domingo, 13 de setembro de 2026

Homilia Domingo XXIV do Tempo Comum - Ano A

 

Caríssimos Irmãos

Não podemos dissociar a leitura do Evangelho de hoje da leitura do Evangelho do domingo passado. Se ainda nos recordamos, Jesus convidava-nos à correção fraterna, a irmos ter com os nossos irmãos, que nos possam ter ofendido, e a recuperar junto deles a relação existente anteriormente entre nós.

É na sequência deste desafio que o discípulo Pedro pergunta a Jesus sobre o perdão, sobre quantas vezes podemos perdoar; até sete vezes? E ao estabelecer este valor, esta barreira, Pedro está já a ser generoso, amigo do ofensor, uma vez que os escribas e doutores da lei ditavam que para além de quatro vezes o perdão deixava de ter justificação e era inviável, o outro era incorrigível.

Contudo, a aritmética de Jesus não é a aritmética de Pedro nem a nossa, e por isso Jesus responde a Pedro que perdoar sete vezes não é suficiente, não tem sentido, para se perdoar deve-se perdoar até setenta vezes sete, ou seja, de uma forma incomensurável.

Para entendermos esta resposta de Jesus e a sua lógica não podemos deixar de procurar na Sagrada Escritura a sua origem, ou a sua semelhança, a qual se encontra no capítulo quarto do livro do Génesis (Gn 4,24), quando Lamec diz às suas mulheres que se Caim é vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta vezes sete.

Lamec estabelece com estas palavras todo o mecanismo da vingança, do ódio e da violência, num crescendo que não tem fim se não com a aniquilação total do outro, princípio militar presente nos manuais clássicos de guerra.

A resposta de Jesus é a inversão desta lógica, pois se o espírito de vingança vai num crescendo, como uma bola de neve, só um espírito em crescendo de compaixão pode pôr fim à violência, pode combater este processo de vingança e eliminação do outro. À escalada da vingança Jesus opõe a compaixão e o perdão.

E como muitas vezes os discípulos não entendem a lógica e o pensamento de Jesus, este apresenta-lhes a parábola do devedor a quem é perdoada uma grande dívida; mas que não tem um final feliz, pois o beneficiado pela compaixão e pelo perdão não sabe viver nela nem o exercer junto dos seus.

Como em todas as parábolas de Jesus há uma mensagem, uma verdade que vai para além da simplicidade narrativa e por isso não podemos deixar de olhar atentamente para o que o Evangelista nos apresenta da história.

Antes de mais temos de olhar o valor da dívida, uma quantia astronómica, que não seria passível de ser liquidada nem com seis longas vidas trabalhadas de sol a sol. Por isso podemos perguntar-nos como foi possível o senhor deixar chegar a dívida àquele valor; mas ela apenas tem a função de espelhar a grandeza incomensurável do perdão que vai ser concedido.

Diante desta grandeza de dívida, o pedido de tempo para pagar, por parte do servo devedor, é puramente anedótico, inconsciente; ou se quisermos olhar pelo prisma dos mecanismos da vingança e da mentira um mero esquema de fuga à responsabilidade, quase um ultraje ao senhor a quem se deve.

Por isso o acto de perdão do senhor é um gesto de coerência e de verdade diante daquele que uma vez mais o tenta ludibriar com uma promessa de pagamento. O senhor sabe que não há forma de pagamento possível e por isso abre o seu coração compassivo e perdoa a dívida, cujo alcance o miserável devedor não percebe, pois no seu coração continua a funcionar o mecanismo da vingança e da mentira. O senhor vê a armadilha em que o devedor se move, na qual está encarcerado e por isso perdoa-lhe não só a divida como lhe dá a liberdade.

Esta sequência de actos não é, contudo, a que nos é apresentada pelo Evangelho e pela narração da parábola, pois o que ali encontramos é que o senhor o libertou primeiro e só depois lhe perdoou a divida.

O perdão está assim intimamente ligado à liberdade. Se o perdão acarreta uma libertação, um desenlaçar das cadeias que aprisionam a dor e a mágoa, essa libertação deve começar por nós próprios. Podemos dizer que se não nos perdoamos a nós próprios jamais poderemos perdoar ao outro, se não nos libertarmos da mágoa e da ferida jamais podermos libertar aquele que nos magoou ou feriu. Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que este prisioneiro somos nós próprios antes de mais.

O desejo de vingança, o ódio, o rancor, são infernos que mantém o ofensor encarcerado em nós, nos nossos pensamentos e por isso ao libertar-nos do ódio, do desejo de vingança, da mágoa, estamos a dar através dessa libertação o primeiro passo para o perdão

O perdão, fundamento das relações humanas, não é assim um acto instantâneo, nem uma manifestação de fraqueza, mas bem pelo contrário é um acto de força, de vontade, de domínio sobre si, nos quais deve funcionar a inteligência e o coração. Começo por me dominar a mim mesmo, liberto-me, para poder libertar o outro e devolver-lhe a sua liberdade pessoal.

À luz das palavras da Carta aos Romanos que hoje escutámos, é deixarmo-nos morrer no nosso orgulho ferido para vivermos para a liberdade das relações construídas sobre a verdade das nossas fragilidades e limitações. É morrermos para nós próprios para vivermos para Deus porque a ele pertencemos, é a Ele que todos nós somos devedores.

O servo devedor e perdoado não percebeu nada do que lhe tinha sido concedido, encorpou-se no seu pedido de perdão, orgulhosamente, como se o tivesse conquistado; e sem consciência do dom recebido, vai actuar com alguém que lhe deve de forma completamente contrária ao bem que lhe tinha sido facultado. Ele que tinha uma divida incomensurável não é capaz de acatar o pedido de alguém que lhe deve algo que poderia ser pago com três anos de trabalho, uma dívida insignificante. Diante desta atitude é fácil perceber que o servo perdoado não é capaz de conformar a sua vida com o dom recebido, mantém-se cego no sistema de vingança.

Assim, podemos e devemos perguntar-nos se estamos dispostos a perdoar, a libertar-nos dos desejos de vingança, do ódio e rancor, da mágoa que alguém nos pode ter causado.

Sabemos que não é fácil, que exige tempo, boa vontade e compromisso, implicação pessoal de todo o nosso ser, mas como nos recorda a parábola devemos ser misericordiosos porque recebemos misericórdia, devemos ser compassivos porque fomos objectos de compaixão. O perdão é um dom de Deus, e devemos vivê-lo entre nós para que seja verdadeiramente activo e transformante em nós, o que exige também o nosso esforço humano.

A parábola mostra-nos que muitas vezes é mais fácil viver encarcerados no nosso esquema de vingança, na cobrança sem piedade, que viver como homens livres, como nos recorda constantemente São Paulo, como homens libertados por Jesus Cristo e pelo seu sacrifício de vida. A liberdade é verdadeiramente exigente.

Peçamos a Deus que nos envie o Espírito Santo para curar as nossas feridas e transformá-las em compaixão, para purificar a nossa memória e nos conceder a liberdade de espírito e a paz de coração.

 

Ilustração:

Claude Vignon, Parábola do Servo sem piedade. Museu de Belas Artes de Tours.

 

 

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