segunda-feira, 9 de abril de 2018

Altar Dominicano em São Martinho de Aldoar

Em 28 de Março de 1758, o Vigário da freguesia de São Martinho de Aldoar, Bartolomeu da Silva Pereira dava resposta aos interrogatórios das inquirições ordenadas pelo Marquês de Pombal na forma da ordem que tinha recebido do Reverendo Senhor Doutor Provisor e Vigário da Ordem de Malta.
É através das respostas dadas que ficamos a saber que nessa data a igreja tinha três altares.
Um altar-mor dedicado a São Martinho, padroeiro da igreja, e dois altares colaterais.
O altar-mor não tinha mais nenhuma imagem para além da imagem de São Martinho.
No altar lateral, da parte do Evangelho, estava colocada uma imagem do Senhor Jesus Crucificado, e imagens de São Sebastião e Nossa Senhora do Amparo.
No altar lateral, da parte da Epístola, encontrava-se a imagem de Nossa Senhora do Rosário, outra de Santo António e outra de São Gonçalo.
A igreja feita ao moderno, com uma só nave, possuía também uma Irmandade do Santíssimo Sacramento, uma Irmandade do Santíssimo Rosário, e uma outra de Subsino.[1]
Ao visitarmos hoje a igreja de São Martinho de Aldoar, podemos ainda encontrar o altar da parte da Epístola com as imagens de Nossa Senhora do Rosário e São Gonçalo tal como é referido pelo Vigário da freguesia em 1758.
Igreja de São Martinho de Aldoar.

 Altar-mor da igreja de São Martinho com as imagens de São Paio e Santo António

Altares Colaterais no arco que separa a capela-mor da nave da igreja. 
O altar lateral do lado do Evangelho do século XVIII apenas mantém a imagem de São Sebastião.

O altar lateral do lado da Epístola mantém do século XVIII a imagem de Nossa Senhora do Rosário e a imagem de São Gonçalo.

 Imagem de Nossa Senhora do Rosário da igreja de São Martinho de Aldoar.

Imagem de São Gonçalo de Amarante da igreja de São Martinho de Aldoar.



[1] CAPELA, José Viriato – As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758, 579.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Homilia da Solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Estamos a celebrar a Páscoa da Ressurreição de Jesus e o Evangelho de São João que escutamos neste domingo apresenta-nos esse momento em que Maria Madalena pelo romper da aurora vai ao sepulcro onde o corpo de Jesus tinha sido depositado.
Podemos imaginar Maria Madalena caminhando pelas ruas de Jerusalém, por aquelas ruas nas quais também tinha acompanhado o mestre e amigo, onde a memória o tornava presente, movida por um desejo profundo e legítimo de o encontrar novamente, de ouvir a sua voz. Não é fácil aceitar que aqueles que amamos desapareçam da nossa vida, se é que alguma vez chegamos a aceitar, e os lugares que frequentaram parecem querer que permaneçam vivos.
Podemos imaginar também a dor de Maria Madalena, a sua tristeza, e esse sentimento de desorientação, de abismo vertiginoso em que a dúvida nos assalta, pois de que serve ir ao sepulcro que foi selado, onde já nada mais se pode fazer ao corpo que se conheceu, que se acarinhou e cuidou, que se amou. Aquela visita de nada servirá ao que jaz no sepulcro, inacessível para sempre.
Contudo, é necessário ir, não por ele, mas por si, Maria Madalena, aquela que sofre a dor da perda, cujo coração está destroçado com tão grande tragédia. Esta visita é um movimento de luto, um simular da aceitação da fatalidade, pois bem no fundo não deixa de brotar essa recusa a estar só, essa negação de que o outro partiu para uma viagem sem regresso.
Ao chegar ao túmulo Maria Madalena sofre a mais atroz das suas experiências, pois depara-se com o sepulcro violado, completamente escancarado a todo e qualquer estranho, acessível a qualquer um que passasse por ali. À dor da morte de Jesus acresce agora a dor do desaparecimento do corpo. Nesta manhã de Páscoa deixa de haver o que restava do objecto amado, nem um cadáver há já para ver, para prestar os últimos cuidados. A dor da perda torna-se assim lancinante, duplamente dor.
Hannah Arendt escreveu ao seu mestre e amigo Karl Jaspers que o essencial da sua fé se jogava na imprevisibilidade e é afinal nessa imprevisibilidade que Maria Madalena se vê envolvida, de que Maria Madalena se torna testemunha activa. Naquele romper da manhã vinha com um projecto, tinha as suas ideias e planos, carregava a sua dor, e tudo se desmoronou face a uma realidade insuspeita, completamente nova, a uma vida que lhe escapava e a ultrapassava, a uma nova dor.
A Páscoa na sua dimensão de mistério é também, para cada um de nós, o integrar desta imprevisibilidade, é acolhê-la, é assumir que a vida nos alcança enquanto nós estamos a fazer planos para viver, como dizia John Lennon. Deus é muito maior do que podemos imaginar e a sua vida entrelaça-se na nossa vida de uma forma insuspeitável, admirável, não coarctando a nossa liberdade e autonomia, mas iluminando-a e potenciando-a.
Face ao acontecimento imprevisível, Maria Madalena corre a anunciar aos discípulos o que tinha visto, a sua leitura dos acontecimentos, afinal a expressão da sua perda, da sua dor, “levaram o Senhor e não sabemos onde o colocaram”. É a sua dor que a move, a perda do que lhe podia ainda restar para cuidar. Maria Madalena está ainda centrada em si mesma e por isso quando se encontrar com Jesus ressuscitado no jardim não vai ser capaz de o reconhecer, vai pensar que se trata do jardineiro que lhe pode dar alguma informação sobre o paradeiro do corpo desaparecido.
As palavras de Maria Madalena são no entanto a expressão da maior verdade e dimensão do mistério da ressurreição de Jesus. Deixámos de saber onde ele se encontra, onde o colocaram, porque Jesus ressuscitado pode estar no meio das nossas casas, nas nossas relações familiares, como pode estar no meio da rua, num encontro fortuito com um sem-abrigo, pode estar numa criança que sofre num hospital de oncologia como pode estar numa jovem que é explorada sexualmente.
Com a ressurreição de Jesus, a presença de Deus no meio dos homens deixou de ter um lugar controlado, deixou de estar sujeita a esquemas concebidos, pois essa presença joga-se e torna-se efectiva na imprevisibilidade, na novidade da vida, na aventura do encontro que nos leva para fora de nós e que nos coloca verdadeiramente frente ao outro.
A celebração da Páscoa é assim um convite a sair de nós, a deixar a nossa timidez e o nosso medo, a acolher o impensável e o maravilhoso, a novidade da aventura em que Deus se envolve e nos envolve.

 
Ilustração:
1 – Maria Madalena no sepulcro, de Giovanni Girolamo Savoldo, Getty Center, USA.
2 – As santas mulheres junto ao túmulo, de William-Adolphe Bouguereau, Royal Museum of Fine Arts de Antuérpia.

domingo, 11 de março de 2018

Homilia do IV Domingo da Quaresma Ano B

Estamos a celebrar o Quarto Domingo da Quaresma e a leitura do Evangelho apresenta-nos o encontro de Nicodemos com Jesus. É um encontro importante, significativo na vida de Nicodemos, pois vai conduzi-lo das trevas à luz, da marginalidade do medo à coerência e fidelidade pública a Jesus.
Se neste primeiro encontro Nicodemos vem de noite encontrar-se com Jesus, por medo dos judeus, mais tarde, já em acesa polémica sobre a estratégia para condenar Jesus, ele defende-o destemidamente no meio do sinédrio, mostrando assim a sua conversão, a nova vida que abraçou com Jesus.
Para cada um de nós, este encontro de Nicodemos com Jesus é também importante e significativo, pois oferece-nos a proposta de uma mudança de vida, apresenta-nos a mão que nos é estendida por Deus. Podemos dizer que Nicodemos é o protótipo daquele que procura, daquele que se arrisca na noite do desconhecido para se encontrar com Deus e com um sentido para a sua vida.
Face a esta busca, a esta procura de sentido, Jesus oferece a Nicodemos, como a cada um de nós, uma resposta que se tece com os fios do amor, do juízo, da verdade e da luz. Deus enviou o seu Filho ao mundo para que o homem seja salvo, enviou-o pelo grande amor que tem pela sua obra, e neste envio, neste grande mistério que é a encarnação, está já presente o juízo que Deus faz do homem.
Não é um juízo de condenação, bem pelo contrário, é um juízo de salvação, um juízo de misericórdia que abre novas perspectivas de relação e intimidade, um juízo que conduz à verdade de cada um, uma verdade que diz o nosso ser humano e divino, mas que apenas se revela e se torna clara à luz do mistério do Filho feito homem.
Por isso a necessidade de acreditar, tão abundantemente referida no excerto que escutámos do Evangelho, pois só acreditando acolhemos a graça que nos é oferecida, alcançamos o poder de transformação da nossa vida. Quem não acredita no Filho já está condenado, pois exclui-se da oferta de salvação que o Filho transporta em si.
No processamento da nossa resposta, na fé que se expressa na disponibilidade para o acolhimento do juízo de Deus expresso no seu Filho muito amado, o homem necessita desenvolver em si uma capacidade ou atitude que muitas vezes não está devidamente desenvolvida, como é a lucidez.
A lucidez é uma virtude humana que possibilita uma resposta adequada do homem à graça de Deus, ao que nos oferece na sua proposta de amor, de juízo, verdade e luz, pois a lucidez assume também essas dimensões, ainda que no âmbito limitado e contingente do homem. É assim urgente para o homem, para cada um de nós, procurar desenvolver a sua lucidez, cuidando a verdade da sua vida, o juízo que realiza dela, e a luz que a ilumina e com que se confronta.
Não é uma tarefa fácil, na medida em que, tal como nos refere Jesus, nos obriga a colocar as nossas infidelidades e fragilidades à luz, a retirá-las das sombras em que se escondem para que sejam iluminadas pela verdade de Deus.
Neste aspecto, e faz-nos sorrir a semelhança, a proposta de Jesus aproxima-se bastante das ideias desenvolvidas por Freud na psicanálise, que propõe igualmente a iluminação, o trazer à tona da nossa consciências aquelas realidades e acontecimentos que escondemos no mais profundo do nosso ser, uma vez que nos envergonham, que nos fazem sentir incapazes, limitados e frágeis, que destroem a nossa gratificante auto imagem.
Com o auxílio da lucidez podemos fazer uma leitura crítica das nossas realidades, das nossas falhas e desastres, mas também das nossas forças e vitórias, dos nossos combates bem-sucedidos, podemos fazer a leitura teológica da nossa história tal como o autor do livro das Crónicas fez dos desaires do povo de Israel, descobrindo que Deus nunca deixou de estar presente, nem no momento de pecado, nem no momento de exílio, nem no regresso à terra prometida. Deus permanece fiel apesar das nossas infidelidades, e salva-nos gratuitamente pela sua graça como diz São Paulo na Carta aos Efésios.
Face a esta gratuidade e fidelidade não podemos deixar de caminhar com alegria e confiança ao encontro do Senhor, essa alegria que liturgicamente este quarto domingo da Quaresma nos coloca diante dos olhos com o aligeirar das cores dos paramentos ao deixarmos o roxo e vestirmos o rosa. No nosso horizonte perfila-se já a vitória e é ela que nos deve animar e motivar a um esforço mais, a um novo combate, pois tudo está ao nosso alcance com a graça de Deus.
Nesta quarta semana da Quaresma, que hoje iniciamos, vamos procurar viver com verdade, iluminar o que nos envergonha e inferioriza com a luz de Cristo, no fundo viver lucidamente, e adequar as nossas obras ao fim a que se destinam, ou seja, não à nossa glória mundana, mas para conformidade da nossa vida com a vida da graça pela qual fomos salvos.

 
Ilustração:
1 – “´Discípulos de Emaús”, pintura de Arcabas, igreja de Saint Hugues le Chartreuse, Grenoble.  
2 – “Jesus e Nicodemos”, de Henry Ossawa Tanner, Pennsylvania Academy of the Fine Arts.

domingo, 4 de março de 2018

Homilia do III Domingo da Quaresma Ano B

A leitura do Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma apresenta-nos o episódio conhecido como a expulsão dos vendedores do templo. Estranhamente, e ao contrário do que acontece com os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas, que colocam este incidente quase no final da vida pública de Jesus, São João coloca-o logo no início das actividades de Jesus.
Para os outros três evangelistas este episódio é uma das causas da condenação de Jesus, ou pelo menos um dos motivos que levam à sua acusação, pois Jesus não tinha qualquer autoridade para fazer o que fez, podíamos dizer que se tinha comportado como um arruaceiro, mas mais grave ainda, tinha atentado contra o templo, o lugar de culto de todo o povo, uma tentativa de profanação.
A localização do episódio na linha histórica do Evangelho de São João, logo no início, tem no entanto outro fim, pois visa mostrar desde o primeiro momento a dimensão divina de Jesus, o novo espaço ou modo de culto e de relação com Deus. A partir desta novidade, desta concepção que o corpo é presença de Deus, todos os milagres, todas as curas, ganham um novo sentido, uma outra dimensão, ou seja, aquele que é a presença por excelência de Deus entre os homens restaura nos outros homens essa mesma presença, abre-lhes as vias para uma relação e presença mais plena.
Naturalmente este episódio tem consequências, não só na dimensão da relação do homem com o sagrado mas sobretudo na condição e identidade do próprio homem, novo espaço divino.
Sabemos pela história do povo de Israel como o templo era uma realidade fundamental, uma estrutura inquestionável e intocável, de tal modo que até tinha um lugar reservado, um santo dos santos. O templo era o sinal e a manifestação mais visível da presença de Deus entre os homens, da sua habitação com a obra criada e com o povo eleito para a salvação.
Contudo, e pelo próprio culto desenvolvido e dos animais necessários, o espaço e o culto desviou-se do seu fim mais profundo; e assim, de um lugar de presença, de relação, tornou-se num lugar de comércio, poderíamos dizer até de tráfico. Não podemos imaginar que Jesus foi ali correr à chicotada os vendedores necessários àquela multidão, as nossas barraquinhas das festas populares, os nossos fornecedores de hóstias e vinho para a missa, mas aqueles que exploravam o culto, aqueles que sustentavam um tráfico do divino, como se o amor de Deus, a sua graça, pudesse ser adquirido, manipulados por uma moeda, um touro ou até um sacrifício que nos impomos.
Estamos perante o tráfico e a exploração do amor de Deus, e é contra isso que Jesus se insurge e manifesta, como já o tinha feito no momento do sermão da montanha. O que Jesus anuncia de modo profético neste gesto de expulsar os vendedores do templo é o culto sem compromisso, o culto livre, o culto que assenta o seu fundamento na gratuidade e no amor, no dar a vida pelo amor do outro. Se há um culto a realizar, se há uma relação com Deus a viver e sustentar, ela só pode ser verdadeira e efectiva na gratuidade, no amor, na entrega total.
E por isso São Paulo nos fala, na leitura da Carta aos Coríntios que escutámos, da loucura da cruz, desse sinal que é escandaloso, mas que manifesta na sua total dimensão e profundidade o grande mistério de Deus que se entrega nas nossas mãos, que podemos dizer se deixa fazer manipulável, acessível a todos, ao contrário da ideia mais comum às religiões e cultos que assenta no acesso ao divino pela troca comercial.
Pelo dom da vida de Jesus consumado na cruz, Deus está ao nosso alcance e não precisamos de ir muito longe para o encontrar, não necessitamos de lugares privilegiados, porque afinal Ele está em cada um de nós, habita ressuscitado em cada homem e em cada mulher.

Podemos assim encontrar Deus e relacionarmo-nos com Ele na rua, no segredo do nosso quarto, na igreja que frequentamos, no espaço de trabalho que partilhamos com o outro. Podemos e devemos encontrar Deus no outro que habita connosco, nos nossos pais e no respeito que nos merecem, nos filhos e nos cuidados que nos exigem, na intimidade do homem e da mulher que partilham o mesmo leito, na cooperação diligente no trabalho que realizamos, na alegria e na festa que vivemos entre amigos.
O outro é afinal a nova e a grande presença de Deus, uma presença manifestada desde a obra da criação, mas que foi sendo esquecida, rejeitada, porque é mais fácil relacionarmo-nos com um objecto, com uma imagem, com um ídolo, que com o outro que é carne como a nossa, que é tão frágil como nós, que pela sua singularidade vai para além do que desejamos e expectamos.
O zelo pela casa do Senhor devorou o coração de Jesus e levou-o àquela atitude violenta que não se coaduna com o que conhecemos dele, mas que ainda assim está imbuída de atenção e cuidado, pois se num outro momento e porque não tinha sido bem recebido numa aldeia os discípulos lhe perguntaram se podiam mandar um raio sobre aquela aldeia, Jesus com os cambistas e os vendedores de pombas tem o cuidado e a delicadeza de lhes dizer apenas que retirem tudo aquilo dali, pois não só não dignifica a casa do Pai como não os dignifica a eles como filhos de Deus, como membros do povo eleito.
A nossa consciência da habitação de Deus em cada um de nós, o zelo pela sua casa que não é mais que cada um de nós e que nos deve devorar, deve levar-nos também a gestos corajosos de defesa do outro, de defesa da vida, da dignidade de todo o homem. É nossa obrigação cuidar do outro, dignificar a presença de Deus em cada um de nós. E tal como Jesus, não podemos perder de vista o cuidado, a delicadeza, a educação, como o devemos fazer.
Que nesta terceira semana da Quaresma estejamos atentos aos nossos irmãos e que os saibamos cuidar com carinho, com delicadeza e fineza, como se cuidássemos do próprio corpo de Jesus, como a mulher pecadora o cuidou com os seus perfumes e as suas lágrimas. Tal como Jesus que lavou os pés a Pedro para que pudesse tomar parte com ele, saibamos nós também cuidar humildemente uns dos outros para conjuntamente tomarmos parte na glória de Jesus.  
 
Ilustração:
1 – “Jesus expulsando os vendedores do templo”, pintura de Arcabas, igreja de Saint Hugues le Chartreuse, Grenoble.
2 – “Jesus lavando os pés a Pedro”, de Ford Madox Brown, Tate Britain, Londres.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Homilia do II Domingo da Quaresma Ano B

A leitura do Evangelho deste segundo domingo da Quaresma apresenta-nos a transfiguração de Jesus diante dos discípulos Pedro, Tiago e João. É um momento importante na caminhada de Jesus com os discípulos, mas é igualmente um momento importante na nossa caminhada da vida e na nossa caminhada quaresmal de preparação para a Páscoa. Sem que tenhamos muita consciência disso fazemos já neste momento uma experiência da ressurreição, projecta-se no nosso horizonte esse grande mistério que nos envolve a todos.
Contudo, para compreendermos um pouco melhor o que se passou, temos que olhar os momentos que precedem este acontecimento, pois é à sua luz que ele ganha contornos mais definidos. Assim temos a multiplicação dos pães e a cura do cego de Betsaida, e após estes milagres a célebre pergunta de Jesus aos discípulos sobre a sua identidade. Afinal quem dizem os homens que ele é e quem dizem eles que é.
Diante da confissão de Pedro, de que Jesus é o Messias, aparece-nos o primeiro anúncio da paixão de Jesus, um contraponto ao que Pedro acabou de formular, e logo imediatamente a seguir a repreensão de Pedro ao Mestre, pois o que tinha acabado de dizer não fazia sentido nenhum, não se encaixava naquilo que tinham assistido de extraordinário, de grandioso. Afinal como é que Jesus podia assumir um final trágico, um final de rejeição e morte, com as multidões a procurá-lo, com os milagres que realizava, com os poderes que manifestava?  
O anúncio de Jesus opõe-se à imagem do super-herói, de alguém que tem poderes para fazer o que quiser, e que se vinha a construir no meio de todos; e Pedro inevitavelmente não podia aceitar isso, ou como nos diz o texto evangélico, satanás não podia permitir a fuga a essa imagem, a essa brecha de tentação à utilização dos poderes para a glória própria.
Face a esta perturbação, a esta anarquia de valores e interesses, à confusão gerada ainda mais pela apresentação das condições para seguir o Mestre, Jesus reformula a estratégia, se assim podemos dizer, e num movimento pedagógico inusitado recolhe-se com três dos discípulos lideres num alto do monte e transfigura-se diante deles.
Podemos dizer que é uma manifestação que visa preparar os discípulos, fortalecê-los na sua união com o Mestre, na coragem e na confiança para poderem atravessar a tormenta que de facto já se desenha no horizonte. Sabemos, no entanto, que a experiência não foi muito eficaz, pois no momento mais perigoso cada um dos discípulos escapa-se como pode.
E esta ineficácia está já patente neste mesmo momento quando Pedro propõe construir três tendas, uma para Elias, outra para Moisés e outra para Jesus. O evangelista diz-nos que Pedro não sabia o que dizia, desculpando Pedro da proposta delirante, pois se pelo lado de Jesus a companhia de Elias e Moisés significava a sua relação com as promessas messiânicas, pelo lado de Pedro a proposta das três tendas visava um encerramento, uma reconfiguração de toda a experiência com Jesus nos quadros do antigo profetismo e da lei mosaica.
É por esta razão que a transfiguração de Jesus no alto do monte se divide em dois momentos, se compõe de duas experiências, a da visão dos antepassados Elias e Moisés e a da teofania da voz que vindo da nuvem escura lhes diz que aquele é o Filho muito amado. Estamos assim face a um convite que apela a uma integração do antigo no novo, a uma nova relação com o divino, não já através do profetismo ou da lei, mas pela relação muito pessoal e intima com aquele que é o Filho, a manifestação do amor do Pai.
A transfiguração é assim a habilitação dos três discípulos para a experiência futura da rejeição, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Tudo vai acontecer de acordo com a lei e os profetas, mas a sua cabal compreensão só é possível através da relação com o transfigurado ressuscitado. Compreendemos assim que após a teofania Jesus ordene aos discípulos que não comentem nada do sucedido até à ressurreição, ainda que como o Evangelho nos diz eles não soubessem o que isso significava.
Esta ordenação, agora limitada no tempo, aparece em muitos outros momentos quando Jesus impede os espíritos de falarem, de dizerem quem ele é. Não se trata de uma cabala, nem de um segredo de justiça que não pode ser violado, bem pelo contrário trata-se de um aviso, de uma precaução, pois só após a ressurreição se poderá falar verdadeiramente daquele Jesus, daquele Messias, do Filho de Deus. Antes disso todos os discursos, todas as afirmações serão um fiasco, um equívoco.
É a experiência do encontro com o ressuscitado que dá a verdadeira e completa imagem de Jesus, o verdadeiro conhecimento do amor de Deus, que nos faz perceber que Deus não poupou o seu próprio Filho para nos resgatar da condição do pecado, para nos assegurar a relação de filiação e intimidade que tínhamos perdido com a desobediência dos nossos primeiros pais.
A transfiguração é assim, na nossa caminhada quaresmal, na nossa vida de cristãos, uma manifestação dessa tensão em que vivemos, estamos no mundo mas não somos do mundo, somos filhos de Deus mas vivemos como filhos dos homens, vamos caminhando para o imprevisível e vamo-nos preparando para o impossível mas apenas orientados pela confiança na palavra e nos testemunho dos que nos precederam. Na nossa realidade do quotidiano, na nossa fragilidade, perfila-se um horizonte de glória, de luz, no qual fomos integrados desde o nosso baptismo mas necessitamos actualizá-lo, assumi-lo plenamente, transformando a nossa condição finita e pecadora, em suma transfigurando-nos.
Este compromisso e trabalho diário tornam-se mais simples na medida em que a nossa confiança em Deus é forte, em que a fé nos leva a ter garantido o auxílio de Deus e a sua protecção. Dessa forma poderemos também nós confiar a Deus o que mais amamos, tal como Abraão confiou o seu filho Isaac, ou o que mais tememos e nos intimida, uma vez temos à direita do Pai aquele que intercede por nós, como nos diz São Paulo.
Nesta segunda semana da Quaresma somos assim convidados a desenvolver a confiança, a confiar nas nossas capacidades e potencialidades, nos dons que Deus nos confiou, bem como nos irmãos com que vivemos e construímos projectos de vida e trabalhos, mas sobretudo em Deus que não nos falta com a sua protecção e a sua luz.

 
Ilustração:
1 – “Transfiguração”, pintura de Carlo Bloch, Frederiksborg Castle Museum, Dinamarca.
2– “Jesus em oração”, pintura de Arcabas, igreja de Saint Hugues le Chartreuse, Grenoble.

 

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Homilia do I Domingo da Quaresma Ano B

Neste primeiro domingo da Quaresma o Evangelho apresenta-nos as tentações de Jesus, e estamos já tão habituados a este acontecimento que nem reparamos como o Evangelho de São Marcos se distancia nesta narração dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas. O Evangelho de São Marcos diz-nos apenas que Jesus era tentado, não nos especificando quais as tentações que sofreu, como o fazem São Lucas e São Mateus que nos apresentam três tentações.
Esta simplicidade de São Marcos, a sua narração sintética, como já temos vindo a ver nos domingos anteriores, não é no entanto despojada de sentido, bem pelo contrário, ela quer colocar em evidência uma outra dimensão, uma outra face de Jesus, ou seja, procura uma vez mais mostrar como Jesus é o Filho de Deus, aquele no qual os seus interlocutores e leitores devem acreditar.
Desde o primeiro momento que a resposta à questão quem é este, está patente, Jesus é o Filho de Deus; mas torna-se necessário desenvolvê-la, especificá-la e fazê-la credível em todos os seus aspectos e dimensões àqueles que a desejam obter.
Assim, São Marcos não só coloca no momento do baptismo o Espirito a anunciar que aquele Jesus é o Filho muito amado do Pai, como nos diz que é o mesmo Espirito que conduz Jesus ao deserto, como se a experiência do baptismo não estivesse completa, como se fosse necessário mostrar algo mais do que já se tinha anunciado.
E de facto é isso que acontece com Jesus e com todos nós baptizados. Podemos dizer, usando as palavras da Carta de São Pedro que lemos, que se torna necessário evidenciar o compromisso para com Deus, que se torna necessário fazer a experiência da dimensão divina na nossa dimensão humana.
O ser filho muito amado de Deus, como todos somos, é algo que exige de nós uma atitude, um compromisso, uma vida diferente, um viver constante de combate entre as nossas forças mais negativas, mais inviabilizantes da nossa realização plena, e a graça divina, a força de vivermos para a plenitude como filhos de Deus.
Jesus vai ao deserto fazer essa experiência da passagem do Deus todo-poderoso, do Deus que tudo controla e ao qual tudo se submete, para o Deus que ama, que se entrega e aniquila, que se faz pequenino e pobre, poderíamos dizer como Maurice Zundel, o Deus mendigo. As três tentações que os evangelistas São Lucas e São Mateus nos apresentam nesta experiência do deserto são uma metáfora dessa grande tentação que afinal todos os homens sofrem, e hoje nós mais que nunca, que é a tentação de querer tudo, agora e de forma definitiva.
É a tirania do imediato absoluto, que não nos permite nem apreciar verdadeiramente o que temos e somos, nem nos deixa tempo para perceber como a vida e todas as realizações são um devir no tempo e no espaço.
São Marcos ao apresentar-nos uma experiência de Jesus no deserto diferente, mais centrada no Espirito e na concepção paradisíaca da vida, com essa imagem da convivência de Jesus com os animais e a ser servido pelos anjos, imagem que foi tão cara ao profeta Isaías, quer dizer-nos que mais importante que as tentações, que o que nos pode seduzir e distrair de Deus, é a sua presença, é a sua oferta de uma vida plena, é a dimensão primordial da intimidade com Deus. O combate contra o mal tem a vitória assegurada, e Jesus é a primeira testemunha disso.
Por esta razão, Jesus sai do deserto para ir anunciar que o tempo se cumpriu, que o Reino de Deus está próximo, e portanto torna-se necessário arrepender-se e acreditar no Evangelho, nessa boa nova que nos acompanha desde a criação, nessa aliança de paz que Deus estabeleceu com todos os homens e todos os seres após o dilúvio, como nos diz a leitura do Livro do Génesis. O homem não está sozinho a combater o mal, Deus está com ele e dá-lhe forças para o poder fazer com coragem e audácia.
Ao iniciarmos a Quaresma, a nossa caminhada de preparação para a Páscoa, podemos ser tentados a desanimar, logo após o primeiro ensaio, pois confrontamo-nos com as nossas fraquezas e infidelidades, com a nossa fraca vontade e as dificuldades de uma mudança, de uma conversão. Contudo, face a essa tentação, de tudo e já agora e bem feito, não podemos soçobrar, mas bem pelo contrário devemos olhar os nossos pequenos esforços com esperança e confiança pois Deus combate connosco.
Que o nosso propósito desta primeira semana da Quaresma seja um propósito de humildade, que não deseja nem aspira a coisas grandes e altas, a uma conversão mágica, mas que se dispõe a lutar com confiança permitindo que a graça de Deus também faça a sua parte em cada um de nós, tal como está expresso nesta oração encontrada numa leitura de viagem.
Senhor, o problema é teu, é por tua culpa que eu me encontro nesta situação. Desenrasca-te. Ocupa-te como deve ser, pois não é a mim que me compete. Tu mandaste-me andar sobre o mar, portanto és tu que tens que fazer com que o mar me suporte. (Adrien Candiard)

 
Ilustração:
1 – “As tentações de Jesus”, pintura de Arcabas, igreja de Saint Hugues le Chartreuse, Grenoble.
2 – “Baptismo e tentação de Jesus”, de Paolo Veronese, Pinacoteca de Brera.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Viver é perder-se para o outro


Quem deseja viver, no sentido pleno da palavra, sabe da necessidade de rupturas e de mortes, nas quais se tem a impressão de tudo perder.
 
Não há vida sem despossessão, porque não há vida sem amor nem amor sem abandono de toda a possessão, sem gratuidade absoluta, dom de si próprio na confiança desarmada.
 
Amar alguém não é preferi-lo à própria vida?
Sem a morte não há nada que possamos preferir a nós próprios.
Estar pronto a dar a sua vida por alguém é verdadeiramente a prova decisiva do nosso amor.
 
Aquém desse dom, nós ainda não amámos; ou pelo menos, não amámos mais que a nós próprios.

Adrien Candiard, Pierre et Mohamed, 55.