sexta-feira, 7 de maio de 2010

Navarrete - Santo Domingo da Calçada

Hoje fiz duas etapas, pois com o que adiantei ontem hoje foi possivel chegar aqui, ainda que com os pés bastante doridos, pois foram muito quilómetros e por vezes por caminho de muita lama.
Depois das rotinas habituais a celebraçäo da Eucaristia, e hoje de modo muito especial pois como se celebra aqui a festa do santo padroeiro tivemos sermäo e missa cantada. No final uma grande surpresa, descobrir que a catedral tem um altar dedicado a um mártir dominicano, frei Jerónimo Hermosilla, bispo mártir no Vietname.
O caminho à chuva e na solidäo deu para rezar e pensar em Deus.
Foi um dia cansativo, mas muito bom.

Torres del Rio - Navarrete

Uma etapa mais em que a chuva e o frio näo nos deixou. Depois uma grande cidade, Logroño, onde apenas parei para procurar os correios e visitar as igrejas, algumas delas bem bonitas.
Depois a caminhada continuou até Navarrete onde dormi e onde uma vez mais celebrei com o pároco da terra. Näo sendo uma celebraçäo fora do normal tocou-me a simpatia e a amabilidade de D. Félix. No final um jantar com os espanhóis que me convidaram como o "cura" do Caminho e portanto näo me deixaram contribuir para a despesa comum.
Foi um dia agradável , ainda que cansativo pois fui muito para além do que tinha previsto. Uma tentativa de ganhar tempo.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estella - Torres del Rio Quinta Etapa

O frio fez questão de continuar a acompanhar-nos, e para além dele o vento, um vento forte que não só nos enchia ainda mais de frio mas nos dificultava a caminhada.
Apesar disso foi uma caminhada agradável pois caminhámos por entre cearas de trigo verde, ondeadas pelo vento, lembrando ondas de um mar verde.
Foi um tempo longo sem aldeias nem povoados o que nos possibilitou a interiorização de tudo o que viamos e viviamos. Foi um tempo para louvar a Deus por tanta beleza, por uma obra da criação tão bela.
Tinha planeado terminar a etapa em Los Arcos, mas ao chegar ali e ao ver o alberue cheio, amontoado de gente, decidi continuar até Torres del Rio, onde estou agora. Por causa desta opção cheguei mais tarde e não pude descansar muito durante a tarde.
Celebrei a Eucaristia na igreja do sepulcro, antiga igreja dos templários, e um simbolo do Caminho. Um grupo de espanhóis que está até em outro albergue convidou-me para jantar com eles, um "caldo de hajo" para retemperar as forças. Vou agora ter com eles porque depois necessito descansar destes quilómetros a mais que os planeados.
Ao terminar dou graças a Deus por tudo o recebido hoje. Louvaod sejas meu bom Jesus.

Puente la Reina - Estella Quarta Etapa

Fazer a opção por um albergue paroquial tem as suas coisas positivas mas também negativas. Numa época de comunicação não ter internet é um desvalor, uma realidade que nos impossibilita de comunicar como aconteceu ontem. Assim, apenas hoje posso fazer o relato do dia e etapa.
Foi um dia de chuva e frio, uma chuva que nos acomapnhou todo o dia e um frio que nos obrigou a procurar roupa mais quente. Ninguem, ou quase ninguem vinha preparado para este tempo de inverno. Sobre o nosso corpo sentiamos os pequenos flocos de gelo que ao longe cobriram os picos de branco.
Em Estella o encontro com mais um convento dominicano, um convento que hoje é um lar para a terceira idade, mas que ainda mostra o que foi a sua importância e grandeza, foi uma alegria e poder tirar uma foto do claustro deixou-me satisfeito.
Mas o Caminho tem rotinas, rotinas que tantas vezes tentamos deixar para trás mas o Caminho nos trás ao presente. Assim em cada partida e em cada chegada encontramo-nos com o ritual de desfazer a mochila e de  voltar a fazer, de arrumar o saco cama e de lavar a roupa que usámos durante o dia na caminhada. São rituais imprescindiveis e impossiveis de contornar. Outro é o da alimentação que temos que buscar ou preparar. Em Estella salvaram-nos neste aspecto a caridade de dois voluntários que prepararam um jantar para todos os ocupantes, um "puchero" como lhe chamam, que nos aqueceu o coração e o corpo.
Ao final do dia a celebração da Eucaristia com o pároco na igreja de São Miguel. E uma vez mais a presença do hábito dominicano e os comentários sobre os tempos idos em que ainda ali havia dominicanos. Há quanto tempo não viam um hábito branco...
Que fizemos da nossa pregação itinerante? Em que espaços nos encerrámos tão distantes que já quase ninguem nos vê? Nascemos em Pamplona, em Estella e em tantos outros pontos do Caminho para assistir aos peregrinos, aos que cruzavam as rotas com ideias e necessidades fisicas e espirituais. Necessitamos encontrar os nossos caminhos de hoje.
Que o Senhor nos ajude.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Pamplona-Puente la Reina Etapa Terceira

Eis que já estamos em Puente la Reina, mas para chegar aqui desde Pamplona há que atravessar o Alto del Perdón. É um monte até não muito alto, mas o nome parece significar a dificuldade que é inerente à realidade.
É dificil perdoar como é dificil subir ao alto do monte e depois descer. Para o salvarmos temos que parar várias vezes, respirar fundo, controlar as emoções e as dores musculares e depois retomar a caminhada até ao alto. É assim o perdão, algo a exigir sempre algo mais de nós.
No cimo do monte um monumento simples de ferro diz-nos que ali o caminho do vento se cruza com o caminho das estrelas. Hoje cruzava-se com o caminho de vários peregrinos que ao momento ali retiraravam alguma da magia do momento e do lugar. Salvou-nos a passagem por ali uma surrapa de café que alguém inteligente decidiu ir para ali vender, para aquele alto ventoso e frio, e que nos aqueceu o coração e o estômago.
Descendo já do monte e pouco antes de Puente la Reina, um desvio de alguns quilómetros, o corpo ainda o permite, para visitar a ermida de Eunate, um templo octogonal construido pelos templários à senelhança da igreja do santo sepulcro em Jerusalém. Infelizmente, é segunda-feira, estava fechada e por isso apenas pudemos ver por fora, mas valeu a pena.
Aqui em Puente la Reina uma cidade construida especialmente para o Caminho, onde a ponte é ponto incontornável de referência, vários encontros no albergue. Estamos aqui alemães, franceses, eslovenos, brasileiros, espanhóis e não sei mais...
Agora vou tentar celebrar a eucaristia na igreja da Santiago. Amanhã iremos até Estella se Deus quiser.

domingo, 2 de maio de 2010

Larrasoaña-Pamplona Etapa Segunda

Estamos de volta a Pamplona, onde terminamos a segunda etapa deste Caminho de Santiago. Foi uma manhã explendorosa, pois já não apanhámos chuva, ainda que a temperatura tenha baixaido muitissimo e sintamos o frio que ameça neve, e porque pudemos durante quase toda a manhã caminhar ao longo do rio Arga.
Assim, aos nossos passos e à beleza da verdura juntou-se o murmurar da água que corria no rio, uma água que nos recordava como a fonte que nos sacia a sede está mesmo à mão de semear, como ela nos convida cada dia a matarmos a nossa sede nela.
A entrada em Pamplona foi feita na companhia de dois brasileiros que seguiram para a próxima paragem, quiseram adiantar alguns quilómetros à etapa de amanhã que é dolorosa pois todos temos que subir ao Alto del Perdon para poder chegar a Puente la Reina. Eu fiquei aqui, no convento de Santiago, um convento dominicano que me surpreendeu pela beleza e grandeza da igreja.
Foi um convento construido no Caminho, aproveitando uma ermida de Santiago, patrono da igreja e por isso do convento. Diz a tradição, oral, que foi fundado por Juan de Navarra, aquele mesmo que no momento da dispersão dos frades por São Domingos se recusou a partir sem levar dinheiro. Foi construido no lugar onde hoje se encontra o Palácio Consistoral, ou seja em pleno caminho pela cidade e ponto importante de concentração das gentes. Por esta razão, e querendo dotar a cidade de um simbolo de poder Fernando de Aragão, marido de Isabel a Católica, pediu aquele convento aos frades e ofereceu-lhes um terreno nas traseiras do antigo, junto do palácio real. A construção desenvolveu-se e assim nos finais do século XVI encontra-se já um convento maravilhoso, grandioso, com uma igreja gótica, arquitectada parece que pelo mesmo arquitecto que desenhou San Esteban de Salamanca, um claustro maneirista grandioso e pouco depois com aquela que foi a primeira universidade de Navarra. Depois das vicissitudes da exclaustração resta hoje escondida no meio do casario a igreja imponente e num aproveitamento para os serviços administrativos locais o claustro maneirista.
Terminada a caminhada e celebrada a Eucaristia aproveitei para descansar um pouco pois os quarenta quilómetros que já fiz começam a fazer-se sentir nos pés e nas pernas. Amanhã vai ser um dia duro e não se estando em grande forma é ainda mais duro.
Não posso deixar de referir, antes de terminar, que a celebração da Eucaristia ontem no albergue correu muito bem. Alguns peregrinos participaram e depois disso houve mesmo um ou outro que me perguntou se os podia confessar. Também aqui a nossa missão se cumpre. Uma vez mais foi também um momento para partilhar as nossas origens e caminhos pessoais e assim estávamos juntos franceses, espanhóis, italianos, holandeses, brasileiros e até um iraniano.
São Tiago e o Caminho juntou-nos a todos, junta-nos e faz-nos parte uns dos outros.

sábado, 1 de maio de 2010

Roncesvalles-Larrasoaña Etapa Primeira

Já estamos em Larazoana depois de perto de trinta quilómetros percuridos. Saimos cedo de Roncesvalles, eram sete da manhã e chegámos aqui perto da hora de almoço. Na entrada no albergue já uma fila mas ainda assim não fomos dos que chegámos mais tarde.
Ontem à noite em Roncesvalles celebrámos com os peregrinos, para cima de duzentos. Hoje pelo caminho e nos encontros das passagens e ultrapassagens alguns foram-me perguntando se eu não era o padre que estava de botas de caminhada. Chamou-lhes a atenção um padre jovem e de botas. Não é habitual nem aqui no Caminho. Hoje vou celebrar aqui no albergue, não há missa no povo e assim celebrarei apenas aqui para os peregrinos que quiserem participar.
O percurso até aqui foi maravilhoso. Saímos de Roncesvalles com nevoeiro e chuva, depois de uma noite de chuva intensa e forte. No entanto esta chuva e este tempo trouxe ao percurso uma dimensão mágica, porque entre os montes e a floresta verde parecia que estavámos em outro mundo, ou pelo menos na criação de um mundo novo e belo. Mas também neste mundo a morte está presente e assim no alto de um monte um monumento a um japonês com 64 anos que morreu ali ao fazer o Caminho.
A chuva e a solidão,apesar dos encontros, permitiu-me rezar durante a manhã, por mim e por todos aqueles que se encomendaram às minhas orações.
Depois da caminhada é agora tempo de descansar, pois os pés já doiem um pouco e recuperar forças para amanhã fazer o percurso até Pamplona.
Se Deus permitir darei notícias.
A Deus dou graças por ter chegado aqui sem qualquer problema de maior.
Louvaod seja o Senhor que nos amou e nos ama em cada irmão e obra da natureza.