quarta-feira, 23 de março de 2011

Discutamos as nossas razões (Is 1,18)

De tanto lermos os textos bíblicos, e outras vezes por quase nunca os lermos, muitas vezes passamos pelas palavras da Revelação como cão por vinha vindimada, ou seja, não nos dando conta da novidade e da radicalidade do que nos é dito da parte do Senhor.
E ainda que, o que nos é revelado seja traduzido por palavras humanas, não deixa de ser novidade divina e não deixa de nos mostrar como Deus verdadeiramente é. Neste caso como verdadeiramente é o Deus verdadeiro, porque qualquer outro deus criado à nossa imagem e semelhança não seria capaz destas palavras, deste convite.
Vinde, discutamos as nossas razões”, é o convite que nos é feito pelo Senhor, um convite que mostra a liberalidade de Deus, a sua confiança em nós, nos homens, e a sua capacidade de diálogo, afinal a proposta muito próxima de uma relação de igual para igual.
Qualquer outro deus, um deus menor feito à medida das nossas necessidades não teria esta capacidade, bem pelo contrário seria implacável para justificar a sua divindade, seria subjugador para poder ser deus e reconhecido como tal, imporia os seus fardos e os seus preceitos e leis sem qualquer condescendência, sem qualquer questionamento.
Que alegria e que paz descobrir e dar-se conta de que o Deus verdadeiro que se nos revela ao longo dos tempos e da história dos homens é um Deus que preza o homem, que privilegia a sua dignidade, que reconhece a capacidade de diálogo, que se dispõe a esse mesmo diálogo com o homem, afinal a discutir as razões de uma e outra parte, a dos homens e a sua.
E da discussão das razões, à luz da justiça e do respeito vividos para com os outros, nascerá a libertação, a erradicação dos nossos pecados, manifestar-se-á a misericórdia de Deus que nos conhece e reconhece nas nossas fraquezas e debilidades, nos limites da nossa própria condição de criaturas e filhos propensos à independência e à vadiagem.
Que confiança não deve então reinar no meu coração e no meu espírito sempre que me aproximo de Deus? Como é possível que ainda tenha medo deste Deus que me convida a discutir as razões? Só quem verdadeiramente me ama e me deseja se pode dar a este luxo e a esta liberdade. Senhor que eu saiba apreciar o poder e a dignidade que me reconheces de te dar razão das minhas razões.

1 comentário:

  1. Frei José Carlos,

    Ao recordar-nos um dos versículos do profeta Isaías (1,18), fala-nos, de forma profunda, de como Deus verdadeiramente é, da relação de confiança que estabelece com o ser humano, da Sua capacidade para o diálogo, para o perdão, que conhece as nossas forças e fraquezas, de como se manifesta a Sua infinita misericórdia.
    É um belo texto que nos desinstala, que nos incomoda porque tantas vezes esquecemos que Deus, é um Deus de amor, de diálogo, que não nos abandona. Permita-me que o cite.
    ...” Que alegria e que paz descobrir e dar-se conta de que o Deus verdadeiro que se nos revela ao longo dos tempos e da história dos homens é um Deus que preza o homem, que privilegia a sua dignidade, que reconhece a capacidade de diálogo, que se dispõe a esse mesmo diálogo com o homem, afinal a discutir as razões de uma e outra parte, a dos homens e a sua.”… (…)
    …” E da discussão das razões, à luz da justiça e do respeito vividos para com os outros, nascerá a libertação, a erradicação dos nossos pecados, manifestar-se-á a misericórdia de Deus”…
    Peçamos ao Senhor que no nosso processo de conversão saibamos fazer do convite que nos é dirigido por Deus “Vinde, discutamos as nossas razões”, a norma que nos guie no quotidiano nas relações com o outro.
    Obrigada por esta importante e bela partilha, por recordar-nos o Deus verdadeiro. Bem haja.
    Um abraço fraterno
    Maria José Silva

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