segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Frei José de Santo António (Castelo Branco)

Assento da Profissão Religiosa de frei José de Santo António, como se encontra no original:

Aos vinte e nove do mês de Junho de mil e setecentos e seis, das quatro para as cinco horas da tarde, em dia do Apostolo São Pedro, professou por filho deste Convento de São Domingos de Lisboa o Irmão frei José de Santo António, filho legítimo dos senhores Condes de Pombeiro, sendo Provincial desta Província o Muito Reverendo Padre Presentado frei Manuel de Sena e Prior deste Convento o Muito Reverendo Padre Presentado frei Rodrigo de Lancastre, em cujas mãos professou o dito frei José de Santo António; Mestre de Noviços o Padre frei Aberto de São Tomás ao qual irmão foi dito que pela profissão se obrigava a estreita obediência de nossas sagradas Constituições e Regra e que se em algum tempo se achasse que ele tinha passado alguma coisa que encontrasse a disposição que as nossas Sagradas Constituições ordenam ficaria a profissão nula, o que ele ratificou em fé do que fiz este assento, dia mês ano ut supra.
Frei Rodrigo de Lancastre, Prior
Frei Alberto de S. Tomás, Mestre de Noviços
Frei Joseph de Santo António

Homilia Domingo XXXII do Tempo Comum

Histórias estranhas as que nos apresentam a primeira leitura do Livro dos Reis e o Evangelho de São Marcos deste domingo. A uni-las não só as viúvas, essas pobres mulheres quase sem nada, mas também os homens e a postura diante da precariedade de cada uma delas, uma postura de certa forma até escandalosa.
Elias chega a Sarepta e encontra uma mulher que pouco mais tem que um resto de farinha e de azeite para se alimentar e juntamente com o filho esperar a morte. É no entanto a essa mulher prestes a experimentar a morte que Elias pede o alimento, pede o pouco que ela ainda possui, como se desejasse apressar o fim eminente e inevitável.
No templo de Jerusalém, diante da arca do tesouro, Jesus observa as esmolas que os fiéis deitam nessa mesma arca. Uns deitam bastante, parece que muito do que lhes sobra, outros deitam alguma coisa, o suficiente, mas uma viúva apresenta-se e deita as duas pequenas moedas que tem, as únicas que tem. Deita tudo. Jesus tudo observa, sem intervir, sem se manifestar, mesmo quando pouco antes tinha condenado aqueles que exploravam as viúvas com motivo de longas rezas.
Estas duas mulheres, estas pobres viúvas, são protagonistas de histórias de generosidade, dão tudo o que possuem, mas são também vítimas das exigências de um e da passividade de outro. Elias encontra-se com a viúva de Sarepta e depois de lhe pedir a água pede-lhe tudo o demais que tem. É a sua autoridade de profeta que exige e o impede de nem sequer a ajudar a recolher a pouca lenha que procurava para cozer o pão que ele pedia que lhe fizesse e desse. O profeta não só pede tudo, como se isenta de fazer alguma coisa, apenas apresenta uma promessa. Jesus, no templo, assiste a tudo e de uma forma passiva não impede que aquela pobre viúva se desfaça das duas moedas que possuía. Para alguém que criticava o templo, que um dia expulsara os vendilhões, era normal que se tivesse abeirado daquela viúva e a tivesse impedido de contribuir para afinal mais uma forma obsoleta de religiosidade. Mas nada fez, apenas assistiu a tudo permitindo que a viúva saísse mais pobre e o templo continuasse a enriquecer-se com o dinheiro dos pobres.
Nas duas histórias parece que as viúvas estão condenadas, que Deus não quer saber mesmo delas, que apesar da crítica profética e divina as viúvas foram mesmo feitas para serem exploradas. Deus parece tudo tomar e nada dar em troca.
A nossa história pessoal e de discípulos de Jesus Cristo tem muito de semelhante com a história desta viúvas, porque também a nós Deus vem pedir o que temos, o pouco que temos, mas é contudo muito porque nos garante ainda a subsistência até à morte. Como no caso da viúva de Sarepta Deus quer que lhe entreguemos o que ainda nos garante a segurança, o pouco que ainda nos possa restar, porque só na medida em que lhe entregarmos tudo, em que nos disponibilizarmos para a morte, Ele pode vir até nós na sua dádiva total.
E não é fácil esta entrega, a nossa generosidade, porque como à viúva de Sarepta o que nos é apresentado é apenas uma promessa, nada mais que isso. E ou confiamos nessa promessa e permitimos que Deus venha até nós, ou não confiamos e Deus pode passar ao nosso lado.
Elias diz à viúva, face à surpresa e ao absurdo do pedido, que não tenha medo, medo que também a nós nos paralisa e nos bloqueia a entrega total do que Deus nos pede. Porque muitas vezes, frequentemente, o que Deus nos pede não é muito do nosso património material, desse até somos capazes de nos desfazer e desprender com alguma facilidade. O que Deus nos pede é do nosso património espiritual, se assim o podemos chamar, é desse nosso narcisismo, desse nosso orgulho, da superficialidade, das nossas concepções egocêntricas que englobam o próprio Deus e a nossa relação com Ele.
Como dizia o Mestre Echkart o que Deus nos pede é que nos esvaziemos de nós próprios, dos nossos projectos, das nossas concepções, até de Deus, para que Deus possa verdadeiramente vir habitar em nós. E como isso é tão difícil, como nos custa tanto colocarmo-nos na mão do outro, dependentes, confiantes apenas numa palavra prometida. Queremos garantir o pouco, sempre um pouco que nos possa dar segurança até à morte, nem que seja a nossa imaginária fé em Deus.
E contudo, Jesus deixa-nos a promessa de que a nossa entrega total, a nossa generosidade absoluta tem uma recompensa, tem o seu olhar misericordioso, porque ele mesmo se entregou de forma total e radical para nos garantir que o cumprimento da promessa não era nenhuma ilusão.
É vã toda a segurança dos homens, canta-nos o salmista; contudo Senhor continuamos a confiar nessa segurança, continuamos a encher-nos dela, ocupando o espaço e o tempo que Vos pertence. Dá-nos Senhor um espírito de generosidade para nos irmos abandonando nas tuas mãos e à tua acção salvadora em nós. Ajuda-nos a que se cumpra em nós a tua Palavra.

domingo, 1 de novembro de 2009

Homilia Solenidade de Todos os Santos

Chegar a um sítio, para o qual se foi convidado, e deparar-se com uma multidão incontável, vinda de todos os povos e tribos, falando todas as línguas, não é muito agradável. É necessário ter um espírito muito cosmopolita e uma boa dose de à vontade para enfrentar esta multidão e sentir-se em casa e entre amigos.
Ora a leitura do livro do Apocalipse que nós escutámos nesta Festa de Todos os Santos é um convite a este espírito cosmopolita, não só para o momento do juízo final, mas sobretudo para o nosso dia a dia, para o nosso quotidiano e para a construção do reino de Deus neste mundo em que nos encontramos.
Porque de facto a grande multidão de que fala o autor do Apocalipse é a mesma multidão que povoa a terra e o mundo que habitamos, é a mesma multidão que se cruza connosco todos os dias na vida familiar, no trabalho, nos caminhos das cidades ou do campo. E como no juízo final vêm de todos os lados, falam línguas diferentes, são de povos e nações diferentes, têm outros valores, defendem outros princípios, lutam por outros direitos, podem até acreditar em um Deus outro.
Mas estão aí e como nós procuram viver a misericórdia, procuram ajudar o próximo, procuram a implantação da justiça e da paz, procuram o bem comum e a felicidade de um número cada vez maior de homens e mulheres. Podemos não acreditar, podemos até não querer, mas são bem-aventurados e para eles está também reservado o reino dos céus, a presença nessa grande assembleia que louva o Senhor.
O ancião do Apocalipse, face ao desconhecimento de João relativamente à razão da presença de tão numerosa assembleia, diz-lhe que todos aqueles que estão vestidos de túnicas brancas são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas túnicas no sangue do cordeiro. Ora o sangue do cordeiro foi derramado pela salvação dos homens, é o resultado de um crime violento contra um projecto de amor e de paz, que o Filho de Deus veio trazer aos homens seus irmãos. Desta forma todos aqueles que no seu viver se assemelham a este projecto, que derramam o seu sangue, fazem essa lavagem da sua túnica no sangue do Cordeiro e tornam-se dignos de participar na grande assembleia.
Ao falarmos de derramamento de sangue podemos limitar-nos apenas aos mártires, às vítimas mais violentas do ódio e da injustiça. Tal forma de pensar é restritiva e deixa de fora muitos outros homens e mulheres que não derramando o seu sangue, não sendo vítimas de violência, mesmo assim, não deixam de purificar a sua túnica no sangue do cordeiro.
Podemos e devemos pensar nas mães de família, nos enfermeiros e guardas prisionais, no irmão mais velho que protege o irmão mais novo, nas crianças que são deixadas abandonadas sem o carinho de um pai ou de uma mãe, podemos e devemos pensar em todos aqueles que sofrem, quer no corpo ou no espírito. Todos eles lavam as suas túnicas no sangue do Cordeiro, pois esse sangue foi derramado por todos e para salvação de todos.
Num mundo de imagens, em que uma imagem vale mais que mil palavras, esta realidade pode aparecer-nos como suspeita, como uma ilusão, como um ópio para alimentar a servidão e o sofrimento do povo. Face a essa suspeita não podemos deixar de ter presente as palavras da Carta de São João que escutámos, ou seja que neste momento ainda não se manifestou o que havemos de ser, que ainda não é visível ao nossos olhos, mas que no dia em que se manifestar veremos não só essas realidades tais como são mas também o próprio Deus tal como é.
A esperança dessa visão, e o agir de acordo com essa esperança através de gestos de bem e de verdade, leva-nos como diz São João a essa purificação. Temos já o meio da nossa purificação e por isso o importante é ir agindo, é ir realizando no mundo as acções que tornam essa purificação actuante e actual, realidade em nós e nos outros que nos rodeiam.
Celebramos hoje a festa de todos os santos, mas a verdade é que pouco lhes adianta a nossa celebração, uma vez que eles estão já purificados e contemplam a visão de Deus em toda a sua pureza. Esta celebração adianta-nos a nós, a nós que ainda caminhamos na esperança e na necessidade de nos irmos purificando através das obras de misericórdia. Os santos que celebramos, conhecidos e desconhecidos, dão-nos o exemplo de que é possível, de que está ao nosso alcance, com a graça de Deus e com a nossa esperança, esse processo de purificação para a contemplação final de Deus. Peçamos-lhes a sua intercessão para não desanimarmos e não perdermos a esperança.


Resposta a uma grata e Verdadeira Amiga

Desistir de publicar as homilias, de manter este blogue, de algumas outras coisas na minha vida presente, não foi algo que não me tenha passado já pela cabeça nestes últimos tempos. Interrogo-me sobre o sentido e a validade do que faço e do que vivo, quando a consciência nos acusa que é tudo tão superficial, tão momentâneo e tão frequentemente incoerente. Tudo tão sem sentido à luz de uns princípios dos quais já nem deles tenho qualquer certeza e por causa dos quais tenho desistido de outras coisas que me interrogam se devia desistir delas.
Não sei se devo pensar que é essa rebeldia adâmica de não nos satisfazermos em ser apenas instrumento, em querermos também para nós os louros de um trabalho que não é nosso mas é de Deus. Porque de facto se alguma coisa do que faço e escrevo está impregnado de profundidade, se adapta à sua realidade e a ajuda a gerar o silêncio de que necessita, não é da minha responsabilidade mas de Deus que ainda se vai servindo de mim para miseravelmente e através desta aridez em que me encontro fazer algum bem nos outros. Mas até quando…?

domingo, 18 de outubro de 2009

Homilia Domingo XXIX do Tempo Comum

Tiago e João foram pedir ao Senhor que lhes concedesse sentarem-se à sua direita e à sua esquerda. Foi um pedido bastante ousado e por isso criticado pelos demais discípulos, pois também eles aspiravam no seu intimo aos mesmos lugares, fazer o mesmo pedido ao Senhor Jesus.
Mas se para os outros discípulos foi um pedido que não os deixou indiferentes, também a nós não nos devia deixar indiferentes, porque afinal todos aspiramos ao mesmo, no fundo todos acalentamos o mesmo desejo de glória e poder, e por isso o pedido de João e Tiago devia provocar-nos tanto como provocou os demais discípulos. Queremos ou não sentar-nos à direita e à esquerda de Jesus no seu reino de glória?
Não podemos deixar de assumir que todos, qualquer um de nós, aspiramos aos melhores lugares. Está-nos, como se diz, na massa do sangue e podemos confirmar esta afirmação se tivermos em conta como nos comportamos numa realidade tão simples e tão banal como é o cinema. Não queremos nem a primeira fila nem a última e se for possível que o vendedor nos consiga queremos um lugarzinho ali pelo centro da sala, onde podemos visionar o filme com maior conforto. Afinal desejamos sentar-nos à direita ou à esquerda, desejamos o melhor lugar.
Por esta razão, porque de facto é da nossa natureza e pode levar-nos a um bom porto, Jesus não repreende nem recrimina os discípulos pelo pedido que lhe fazem. É como se fosse verdadeiramente natural que eles quisessem aqueles lugares, que aspirassem a eles. Contudo, aceder a eles, a qualquer lugar no Reino dos Céus é consequência de um conjunto de condições prévias, de um compromisso que Jesus traduz em beber o cálice que Ele mesmo vai beber.
Perante a interrogação da possibilidade de assumirem ou não essas condições Tiago e João respondem positivamente e Jesus corrobora essa resposta dizendo que eles de facto beberão do mesmo cálice que Ele beberá. Este diálogo mostra-nos a real possibilidade de respondermos ao seguimento de Jesus, à sua possibilidade na nossa vida. É de facto possível, mas para tal temos que confrontar a nossa vida, os nossos gestos quotidianos com a vida de Jesus, a vida verdadeira de Jesus.
E aqui, nesta confrontação, podemos cair em duas tentações, uma primeira que tende a ver no serviço, na generosidade, na nossa acção activa e participativa a forma concreta do seguimento de Jesus. A outra tentação tende a ver em tudo o que acontece a presença de Deus, a actividade de Deus, um certo fatalismo divino que nos deixa muito tranquilos porque Deus afinal cuida de tudo e não nos abandonará.
Mas o seguimento de Jesus é muito mais que estas duas possibilidades, ultrapassa-as em exigência e profundidade. O seguimento de Jesus é esse serviço ao outro que não fica apenas pelo serviço mas que vai até à entrega em resgate, pela redenção. No serviço, na disponibilidade para servir o outro, para o ajudar nas suas necessidades, há uma parte de nós próprios que permanece, que não é entregue. Continuamos ainda senhores de qualquer coisa nossa, como seja a possibilidade de colocar fim à mesma entrega e serviço. Continuamos ainda donos e senhores.
Isto é visível de uma forma transparente nos leigos e grupos que fazem voluntariado missionário. Todos eles entregam um pouco da sua vida, da sua pessoa, do seu projecto aos outros, ao serviço dos outros. Contudo é sempre um tempo limitado, um período da vida, um momento, que não permite a experiência do dom total porque há sempre um poder de retirada, de salvaguarda. Com isto, não quero criticar de forma alguma estes grupos e estas pessoas, bem pelo contrário, quem dera que houvesse muito mais. Ao referi-las aqui e neste dia das missões é apenas com o intuito de exemplificar a limitação que pode acontecer no serviço que pretendemos considerar como seguimento de Jesus.
Porque quando Jesus fala do serviço a que nos convida, fala imediatamente de doação de vida, de entrega total e sem limites. Para ele esse é verdadeiramente o único serviço no contexto do Reino dos Céus. E isto é assim porque no contexto do serviço com doação de vida o que é nosso deixa de o ser, até mesmo a nossa vontade e disponibilidade. Como num resgate somos a moeda de troca, aquela realidade que pode resgatar o outro da situação em que se encontra, seja ela de violência, de fome ou miséria, ou de pecado. E neste estado e contexto já não somos nada, já não temos qualquer poder, são os outros que decidem sobre nós e a nossa vida e serviço.
Os milhares de religiosos e religiosas missionárias que entregam as suas vidas à missão nos diversos países são a expressão, ou a tentativa de expressão, desta realidade do serviço doação no seguimento de Jesus. Eles não têm um prazo de serviço, nem vão ou estão porque querem acrescentar alguma coisa ao seu curriculum, ou querem ter uma experiência radical para recordarem e mais tarde contarem aos netos. Eles doaram a sua vida, e não propositadamente à missão, mas a alguém que os leva a essa missão, a alguém pelo qual estão com os pobres e os marginalizados porque neles revêem aquele a quem se entregaram.
Não podemos deixar de dizer que tudo isto não é mais que um negócio de amor, um grande negócio de amor, uma teia negocial que se vai tecendo e vai crescendo à medida que a entrega é cada vez maior e mais radical, mais despojada de qualquer compensação, até espiritual.
Todos nós ficámos de alguma forma chocados quando ouvimos nas notícias que a Madre Teresa de Calcutá tinha passado por momentos de dúvida, de nocturna aridez espiritual. Contudo, e apesar disso ela não abandonou a sua missão, o seu serviço, manteve-se firme e constante porque a sua entrega e o seu serviço não era limitado, não tinha barreiras, nem na sua própria satisfação espiritual. Ela estava ali com os pobres, pobres a quem se entregava como resgate para os libertar da sua condição e miséria, e isso é que era importante, isso é que era irrenunciável.
Nela e na sua vida, e à semelhança e continuidade de Jesus, vemos as palavras do profeta Isaías, essas palavras que nos garantem que o servo esmagado pelo sofrimento, a partir do momento em que se entrega e oferece como resgate verá a luz e será saciado da sabedoria, encontrará a justificação para si e para os demais.
Peçamos ao Senhor que nos continue a dar o desejo de nos sentarmos no seu reino, que nos continue a dar forças para nos libertarmos das nossas possessões e o servirmos em radical entrega.

domingo, 11 de outubro de 2009

Homilia Domingo XXVIII do Tempo Comum

Este encontro do jovem rico com Jesus que acabámos de escutar é dos trechos mais tocantes do Evangelho de São Marcos. É um texto que por mais que o leiamos não deixa de nos surpreender, de nos interrogar, de nos colocar na pele daquele jovem que corre a lançar-se aos pés de Jesus. Por esta razão tem sido lido e é de facto um dos textos evangélicos mais vocacionais, um texto que nos interroga a todos, seja qual a seja a nossa condição e vocação, sobre o seguimento de Jesus.
Neste sentido, temos que ter presente que desde o primeiro momento do relato, da história, o autor do texto coloca o acento na pessoa de Jesus. Jesus está de partida e é nesse momento que o jovem vem, se lança aos pés de Jesus, e o interroga, nomeando-o desde o primeiro momento como bom e como mestre. Podemos ver nestes elementos a referência à partida de Jesus deste mundo e ao compromisso que cada um é chamado a viver face ao encontro e à descoberta daquele mestre que é bom.
Face ao tratamento recebido da parte do jovem, Jesus responde-lhe remetendo a bondade para Deus, porque só Deus é verdadeiramente bom. Contudo, ao fazê-lo, Jesus não está só a falar de Deus, do Pai, está também a remeter o jovem para o fundo mais profundo da sua busca. A interrogação do jovem denota uma busca de sentido para a vida, para o cumprimento dos mandamentos aos quais era fiel. Afinal de contas o que o jovem verdadeiramente busca é a Deus, o Deus que os mandamentos ainda não lhe tinham possibilitado conhecer. Os mandamentos e o seu cumprimento eram insuficientes.
A resposta que o jovem procura é dada por Jesus, com o olhar de ternura e amor com que o olha. É pena que a tradução do nosso Leccionário use a palavra simpatia para descrever a forma como Jesus olhou o jovem, porque o olhar de Jesus foi muito mais forte, foi de verdadeiro amor, paixão, podemos dizer de encantamento. É um olhar que não é de satisfação ou simpatia por ter diante dele um verdadeiro cumpridor dos mandamentos, mas por ter alguém que busca para além do cumprimento dos mandamentos, alguém que aspira a mais do que vive zelosamente.
E o desastre deste jovem é que não tenha cruzado o seu olhar com o olhar de Jesus, que se tenha deixado ficar apenas pelas palavras exigentes de Jesus de se desprender de tudo o que tinha e que o seguisse na pobreza e não tivesse visto o amor com Jesus o olhava e o esperava disponível e pobre.
Com a retirada entristecida do jovem, o autor do Evangelho mostra-nos imediatamente que Jesus não falava apenas para aquele jovem, que as suas palavras se dirigiam também aos discípulos que assistiam a toda a cena. Uma vez mais Jesus confronta aqueles que o seguem com as suas aspirações e desejos de poder e glória. Uma vez mais Jesus coloca em questão a fidelidade que lhe devotavam, uma fidelidade que não pode estar dependente de compensações, de retribuições, fundada em cumprimentos escrupulosos, mas que tem que estar fundada e radicada no amor, naquele olhar de encantamento que os fez um dia abandonar tudo e segui-lo.
A resposta de Jesus ao jovem rico mostra-lhe, bem como a nós e aos seus discípulos, que no seguimento de Jesus, na resposta ao chamamento de Deus, não conta muito a quantidade, não há necessidade de mais mandamentos ou formas escrupulosas de cumprimento, bem pelo contrário há uma necessidade de simplicidade, de um abandono confiante na palavra de Deus, há uma necessidade de pobreza natural para que o seguimento seja efectivo e verdadeiro.
À luz das palavras de Jesus a pobreza não conta por si mesma, não vale por si mesma, ela é apenas válida e deve apenas ser vivida na medida em que Jesus Cristo é o centro da vida e portanto há necessidade de nos esvaziarmos de nós, das nossas coisas, das nossas riquezas para que Ele possa estar e habitar connosco.
Um dominicano do século XIV, o Mestre Eckhart, diz que a possibilidade da habitação de Deus em nós, do nosso conhecimento de Deus, é equivalente à nossa pobreza, neste sentido de capacidade de nos desprendermos de tudo, desde o material às concepções mentais do próprio Deus. Só na medida em que nos esvaziarmos de tudo, na medida em que formos verdadeiramente pobres, Deus se poderá dar a conhecer.
A pobreza evangélica tem assim uma dimensão positiva, libertadora, eleva e disponibiliza para o acolhimento das realidades escondidas do Reino de Deus. Se não for assim, se tiver uma dimensão negativa e restritiva, a pobreza que vivamos não será evangélica nem nos possibilitará o encontro com Deus.
Neste sentido, escolher cristãmente a pobreza é escolher e optar por meios que nos possibilitem uma comunhão mais íntima com Deus, é participar dessa sabedoria de que fala a primeira leitura.
Neste domingo em que o Senhor nos convida a segui-lo livres de tudo, pobres, saibamos libertar-nos do que nos impede de cruzarmos o nosso olhar com o seu olhar de amor.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O Rosário e os Dominicanos - I

É comum quando se fala do Rosário da Virgem Santa Maria relacioná-lo com os dominicanos e mais precisamente com São Domingos. A tradição diz-nos que foi São Domingos que fundou o Rosário.
Para uma verdadeira compreensão e um debate sério sobre esta matéria, que já foi alvo de grandes discussões, temos que temos presente que não se pode fazer tal debate se não fizermos a separação do que é tradição, com o que ela comporta de lenda, do que é a história que se documenta em Bulas papais, diplomas e outros textos oficiais da Igreja e mesmo da própria Ordem.
No que diz respeito à tradição, e salientando uma vez mais que não se deve confundir com a lenda que é uma coisa diferente, é inegável que no século XV existia já uma tradição que atribuía as origens do Rosário a São Domingos. É uma verdade assumida por todos, desde o simples povo analfabeto aos intelectuais, e ninguém colocava essa tradição em causa. A lenda tinha-se de tal modo misturado com a tradição no decorrer dos séculos que era impossível fazer a destrinça de uma e de outra.
Para nós a realidade é bem diferente, pois também os métodos de investigação histórica são outros e permitem por isso outras abordagens e outras buscas da verdade. Neste sentido, temos que ter presente, antes de mais, que o Rosário como todas as devoções se elaborou lentamente, sofreu um processo evolutivo que permitiu o aparecimento daquilo que hoje conhecemos e identificamos como Rosário. Não podemos exigir a formação integral do Rosário desde o primeiro momento em que se fala dele, assim como não podemos pensar que São Domingos o recebeu da Virgem Maria e o rezava da mesma forma como hoje o rezamos. Temos assim que admitir que há uma certa origem obscura, uma evolução hesitante e criativa até ao fruto madura e consistente que no século XV já estava disseminado por toda a Europa.
No que diz respeito à relação do Rosário com São Domingos temos que assumir que os seus contemporâneos e testemunhas do seu processo de canonização, bem como os primeiros escritores da Ordem, não mencionam o Rosário como uma das devoções da Ordem. Pelo contrário o seu grande interesse é mostrar e transmitir as origens da Ordem e da sua consolidação como estrutura da Igreja. E ainda que falem da oração de Domingos e dos primeiros irmãos fazem-no sempre no sentido da disciplina e da austeridade que existia então.
O Rosário quando aparece referido pela tradição aparece sempre referido não no âmbito da oração, mas sim da pregação, dizendo-nos que São Domingos se servia do Rosário como método para chegar com o seu ensinamento aos cátaros e albigenses. A oração e o ensino partilhavam o mesmo objecto, a mesma forma.
Perante estes dados, temos que ter presente que o Rosário desde o princípio era uma oração individual, não oficial, e presente em quase todos os meios monásticos e religiosos. As regras monásticas determinavam as grandes linhas da Liturgia comunitária mas deixavam para a devoção particular e individual alguns costumes e tradições que depois acabaram por enquadrar a observância regular. A cada individuo era deixada a liberdade para buscar e seguir a forma mais pessoal de desenvolver a sua vida espiritual.
Com os dominicanos também assim acontecia, pelo que podemos ver nas Constituições primitivas, que eram breves e sucintas, redigidas segundo o modelo primitivo da Regra de Santo Agostinho, que a Liturgia comum ocupava um grande espaço e estava bem determinada, mas as devoções particulares não têm qualquer lugar. O Rosário era assim uma devoção particular e individual que o tempo e a história assimilaram até o encontrarmos já plena e completamente definido e assumido no século XV. Podemos dizer que a Ordem de São Domingos foi o seu berço e nela se desenvolveu até à plenitude.