domingo, 10 de abril de 2016

Homilia do III Domingo do Tempo Pascal

Lemos quase na íntegra o capítulo vinte e um do Evangelho de São João, um capítulo que aparece no Evangelho quando o autor do texto tinha dado já por finalizada a sua obra, e por isso este capítulo denuncia, face à centralidade da figura de Pedro, uma justificação, como que uma reabilitação do apóstolo Pedro.
Contudo, e ainda que haja algum desejo de reabilitação de Pedro, este texto pode ser considerado uma longa parábola, na qual todos estamos presentes na pessoa de Pedro, cada um de nós individualmente e a Igreja enquanto corpo e comunidade.
Necessitamos por isso de ler atentamente este texto e de perceber como à luz da ressurreição, somos convidados a uma nova atitude, a uma outra abordagem da realidade e dos seus desafios.
Nesta nova abordagem, o primeiro desafio a enfrentar é o da inserção na dinâmica da ressurreição, inserção plasmada no contraste da noite infrutífera de trabalho de Pedro e dos companheiros. Após a ressurreição de Jesus não nos podemos lançar ao trabalho sem contar com a sua presença, sem contar com a sua palavra, sem ter presente o fruto da sua paixão e da sua morte.  
Pedro e os companheiros não pescaram nada durante toda a noite porque se esqueceram de contar com o Senhor, e sobretudo esqueceram-se de contar com a necessidade de lançar as redes para a direita. Pode parecer um pormenor, mas é extremamente significativo, porque na simbólica da literatura bíblica a direita associa-se à justiça de Deus.
Deste modo Pedro, e com ele a Igreja e cada um de nós, é convidado a realizar a sua pesca, o seu trabalho, a missão solicitada, à luz da justiça de Deus, pois só assumidos nessa justiça o trabalho e a missão podem verdadeiramente dar frutos, a pesca pode ser verdadeiramente milagrosa.
Inevitavelmente, para que tal aconteça, temos que estar atentos à Palavra, temos que perceber tal como o discípulo amado que Jesus caminha muitas vezes nas margens da nossa vida e que é desde aí que nos manda lançar as redes na justiça que nos alcançou do Pai. A escuta atenta da Palavra, o estudo e a leitura da Sagrada Escritura, faz-nos mais atentos ao que o Senhor nos pede ou oferece. 
Esta atenção ajuda-nos também a perceber o amor que o Senhor nos solicita, um amor novo, radical e fundamentado, um amor que não pode ficar apenas pela facilidade e pelo poético, pela resposta às nossas expectativas. E é esse amor que está em causa quando Jesus pergunta três vezes a Pedro se o ama.
Podemos estabelecer um paralelo entre estas três perguntas e as três negações de Pedro, mas não podemos deixar também de estabelecer uma graduação, um desenvolvimento no desafio colocado a Pedro. O objectivo do questionamento de Jesus é assim a passagem de um amor voluntarioso, de um amor adolescente se assim se pode chamar, para um amor que aceita e acolhe a vontade do outro, neste caso a vontade do Pai que é Deus.
Por esta razão, e ainda que o autor do texto diga que o objectivo é profetizar a morte de Pedro, as palavras finais de Jesus são um sublinhado dessa necessidade de se deixar conduzir, de se deixar levar pela mão de outro, ao contrário da juventude, do amor voluntarioso em que cada um se conduz por si próprio e pelas suas paixões.
As três perguntar de Jesus obedecem também ao objectivo de fazer perceber a Pedro e a cada um de nós a necessidade de vivermos o amor não só numa dimensão vertical, em relação a Deus que devemos amar sobre todas as coisas, mas também numa dimensão horizontal, amando os irmãos, porque se não amamos aqueles que vemos como vamos amar Aquele que não vemos.
É esta a razão de Jesus, após cada resposta de Pedro, apresentar a necessidade de cuidar e olhar pelas ovelhas e pelos cordeiros, por aqueles que constituem a comunidade e à frente da qual Pedro tinha sido colocado.
Este capítulo vinte e um do Evangelho de São João encerra assim em si, e neste acontecimento da terceira manifestação de Jesus como ressuscitado, uma dupla profissão, uma dupla declaração, primeiro de fé, em Jesus ressuscitado, e depois de amor em Jesus presente nos irmãos.
Dupla profissão que condiciona e ilumina o seguimento que Jesus propõe a Pedro e a cada um de nós enquanto Igreja, um seguimento que assume a verdade da justiça alcançada do Pai pelo Filho, e que nessa justiça assume igualmente o amor para com os irmãos como uma tarefa fundamental.
Procuremos pois nesta semana que agora iniciamos, e na qual somos convidados pela Igreja a rezar pelas vocações consagradas, viver cada momento como um convite de Deus a mergulhar na sua justiça e a cuidar dos irmãos como presença viva do ressuscitado.

 
Ilustração:
1 – “A pesca milagrosa”, de Gaspar de Crayer, Museu de Belas Artes de Lile.
2 – “Domine quo vadis?”, de Andrey Mironov.

domingo, 20 de março de 2016

Homilia do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Durante as semanas da Quaresma fomos realizando uma caminhada, uma preparação em ordem a chegar a este pórtico, como é o Domingo de Ramos, que nos introduz na grande semana que hoje começamos a viver e na qual recordamos e fazemos presente o mistério da nossa redenção. Iniciamos a Semana Santa, a semana dos mistérios, e para nos ambientar ao que vamos celebrar o Evangelho de São Lucas que lemos recordava-nos não só a Paixão de Jesus mas também a Última Ceia.
Esta narração dos dois momentos coloca-nos de sobreaviso relativamente ao que vamos celebrar, à unidade intrínseca entre os momentos que se sucedem no tempo, na história e na celebração litúrgica. A memória da Última Ceia ajuda-nos a compreender que todo o sofrimento, toda a derrota que parece acontecer, a paixão e a morte, têm um fundamento, um sentido, que é o amor.  
Sem o amor tudo o que escutamos e tudo o que vamos viver não tem sentido, é apenas mais uma tragédia que pode ser esquecida tal como tantas outras que são esquecidas. Contudo, se desde há dois mil anos a recordamos em cada Páscoa, e a partir dela em cada domingo e em cada celebração da Eucaristia, é porque o amor a liberta dessa finitude, dessa dimensão trágica e do esquecimento.
É o amor que faz memória, assim como foi o amor que conduziu aquele que é o objecto de toda a violência, Jesus Cristo. É o amor que o leva a celebrar a Páscoa com os seus discípulos, a partilhar a refeição com o traidor, é o amor que proclama que o serviço é um dom e uma grandeza, quando eles querem saber quem é o maior, é o amor que se deixa conduzir sem resistência porque sabe que o bem gera sempre resistência da parte do mal.
É o amor que recompensa o amor, porque como semente lançada à terra esse amor não podia deixar de florescer e frutificar e por isso passados estes dias memoráveis de dor e sofrimento vamos encontrar na manhã de Páscoa o Senhor ressuscitado.
Celebrar assim a Semana Santa e a Páscoa da Ressurreição é recordar o amor, é recordar o início de um reino que não se funda sobre espadas, mas numa entrega aos outros para que eles possam viver, para que tenham vida, é recordar o início do reino do amor infinito, do amor a toda a prova.
Necessitamos por isso, tal como afirmava o profeta Isaías, ter os ouvidos atentos, despertar para a escuta, porque só escutando o bater do coração de Jesus neste drama podemos atravessá-lo com confiança e ter a graça de o partilhar com os outros nossos irmãos.
Necessitamos estar aos pés da cruz, sem preconceitos nem expectativas, para tal como o centurião romano intuir a presença da divindade naquele corpo chagado e maltratado, naquele homem sem poder nem glória, mas que é verdadeiramente um homem justo, o Filho de Deus.
Pedro e os outros apóstolos estavam dispostos a seguir Jesus, a dar a sua vida por um reino que era apenas uma ilusão das expectativas pessoais e da euforia da multidão que subia a Jerusalém para a festa da Páscoa.
Saibamos nós seguir Jesus nestes dias, na memória dos acontecimentos, para não desejar ou construir um reino ilusório, mas para experimentar verdadeiramente o amor e a partir dele e com o serviço que nos é pedido construir o verdadeiro Reino em cada dia do resto do ano.

 
Ilustração:
1 – “Judas abandona a Última Ceia”, de Carl Heinrich Bloch.

domingo, 13 de março de 2016

Homilia do V Domingo da Quaresma

O Evangelho deste quinto domingo da Quaresma apresenta-nos uma das histórias mais sublimes dos Evangelhos, uma das cenas mais marcantes da vida de Jesus, uma história de amor que só alguém verdadeiramente enamorado podia registar.
Todos sabemos como o Evangelho de São João é uma peça única, um texto complexo e ricamente elaborado, mas também sabemos como em muitas situações é um relato vivo de alguém que testemunhou os acontecimentos em primeira mão.
A riqueza deste texto e de certa maneira a sua especificidade resulta da experiência amorosa vivida pelo seu autor, esse jovem que é apelidado do discípulo amado e que sem qualquer receio repousa a sua cabeça sobre o peito de Jesus no momento da última ceia.
É essa experiência do amor do Mestre que o leva a notar os gestos amorosos que o mesmo Mestre dirige aos outros; e, no caso de hoje, a esta mulher que é trazida à sua presença acusada de um crime que apenas tem como objectivo incriminar o próprio Mestre Jesus. Aqueles escribas e fariseus sabiam muito bem ao que vinham e a mulher era apenas um pretexto, um alibi para o crime que desejavam perpetrar.
Tal como nos diz o texto, é uma armadilha para incriminar Jesus, que tal como a mulher se vê colocado no centro das atenções, no centro da roda da violência. Se Jesus responde que se atirem as pedras à mulher, que seja condenada pelo adultério, infringe não só as leis dos romanos mas contradiz também toda a sua palavra de amor e misericórdia. Pelo contrário se a deixa sem condenação está a negar a Lei de Moisés e igualmente a negar a sua palavra quando afirma que não tinha vindo revogar a Lei mas aperfeiçoá-la.
Jesus está encurralado, encostado à parede, e sem outra saída partilha a sorte da mulher, desce até ela e à sua sorte quando se abaixa e começa a escrever no pó do chão do templo. É o amor que desce até ao pecado, é a misericórdia que desce até à infidelidade e partilha a sua condição. E com o dedo que lavrou as pedras da Lei entregues a Moisés começa a escrever no pó da terra as faltas dos homens.
Podemos imaginar a surpresa daqueles homens, dos discípulos que expectantes esperavam uma resposta do Mestre, da própria mulher que naquele impasse continuava sem saber o seu futuro. E como insistiam com Jesus e nada do que escrevia no chão os vergava à verdade, Jesus ergue-se com autoridade e sem medo lança-lhes o maior desafio: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.
É a resposta inesperada, é a prova da partilha da condição do pecado da mulher, é o confronto com o pecado que afinal todos tinham cometido ao trazer aquela mulher para o tentarem incriminar a ele. Só Jesus podia proclamar este desafio, ele que não tinha conhecido o pecado e se fez pecado para salvar todos os homens. Ele que conhecia o pecado de todos podia de caras confrontar-se com os pecados daqueles homens. E perante tal desafio foram saindo um a um a começar pelos mais velhos.
Diz-nos São João, o jovem discípulo amado, que ficaram apenas a mulher e Jesus e que este depois de lhe ter perguntado pelos acusadores também a enviou para casa sem a condenar mas com a recomendação de não voltar a pecar. A mulher faz a experiência do perdão e João testemunha o amor de Jesus, que não veio para condenar mas para salvar, que não veio para aprisionar os homens na culpa mas libertá-los de modo a poderem ter uma vida nova.
Jesus ao dizer àquela mulher apanhada em flagrante que também ele não a condena está a libertá-la da sua falta, do seu pecado, está a ir ao encontro de uma ideia que trespassa as três leituras que escutámos e converge nessa necessidade de deixar o passado para trás, de perdoar e deixar-se perdoar para poder prosseguir com a vida.
E esta tentação de ficarmos presos ao passado, a uma qualquer falta que possamos ter cometido, é bastante frequente e devido a ela não somos capazes de dar um passo em frente, não temos a coragem de acreditar que o futuro ainda está por viver e pode ser muito diferente.
A história da mulher apanhada em adultério que São João testemunhou e nos conta tem esse mérito de nos colocar diante do perdão de Jesus, do seu amor extremo e solidário com o homem vítima do pecado, assim como tem o mérito de nos dizer que Deus não nos quer aprisionados à culpa do mal cometido mas que nos liberta dela para podermos viver uma nova oportunidade de plenitude e fidelidade.
Nesta Quaresma e neste Ano da Misericórdia devemos estar assim atentos à oferta que o Senhor Jesus nos faz através da Igreja e do sacramento da Reconciliação para fazermos essa experiência de amor, para nos darmos uma nova oportunidade de vida.
Que o medo não nos tolha os passos nem as nossas faltas nos desencorajem, porque o Senhor espera de braços abertos cada um de nós para nos dizer, vai e não tornes a pecar, para nos oferecer um novo futuro, a sua graça para vivermos como Filhos da Luz e da Verdade.

 
Ilustração:
1 – “Cristo e a pecadora”, de Andrey Mironov.
2 – “Cristo e a mulher adúltera”, de Polidoro Da Lanciano, Museu Belas Artes Budapeste.

domingo, 6 de março de 2016

Homilia do IV Domingo da Quaresma

O quarto domingo da Quaresma é conhecido pelo domingo “laetare”, o domingo da alegria, um domingo que no meio da caminhada quaresmal nos convida a levantar os olhos, a renovar a alegria, a restabelecer a nossa confiança e esperança no Senhor que vem ao nosso encontro.
A nossa caminhada até este momento pode ter sido mais ou menos dura, mais ou menos difícil, podemos ter apontado uns objectivos ou propósitos para vivermos este tempo de preparação para a Páscoa e ainda estarmos muito longe de os vermos concretizados apesar da nossa luta e esforço.
Em outros casos podemos não ter estabelecido propósito algum, podemos não ter entrado ainda na Quaresma e estarmos a viver este tempo liturgicamente forte e transformador como habitualmente vivemos o resto do ano, rotineiramente nos nossos processos de adaptação ou camuflagem, deixando passar ao lado a oportunidade de uma conversão, de uma mudança de vida.
E é desta mudança que nos falam as leituras de hoje, de uma reconciliação que não está na nossa mão controlar, manipular, mas que nos é oferecida gratuitamente, e portanto apenas pode ser acolhida como um dom, com uma disposição à liberdade e à liberalidade de quem o oferece.
É também desta liberdade e liberalidade que trata a parábola que escutámos no Evangelho de São Lucas, parábola conhecida como parábola do filho pródigo ou do pai misericordioso, mas que também pode ser apresentada como parábola do egoísmo quando centramos a nossa atenção no filho mais novo que pede os seus bens ao pai, ou parábola do orgulho e da inveja quando nos detemos nas palavras e atitudes do filho mais velho.
E entre um e outro filho o pai misericordioso não deixa de manifestar o seu grande amor, o seu coração aberto aos filhos, a disposição para não se centrar em si próprio, nas suas dores e mágoas, mas para sair sempre ao encontro de cada um, quer esteja de regresso ou quer se recuse a entrar em casa.
É o pai que age, é o pai que entrega os bens ao filho mais novo, assumindo a vergonha da afronta, é o pai que o espera e se lança ao seu encontro, é o pai que não lhe permite a humilhação de uma desculpa, é o pai que o reintroduz em casa e lhe restabelece a dignidade.
E quando o filho mais velho, ofendido pelo amor do pai para com o irmão, se recusa a entrar em casa e a partilhar a festa, é novamente o mesmo pai que sai ao seu encontro, que o vem desafiar no seu orgulho, que o convida a alegrar-se com o irmão que voltava vivo.
O pai é o eixo em que se move o desafio do amor, amor em relação a si próprio por parte dos filhos e amor entre os irmãos. Não importa o que fizeram e como o fizeram, ou o que deixaram de fazer, o verdadeiramente importante é a disposição para entrar no amor do pai, para acolher com total liberdade a liberalidade amorosa do pai.
Como nos diz São Paulo na Carta aos Coríntios que escutámos, Deus reconciliou-nos consigo em Jesus Cristo e confiou aos seus discípulos o ministério da reconciliação, ou seja, esta mesma liberdade de oferecer aos outros com liberalidade uma nova oportunidade, o acolhimento que buscam nas suas angústias.
Conscientes deste ministério temos que assumir que muitas vezes somos o filho mais novo, que parte para longe da casa do pai, que esbanja a sua herança nas incoerências e infidelidades, que procura desculpas para tentar uma reaproximação ao pai que é Deus. Também nós fomos longe e desejamos voltar a casa. Que o saibamos fazer sem medo e sem desculpas, apenas confiantes que o Pai nos ama e que nos convida a amar e a conceder uma oportunidade a todos os seus filhos.
Outras vezes, e temos que o assumir, também conscientemente, somos o filho mais velho que permanece, que fica em casa e não esbanja nada, mas por medo e orgulho é incapaz de conhecer o pai e a liberalidade do seu amor. Integrados no sistema e na rotina não sabemos o que é a liberdade, desconhecemos a alegria do dom sem retorno. Não fomos longe, mas também não conhecemos a casa do Pai em que habitamos. Que saibamos viver em liberdade, agradecidos pelo que somos e temos, sem inveja de qualquer dom ou graça dos outros nossos irmãos.
Conscientes do ministério da reconciliação, de como fomos reconciliados com Deus em Jesus Cristo, que assumamos determinadamente o papel do pai da parábola que sai ao encontro de cada um dos seus filhos; que sem medo nem inveja, com a profunda liberdade de Deus, saibamos acolher todos os nossos irmãos com todos os seus percursos e saibamos ver neles a presença de Deus que nos conduz à plenitude.

 
Ilustração:
1 – “O filho pródigo recolhe a sua herança”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado.
2 – “O regresso do filho pródigo”, de Salvator Rosa, National Gallery do Canada.

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Homilia do III Domingo da Quaresma

Celebramos o terceiro domingo da Quaresma e, quase sem nos darmos conta, estamos a meio do caminho de preparação que nos propusemos viver para a celebração da Páscoa deste ano de dois mil e dezasseis. Urge assim perguntar sobre o que mudámos, o que fizemos de diferente, aferir os nossos passos no sentido da conversão.
Este é o tempo propício, a nova oportunidade que o Senhor nos concede, à semelhança do que acontece no Evangelho de São Lucas que escutámos. Uma vez mais o Senhor, como bondoso vinhateiro oferece-nos uma nova oportunidade para darmos frutos, para procurarmos dar frutos, correspondendo ao seu cuidado expresso na adubação e no amanho da terra.
Esta correspondência, a resposta que nos compete dar, não pode esquecer esta bondade do Senhor, esta generosidade do seu amor cuidadoso, mas não pode deixar também de ter presente duas outras realidades fundamentais e estruturantes da nossa resposta possível, como são a tentação do orgulho e a relação pessoal e única de Deus com cada um de nós.
Esta tentação do orgulho aparece-nos expressa nas histórias dos acidentes que são apresentadas a Jesus no Evangelho, pois aqueles que se apresentam com as histórias da infelicidade dos outros não se consideram passiveis da mesma infelicidade, uma vez que eles se consideram bons, poderíamos dizer até muito bons. É uma mentalidade, uma cultura da lógica do castigo pelo mal realizado, e que ainda hoje trespassa algumas das perguntas que colocamos quando algo de mal acontece.
Contudo, Jesus liberta-nos desta lógica, pois responde àqueles homens que as vítimas do mal não eram piores que eles, que a sua morte não era uma satisfação por alguma ofensa a Deus, mas que todos nos encontramos na mesma situação de poder ser vítimas e por essa razão o verdadeiramente fundamental é a disposição para a mudança, a nossa atenção à necessidade de conversão.
Como diz São Paulo aos Coríntios, na leitura que escutámos, estes acidentes, estas catástrofes, são advertências para a nossa condição e para a nossa situação no mundo, precária e finita, sujeita a acidentes e transtornos, e portanto o verdadeiramente importante é o cuidado, é a atenção, como se diz em outras passagens dos Evangelhos é a vigilância, vigilância face a nós, ao mundo e a Deus.
Esta vigilância atenta às nossas fragilidades e limitações, às nossas falhas, liberta-nos do orgulho de pensarmos que somos melhores que os outros, de irmos pela vida como se ela fosse um conto de fadas e que tudo se resolve com a nossa força e capacidades. Esta vigilância coloca-nos face a Deus que nos acompanha e que sofre com o nosso sofrimento e se alegra com a nossa alegria, que nos convoca a sofrer e a alegrar-nos com o sofrimento e a alegria dos outros.
Por esta razão, por esta presença pessoal e única, Deus não se apresenta com um nome quando se revela a Moisés na sarça ardente, mas revela-se como Aquele que é, Aquele que está presente e se relaciona e por isso pode ser dito Deus de Abraão, Deus de Isaac e Deus de Jacob.  
Este Deus adquire hoje mesmo o nome de cada um de nós, é o Deus do Manuel, o Deus da Maria ou o Deus do João, porque continua a ser quem é, sempre foi e será pela eternidade, e porque contínua presente na relação que se estabelece com ele, no acolhimento que se lhe presta na vida de cada um.
Na nossa caminhada quaresmal, neste terceiro domingo, somos assim convidados a olhar a nossa relação com Deus, a perceber a forma pessoal como Deus se relaciona com cada um de nós e nos solicita a mesma relação, como nos convida nas circunstâncias da nossa vida a uma mudança, a uma conversão para que essa relação possa ser cada vez mais intima e pessoal.
Neste domingo somos igualmente convidados a perceber os frutos que demos ou ainda não demos, como se encontra a nossa fertilidade de obras para a eternidade, e nelas a nossa capacidade de perdão, a nossa bondade e generosidade no sentido de conceder uma nova oportunidade aos outros que falharam connosco.
Se esperamos a misericórdia de Deus não podemos esquecer que Ele nos pede a capacidade de perdoar os outros, de fazer a experiência do perdão, da nova oportunidade, pois só nesse espirito e dessa forma farão sentido e serão vida as palavras da oração dominical que rezaremos, “perdoa-nos Senhor como nós perdoamos”.

 
Ilustração:
1 – “O vinhateiro e a figueira”, de James Tissot, Brooklyn Museum.   
2 – “Moisés e a sarça ardente”, de Giovanni Antonio Guardi, Dorotheum, Viena.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Homilia do II Domingo da Quaresma

Estamos a celebrar o segundo domingo da Quaresma e as leituras que escutámos, de modo particular a leitura do Livro do Génesis e o Evangelho de São Lucas, colocam diante de nós uma realidade profundamente humana, um desafio que nos toca a todos face aos projectos a que nos lançamos. É a realidade da impaciência e o desafio da esperança paciente.
Iniciámos o projecto da caminhada quaresmal, e como dizíamos no domingo passado, um processo de combate, um tempo de conversão em que nos dispomos a estar mais atentos quer à nossa relação com Deus quer à nossa relação com os irmãos.
Contudo, e tal como acontece com tantos outros projectos e desafios da nossa vida, desejamos ver rapidamente os resultados, como se os esforços aplicados fossem automaticamente reproduzidos em alterações, em novas realidades. Não temos tempo para esperar, não desejamos aguardar.
E no entanto a natureza, nos seus ciclos, recorda-nos todos os dias que há um tempo para semear e um tempo para colher, um tempo para o treino disciplinado e um tempo para o combate eficaz. Há necessidade de tempo, há necessidade de confiar e de esperar.
É esta confiança paciente que Deus pede a Abraão, quando este pergunta sobre o modo de realização da promessa feita. Como saber que vai de facto possuir a terra que Deus lhe prometeu, que a sua descendência será tão numerosa como as estrelas do céu?
Abraão está já envolvido na realização da promessa, ela desenrola-se aos seus olhos, mas deseja vê-la completa, cumprida na sua totalidade. Podemos dizer que Abraão está impaciente, que já está cansado das promessas e portanto exige um pouco mais de Deus, uma acção mais eficaz.  
Diante desta exigência e impaciência, Deus volta novamente a comprometer-se e a sua passagem como fogo pelos animais sacrificados é o selar desse novo compromisso, da aliança que estabelece, e de uma forma unilateral, pois Abraão não é comprometido no sacrifício.
Sabemos que no mundo semita antigo as alianças eram seladas pelo sacrifício de animais e que os dois intervenientes se responsabilizavam pela sua parte do compromisso com as metades dos animais sacrificados, assumindo desta forma que o outro lhe poderia dar a mesma sorte se faltasse ao prometido, se quebrasse a aliança.
Com Abraão apenas Deus se compromete na aliança; face à fé que Abraão já manifestou apenas se exige confiança e esperança no prometido, poderíamos dizer um pouco de paciência para deixar Deus fazer o que lhe compete.
E é esta fé, esta paciência confiante que também nos é pedida no nosso dia a dia e na nossa caminhada quaresmal. Deus está ao nosso lado e deseja viver connosco a realização dos nossos propósitos, mas para que tal aconteça temos que nos dispor, temos que nos dar tempo, porque a obra não é fácil e muitas vezes as circunstâncias e a rotina também não facilitam a acção do Espirito Santo.
Necessitamos acreditar e esperar, necessitamos confiar, manter um treino constante e disciplinado na paciência e na disponibilidade a que acção de Deus se desenvolva, necessitamos não cruzar os braços e desistir.
Mas, porque não é fácil, necessitamos igualmente um reforço vitamínico, uma degustação do que nos espera e está reservado, da realidade a que estamos destinados se soubermos aguentar, se não desanimarmos face ao tempo e às dificuldades. É esse reforço e degustação que experimentamos no momento da transfiguração de Jesus no monte Tabor.
Face aos perigos do anúncio da paixão e da morte, face ao perigo do desânimo e da impaciência, Jesus manifesta aos discípulos a glória que lhe é natural, a glória que eles poderão contemplar em plenitude se conseguirem ultrapassar todas as provas que se perspectivam no horizonte.
Também nós, como cidadãos do céu, como nos diz São Paulo na Carta aos Filipenses, poderemos não só contemplar esta glória, mas vivê-la plenamente se tivermos a paciência e a esperança para permanecer firmes face aos desafios e ao tempo que leva à realização da promessa.
A fé nas palavras de Jesus, a esperança na transformação do nosso corpo miserável em corpo glorioso, deve levar-nos a permanecer firmes e a lutar com paciência contra tudo aquilo que nos afasta e nos encerra à vontade de Deus, à sua promessa fiel, pois Deus não pode deixar ser fiel ao que promete. E espera que nós acreditemos na sua palavra para realizar a promessa!
A narração da transfiguração de Jesus, neste segundo domingo da Quaresma, serve assim para não desanimarmos face às dificuldades, aos embates que pudemos sentir ao iniciarmos uma caminhada nova, um novo tempo e propósito de conversão. Mas serve igualmente para não nos considerarmos satisfeitos com o que pudemos ter feito ou alcançado, com o que Deus pode ter realizado em nós.
A experiência da transfiguração é para nos levar mais longe, é para despertar em nós um desejo impaciente de mais e melhor, é para não nos deixar adormecer face ao que a graça de Deus pode já ter realizado em nós.
Tal como aconteceu com Abraão, o desenrolar e desenvolvimento da promessa da parte de Deus é para nos alavancar a novos desafios, a uma plenitude e radicalidade que passa pela disponibilidade de entregar o próprio filho, ou, como no caso dos discípulos, de saber perder o Mestre no qual depositámos as nossas expectativas humanas para o reencontrar como Filho de Deus glorioso pela vida resgatada à morte.
Que estes dias quaresmais sejam dias de esperança e confiança, de fé na Palavra que não se engana nem nos engana.

Ilustração:
1 – “Transfiguração”, de Meister des Universitats-Altars, Gemäldegalerie Alte Meister, Kassel.
2 – “Deus aparecendo a Abraão em Siquém”, de Paulus Potter, The-Athenaeum.org

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Homilia do I Domingo da Quaresma

Celebramos o primeiro domingo da Quaresma, e para muitos de nós aqui presentes é a primeira celebração em que participamos depois de se ter iniciado este novo tempo litúrgico.
A leitura do Evangelho de São Lucas, com as tentações de Jesus no deserto, insere-nos no espirito deste novo tempo, um tempo de penitência, um tempo de combate, um tempo de deserto, mas igualmente um tempo fortíssimo de esperança, de uma fé forte e exigente, de uma caridade apurada.
Entrar na Quaresma, assumir este novo tempo, é dispor-se a algo diferente, a procurar mudar alguma coisa na nossa vida, é dispor-se a um processo de conversão, que passa por nós mas também pela acção da graça de Deus, pela acção do Espirito Santo que acolhemos na nossa vida que desejamos transformar.
Por essa razão não podemos perder de vista uma das lições que o Evangelho de hoje nos apresenta na narração das tentações de Jesus, e que é a centralidade da Palavra de Deus na nossa vida e no combate às tentações. A cada tentação que se lhe apresenta Jesus responde com o que está escrito na Escritura, com o que é a Palavra de Deus. E esta centralidade adquire tal dimensão e poder que até o próprio diabo se vai servir das Palavras de Deus para seduzir Jesus na terceira tentação.
A Quaresma torna-se assim uma oportunidade para nos encontrarmos com a Palavra de Deus de uma forma mais intensa, mais profunda, para confrontarmos a nossa vida, gestos, palavras e sentimentos com a Palavra de Deus e para aferirmos de como ela fundamenta e alicerça a nossa vida. Aos vários desafios e tentações do nosso quotidiano sabemos responder com a Palavra de Deus, tal como Jesus respondeu?
Este encontro mais intenso e aprofundado com a Palavra de Deus na Quaresma, Palavra que está perto de nós como diz São Paulo na Carta aos Romanos, vai ajudar-nos também a desenvolver uma outra atitude, uma atitude que muitas vezes nos falta e que é a atitude da confiança, devemos dizer a virtude da fé, e que as tentações de Jesus nos colocam no horizonte.
Ao ser tentado no deserto Jesus mostra-nos que a tentação não é uma realidade da nossa condição pecadora, mas é uma possibilidade estrutural da obra criada, se assim se pode falar, e portanto tudo e todos estamos sujeitos à tentação, a essa possibilidade de inverter os termos da equação, de nos colocarmos no lado oposto do plano, de vivermos de acordo com a nossa vontade e esquecendo a vontade de Deus.
Esta possibilidade verifica-se de um modo mais frequente na expressão da primeira tentação que Jesus sofre, ou seja, na subjugação às nossas necessidades materiais, à satisfação dos nossos apetites. Quantas vezes não nos deixámos já vencer pela necessidade de ter mais isto ou aquilo, algumas vezes apenas em função da imagem social, e deixámos para trás o estar com o outro, o partilhar a nossa presença com aqueles que nos necessitam e necessitam da nossa palavra ou do nosso abraço?
O homem não vive só de pão, o homem não se realiza apenas com os bens materiais, por melhores que eles sejam, ou por maior gratificação que produzam; o homem necessita do outro, necessita da palavra do outro, porque é na palavra trocada que o homem verdadeiramente se realiza. Somos criaturas da palavra, feitos à imagem da Palavra do Pai e sem ela perdemos o sentido da nossa existência, a realização plena a que estamos destinados.
E porque somos homens da Palavra e feitos para o diálogo não nos prostramos diante de um outro qualquer, de uma qualquer realidade ou oferta de poder e glória, tal como se patenteia como possibilidade na segunda tentação que Jesus sofre no deserto. Essa subjugação idolátrica afecta-nos na nossa dignidade, na nossa condição de filhos de Deus, subtrai-nos as vias da plena realização.
Quando Jesus responde ao demónio que só a Deus é devida a adoração está a colocar-nos face ao espectro dos valores fundamentais, a desafiar-nos também a nós na reconfiguração dos nossos valores e prioridades, a não deixar de ter Deus presente, princípio e fim da nossa existência, fundamento da dignidade e valor de todas as realidades. O que vale cada coisa vale pelo que desenvolve a obra de Deus.
E é neste desenvolvimento da obra de Deus que se joga a terceira tentação de que Jesus é objecto. O demónio seduz Jesus no sentido da irresponsabilidade, poderíamos dizer da omissão da sua cota-parte na realização da missão que lhe foi confiada, a partir da fé da acção amorosa do Pai. Sabendo que o Pai o não deixaria sofrer poderia fazer tudo o que quisesse.
Esta é uma tentação que também nós muitas vezes sofremos, e acontece frequentemente em ambiente religioso, de vivência da fé, pois ficamos à espera que Deus realize a sua parte omitindo a realização da nossa parte. Quantas vezes em crianças prometemos a Deus que íamos ser melhores se nos ajudasse no exame da escola, mas para o qual não estudámos o que devíamos?
Como criaturas de Deus, seres inteligentes e livres, dignos e capazes de palavra e compromisso, foi-nos confiada a continuação da realização da obra de Deus, e por essa razão não podemos tentar a Deus querendo ou pedindo que faça o que nos compete.
Este princípio deve estar presente também nesta Quaresma, e por isso se queremos fazer algo de diferente, algo melhor, se queremos mudar alguma coisa na nossa vida, devemos assumir a nossa responsabilidade e cota-parte de trabalho e esforço.
Se o fizermos, Deus estará do nosso lado, e na Páscoa da Ressurreição poderemos apresentar as primícias da nossa terra, o leito e o mel da terra que é a nossa vida e o Senhor nos confiou para habitar e fazer produzir.

 
Ilustração:
1 – “Jesus no deserto”, de Briton Rivière, Guildhall Art Gallery, Londres.
2 – “A Tentação de Jesus”, de Jacopo Tintoretto, Scuola Grande di San Roco, Veneza.