sexta-feira, 30 de abril de 2010

Aguardando a partida de Pamplona para Roncesvalles

Estou em Pamplona, aguardo que chegue o autocarro para nos levar até Roncesvalles, de onde amanhã de manhã iniciarei a peregrinação.
Na estação rodoviária vários peregrinos aguardam como eu o momento de partida e ao ver tanta gente interrogo-me se conseguirei ter o silêncio e a tranquilidade que vinha à procura.
Espero que sim, que Deus o permita, porque desejo muito este tempo para me encontrar com Ele através desta caminhada.
O tempo está ameno pois estamos perto dos Pirinéus e ainda faz fresco, mas ao almoço quando me cruzei com os peregrinos que chegavam à cidade alguns deles vinham mesmo cansados pelo calor que no momento se fazia sentir.
Entre o almoço e a hora de estar aqui aproveitei para visitar a catedral de Pamplona e os seus claustros. Acabei por tirar algumas fotografias, nomeadamente uma de São Domingos e outra de São Tomás que estão num altar da catedral. Os nossos maiores não deixam de me atrair.
A hora de partida aproxima-se e tenho que me ir aproximando para colocar a minha mochila na bagageira. Há vàrias bicicletas para carregar e isso leva sempre algum tempo.
Não sei se amanhã terei oportunidade de escrever alguma coisa, porque vou pernoitar numa pequena aldeia e não sei se por ali há internet livre como há aqui. Logo verei.
Que o Senhor venha em nosso auxílio e nos ajude e ilumine como fez com Santiago.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Caminho de Santiago - Partida

Estamos de partida para fazer o Caminho francês de Santiago. Um mês ou quase a andar desde Roncesvalles até Compostela. A ansiedade de colocar os pés no caminho é grande.
Aqui ficam os irmãos, os amigos, a familia, todos pedem que reze por eles nesta peregrinação.
Que o Senhor Jesus nos proteja e nos ajude a vencer os metros de cada passo. E nos ilumine nesta nossa busca de matar a sede que trazemos em nós.
Por Santiago aqui vamos!
Ultreya!!!

Benção dos Peregrinos a Compostela


Benção dos Peregrinos

Oh Senhor, por cuja palavra todas as coisas ficam santificadas, nós te pedimos que abençoes esta mochila e este bordão de peregrinação, para que este peregrino que os vai levar, possa chegar incólume ao sepulcro do Apóstolo Santiago, ao qual se dirige, por Jesus Cristo nosso Senhor.

Recebe esta mochila em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo: carrega com ela e que a fadiga corporal de levá-la te sirva de expiação pelas tuas faltas, para que arrependido delas, possas chegar animado ao sepulcro do Apóstolo e, terminada a peregrinação, regresses feliz a tua casa. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Recebe este bordão, para que te sirva de apoio no caminho e te alivie das dificuldades da caminhada; ao mesmo tempo que o possas usar como defesa nos perigos, para que um dia, são e salvo, chegues ao sepulcro do Apóstolo e, terminada a marcha, voltes incólume à tua morada. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Oremos:
Senhor Jesus Cristo, que nos ensinas por intermédio de São Paulo, que não temos aqui morada permanente, mas que devemos procurar a morada futura, atende as súplicas que te fazemos humildemente em favor de este teu servo, que acabamos de investir como peregrino.

Que o Espírito Santo infunda em seu coração a graça para que, penetrando no seu interior, se avive a sua fé, se fortaleça a sua esperança e se acenda a sua caridade, a fim de que faça a peregrinação com verdadeiro espírito de penitência, sacrifício e expiação. Que purifique a sua mente de todo o pensamento supérfluo, defenda o seu coração e o assista com continua consolação, para que por tua bondade e do Pai possa chegar incólume ao fim da viagem, e pela peregrinação que hoje começa mereça alcançar um dia a eterna Jerusalém. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos.

Oh Deus, que tirastes o teu servo Abraão da cidade de Ur dos Caldeus, guardando-o em todas as suas peregrinações, que foste o guia do povo hebreu através do deserto: nós te pedimos que te dignes guardar este peregrino que por amor do teu nome vai a Compostela. Sê para ele companheiro na marcha, guia nas encruzilhadas, alento no cansaço, defesa nos perigos, albergue no caminho, sombra no calor, luz na escuridão, consolo no desalento e firmeza nos seus propósitos. Que por tua orientação chegue incólume ao fim do seu caminho, e enriquecido de graça e virtudes, volte de regresso a sua casa, que agora sente a sua ausência, cheio de perene alegria. Por Jesus Cristo, nosso Senhor.

Que o Senhor dirija os teus passos com o seu beneplácito e seja teu companheiro inseparável ao longo de todo o caminho.
Que a Virgem Maria te dispense a sua maternal protecção, te defenda nos perigos da alma e do corpo, e debaixo do seu manto mereças chegar incólume ao final da tua peregrinação.
Que o Arcanjo Rafael te acompanhe ao longo do caminho como acompanhou Tobias e afaste de ti todo o incómodo e toda a contrariedade.
E que a bênção de Deus Todo-poderoso, Pai, Filho e Espírito Santo desça sobre ti e te acompanhe sempre.
Em nome do Senhor, Ultreya!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Mandamentos do Peregrino a Santiago de Compostela

Mandamentos do Peregrino
Inscritos num mural no Albergue “Gaucelmo”, em Rabanal del Camino, Astorga

1 – O Caminho de Santiago não é uma maratona nem uma pista onde se coloca à prova a resistência física. É sim um banco de ensaios para a tua humildade e uma lição realista das tuas possibilidades humanas e espirituais.

2 – O autêntico Caminho é aquele que cada um vai fazendo por dentro. Esse pode fazer com que te encontres a ti mesmo e transformes toda a tua vida.

3 – É necessário entender que o tempo é um dom de Deus. É-nos dado para saber medir os minutos por uma velocidade de 5 km hora.

4 – Optimismo e alegria, sinceridade e simplicidade, capacidade de sacrifício e de contemplação, abertura aos outros e delicadeza, solidariedade e limpeza são qualidades de um autêntico peregrino jacobeu.

5 – O equipamento mais importante é a tua atitude de busca…

6 – Inicia o Caminho sem nenhum tipo de preconceitos. Nem sobre os teus irmãos de outras nações, nem sobre as simples gentes dos povoados, nem sobre as raízes religiosas de cada um. Sobretudo sê humilde e livre. Não esqueças que em qualquer ponto do Caminho te podes encontrar com Deus. Em realidade, Ele é o teu companheiro de caminho.

7 – Um peregrino que não tem a capacidade de admirar e ler os acontecimentos mais simples não pode perceber o fundo surpreendente e belo das coisas.

8 – Abre bem os olhos à beleza da paisagem, e da arte, a quem te oferece hospitalidade, à gratuidade e gratidão. A contemplação das estrelas com um são humanismo faz gente do caminho e almas de Deus.

9 – Durante a peregrinação não te feches em ti mesmo. Faz do teu caminhar um encontro constante. Sai de ti e comunica-te. Exprime a tua experiência, defende com fidelidade e respeito as tuas certezas e vivências, superada que foi toda a fronteira.

10 – Respeita a natureza, pode ensinar-te muito. Tu formas parte dela e estás chamado a ser o porta-voz que canta a sublimidade da criação e do seu Criador.

11 – Às vezes, uma canção no Caminho dará fortaleza aos teus pés cansados. Em outras ocasiões o silêncio será o melhor canto para repensar a tua vida em profundidade. Que “ no silêncio o coração respira”…

12 – Fala com letrados e camponeses com humildade e respeito. Respeita a história dos velhos tempos. Aprende com todos.

13 – Se alguém te faz mal ou não te acolhe, sorri em silêncio. Sentir-se excluído ou abandonado dói, mas em algumas ocasiões pode oferecer-te uma cura benéfica de humildade. Assim terás experimentado na tua carne o que muitas vezes fazemos com os pobres.

14 – Ao chegar a Compostela abraça no Apóstolo a fé de Santiago, o intimo do Senhor. Reza-lhe suplicando e dando-lhe graças. Algum gozoso compromisso se terá que forjar. A tua consciência te dirá o quê.
Ultreya! Ou seja, há que continuar mais além…

terça-feira, 27 de abril de 2010

Homilia Domingo IV da Páscoa


A imagem do pastor, e do bom pastor, é nos apresentada pelo Evangelho deste quarto domingo do tempo pascal, uma imagem que para muitos, sobretudo para os mais novos, se pode tornar estranha, desconhecida, pois a nossa vida urbana e a cada vez maior industrialização da agropecuária tem levado ao desaparecimento desta profissão. Não surpreende por isso que, quando um jovem de dezasseis anos numa aldeia do norte diz que quer ser pastor, seja objecto de uma reportagem de um qualquer telejornal, como aconteceu ainda há pouco tempo.
No tempo de Jesus era uma tarefa comum, porque não só havia os pastores, aqueles que profissionalmente guardavam os rebanhos dos grandes senhores e proprietários, como também cada um, no seu ambiente familiar, fazia essa experiência, pois cada família tinha a sua ovelha ou a sua cabra e era necessário levá-la a pastar. Até há poucas décadas atrás em muitas famílias e meios rurais portugueses passava-se o mesmo.
Assim, quando Jesus fala do pastor e do bom pastor os seus ouvintes sabem do que está a falar, têm os mesmos referenciais, para além dos referenciais espirituais e religiosos que também lhes eram comuns. As pastagens verdes e as fontes cristalinas dos Salmos são apenas dois exemplos do muito que podiam ter como referência.
Mas na leitura deste quarto domingo, um trecho do extenso capítulo décimo no qual São João desenvolve esta imagem do pastor, importa salientar o ênfase que Jesus dá à voz, como ela é importante nesta relação do pastor com as ovelhas e do seguimento das mesmas atrás do pastor.
Em outras passagens do Evangelho de São João, Jesus assume-se como a Palavra do Pai, a Palavra que habitava junto do Pai e pela qual tudo tinha sido criado no princípio do mundo. Na criação essa Palavra fez-se voz, uma voz que ainda hoje ressoa aos nossos sentidos, mas que de alguma forma nos distrai da mensagem que veicula, tal é a sua diferença e diversidade. A imagem da expulsão do jardim do paraíso pode muito bem significar essa nossa perda de sintonia com toda a obra criadora e a Palavra que lhe está subjacente.
Por esta razão e para que não nos perdêssemos, desgarrássemos na noite escura dos nossos sentidos, a Palavra fez-se carne e veio habitar entre nós, uma vez mais fez-se voz para que a pudéssemos ouvir. A voz fez-se como nós, assumiu a nossa natureza para que não houvesse interferências nem perturbações na comunicação nem na mensagem que nos transmite, para que a escutássemos em verdadeira qualidade.
Por essa razão Jesus diz que conhece as suas ovelhas e conhece-as pelo seu nome. Conhece-as na medida em que se fez homem como nós, portanto conhece-nos nas nossas limitações e infidelidades, mas também nas nossas virtudes e aspirações de fidelidade; e conhece-nos pelo nosso nome, porque somos seus irmãos e obras da sua mão criadora, e também na medida em que escutando a sua voz nos colocamos em situação de uma relação pessoal e de intimidade com ele.
Escutando a sua voz e seguindo-o entramos num processo que conduz à vida eterna, um processo de salvaguarda, pois Jesus diz que ninguém poderá arrebatar da sua mão aqueles que o escutam, que escutam a sua voz, e o seguem, pois foi o Pai que lhos entregou.
Estas palavras de Jesus, esta garantia, devia deixar-nos uma liberdade de espírito que não é comum em nós, que não é frequente, bem pelo contrário até parece bem rara. Continuamos a infligir-nos sofrimentos, a carregar com pesos de culpas e pecados, esquecidos de que escutando a voz do pastor e seguindo-o já não somos nós que carregamos com essas culpas e esses pecados, pelo contrário, somos carregados aos ombros para que não fiquemos para trás, para que não nos sintamos abandonados nem sem forças para continuar. E quando nos desgarramos nas nossas infidelidades, cheios do pasto que encontramos pela frente, confiantes na protecção da nossa camada de lã, o pastor não desiste de nós e vem ao nosso encontro, vem em nossa busca. Não porque nos queira encerrar no aprisco, nos queira presos, mas porque quer que o sigamos e que nenhum de nós se perca. Ele segue à frente para nos mostrar o caminho, para espantar os lobos e nos defender de qualquer ataque.
No Cântico dos Cânticos a amiga do pastor amado pede que lhe indique o local onde leva a apascentar o rebanho e onde se recolhe ao meio-dia, para não andar errante atrás dos outros. O pastor recomenda-lhe que saia no encalço do rebanho e apascente as suas cabrinhas junto às cabanas dos pastores. É uma recomendação que também nos serve a nós, porque só nos podemos encontrar e seguir o verdadeiro pastor no encalço do conjunto do rebanho, ou seja, no corpo que é a Igreja, e apascentando as nossas cabrinhas, ou seja aquelas que são ainda as nossas dimensões menos purificadas, junto das lições e exemplos, dos textos e palavras, que nos são dados pelos pastores, por aqueles que de alguma fizeram já a experiência de passar pela porta que é o Pastor, o Caminho, a Verdade e a Vida.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Homilia Domingo III da Páscoa

O Evangelho deste terceiro domingo do tempo pascal apresenta-nos aquela que segundo o Evangelho de São João foi a terceira e última aparição de Jesus aos discípulos depois da ressurreição. É um relato demorado, cheio de pormenores que convém apontar e iluminar para se perceber a totalidade da mensagem que lhe está subjacente.
Assim, e antes de mais, temos que ter presente que este relato compõe o capítulo vinte e um do Evangelho, um capítulo que aparece como um acrescento, um post-scriptum ao Evangelho, pois nos versículos anteriores o autor tinha já dado por concluída a narração dizendo que muitos outros sinais havia mas que não estavam escritos neste livro.
Este capítulo e aparição inserem-se assim numa conjuntura diferente e por isso a centralidade de Pedro em todo o relato. A questão e a base que sustentam a primeira parte do relato desta última aparição de Jesus são a vida da Igreja, os primeiros esforços de evangelização e consequentes frutos.
Numa linguagem simbólica é-nos apresentada a vida da Igreja, uma vida cheia de esforços, mas que aparece como uma noite, e uma noite sem frutos, sem resultados apesar de tantos esforços dispendidos. Por isso saíram a pescar e regressaram sem nada. Só à palavra do Senhor, à ordem de lançar a rede encontraram algum peixe, ou todos os peixes que era possível encontrar, cento e cinquenta e três grandes peixes que significam os povos que à data eram conhecidos e reconhecidos como povos.
Perante esta pesca milagrosa o discípulo predilecto reconhece Jesus caminhando nas margens do lago, ou seja à margem do que era o esforço que estavam a despender. De alguma forma eles tinham-se distanciado dele, tinham-no deixado na margem esquecido. E a referência de que tinham voltado às suas casas e à sua vida do dia a dia era disso significado. Eles continuavam aferrados e fechados nos seus esquemas mentais e culturais, tinham regressado ao ponto de partida, àquele momento em que tinham conhecido Jesus e naquelas mesmas margens tinham deixado os barcos para o seguirem e verem onde morava. Era necessário de novo seguir Jesus.
Ao saber que era o Senhor que estava nas margens do lago Pedro veste a túnica que tinha tirado e lança-se às águas. Inevitavelmente temos que associar este lançar-se às águas ao convite de Jesus a caminhar sobre as águas, um convite feito algum tempo atrás e no qual Pedro tinha falhado por ter duvidado. Agora tal não acontece, ele veste a túnica da fé em Jesus que tinha tirado confiando apenas em si e nas suas forças e lança-se às águas sabendo que pode caminhar sobre elas. Agora a fé permite-lhe chegar ao Senhor sem temor e sem duvidar.
E o Senhor tem preparado para eles o fogo e a comida, o Espírito Santo e a Eucaristia, fontes da força para a missão a que estavam destinados e tinham sido chamados. São estes dois elementos aqueles que alicerçam a faina e podem dar bons resultados finais.
Terminada a refeição encontramo-nos com aquele que é o mais sublime dos diálogos de Jesus, um diálogo em que Jesus faz uma pergunta a Pedro que antes nunca tinha feito a ninguém. Antes da paixão e da sua morte tinha perguntado se acreditavam nele, quem diziam os homens que ele era, quem dizeis vós que eu sou, mas jamais tinha perguntado se alguém o amava, se eles o amavam. Tal pergunta não podia ser feita porque era necessário provar primeiro o seu amor para poder perguntar por ele. Era necessário que Jesus padecesse por amor, morresse e ressuscitasse, que desse a conhecer a totalidade do seu amor, para poder perguntar pelo amor dos outros.
E para compreender o sentido último das perguntas de Jesus e do diálogo temos que ter presente que o verbo (agapau) que no original grego Jesus utiliza para perguntar é diferente daquele que Pedro usa (filéu) para responder. Assim, quando Jesus pergunta pela primeira vez se Pedro o ama mais que os outros a resposta de Pedro na forma mais original é: Senhor tu sabes que eu gosto muito de ti.
Quando Jesus volta à carga e lhe pergunta pela segunda vez se o ama, Pedro responde novamente que gosta muito dele. E perante isto Jesus volta novamente a perguntar, mas só que nesta terceira vez Jesus já não pergunta se Pedro o ama, pergunta-lhe usando o mesmo verbo se ele gosta muito dele.
E perante esta condescendência de Jesus, perante mais este abaixamento, Pedro responde-lhe inevitavelmente que sim, que gosta muito de Jesus, que ele bem o sabe.
É sublime este descer de Jesus à capacidade de amar de Pedro, capacidade que é como a nossa, pois não sabemos amar como Jesus nos amou, sabemos apenas amar na nossa forma mais humana e tantas vezes infectada de desejos menos puros, de aspirações menos livres. E Deus vem até aí, desce até aí para nos mostrar que nesse amor ele está presente, se quer fazer presente para o transformar num amor parecido com o seu, um amor total.
Mas porque este amor pode tender e cair numa ilusão, pode ser uma forma alienante, a cada resposta de Pedro é-lhe dada a incumbência de cuidar das ovelhas e dos cordeiros. O amor a Deus realiza-se e traduz-se no amor e nos cuidados dos irmãos, porque não há amor divino sem caridade pelos outros, não há fé sem obras.
Face a estas perguntas de Jesus, perguntas que se dirigem a cada um de nós, resta-nos a tentativa de viver as palavras da jaculatória “Doce coração de Jesus que tanto me amais fazei que eu vos ame sempre e cada vez mais”.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Carta de Santa Catarina ao Arcebispo de Otranto - Fim

Coragem portanto, não adormeçais, levantai a bandeira da santíssima Cruz. Contemplemos o Cordeiro imolado por nós e cujo corpo sangra por todas as partes. Ó doce Jesus, quem te obrigou a derramar com tal abundância? O amor que tu nos tens e a aversão ao pecado, me respondes tu. Ele deu-nos o seu sangue misturado com o fogo da caridade. Apoiemo-nos nesta árvore, e sigamos com ele o caminho direito. Alegremo-nos porque todos os nossos inimigos se tornaram fracos e doentes, graças ao doce filho de Maria, o Filho único de Deus. O demónio está enfraquecido, ele não pode mais exercer o seu império sobre o homem. A nossa carne, que o Filho de Deus nos tomou emprestada, foi flagelada pelos opróbrios, o suplício, as injúrias, pelo que desde que a alma contempla esta carne, ela deve imediatamente renunciar a revoltar-se.
Os louvores ou as injúrias dos homens não a atingirão se tomar por modelo o doce Jesus, que apesar de todas as injúrias, da nossa ingratidão, das nossas adulações, não renunciou à obediência para glória do Pai e para nossa salvação; a glória do mundo será portanto destruída pelo desejo e o amor da glória de Deus.
Lançai-vos portanto neste caminho. Alimentai-vos e deleitai-vos de almas, a exemplo da primeira e doce Verdade e do bom Pastor que deu a sua vida pelas suas ovelhas. Sim, trabalhai prontamente pela honra e a exaltação da santa Igreja; não temais nada do que surgiu ou que possa surgir, são outras tantas armadilhas que vos tende o demónio a fim de travar as vossas santas e boas resoluções e para vos impedir de terminar o que foi começado. Acreditai que ele pressente a sua desgraça!
Fortalecei-vos e fortalecei o nosso Santo Padre, não temais nada e agi virilmente, sem descanso. Fazei de maneira que eu sinta e veja que vós sois uma coluna inabalável e que nenhum vento jamais poderá sacudir-vos. Falai livremente e sem medo e dizei a verdade sobretudo naquilo que vos parece concorrer para a glória de Deus e a reforma da santa Igreja. Não temos nós mais que esta vida? Então, sacrifiquemo-la mil vezes, e mais se for necessário, e suportemos as penas e as flagelações por amor de Cristo que arde de amor, ao ponto de se aniquilar para glória do Pai e para nossa salvação.
Não direi mais nada, meu Pai; se ele não tivesse mais ninguém, então não pararia jamais. Experimentei uma alegria imensa ao dar-me conta, pelos vossos cuidados, da chegada do Cristo da terra e o começo da santa Passagem. Que o que chegou não abrande o vosso ardor, não vos deixeis vencer pela desordem, vós e o Santo Padre, é na adversidade que todas as coisas se farão.
Soube que o Mestre[1] da nossa Ordem deverá ser nomeado cardeal. Eu vos peço, pelo amor de Jesus crucificado, defendei os interesses da Ordem e pedi ao Cristo da terra que nos dê um bom vigário. Gostava que falásseis do mestre Estêvão de la Combe, que foi Procurador da Ordem da Província de Toulouse. Se ele for escolhido, creio que será uma grande honra feita a Deus e a nossa Ordem poderá finalmente ser reformada, pois parece-me que é um homem viril, virtuoso e sem temor. Actualmente nós temos necessidade de um médico que não tenha medo, e que use da lâmina da santa e direita justiça; até ao presente temos usado tanto de unguentos que os nossos membros estão quase todos apodrecidos.
Escrevi uma carta sobre este assunto ao Santo Padre, sem no entanto lhe sugerir nomes, simplesmente lhe pedi que nos desse um bom vigário, e que falasse consigo e com o monsenhor Nicolau d’Osimo. Se acreditais que o frei Raimundo vos pode ser útil neste assunto, ou por qualquer outra razão, escrevei-lhe e ele rapidamente se colocará ao vosso serviço. Não direi mais nada. Permanecei na santa e doce dilecção de Deus. Gerardo Bonconti, que se julga vosso indigno servidor, recomenda-se aos vossos bons pensamentos, bem como a minha mãe que vos quer como um pai. Doce Jesus, Jesus amor.

[1] O Mestre da Ordem era então frei Elias de Toulouse. Não foi nomeado cardeal como temia Santa Catarina e continuou a governar a Ordem até 1380, quando foi deposto do ofício por ter seguido o partido de Clemente VII. Morreu em 1390. Depois da deposição foi frei Raimundo de Cápua, a quem também Santa Catarina se refere nesta carta, que governou a Ordem e procedeu à reforma que ela tanto desejava.