segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Homilia do V Domingo do Tempo Comum Ano B

A leitura do Evangelho que escutámos continua a narrar a primeira jornada de Jesus em Cafarnaum, uma jornada de sábado que nos faz um síntese da vida e da missão de Jesus, que nos ajuda a encontrar uma resposta para a questão do mal e do sofrimento que a primeira leitura, do Livro de Job, nos coloca como inevitável.
Job é um homem justo, mas que perde tudo, desde as propriedades à família, inclusive a própria saúde, restando-lhe apenas a vida dolorosa de sofrimento. Numa tentativa de conforto e justificação da desgraça, os amigos procuram despertar nele uma culpa, qualquer atitude que pudesse ter provocado aquele desaire.
Contudo, Job não encontra esse erro, essa falha que podia ter provocado a punição pela parte de Deus. Bem pelo contrário, recusa-se mesmo a acolher essa ideia de um Deus vingativo, de um Deus castigador, há nele uma esperança infinita em Deus que olha a vida e a reconhece como um sopro e a ama nessa mesma fragilidade e finitude.
O Livro de Job é assim uma resposta e uma contestação a essa ideia tantas vezes difundida de que Deus se vinga, de que Deus cobra os nossos erros e as nossas faltas, como se de um ser sádico se tratasse, como se satisfizesse com a dor e o sofrimento, com a infelicidade da sua obra.
Outra questão que o sofrimento nos levanta, e que marcou os intelectuais da primeira metade do século vinte e a literatura russa do século dezanove, de que os Irmãos Karamazov são um testemunho, é a da inacção de Deus face ao mal e ao sofrimento. Albert Camus, que escreveu o romance “A Peste”, coloca essa questão de forma premente, afinal que Deus é este que se esquece e não olha aqueles que sofrem.
A questão de Camus foi colocada directamente ao teólogo e filósofo suíço Maurice Zundel, que lhe respondeu da forma mais surpreendente e sublime que podemos imaginar. Em qualquer sofrimento humano Deus é o primeiro a sofrer, Deus sofre com o homem e pelo homem, sofre antes do homem e depois do homem. E para que Albert Camus compreendesse a dimensão da sua ideia, Zundel apresentou-lhe a imagem da mãe que sofre pelo seu filho, tanto ou mais que o próprio filho.
O místico suíço faz eco de uma das mais belas expressões proféticas que podemos encontrar na Sagrada Escritura, se uma mãe não pode esquecer o fruto das suas entranhas, muito menos Deus pode esquecer os seus filhos, o fruto das suas entranhas de amor. E o amor materno, no que tem de mais sublime, é uma pálida imagem do amor divino, amor que foi capaz de se entregar a si próprio no Filho para resgatar aqueles pelos quais ninguém era capaz de dar alguma coisa, que foi capaz de se fazer pecado para nos libertar do pecado.
Deus é assim a primeira vitima do mal e do sofrimento, é o primeiro que sofre, porque na sua obra mais perfeita, na obra criada à sua imagem e semelhança, vê acontecer o mal e a degradação, vê o sofrimento e a dor, vê a morte. É a contingência da criação, a limitação estrutural da obra, é a fragilidade inata, uma obra grandiosa e feita para a plenitude mas que pode sucumbir a um terramoto ou a uma simples virose.
E porque o desespero do homem podia ser muito grande, tal como diz Dostoievsky o sofrimento pode ser insuportável, Deus veio até ao homem, fez-se um de nós para nos libertar do medo, para nos dizer que não estamos sós nesta travessia de deserto, do sofrimento e da dor, da morte. O gesto de Jesus para com a sogra de Pedro é a metáfora desta presença e acção de Deus junto de todos nós, ele vem ao nosso encontro, estende-nos a mão para nos curar do medo, da paralisia face ao mal e à dor, Deus ergue-nos amorosamente para que sejamos testemunho, sinal de uma outra presença, de uma outra vida.
Todos nós temos ainda presentes as imagens dos últimos meses de vida do Papa e hoje Santo João Paulo II, da sua doença debilitante e transfigurante; e contudo, naquela fragilidade, aquele homem era um sinal, um apelo à luta pela vida, e certamente muitos homens e mulheres continuaram a lutar pela vida ao vê-lo naquela fragilidade, foram serviço de vida para outros homens e mulheres.
Tal como dizia São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, fez-se fraco para ganhar os fracos, para não permitir que caíssem no desalento. O mistério da encarnação de Jesus, a sua paixão e morte, o fazer-se homem como nós, foi para nos ganhar para a vida, para que não desesperássemos da vida que é mais que o nosso corpo ou a nossa saúde.
Esta consciência, poderíamos dizer o fruto da conversão e do combate, não é contudo fácil, pois não só nos sabemos feitos para a plenitude, e portanto é-nos difícil acolher e aceitar a finitude e a fragilidade da nossa condição corpórea, como também muitas vezes adulamos a nossa condição física, vivemos como se fossemos eternos na nossa juventude e capacidades.
Para podermos dar a resposta de Jesus, face à tentação aduladora expressa nas palavras de Pedro de que todos andavam à sua procura, “vamos a outros lugares pois foi para isso que eu vim”, também nós necessitamos recolher-nos do mundo, afastar-nos e entrar em diálogo com Deus Pai, perceber no silêncio da intimidade e do amor de Deus a nossa finitude, as nossas fraquezas e limitações, mas como apesar disso a nossa vida está chamada a ser um sinal de algo mais elevado, de uma outra realidade que é eterna.
Que a Virgem Maria, Maria Madalena e o discípulo amado nos acompanhem sempre na cruz do nosso sofrimento, na qual Jesus está crucificado connosco.

 
Ilustração:
1 – Job, de Jan Lievens, National Gallery of Canada.
2 – Jesus curando a sogra de Pedro, desenho de Rembrandt, Fondation Custodia, Paris.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Homilia do IV Domingo do Tempo Comum Ano B

A leitura do Evangelho de São Marcos que escutámos apresenta-nos aquilo que poderíamos chamar o “debutar” de Jesus, o primeiro acontecimento com impacto público da vida e missão de Jesus, a cura do homem com um espirito impuro na sinagoga de Cafarnaum.
Estamos no primeiro capítulo do Evangelho de São Marcos e se o compararmos com os outros Evangelhos Sinópticos ficamos com a sensação que o autor tem pressa, que há nele um desejo tremendo de síntese, e assim retirou da narração outros factos que tanto o Evangelho de Mateus como o de Lucas nos apresentam projectando dessa forma esta jornada de Cafarnaum para capítulos posteriores.
Tal facto, rapidez sintética, deve-se ao público para o qual São Marcos escreve, o público romano habituado aos tratados de direito e à história, à oratória pública, e ao qual é necessário apresentar aquele que fala com autoridade, aquele Jesus que não é mais um comentador de tratados, mais um escriba, mas alguém que tem poder de palavra e cujos milagres, cujos gestos, confirmam esse mesmo poder de palavra.
E assim, para confirmar esse poder de palavra, essa autoridade que os romanos são chamados também a reconhecer, São Marcos apresenta-nos o homem possuído de um espirito impuro que é libertado por Jesus, pela sua autoridade expressa em palavras que agem, que transformam.
Hoje, para cada um de nós, esta mesma necessidade de reconhecimento mantém-se válida e assim somos chamados por Deus e na nossa procura de fidelidade a escutar a Palavra feita carne, a escutar Jesus, a perceber o seu poder, a acolher o seu poder transformante da nossa vida, a sua dinâmica libertadora daquelas realidades que nos afastam do projecto de Deus e inviabilizam a nossa plenitude humana.
Contudo, esta palavra transformante, libertadora, pode gerar o medo, pode colocar-nos na mesma situação daquele espirito impuro que interpela Jesus na certeza de que algo se vai perder, alguma coisa vai sofrer uma conversão. Afinal de contas, é esta uma das experiências mais básicas do homem, o sentimento de medo face ao desconhecido, face à novidade, face à perda de poder e controlo.
Algumas vezes face à interpelação de Deus, ao convite a uma vida nova, ao seguimento do seu Filho, também nós sentimos medo, pois percebemos que enveredamos por uma nova vida que não sabemos onde nos levará, que nos desinstalará do que conhecemos e damos por garantido, que nos exige algo mais do que estamos habituados a dar. E sabemos como damos muito pouco! Se das nossas capacidades físicas utilizamos pouco mais de dez por cento, que poderemos dizer das nossas capacidades espirituais?
Mas é face a este medo que Jesus se nos apresenta como a luz e a verdade, a fortaleza e o refúgio seguro, como a autoridade por natureza, para que não temamos a novidade radical do projecto de Deus, a conversão que nos é solicitada e está ao nosso alcance, à mão das nossas capacidades.
Jesus apresenta-se com autoridade para o nosso próprio interesse, como diz São Paulo na Carta aos Coríntios, não é para nos perdermos nem para nos armar uma cilada, bem pelo contrário, é para que vivamos em segurança, em liberdade, num justo equilíbrio entre aquilo que são as nossas preocupações do mundo e a necessidade urgente de centrarmos a nossa vida em Cristo Jesus.
E hoje em dia, face a tantas solicitações do mundo, a tanta preocupação com os filhos, com o trabalho, com a sustentabilidade da família, é necessário que não nos deixemos vencer pelo medo, mas bem pelo contrário que nos fortaleçamos com um espirito de optimismo, de confiança, não perdendo o norte de que tudo o que fazemos deve estar orientado para Deus e por Deus, para a nossa plena realização como homens e mulheres e filhos de Deus.
Não temais é o grande convite de Jesus nas aparições após a ressurreição e continua a ser o convite que nos é feito hoje. O medo impede-nos de caminhar, de nos equilibrarmos, de nos abrirmos à novidade do Reino de Deus, à transformação da nossa vida. Face a esse medo, não podemos deixar de rezar reutilizando as palavras do espirito impuro: Senhor, eu sei quem tu és, o Santo de Deus, tens tudo a ver connosco, porque te fizeste um de nós em Jesus de Nazaré, faz-nos viver na graça da salvação que nos alcançaste.

 
Ilustração:
1 – O Exorcismo, Les Très Riches Heures du Duc de Berry, Musée Condé, Chantilly.
2 – Jesus abençoando o mundo, Les Très Riches Heures du Duc de Berry, Musée Condé, Chantilly.  

domingo, 21 de janeiro de 2018

Homilia do III Domingo do Tempo Comum Ano B

As leituras que escutámos neste terceiro domingo interrelacionam-se por temáticas comuns, como são a questão do tempo e a forma como o vivemos, como são a conversão que necessitamos realizar em cada dia, em cada momento, no tempo que nos é concedido viver.
A leitura do profeta Jonas é certamente a mais clara e incisiva das leituras de hoje na questão da conversão, pois Jonas vai à grande cidade de Nínive para provocar a mudança de atitudes, para provocar a conversão, tão desejada por Deus, que não se vinga nem quer a morte do pecador, mas pelo contrário que se converta e viva.
Contudo, e como nos diz o texto lido, este apelo foi tido em consideração em pequeno espaço de tempo. Jonas não precisou atravessar a cidade para ser escutado, bem pelo contrário, os habitantes de Nínive perceberam a urgência da conversão, a escassez do tempo, a sua brevidade, como nos recorda também São Paulo na leitura da Carta aos Coríntios, e logo após o primeiro dia de anúncio proclamaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao mais pequeno, do rei aos animais.
O Evangelho de São Marcos que acabámos de escutar apresenta-nos no entanto já outra realidade, um tempo que poderíamos dizer ultrapassado, pois Jesus sai a anunciar que o tempo se cumpriu e o Reino de Deus Está próximo. Já não se trata de termos mais ou menos tempo para mudar de vida, para a nossa conversão, mas de assumirmos a conversão que nos é oferecida, a oportunidade e possibilidade de mudar de vida, pela simples razão de que o Reino de Deus já está entre nós, no meio de nós.
É este o sentido do convite de Jesus a Pedro e André que se encontram a pescar, o convite a acompanhá-lo para serem pescadores de homens. A perspectiva é numa primeira abordagem completamente descabida, pois como é possível pescar homens em vez de peixes; mas quando olhamos o apelo como uma proposta a mudar de vida, a aceitar uma outra vida que já não é apenas sua, mas acção da graça de Deus, do Espirito de Deus, percebemos que Pedro e André podem ser pescadores de homens, assim como cada um de nós, por essa vida nova vivida divinamente.  
Olhando para o momento seguinte e a diferenciação que o evangelista São Marcos faz relativamente aos assalariados que ficaram com o pai de André e João, percebemos a novidade e extravagância do convite e da proposta. Trata-se de uma alteração de estatuto, de identidade, de relação, pois aqueles que seguem Jesus, os que aceitam ser pescadores de homens não são já assalariados, mas bem pelo contrário amigos e íntimos frequentadores do Senhor da messe. Trata-se daquilo que Jesus vai dizer mais tarde aos discípulos, que já não são servos, escravos, mas amigos, aqueles que conhecem a intimidade do seu amo e senhor, e portanto não podem deixar de ser como ele.
É claro que esta alteração não acontece de um momento para o outro, temos que dizer que é progressiva, pois todos nós estamos condicionados por aquilo de que nos apropriamos, das pescarias que consideramos produto do nosso esforço e trabalho. Os discípulos sofreram o mesmo, e por isso os vemos ainda depois da ressurreição a perguntar a Jesus se ia restaurar o reino de Israel.
De facto, para acedermos e vivermos a conversão que Jesus nos oferece temos que nos ultrapassar em muitas realidades e desejos, em muitas gratificações e satisfações que buscamos, temos que nos libertar do que nos ocupa e preocupa no quotidiano e que nos afasta de Deus, da sua intimidade, da vida divina que nos é oferecida.
São Paulo na Carta aos Coríntios apresenta-nos essa necessidade, essa mudança que temos que realizar na perspectiva da provisoriedade das coisas, da sua limitação e finitude, afinal como estão todas condenadas à morte, a desaparecer, e não podemos fixar aí nem o nosso coração nem a nossa vida. E neste sentido, o índice mais incisivo desta realidade é o nosso próprio corpo, que com a idade se vai centrando cada vez mais, que na perda de capacidades vai perdendo relação com o exterior e se vai fixando no interior, numa outra realidade que não dominamos.
O tempo que hoje nos é concedido a cada um de nós é assim o tempo de Deus, um tempo em que o objecto dos nossos desejos deve passar do exterior para o interior, em que Deus deve crescer e tornar-se o centro da nossa vida e das nossas palavras.
Assim, o cristão não se distingue, nem deve distinguir-se por práticas estranhas ou desumanas, por rituais bizarros, mas por essa consciência da sua integração em Deus, por essa atitude de fé e de esperança de que estamos chamados a ser bons, a ser melhores, que Deus nos oferece a graça para isso, e portanto procuramos adequar a nossa vida a essa possibilidade e oferta. Deus não é o extraordinário que nos altera a vida, mas o centro da vida que vivemos extraordinariamente.
Que esta semana que agora iniciamos fique marcada por esta alegria de Deus que habita em nós, por esse desejo de querer viver com intensidade e plenitude, que certamente marcará os nossos irmãos e os despertará para a mesma vida plena.

 
Ilustração:
1 – A Vocação de Pedro e André, de Federico Barocci, Museu do Rei Jan III, Palácio de Wilanow, Varsóvia.
2 – Santa Maria Madalena Penitente, de Guido Reni, Walters Art Museum, Baltimore.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Homilia do II Domingo do Tempo Comum Ano B

Após as festas do Natal estamos a iniciar um novo tempo litúrgico, um tempo que nos vai permitir conhecer e acompanhar a vida pública de Jesus, e iniciamos esse novo tempo com o relato do encontro de Jesus com André e João junto do rio Jordão.
É um momento importante, bastante importante, e por essa razão João vai recordá-lo nesta dimensão tão especial e pormenorizada no seu Evangelho, esquecendo e deixando completamente perdidas na memória as razões porque estava ali, as razões porque João Baptista lhes indica, a ele e a André, que aquele Jesus é o Cordeiro de Deus.
Contudo, e ainda que o Evangelho não nos faça presente as razões porque aqueles dois se encontravam ali, podemos intui-las, pois aqueles que se tinham abeirado de João Baptista eram homens e mulheres insatisfeitos, homens e mulheres que buscavam um sentido para as suas vidas, um outro sentido, uma possibilidade de um encontro renovado com Deus.
Ao desejo de André e João, à sua busca, encaminha-se o desejo e a busca de Deus, num processo que se faz a meias. O homem caminha-se ao encontro de Deus que naturalmente vem ao encontro do homem. Nesta circunstância é Jesus que passa, que se aproxima, para que o encontro se dê. E como poderiam estar perdidos, sem saber muito bem onde se encontravam nesta busca, João Baptista aponta-lhes a resposta, a oportunidade. Está ali, é aquele.
Quantas vezes não nos deparámos, também nós, com esta explicitação, com este dedo apontado de João Baptista, agora na palavra, no gesto, no testemunho de alguém com quem nos cruzámos? Afinal Deus continua a vir ao nosso encontro, continua a querer responder aos nossos desejos e à nossa busca, continua a perguntar a cada um de nós, que procurais? Que procuramos?
E sem que tenhamos consciência disso, a nossa questão continua a ser a mesma, “onde vives”, onde podemos estar contigo, onde nos podemos encontrar contigo, onde podemos ser contigo? É uma questão primordial na nossa vida e para a qual Deus continua a responder-nos como Jesus respondeu a João e a André, “vinde ver”.
Sabemos que não viram muito, não podiam ter visto muito, pois naquele local deserto pouco mais haveria que umas pequenas tendas para aqueles que pernoitavam, antes ou depois do baptismo de João. Estando ali de passagem, Jesus não podia deixar de estar numa delas.
Se olharmos para o futuro, passados três anos sobre este primeiro encontro, para a manhã da ressurreição, este mesmo João vai ver apenas o lençol e as ligaduras no sepulcro vazio de Jesus; contudo, é-nos dito que depois de ter visto, e só ter visto isto, acreditou.
O convite de Jesus a vir e ver é assim algo que vai para além dos sentidos físicos, é um ver de coração, é um vir para ser com, é a oferta de poder repousar a cabeça sobre o seu peito, tal como João o fez na noite da última ceia, na noite do maior amor e da maior traição.
Ir e ver é acolher uma transformação, é fazer a experiência de Deus em nós, de sermos outros que não nós próprios, outros que são filhos de Deus, que são habitação sua, que são templo do Espirito Santo, e, tal como nos diz São Paulo na segunda leitura que escutámos, devem viver com dignidade a sua dimensão corpórea.
Esta transformação da nossa condição, da nossa identidade, poderíamos até dizer da nossa natureza, está explicita no encontro de Jesus com Simão que passa a ser Pedro, como nos relata o Evangelho. E se olharmos para a relação que existe entre Pedro e pedra percebemos que o novo nome dado ao irmão de André está fundamentado na rocha onde todos devemos construir a nossa casa, sobre a rocha que nenhum temporal pode derrubar.
A tradição bíblica judaica reconhece o templo como a rocha, mas é também no Senhor Deus como um rochedo que nos podemos refugiar, como canta o salmista. Jesus assume esta ideia, que poderíamos dizer metafórica, e assim aparece-nos como o novo rochedo de onde dimana a água viva, o rochedo novo da construção do templo que é Ele próprio. E todos aqueles que se encontram verdadeiramente com ele, que buscam a sua semelhança, são como uma rocha, uma casa bem alicerçada, um outro Pedro.
Todo este processo, esta possibilidade de encontro, comporta no entanto algo que hoje em dia nos exige algum esforço, como é a escuta. Necessitamos escutar, necessitamos ouvir, necessitamos estar atentos, e para tal necessitamos fazer silêncio, exterior e interior.
Se André e João não estivessem atentos, à escuta do que João Baptista dizia, não teriam visto Jesus, não se teriam apercebido da sua presença no meio da multidão. Se Samuel, que encontrámos na primeira leitura, não estivesse no silêncio da noite, não teria escutado a voz de Deus. Necessitamos escutar, porque como nos diz São Paulo a fé chega-nos pelo ouvido, pelo que escutamos.
O Papa Francisco ainda esta semana, numa das suas homilias, chamava a atenção para a necessidade de fazermos momentos de silêncio nas nossas celebrações litúrgicas. Na tradição dominicana diz-se que o silêncio é o pai dos pregadores. Necessitamos pois de silêncio.
Que nesta semana que agora iniciamos sejamos capazes de guardar silêncio, de nos dispormos a escutar o que o Senhor nos diz, a encontrar-nos com Ele para transformados e conscientes na sua habitação em cada um de nós nos encontrarmos dignamente com os nossos irmãos na busca comum do sentido da vida.

 
Ilustração:
1 – Ecce Agnus Dei, de Giovanni di Paolo, Art Institute of Chicago.
2 – Correndo para o sepulcro, de Eugène Burnand, Musée d’Orsay, Paris.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Homilia do II Domingo do Advento Ano B

As leituras que escutámos neste segundo domingo do Advento estão marcadas pela necessidade de nos empenharmos na preparação da vinda do Senhor Jesus, de endireitarmos os nossos caminhos tortuosos para que o Senhor possa chegar até nós.
Após o convite à vigilância, do domingo passado, apresenta-se-nos hoje o convite ao empenho e ao esforço para que os caminhos da vinda do Senhor estejam desimpedidos dos obstáculos que lhe dificultam ou barram a passagem.
Este empenho e esforço estão personificados na figura de João Baptista que o Evangelho de São Marcos nos apresenta logo no início do Evangelho sem qualquer referência, sem qualquer história, sem qualquer enquadramento. Se não conhecêssemos algo mais de João pelos outros Evangelhos seria totalmente um estranho.
Contudo, o seu aparecimento no início do Evangelho de São Marcos é bastante significativo, pois estabelece a ponte entre a novidade e a tradição, entre a profecia de Isaías que escutávamos na primeira leitura e o seu cumprimento, entre um projecto e a sua concretização plena. João é um apelo e uma convocação que nos vêm do futuro para uma vida nova, para a participação livre e activa na plenitude da realização do prometido por Deus.
Assim, o facto de João se encontrar no deserto e ali desenvolver a sua pregação, como nos apresentava o Evangelho, não é de estranhar. O deserto é o lugar de passagem, o lugar do êxodo, e com João inicia-se uma nova passagem, entramos numa nova caminhada histórica, num novo tempo, o tempo da realização da promessa.
A nossa vida, na expectativa do encontro face a face com Deus, o advento que é toda a nossa vida, e de que o Advento de preparação para o Natal é uma imagem sintética, é também um êxodo, uma nova e constante caminhada diária, que nos deve levar sempre mais além. No deserto ninguém permanece muito tempo, é passagem para outro lugar e assim deveria acontecer connosco, de modo a chegarmos ao Natal e ao fim da vida completamente outros.
A pessoa de João Baptista e a pregação que desenvolve no deserto são um convite ao êxodo das nossas satisfações e vaidades, dos nossos orgulhos e egocentrismos, são um convite a sairmos de nós próprios para ir ao encontro do Outro que é Deus e dos outros que são suas imagens e semelhança.
Para tal, contudo, necessitamos despojar-nos, abandonar as nossas roupagens habituais, as nossas satisfações tantas vezes gulosas e, como João, revestir-nos de uma outra roupa, alimentar-nos de outros alimentos. Só na austeridade do despojamento, da libertação do que nos encerra e alimenta egoisticamente, podemos estar disponíveis para o encontro e o acolhimento Daquele que vem.
Como nos recordava o profeta Isaías na primeira leitura, o Senhor vem, vem ao nosso encontro, mas tal vinda e encontro necessitam do nosso consentimento, do nosso assentimento, da disponibilização de um espaço e de um tempo, de um modo de ser.
Aquela conversão e mudança de vida de que tantas vezes falamos, de que tantas vezes fazemos eco à luz da Palavra de Deus, não pode ser uma realidade abstracta, algo do género do amor platónico, um processo que uma vez mais não deixamos de centrar em nós próprios. A nossa conversão, o nosso êxodo, a nossa caminhada ao encontro do Senhor, deve ser uma disponibilização para o outro, para um caminhar com o outro, para o encontro com o outro que nos revela Deus na sua pessoa única e irrepetível.
É esta presença de Deus entre nós que igualmente João Baptista nos recorda. Deus está já presente entre nós, de uma forma oculta, e muitas vezes de um modo que nos destabiliza, que nos questiona e interpela numa nova compreensão, numa outra abertura e disponibilidade. Deus vem até nós, até cada um de nós, mas para o perceber necessitamos estar atentos, vigilantes, preparados, livres e ágeis para reconhecer essa vinda e presença.
Por esta razão não podemos viver na ansiedade e no medo de que a leitura da Segunda Carta de São Pedro nos fazia eco. Conscientes e crentes da vinda do Senhor, que é paciente para connosco, vivemos na paz, procuramos viver na santidade e na piedade, e dessa forma realizamos a essência do baptismo no Espirito Santo que recebemos. Mortos para o pecado vivemos para Deus, procuramos cada dia ser fiéis ao dom recebido, renovando-nos e alimentando-nos na magnanimidade do amor de Deus para connosco e de nós para com todos.
Que nesta segunda semana de Advento do Natal do Senhor Jesus nos saibamos despojar do supérfluo, do que nos prende e impede de caminhar, e mais livres e de coração pacificado possamos ir ao encontro do outro para nele encontrarmos a presença de Deus que é o totalmente Outro.

 
Ilustração:
1 – “Pregação de São João Baptista”, de Jan Reisner, igreja de São Francisco de Sales, Cracóvia.
2 – “Paisagem com a Pregação de São João Baptista”, de Abraham Bloemaert, Rijksmuseum, Amesterdão.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Homilia do I Domingo do Advento Ano B

Estamos a iniciar um novo ano litúrgico e um novo Advento que nos deverá preparar para a celebração do Natal do Senhor. O Evangelho de São Marcos que escutámos e nos vai acompanhar neste novo ano litúrgico convidava-nos a vigiar, a ser como porteiros que vigiam na expectativa da vinda do dono da casa.
Esta vigilância não é contudo fácil, nem certamente tão simples como muitas vezes a assumimos, e por essa razão o Santo Cardeal Henry Newman escreveu num sermão: “não devemos apenas acreditar, mas vigiar; não devemos apenas amar, mas vigiar; não devemos apenas obedecer, mas vigiar”!
Vigiar é assim um desafio, uma proposta divina, que não pode deixar de estar presente de uma forma acutilante, porque muitas vezes no nosso amor, na nossa caridade, na nossa fé, na nossa vida quotidiana nos esquecemos daquele que é o Senhor da casa, daquele que é o Principio, o Caminho e o Fim, tal como encontramos explicitado no livro do Apocalipse, o alfa e o ómega, o princípio e o fim.
Podemos de facto procurar fazer as coisas bem-feitas, viver com os valores cristãos, praticar a justiça e a verdade, amar o próximo, mas corremos o risco de fazer tudo isso de uma forma imperfeita, incompleta, apenas pro nós próprios e sem o pleno sentido da divinização que Deus nos oferece com a necessidade de vigiar. Afinal, o que Deus nos pede é que todas as nossas obras Nele tenham começo, Nele se desenvolvam, e Nele alcancem a plenitude.
Este sentido da participação, da união divinizante, é manifestado na própria celebração da Eucaristia quando na aclamação final da consagração o sacerdote diz que tudo o que se realizou é por Cristo, com Cristo e em Cristo para louvor e honra de Deus Pai. E assim deve acontecer com tudo o que fazemos, desde o nosso trabalho, a nossa amizade, a nossa missão, até à própria vida afectiva do casal ou de cada um de nós celibatários.
Esta vigilância atenta e divinizante faz-nos perceber também como Deus não cessa de vir ao nosso encontro, de sair ao nosso encontro em todas as situações, mesmos as da fragilidade e do pecado, como escutávamos na leitura do Profeta Isaías. Deus vem e é necessário estar atento para intuir essa vinda, de que o Natal é afinal a manifestação mais esplendorosa, mas que não é a única.
Estas visitas de Deus ao encontro da nossa humanidade  têm contudo a fragilidade do maná, daquele alimento que o povo de Israel colhia no deserto mas que não podia armazenar para o dia seguinte, que não podia ser acumulado mais que o necessário para alimento de cada família. Cada experiência da vinda do Senhor ao nosso encontro é também única, pessoal, e por isso mesmo frágil, sem possibilidade de acumulação, mas que nos prepara e nos deixa desejosos da próxima. Tal como dizia Santa Catarina de Sena, impele-nos a mergulhar mais e mais no seu mistério.
Fragilidade que aumenta na medida em que somos levados como a folha seca no remoinho do vento, em que nos deixamos dispersar pelas realidades do mundo, pelas tentações que nos distraem e ofuscam da verdadeira e plena realização, na medida que em que não assumimos o princípio de onde vimos, o caminho que se nos oferece e o fim a que estamos destinados. Bailamos ao sabor do momento, dos interesses mais imediatos, das imagens e dos conceitos que os outros podem fazer de nós, desorientados no caminho.
E contudo, tal como nos diz São Paulo na Carta aos Coríntios que escutámos, fomos enriquecidos em tudo, já não nos falta nenhum dom da graça, podemos dizer que estamos preparados e equipados verdadeira e dignamente para vigiar, para guardar a porta na expectativa do Senhor que vem.
Nos ambientes monásticos e conventuais este tempo de Advento é vivido com alguma austeridade; coloca-se uma capa negra para recordar a finitude da vida, cuida-se com maior intensidade o silêncio, a oração é mais prolongada, e até as refeições são mais ligeiras, quase um jejum, e tudo para afinar a atenção, a escuta, a vigilância. Necessitamos despojar-nos, libertar-nos, para estar mais ágeis para vigiar e para guardar e aguardar a vinda do Senhor.
Ao iniciarmos este Advento quais vão ser os meus propósitos? Com os dons da graça que o Senhor nos concedeu como me vou preparar individual e familiarmente para o nascimento do Filho de Deus? De que modo vou orientar os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas acções pelo coração de Jesus Cristo?
Que não sejamos como aquele administrador da parábola que começou a comer e a beber, a bater nos servos que lhe estavam confiados, porque já não acreditava na vinda do seu senhor. Tal como a sentinela que vigia entre as ameias da muralha estejamos nós atentos, despertos, ágeis, irrepreensíveis, de modo a responder prontamente ao grito: eis o Senhor que vem, ide ao seu encontro!

 
Ilustração:
1 – “A rendição de Breda”, de Diego Velázquez, Museu do Prado (Pormenor).
2 – “Legionário adormecido”, de Ubaldo Gandolfi.

domingo, 19 de novembro de 2017

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum do Ano A

Estamos a chegar ao fim de mais um ano litúrgico e o Evangelho de São Mateus que escutámos vem ao nosso encontro nessa necessidade de fazer uma avaliação, de aferir o que fizemos com os dons e talentos que Deus nos concedeu, com as oportunidades e potencialidades da nossa vida, confiadas por Deus para a nossa realização e participação na obra de Deus.
A parábola dos talentos que Jesus apresenta, e escutávamos no Evangelho, coloca no entanto em foco uma outra realidade e questão que não podemos esquecer, que muitas vezes é para nós uma questão pertinente, que nos pode afastar de Deus, que nos pode deixar paralisados na rentabilização dos nossos dons e talentos.
Quantas vezes não nos interrogaram já sobre o porquê das doenças, das guerras, da fome e da violência, como se Deus se tivesse ausentado para parte incerta como o Senhor da parábola, e não quisesse saber de nada. O repouso de Deus após a obra da criação, tal como nos narra o Livro do Génesis, é provocante nesta ausência de Deus, permite estas questões e por isso as encontramos também plasmadas na Sagrada Escritura. Os autores sagrados recolheram-nas e podemos encontrá-las nos Salmos ou nos Livros Sapienciais de uma forma explícita.
Contudo, a ausência de Deus é a manifestação da oportunidade deixada ao homem para participar e colaborar na obra da criação. Na sua liberdade, sem qualquer pressão ou subjugação, o homem pode voluntariamente colaborar com a obra da criação, continuar a obra iniciada por Deus.
Podemos por isso assumir que a ausência de Deus se torna presença quando o homem na sua liberdade, na sua vontade, colabora com a obra da criação, quando procura um mundo melhor, mais justo, mais verdadeiro, quando coloca as suas energias, capacidades e potencialidades ao serviço do bem. O Deus ausente não deixa assim de estar presente nessa energia, nessa disposição e colaboração livre do homem. O criador faz-se presente na obra criativa do homem.
Pelo contrário, a preguiça, a inércia, o desleixo, o enterrar dos talentos, tal como nos apresentava a parábola de Jesus, manifestam a morte, o fim sem sentido e desta forma tornam efectiva a ausência de Deus. Deus ausenta-se com a nossa indisposição para a colaboração na obra da criação, com a nossa recusa, porque Deus a nada nos força. Como dizia Maurice Zundel, como um pobre mendigo Deus espera a nossa ajuda e colaboração.
Ajuda e colaboração que passa por coisas muito pequenas, pelas realidades do nosso quotidiano, pelas pequenas tarefas, pela fidelidade nas realidades da nossa rotina. A parábola do Evangelho que escutámos coloca-nos isso em evidência, quando o servo que recebeu mais talentos é louvado não pela sua capacidade multiplicadora, de rentabilização dos talentos, mas pela fidelidade nas coisas pequenas.
Muitas vezes sofremos essa tentação de pensarmos que necessitamos fazer algo grandioso, espectacular, como encontrar a cura para a doença do cancro, para nos realizarmos, para sentirmos que estamos a contribuir para um mundo melhor, que estamos a colaborar na obra da criação. E contudo, essas oportunidades acontecem com muito poucas pessoas, são excepções, que nos mostram que não podemos prescindir das pequenas obras, da nossa fidelidade nas coisas pequenas de que nos fala a parábola do Evangelho.
Quando ouvimos as histórias pessoais desses génios, dos grandes inventores, facilmente percebemos que também eles chegaram onde chegaram, descobriram o que descobriram ou inventaram, porque estiveram atentos às pequenas coisas, porque foram fiéis na sua observação, na sua atenção e na sua busca de uma resposta.
Afinal é este o nosso caminho, o projecto que Deus nos deixa como forma de colaboração, estar atentos para agir quando for necessário, para fazer o que nos compete, com fidelidade, alegria e confiança, poderíamos dizer com virtuosidade como a mulher da leitura do Livro dos Provérbios. Ela não faz nada de extraordinário para além do que lhe compete como esposa, como mãe, como dona de casa, como alguém que tem bens e os reparte generosamente com aqueles que não têm.
A parábola do Evangelho diz-nos que Deus se ausentou para nos oferecer a oportunidade de colaboração, de realização, mas diz-nos também que o Senhor um dia regressará, virá tomar contas da nossa gestão, do que fizemos com os dons, talentos, oportunidades e potencialidades que possuímos.
Este regresso não pode contudo encerrar-nos numa imagem negativa de Deus, uma imagem perversa, insinuada pelo servo que recebeu apenas um talento e o foi enterrar porque sabia que o senhor colhia onde não semeava. Não nos podemos deixar intimidar pela autoridade do senhor, pelo seu poder, não podemos permitir que o medo vença, porque se é verdade que o Senhor regressará também é verdade que não nos pedirá contas para além das nossas capacidades. Não nos será pedido mais do que somos capazes, do que nos confiou no seu amor e conhecimento das nossas limitações.
Com esta confiança, certos do amor de Deus, podemos e devemos fazer nossas umas palavras que são atribuídas a Santo Inácio de Loyola e o Papa Bento XVI citou na Alocução do Ângelus de 17 de Junho de 2012: “age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”!

 
Ilustração:
1 – A Parábola dos Talentos, de Andrey Mironov, 2013.
2 – Conhecimento e Fé, de Andrey Mironov, 2007.