domingo, 29 de março de 2020

Homilia V Domingo da Quaresma - Ano A


Queridos Irmãos
Escutámos o relato da chamada ressurreição de Lázaro, uma vez mais uma narração longa que ocupa quase todo o capítulo onze do Evangelho de São João. Por isso, devido à extensão desta narração, convém que nos centremos em dois ou três pontos, para não nos perdermos na riqueza deste texto.
Mas antes de mais, e de nos centrarmos nesses pontos concretos da narração, é bom que pensemos um pouco na actualidade do que escutámos, da actualidade da Palavra de Deus, uma palavra viva, que é doce como o mel e penetrante como uma espada.
A história de Lázaro coloca-nos face a face com a morte, a morte de um amigo, de alguém que nos é querido, realidade que neste contexto de pandemia muitas pessoas estão a viver. Somos nós capazes de dizer como Marta, “Senhor eu Acredito que és o Filho de Deus, a ressurreição e a vida”?
A história de Lázaro confronta-nos também com a realidade de isolamento social e a quarentena que estamos a viver, afinal Jesus convida-nos a sair e o momento em que vivemos é de estar em casa, fechados, isolados. Não será uma oportunidade que nos é oferecida, uma espécie de deserto, um intervalo, para sairmos dos túmulos em que nos tínhamos encerrado com o nosso orgulho, com a nossa ganância, com a desumanização em que tínhamos embarcado? Lázaro é a figura da humanidade, de uma humanidade ferida, de cada um de nós, e que Jesus vem libertar.
Neste sentido, e centrando-nos no texto concreto da narração do Evangelho, deparamos com a queixa das irmãs de Lázaro, Marta e Maria, “se tivesses estado aqui meu irmão não teria morrido”. É certamente o pensamento de muitos de nós, a questão que colocamos face ao sofrimento, à doença, à morte; como é possível que Deus não actue, que pareça desinteressado do que acontece à humanidade?
Mas, tal como Jesus afirma ao tomar conhecimento da doença de Lázaro, a sua aparente inação é para a mesma glória de Deus, para que por ela seja glorificado o Filho do homem. Isto não significa que Deus quer a morte do homem ou o seu sofrimento, que Deus se gloria no sofrimento da humanidade, mas bem pelo contrário, quer dizer que o homem necessita renunciar à pretensão de se salvar por si mesmo, necessita aprender que sozinho não chega a lado nenhum.
A delonga de Jesus em vir ver o que se passa com Lázaro quer mostrar-nos que Deus não salva à nossa maneira, que há uma necessidade que a morte seja consumada, as pequenas mortes diárias que vamos vivendo, pois só dessa forma se podem abrir os nossos olhos sobre os pecados, sobre os dons e a graças de Deus, só dessa forma estamos em condições de nos voltarmos para Cristo com as mãos vazias e o coração pobre e ressequido e permitir que ele nos dê a vida.
As queixas de Marta e Maria, e de modo particular a de Marta, revelam também uma confiança, uma fé de que o amigo que não esteve presente pode fazer ainda alguma coisa. A fé de Marta abre uma brecha pela qual Jesus pode actuar, pela qual se pode revelar “Eu sou a ressurreição e a vida”. Jesus é a vida em plenitude, é a fonte da vida, e ao encarnar na nossa humanidade não reservou nada para si, mas fez-nos participantes a todos da sua vida, da sua glória. Compete-nos a nós escutar o seu apelo e acolher essa vida, abrir essa brecha à sua acção.
Hoje, como naquele dia em Betânia, a voz de Jesus continua a ecoar com toda a força, “sai para fora”, deixa o túmulo em que te encerraram ou encerraste. Jesus não se resigna com a nossa morte, com o nosso encerramento nos vales da noite escura, do desespero e da desorientação, nas trevas do nosso orgulho e egoísmo, dos nossos pecados. Uma vez mais é necessário repetir e recordar, a morte não é obra de Deus nem querida por Deus. Deus fez-nos para a vida e quer-nos vivos, só dessa forma podemos ser a glória de Deus, como diz Santo Ireneu de Lyon.
Contudo, e tal como acontece com Lázaro, podemos sair dos nossos túmulos enfaixados, amarrados pelas ligaduras, e necessitamos libertar-nos delas. Paradoxalmente, e ainda que estupefactos pela diligência solicitada, é aos amigos presentes que Jesus ordena que libertem Lázaro das ligaduras. Àquele que já estava sepultado havia quatro dias, cujo cheiro do corpo já era insuportável, são enviados os amigos presentes para que terminem a sua libertação, o seu regresso à vida.
Esta continua a ser a missão de todos e cada um de nós, a de ajudar à liberdade dos nossos irmãos após o regresso à vida pela Palavra viva de Deus, a de cooperar no restauro da vida fragilizada e danificada, a de desatar os laços que nos podem manter na escravidão.
Como nos recordava de forma pungente o Papa Francisco na sexta-feira passada na homilia aquando da Bênção Urbi et Orbe, “todos nós estamos na mesma barca, frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos importantes e todos necessários, todos chamados a remar juntos, todos necessitados de nos reconfortarmos mutuamente”.
Esta Quaresma proporciona-nos uma oportunidade única; antes de mais de podermos fazer silêncio, de podermos abrir essa brecha pela qual a Palavra de Deus pode chegar ao nosso coração, iluminar a nossa vida, libertar-nos das prisões em que nos encerrámos. Por outro lado, de ajudarmos a desatar as ligaduras dos nossos irmãos, as faixas de escravidão em que vivem ou viviam, a fazer a experiência da misericórdia de Deus na nossa caridade e fraternidade.
Que o Espírito Santo nos ilumine nos gestos e palavras de cada dia a levar a cabo esta missão.

Ilustração:
1 – A ressurreição de Lázaro, de Nicola Bertin, Museu Lambinet, Versailles.
2 – A ressureição de Lázaro, Jan Wydra, Museu Nacional de Varsóvia.

domingo, 22 de março de 2020

Homilia IV Domingo da Quaresma - Ano A


Queridos Irmãos
A leitura que escutámos comporta todo o capítulo nono do Evangelho de São João; uma vez mais um grande relato que se constrói à volta de uma figura, de um personagem, o cego de nascença, tal como aconteceu no relato do encontro de Jesus com Nicodemos e no relato do encontro de Jesus com a samaritana, que escutámos no domingo passado.
É um relato longo, no qual podemos ver perfilado o processo que vai levar à condenação de Jesus à morte, um outro interrogatório de surdos e cegos face à novidade que têm diante de si. Tal como acontece com o cego, e vai acontecer com Jesus, os gestos e as palavras vão funcionar de forma opaca, como uma barreira, para aqueles que não se dispõem à novidade, que não se abrem à revelação de Deus no seu Filho Jesus Cristo, que se encerram na segurança do seu ritualismo e tradição conservadora.
Face à extensão do texto e à impossibilidade de o comentarmos numa homilia, importa olhar alguns elementos, alguns factos que nos podem ajudar a viver este momento em que nos encontramos, esta Quaresma tão particular que o Senhor nos concede.
Assim, e num primeiro momento devemos olhar para a questão com que se inicia este relato, que é colocada pelos discípulos e se sintetiza nesta pergunta: porquê? Porque é cego? De quem é a culpa? Dele ou dos pais?
Todos nós que lidamos com crianças e às vezes não só, já fomos confrontados com esta situação. Porquê? Porquê? E a pergunta repete-se vezes sem conta. Porquê?
A verdade é que sempre que colocamos esta questão, estamos a colocar um limite à face das realidades, dos acontecimentos, esbarro na superficialidade ao querer saber e compreender o mecanismo das coisas, que muitas vezes e como todo já experimentámos nos é totalmente desconhecido, alheio, incompreensível. O porquê encerra-nos num passado, numa justificação, num mecanismo e numa certa segurança do controlo das coisas.
Ao porquê dos discípulos, e de cada um de nós, Jesus não procura uma explicação confortável, mas responde com um “para quê, abre-nos à criatividade, a novos horizontes, olha para diante e desperta a esperança. A realidade é assim, o cego é cego desde nascença, o que vais fazer? O que vais fazer?
A perspectiva de Jesus é uma perspectiva de criação, de recriação, e por isso a utilização da saliva e do pó da terra para curar a cegueira; cada coisa pode ser tomada e assumida para criar uma outra nova. A cegueira daquele homem, cego de nascença, pode ser transformada em obra de libertação.
Esta perspectiva de Jesus, podemos dizer esta dinâmica em que vive e que nos oferece, está ao nosso alcance, e assim podemos e devemos interrogar-nos sobre os materiais e realidades inertes da nossa vida, as nossas zonas de sombra, que podem e devem ser trabalhadas como obras do criador, como materiais a serem requalificados, reciclados, como hoje tanto se fala. É todo o processo de conversão a que a Quaresma nos desafia.
O relato do cego de nascença do Evangelho de São João liberta-nos da busca de explicações e justificações para os nossos desaires, das nossas circunstâncias, como diz Ortega y Gasset, e abre-nos à novidade de um futuro, à potencialidade que habita tudo o que somos e temos e devemos trabalhar para que dê frutos, abre-nos a olhar as coisas com os olhos de Deus e não com os olhos dos homens, como aconteceu com Samuel quando foi enviado à casa de Jessé para ungir o eleito do Senhor.
A possibilidade de não vivermos esta dinâmica aparece-nos no conflito que o cego vai viver com os fariseus, um grupo de homens aferrados à lei e às suas proibições, à lei como conhecimento total da vontade de Deus, à lei como Palavra última de Deus, cegos pela luz da sua própria visão da lei, incapazes de mudar a sua visão do mundo, de alterar a sua escala de valores, cegos ao enviado de Deus, em resumo, e em linguagem bíblica, incapazes de converter-se.
Também nós podemos ter os olhos abertos e permanecer cegos à verdade, também nós podemos fixar-nos na tranquilidade dos hábitos adquiridos, na rotina da nossa fé, e Jesus vem perturbar a segurança da instalação no ritualismo. A questão do sábado no debate dos fariseus com Jesus é paradoxal nesta perturbação, nesta novidade revolucionária, afinal o sábado foi feito para o homem e não homem para o sábado.
Vivemos dias em que a celebração dos sacramentos está restringida, até suspensa comunitariamente, e escutamos queixas, acusações, poderíamos dizer manifestações da nossa cegueira ritual farisaica. Contudo, cada um de nós é Igreja, é templo de Deus, é membro vivo do Corpo de Cristo, é luz filho da luz, como nos diz a Carta aos Efésios, e esta privação que nos é imposta deve ser olhada na óptica da resposta de Jesus “para quê?
Não estaríamos nós aferrados a uma prática religiosa, a um conjunto de actos e ritos estereotipados e já vazios de sentido e significado? Não será este um tempo de conversão, um tempo para dizermos adeus aos nossos hábitos e rotinas, às ameaças e obstáculos a uma profunda e relação de amor com Cristo?
E se esta conversão deve acontecer na dimensão religiosa, paralelamente deve acontecer na nossa vida pessoal, familiar e profissional. Deus convida-nos à redescoberta do sentido da família, do cuidado e do amor dos filhos, da paternidade e maternidade, da nossa solidariedade, da responsabilidade comum pelo cuidado de todos e de cada um, da realidade da casa comum que é a nossa aldeia global. Não estávamos nós cegos devido à ânsia de poder e satisfação, devido à sofreguidão de tudo em que vivíamos até há dias?
Como diz São Paulo, outrora vivíamos nas trevas, mas agora fez-se luz. Procuremos, pois, fixar o nosso olhar em Jesus Cristo, viver na luz que nos trouxe, uma luz de liberdade, uma luz de fraternidade, uma luz de esperança que nos permite acreditar que daqui pode nascer algo de novo.

Ilustração:
1 – A cura do cego de nascença, de Orazio de Ferrari, Collezione d’Art della Banca Carige, Génova.
2 – A cura do cego de nascença, Matthias Gerung, Ottheinrich Bible, pag. 126V.

domingo, 15 de março de 2020

Homilia III Domingo da Quaresma - Ano A


Queridos Irmãos
Após as tentações de Jesus no deserto e a transfiguração no alto do monte Tabor a Quaresma apresenta-nos neste terceiro domingo o encontro de Jesus com a samaritana. Encontro extraordinário, pela hora a que decorre, pelos opostos que se tocam, pelas palavras trocadas, pela verdade a que nos desafia.
A samaritana que não conhece Jesus e que tão pouco Jesus conhece é a primeira pessoa a quem Jesus se revela como o Messias, é a ela que sem qualquer temor ou hesitação Jesus afirma que é o Messias, aquele que também ela espera na sua fé nas promessas dos profetas.
Diante desta revelação única e extraordinária, podemos perguntar-nos o que foi que Jesus percebeu no coração daquela mulher, qual o segredo que ela transportava para o levar a fazer-lhe esta confidência, a revelar-lhe o seu próprio segredo. O que intuiu Jesus na vida complexa e poderíamos dizer destruturada daquela mulher?
Antes de mais podemos dizer que Jesus intuiu a sua liberdade para o acolhimento, a disponibilidade para cruzar as fronteiras e os interditos, e isto porque não era de todo aceitável que uma mulher falasse sozinha com um homem e muito menos com um estrangeiro. A atitude normal, socialmente correcta da samaritana, seria fugir ou fazer ouvidos surdos ao pedido de Jesus. E podemos constatar a liberdade e ousadia desta mulher quando interpela Jesus sobre também a liberdade dele para lhe pedir água. Como te atreves a pedir-me de beber, tu que és judeu?
Por outro lado, Jesus intuiu também a sua honestidade, a verdade de vida a que não fugia e que fica plasmada na afirmação de que não tem marido, ela que já tinha tido cinco maridos e o que tem no presente não é seu marido. Apesar dos desaires da vida, dos desencontros, das idolatrias diversas, a mulher não perdeu esse desejo de verdade, de encontro com aquele que lhe pode corresponder à sua busca de verdade, à sua plena realização.
Podemos ainda dizer que Jesus percebeu naquela mulher samaritana a coragem necessária a todas as testemunhas da verdade, a todos os enviados por Deus, profetas e apóstolos. Após o encontro com Jesus, a samaritana é a primeira missionária da boa nova de Jesus, corre a anunciar um encontro de verdade, ela que é uma mulher sozinha e que pela sua história pessoal e passada é pessoa de pouco crédito.
É necessária coragem para enfrentar a sua própria história, a verdade da vida com os seus desaires e glórias, é necessária coragem para enfrentar os outros carregando essa história e, apesar dela, falar do encontro com a verdade de Deus, com a pessoa de Jesus. A samaritana é esta mulher de coragem e ainda que não seja enviada a anunciar como os discípulos o foram, os resultados extraordinários que ela alcança são o testemunho fidedigno da confiança que Jesus depositou nela, de que ele não se tinha equivocado quando lhe anunciou que era o Messias que ela tanto esperava.
Sem que Jesus tenha pedido, a samaritana reúne a aldeia e convida todos a encontrar-se com Jesus, e todos aqueles que acolhem o seu convite, o seu desafio, acabam por viver também um momento de encontro com a verdade; e por esse motivo, não é já pela palavra e testemunho da mulher que acreditam em Jesus, mas é pela sua própria experiência de encontro. Diante da verdade da pessoa que têm diante de si, do Messias, não podem mais que convidar Jesus a ficar, a permanecer com eles e a iluminar ainda mais as suas vidas.
A samaritana cumpre a sua missão, e tal como João Baptista pode afirmar que agora é o tempo de Jesus crescer e dela diminuir; cumpriu a sua missão e a partir dali apenas Jesus conta. Tal como aconteceu com o rochedo no monte Horeb de que nos falava o Livro do Êxodo, a samaritana é a vara que abre a fonte das águas vivas, é o balde que saca do fundo do poço a água fresca da verdade humana e divina.
Nesta nossa caminhada quaresmal, sabendo que o amor de Deus foi derramado em nossos corações, como nos diz São Paulo na Epístola aos Romanos, somos desafiados por Deus a ser homens e mulheres de coragem, a não ter medo dos encontros, quer com os outros, quer connosco próprios, a não ter medo da verdade das nossas vidas e da verdade da vida dos nossos irmãos.
Podemos temer o preço elevado destes encontros, podemos imaginar que nos vai sair caro encontrar-nos com a verdade, mas face a tal temor temos a garantia de que quando ainda eramos pecadores Cristo morreu por nós, de que a nossa vida foi já resgatada, e portanto na medida em que estamos em paz com Jesus Cristo, com aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, nada temos a temer.
A samaritana nesta nossa caminhada quaresmal é assim um convite à coragem, à valentia, à confiança em Deus.

Ilustração:
1 – Jesus e a Samaritana, de Ferdinand Georg Waldmuller, Dorotheum 2014, Viena.
2 – Jesus e a Samaritana (O Ramo de Flores Brancas), de Odilon Redon, Stadel Museum, Frankfurt.


domingo, 8 de março de 2020

Homilia II Domingo da Quaresma - Ano A


Estamos a celebrar o Segundo Domingo da Quaresma e a leitura do Evangelho de São Mateus apresenta-nos a transfiguração de Jesus no monte Tabor.
É um momento, um mistério da vida de Jesus, que podemos ler em íntima relação com a ressurreição, Jesus antecipa e permite que os três discípulos contemplem a sua glória de ressuscitado. Neste sentido, esta manifestação está profundamente em relação com a incompreensão por parte dos discípulos face ao anúncio da paixão feito poucos momentos antes.
Por outro lado, podemos ler a transfiguração de Jesus em associação com o baptismo recebido no rio Jordão, aqui como lá uma voz vem manifestar a eleição e amor do Pai para com Jesus. No Jordão podemos dizer que numa certa intimidade, dirigida de modo concreto a Jesus, aqui manifestada comunitariamente aos discípulos que acompanharão o mesmo Jesus na agonia do jardim das oliveiras.
Contudo, numa e noutra perspectiva encontramo-nos com a figura de Pedro, o príncipe dos apóstolos, que nos representa a todos no processo de aproximação ao mistério de Jesus, nas suas afirmações e negações.
Pedro é aquele que afirma que Jesus é o Filho de Deus, o Messias, quando os discípulos são interpelados por Jesus para dizerem quem ele é. Pedro é o homem da afirmação da fé, uma afirmação que não é fruto da carne, mas do Espírito de Deus.
Pouco depois desta confissão, e face ao anúncio da paixão por parte de Jesus, Pedro apresenta-se como o tentador, como aquele que afinal não vê os interesses de Deus, mas apenas os dos homens. Pedro opõe-se determinantemente ao anúncio de que Jesus deve subir a Jerusalém para ser entregue às mãos dos homens.
Mais tarde, já em Jerusalém, e depois de ter desembainhado a espada para defender Jesus, Pedro é incapaz de afirmar a sua pertença e relação com Jesus. É mais fácil e seguro afirmar que não o conhece, a sua segurança e os seus interesses mundanos prevalecem sobre a amizade com Jesus.
Depois da ressurreição, e quando parece que tudo voltou à normalidade, e Pedro se encontra a pescar com os outros discípulos, é João que lhe aponta o mestre que se encontra na margem. Pedro é incapaz de o reconhecer mesmo depois de ser interpelado sobre se tem alguma coisa para comer.    
Pedro é assim ao longo dos Evangelhos o homem das diversas faces, das aproximações e dos distanciamentos, é o homem da metamorfose, da palavra que os evangelistas Mateus e Marcos utilizam para expressar no original grego o que acontece com Jesus no alto do monte. Se Jesus muda de aparência e rosto no momento da transfiguração, Pedro vai ser a constante da mudança, poderíamos dizer o processo em desenvolvimento.
Neste sentido, Pedro é a pessoa e a história de cada um de nós, na caminhada quaresmal assim como na caminhada da fé, vamos mudando, vamo-nos aproximando e vamo-nos afastando até que alguém nos leve pela mão como Jesus anuncia a Pedro no momento da despedida.
Este processo, esta metamorfose de Jesus e de Pedro, são extremamente importantes para nós, e nomeadamente nas nossas tentativas de aproximação ao mistério de Jesus, à contemplação da sua glória.  A nossa tentação e por isso a nossa frequente frustração é a de desejarmos ver Deus face a face, ver a sua glória, fazer a experiência de Pedro, Tiago e João no monte Tabor.
Mas o mistério da transfiguração e a história de Pedro mostram-nos que Deus tem muitas faces, que se manifesta de muitos modos, que a nossa aproximação e visão da sua glória não é um processo linear e ascendente. A presença de Moisés e Elias junto de Jesus recordam-nos a manifestação de Deus quer pelo fogo na sarça ardente quer pela brisa suave do final da tarde.
A transfiguração mostra-nos o Deus que se faz reconhecido, mas também desconhecido, um Deus que caminha com os discípulos a caminho de Emaús e que eles só reconhecem ao partir do pão e pelo ardor do coração quando o escutavam pelo caminho. Invisível aos olhos torna-se visível ao coração.
Ainda hoje Jesus se nos apresenta assim, metamorfoseando-se, desconhecido e reconhecível em cada rosto dos nossos irmãos; e por isso não podemos ficar no conforto das nossas tendas construídas sobre o monte, na terra rotineira que conhecemos, no conforto do nosso sofá.
É muito bom estar aqui, como diz Pedro, mas Deus pede-nos um passo em frente, a ousadia e a coragem de partir para outra terra como fez Abraão, para outros e novos desafios; ele acompanha-nos assim como espera por nós nessa novidade conquistada com a nossa confiança na sua promessa.
Nesta segunda semana da Quaresma saibamos confiar na promessa de Jesus e procuremos no rosto de cada homem e cada mulher, no ardor que provocam no nosso coração e na alegria da partilha que realizam connosco, vislumbrar a centelha da glória divina que nos habita a todos.

Ilustração:
1 – Transfiguração, de Franscisco Zuccarelli, Kunsthaus Zempertz.
2 – Transfiguração, de Andrea Previtali, Pinacoteca di Brera.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

Homilia da Festa da Apresentação do Senhor


Hoje celebramos a Festa da Apresentação de Jesus, uma festa que raramente coincide com o domingo. Temos assim a oportunidade de olhar para este acontecimento da vida de Jesus que habitualmente meditamos nos Mistérios Gozosos da oração do Rosário.
O Evangelho de São Lucas que escutámos apresenta-nos o acontecimento na órbita do cumprimento dos preceitos legais, do que estava estipulado na Lei de Moisés face ao nascimento de um filho primogénito. Contudo, este enquadramento rapidamente é ultrapassado pela mensagem do mistério, pela novidade do próprio menino que é apresentado no templo.
Neste sentido, convêm notar o que é oferecido em sacrifício pelo resgate do menino. A Lei de Moisés dizia que o primogénito devia ser resgatado com o sacrifico de um cordeiro, e apenas no caso de a família não ter condições para o poder fazer, o resgate podia ser substituído por um par de pombas ou rolas. Maria e José oferecem duas pombinhas, significando dessa forma a sua pobreza, apresentando-se como os pobres de Deus, aqueles aos quais Deus se oferece e para os quais Deus é a única resposta.
Contudo, a apresentação de duas pombinhas tem um significado mais forte e intrinsecamente relacionado com Jesus, o menino que é apresentado. Tal como será dito por João Baptista no momento do baptismo de Jesus no rio Jordão, este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O Cordeiro de Deus não pode ser substituído por outro cordeiro, o resgate que vai realizar com o seu sacrifico de vida não pode ser subtraído pelo resgate de um animal.
Mas o evangelista Lucas vai mais longe na sua interpretação do acontecimento; e assim, quando Jesus é trazido ao templo não é acolhido pelos sacerdotes, mas poderíamos dizer por quase dois marginais, duas figuras que desempenham um papel representativo, Simeão e Ana. Este facto inusitado mostra-nos também como o verdadeiro templo, aquele templo que será reconstruído em três dias, e o verdadeiro e único sacerdote, de que nos fala o autor da Epístola aos Hebreus, não podia ser subjugado às representações e figuras do antigo culto.
Estamos perante uma nova realidade, uma nova e radical forma de Deus se apresentar e relacionar com os homens, perante o mensageiro de que nos falava a leitura do profeta Malaquias, um enviado que vem estabelecer uma nova aliança, um novo templo, um novo povo, uma nova vida, alguém que vem realizar um corte com o passado obsoleto e dar início a uma nova era. Ao ser apresentado no templo Jesus abre a porta à novidade da Aliança que Deus quer estabelecer com a humanidade.
Esta novidade é também hoje desafiante para cada um de nós e neste sentido o velho Simeão que acolhe Jesus no templo pode ajudar-nos a compreender a necessidade que temos de viver em esperança, em vigilância atenta e fiel.
Hoje, mais do que nunca, vivemos na lógica do imediato, tudo tem de ser para já, temos de dar uma resposta imediata, e somos de tal maneira pressionados pela urgência que acabamos por não ter tempo para gerar as próprias respostas que necessitamos dar. E assim, imediatamente nos esquecemos do que respondemos, dos compromissos que assumimos, somos sugados pela voragem do tempo e do imediatismo acabando num sentimento de incapacidade e frustração face ao que nos é pedido.
O velho Simeão do templo de Jerusalém, impelido pelo Espírito Santo a ir ao encontro do menino, mostra-nos a necessidade que todos temos de dar tempo, de resistir à pressão, de aguentar, de viver na esperança de algo que virá, mas que não sabemos quando nem de que modo. O velho Simeão convoca-nos a viver o tempo de espera como um tempo divino, um tempo de gestação de algo que desconhecemos e não controlamos, mas que podemos dizer que nos é oferecido por Deus, pois não é fruto das nossas mãos. Com o velho Simeão somos convidados à persistência na espera, a um vazio à espera de ser preenchido.
E de tal maneira este vazio é próprio e essencial ao nosso ser de pessoas que os agentes de publicidade e vendas não cessam de nos tentar preencher este vazio com novos produtos, novas ofertas, remédios milagrosos para a nossa satisfação imediata. Quantas vezes nos apercebemos que temos muitas coisas, temos muitos eventos e compromissos, estamos com muita gente, mas há um vazio em nós que aguarda um preenchimento!
O velho Simeão inspirado pelo Espirito de Deus a vir ao templo é um homem do vazio expectante, poderíamos dizer do apetite que deseja ser saciado, e corajosamente vive os acontecimentos na expectativa de uma realização, que acaba por acontecer no acolhimento de um menino nos braços, o filho de um casal pobre que se apresenta para consagrar o seu primogénito a Deus.
Simeão, e Ana na sua velhice, mostram-nos a necessidade que temos de cuidar e até cultivar a espera, o desejo ou apetite de Deus que preenche a nossa sede de infinito, e ainda que isso exija anos e lutas, momentos de jejum e oração como nos é dito que Ana realizava. Contudo, será através desse cuidado que poderemos abraçar a verdade do Menino em nossos braços, perceber a vida de Deus que se aproxima de nós, não como um trovão mas como uma brisa suave da tarde.
Deus vem ao encontro daqueles que o procuram, que aguardam a sua vinda, que lhe deixam espaço para se fazer vida com eles.

Ilustração:
1 – Apresentação de Cristo no Templo, de Francesco Bassano o Jovem, Colecção Privada.
2 – O Cântico de Simeão, de Aert de Gelder, Mauritshuis, Holanda.