sábado, 13 de fevereiro de 2010

Patente de Admissão à Ordem de São Domingos de Manuel Marques e António Marques

Frei António de Santa Ana Osório, Mestre em Sagrada Teologia, Pregador Régio e Prior Provincial da Ordem de São Domingos
Pela presente damos licença ao Muito Reverendo Padre Presentado Prior e mais religiosos do nosso Convento de São Domingos de Benfica para receberem ao hábito da nossa Ordem em qualidade de Noviços do Coro, e por filhos do Convento de Amarante, aos dois irmãos Manuel Marques e António Marques, filhos legítimos de António Marques e sua mulher Ana Maria, naturais de Covelo, Comarca sobre Tâmega, Bispado do Porto; sendo recebidos por votos secretos, e com as mais condições de costume. Dada em São Domingos de Lisboa aos 13 de Julho de 1805; sob nosso sinal e selo desta Província.
Frei António de Santa Ana Osório
Prior Provincial

Reg f 26
Frei António José da Rocha
Mestre, Doutor e Secretário[1]

[1] ANTT- Convento de São Domingos de Benfica, Maço 5 (Antigo 117)

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Solilóquio de um devoto D.A.D.C. ao Santíssimo Sacramento

Solilóquio ao Santíssimo Sacramento, incluindo o Mistério do Nascimento.
De um devoto D.A.D.C.

Terno Deus, cujo amor / Sendo fogo tão ardente,
Quis fundar império novo / Sobre colunas de neve.
Ou para ocultar amante / Finezas com que amor cresce,
Ou para ficar comigo / Em custódia eternamente.

Em pão quisestes deixar-vos / Para que a vida tivesse
Sustento nessa iguaria / Alivio em ter-vos presente.
Como em nova profecia / Deste bem que me enriquece
Descestes do céu, à terra, / E em terra de pão nascestes.

Belém terra venturosa / Que o título só merece
De ser a casa do pão / Por nos dar o pão celeste.
Belém terra de Judá / Em quem se ceptro aparece
Do Rei de Israel, também / Do Sacramento as espécies.

As palhinhas do Presépio / Nos dão misteriosamente
Sinal que nascestes trigo / E Sacramento morrestes.
Por isso do pão da terra / Só tomastes acidentes
Que os acidentes de amor / Vos amortalharam neles.

Vivo estais nesta brancura / E morto ao que nos parece
Mas se vivo, amortalhado / E se morto, vivo sempre.
Tal vos viram os pastores / Nas palhas que amor acende
Vivendo Fénix em fogo / Morrendo porque eu vivesse.

Vivo se envolto em faxinhas / Prognóstico de acidentes
Que no Mistério da fé / São mortalhas, mas alegres.
Que disfarces tão estranhos / São estes que amor vos veste?
Que branco em anos crescidos, / E de encarnado nos verdes?

Creio, que para buscar-vos / O homem com maior sede
Vos disfarçastes, que amor / Segue, o que lhe foge sempre.
Assim na substância de homem / O ser divino escondestes,
Quando aquela terra Virgem / Sendo flor, fruto oferece.

Quando vós Sacramentado / Também como Omnipotente
O ser divino, e humano / Entre rebuços pusestes.
Por isso a Belém vieram / Todos para oferecer-se
Desde Palestina a Arábia, / Desde o rústico ao prudente.

Os Pastores vêm buscar / Cordeirinho, mas celeste,
Os Reis vieram a ver / Sol em mais belo Oriente.
Para créditos do amor / Que seus corações acende
Entre adorações humildes / Trouxeram ricos presentes.

Os pastores seus cordeiros / Ao Cordeirinho inocente,
Os Reis peitos abrasados / Entre aromas diferentes.
Tudo vos buscou Senhor, /E vós todos recebestes,
Que Rei amante, e menino / Faz tudo quanto lhe pedem.

Grande favor! Mas eu vejo / Que quando entre essas espécies
Do Pão vos depositais / Vos dais mais intimamente.
No Sacramento vós sois / Quem nos busca pretendente,
Quem nos requebra amoroso, / Quem nos brinda com banquetes.

Afectais nesta fineza / Estar em nós tão presente,
Que pela união das almas / Deus e homem não diferem.
Como no peito do Pai / Em nossos peitos quisestes
Entrar para nossa glória / Morar por vosso deleite.

Em tronos de majestade / Não estais tão gratamente
Como no peito do homem / Que por morada escolhestes.
As almas que em holocausto / De uma caridade ardente
Dão a tal Esposo a mão / E disfarçado o recebe.

É o maior sacrifício, / E tanto vos pagais nele
Que o quereis mais que o incenso, / Ouro, e mirra, do Oriente.
Pois Senhor, pelo Mistério / Gozoso, em que aparecestes
Homem nascido entre brutos / Deus adorado das gentes.

Vos peço humilde, e prostrado / Com lágrimas penitentes
Da Soberana Eucaristia / A união permanente.
Para que favorecido / Pelos auxílios celestes
Suba em vossa companhia / A reinar eternamente.[1]

[1] FALCONI, Frei Francisco – Rosário do Santíssimo Sacramento, Lisboa, Domingos Carneiro, 1662.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Oração de São Tomás para o estudo e a pregação

Criador inefável, que dos tesouros da tua sabedoria escolhestes três hierarquias de anjos e os colocastes numa ordem admirável sobre os céus, Tu que dispusestes com tanta arte as partes do universo, Tu que em verdade chamamos fonte de luz e de sabedoria, principio supremo, digna-te infundir sobre as trevas da minha inteligência um raio da tua claridade, expulsando de mim as duplas trevas nas quais nasci, as do pecado e as da ignorância. Tu que fazes clara a língua das crianças educa a minha língua e derrama nos meus lábios a graça da tua bênção. Dá-me penetração para compreender, a capacidade de reter, o método e a facilidade para aprender, a subtileza para interpretar e uma graça abundante para me exprimir. Instrui o começo, dirige o progresso e completa o final, Tu que és verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Ámen.

P.S. - Hoje sabemos que esta oração para o estudo e a pregação, tradicionalmente atribuida a São Tomás, é de um autor anónimo. Como apareceu na edição das obras completas de São Tomás, editada em Parma na Itália em 1869, rapidamente foi assumida como sendo do grande mestre. Contudo, e ainda que não o seja, a sua beleza e tradição obriga-nos a deixá-la aqui para quem, uma vez mais, se quiser servir dela para pedir a Deus a ajuda necessária na procura da Verdade e na sua apresentação aos homens nossos irmãos.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Dominicanos...perspectivas para estes tempos

Quando refundou a Ordem de São Domingos em França, Lacordaire escreveu que a “essência da Ordem de São Domingos é a salvação das almas pela doutrina e pela pregação, mediante as observâncias monásticas claramente determinadas pelas nossas Constituições, e uma hierarquia electiva em todos os seus níveis”. Determinava-se o fim, os meios principais e os meios secundários que regiam a Ordem.
Podemos recorrer ao momento fundacional de São Domingos para pensar e repensar a Ordem e a sua presença no mundo, ibérico como o nosso, nos nossos dias, mas creio que o momento de refundação de Lacordaire está mais próximo do nosso, ainda que também já bastante distante. Se no tempo de São Domingos os valores e referências religiosas e espirituais eram comuns, aceites por todos ainda que com incidências diferentes, no tempo de Lacordaire essa realidade tinha já mudado alguma coisa. O século da Luzes, a revolução francesa e o fim de Napoleão tinham trazido outros valores, outras referências, uma realidade social e religiosa diferentes. Hoje estamos ainda mais diferentes e quando falamos de algumas realidades religiosas, alguns conceitos estruturalmente cristãos, encontramo-nos com homens e mulheres que não sabem do que estamos a falar ou que não querem saber.
Assim, e face a estas realidades convém realmente reflectir sobre o que queremos para os nossos tempos, que ordem de São Domingos se adequa a estes tempos que são os nossos em universo ibérico.
Antes de mais, e é uma questão de fé, teologal e por isso basilar, estamos ainda convencidos da necessidade da salvação de almas? Acreditamos que há ainda almas para salvar, ou que valha a pena salvar, e com as almas os corpos dos nossos irmãos? Quando olhamos para alguma complacência com que vivemos podemos interrogar-nos se de facto ainda acreditamos nesta necessidade, neste fim da Ordem.
Acreditamos que temos essa missão, e vivemos para ela, ou pelo contrário o que fazemos quer socialmente ou intelectualmente serve apenas para nosso deleite e realização pessoal?
E se ainda acreditamos, como usamos os meios que a Ordem dispôs sabiamente para essa missão? Que doutrina assumimos e pregamos? E que pregação realizamos?
Neste sentido e num mundo de novos areópagos em qual deles nos situamos, porque não podemos estar em todos.
São Domingos escolheu a itinerância mendicante, Lacordaire o ensino esmerado, e nós o que podemos escolher? Onde nos podemos situar para pregar?
A Ordem sempre teve fama de intelectualidade, e para isso contribuíram os nossos antepassados da teologia como São Tomás. O século XX deixou-nos a memória de Lagrange, Congar, Chénu, Tillard. Pensaram a fé e contrastaram-na com os valores e desvalores do seu tempo. Poderemos nós fazer o mesmo, mesmo que isso implique pagar o preço que quase todos eles pagaram de serem mandados silenciar, de serem remetidos para a escuridão das bibliotecas. Mas foi nessa escuridão que brilharam.
Que ousadia nos habita hoje para pensar? É verdade que sempre estivemos na Igreja e com a Igreja, mas não foi o nosso serviço maior a essa mesma Igreja, questionar, levá-la a pensar sobre o que fazia e como o fazia?
Tudo isto no entanto só foi possível devido a uma outra realidade teologal, da fé, a experiência pessoal e comunitária de Deus. Os nossos irmãos que foram mandados silenciar, que foram perseguidos, as nossas comunidades que estiveram na vanguarda da teologia ou dos direitos do homem rezavam juntas, viviam em comum e partilhavam as suas fraquezas e virtudes. Não eram perfeitos, ainda que a ideia de perfeição nos acompanhe como um aguilhão desde que combatemos os cátaros, mas acreditavam nos irmãos e acreditavam que Deus estava com eles e naquilo que faziam.
Uma presença dominicana que queira ser significativa neste século XXI tem que regressar a estas experiências, a uma vivência sã e salutar daquilo que se diz serem as observâncias regulares. Não podemos viver sem rezar conjuntamente, sem partilhar a nossa fé e os nossos estudos, sem guardar um conjunto de disciplinas que ajudam a moldar o nosso ser e a testemunhar da experiência divina que fazemos.
Neste âmbito tem lugar reflectir sobre a visibilidade, sobre os sinais exteriores. Não podemos negar que o hábito branco e negro é a nossa melhor imagem de marca e que a sabemos utilizar muito pouco. Outros certamente a explorariam de uma forma mais comunicacional e produtiva, mas creio que nunca tivemos essa veia. Contudo, e para além do hábito e do sinal de pertença que ele pode traduzir, temos o nosso Oficio coral, esse momento comum que marca o nosso dia a dia e as nossas raízes monásticas. Quantas vezes o temos descuidado e dessa forma perdido uma oportunidade de nos conhecerem, de nos tornarmos significativos para homens e mulheres que andam em busca de um momento especial na rotina do seu dia a dia.
Desde sempre a democracia e o sistema electivo marcou o nosso governo e as nossas relações. Disso nunca abdicámos nem poderemos abdicar, mas nesta democracia cabe repensar a responsabilidade dos superiores, daqueles que foram eleitos para governar e da oportunidade de novos projectos, da criatividade e responsabilidade pastoral. Hoje e mais do que nunca necessitamos líderes, líderes que governem as comunidades em equilíbrio de diferenças promovendo e perseguindo a unanimidade, combatendo a uniformidade e a indiferença, líderes que sonhem com novas formas de presença, novos projectos e que com o seu sonho arrastem outros atrás.
Pouco depois de fundar a Ordem São Domingos dispersou os poucos frades que viviam com ele. No momento da partida João de Navarra recusou-se a partir para Paris sem levar dinheiro para a viagem. Não deve ter sido fácil para São Domingos mas por fim todos partiram e certamente João com o dinheiro que necessitava e considerava necessário para a viagem e instalação na cidade da universidade.
Hoje e no nosso contexto se queremos partir para algum lado, se queremos construir alguma coisa temos que saber o que os irmãos necessitam, que dinheiro pedem para a viagem e instalação, e com este dinheiro não queremos referir-nos ao vil metal, porque esse ainda vamos tendo, mas àquilo que pode levar os irmãos a querer recomeçar tudo de novo, com uma nova alegria e esperança. Que sonhos transportamos connosco para sermos outro Domingos, outros Lacordaire, ou até outro João de Navarra?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Homilia Domingo V do Tempo Comum

As leituras deste quinto domingo do Tempo Comum apresentam-nos três histórias pessoais, três histórias bem diferentes mas com um denominador comum, o encontro pessoal com Deus. Podemos dizer que estamos perante um itinerário vocacional comum ainda que desenvolvido em três momentos e pessoas diferentes. Três experiências paralelas que são ou podem ser também os nossos itinerários e as nossas experiências.
Nestas histórias, de Isaías, de Paulo e de Pedro encontramo-nos perante a descoberta de Deus, mas de um Deus que é totalmente Outro, de um Deus que não corresponde aos nossos esquemas nem às nossas concepções, um Deus que nos revela como é surpresa e como estamos convidados a assumir também essa surpresa, como estamos convidados a transformar-nos de alguma forma em outros, em pessoas diferentes das que somos.
Na leitura do Livro de Isaías encontramos a visão que o profeta tem da liturgia divina, da sua beleza e magnificência, do esplendor que envolve o próprio Deus. Perante tal beleza e esplendor o profeta descobre a sua pequenez, a sua falta de pureza, descobre afinal a distância que o separa do próprio Deus em que acredita, descobre como é um homem de lábios impuros e vive no meio de um povo também impuro de lábios.
Para Isaías, para cada um de nós, para cada homem, e para os homens das histórias das três leituras que escutámos, esta consciência é o primeiro patamar para o encontro transformante com Deus, é a primeira etapa do itinerário vocacional. Não pode haver encontro transformante com Deus se não se descobre esta consciência.
São Paulo sofreu o mesmo processo, ele que tinha sido formado na escola de Gamaliel, que era um judeu zeloso do cumprimento da lei e da vivência de acordo com a sua fé. Quando escreve aos Coríntios, Paulo reconhece que tinha uma imagem e uma concepção de Deus, a imagem dada pela formação doutrinal e intelectual, uma imagem de que ele era senhor, mas que estava muito aquém da realidade de Deus, da experiência que depois pôde fazer a caminho de Damasco quando viu como andava cego fixado naqueles princípios que não eram experienciais mas fruto da tradição.
Foi esta experiência a caminho de Damasco que lhe permitiu perceber como era um abortivo, como estava tão distante do Deus em que dizia acreditar e servir. A caminho de Damasco Paulo percebe quanto Deus era Outro, totalmente Outro. Por isso pode dizer que apesar de todo o trabalho de apostolado, de toda a missão realizada ele era o mais pequeno dos apóstolos. De facto, todo o seu trabalho tinha sido feito pela graça, pela força do Espírito Santo que o tinha transformado, ele era em si mesmo insignificante.
Pedro sofreu também a mesma experiência de se encontrar com um Deus, na pessoa de Jesus Cristo, completamente diferente. Por essa razão pede que o Senhor se afaste dele, uma vez que é pecador. E o pecado de Pedro, o pecado que ele reconhece, prende-se com a sobranceria com que tinha respondido a Jesus quando este lhe mandou que lançasse as redes. Pedro era pescador, homem habituado ao mar e à pesca, como poderiam apanhar alguma coisa depois de uma noite de canseira em vão? E que percebia aquele carpinteiro de pesca e de peixes? Pedro lança as redes na expectativa de um fiasco, mas a rede vem carregada de peixes e então descobre que aquele homem tinha mais conhecimento da pesca e dos peixes que ele, era afinal o criador dos próprios peixes e podia reuni-los em qualquer rede. Pedro faz a experiência das limitações do seu conhecimento e da sua realidade.
Nestas três histórias encontramo-nos perante a realidade de que só face a Deus, só na sua presença descobrimos a nossa miséria e pequenez, o nosso pecado e a distância que nos separa de Deus, da sua santidade e beleza. Perante Deus somos esmagados pela nossa condição, pela nossa própria consciência que nos acusa da distância que nos separa. Nesta situação podemos ficar paralisados, bloqueados, incapazes de fazer alguma coisa porque realmente não há muito a fazer.
Por esta razão e pelas nossas limitações Deus toma a iniciativa e vem ao nosso encontro, parte da sua grandeza para vir ter connosco à nossa pequenez e miséria. Na história de Isaías é o querubim que traz a brasa acesa e purifica os lábios impuros, em Paulo é Ananias que recebe a missão de Deus de ir ao encontro daquele que antes perseguia os cristãos, em Pedro é o convite a não temer o sucedido nem o pecado porque Deus quer fazer dele um pescador de homens.
A experiência do encontro com Deus e da sua santidade transforma-se assim em encontro de chamamento, em encontro de outorga de missão, em encontro vocacional. Abatidos pela grandeza do encontro, no confronto da sua pequenez e miséria com a grandeza e santidade de Deus, Isaías, Paulo e Pedro surgem como novos homens, renascidos para uma nova realidade e vida. Por esta razão é que Saulo se passa a chamar Paulo e Simão se passa a chamar Pedro. Já não são os mesmos e ainda que continuem a ser os mesmos são os mesmos transformados pelo encontro, são outros à semelhança do totalmente Outro com que se confrontaram e perante o qual assumiram as suas limitações.
Podemos interrogar-nos sobre a nossa possibilidade de transformação, sobre a possibilidade de um encontro transformante com Deus na nossa vida e face às nossas misérias e limitações. Mas ao fazê-lo estamos a esquecer-nos que todos os dias essa possibilidade está à nossa disposição, que dentro de pouco ela vai estar ao nosso alcance. A Eucaristia é essa possibilidade real, factual, e se uma brasa trazida pelo querubim pôde purificar os lábios de Isaías quanto mais poder não terá o Corpo e o Sangue de Jesus ressuscitado de que nos alimentamos, esse Corpo e Sangue que nos transforma não só naquilo que somos mas também em outros Cristos vivos sobre a face da terra. E como Cristo não podemos esquecer que temos uma missão, a de resgatar os homens do mundo da mentira e da morte e trazê-los para o reino da luz e da verdade.
Que o Senhor nos possibilite a graça de irmos cumprindo a nossa missão.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Solilóquio de D. José de Faria Manuel ao Santíssimo Sacramento

Solilóquio ao Santíssimo Sacramento, incluindo o Mistério da Encarnação de D. José de Faria Manuel

Omnipotente Senhor / Rei dos Reis, e Rei da glória
A quem o céu, terra, inferno / Treme, ajoelha, e adora.
Vós meu amor infinito / Que nessa divina hóstia
Estais disfarçado amante /Na fineza mais notória.

Vós tão valente no Amor / Com quem tendo certa história
Por amor de umas palavras / Estais metido em Custódia.
Vós oceano de luzes / De que o mesmo sol se assombra,
Cujos raios, por milagre / Oculta neve formosa.

Vós que de finezas tantas / Por conservar a memória,
Vos estão dando acidentes / De amores todas as horas.
Vós extremo dos extremos / Que sem mais causa forçosa
Que vosso Amor, nos quisestes / Tomar tanto à vossa conta.

Vós que de encarnado, e branco, / Aí sois a mor lisonja,
Vestindo encarnado puro / Em Nazaré venturosa.
Aonde vos conhecemos / Pérola daquela concha
Que com orvalho celeste / Gerou a melhor Aurora.

Aquela de graça cheia / Donde a fonte dela mora
De cuja certa verdade / Um Paraninfo dá novas.
Aonde lograis o efeito / Daquelas ânsias custosas
Em o sim de uma Donzela / Puríssima sobre todas.

Vós que fabricando o mundo / Com palavras que são obras
Para ser homem, esperais / Palavra de sua boca.
Cujo angélico recato / Ao Anjo resiste, e nota
(Sem ser Donzela) o ser mãe / Do mesmo Deus em pessoa.

Aquela que com tal graça / Soube juntar prodigiosa
O ser Mãe, e o ser intacta, / Maravilha mais que nova!
Aquela tão grande humilde / Que depois de ser Senhora
Se confessa por escrava / Sendo do Impireo Patrona.

A quem o Espírito amante / Cândida se bela pomba
Ao conceber com tal graça / Rodeia, arrulha, e namora.
A quem por vós lograsse / Sol divino sem soçobra
No incêndio de tantos raios / O Altíssimo vos faz sombra.

Por quem, e por cujo Filho / Vossa grandeza blasona
Que na casa de Jacob / Impérios, e tronos logra.
Vós, que tão enamorado / Ficastes daquela hora,
E assim vos mostrais amante / De prendas tão poderosas.

Que repetindo este afecto / (Já que não podeis ter outra
Encarnação) ordenais / Essa fineza amorosa.
Donde sois, por consagrado / Um, repetido em mil hóstias,
Extensão da Encarnação / Homem Deus, em breve forma.

Assim o crê, e confessa / Minha alma amante, e disposta
A dar a vida mil vezes / Por esta fé prodigiosa.
Por aquela Encarnação / E por esta misteriosa
Que sendo cópia daquela / É maravilha de todas.

Por aquela acção tão grande, / (Mas em fim, era acção vossa)
Com que saístes do Pai / A buscar Mãe, e Mãe própria.
Por aquele grande desejo, / Se não foi ânsia amorosa,
Que de consagrar-vos tínheis / Por satisfazer as nossas.

Meu Senhor Sacramentado / Branco, das almas esposas
(Mas encarnado também, / Que esse Pão é carne vossa.)
Por um, e outro Mistério, / Espero com fé ditosa
Por aquele, o bem da Graça, / Por esse, a prenda da Glória.[1]

[1] FALCONI, Francisco – Rosário do Santíssimo Sacramento, Lisboa, Domingos Carneiro, 1662.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Santa Catarina de Ricci

A Ordem de São Domingos celebra hoje Santa Catarina de Ricci, uma santa que viveu no século XVI em Itália.
Catarina nasceu a 23 de Abril de 1522 em Florença e recebeu de baptismo o nome de Alexandrina Lucrécia Rómola. Seu pai chamava-se Pietro Francesco de Ricci e sua mãe Catalina Panzano, que Catarina perdeu aos cinco anos de idade, sendo por isso educada num mosteiro de monjas beneditinas.
Apesar da educação beneditina Catarina desde muito cedo desejou ser monja dominicana e fez todo o possível para o ser. Para este sucesso contribuiu não só o seu tio paterno, frei Timóteo de Ricci, superior do convento dominicano do Prato e confessor das monjas do mosteiro onde professou, como também uma doença grave que a levou quase à morte e pela qual obtém do pai a formal autorização para a entrada no mosteiro.
Assim em 1535, com treze anos entra no mosteiro de São Vicente das irmãs da Terceira Ordem de São Domingos na cidade de Prato, mosteiro que ainda hoje está habitado por monjas dominicanas. No momento da profissão Alexandrina muda o seu nome para Catarina.
Este mosteiro tinha sido fundado em 1503 no contexto do movimento de reforma religiosa promovido por Savonarola. Era um mosteiro dependente da Congregação de São Marcos de Florença e levava uma vida religiosa de estrita observância. Catarina de Ricci e a sua espiritualidade é desta forma filha do movimento reformista que se estava a viver na Igreja.
Favorecida com graças especiais, Catarina de Ricci durante doze anos, entre 1542 e 1554, sofreu desde o meio-dia de quinta-feira até às primeiras horas da tarde de sexta-feira os tormentos da paixão de Jesus. A visão do crucifixo absorvia-a completamente, até ao ponto de se manifestarem as chagas da crucifixão.
Muitos destes fenómenos foram testemunhados por outras religiosas e povo da cidade, mas Catarina manteve sempre uma reservada suspeita, temendo que não fossem graças de Deus mas uma pura ilusão como acontecia em outros casos. Por este aspecto podemos perceber o equilíbrio espiritual desta mulher, um equilibro que contrasta com as manifestações extraordinárias de que era objecto. Este equilíbrio é visível também na imensa correspondência que trocou, à semelhança de Santa Catarina de Sena, com diversos membros da hierarquia da Igreja, da Ordem dominicana e da sociedade política italiana, como Francisco de Médicis, grande Duque da Toscânia.
O dia de Páscoa de 1542 foi o dia do seu desposório místico com Jesus Cristo, pelo qual passou a usar um anel que lhe tinha sido oferecido pelo noivo e colocado no dedo anelar da mão esquerda. Esta graça foi no entanto seguida por outras, como a do abraço de Cristo crucificado a 24 de Agosto desse mesmo ano de 1542.
Apesar de todas estas manifestações de graças Catarina foi priora do seu mosteiro por sete vezes, entre 1552 e 1590 e exerceu sempre o seu cargo com profunda humildade, recusando sempre qualquer louvor pela sua santidade e trabalho.
Durante o governo defendeu com desnudo os interesses e direitos do seu mosteiro, promoveu o seu progresso e fidelidade à missão da pregação. Para tal não se cansou de procurar de reformar a vida regular inspirando-se de modo muito particular no seu grande mestre, frei Jerónimo Savonarola, a quem venerava com afecto.
Catarina de Ricci morreu no seu mosteiro da cidade do Prato a 2 de Fevereiro de 1590, foi beatificada por Clemente XII em 23 de Novembro de 1732 e canonizada por Bento XIV a 29 de Junho de 1746.
O seu corpo ainda hoje se encontra à veneração dos fiéis na igreja de São Vicente Ferrer na cidade do Prato.