos de compaixão. O perdão é um dom de Deus, e devemos
vivê-lo entre nós para que seja verdadeiramente activo e transformante em nós, o
que exige também o nosso esforço humano.
A parábola mostra-nos que muitas vezes é mais fácil viver encarcerados no
nosso esquema de vingança, na cobrança sem piedade, que viver como homens
livres, como nos recorda constantemente São Paulo, como homens libertados por Jesus
Cristo e pelo seu sacrifício de vida. A liberdade é verdadeiramente exigente.
Peçamos a Deus que nos envie o Espírito Santo para curar as nossas
feridas e transformá-las em compaixão, para purificar a nossa memória e nos
conceder a liberdade de espírito e a paz de coração.
Ilustração:
Claude Vignon, Parábola do Servo sem piedade. Museu de Belas Artes de
Tours.

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