domingo, 28 de agosto de 2016

Homilia do XXII Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Lucas deste domingo apresenta-nos duas realidades, dois desafios cristãos, que não são muito fáceis de acolher e viver, que nos perturbam na nossa realidade quotidiana, pois não é nada fácil colocar-se no último lugar, nem acolher aqueles que sofrem alguma privação, alguma dificuldade ou deficiência física ou moral. Não é fácil sairmos da nossa zona de conforto, como se diz hoje, do nosso egoísmo, e contudo o Senhor convida-nos a isso, para dessa maneira podermos viver a experiência da redenção que nos foi alcançada, para dessa maneira a tornarmos própria da nossa vida.
Neste sentido, e para nos ajudar a dar passos concretos nesse processo de conversão que necessitamos realizar, temos que ter presente e acolher de forma positiva os desejos de glória e de honra que habitam o nosso coração e as nossas aspirações. Não são um pecado, porque esses desejos estão impressos na nossa matriz divina, todos nós fomos destinados à glória, mas à glória divina, a ser honrados por Deus no acolhimento que nos propícia.
Aquilo que classicamente se chamava a “natureza concupiscível” marca a nossa realidade e o nosso modo de agir, pois devido a essa natureza não descansamos enquanto não encontramos e não nos satisfazemos no que há de melhor, no que mais nos dá prazer, e entre esses objectos de satisfação e prazer encontra-se a glória, o brilho, a honra, entre outros mais sensíveis e carnais.
Assim sendo, o nosso esforço no seguimento de Jesus, nessa busca de fidelidade à fé que professamos, deve aplicar-se no sentido da direcção que damos aos nossos desejos de glória e honra, corrigindo essa tendência natural e cultivada pela sociedade actual de nos satisfazermos com os prazeres momentâneos, com a glória efémera deste mundo, para passarmos a ter presente e a orientar-nos por essa glória futura da eternidade, pelo bem último a que estamos destinados.
É neste sentido que vai a ordem que Jesus expressa na parábola àquele convidado que se foi sentar no último lugar, “amigo sobe mais para cima”, e que expressa antes de mais uma relação, uma intimidade expressa na palavra amigo. Não é a qualquer um que se manda subir, mas àquele que é amigo, e portanto àquele que previamente cultivou e mantém uma relação de intimidade, de amizade.
Depois, a ordem para subir coloca em evidência a necessidade de um processo, de um movimento de ascensão, de conversão como lhe podemos chamar. Um movimento que parece não ter fim, uma vez que a ordem é para subir mais, para nunca se dar por satisfeito senão quando colocado ao lado, poderíamos dizer como no Evangelho de São João, senão quando deitado sobre o coração do mestre, tal como acontecia com o discípulo amado.
Contudo, para subir mais e chegar acima é necessário ter presente que se parte de baixo, que há uma base da qual se parte para subir. Esta base, que deve ser sólida, verdadeiramente assumida, é a consciência da nossa debilidade, da nossa condição humana, da nossa fragilidade, é afinal a experiência da nossa condição pecadora, é a consciência do húmus de que procedemos e de onde fomos elevados por Deus.
A partir daqui sabemos o que é a humildade, podemos ser humildes, pois sabemos que não valemos nada, ou o que valemos é o que nos é dado valer por Deus e em Deus. A partir daqui podemos também realizar um processo de subida mais ligeiro, pois sabemos que não temos necessidade de muita coisa, que podemos viver a pobreza e nela nos encontrarmos com os outros que são tão pobres como nós.
A partir da humildade e do desprendimento da pobreza podemos encontrar-nos com os outros, sentarmo-nos à mesma mesa com cegos, coxos e aleijados, pois não só nós nos encontramos na mesma debilidade e fraqueza que eles, como somos capazes de ver neles o Filho de Deus e portanto viver em plenitude a caridade e o amor.
Santo Agostinho escreveu que possivelmente teremos vergonha de imitar um homem humilde, contudo não podemos envergonhar-nos de imitar um Deus humilde, um Deus que se abaixou da sua glória para nos resgatar do pecado e da morte. A vida de Jesus Cristo, a sua humildade até à morte da cruz, deve ser o nosso princípio e o nosso fim neste processo de vida.
As suas palavras, “quem se humilha será exaltado e quem se exalta será humilhado”, calaram fundo na consciência dos discípulos, naquele grupo de amigos que pouco antes lutavam entre si por um posto de governo e de glória. Que estas mesmas palavras calem fundo no nosso coração e nos purifiquem de todos os vãos desejos de glória e honra, que nos curem da auto-suficiência e do espirito de superioridade, para vivermos verdadeiramente e em plenitude as graças que o Senhor nos concede.
 
Ilustração:
“O Banquete em casa de Levi”, Paolo Veronese, Galeria da Academia de Veneza, pormenores da pintura.

domingo, 21 de agosto de 2016

Homilia do XXI Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Lucas que escutámos encontra-se na continuidade dos domingos anteriores, na linha desse conjunto de ensinamentos que Jesus vai ministrando aos seus discípulos e àqueles que os acompanham na subida para Jerusalém. Jesus sabe que é uma viagem sem retorno e por isso aproveita todos os momentos para preparar os discípulos para o fim e para a vida depois do seu desaparecimento do meio deles. Poderíamos dizer que Jesus vai ditando o seu testamento.
E como acontece em todos os testamentos há disposições a serem tidas em conta, mas há também questões que se levantam devido a essas mesmas disposições. Há duas semanas atrás, Pedro perguntava a Jesus se a parábola que tinha apresentado se dirigia apenas aos discípulos ou se era para todos. Hoje alguém pergunta sobre a quantidade daqueles que se salvam.
Face às palavras de Jesus, e nomeadamente depois de ter refutado a ideia condenatória vigente face àqueles que tinham morrido às mãos de Pilatos e nos escombros da torre de Siloé, a questão da salvação é uma questão pertinente e que atormenta as mentes dos discípulos, sendo por isso retomada diversas vezes. Afinal quantos são os que se salvam?
Jesus recusa sempre uma resposta estatística, numérica, uma resposta que supõe um número final. E tal recusa não se deve a um desconhecimento, ou a uma má vontade, mas pura e simplesmente porque não há números fechados, nada está decidido, pois tudo está em aberto na história e na vida de cada um até ao último momento.
Ao perguntarem por aqueles que se salvam, os discípulos estavam também a esquecer a parábola que bem pouco antes Jesus tinha contado sobre a figueira que não dava frutos, e à qual é ainda concedido um tempo para poder dar frutos com a colaboração do servo que se propõe regá-la e adubá-la. Há sempre tempo, Deus concede sempre um tempo favorável para a salvação.
E é face a este tempo que tudo se joga e para o qual Jesus chama a atenção. Não importa o número dos que se salvam, mas a atitude no tempo propício para alcançar a salvação. É esta atitude que vai ajudar a passar a porta estreita, uma porta aberta já para cada um de nós pelo próprio Filho de Deus no mistério da sua morte e ressurreição, mas que exige a nossa colaboração, o nosso esforço, a nossa luta.
Santo Agostinho escreveu: “Deus que nos criou sem nós não nos salvará sem nós”; ou seja, Deus exige a nossa participação e colaboração, a nossa parte de luta no combate que Ele mesmo já travou por cada um de nós. A salvação é assim em grande medida uma questão de liberdade, da minha liberdade em aceitar e colaborar na obra da salvação, da minha salvação e da salvação dos meus irmãos.
Nada é mais humilhante para uma pessoa que ser declarada irresponsável, e é isso que Deus não quer para nós, para cada um de nós. Deus não nos quer humilhar nem humilhados e por isso oferece-nos a responsabilidade de livremente acolhermos o dom da salvação e de a fazermos nossa com o nosso esforço.
Retomando as palavras da Epístola aos Hebreus, Deus trata-nos como filhos, mas como filhos adultos, homens e mulheres livres e responsáveis, aos quais como pai solícito pede que não se deixem abater, que não desanimem, que não desistam, mas que corajosamente se levantem e se dirigiam nos passos do irmãos mais velho que vai à frente e por isso se tornou a porta por onde todos podem e devem passar.
Eu Sou a Porta, diz-nos Jesus; uma porta larga de amor e misericórdia, mas igualmente uma porta estreita porque nos exige responsabilidade, cooperação, combate, perseverança até ao último momento, partilha das fraquezas e debilidades dos outros, aceitação dos nossos fracassos na luta, humildade para acolher o dom gratuito do amor de Deus; uma porta aberta na eternidade para o tempo de cada um de nós, mas também uma porta que se fecha quando lhe voltamos as costas, quando nos recusamos a transpô-la na nossa vida.
Que o Senhor nos conceda a graça de fixarmos o nosso olhar e o nosso coração na meta a que estamos destinados, para desta forma não descuidarmos nenhum esforço para a passagem pela porta estreita, mas bem pelo contrário para os amarmos como já participação da vitória alcançada por Jesus.

 
Ilustração:
“Parábola do vizinho importuno”, de William Holman Hunt, Galeria Nacional de Vitória, Austrália.

domingo, 26 de junho de 2016

Homilia do XIII Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Lucas divide-se em três grande blocos, um primeiro bloco dedicado ao nascimento e infância de Jesus e por isso chamado também Evangelho da Infância, um segundo bloco dedicado à pregação e milagres de Jesus na Galileia, e por fim um terceiro bloco, composto de dez capítulos, que nos narra a subida de Jesus para Jerusalém, a sua caminhada para o fim que lhe estava destinado e Jesus assume livremente.
É no início deste terceiro bloco que encontramos os grandes desafios do seguimento, a questão da identidade de Jesus, que o Evangelho nos apresentava no domingo passado, e que nos desafia na nossa identidade, e as condições de realização desse seguimento identificativo, que nos são apresentadas no Evangelho de hoje.
Estamos diante de um texto exigente, um texto que nos deve fazer pensar e ajudar a aferir da nossa vida e do nosso seguimento, pois ao convite de Jesus, poderíamos dizer geral e abrangente, de assumir a cruz e seguir com ele, somam-se agora condições concretas e reais, as condições que ele mesmo vive e portanto não pode deixar de apresentar e exigir a quem se dispõe a segui-lo.
É um tudo ou nada, uma radicalização, em que muitas vezes parece que nos é pedido mais do que as nossas capacidades e condições humanas podem suportar. É um pedido, ou um convite que conduz à renúncia total, que nos coloca num processo que nos deve levar à renúncia total, mas que Jesus sabe, como também nós sabemos, que é condicionado pela nossa liberdade e pela nossa apetência de posse. No fundo não deixamos de querer guardar sempre alguma coisa para nós.
É neste quadro, com estas condicionantes, que Jesus diz ao primeiro que se apresenta para o seguir para onde quer que vá, que o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça, ao contrário das raposas e dos pássaros que têm as suas tocas e ninhos. É o desafio do despojamento, da pobreza, mas igualmente da falta de segurança, de um ninho ou uma toca onde refugiar-se, onde voltar ao final do dia ou dos trabalhos.
Aquele que se propõe seguir Jesus, que aceita o seu desafio de seguimento deve estar preparado e consciente desta pobreza, deste despojamento, que atinge a radicalidade de não ter nada senão o próprio Deus Pai no qual se deposita toda a confiança, toda a esperança e toda a segurança. Afinal o Pai veste melhor os lírios do campo que o próprio rei Salomão!
Seguir com Jesus e subir a Jerusalém implica assim essa fé total no Pai que acompanha, vigia e não deixará de estar presente nos momentos mais dolorosos e desafiantes para cobrir com a sua capa de misericórdia aquele que confia e se entrega.
Ao convidado a seguir o Mestre que necessita de ir sepultar o seu pai, Jesus contrapõe a radicalidade de deixar os mortos sepultarem os mortos, porque afinal o chamamento ao seguimento é inquestionavelmente para um serviço, para uma missão, como é a de anunciar o Reino de Deus. Não estamos diante de uma quebra das relações familiares, de uma usurpação de um membro à família e muito menos diante de uma crítica ao cuidado dos defuntos. O desafio do seguimento é um desafio para um serviço de vida, para um serviço muito mais significativo que o cuidado dos mortos como é o do anúncio do Reino.
A resposta de Jesus aponta-nos o fim do seguimento, mas igualmente a prioridade que lhe é devida, e portanto não se devem colocar em primeiro lugar outras realidades, que em definitiva devem estar subjugadas ao primeiro fim que é o Reino de Deus. Podemos e devemos sepultar os pais defuntos mas na medida em que tal signifique uma realidade do Reino, uma manifestação da realidade do Reino.
Por fim, e àquele que depois de se sentir chamado e de se ter colocado no processo de seguimento deseja ir despedir-se da família, Jesus responde que o olhar para trás inviabiliza o serviço e a pertença ao Reino, impede o verdadeiro seguimento. É a tentação de olhar para o passado, de nos deixarmos aprisionar naquilo que vivemos e experimentámos, tal como o povo hebreu quando no deserto chorava as cebolas e os pepinos do Egipto.
O desafio do seguimento de Jesus joga-se no presente com a perspectiva de futuro, porque é no presente que Deus age e nos pede acção. Olhar para o passado e viver nele é não estar atento ao que Deus vai fazendo no presente, é não perceber a novidade que cada dia Deus vai realizando na vida e na história de cada um. E seguir Jesus implica estar aberto a essa novidade, disposto a vivê-la com a confiança de que Deus nos conduz sempre à terra prometida.
A leitura do Evangelho de hoje mostra-nos assim as condições do seguimento de Jesus, mas igualmente as tentações que podemos sofrer, os pretextos que nos podem impedir e podem desvirtuar o dom total a que o Senhor nos chama, como são a nossa liberdade, o amor à família, a amizade aos próximos ou os bens que possuímos, que devem estar ao serviço do Reino e não ser obstáculo para o seguimento.
Neste sentido, e neste quadro existencial em que oscilamos entre o que nos desafia e lança no seguimento de Jesus e as realidades que nos prendem, a nossa apetência para a apropriação, devemos ter presentes as palavras de Elias a Eliseu, quando este propõe ao profeta ir despedir-se da sua família: vai e volta porque eu já fiz o que devia.
Ao terminar cada dia, ao fazer o exame de consciência, deveríamos ter presente o que fizemos, o que devíamos ter feito. Fazemos em cada dia o que de facto nos compete, o que Deus espera de nós, o que nos realiza face aos dons e graças concedidas por Deus? Quando nos apresentamos diante de Deus que colocamos nas nossas mãos?
Que a luz do Espirito Santos nos ilumine e auxilie, para tal como Jesus podermos dizer “Pai nas tuas mãos entrego o meu espirito”. Pai tudo recebi de ti e tudo te confio!

 
Ilustração:
“O jovem rico”, de Heinrich Hofmann, Igreja de Riverside, Nova-York.  

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo


 
"Haverá momentos na tua vida nos quais todas as coisas belas e sagradas te parecerão como uma mentira.
Todas as recordações mais bonitas, as mais delicadas e ternas te parecerão como um sonho, como se fossem uma ilusão, como se todas essas coisas e todos esses estados de alma e todos os rostos e todas as palavras que transportas na tua memória interior não tivessem sido realidade, como se fossem apenas impressões fugitivas.
Haverá momentos nos quais tudo o que tiveres amado, visível ou invisível, humano ou sobrenatural, te parecerá como uma velha história, muito velha, sem um fundo de vida. E então tu te sentirás só e vazio.

Então, nesse momento, recorda-te da palavra do Senhor: “Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós!”

Recorda-te e não procures compreender na tua cabeça. Não podemos compreender nada unicamente pelo pensamento. Recorda-te das palavras do Senhor. Ajoelha-te e reza em silêncio. Ajoelha-te na solidão do teu quarto e reza em silêncio.

Então haverá um momento no qual, no fundo do teu coração, brilhará a profunda verdade das palavras do Senhor. E essa não muda aos seis anos, aos trinta anos, aos oitenta, e nem aos cem.

Sempre que tu te abandonares humildemente ao Senhor, Ele te fará compreender no fundo do teu ser aquilo que as palavras humanas não podem explicar.

Então compreenderás que o homem, que é feito de carne e vive graças ao sangue, e que tem uma alma estreitamente ligada a essa carne e a esse sangue, tem necessidade de uma outra carne e de um outro sangue, novos e santos, para que ele possa ser renovado, santificado, e possa participar na Vida eterna.

Tu compreenderás que estas simples palavras “carne e sangue do Filho do homem” contêm um enorme mistério de vida. Cristo, antes de deixar esta forma de vida terrestre, ofereceu-se como alimento novo, como carne e sangue santos, para que os homens pudessem renovar a sua vida, a sua própria carne, o seu próprio sangue, a sua própria alma.

E é apenas rezando humildemente a Deus, no meio de todas as coisas contrárias, estranhas, atraentes e barbaras da vida terrestre, que as profundezas das palavras do Senhor iluminarão o teu espirito e o teu coração.

“Se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós!”
 
Nota: Este texto, da autoria do padre Teodósio-Maria da Cruz, foi lido no final da Celebração da Eucaristia na Igreja de Cristo Rei, Porto. 

domingo, 10 de abril de 2016

Homilia do III Domingo do Tempo Pascal

Lemos quase na íntegra o capítulo vinte e um do Evangelho de São João, um capítulo que aparece no Evangelho quando o autor do texto tinha dado já por finalizada a sua obra, e por isso este capítulo denuncia, face à centralidade da figura de Pedro, uma justificação, como que uma reabilitação do apóstolo Pedro.
Contudo, e ainda que haja algum desejo de reabilitação de Pedro, este texto pode ser considerado uma longa parábola, na qual todos estamos presentes na pessoa de Pedro, cada um de nós individualmente e a Igreja enquanto corpo e comunidade.
Necessitamos por isso de ler atentamente este texto e de perceber como à luz da ressurreição, somos convidados a uma nova atitude, a uma outra abordagem da realidade e dos seus desafios.
Nesta nova abordagem, o primeiro desafio a enfrentar é o da inserção na dinâmica da ressurreição, inserção plasmada no contraste da noite infrutífera de trabalho de Pedro e dos companheiros. Após a ressurreição de Jesus não nos podemos lançar ao trabalho sem contar com a sua presença, sem contar com a sua palavra, sem ter presente o fruto da sua paixão e da sua morte.  
Pedro e os companheiros não pescaram nada durante toda a noite porque se esqueceram de contar com o Senhor, e sobretudo esqueceram-se de contar com a necessidade de lançar as redes para a direita. Pode parecer um pormenor, mas é extremamente significativo, porque na simbólica da literatura bíblica a direita associa-se à justiça de Deus.
Deste modo Pedro, e com ele a Igreja e cada um de nós, é convidado a realizar a sua pesca, o seu trabalho, a missão solicitada, à luz da justiça de Deus, pois só assumidos nessa justiça o trabalho e a missão podem verdadeiramente dar frutos, a pesca pode ser verdadeiramente milagrosa.
Inevitavelmente, para que tal aconteça, temos que estar atentos à Palavra, temos que perceber tal como o discípulo amado que Jesus caminha muitas vezes nas margens da nossa vida e que é desde aí que nos manda lançar as redes na justiça que nos alcançou do Pai. A escuta atenta da Palavra, o estudo e a leitura da Sagrada Escritura, faz-nos mais atentos ao que o Senhor nos pede ou oferece. 
Esta atenção ajuda-nos também a perceber o amor que o Senhor nos solicita, um amor novo, radical e fundamentado, um amor que não pode ficar apenas pela facilidade e pelo poético, pela resposta às nossas expectativas. E é esse amor que está em causa quando Jesus pergunta três vezes a Pedro se o ama.
Podemos estabelecer um paralelo entre estas três perguntas e as três negações de Pedro, mas não podemos deixar também de estabelecer uma graduação, um desenvolvimento no desafio colocado a Pedro. O objectivo do questionamento de Jesus é assim a passagem de um amor voluntarioso, de um amor adolescente se assim se pode chamar, para um amor que aceita e acolhe a vontade do outro, neste caso a vontade do Pai que é Deus.
Por esta razão, e ainda que o autor do texto diga que o objectivo é profetizar a morte de Pedro, as palavras finais de Jesus são um sublinhado dessa necessidade de se deixar conduzir, de se deixar levar pela mão de outro, ao contrário da juventude, do amor voluntarioso em que cada um se conduz por si próprio e pelas suas paixões.
As três perguntar de Jesus obedecem também ao objectivo de fazer perceber a Pedro e a cada um de nós a necessidade de vivermos o amor não só numa dimensão vertical, em relação a Deus que devemos amar sobre todas as coisas, mas também numa dimensão horizontal, amando os irmãos, porque se não amamos aqueles que vemos como vamos amar Aquele que não vemos.
É esta a razão de Jesus, após cada resposta de Pedro, apresentar a necessidade de cuidar e olhar pelas ovelhas e pelos cordeiros, por aqueles que constituem a comunidade e à frente da qual Pedro tinha sido colocado.
Este capítulo vinte e um do Evangelho de São João encerra assim em si, e neste acontecimento da terceira manifestação de Jesus como ressuscitado, uma dupla profissão, uma dupla declaração, primeiro de fé, em Jesus ressuscitado, e depois de amor em Jesus presente nos irmãos.
Dupla profissão que condiciona e ilumina o seguimento que Jesus propõe a Pedro e a cada um de nós enquanto Igreja, um seguimento que assume a verdade da justiça alcançada do Pai pelo Filho, e que nessa justiça assume igualmente o amor para com os irmãos como uma tarefa fundamental.
Procuremos pois nesta semana que agora iniciamos, e na qual somos convidados pela Igreja a rezar pelas vocações consagradas, viver cada momento como um convite de Deus a mergulhar na sua justiça e a cuidar dos irmãos como presença viva do ressuscitado.

 
Ilustração:
1 – “A pesca milagrosa”, de Gaspar de Crayer, Museu de Belas Artes de Lile.
2 – “Domine quo vadis?”, de Andrey Mironov.

domingo, 20 de março de 2016

Homilia do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

Durante as semanas da Quaresma fomos realizando uma caminhada, uma preparação em ordem a chegar a este pórtico, como é o Domingo de Ramos, que nos introduz na grande semana que hoje começamos a viver e na qual recordamos e fazemos presente o mistério da nossa redenção. Iniciamos a Semana Santa, a semana dos mistérios, e para nos ambientar ao que vamos celebrar o Evangelho de São Lucas que lemos recordava-nos não só a Paixão de Jesus mas também a Última Ceia.
Esta narração dos dois momentos coloca-nos de sobreaviso relativamente ao que vamos celebrar, à unidade intrínseca entre os momentos que se sucedem no tempo, na história e na celebração litúrgica. A memória da Última Ceia ajuda-nos a compreender que todo o sofrimento, toda a derrota que parece acontecer, a paixão e a morte, têm um fundamento, um sentido, que é o amor.  
Sem o amor tudo o que escutamos e tudo o que vamos viver não tem sentido, é apenas mais uma tragédia que pode ser esquecida tal como tantas outras que são esquecidas. Contudo, se desde há dois mil anos a recordamos em cada Páscoa, e a partir dela em cada domingo e em cada celebração da Eucaristia, é porque o amor a liberta dessa finitude, dessa dimensão trágica e do esquecimento.
É o amor que faz memória, assim como foi o amor que conduziu aquele que é o objecto de toda a violência, Jesus Cristo. É o amor que o leva a celebrar a Páscoa com os seus discípulos, a partilhar a refeição com o traidor, é o amor que proclama que o serviço é um dom e uma grandeza, quando eles querem saber quem é o maior, é o amor que se deixa conduzir sem resistência porque sabe que o bem gera sempre resistência da parte do mal.
É o amor que recompensa o amor, porque como semente lançada à terra esse amor não podia deixar de florescer e frutificar e por isso passados estes dias memoráveis de dor e sofrimento vamos encontrar na manhã de Páscoa o Senhor ressuscitado.
Celebrar assim a Semana Santa e a Páscoa da Ressurreição é recordar o amor, é recordar o início de um reino que não se funda sobre espadas, mas numa entrega aos outros para que eles possam viver, para que tenham vida, é recordar o início do reino do amor infinito, do amor a toda a prova.
Necessitamos por isso, tal como afirmava o profeta Isaías, ter os ouvidos atentos, despertar para a escuta, porque só escutando o bater do coração de Jesus neste drama podemos atravessá-lo com confiança e ter a graça de o partilhar com os outros nossos irmãos.
Necessitamos estar aos pés da cruz, sem preconceitos nem expectativas, para tal como o centurião romano intuir a presença da divindade naquele corpo chagado e maltratado, naquele homem sem poder nem glória, mas que é verdadeiramente um homem justo, o Filho de Deus.
Pedro e os outros apóstolos estavam dispostos a seguir Jesus, a dar a sua vida por um reino que era apenas uma ilusão das expectativas pessoais e da euforia da multidão que subia a Jerusalém para a festa da Páscoa.
Saibamos nós seguir Jesus nestes dias, na memória dos acontecimentos, para não desejar ou construir um reino ilusório, mas para experimentar verdadeiramente o amor e a partir dele e com o serviço que nos é pedido construir o verdadeiro Reino em cada dia do resto do ano.

 
Ilustração:
1 – “Judas abandona a Última Ceia”, de Carl Heinrich Bloch.

domingo, 13 de março de 2016

Homilia do V Domingo da Quaresma

O Evangelho deste quinto domingo da Quaresma apresenta-nos uma das histórias mais sublimes dos Evangelhos, uma das cenas mais marcantes da vida de Jesus, uma história de amor que só alguém verdadeiramente enamorado podia registar.
Todos sabemos como o Evangelho de São João é uma peça única, um texto complexo e ricamente elaborado, mas também sabemos como em muitas situações é um relato vivo de alguém que testemunhou os acontecimentos em primeira mão.
A riqueza deste texto e de certa maneira a sua especificidade resulta da experiência amorosa vivida pelo seu autor, esse jovem que é apelidado do discípulo amado e que sem qualquer receio repousa a sua cabeça sobre o peito de Jesus no momento da última ceia.
É essa experiência do amor do Mestre que o leva a notar os gestos amorosos que o mesmo Mestre dirige aos outros; e, no caso de hoje, a esta mulher que é trazida à sua presença acusada de um crime que apenas tem como objectivo incriminar o próprio Mestre Jesus. Aqueles escribas e fariseus sabiam muito bem ao que vinham e a mulher era apenas um pretexto, um alibi para o crime que desejavam perpetrar.
Tal como nos diz o texto, é uma armadilha para incriminar Jesus, que tal como a mulher se vê colocado no centro das atenções, no centro da roda da violência. Se Jesus responde que se atirem as pedras à mulher, que seja condenada pelo adultério, infringe não só as leis dos romanos mas contradiz também toda a sua palavra de amor e misericórdia. Pelo contrário se a deixa sem condenação está a negar a Lei de Moisés e igualmente a negar a sua palavra quando afirma que não tinha vindo revogar a Lei mas aperfeiçoá-la.
Jesus está encurralado, encostado à parede, e sem outra saída partilha a sorte da mulher, desce até ela e à sua sorte quando se abaixa e começa a escrever no pó do chão do templo. É o amor que desce até ao pecado, é a misericórdia que desce até à infidelidade e partilha a sua condição. E com o dedo que lavrou as pedras da Lei entregues a Moisés começa a escrever no pó da terra as faltas dos homens.
Podemos imaginar a surpresa daqueles homens, dos discípulos que expectantes esperavam uma resposta do Mestre, da própria mulher que naquele impasse continuava sem saber o seu futuro. E como insistiam com Jesus e nada do que escrevia no chão os vergava à verdade, Jesus ergue-se com autoridade e sem medo lança-lhes o maior desafio: quem não tiver pecado que atire a primeira pedra.
É a resposta inesperada, é a prova da partilha da condição do pecado da mulher, é o confronto com o pecado que afinal todos tinham cometido ao trazer aquela mulher para o tentarem incriminar a ele. Só Jesus podia proclamar este desafio, ele que não tinha conhecido o pecado e se fez pecado para salvar todos os homens. Ele que conhecia o pecado de todos podia de caras confrontar-se com os pecados daqueles homens. E perante tal desafio foram saindo um a um a começar pelos mais velhos.
Diz-nos São João, o jovem discípulo amado, que ficaram apenas a mulher e Jesus e que este depois de lhe ter perguntado pelos acusadores também a enviou para casa sem a condenar mas com a recomendação de não voltar a pecar. A mulher faz a experiência do perdão e João testemunha o amor de Jesus, que não veio para condenar mas para salvar, que não veio para aprisionar os homens na culpa mas libertá-los de modo a poderem ter uma vida nova.
Jesus ao dizer àquela mulher apanhada em flagrante que também ele não a condena está a libertá-la da sua falta, do seu pecado, está a ir ao encontro de uma ideia que trespassa as três leituras que escutámos e converge nessa necessidade de deixar o passado para trás, de perdoar e deixar-se perdoar para poder prosseguir com a vida.
E esta tentação de ficarmos presos ao passado, a uma qualquer falta que possamos ter cometido, é bastante frequente e devido a ela não somos capazes de dar um passo em frente, não temos a coragem de acreditar que o futuro ainda está por viver e pode ser muito diferente.
A história da mulher apanhada em adultério que São João testemunhou e nos conta tem esse mérito de nos colocar diante do perdão de Jesus, do seu amor extremo e solidário com o homem vítima do pecado, assim como tem o mérito de nos dizer que Deus não nos quer aprisionados à culpa do mal cometido mas que nos liberta dela para podermos viver uma nova oportunidade de plenitude e fidelidade.
Nesta Quaresma e neste Ano da Misericórdia devemos estar assim atentos à oferta que o Senhor Jesus nos faz através da Igreja e do sacramento da Reconciliação para fazermos essa experiência de amor, para nos darmos uma nova oportunidade de vida.
Que o medo não nos tolha os passos nem as nossas faltas nos desencorajem, porque o Senhor espera de braços abertos cada um de nós para nos dizer, vai e não tornes a pecar, para nos oferecer um novo futuro, a sua graça para vivermos como Filhos da Luz e da Verdade.

 
Ilustração:
1 – “Cristo e a pecadora”, de Andrey Mironov.
2 – “Cristo e a mulher adúltera”, de Polidoro Da Lanciano, Museu Belas Artes Budapeste.