quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não sabemos o que está a dizer (Jo 16,18)

As palavras de Jesus nem sempre foram claras para os discípulos, bem pelo contrário, muitas vezes deixaram-nos à beira do desespero da incompreensão, e quando Jesus fala do mistério da sua morte e ressurreição, do seu regresso ao Pai e do envio do Espírito Santo, esse desespero e incompreensão são ainda mais evidentes.
A última ceia e o discurso da despedida de Jesus é por demais o acontecimento em que as palavras de Jesus adquirem uma dimensão misteriosa inexplicável. Ainda que num contexto de ceia e celebração tudo aponta para outras realidades, e algumas delas muito dolorosas, como a paixão e a morte, enquanto que outras são completamente desconhecidas, como o Espírito Santo.
À questão e murmuração dos discípulos sobre a incompreensão face ao proferido, Jesus responde revelando a necessidade de ultrapassar a prova que se apresenta imediata e quase visível, a paixão e o sofrimento da morte. Só a passagem pelas lágrimas e pelo lamento permitirá o encontro verdadeiro com a alegria da Ressurreição.
Será necessário perder Jesus, perder a forma como estão relacionados com ele nas expectativas que criaram, para se encontrarem verdadeiramente com ele, para se encontrarem com aquele que vive eternamente e por isso é ressuscitado, e com o seu espírito que vivifica.
Será necessário passar o mar do absurdo e da incompreensão do sofrimento e da morte daquele de quem tudo esperam para se encontrarem com aquele que afinal dá sentido a tudo, para se encontrarem com aquele que nesse mar é a barca que nos leva e portanto nos protege e guarda.
Também nós na nossa vida muitas vezes nos encontramos com a incompreensão daquilo que Deus nos está a dizer e a pedir. Custa-nos aceitar perder, dar o que afinal não é nosso, sair do nosso mundo e da nossa protecção e enfrentar o mar da confiança e da fé no qual não se vislumbra a margem ou a barca.
Nesses momentos temos que acolher as palavras de Jesus “não se perturbe o vosso coração”, “tende fé”, porque eu venci o mundo. Aumenta Senhor a minha fé, para avançar no mar e na noite, e gozar da alegria da vida após a passagem e a batalha.

Ilustração: Subida para o Alto de Erro. Caminho de Santiago. 1 de Maio de 2010.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Tenho ainda muitas coisas para vos dizer (Jo 16,12)

Jesus conhecia os seus discípulos, tal como Deus conhece os homens, obra das suas mãos, e por isso no momento da despedida diz-lhes que tem ainda muitas coisas para lhes dizer apesar de não as compreenderem por enquanto.
Será necessário que venha o Espírito da Verdade para que não só compreendam o que já lhes foi dito e não compreenderam, mas para que possam ter uma plena compreensão do que lhes vai ser dito pelos acontecimentos da paixão.
Será o Espírito que os guiará, que os iluminará na compreensão de todas as palavras e gestos, no sentido da paixão e da morte do Mestre, será o Espírito que os instruirá na complexidade das Escrituras e no seu cumprimento em Jesus.
Face a esta promessa, e aviso de Jesus, temos que ter presente que os discípulos de Jesus Cristo não são aqueles que sabem tudo, que têm o conhecimento de toda a verdade, ou que sabem melhor que os outros, que têm um conhecimento especial.
A promessa de Jesus do envio do Espírito Santo é a confirmação e o desafio de que ser discípulo é colocar-se em situação de busca, de procura, de partilhar um processo que se vai desenvolvendo e construindo.
Ser discípulo de Jesus Cristo é saber-se num processo de amor, numa relação de amor, porque o amor impele à descoberta, não está satisfeito, nem se contenta com o garantido, procura sempre um pouco mais. O amor coloca-nos em caminho de encontro e de descoberta.
E uma vez mais fazendo referência a Santa Catarina de Sena, não podemos deixar de sentir que quanto mais aprofundo no conhecimento de Jesus Cristo mais sinto necessidade de continuar a aprofundar, de mergulhar mais fundo nem oceano em que nos perdemos e nos encontramos.
Neste sentido, procurar, perder, reencontrar e voltar a perder para reencontrar de novo é o mais natural no seguimento de Jesus, na busca da compreensão do seu mistério e do amor a que somos convidados a viver.
Como as crianças, que tantas vezes nos desesperam porque nos interrogam sobre o porquê disto e daquilo, também nós somos convidados por Jesus a perguntar, a buscar, a encontrar a resposta que o Espírito nos dará. Nada é tão inviabilizador de qualquer conhecimento, e sobretudo do conhecimento da verdade, como dá-lo por adquirido, completo e definitivo.
Que o amor, que sempre busca mais, deseja mais, nos impulsione na busca da verdade de Jesus Cristo, que como as crianças e os enamorados gostam de se esconder para serem procurados com mais desejo.

Ilustração: Cúpula da igreja do Santo Sepulcro em Torres del Rio. Caminho de Santiago. 5 de Maio de 2010.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ninguém me pergunta “para onde vais”! (Jo 16,5)

Depois de tantas confusões, de tantas outras perguntas, Jesus confronta agora os discípulos com o silêncio a que se remeteram, um silêncio que denuncia um desalento, uma incompreensão, uma desorientação face ao futuro e às expectativas.
Pedro já antes tinha perguntado a Jesus para onde ia (Jo, 13,16) e Tomé tinha deixado essa questão subjacente quando tinha dito a Jesus que não sabiam para onde ia como poderiam saber o caminho (Jo 14,5).
Contudo, agora que Jesus lhes diz que terão que sofrer perseguições, que serão expulsos das sinagogas e que ele regressa àquele que o enviou, nenhum deles tem a coragem e a ousadia de lhe perguntar para onde vais.
É como se houvesse um desinteresse, como se uma frustração tremenda se tivesse abatido sobre eles, pois aquilo pelo qual tinham esperado parecia que se esvanecia no horizonte, tudo se conformava para algo totalmente diferente. Como nos diz São João, o coração encheu-se-lhes de tristeza.
Estas questões e este silêncio revelam no entanto a complexidade do discurso de despedida de Jesus, a incompreensão por parte dos discípulos face ao que Jesus lhes anunciava e se perspectivava. De facto era algo totalmente novo, uma verdadeira revolução para a qual eles não estavam ainda preparados, e que os ultrapassava na sua compreensão.
Mas, e como Jesus diz, é necessário que ele parta, é necessário regressar ao Pai, e sobretudo é necessário que os discípulos compreendam que isso não significa uma perda mas pelo contrário a oportunidade e a possibilidade de verdadeiramente o compreenderem.
De o compreenderem no mistério da encarnação e na sua divindade, do que tinham vivido com ele durante aquele tempo de tantas expectativas, mas sobretudo de o compreenderem no sentido da desapropriação, no sentido de um relação completamente livre e que pode ser estabelecida em qualquer lugar, em qualquer momento e em qualquer circunstância.
A proposta de Jesus é a do afastamento da idolatria da sua pessoa, porque, ainda que Deus, é o seu Pai e nosso Pai que deve ser adorado, foi dele que procedeu e é a ele que regressa para que todos possamos regressar também. Jesus é a imagem do Pai, a manifestação salvadora do Pai.
Neste sentido, a resposta que tinha dado a Tomé “eu sou o caminho, a verdade e a vida”, revela-nos e convoca-nos a uma relação fundamental com o Pai, pois Jesus tudo aponta e encaminha para o Pai. A sua vida e tudo o que ensinou aos discípulos são apenas uma forma exemplar de como estabelecer essa relação.
Arrisquemos pois seguir Jesus na relação que ele estabeleceu com o Pai, uma relação que como nos ensinou é filial, funda-se no amor mútuo.

Ilustração: Cruzeiro junto ao Arroyo de Sambol, entre Hornillos del Camino e Hontanas. Caminho de Santiago. 11 de Maio de 2010.

Notícia no jornal “A Época” da ordenação episcopal de Frei Domingos Maria Frutuoso

Prosseguindo a divulgação do espólio documental relativo à história da Província de Portugal da Ordem dos Pregadores apresentamos a notícia, que saiu no dia 28 de Dezembro de 1920 no jornal “A Época”, da Sagração Episcopal de frei Domingos Maria Frutuoso, ocorrida na véspera, 27 de Dezembro, na Basílica da Estrela em Lisboa.

O novo Bispo de Portalegre
Na sumptuosa Basílica da Estrela recebeu ontem a sagração episcopal o Reverendíssimo Senhor Dom Domingos Marias Frutuoso, novo Bispo de Portalegre.
Foi uma solenidade imponentíssima, com toda a impressiva e grandiosa majestade da litúrgica católica. O Reverendíssimo Senhor Dom Domingos Maria Frutuoso é um dos mais ilustres e ilustrados membros do clero português.
É bastante conhecida a sua biografia, para que nos detenhamos a relatá-la pormenorizadamente. Todos os católicos portugueses o conhecem, senão pessoalmente, pelo menos através do seu justo renome de pregador esclarecido e eloquente, digno continuador das tradições da ordem dominicana.
É um espírito culto de uma segura doutrinação, sabedor como poucos de filosofia, apologética e teologia e um orientador de consciências cheio de um zelo e prudência apostólicos.
A elevação à dignidade episcopal representa sempre um pesado múnus, pleno de responsabilidades, como o definiu o Apóstolo na sua epístola imortal, mas nos tempos presentes, em que a anarquia das ideias desorienta as almas e a incerteza dos tempos não deixa prever o dia de amanha, chega a representar um sacrifício.
Por isso A Época, prestando a Sua Excelência Reverendíssima a homenagem do seu respeito, pede a Deus que lhe conceda as luzes necessárias para que o novo Prelado plenamente possa vencer todas as dificuldades que no seu caminho se lhe hão-de certamente deparar.
Sua Excelência Reverendíssima nasceu em 13 de Fevereiro de 1867, de família exemplarmente cristã, que cristãmente o educou. Em 1878 entrou no seminário de Santarém, onde longo revelou invulgares dotes de inteligência e uma grane docilidade e vontade de aprender.
No fim do curso mereceu ser elevado pelos seus superiores ao cargo de prefeito e professor, demonstrando logo as suas grandes qualidades de educador.
Em 1893 foi para França, onde cursou a Universidade de Toulouse, com aproveitado luzimento. De lá veio em 1897 para a Casa do Corpo Santo, em Lisboa, aonde a Santa Sé o foi buscar para lhe confiar a diocese de Portalegre.
Sua Excelência Reverendíssima é cavaleiro e comendador da Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, honra que lhe foi conferida em 1908.
Ad multos annos! – Assim termina a imponente cerimónia da sagração. Ad multos annos – repetimos nós. E que Deus ilumine e assista com as suas luzes o novo Prelado e faça prosperar em copiosos frutos de bênção o seu episcopado.

A Cerimónia da Sagração
Com o cerimonial que A Época descreveu antecipadamente, por especial deferência do reverendo doutor Valério Cordeiro, realizou-se ontem, na basílica da Estrela, a sagração do Bispo eleito de Portalegre, Senhor D. Domingos Maria Frutuoso. A igreja encontrava-se magnificamente ornamentada, tendo a cerimónia principiado às 10,30 horas da manhã.
O Senhor Patriarca de Lisboa tinha como assistentes ao sólio os senhores cónegos Sequeira Mora e José Augusto dos Santos. Ao báculo esteve o senhor cónego João Manuel Teixeira, e diáconos os reverendos Padres Francisco Cancio e Casimiro Gonçalo Nogueira. Presbítero assistente foi o reverendo doutor Manuel Anaquim. Dirigiu as cerimónias com a maior proficiência o beneficiado Monsenhor Eduardo Coelho Ferreira.
Durante a Missa e Te-Deum foram executadas partituras de Carlos Araújo e Catalani, sendo a orquestra regida pelo maestro Costa Pereira.
O novo Bispo era assistido por suas excelências reverendíssimas os Senhores Arcebispos de Mytilene e de Évora. A cruz patriarcal foi conduzida pelo reverendo Padre Cardoso.
Representando o Cabido da Sé estiveram os reverendos cónegos Romão Guimarães e Martins do Rego. O seminário de Santarém fez-se representar pelo doutor Honorato Costa.
Entre a numerosa assistência estiveram o Reitor, professores e seminaristas dos Inglesinhos; os Padres Dominicanos do Corpo Santo, o reverendo Padre Aullet da igreja de São Luís, clero das dioceses de Portalegre, Évora e Lisboa, câmara eclesiástica, etc.
E os senhores Conselheiros Schroeter e José Fernando de Sousa; doutor José Pequito Rebelo, membro da Junta Central do Integralismo Lusitano, Vasco de Carvalho, doutor Camossa Saldanha, doutro Lino Neto, Visconde de Santarém, Condes das Alcáçovas doutor Carneiro Pacheco, doutor Assis de Brito, doutor leite de Faria, outro Miguel Belo, e os senhores Vítor de Oliveira e Jorge Marinho, presidente e secretário da J.C.L.
Finda a cerimónia, muitos assistentes se dirigiram ao camarim do Senhor Patriarca onde beijaram o anel do Bispo eleito.
O reverendo Domingos Nogueira, Prior da Estrela, foi de uma enorme actividade, tendo contribuído eficazmente para o brilho das solenidades.
Prestaram serviço na igreja os guardas nº 41 (cabo), 711 e 709, da esquadra da travessa das Almas.

Ilustração: Primeira página do jornal “A Época”, com a noticia da Sagração de frei Domingos Maria Frutuoso como Bispo de Portalegre.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

São Matias eleito para testemunhar a ressurreição (Act 1,20-26)

A traição de Judas e o seu desaparecimento do grupo dos Apóstolos tinha deixado um lugar vago, um vazio no número dos doze. Como chefe do grupo Pedro vê-se obrigado a procurar alguém para ocupar esse lugar, para realizar a missão de anunciar a Boa Nova do Reino.
O relato que os Actos dos Apóstolos nos deixam deste acontecimento é verdadeiramente magnífico, pois mostra a colegialidade da Igreja nascente, como a eleição pelo Espírito Santo se processa em comunidade através da apresentação dos candidatos, mas mostra sobretudo o que verdadeiramente estava em causa e obrigava a essa eleição, a necessidade de encontrar alguém que testemunhasse a ressurreição de Jesus.
Pelo relato e pela preocupação da primeira comunidade cristã percebemos que o verdadeiramente importante não era a história de Jesus, os milagres realizados e os ensinamentos proferidos, porque essa história qualquer um dos discípulos que tinha acompanhado Jesus podia testemunhar.
O que estava em causa era a ressurreição de Jesus, era esse acontecimento que marcava a diferença, esse acontecimento é que não era do conhecimento de todos mas apenas de alguns, e por isso era necessário encontrar alguém que o tivesse experimentado, vivido na sua originalidade e totalidade.
O discípulo Matias é o eleito, passando dessa forma a fazer parte do grupo dos Apóstolos, ficando dessa forma incumbido da missão de anunciar e dar testemunho da ressurreição de Jesus. José, de sobrenome Justo, o que pode dizer algo da sua vida e pessoa, foi preterido, ressaltando assim e ainda mais a necessidade da experiência do ressuscitado face ao seguimento e conhecimento de Jesus.
À luz desta eleição e do contexto em que ela decorre somos interpelados sobre a nossa relação com Jesus e o testemunho que damos dele, porque muitas vezes a nossa vida, nas suas palavras e obras, parece apenas testemunhar o Jesus histórico, aquele Jesus que fez milagres e curas, ao qual recorremos em algum momento mais aflitivo, que reconhecemos na bondade e utopia dos seus ensinamentos, porque acreditamos que o mundo seria melhor se vivêssemos no amor que nos deixou.
É verdade que esta nossa relação assenta em Jesus ressuscitado, que o acreditamos presente na nossa vida e junto do Pai a interceder por nós, mas não será que nos falta algo, um pouco mais de fé na ressurreição? Se tivéssemos a “experiência” do ressuscitado não seriamos mais ousados, não viveríamos algumas realidades da nossa vida com mais fidelidade, com mais coragem, enfrentando os desafios com outra confiança e audácia?
Ao rezarem para que o Senhor lhes indicasse qual dos apresentados era o eleito, a comunidade reunida reconhece que o Senhor conhece os corações de todos os homens. Também conhece os nossos e as suas fragilidades, bem como as nossas tentativas de fidelidade face ao conhecimento e seguimento de Jesus.
Peçamos ao Senhor que nos ilumine e fortaleça na experiência da ressurreição, de modo a que o nosso testemunho seja cada vez mais verdadeiro, confiante e transformador das realidades que nos rodeiam.

Ilustração: “São Matias”, vitral da Catedral de Saint Aidan’s, Enniscorthy, Irlanda.

domingo, 13 de maio de 2012

Homilia do VI Domingo do Tempo Pascal

Ao partirmos para uma meditação e reflexão sobre as leituras que escutámos não podemos deixar de considerar alguns resultados que a estatística nos fornece, uma vez que esses resultados condicionam inevitavelmente a reflexão que podemos fazer.
Assim, nas leituras que escutámos da Primeira Carta de São João e no seu Evangelho encontramos, num e noutro texto, quatro vezes o substantivo amor e cinco vezes o verbo amar.
Se olharmos com um pouco mais de atenção, vemos ainda que quando o verbo amar é usado em referência a Deus aparece sempre no pretérito perfeito, ou seja, como uma realidade ou acção que nos precede, mas quando é referido aos discípulos apresenta-se como presente indicativo ou conjuntivo, ou seja como uma acção a viver aqui e agora.
O amor é assim o fio condutor destes textos e tem que ser também o da nossa reflexão, na medida em que também nós nos consideramos discípulos e queremos viver o mandamento do amor que Jesus deixou como herança.
Neste sentido, temos que ter presente que o mandamento do amor é apresentado aos discípulos no Evangelho de São João no momento da última ceia, portanto no momento da despedida de Jesus, e muito concretamente no contexto do gesto de humildade e serviço que Jesus protagoniza ao lavar os pés aos discípulos.
Se Jesus deixa aos seus discípulos o mandamento do amor é porque ele é o primeiro a vivê-lo, e a vivê-lo da forma mais humilde e radical, através do serviço da entrega da vida. Jesus não impõe um mandamento que lhe seja estranho, um fardo que não carregou com ele, como acontecia com os fariseus e os seus preceitos da lei.
Jesus vive primeiro o dom do amor e só então o apresenta como mandamento, como possibilidade de outros o viverem à sua semelhança, em continuidade com o seu amor. É porque dá a sua vida, se disponibiliza para levar até ao fim a tarefa da redenção do homem, que Jesus oferece o mandamento do amor.
Compreende-se portanto que o autor do Evangelho fale deste amor como algo que já aconteceu, porque de facto aconteceu na obediência de Jesus à vontade do Pai, na sua disponibilidade de vida, mas aconteceu ainda mais previamente no mistério da economia da salvação, ou seja na misericórdia de Deus manifestada para com os homens. Foi Deus que amou os homens, antes dos homens saberem o que era o amor.
Em consonância com a obediência e a entrega amorosa de Jesus, o mandamento do amor que deixa aos discípulos, ainda que apareça como uma ordem, como um mandato, uma obrigação, não pode ser entendido fora da capacidade de liberdade do homem e da sua vontade.
O mandamento do amor não é um mandamento exterior, nem um preceito da ordem da sensibilidade, e ainda que se traduza em gestos e acções, é essencialmente um mandamento interno, um processo de uma decisão intima, convicta, e continuada no tempo através de expressões que o confirmam.
É o homem na sua liberdade e com a sua vontade que pode acolher o dom do amor de Deus, a oferta que Deus lhe faz, e nessa liberdade e vontade expressar e transformar esse dom em gestos e palavras, multiplicá-lo e continuá-lo em obras de bem e amor aos outros. O homem não pode manifestar nem viver o mandamento do amor de Deus sem a sua liberdade, ou fora da sua vontade.
Tais circunstâncias permitem alcançar e viver a relação que Jesus expressa ao dizer aos discípulos que já não os trata nem concebe como servos, mas como amigos, porque de facto a amizade constrói-se não só no conhecimento do outro, das realidades dos outro, mas na liberdade mútua e na aceitação da vontade de cada qual. Os discípulos tinham ficado a conhecer o Pai e a história do seu amor divino plasmado sinteticamente no mandamento do amor, mas tinham ficado também a saber que Deus não prescindia da liberdade e da adesão consciente e convicta de cada um.
Ao longo da história, e ainda hoje para muitos dos nossos irmãos, o desconhecimento deste Deus que se oferece, e nos convida ao dom, e o medo equivocado da perda da liberdade têm sido o grande drama do homem, a grande barreira a ultrapassar para gozar da alegria que o mesmo Deus e Senhor promete àqueles que arriscarem a sua vontade no cumprimento do seu mandamento, porque como nos diz há mais alegria em dar que em receber.
Este é afinal o grande desejo de Jesus, o objectivo ao apresentar o mandamento do amor, naquele momento em que o sofrimento e a morte já se vislumbravam de longe, viver a alegria, vivermos da alegria, vivermos na alegria para podermos enfrentar todos os desafios.
Os Actos dos Apóstolos e as histórias que nos contam das primeiras comunidades cristãs mostram-nos como da exercício do mandamento do amor brotava a alegria e por um e outra os cristãos eram reconhecidos e mudavam a história e a face do mundo.
Que o amor que devemos uns aos outros por Jesus Cristo e a alegria que nasce da partilha desse amor nos ajude hoje também a mudar o mundo e a construir o Reino de Deus.

Ilustração: Estátua da Caridade no pórtico do antigo Hospital de San Marcos em León. Caminho Santiago. 16 de Maio de 2010.

sábado, 12 de maio de 2012

A Profissão Religiosa de Santa Joana Princesa

Ao celebramos a memória de Santa Joana Princesa, apresentamos mais um excerto da biografia elaborada por frei Manuel de Lima para o “Agiológio Dominico”, publicado em 1710. Desta feita o capítulo no qual é relatada a sua entrada no Mosteiro de Jesus de Aveiro e a profissão religiosa.

Resoluta com a licença a recolher-se em Aveiro, escreveu El Rei à Fundadora, que era juntamente Prelada, aparelhasse o melhor que pudesse, um quarto, para a Princesa sua filha, que intentava viver em sua companhia. Chegou à sobredita Vila a 30 de Julho do mesmo ano [1472], e não quis entrar logo no Mosteiro, reservando-o para os 4 de Agosto, em que celebramos a festa de Nosso Pai São Domingos. Depois de ouvir Missa, e beijar a mão do pai, despedindo-se dele, e do Príncipe com ânimo varonil, entrou no Mosteiro: onde foi recebida com o gosto, e contentamento, que se deve supor.
Mostrou o Senhor com especial milagre o quanto lhe agradava a vinda desta sua Esposa, e o muito que havia de ilustrar o Convento com a sua virtude: porque alguns meses antes aparecia sobre o Mosteiro um grande cometa, que de alguma sorte designava o lugar, em que se havia de fazer a cela para a princesa, sem que o nublado, e tenebroso das noites pudesse ocultar a sua claridade.
Trazia esta novidade confusas as santas Religiosas: porque não sabiam ainda a boa fortuna, que se lhes prognosticava. Porem no mesmo dia, em que entrou Dona Joana, vieram em conhecimento do prodígio: porque como o astro tinha satisfeito à sua obrigação, e completa a sua embaixada, na mesma noite desapareceu, e não foi mais visto.
Deu-lhe El Rei para seus sustento a Vila de Aveiro, e grande parte das terras à roda, com uma boa renda para as suas necessidades, e do Mosteiro; e depois de tratar com ela alguns negócios importantíssimos ao Reino, voltou para Lisboa.
Não recebeu logo o hábito tanto que entrou na Clausura, por estar impedida pelos Grandes do Reino: esperou ocasião, para poder declarar-se com mais segurança. No entanto não faltava nos exercícios da Comunidade, acudindo a todos com grande prontidão; especialmente a todas as horas do Coro, e Matinas à meia-noite. Para este fim mandou fabricar a sua Cela junto a este lugar, comprando uma vinha; cuja maior parte é hoje a horta do Convento.
Passados três anos, enfadando-se já de ser ver em trajes de secular, entre as Esposas de Cristo, sem mais licença, nem conselho, buscou um dia a Prioresa, e lhe disse, que estava resoluta a vestir o hábito, e entrar no Noviciado. Recebeu esta nova Sor Brites Leitoa, com grande contentamento, vendo a honra, que adquiria, não só o Mosteiro, mas a Religião. Mandou concertar o Capítulo com a maior riqueza, que pôde, para fazer esta nobre função.
Dia da Conversão de São Paulo, depois de Matinas, apareceu neste lugar a Princesa com um vestido pouco custoso, e muito chão, acompanhada da Mestra de Noviças, e prostrou-se por terra com todo o corpo aos pés da Prioresa. Perguntou-lhe esta, que pedia? E respondeu, conforme o costume da Ordem: A misericórdia de Deus, e a vossa. Fez-lhe a prelada uma devota prática, representando-lhe a grande misericórdia, que o Senhor lhe fazia, tirando-a do turbulento mar do século (onde são tanto maiores perigos, quanto superiores os lugares) para o seguro porto da Religião; declarando-a por Esposa, não do Rei de um Reino limitado, mas sua, que é Rei Supremo.
Principiaram as Religiosas a cantar com mais lágrimas, que com vozes, o Hino: “Veni creator Spiritus”, e a Prioresa cortando os formosos, e dourados cabelos da Princesa, e tendo-a ajoelhada a seus pés, lhe vestiu o sagrado hábito.
Quais fossem neste acto os afectos, ternura, e devoção na Santa infante, não pode cabalmente explicar humana escritura. Bastará dizer que vendo-se vestida com a cândida gala de seu venerado Patriarca São Domingos, foi tal a sua alegria, e contentamento, que prostrada diante do Altar maior, como fora de si mesma, porque estava já toda entregue a Deus, perseverou em larga oração até a hora de Prima, oferecendo-se em holocausto ao Divino Esposo. [1]

[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1710, 320-321.

Ilustração: "Santa Joana Princesa de Portugal", de Palomino e "Lembrança da Peregrinação da cidade de Aveiro ao Glorioso Sepulcro da Santa Joana Princesa no dia 15 de Janeiro de 1939".