domingo, 19 de novembro de 2017

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum do Ano A

Estamos a chegar ao fim de mais um ano litúrgico e o Evangelho de São Mateus que escutámos vem ao nosso encontro nessa necessidade de fazer uma avaliação, de aferir o que fizemos com os dons e talentos que Deus nos concedeu, com as oportunidades e potencialidades da nossa vida, confiadas por Deus para a nossa realização e participação na obra de Deus.
A parábola dos talentos que Jesus apresenta, e escutávamos no Evangelho, coloca no entanto em foco uma outra realidade e questão que não podemos esquecer, que muitas vezes é para nós uma questão pertinente, que nos pode afastar de Deus, que nos pode deixar paralisados na rentabilização dos nossos dons e talentos.
Quantas vezes não nos interrogaram já sobre o porquê das doenças, das guerras, da fome e da violência, como se Deus se tivesse ausentado para parte incerta como o Senhor da parábola, e não quisesse saber de nada. O repouso de Deus após a obra da criação, tal como nos narra o Livro do Génesis, é provocante nesta ausência de Deus, permite estas questões e por isso as encontramos também plasmadas na Sagrada Escritura. Os autores sagrados recolheram-nas e podemos encontrá-las nos Salmos ou nos Livros Sapienciais de uma forma explícita.
Contudo, a ausência de Deus é a manifestação da oportunidade deixada ao homem para participar e colaborar na obra da criação. Na sua liberdade, sem qualquer pressão ou subjugação, o homem pode voluntariamente colaborar com a obra da criação, continuar a obra iniciada por Deus.
Podemos por isso assumir que a ausência de Deus se torna presença quando o homem na sua liberdade, na sua vontade, colabora com a obra da criação, quando procura um mundo melhor, mais justo, mais verdadeiro, quando coloca as suas energias, capacidades e potencialidades ao serviço do bem. O Deus ausente não deixa assim de estar presente nessa energia, nessa disposição e colaboração livre do homem. O criador faz-se presente na obra criativa do homem.
Pelo contrário, a preguiça, a inércia, o desleixo, o enterrar dos talentos, tal como nos apresentava a parábola de Jesus, manifestam a morte, o fim sem sentido e desta forma tornam efectiva a ausência de Deus. Deus ausenta-se com a nossa indisposição para a colaboração na obra da criação, com a nossa recusa, porque Deus a nada nos força. Como dizia Maurice Zundel, como um pobre mendigo Deus espera a nossa ajuda e colaboração.
Ajuda e colaboração que passa por coisas muito pequenas, pelas realidades do nosso quotidiano, pelas pequenas tarefas, pela fidelidade nas realidades da nossa rotina. A parábola do Evangelho que escutámos coloca-nos isso em evidência, quando o servo que recebeu mais talentos é louvado não pela sua capacidade multiplicadora, de rentabilização dos talentos, mas pela fidelidade nas coisas pequenas.
Muitas vezes sofremos essa tentação de pensarmos que necessitamos fazer algo grandioso, espectacular, como encontrar a cura para a doença do cancro, para nos realizarmos, para sentirmos que estamos a contribuir para um mundo melhor, que estamos a colaborar na obra da criação. E contudo, essas oportunidades acontecem com muito poucas pessoas, são excepções, que nos mostram que não podemos prescindir das pequenas obras, da nossa fidelidade nas coisas pequenas de que nos fala a parábola do Evangelho.
Quando ouvimos as histórias pessoais desses génios, dos grandes inventores, facilmente percebemos que também eles chegaram onde chegaram, descobriram o que descobriram ou inventaram, porque estiveram atentos às pequenas coisas, porque foram fiéis na sua observação, na sua atenção e na sua busca de uma resposta.
Afinal é este o nosso caminho, o projecto que Deus nos deixa como forma de colaboração, estar atentos para agir quando for necessário, para fazer o que nos compete, com fidelidade, alegria e confiança, poderíamos dizer com virtuosidade como a mulher da leitura do Livro dos Provérbios. Ela não faz nada de extraordinário para além do que lhe compete como esposa, como mãe, como dona de casa, como alguém que tem bens e os reparte generosamente com aqueles que não têm.
A parábola do Evangelho diz-nos que Deus se ausentou para nos oferecer a oportunidade de colaboração, de realização, mas diz-nos também que o Senhor um dia regressará, virá tomar contas da nossa gestão, do que fizemos com os dons, talentos, oportunidades e potencialidades que possuímos.
Este regresso não pode contudo encerrar-nos numa imagem negativa de Deus, uma imagem perversa, insinuada pelo servo que recebeu apenas um talento e o foi enterrar porque sabia que o senhor colhia onde não semeava. Não nos podemos deixar intimidar pela autoridade do senhor, pelo seu poder, não podemos permitir que o medo vença, porque se é verdade que o Senhor regressará também é verdade que não nos pedirá contas para além das nossas capacidades. Não nos será pedido mais do que somos capazes, do que nos confiou no seu amor e conhecimento das nossas limitações.
Com esta confiança, certos do amor de Deus, podemos e devemos fazer nossas umas palavras que são atribuídas a Santo Inácio de Loyola e o Papa Bento XVI citou na Alocução do Ângelus de 17 de Junho de 2012: “age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”!

 
Ilustração:
1 – A Parábola dos Talentos, de Andrey Mironov, 2013.
2 – Conhecimento e Fé, de Andrey Mironov, 2007.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

De mãos postas

Fomos ensinados assim e nunca parámos para pensar a razão de ser.
Foi com as nossas mães ou avós, com os nossos catequistas, que aprendemos que para rezar devíamos juntar as mãos. Aprendemos, e mecanicamente continuamos assim a rezar, a juntar as mãos para elevar as nossas preces a Deus.
Esta atitude, esta postura, tem no entanto um significado profundo, tem raízes antigas, pois já o Talmude nos refere que os judeus utilizavam esta forma física para se recolher e elevar o seu pensamento a Deus.
No mundo romano esta atitude de juntar as mãos era um sinal de submissão, e por isso quando um soldado capturado e condenado à morte juntava as mãos apresentava a sua rendição, a sua submissão àquele que o tinha derrotado.
Este gesto foi assumido na época medieval como manifestação de lealdade e homenagem, de preito ao senhor ou superior. Manifestava igualmente uma submissão, mas uma submissão assumida numa espécie de cooperação com aquele que podia garantir a segurança e subsistência daquele que se submetia.
Ainda hoje, e na liturgia da ordenação presbiteral, o que vai ser ordenado coloca as suas mãos entre as mãos do bispo ordenante e promete-lhe obediência. Há uma submissão numa missão de cooperação.
Desta forma, quando ainda hoje unimos as nossas mãos para rezar estamos a assumir uma submissão, uma submissão a Deus, mas igualmente a assumir a nossa cooperação com a obra de Deus, a manifestar de forma gestual as palavras do Pai Nosso “venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”.
E porque a nossa oração se faz por Jesus, nosso advogado junto do Pai, ao juntarmos as mãos cruzamos os polegares, para que a cruz da nossa redenção esteja sempre diante dos nossos olhos, presente no sentido da nossa oração.
Que o Senhor nos ajude a cuidar dos gestos da nossa oração, a interiorizá-los de forma consciente, pois também o nosso corpo reza quando o Espirito gera em nós a oração que nos brota nos lábios.

 
Ilustração:
“Mãos em Oração”, desenho aguarelado de Albrecht Durer, in Albertina, Viena.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Homilia do XXV Domingo do Tempo Comum - Ano A

Os meus caminhos não são os vossos caminhos e os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, escutávamos na leitura do Livro do Profeta Isaías; e quando nos confrontamos com a parábola dos trabalhadores da vinha, que escutámos na leitura do Evangelho de São Mateus, percebemos que é bem verdade, os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus, a nossa justiça não é a justiça de Deus.
Diante do pagamento de forma igual para trabalhadores que despenderam horas e esforços distintos, como escutámos na parábola, somos quase instintivamente levados a pensar que Deus é injusto, que maneja uma lógica que não nos parece nada certa, nada justa.
Esta não é contudo a única ocasião; estranhamente, ao percorrer a Sagrada Escritura, encontramos outros momentos e outras histórias que nos colocam diante de uma lógica pouco acertada, de opções divinas aparentemente injustas, como acontece por exemplo com o sacrifício de Abel e Caim.
Porque é que Deus aceita a oferta de Abel em detrimento da de Caim, quando afinal este último não cometeu nada de errado, apresenta apenas os produtos da terra? Pelo contrário é o seu irmão Abel que ao apresentar a oferta comete um crime até aí não registado na obra da criação, como é a morte de um animal.
A história de Jacob e Esaú é outro exemplo, pois a bênção patriarcal é obtida através de uma trapaça, de uma mentira. E a história de David, o grande rei, também não fica atrás nesta lógica que poderíamos dizer disfuncional, pois David quando é escolhido para ser ungido como rei é o mais novo dos irmãos, o que teria menos competências. E mais tarde, apesar de toda a tragédia e violência que envolve a história de David com a mulher de Urias, é o filho deste adultério que vai suceder a David e ser o rei da sabedoria.
Enganar-se-á Deus nas suas opções, andará equivocado? Ou tal como nos dizia o profeta Isaías os seus pensamentos e os seus caminhos são diferentes dos nossos?
As diversas histórias que encontramos de injustiça são contudo histórias de amor, histórias de justiça. Recordando São Paulo, estas histórias revelam-nos que Deus escolhe os fracos, os pecadores, para confundir os fortes, para consciencializar os bons da bondade que não lhes pertence mas é oferecida. Estas histórias recordam-nos que ninguém pode fazer valer os seus títulos para justificar os dons de Deus.
Afinal Deus dá-nos tudo o que nós somos, tudo o que aceitamos ser na nossa liberdade e face à sua oferta. Deus não nos ama porque somos bons, só Deus é bom diz Jesus ao jovem rico que se aproxima dele, mas somos bons porque Deus nos ama, porque o seu amor se projecta em nós e nos faz ser o que Deus é e não aquilo que somos. Deus torna justo em nós o que é injusto, a justiça divina é justificante, ao contrário da nossa que é retributiva.
Assim, se considerarmos que Deus é injusto, nunca o poderemos fazer pela sua falta de justiça, mas bem pelo contrário pelo seu excesso de amor, Deus não tem limites na sua generosidade, na sua bondade, no seu amor, e isso ultrapassa-nos completamente.
Por essa razão, acontece connosco o que encontramos nos trabalhadores que murmuram do salário recebido, vemos com maus olhos a bondade e generosidade do Senhor para com os outros. Esta murmuração e acusação de injustiça revelam a nossa incapacidade de aceitar o amor de Deus, a generosidade divina de querer fazer com todos de modo igual.
Ao aceitar o pagamento generoso do senhor da vinha tornamo-nos participantes do seu amor, somos não apenas beneficiários mas também agentes, podemos dizer que não nos desprestigiamos por ficar em último lugar, ou receber como os outros, pois aquele mesmo que nos retribui, que nos oferece, colocou-se em último lugar, fez-se servo de todos, para que todos pudessem gozar da sua graça, da sua filiação divina.
A generosidade do senhor da vinha para com todos os trabalhadores é uma manifestação da oferta que nos é feita, a oferta do próprio Deus. E por essa razão a saída ao longo do dia do senhor da vinha e o convite a todos os que encontra, quer prontos a trabalhar quer distraídos do trabalho, ou sem nada para fazer, para que se dirijam à sua vinha.
A vinha tal como nos revela a tradição dos profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, o livro do Cântico dos Cânticos, é a própria aliança de Deus com o povo, é a relação de intimidade de uma vida comum com Deus. Aceitar ir trabalhar para a vinha é aceitar integrar essa aliança, essa intimidade e relação, e o pagamento é o próprio senhor da vinha, é entrar na sua intimidade como amigo e não como servo.
Que o nosso coração se abra à generosidade de Deus, que o saibamos escutar no apelo que nos faz em cada hora, em cada dia. E se nos acontecer como ao bom ladrão, que apenas na última hora se encontrou com Jesus, o Senhor da Vinha, que saibamos como ele dizer, “lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”.

 
Ilustração:
1 – “Os trabalhadores da vinha”, de Christian Wilhelm Ernest Dietrich, Palace on the Water, Royal Baths Museum.
2 – “Parábola dos trabalhadores da vinha”, de Salomon Koninck, Hermitage Museum.

domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano A

O Evangelho de São Mateus que escutámos neste domingo apresenta-nos a magnanimidade do perdão, poderíamos dizer a sua dimensão de mistério; que humanamente nos ultrapassa, mas que na fé nos salva e nos edifica como homens e mulheres de verdade.
Nos nossos círculos de relações, nas nossas conversas, é frequente confrontarmo-nos com a acusação de que a Igreja não deixa de falar do pecado, que carregamos os outros com a culpabilização dos erros cometidos, dos pecados. Poderíamos dizer que somos acusados de um certo sadismo, de um gosto de ver os outros culpados.
Contudo, esses mesmos que acusam a Igreja da exploração do pecado são os primeiros a exigir uma nova lei de Talião, a expressar a exigência de olho por olho e dente por dente, a assumir o dogma da nossa sociedade ocidental e capitalista de que tudo tem que se pagar, tudo deve ser pago. Alguém que cometeu uma falta deve pagar por ela.
O Evangelho de Jesus Cristo opõe-se determinantemente a esta concepção, podemos dizer que inverte os polos, e assim o pecado passa para um segundo plano porque o verdadeiramente fundamental é o perdão, é a grandeza do perdão que Deus nos concede e somos convocados a viver uns com os outros.
A parábola do rei que vem ajustar contas, e que Jesus apresenta a Pedro para ilustrar a necessidade de não se ficar num perdão limitado, confinado a uma determinação, mostra-nos a mudança operada, a disparidade de realidades.
Quando o rei se apresenta para cobrar as suas dívidas estamos ao nível da justiça, estamos ainda sob o regime da lei, e portanto se há alguma dívida é justo, é de lei, que seja remida. E é perante esta lei, esta justiça, que é aceitável que o servo tenha que perder tudo para pagar a sua dívida, como a mulher e os filhos.
Esta violência, este exagero da usurpação do que é mais querido e fundamental como a família para ser vendido, tem na parábola o efeito de ajudar a tomar consciência da dimensão da dívida e das suas consequências. O pecado pode de facto levar-nos a perder tudo, até o que nos é mais querido e fundamental como a família.
O pedido aflito do servo, consciente da dimensão e gravidade da sua dívida, leva à mudança de atitude do senhor e rei, que se enche de compaixão e piedade, sentimentos que não são já da ordem da justiça, mas do amor e da dignidade do próprio senhor e rei. É a sua dignidade, a sua magnanimidade que lhe permitem esta mudança de registro. O direito da equivalência é substituído pela gratuidade, pela liberalidade.
A cena seguinte da parábola mostra-nos no entanto que o servo liberto e perdoado não percebeu nada do que lhe tinha sucedido, pois ao espancar e condenar à prisão o seu companheiro e igual ignora a sabedoria e grandeza daquele que lhe tinha dado tanto, ignora e esquece a compaixão de que tinha sido objecto. Ao exigir o pagamento do seu companheiro, o servo perdoado permaneceu no jugo da lei, permaneceu preso à sua dívida, não assumiu a liberdade alcançada.
Por esta razão se torna extremamente importante para nós a repreensão do rei quando o servo devedor volta à sua presença. Antes de mais pela chamada de atenção pela falta de sensibilidade para com o outro, e depois pela falta de semelhança da atitude do seu senhor. Aquele a quem tinha sido perdoada toda a dívida não tinha sido capaz de ser como o senhor, de o imitar nos seus gestos e magnanimidade.
Este “ser como” que o senhor refere é bastante significativo na parábola, pois exige uma semelhança, um acolhimento, um assumir de que o perdão só nos alcança na medida em que o realizamos com os outros, em que somos capazes de perdoar os outros. Como nos questionava a leitura do Livro de Ben-Sirá, como podemos pedir perdão a Deus se somos incapazes de perdoar os nossos semelhantes? Como podemos pedir a Deus a cura e guardamos rancor do nosso semelhante?
O perdão é uma realidade divina, Deus perdoou-nos antes de nós o merecermos, como nos diz São Paulo, e portanto mais não podemos fazer que perdoar os nossos irmãos. Poderíamos dizer que o perdão é como um rio, um fluxo que parte de Deus, mas só nos irriga e ilumina, na medida em que somos passagem, canalização, para outros.
Para nos ajudar e facilitar a viver o perdão, a assumi-lo na nossa vida, para além da consciência de que Deus nos perdoou primeiro, não podemos esquecer as palavras de São Paulo, de que não vivemos nem morremos para nós próprios.
Assim, quando ao procurarmos viver o perdão nos apareça a tentação de que será uma humilhação, uma inferiorização, um desprestígio, devemos antepor e confrontar essa tentação com a certeza de que não morremos, nem nos humilhamos, mas bem pelo contrário assumimos o papel e a função de ser como aquele que nos perdoou primeiro, que é um pai amoroso, um rei magnânimo, um servo que entrega a sua vida para a salvação do outro.

 
Ilustração:
1 – “A parábola do servo injusto”, Jan Sanders van Hemessen, University of Michigan Museum of Art, Ann Arbor.
2 – “A parábola do servo injusto”, Domenico Fetti, Gemaldegalerie Alte Meister, Dresden.    

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Homilia do XXII Domingo do Tempo Comum - Ano A

Estamos a regressar das férias de verão, aos poucos vamos retomando as nossas actividades, e sabiamente no plano de Deus as leituras deste domingo ajudam-nos a olhar para o trabalho que vamos retomar, para as actividades que constituem o nosso quotidiano e nas quais somos chamados a ser cristãos, a tomar a cruz tal como Jesus nos interpela no Evangelho de São Mateus que escutámos.
Muitas vezes, e até mesmo nos comentários a esta passagem do Evangelho encontramos, infelizmente, uma conotação muito negativa deste carregar a cruz; poderíamos dizer, uma carga brutal de convicção de que a cruz é sofrimento. Temo que sofrer, temos que sofrer, é a nossa cruz.
Esta convicção afasta-se contudo do plano de Deus e das próprias palavras de Jesus. Não foi Deus que desejou o sofrimento do homem, assim como a morte não é da sua vontade, uma e outra realidade são consequência do nosso pecado e da nossa condição finita. Por outro lado, o anúncio que Jesus faz aos discípulos não termina na cruz nem na morte, há a ressurreição, que Pedro não percebeu e portanto como amigo tentou desviar Jesus do fim trágico anunciado.
Pedro tinha em vista as coisas dos homens, podíamos dizer a nossa busca de felicidade sem qualquer entrave ou sofrimento. Contudo, o fim último que Jesus apresenta, a felicidade da eternidade expressa na ressurreição, e que nos deve orientar, passa para além do sofrimento e da morte, é superior, e é ele que nos deve iluminar e guiar.
Neste sentido, ao retomarmos os nossos ritmos, somos convidados a acolher a nossa cruz, não como um fim, uma fatalidade, mas como uma realidade intrínseca a opções que se fazem por um fim maior, que se fazem por amor. Alguém que ama, que está apaixonado, é capaz de acolher o sofrimento de não ter outrem ou não estar em outro lugar, porque está com a pessoa amada. A dor da renúncia, o sacrifício, são assim relativizados, pois o mais importante é o que amamos, o que consideramos importante, e pelo qual abdicamos de outras coisas.
Assumir a nossa cruz, carregar com ela, exige assim na medida em que priorizamos umas realidades e relativizamos outras, em que realizamos um discernimento dos valores intrínsecos a cada objecto, pessoa ou actividade, uma transformação interior, uma não conformação com este mundo, como nos diz São Paulo na Carta aos Romanos.  
Esta não conformação com o mundo passa pelas realidades exteriores que não dignificam o homem, não respeitam a vida e a natureza, mas passa sobretudo pela interioridade do homem e por esse culto espiritual que somos chamados a exercer. A nossa vida deve ser uma manifestação da beleza e do amor de Deus, da ternura da verdade de sermos filhos amados de Deus.
Como acontecia com o profeta Jeremias, da primeira leitura deste domingo, há em nós um ardor, uma vida divina que nos impele a ir mais além, a fazer o bem, a procurar a verdade, a tentar a perfeição, a buscar a ressurreição, e que muitas vezes é obrigado a desenvolver-se no meio da violência, do ódio e da perseguição.
A sedução de Deus, do divino que ansiamos, provoca-nos à busca infinita e não podemos abdicar dela, porque de contrário e como diz Deus ao profeta é dos homens que passaremos a ter medo, e a nossa vida será uma total perda ainda que tenhamos ganho o mundo, como diz São Paulo.
Como discípulos de Jesus, ao voltarmos ao nosso trabalho, aos ritmos da nossa vida familiar, às nossas relações sociais, que o amor presida a todas as nossas palavras e gestos, que não nos deixemos vencer pela tentação do mais fácil, como é proposto a Jesus por Pedro e nas tentações do deserto, mas que aspiremos sempre ao bem maior, à plena realização como homens filhos de Deus, conscientes de que a lógica do amor implica uma morte, uma cruz, mas que ela não tem a última palavra, essa chama-se ressurreição.

 
Ilustração:
“Opção – Toma a cruz e segue”, de Andrey N. Mironov.

domingo, 14 de maio de 2017

Homilia do V Domingo da Páscoa

As palavras que escutámos hoje no Evangelho são proferidas por Jesus no momento da última ceia, depois de ter lavado os pés aos discípulos e de ter anunciado a traição de Judas e as negações de Pedro. Podemos por isso imaginar o sentimento de consternação e de tristeza que pairava sobre os discípulos. Tudo, o que tinham vivido juntos, parecia que se desmoronava ali, não só as expectativas criadas à volta de Jesus, mas igualmente as relações, a fidelidade fraternal que tinham desenvolvido.
Perante este sentimento, conhecendo o coração de cada um dos seus discípulos, Jesus vai em seu socorro, pedindo-lhes que não se deixem perturbar no coração, que não desistam de acreditar. Este pedido é contudo uma acha mais para a fogueira, pois Jesus pede-lhes que acreditem nele como acreditam em Deus. Homens habituados a acreditar num Deus único, reservado no santo dos santos do templo, como poderiam acreditar daquela maneira que lhes era pedida por Jesus?
Momento difícil para os discípulos assim como para Jesus; a desorientação é grande, e por isso a pergunta honesta e pungente de Tomé, “ se não sabemos para onde vais como podemos saber o caminho?” Que casa é essa que nos vais preparar, se tudo o que nos dissestes deitou por terra tudo o que esperávamos a acreditávamos, como é possível que nos peças que acreditemos, e acreditemos dessa forma tão violenta como é acreditar em Deus?
E é a este caos de sem sentido que Jesus responde com as palavras sobejamente conhecidas de todos nós, “ eu sou o caminho, a verdade e a vida”! Acreditai em mim, acreditai no que vivestes comigo, acreditai nas minhas obras, acreditai que eu sou a imagem e a presença do Pai na história de cada um de vós e de todos os homens. Eu Sou Aquele em que acreditais.
Este pedido de Jesus, esta oferta de um alicerce para a vida, continua a ser-nos feito e oferecido a cada um de nós; não temos outro caminho para nos encontrarmos com o rosto de Deus, para conhecer Deus. Tal como os discípulos também nós necessitamos esvaziar-nos das falsas imagens de Deus, das imagens e concepções idolátricas para nos encontrarmos com o verdadeiro Deus. Jesus continua a ser para todos os homens o verdadeiro caminho, a verdade e a vida para o encontro com Deus.
Tal como escutávamos na leitura da Epístola de São Pedro, Jesus é a pedra angular em que podemos assentar a nossa construção do conhecimento e da fidelidade à vida que Deus nos oferece. Uma vida que não é para ser vivida de uma forma angelical, num formato de amor platónico, mas é para ser vivida com tudo o que ela encerra de bom e menos bom, de graça e de pecado. Se não colocarmos a nossa vida assente na vida e na verdade de Jesus faremos mais tarde ou mais cedo a experiência do tropeço e do desmoronar, do escândalo da finitude da nossa vida.
É Jesus na sua humanidade e divinidade que nos revela a nossa mais profunda e verdadeira natureza e identidade. Nós somos a mais bela obra de Deus, e se só isso não nos bastasse já para o combate por uma vida digna, o mistério da encarnação veio revelar-nos que somos também presença e habitação de Deus, não somos apenas imagem e semelhança mas verdadeiramente presença de Deus.
A atenção de Jesus por esta realidade habitacional de Deus revela-se bastante precocemente, quando aos doze anos responde a Maria e a José que deveria estar na casa de seu Pai. Revela-se depois na sua vida pública quando frequenta as casas dos pecadores e publicanos, quando diz a Zaqueu que quer ficar em sua casa. O Filho de Deus vem habitar entre os homens, vem fazer morada nas suas casas e tendas, na sua fragilidade e na sua segurança. O Deus do segredo dos santos dos santos, da intocável arca da aliança, vem fazer habitação entre os homens, vem deleitar-se no convívio com eles como nos diz o Livro da Sabedoria.   
Esta habitação, cuja outra face da moeda é a habitação da nossa humanidade na glória divina depois da ascensão de Jesus aos céus, obriga-nos a um cuidado atento ao outro, à vida do outro. A habitação de Deus em cada homem e mulher não nos permite qualquer tipo de marginalização, de exclusão, como encontrávamos relatado nos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura.
A habitação de Deus entre nós deve levar-nos ao acolhimento do outro, mesmo daquelas realidades que nos parecem estranhas, opostas à nossa concepção e ideias e valores. E se este acolhimento nos pode parecer difícil, exigente, temos que olhar para Jesus e com fé esforçarmo-nos, pois Ele prometeu àqueles que nele acreditassem que seriam capazes de não só fazer as suas obras mas outras ainda maiores porque Ele estava junto do Pai.
A fé em Jesus como Deus abre-nos um caminho de encontro com o outro, dispõe-nos para a verdade que o outro encerra, e faz-nos viver uma vida completamente nova, a vida divina que se encontra em cada um de nós. Nesta semana que agora iniciamos, procuremos pois estar atentos aos outros, nas suas necessidades e debilidades, mas procuremos também estar atentos à vida que vivemos, ao fundamento em que alicerçamos as nossas atitudes, prioridades, palavras e gestos.
Que procuremos verdadeiramente que Jesus seja a nossa pedra angular!
Que vivamos as nossas realidades quotidianas como um sacrifício espiritual que oferecemos a Deus pelo nosso sacerdócio santo recebido no baptismo!

 
Ilustração:
1 – “Jesus lava os pés aos discípulos”, de Palma il Giovan, San Giovanni in Bragora, Veneza.
2 – “Simão de Cirene ajuda Jesus a levar a cruz”, de Ticiano, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 7 de maio de 2017

Homilia do IV Domingo da Páscoa

Estamos a celebrar o domingo do Bom Pastor. Jesus apresenta-se no Evangelho de São João, que escutámos, como o Pastor que abre a porta às ovelhas, que chama cada uma pelo seu nome, e que depois de as ter feito passar pela porta segue à frente delas até às pastagens abundantes.
Ao comentar o Evangelho deste domingo prestamos uma especial atenção a dois pormenores, que encontramos igualmente presentes em outros contextos e circunstâncias do mesmo Evangelho de São João.
O primeiro deles prende-se com o chamar pelo nome; Jesus, o Bom Pastor, chama cada uma das ovelhas pelo seu nome. Facto importante, porque não somos mais um número, mais um elemento na anonimato da massa, mas uma pessoa, alguém com o qual se estabelece uma relação.
Podemos ver a importância deste chamar pelo nome no episódio de Zaqueu, que Jesus desconhecia, mas que interpela pelo seu nome ao convidar a descer da árvore porque desejava ficar em sua casa. A nossa busca de Deus, o nosso desejo de ver Jesus, é já uma porta aberta para escutarmos o nosso nome, para o estabelecimento de uma relação pessoal e única com Jesus que vem ao nosso encontro.
Outro momento importante para o chamar do nome é o encontro de Maria Madalena com Jesus ressuscitado. É o pronunciar do nome que desperta para a realidade, para a nova presença e a nova relação que é necessário estabelecer. Quando aquele que parece um jardineiro pronuncia o nome de Maria há toda uma realidade relacional que se reaviva, que podemos dizer ressuscita. Maria Madalena reconhece Jesus pelo seu nome pronunciado.
Assim, e nas circunstâncias em que nos encontramos, na nossa busca de fidelidade, de conhecimento de Jesus, não podemos deixar de estar atentos ao apelo que Jesus nos lança, ao nome por que nos chama para o seguir, para o acolhermos e para o reconhecermos na nova realidade da sua ressurreição.
Ainda neste sentido, não podemos esquecer que o Apocalipse nos apresenta um livro onde estão inscritos todos os nomes, os nomes daqueles que seguiram o cordeiro, no contexto desta leitura do Evangelho o Pastor, que foram capazes de perceber o apelo ao seguimento. A cada um é dado um nome novo, um nome que deriva dessa relação pessoal e única com o Pastor e que apenas cada um conhece. Procuremos pois escrever o nome novo com Jesus.
O segundo pormenor, a que necessitamos dar atenção neste contexto do Bom Pastor, é a realidade abundante a que o pastor nos conduz. Por várias vezes e em circunstâncias diversas a abundância da graça e da vida é-nos apresentada pelo Evangelho.
Podemos vê-la nas bodas de Caná, não só no transbordar das talhas de onde sai o vinho novo, mas também na qualidade excelente desse mesmo vinho. Podemos vê-la na conversa com a Samaritana junto ao poço de Jacob e à qual é prometida e oferecida uma água viva, uma fonte que jorra para a vida eterna, que como sabemos provoca um grande equívoco na pobre mulher. Podemos vê-la no milagre da multiplicação dos pães, quando no final e depois de todos saciados ainda sobram doze cestos de pedaços.
Inquestionavelmente o Bom Pastor conduz-nos às pastagens verdejantes, às águas cristalinas, à abundância da vida e por isso não nos podemos distrair com as outras ofertas, com os salteadores e ladrões que nos prometem oásis de delícias mas que depois experimentamos serem puras miragens.
A confiança e a fé de que a promessa não é publicidade enganosa assentam nas palavras de São Pedro, entre outras, que escutámos na Segunda Leitura. Nós fomos curados pelas suas chagas, ele suportou os nossos pecados no madeiro da cruz para que vivamos para a justiça, para que não mais tivéssemos que nos perder pelo deserto em busca de alimento, porque ele se fez nosso alimento, nosso guarda e protector.
Assim sendo, temos que estar atentos às diversas ofertas de felicidade que se nos apresentam a cada esquina, a cada paraíso que nos é oferecido nas imagens e slogans da publicidade. É verdade que estamos destinados à felicidade, que a devemos buscar, mas também devemos estar conscientes que ela é exigente, que não se alcança por um passo de mágica, que exige esforço e aplicação, uma disposição para a verdade e para a iluminação do espirito. A felicidade é uma conquista.
Neste sentido, e nesta busca de felicidade a que todos aspiramos, não podemos deixar de recordar que hoje se celebra também o dia mundial de oração pelas vocações. Aquele e aquela que descobrem a sua vocação encontram-se com a felicidade, com um processo de esforço e aplicação que desde o primeiro momento tem por horizonte a realização plena. Assim, tudo o que faz e que até pode custar e implicar sofrimento é relativo face ao fim a que se destina.
Todos sabemos como passamos por dificuldades a nível das vocações sacerdotais e religiosas, não há sacerdotes para celebrar os sacramentos, nem religiosos para testemunhar a alegria do Reino construído na fraternidade. Contudo, e como nos recordava ainda há tempos o Papa Francisco a falta de vocações consagradas deve-se antes de mais à falta de vocações para a família.
Faltam hoje no mundo homens e mulheres que assumam a vida familiar, a constituição de uma família como uma vocação divina, como um processo para a realização e a felicidade do casal, mas igualmente como uma manifestação da vida divina, da presença e da história de Deus com os homens. São Paulo recorda-nos isso quando nos diz que o amor entre o homem e a mulher é uma manifestação do amor de Cristo pela sua Igreja. Um amor pessoal, um amor com nomes e apelos sinceros, um amor de entrega total, um amor para a vida em abundância.
Celebramos também hoje o dia da Mãe, e por isso não posso deixar de lançar este apelo às mães e pais aqui presentes. A vocação a que Deus vos chamou foi a de ser pais e mães, procurai sê-lo com sentido divino, formando os vossos filhos para enfrentar os desafios do mundo, mas formando-os também na escuta e na relação com Deus. Que o vosso amor conjugal e o amor pelos vossos filhos sejam testemunhos da transfiguração operada pela passagem de Jesus Cristo nas vossas vidas.
Jesus é a porta por onde devemos passar. Ele é a nossa salvação. Que o vosso amor, e o amor de cada um de nós, estejam marcados indelevelmente pela santidade desta passagem.

 
Ilustração:
1 – “Parábola de Jesus Bom Pastor”, de Marten van Valckenborch, Kunsthistorisches Museum, Viena de Áustria.  
2 – “O Bom Pastor”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.