quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Santos Arcanjos Miguel, Gabriel, Rafael

Do silêncio de Deus surgiram na vida e na história dos homens. Foram enviados para cumprir uma missão e cumpriram-na, ou continuam a cumpri-la cada dia, em cada história e em cada homem. Foram, e são, enviados, eles que contemplam Deus face a face e portanto trazem aos homens um reflexo dessa contemplação.
A arte representa-os em beleza porque só podem ser belos os seres que contemplam a suprema beleza face a face. Povoam os quadros da Anunciação, da história de Tobias, do juízo final e da vitória sobre o maligno. Os seus vestidos e a armadura dançam ao ritmo do vento, leves como eles e as plumas das suas asas. São belos e graciosos, seres eternos, espirituais, mas também visualmente carnais. Um lírio na mão, um peixe, uma balança, marca o que cada um foi incumbido de realizar, a missão a que cada um foi destinado.
Hoje continuam as suas missões e junto de nós continuam a manifestar a presença de Deus. Gabriel recorda-nos o Deus que se fez homem como nós, a necessidade de uma resposta e de um coração puro como um lírio para que ainda hoje esse mesmo Deus se faça homem. Miguel recorda-nos como Deus está connosco, como com a sua força podemos vencer o mal que nos ataca. Rafael recorda-nos que em Deus se encontra o remédio para os nossos males, que mesmo quando caímos e nos ferimos Deus vem ao nosso encontro com o remédio para nos curar.
Que melhores companheiros de viagem poderíamos pedir ao Senhor que os três Arcanjos. Que eles sempre nos acompanhem e protejam.

A imagem é uma das raras representações, se não a única, que se encontra em Lisboa do Arcanjo São Rafael. Encontra-se na igreja paroquial de São João da Praça.

domingo, 26 de setembro de 2010

Homilia do XXVI Domingo do Tempo Comum

A parábola que Jesus conta no Evangelho que acabámos de escutar é uma parábola que toca profundamente as dimensões fundamentais da nossa fé, no que elas têm de cumprimento, de exercício, e de fundamento, raiz, desse mesmo exercício.
A parábola na sua constituição e narração, e tocando essas dimensões fundamentais, divide-se em duas partes; uma primeira centrada na morte dos personagens e lugar que ocupam após a vida vivida, e uma segunda parte centrada sobre a escuta, a atenção face ao anunciado e enunciado pela lei e pelos profetas.
Assim, encontramos um homem, rico e bem vivido, que após a morte se encontra sepultado na mansão dos mortos. Por outro lado um pobre, Lázaro, que jazia à porta do rico e ao qual nenhuma atenção tinha sido dada por parte do rico enquanto vivo, mas que agora, depois de morto, o encontra ao lado de Abraão, ou seja no paraíso, gozando das delicias que na terra lhe tinham faltado ou sido negadas. Na sua infelicidade, o homem rico pede a ajuda de Lázaro, mas tal é impossível, ainda que o pedido solicite um gesto tão simples e mínimo como refrescar a língua com água. A impossibilidade resulta do abismo que existe entre ambos, entre as duas realidades, um abismo inultrapassável.
Esta impossibilidade e abismo mostram a distância que o homem rico tinha criado enquanto vivia, porque foi ali que se gerou o abismo e a impossibilidade. Ao negar a ajuda ao pobre Lázaro, ao recusar uma relação com ele, mesmo que mínima, criou a situação em que agora se encontra, um situação eterna porque deriva de uma outra situação provisória e temporal.
Podemos pensar no mandamento da caridade, na solidariedade, na sua não vivência, na critica do profeta Amós da primeira leitura para enquadrar e justificar a situação em que se encontra o homem rico, na condenação de que é alvo. Contudo, a condenação assenta sobre uma dimensão mais profunda e intrínseca ao ser humano, a dimensão da relação. É na relação que se vive a solidariedade e a caridade, é na relação que se reconhece o outro como pobre e necessitado, é na relação que se pode partilhar os bens, e o homem rico desta parábola recusou esta relação, inviabilizou-a ao não reconhecer e ao não ajudar o pobre Lázaro que jazia à sua porta.
Neste sentido esta primeira parte da parábola deve fazer pensar-nos na forma como nos situamos em relação aos outros, como criamos abismos ou estabelecemos pontes, cientes de que qualquer uma das realidades históricas, momentâneas que vivamos ou possamos viver terá inevitavelmente repercussões na eternidade. Não está em causa o que damos mas o próprio acto de dar, da entrega, da nossa disponibilidade para o outro.
E é perante esta nossa dificuldade que o rico pede a intervenção de um ressuscitado para alterar o percurso possível da história de cada um dos seus irmãos, ou seja, dos homens. Se alguém do outro mundo vier anunciar o que espera os homens que não forem capazes do acolhimento do outro e da caridade as coisas poderão ser diferentes.
Entramos desta forma na segunda parte da parábola e numa critica quase mordaz ao não acolhimento do ressuscitado Jesus Cristo, pois ainda que as palavras sejam colocadas na boca de Jesus não podemos esquecer que o Evangelho é já escrito depois da sua ressurreição e da rejeição por parte dos judeus desse acontecimento.
Para nós é também um desafio porque nos faz confrontar com a fé na ressurreição de Jesus e com a dimensão da oralidade, da textualidade, da nossa fé. Neste sentido, e tendo em conta que ninguém testemunhou a ressurreição de Jesus, podemos perguntar-nos sobre o fundamento da nossa fé nessa mesma ressurreição e em toda a vida e mensagem de Jesus. Ninguém assistiu à ressurreição, e os encontros com o ressuscitado chegam-nos sempre através dos testemunhos pessoais ou comunitários, inevitavelmente sempre através de testemunhos, da palavra de outros nos quais fazemos fé e colocamos a nossa confiança. Assim, quando na parábola é dito ao rico que os irmãos têm Moisés e os profetas, é dito e é nos dito que há um código, uma palavra, que há uma base que nos precede e à qual devemos procurar ser fieis, na qual devemos colocar a nossa confiança.
A ressurreição é desta forma relativizada, como acontecimento capaz de alterar as nossas vidas, porque o que altera ou pode alterar é a atenção, é a relação que se estabelece com a própria palavra, com a lei de Moisés, com os profetas, como cristãos com o testemunho que nos é legado por aqueles que experimentaram a presença do ressuscitado, por aqueles que viveram com Jesus e fizeram a experiência de se encontrarem com o Filho de Deus, ou seja a relação com o Evangelho.
Esta parábola coloca-nos assim, e desta forma crua, talvez até ácida, perante o que fundamenta a nossa fé, em que acreditamos e em que nos fundamentamos para acreditar, e depois como na nossa vida explicitamos aquilo em que acreditamos, com o tornamos vida e vida transformadora. Afinal tudo se joga em relações, na relação que estabelecemos com a palavra do testemunho e na relação com o outro que testefica a encarnação actual e viva da palavra.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

E Herodes procurava ver Jesus (Lc 9,9)

Depois de ouvir tantas coisas, tantas histórias de milagres e actos considerados no mínimo provocadores, Herodes procurava ver Jesus, procurava ver aquele que tanto debate e discussão gerava entre os intelectuais e autoridades religiosas que frequentavam a sua corte. Queria vê-lo, como quem quer ver algo de bizarro, uma extravagância que é necessário conhecer por si para se acreditar que existe ou é verdade.
Mas não terá essa oportunidade porque o conhecimento de Jesus Cristo é um conhecimento de vida, é um processo em que os olhos não podem ver para que o coração veja, é um processo em que a imagem nos esconde a verdade da realidade e portanto é necessário acreditar, para ver, e saber a verdade que se vê. E o lugar mais propício para esse exercício é a cruz, o corpo entregue ao madeiro, como nos diz Paul Claudel:
Eis o Verbo bem aberto diante de nós. Eis o Verbo desdobrado diante de nós, no qual podemos ler como em livro aberto. Ei-lo consolidado diante de nós, para sempre, nessa atitude essencial na qual fez o céu e a terra.
Todos os heréticos podem atacar-lhe os membros, conseguirão deslocar-lhe o fémur, mas não conseguirão fazer vacilar a união hipostática, essa articulação fundamental, esse outro fémur sobre o qual, diz-nos o Apocalipse, “estão inscritas as palavras: Rei dos reis e Senhor dos senhores”. Eis o convite que nos é dirigido por esses dois braços que fizeram o mundo e que vão ficar estendidos todo o dia até que o tenham reintegrado. Eis essas grandes asas desdobradas que fazem de duas coisas uma só, eis Deus, eis o Amor, livre de todo o pudor, aberto e desvendado ante nós, eis essa profundeza de que fala Habacuc “que levantou as mãos”, eis Jesus crucificado sobre um triângulo e remate da sua própria pessoa, o homem da visão que estende por cima de Jerusalém o nível supremo.[1]

[1] Paul Claudel – O Poeta e a Cruz, Lisboa, Editorial Aster, 1958, 78.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

E disse-lhes: não leveis nada para o caminho. (Lc 9,3)

Depois de os ter chamado a cada um individualmente e de lhes ter dado poder sobre os demónios e de curar as doenças, Jesus envia os Apóstolos com esta recomendação, “não leveis nada para o caminho”.
Para nós, homens da sociedade urbana e de consumo, habituados a carregar-nos de sacos e malas esta é uma recomendação que nos deixa desalentados, desapontados, pois sentimos necessidade de levar a casa atrás de nós, temos até um certo prazer em nos carregarmos de coisas supérfluas.
Contudo, quando fazemos a experiência física e concreta do caminho, de caminhar, percebemos o quanto são verdadeiras as palavras de Jesus e o quanto as devemos procurar seguir fielmente. Para quem já fez a experiência de caminhar horas e horas, dias após dias com uma mochila carregada com aquilo que apenas consideramos necessário e que nos pode fazer falta, sabe o doloroso que se torna aguentar com tanto peso, com tanta carga tantas vezes dispensável.
É difícil, porque libertar-se do peso, desse peso das coisas a que nos prendemos por uma necessidade inconsciente, ou nem tanto, de segurança, não é fácil. Estamos sempre com medo que algo nos falte, que sejamos apanhados desprevenidos. E contudo o Senhor Jesus disse-nos que nem um só cabelo da nossa cabeça se perde sem conhecimento de Deus.
Como é difícil confiarmo-nos à vigilância de Deus, em depositarmos nele a nossa segurança; gostamos e queremos ter esse poder de saber que tudo está sob o nosso controlo, nada nos pode apanhar desprevenidos. E no entanto, quão frágeis somos e quantas vezes somos apanhados mesmo no meio das nossas maiores seguranças.
Ajuda-nos Senhor a libertar-nos de tudo o que nos prende, de tudo o que nos tolhe de te seguirmos livremente, ágeis e independentes como desejas que sejamos.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Jesus à mesa de Mateus (Mt 9,10)

Depois de convidar Mateus a segui-lo, e da pronta resposta do convidado, Jesus encontra-se na casa do mesmo, sentado à mesa com os amigos e companheiros daquele que era cobrador de impostos e funcionário do império romano.
Situação estranha para olhos fariseus, que em tudo viam mal, pecado, motivos para a exclusão e a rejeição. Situação de festa para Jesus e Mateus e todos os demais que aceitavam partilhar a mesma mesa e o mesmo pão sem preconceitos, sem segundas intenções, ainda que todos soubessem que o que partilhavam era certamente fruto do roubo, da exploração, da injustiça fiscal de um império opressor, à qual Mateus tinha dedicado a vida.
Jesus também o sabia, não lhe era estranha a profissão e a vida de Mateus e daqueles homens. Ele sabia perfeitamente o que havia no coração e cada um deles, onde tinham colocado os seus tesouros. Mas por essa mesma razão estava ali, para poder mostrar que há possibilidade de conversão, de mudança de vida, de recolocação do tesouro, de que a misericórdia pode funcionar mesmo naqueles que aparentemente parecem fechados a ela.
“Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas os que estão doentes”, e um médico para poder curar verdadeiramente o seu doente tem que conhecer a doença, tem que fazer os diagnóstico, tem que tocar o tumor, não pode ter nojo da doença do seu paciente se a quiser curar. Jesus actua nesta casa e neste jantar com Mateus como o médico que vem oscultar o seu paciente.
Um outro dia, num outro lugar e com um outro chamado Zaqueu, procederá de forma semelhante e a partir dessa acção poderá ouvir a proposta de mudança de vida, poderá confirmar que a sua acção é salvadora de vidas. Vou dar aos pobres metade do meu dinheiro e se alguém prejudiquei restituirei quatro vezes mais. A misericórdia oferecida através do desejo de partilhar uma refeição, uma estadia em casa, reflecte-se em misericórdia para com os outros, em recolocação do tesouro da vida e do seu sentido.
Esta atitude de Jesus deve levar-nos também a olhar os outros e as suas situações de vida de forma diferente, a vê-los com olhos de conversão, de misericórdia, e a perceber que qualquer situação pode ser uma oportunidade para o testemunho, para o apelo à conversão, para a manifestação da misericórdia e do amor de Deus.

Cristo Partido


Há muitos cristãos que tranquilizam a sua consciência beijando um Cristo belo, obra de arte e de museu, enquanto ofendem, mutilam e roubam o pequeno Cristo de carne, que é o seu irmão… Esses beijos repugnam-me e causam-me asco. Tolero-os e aguento-os, forçado, nos meus pés de imagem talhada em madeira. Ferem-me porem o coração. Tendes demasiados Cristos belos, demasiadas obras de arte da minha imagem crucificada, demasiados Cristos completos, perfeitos, apolíneos… E estais em perigo de vos ficardes na obra de arte. Um Cristo belo pode ser um perigoso refúgio, para vos esconderdes da dor alheia, tranquilizando ao mesmo tempo a consciência com um mentido amor a Deus crucificado.
Por isso deveríeis ter mais Cristos partidos, mais Cristos mutilados. Um à entrada de cada igreja, um em cada procissão da semana santa, que vos gritasse sempre, com os seus membros partidos e a cara sem formas, a dor e a tragédia da minha segunda Paixão nos meus irmãos, os homens… Por isso te suplico: não me restaures. Deixa-me partido. Aguenta-me partido junto de ti, ainda que amargure um pouco a tua vida. Beija-me partido ![1]

[1] Ramon Cué – O Meu Cristo partido, Porto, Editorial Perpétuo Socorro, s.d., 32.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Vede pois como ouvis! (Lc 8,18)

Vede pois como ouvis! É assim que Jesus chama a atenção para os seus discípulos depois de lhes ter contado a parábola do semeador, de a ter explicado e de ter dito que não se acende uma candeia luminosa para se esconder debaixo da cama.
Vede como ouvis! Porque podeis ouvir de passagem, podeis ouvir como se não fosse para vós, podeis até fazer ouvidos moucos, ou ouvir apenas o que vos interessa. Mas podeis também ouvir com o coração, ouvir até o sussurro leve da voz de Deus na brisa fresca da tarde, ou o grito de socorro apelando à misericórdia e à caridade nas mãos estendidas daqueles que não têm pão nem trabalho. Podeis ouvir, embora seja necessária a atenção, a disposição, o tempo e o silêncio, e a prova exercida da palavra ouvida.
Maria de Nazaré é o exemplo puro da verdadeira escuta e por isso quando se apresenta para O buscar e levar de regresso a casa, Jesus diz à multidão que “sua mãe e seus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. A escuta anda associada à prática, esta revela e confirma a palavra escutada, transforma-a dando-lhe vida, presença e actualidade.
Vede pois como ouvis! Vejamos pois como ouvimos e praticamos a palavra ouvida!