Caríssimos Irmãos
A leitura que escutámos do Evangelho de São João, a parábola
do bom pastor, se assim a podemos chamar, oferece-nos um prolongamento, uma
continuidade de reflexão face ao Evangelho que escutámos no domingo passado e
que nos falava do encontro de Jesus com os discípulos que iam a caminho de
Emaús.
Recordemos-nos que os discípulos enquanto caminhavam com Jesus
não o tinham reconhecido, era para eles um perfeito estrangeiro, um
desconhecido, que nem tinha conhecimento da tragédia vivida em Jerusalém. É no
momento do partir do pão que o reconhecem, mas é também nesse momento, e após o
desaparecimento de Jesus do meio deles, que reconhecem como lhes ardia o
coração enquanto o escutavam pelo caminho.
No capítulo dez de São João, e nesta parábola do pastor,
Jesus enuncia este princípio extremamente importante e fundamental para todos
os homens e cristãos: as ovelhas seguem o pastor porque conhecem a sua voz. E a
importância deste princípio é de tal ordem, que Jesus vai sublinhá-lo por
diversas vezes neste capítulo.
Hoje, e tal como há dois mil anos, é extremamente importante
e necessário reconhecer essa voz, reconhecer a voz do pastor para não seguirmos
nem salteadores nem ladrões, para não nos perdermos nos ecos das palavras dos
nossos próprios desejos e expectativas.
A parábola do bom pastor, das ovelhas que escutam a voz do
seu pastor, manifesta, no entanto, uma tensão que não podemos perder de vista e
que é necessário manter para nos encontrarmos perto da verdade, para podermos
passar verdadeiramente pela porta que é Cristo.
Esta tensão está expressa nesse detalhe que nos pode passar
despercebido, e que é o facto de o pastor chamar todas as ovelhas, mas chamar
cada uma pelo seu nome. Deus chama-nos a todos e a cada um a seguir o seu Filho
Jesus Cristo. Este chamamento coloca-nos um desafio, apela-nos a uma profunda
responsabilidade, porque temos de responder como rebanho, como comunidade
única, mas ao mesmo tempo como uma ovelha, como um sujeito único e
particular.
E todos nós sabemos que não é fácil, que temos muita
dificuldade em articular estas duas respostas de forma equilibrada, que na
maioria das vezes nos deixamos levar ou pelo nosso orgulho, pelos nossos
interesses pessoais, ou então pelo conformismo e submissão ao grupo, pois dessa
forma tenho de dar menos corpo ao manifesto.
Temos de dizer que neste momento da história estamos a viver
um momento especialmente difícil nesta questão e no encontro deste equilíbrio,
um momento difícil para a Igreja, para a sociedade em geral e para a vida da fé
de cada um de nós.
Neste sentido, é necessário procurarmos individual e
comunitariamente o resultado desta equação: se eu apenas tenho uma relação com
Deus individual, centrada no meu umbigo e na minha satisfação pessoal e
espiritual, enclausurado na minha sensibilidade, quem me vai dizer que o Deus
que eu procuro é maior que a minha experiência, que não é mais que um reflexo
de mim próprio no espelho? Mas, se pelo contrário eu estou apenas ligado à fé
dos outros, se me contento em seguir indiferente o rebanho, pelas tradições em
que fui educado, como posso fazer a experiência de que Deus me chama a mim,
pelo meu próprio nome?
Um cartoon, que circula nestes últimos dias pelas redes
sociais, apresenta-nos um Jesus pastor a esforçadamente impedir que as ovelhas
saiam de casa, pois ainda não é hora, e sabemos pelo que nos foi comunicado
pelas autoridades que não vai ser tão cedo que vamos poder sair, que vamos
poder retomar comunitariamente as nossas celebrações. Podemos indignar-nos,
revoltar-nos, manifestar-nos contra, pois outros já puderam fazer aquilo que
não nos é ainda permitido a nós fazer. Temos esse direito, temos direitos e
devemos exigi-los, e também não queremos que nos tomem por tontos.
No entanto, e como nos recorda a Carta de São Pedro que
escutámos na segunda leitura, se nós fizermos o bem, se suportarmos o
sofrimento com paciência, estamos a viver um tempo de graça, estamos a viver a
razão pela qual que fomos chamados, para seguir os passos de Cristo que
suportou as afrontas, os insultos, os maus tratos, e que em tudo isso se
entregava confiante Àquele que julga com justiça.
Deus trouxe-nos ao deserto nestes dias de pandemia e isolamento
social, poderíamos dizer para sermos tentados nos nossos desejos de poder e
grandeza, mas sobretudo e como aconteceu com o profeta Oseias, para que o
Senhor nos fale ao coração, para que escutemos a sua voz. Será que já nos
silenciámos verdadeiramente para escutar o que Deus nos quer dizer, para
escutar a voz do bom pastor?
Não nos podemos esquecer que o Senhor, bom pastor, vela sobre
nós, quer estejamos confinados em casa ou andemos desgarrados pelos montes. Ele
sabe ser e quer ser o pastor de todos e cada um de nós, guarda-nos para que não
nos sintamos aprisionados, mas protegidos, cuidados por aquele que deu a sua
vida por cada uma das ovelhas.
Confiemos, pois, naquele que sabe verdadeiramente o que
necessitamos, mesmo antes de lhe pedirmos.
Ilustração:
1 – Jesus Bom Pastor, Vitral da igreja de São João Baptista
de Ashfield, Austrália.
2 – Immunità di gregge, vinheta de don Giovanni Berti, www.gioba.it
Pertencer a um rebanho e viver como uma dentro dele não quer dizer perder a capacidade de querer e decidir, pois não? Penso que é antes viver em partilha, colaboração, interesse por cada uma das outras ovelhas, sem deixarmos de ser nós mesmas. Dar e darmo-nos sem deixar de sermos. Dificil, muitas vezes. Inter pars
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