sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Quem ama a sua vida perdê-la-á. (Jo 12,25)

Paradoxo desafiante aquele que Jesus nos coloca e colocou aos seus discípulos depois de ter entrado de forma gloriosa em Jerusalém, “quem ama a sua vida perdê-la-á e quem despreza a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna”.

Não é Senhor a vida o nosso maior dom? Não é pela vida que lutamos? Não é a vida o nosso dom mais precioso? E contudo, Senhor, convidas-nos a perdê-la, a desprezá-la… Como é possível Senhor que nos peças tal coisa?

Perder a vida para a ganhar, perdê-la a partir da forma que mais nos apetece, que nos aprisiona a uma única dimensão física e histórica, para ganhá-la em ti e por ti.

Perder a vida, porque recusar esta morte de nós próprios é viver de alguma forma uma vida mutilada, é viver uma vida pobre, limitada a um único modo.   

Perder a vida como tu a perdestes, entregando-a nas mãos do Pai, do verdadeiro Senhor da Vida, perder a vida em oferta de amor, renunciando a uma posse para a transformar em dom.

Perder a vida limitada, frágil, condicionada a tantas realidades, para a viver de forma plena em ti, no dom que fizestes da tua própria vida eterna a cada um de nós.

Perder a vida como o grão de trigo, que se desintegra na escuridão da terra, se desfaz em si mesmo no féretro do pó, para germinar e crescer, libertar a força que o habita e dar origem a uma nova planta e a novos frutos, outros grãos para a vida.

Não é fácil Senhor, porque esta vida que conhecemos nas suas limitações e fragilidades é ainda assim apetecível, dá-nos ainda a ilusão de um futuro e alguma construção, um fruto ilusório que depende das nossas mãos.

Vem Senhor em nosso auxílio, libertar-nos desta ilusão e destes apetites, conduzir-nos à vida plena que nos ofereces, seduzir-nos no nosso desejo de viver.


Ilustração: “Ecce Homo”, de Caravaggio, Palazzo Rosso, Génova.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

As nossas candeias estão a apagar-se (Mt 25,8)

A parábola das dez virgens regressa ciclicamente ao nosso encontro e de cada vez coloca-nos face a esse desaire das cinco virgens que ficam fora da sala do banquete, que não são reconhecidas pelo Esposo quando batem à porta.

E contudo não estão ali atrasadas por preguiça; talvez um pouco por desleixo, um descuido, mas igualmente por um esforço de superar esse desleixo, que infelizmente não produziu os melhores resultados.
Face a este desaire não podemos encontrar melhor explicação que as palavras dirigidas ao Anjo da Igreja de Éfeso no livro do Apocalipse: “tenho uma coisa contra ti, abandonastes o teu primitivo amor” (Ap 2,4).
Por causa deste abandono é que o Esposo as não conhece ou reconhece, por causa deste abandono é que na noite as candeias se começaram a apagar por falta de azeite. E como se isto não bastasse, foram ainda pela noite à procura de alguém que lhes fornecesse o azeite em falta, o amor perdido.
A recusa à partilha do azeite, por parte das outras cinco virgens, não é assim uma falta de caridade, uma demonstração de egoísmo, mas apenas a explicitação de que o amor primeiro é único, pessoal, intransmissível. Ainda que chamado a iluminar na noite, a iluminar o caminho do outro, não pode ser partilhado senão nessa mesma luz, o brilho que produz.
E neste sentido, podemos perguntar-nos se aquelas cinco virgens insensatas não teriam entrado no banquete se não se tivessem afastado, se não teriam lucrado em permanecer, ainda que sem azeite mas iluminadas pela luz do azeite das outras cinco virgens.
Um pergunta que não tem resposta possível face à mensagem da parábola, que apenas nos quer colocar em sentido face ao amor primeiro e à necessidade de permanecer nele e o cuidar.
Tarefa verdadeiramente urgente e necessária, face às palavras da mensagem ao Anjo da Igreja de Éfeso: “conheço as tuas obras, as tuas fadigas e a tua constância; sei também que não podes tolerar os malvados e que pusestes à prova os que se dizem apóstolos, mas não o são, e os achastes mentirosos; tens constância, sofrestes por causa de mim e não perdeste a coragem; mas no entanto abandonastes o teu amor primitivo”.
Tudo se pode suportar, todas as obras se podem fazer, mas sem o amor primeiro, o amor que dá razão e sentido a tudo, nada vale, tudo é como candeias sem azeite que ilumine a noite e a espera.

Ilustração: “Parábola das dez virgens”, de William Blake, Tate Galery, Londres.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

São Domingos de Guzman - Festa

Senhor, que nosso Pai São Domingos ajude a vossa Igreja pelos seus méritos e pela sua doutrina, e que se torne para nós um compassivo intercessor, ele que foi um eminente pregador da vossa Verdade.


Ilustração: São Domingos da fachada da igreja do Convento de São Domingos de Tui.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Jesus foi caminhando sobre o mar (Mt 15,25)

Desafiando as leis mais básicas da natureza Jesus aparece aos discípulos caminhando sobre as águas do mar de Tiberiades. Facto inusitado e portanto passível de provocar a confusão e o medo naqueles que o presenciam. Quem mais que um fantasma poderia caminhar sobre as águas?
Ao apresentar-se dessa forma aos discípulos, ocupados com a condução e salvação da barca no meio da tormenta da noite, Jesus apresenta-se como aquele que tem o poder de salvar, que pode caminhar sobre as águas que preenchem o abismo e representam a morte.
E ao fazê-lo apresenta-se também como oferta de possibilidade àqueles que acreditarem nele, que confiarem nele. A ordem dada a Pedro de que vá ter com ele, caminhando sobre as águas à sua semelhança, é uma ordem que é dada a todos os homens, a todos aqueles que arriscarem acreditar e confiar nele.
Com Jesus, de olhos fitos no seu olhar, podemos atravessar o mar da morte e dominar o medo face aos perigos que o mesmo mar nos apresenta e representa. Tal como aconteceu com os discípulos, Jesus não está longe, e vem sempre ao encontro daqueles que se encontram em aflição.
À semelhança do que aconteceu com Pedro, Jesus dá aos homens, aos que confiam nele, o poder e a autoridade sobre o mal, sobre as águas tumultuosas, um poder que se torna efectivo e actuante na medida e na dimensão da mesma confiança depositada nele.
Necessitamos por isso, e face às situações de perigo e ameaça não nos deixarmos dominar pelo medo, não ceder na confiança que depositámos em Deus, porque muito frequentemente as forças do mal têm apenas sobre nós o poder que lhe concedemos.
Que na nossa caminhada de fé, e nos desafios que ela acarreta, bem como na nossa caminhada humana, com tantas fragilidades, saibamos sempre manter o olhar fixo em Jesus, a nossa confiança depositada em Deus, que como sentinela vigilante não afasta de nós o seu olhar e a sua atenção.

Ilustração: “Jesus caminhando sobre as águas”, de Alexander Andreyevich Ivanov, Galeria Tretyakov, Moscovo.  

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Jesus transfigurou-se diante deles. (Mc 9,2)

Ao contemplarmos o mistério da transfiguração de Jesus ficamos muitas vezes com a impressão que foi um acontecimento único, um acontecimento reservado apenas àquele pequeno grupo de discípulos, composto por Pedro, Tiago e João.
Diante deste acontecimento tão privado, repetimos no nosso íntimo como seria bom ter estado ali, como gostaríamos de ter partilhado daquela visão de Jesus.
E com este desejo esquecemos como rapidamente à luz da visão se seguiu a escuridão da sombra, se seguiram as trevas da não visão.
Face a este facto descobrimos que estamos assim perante algo mais que um mero acontecimento, que um privilégio espectacular reservado apenas àqueles três discípulos.
E podemos mesmo interrogar-nos sobre o que verdadeiramente viram aqueles três homens, porque o mistério da transfiguração não é um acontecimento mas um processo, um processo de vida no qual todos estamos inseridos.
O mistério da transfiguração de Jesus, com o que comporta de luz e trevas, é afinal a imagem do nosso peregrinar em busca de Deus, da nossa busca de Deus, marcada por trevas e pequenos pontos de luz que nos alentam a continuar.
A noite da nuvem e a luz da roupa mais branca constituem a nossa busca espiritual, uma busca que nos desafia num movimento de aceitação de que vemos mais quando não vemos do que quando pensamos que vemos.
Necessitamos por isso aceitar, com humildade, que para ver, que para ter acesso à luz da glória é necessário frequentar a sombra da noite, a noite escura, em que o Senhor se revela e vem ao encontro daqueles que o buscam apaixonadamente.
Como tão belamente canta São João da Cruz: “Bem sei eu a fonte que mana e corre, mesmo sendo noite. É claridade nunca escurecida. E sei que toda a luz dela é nascida. Mesmo sendo noite!

Ilustração: “Transfiguração”, de Fra Angélico, Museu Convento de São Marco de Florença.

domingo, 5 de agosto de 2012

Homília do XVIII Domingo do tempo Comum

Já não é a primeira vez que nos deparamos na narração dos Evangelhos com situações de equívoco em relação a Jesus. O Evangelho de São João parece, por vezes, que se construiu sobre essas situações e por isso na leitura deste domingo nos voltamos a encontrar com uma situação dessas.
Depois da multiplicação dos pães, e sabendo que o procuravam para fazer rei, Jesus refugiou-se no monte sozinho, deixando os discípulos embarcarem para a outra margem. Pouco depois encontra-se com eles também ali, na pequena aldeia de Cafarnaum. Entretanto, a multidão, que tinha sido saciada pelo pão, vem também até ali à sua procura e encontra-o.
Este episódio, e nomeadamente esta busca, estão construídos sobre um mal-entendido, sobre a equivocação da multidão, que procura Jesus pelas razões erradas. Para acentuar e enquadrar de forma mais incisiva este equívoco, as acções são desenvolvidas em lugares muito diferentes, encontrando-se em primeiro lugar Jesus no monte, onde multiplica o pão para a multidão, e na sinagoga de Cafarnaum, onde confronta essa mesma multidão com a necessidade de outro alimento.
A escolha do lugar, a transferência do monte para a sinagoga não é um mero acidente, um acaso, é certamente uma escolha de Jesus, ou no mínimo do autor do quarto Evangelho, e visa colocar as acções de Jesus em paralelo e complementaridade.
Não é suficiente seguir Jesus apenas pela satisfação da fome, da necessidade física, não se pode construir uma relação pessoal com o Mestre fundada apenas num acontecimento extraordinário, sensacional. A sinagoga, na qual Jesus se encontra com a multidão que o tinha procurado, é o sinal da necessidade de uma relação enquadrada, uma relação construída e estruturada à luz da lei da Aliança e dos Profetas.
E a multidão percebeu perfeitamente a mensagem e a necessidade, quando perguntou a Jesus sobre o que fazer para participar nas obras de Deus. De facto, não estamos perante uma multidão analfabeta da linguagem que Jesus utiliza, nem dos milagres que realiza.
Bem pelo contrário, estamos diante de uma multidão que desde o berço tinha escutado as promessas feitas ao povo, que desde sempre conhecia a história das manifestações de benevolência de Deus, e por isso o confronto do pão que Jesus tinha dado com o pão com que o povo se tinha alimentado no deserto.
Contudo, e apesar deste conhecimento, e tal como tinha acontecido no deserto e ao longo de tantos outros acontecimento da história, a multidão não se satisfez com a manifestação extraordinária em que tinha participado e exigiu outros sinais. A multiplicação dos pães não tinha sido suficiente para que se pudesse acreditar.
E neste aspecto, Jesus não está em descordo com a multidão, bem pelo contrário partilha da mesma opinião, centrando no entanto o pedido não num acto ainda mais extraordinário mas no que é verdadeiramente essencial, na sua pessoa, na fé em Deus e naquele que era o seu enviado.
A história da relação de Deus com os homens, que encontramos na Sagrada Escritura, é afinal também a história do grande problema do homem face às manifestações de Deus, a história da falta de confiança e fé, de um conjunto de exigências que conduzem mais ao sensacional e ao extraordinário, que ao essencial e fundamental, a relação confiante em Deus.
O acontecimento que nos é narrado por São João, no trecho do Evangelho que escutámos, é assim mais um nesta longa história que nos marca de falta de fé, de falta de confiança em Deus, de equivocação entre o extraordinário e o fundamental, entre aquilo que nos afasta de Deus ou nos conduz à sua intimidade e coração.
Procuremos pois, como nos recomenda Jesus através das palavras dirigidas àquela multidão, acreditar e confiar naquele que Deus enviou, o Filho muito amado, e que pela sua obediência e amor nos revelou o quanto Deus nos ama, o quanto Deus não se cansa de nos procurar e de confiar em nós, ainda que nós nos afastemos dele e tantas vezes faltemos na confiança que lhe é devida.
Deus convida-nos a uma amizade, a uma relação de intimidade, uma relação que nos alimenta e faz viver, à disponibilidade do acolhimento do seu dom, ao contrário do espectáculo do sensacional e extraordinário que apenas nos ofusca e nos distrai do que é fundamental.
Que saibamos, com a luz do Espirito Santo, acolher a obra de Deus em nós, optando pela confiança humilde e simples que se alimenta na Palavra e no Pão da Vida.

Ilustração: “O Bom Pastor”, de Frei Carlos, Museu Nacional de Arte Antiga.

sábado, 4 de agosto de 2012

Casamento do Filipe Daniel e Ana Catarina

Quando me ordenei de sacerdote, um dos conselhos que me foi dado pelos meus irmãos mais velhos, é que devia ter cuidado com os convites para os casamentos.
Presidir a um casamento é um serviço que prestamos, um ministério que exercemos, mas participar na boda, no banquete, já não é uma obrigação e pode ser mesmo um fardo. Com base no conselho que me foi dado raramente aceito o convite para participar no banquete do casamento, tornou-se para mim quase uma regra inviolável, e quando a quebro acabo por confirmar que de facto tem muito sentido. Hoje, e passado exactamente um ano sobre a última vez que tal aconteceu, voltei a quebrar a regra e depois de ter presidido ao casamento do Filipe Daniel e da Ana Catarina fui participar no banquete com a família e os amigos.
Foi uma tarde e noite de convívio e da qual estou a chegar; e ainda que bastante cansado, com vontade de um banho revigorante, e dizendo para mim mesmo que podia ter feito muitas outras coisas que necessito neste tempo, venho muito feliz pelos momentos vividos e partilhados.
Foram momentos especiais pela alegria e paixão do Daniel e da Catarina, pelo carinho e pelo acolhimento, pela atenção a cada pormenor, pela responsabilidade condimentada com a graça, pelo amor que mostraram sentir um pelo outro e igualmente por todos aqueles que fazem parte das suas vidas e os acompanharam neste caminho que conduziu ao matrimónio.

Por tudo o que eles, com amor, nos brindaram esta tarde, não podemos deixar de fazer votos que o Senhor os continue a proteger, a guardar no seu amor, e os continue a ajudar a ser testemunhas deste amor para com todos os que se cruzarem com eles.
Que o Senhor vos abençoe, Daniel e Catarina.

Ilustração: Rosas vermelhas, que foi a flor usada no ramo da noiva.