domingo, 2 de fevereiro de 2020

Homilia da Festa da Apresentação do Senhor


Hoje celebramos a Festa da Apresentação de Jesus, uma festa que raramente coincide com o domingo. Temos assim a oportunidade de olhar para este acontecimento da vida de Jesus que habitualmente meditamos nos Mistérios Gozosos da oração do Rosário.
O Evangelho de São Lucas que escutámos apresenta-nos o acontecimento na órbita do cumprimento dos preceitos legais, do que estava estipulado na Lei de Moisés face ao nascimento de um filho primogénito. Contudo, este enquadramento rapidamente é ultrapassado pela mensagem do mistério, pela novidade do próprio menino que é apresentado no templo.
Neste sentido, convêm notar o que é oferecido em sacrifício pelo resgate do menino. A Lei de Moisés dizia que o primogénito devia ser resgatado com o sacrifico de um cordeiro, e apenas no caso de a família não ter condições para o poder fazer, o resgate podia ser substituído por um par de pombas ou rolas. Maria e José oferecem duas pombinhas, significando dessa forma a sua pobreza, apresentando-se como os pobres de Deus, aqueles aos quais Deus se oferece e para os quais Deus é a única resposta.
Contudo, a apresentação de duas pombinhas tem um significado mais forte e intrinsecamente relacionado com Jesus, o menino que é apresentado. Tal como será dito por João Baptista no momento do baptismo de Jesus no rio Jordão, este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. O Cordeiro de Deus não pode ser substituído por outro cordeiro, o resgate que vai realizar com o seu sacrifico de vida não pode ser subtraído pelo resgate de um animal.
Mas o evangelista Lucas vai mais longe na sua interpretação do acontecimento; e assim, quando Jesus é trazido ao templo não é acolhido pelos sacerdotes, mas poderíamos dizer por quase dois marginais, duas figuras que desempenham um papel representativo, Simeão e Ana. Este facto inusitado mostra-nos também como o verdadeiro templo, aquele templo que será reconstruído em três dias, e o verdadeiro e único sacerdote, de que nos fala o autor da Epístola aos Hebreus, não podia ser subjugado às representações e figuras do antigo culto.
Estamos perante uma nova realidade, uma nova e radical forma de Deus se apresentar e relacionar com os homens, perante o mensageiro de que nos falava a leitura do profeta Malaquias, um enviado que vem estabelecer uma nova aliança, um novo templo, um novo povo, uma nova vida, alguém que vem realizar um corte com o passado obsoleto e dar início a uma nova era. Ao ser apresentado no templo Jesus abre a porta à novidade da Aliança que Deus quer estabelecer com a humanidade.
Esta novidade é também hoje desafiante para cada um de nós e neste sentido o velho Simeão que acolhe Jesus no templo pode ajudar-nos a compreender a necessidade que temos de viver em esperança, em vigilância atenta e fiel.
Hoje, mais do que nunca, vivemos na lógica do imediato, tudo tem de ser para já, temos de dar uma resposta imediata, e somos de tal maneira pressionados pela urgência que acabamos por não ter tempo para gerar as próprias respostas que necessitamos dar. E assim, imediatamente nos esquecemos do que respondemos, dos compromissos que assumimos, somos sugados pela voragem do tempo e do imediatismo acabando num sentimento de incapacidade e frustração face ao que nos é pedido.
O velho Simeão do templo de Jerusalém, impelido pelo Espírito Santo a ir ao encontro do menino, mostra-nos a necessidade que todos temos de dar tempo, de resistir à pressão, de aguentar, de viver na esperança de algo que virá, mas que não sabemos quando nem de que modo. O velho Simeão convoca-nos a viver o tempo de espera como um tempo divino, um tempo de gestação de algo que desconhecemos e não controlamos, mas que podemos dizer que nos é oferecido por Deus, pois não é fruto das nossas mãos. Com o velho Simeão somos convidados à persistência na espera, a um vazio à espera de ser preenchido.
E de tal maneira este vazio é próprio e essencial ao nosso ser de pessoas que os agentes de publicidade e vendas não cessam de nos tentar preencher este vazio com novos produtos, novas ofertas, remédios milagrosos para a nossa satisfação imediata. Quantas vezes nos apercebemos que temos muitas coisas, temos muitos eventos e compromissos, estamos com muita gente, mas há um vazio em nós que aguarda um preenchimento!
O velho Simeão inspirado pelo Espirito de Deus a vir ao templo é um homem do vazio expectante, poderíamos dizer do apetite que deseja ser saciado, e corajosamente vive os acontecimentos na expectativa de uma realização, que acaba por acontecer no acolhimento de um menino nos braços, o filho de um casal pobre que se apresenta para consagrar o seu primogénito a Deus.
Simeão, e Ana na sua velhice, mostram-nos a necessidade que temos de cuidar e até cultivar a espera, o desejo ou apetite de Deus que preenche a nossa sede de infinito, e ainda que isso exija anos e lutas, momentos de jejum e oração como nos é dito que Ana realizava. Contudo, será através desse cuidado que poderemos abraçar a verdade do Menino em nossos braços, perceber a vida de Deus que se aproxima de nós, não como um trovão mas como uma brisa suave da tarde.
Deus vem ao encontro daqueles que o procuram, que aguardam a sua vinda, que lhe deixam espaço para se fazer vida com eles.

Ilustração:
1 – Apresentação de Cristo no Templo, de Francesco Bassano o Jovem, Colecção Privada.
2 – O Cântico de Simeão, de Aert de Gelder, Mauritshuis, Holanda.

domingo, 22 de dezembro de 2019

Homilia IV Domingo do Advento - Ano A

Estamos a celebrar o quarto domingo do Advento e o nosso tempo de preparação para a celebração do Natal do Senhor Jesus chega ao seu término. E paradoxalmente, este tempo de preparação, de caminhada, termina com um episódio dramático, um conflito pessoal sobre opções.
O evangelho de São Mateus que escutámos coloca-nos face ao conflito de José, ao conflito desse homem que se vê desorientado e perdido face aos seus planos e expectativas. Deus trocou-lhe as voltas e confronta José com a necessidade de viver a sua justiça desde outro prisma.
O Evangelho de São Mateus assume desde o primeiro momento que José era um homem justo e é a partir dessa justiça que ele decide repudiar Maria em segredo após ter sabido da sua gravidez. José, como homem justo podia ter tomado outra atitude, como justo a partir do cumprimento da lei de Moisés, podia ter exposto Maria ao vexame e à condenação pública.
Contudo, não o fez. E ao agir dessa maneira abre uma brecha pela qual Deus vem penetrar e vem desafiar a uma atitude ainda mais forte e consistente que a da justiça, a atitude radical do amor e da confiança. Se o amor humano, o enamoramento por Maria, o podia ter levado a esse resguardo da pessoa amada, Deus vem agora pedir a José que aceite a novidade da surpresa dos seus planos baralhados.
Ao receber Maria como sua esposa, e o filho que ela trazia no seu ventre gerado pelo poder do Espirito Santo, José opta por aventurar-se na novidade de Deus, faz confiança na sua palavra e na sua promessa, torna-se profundamente justo porque não é já o dever que o leva à acção mas é o amor e uma confiança para além do expectável.
José aparece-nos assim na nossa caminhada de Advento, e de fé, como um exemplo, poderíamos dizer quase como uma paradigma do que deve ser a nossa opção e atitude face às propostas de Deus, face àquelas circunstâncias que tantas vezes se nos apresentam como uma noite escura, como um combate que temos que travar e do qual não sabemos o resultado.
José é um exemplo de confiança, de fé, de acolhimento na vontade e história pessoais de algo que nos ultrapassa, sobre o qual não temos o controlo. E como arriscamos nessa confiança Deus capacita-nos para podermos dar o nome ao fruto dessa confiança e fé, tal como confiou a José o poder de dar o nome a Jesus. A experiência da confiança em Deus abre-nos ao domínio dos frutos, das realidades que passamos a poder denominar, a dizer o que foram e o que significaram para nós em termos de transformação e vida.
Nesta dinâmica da fé, da opção confiante por Deus que nos envolve e nos acompanha, coloca-se muitas vezes o dilema dos sinais, daqueles que pedimos e não nos são concedidos, daqueles que nos recusamos a pedir como o rei Acaz da leitura do profeta Isaías, e também daqueles que nos são oferecidos mas que nos recusamos a ver, ou que nos passam indiferentes. E Deus envia os seus sinais, vai-nos iluminando para que possamos fazer o caminho, para que possamos fazer a opção mais justa, que é aquela que é mais fruto consequente do amor e da confiança plena.
Nas nossas mais diversas circunstâncias, nas rotinas do nosso quotidiano, quantos sinais nos são enviados? Naquelas situações de conflito de interesses quantas vezes não desperdiçamos os sinais e as palavras que Deus nos envia através de alguém, de um gesto ou de uma palavra, que vistos ou escutados atentamente poderiam fazer toda a diferença?
Ao aproximar-nos da celebração do Natal fica-nos este convite e desafio de olharmos os sinais que Deus nos vai enviando, de confiarmos na sua promessa, fica-nos o convite a olharmos com ternura o Menino Jesus, pois é o sinal mais forte e eloquente do amor de Deus, do seu desejo de se fazer presente, de habitar entre os homens, como nos é dito no Livro da Sabedoria.
Tal como enunciava São Paulo na Carta ao Romanos, nós somos amados por Deus, amados tão profundamente que o Verbo de Deus se fez carne da nossa carne, veio habitar entre os homens, para que pudéssemos ser santos, verdadeira e intrinsecamente justos, como Deus é santo e justo, para que pudéssemos viver nesta santidade e justiça que não se alcançam pelas nossas mãos nem pelos esforços e sacríficos, pelo cumprimento obcecado e escrupuloso da lei, mas pelo acolhimento livre e pleno da vontade de Deus, pela adesão aos seus planos extravagantes e revolucionários como o fez José.
Procuremos pois com amor e boa vontade acolher a justiça e a santidade que nos é revelada e confiada no Menino deitado na manjedoura, disponível a ser acolhido por todos.

 
Ilustração:
1 - O sonho de São José, do retábulo da igreja da Misericórdia de Tentúgal.
2 – O sonho de São José, Vicente López Portaña, Museu do Prado, Madrid.

 

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Jesus questiona! Mt 21,24

Jesus sobe ao templo e começa a ensinar. Uma provocação para os instituídos no cargo, para os detentores da doutrina. Quem te deu a autoridade para ensinar, para fazeres isto, para te sentares no nosso lugar?
Jesus não se acanha nem se acobarda e sai à luta com uma pergunta, novamente com uma pergunta, que destabiliza os seus beligerantes, que obriga a uma resposta. Jesus pergunta, pergunta sempre, até quando é procurado para uma cura. Tu acreditas que eu sou capaz de fazer o que me pedes? Jesus é provocador, questiona, coloca em causa, e destabiliza as seguranças e os egocentrismos.
Se hoje Jesus se nos dirige é para continuar a interpelar, a colocar questões. Pode perguntar-nos pela nossa fé, se acreditamos que ele verdadeiramente pode fazer o que lhe pedimos nas nossas súplicas e orações; mas pode perguntar-nos também pela verdade do nosso coração, pode interpelar-nos no sentido de um discernimento da nossa vida.
Afinal o que acontece e encontramos de bom e de belo é do céu ou é da terra? A alegria e a felicidade que experimentamos é uma graça divina ou meramente fruto dos nossos humores? O sofrimento e a morte são castigos de Deus ou consequência da nossa contingência e condição finita? O que vivemos termina no pó da terra ou tem uma dimensão eterna?
As perguntas que Jesus coloca conduzem-nos ao encontro com a verdade, com a luz que ilumina verdadeiramente a nossa vida, podemos dizer que nos abrem os olhos para um olhar penetrante e os ouvidos para as revelações de Deus, como aconteceu com o profeta Balaão.
Que as perguntas de Jesus não nos intimidem nem nos desesperem, que não as tomemos como uma ofensa, mas verdadeiramente como um caminho, uma táctica amorosa para nos fazer descobrir que Ele caminha connosco, que nunca se impõe, que se oferece e partilha humildemente a nossa busca e as nossas dúvidas sem qualquer julgamento.

 
Ilustração:
Salvador do Mundo, Antonio da Correggio, National Gallery of Art, Washington.

 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Homilia III Domingo do Advento - Ano A

Estamos a celebrar o domingo da alegria e a leitura do profeta Isaías coloca-nos nessa sintonia desde a primeira palavra. Alegrem-se! Contudo, a leitura do Evangelho de São Mateus, ainda que tenha subjacente uma nota de alegria através dos milagres que são referidos, deixa-nos uma questão pertinente e complexa para a qual temos que encontrar resposta.
Todos nos recordamos que quando João pregava no deserto um conjunto de enviados de Jerusalém foi ter com ele para saber se era o Messias. João foi muito claro e taxativo na sua resposta, “não sou”. Hoje, João encontra-se na prisão e é da sua parte que são enviados a Jesus um conjunto de discípulos para fazer a mesma pergunta. És tu aquele que há-de vir?
Podemos compreender a necessidade de uma resposta para João. Afinal ele tinha consciência da sua missão, tinha pregado a conversão em ordem à próxima vinda do Messias. No entanto, aquele que com ele tinha convivido, que lhe tinha sido manifestado como enviado, não se enquadra na sua lógica, poderíamos dizer no seu programa, estava demasiado fora do expectável.
João sente-se assim perdido, desorientado, podemos dizer que vive a sua noite escura de fé, pois não só está na prisão, sem saber qual o futuro que lhe está destinado, mas sente que a sua vida e a sua pregação poderá ter sido em vão, pois aquele que se apresenta como Messias frequenta a casa de gente pouco recomendável, de pecadores e pecadoras, come e bebe com eles, é praticamente um marginal.
João necessita de uma resposta, mas ao contrário da sua, face aos enviados de Jerusalém, a de Jesus é uma outra pergunta, uma interpelação. Jesus não dá uma resposta taxativa, não diz que sim nem que não, mas bem pelo contrário coloca uma outra questão, uma questão para a qual a resposta tem que ser João a encontrá-la.
A resposta de Jesus aos enviados de João é a apresentação de um conjunto de factos, de realidades que mostram uma mudança, mas uma mudança que acontece fora dos esquemas habituais, da norma. Tudo se desenrola tal como profetizado, nomeadamente por Isaías, mas fora do preceituado pelo expectável. E é tão necessário que seja assim que aquele que vê, que toma conhecimento, não se pode escandalizar, mas deve acolher de coração aberto, na sua pobreza e simplicidade.
Jesus não se define a João como o Messias, responde-lhe com sinais que ele tem que discernir da verdade daquele que é o autor das mudanças e dos sinais. Jesus não se impõe, sugere-se, pedagogicamente deixa ao seu ouvinte a liberdade de o compreender, de o acolher, pois só dessa forma ele se pode tornar verdadeiramente acolhido e compreendido, só dessa forma pode ser Messias.
Como diz Santo Agostinho, a palavra gerada no coração, manifestada pela palavra, deve ser ouvida pelo outro e acolhida no coração para que possa fazer-se no outro também palavra. E como nos é dito em outra passagem do Evangelho é necessário tornar-se como criança, ser curioso, ter desejos de conhecer, para estar aberto a uma aventura com Deus que vai sempre para além do que podemos imaginar e conceber.
Mas tal como aconteceu com João Baptista acontece hoje connosco, Deus não se revela como uma fórmula matemática, uma equação cujo resultado final calcular. Deus em Jesus Cristo revela-se uma novidade, uma aventura, e por isso quando muitas vezes queremos uma resposta sua aos nossos problemas encontramos o silêncio, a ausência de resposta.
Afinal, como a João Baptista, Jesus remete-nos para os sinais, para as pequenas mudança que vão acontecendo na nossa vida e revelam a sua presença; o que vemos de diferente, o que ouvimos de novo, os pequenos passos que damos, a preguiça que vencemos, a liberdade que vamos alcançando sobre o nosso egoísmo, o bem que vamos fazendo apesar das nossa fragilidades e incoerências.
Não estaremos nós demasiados fixados nas coisas negativas? Tal como João, não estarão os nossos olhos cegos e cerrados pelo mal que preconceituosamente vamos apontando à nossa volta? Não estaremos fixados nas casas e pessoas de reputação menos boa, no que comem e bebem, na marginalidade em que vivem na nossa concepção?
É perante esta deturpação da realidade, perante este preconceito, que nos pode de facto impedir de ver o bem de Deus a acontecer e a realizar-se, que o profeta Isaías nos convida à coragem, a fortalecer as mãos fatigadas e a robustecer os joelhos vacilantes, a não deitar já a toalha ao chão, a acreditar ainda um pouco mais, a dar uma oportunidade, pois Deus vem ao nosso encontro.
E face a esta vinda e nomeadamente face aos pequenos sinais que a revelam devemos manifestar a nossa alegria, esse gozo interior de saber que algo de bom está a acontecer, que Deus não nos virou as costas, e que a pequena flor que desabrocha na magnólia da rua é uma manifestação do amor e da bondade de Deus.
Deus manifesta-se todos os dias e das mais diversa formas na simplicidade da nossa vida, num sorriso, numa troca de olhares, numa cumplicidade entre amigos, num gesto de ternura, num trabalho feito com amor e satisfação, num momento de paciência, numa palavra de incentivo e cuidado. Porque nos condenamos a ver tudo desde as grades da prisão do nosso preconceito, da nossa ideologia de perfeição, do desejo de ter tudo agora e definitivamente?
É perante esta condenação, que infligimos a nós próprios, que é bom recordar as palavras de São Tiago que hoje escutámos, “necessitamos esperar pacientemente o fruto da terra e fortalecer o nosso coração”. Muitas vezes, e na cultura actual mais do que nunca, queremos as coisas de imediato, não temos tempo para a gestação e a germinação, para o crescimento e o desenvolvimento. Tem que ser aqui e agora e obrigatoriamente já.
A fé que Deus nos concede em seu Filho Jesus Cristo é uma semente, uma pequena semente que nos é confiada no baptismo e que necessitamos cuidar, regar, alimentar, dar tempo para crescer e desenvolver-se, permitir-lhe que se vá manifestando umas vezes mais evidente outras vezes mais ténue. A fé não é uma auto-estrada mas uma sinuosa estrada de montanha que umas vezes sobe e outras desce, e que por vezes tem curvas fechadas que não nos permitem ver o que nos espera pela frente. E às vezes são paisagens deslumbrantes, horizontes que nos fazem regalar os olhos e louvar o Senhor numa simples palavra, “que beleza”.
Nesta caminhada de Advento peçamos ao Senhor que nos ilumine para saber discernir os pequenos sinais que nos manifestam já a sua presença no meio de nós, a sua vinda amorosa ao nosso encontro, a beleza de cada gesto e cada momento.

 
Ilustração:
São João Baptista, Jacek Malczewski, Museu Nacional de Varsóvia, Polónia.
Picos da Europa

 

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

O maior dos filhos de homem! - Mt 11,11


João, o Baptista, está ainda bem escondido no seio de sua mãe Isabel quando Maria a visita. Levando também já Jesus no seu seio, Maria glorifica o Senhor após a saudação de sua prima dizendo que o Senhor derruba os poderosos e eleva os humildes. Maria está já imbuída da lógica do Reino, o Espirito Santo ilumina e fundamenta as suas palavras à luz das velhas promessas feitas ao povo de Israel.
Com Jesus, e assumida já nas palavras do Magnificat de Maria, realiza-se uma revolução, uma inversão radical das hierarquias e por isso quando fala de João o seu primo, Jesus apresenta-o como o maior entre os filhos dos homens, mas ainda assim e apesar disso, o mais pequeno no Reino dos céus é maior que ele. Disparidade de grandezas.
Quando na noite da última ceia Jesus se levanta e coloca aos pés dos discípulos para lhes lavar os pés, como um escravo, um humilde servo, ele mostra a inversão das hierarquias, mostra como no acto humilde do serviço aos outros se realiza a elevação, como os poderosos são derrubados porque estão encerrados no seu poder, na sua auto-suficiência, porque são incapazes dessa humildade que leva ao abaixar-se para elevar o outro.
Com Jesus deitado na manjedoura, cansado junto ao poço de Jacob pedindo água à samaritana, na última ceia lavando os pés aos discípulos, mesmo ao que seria o traidor, aprendemos que a verdadeira grandeza é o serviço aos irmãos, um serviço que os alimenta, que os dessedenta, que os lava e purifica dos seus traumas e os faz participantes de uma vida nova.
Ao colocarmos no presépio a manjedoura, na qual deitaremos a imagem do Menino Jesus na noite de Natal, teremos ainda a coragem de acreditar que não há maior amor que dar a vida pelos amigos?
Ao falar de João Baptista, Jesus diz que são os violentos que se apoderam do Reino, e mais tarde dirá mesmo que não veio trazer a paz à terra mas a guerra, um fogo que deseja que se expanda, que incendeie todos os homens e mulheres.
A coragem do humilde serviço aos irmãos, de dar a vida pelos amigos, é um acto de violência, sobretudo sobre o nosso orgulho e egoísmo. Estaremos nós dispostos a viver essa violência, a conquistar o Reino pelos nossos braços e combates, ou apenas a esperar passivamente que ele nos seja concedido pela misericórdia de Deus?
Se a misericórdia implica colocar-se no lugar do outro, sentir a dor do outro, fazer-se o outro no seu sofrimento, uma atitude passiva de espera não nos deixará viver verdadeiramente essas realidades, não nos permitirá ser misericordiosos. Necessitamos da violência do amor, da violência da inversão das hierarquias e dos valores, de continuar a realizar a revolução de Jesus. O Natal desafia-nos a essa revolução!

 
Ilustração:
Jesus lavando os pés aos discípulos, Palma il Giovane, San Giovanni in Bragora, Veneza.
 

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

Vinde a mim! Mt 11,28

Vinde a mim! É o apelo de Jesus que o Evangelho de Mateus nos transmite de forma lapidar.
Mas este grito, este apelo, atravessa a história da humanidade, a história da aliança de Deus com os homens. Podemos dizer que é o refrão da música divina, como que uma voz de encantamento que procura seduzir-nos no nosso afastamento.
Desde a criação que Deus nos apela, e este apelo ouvir-se-á até ao fim dos tempos. Deus chama-nos para a sua órbita, para a sua vida, quer-nos com Ele. E em Jesus este apelo é mais premente.
Desde o presépio ao calvário, os gestos, as palavras, a vida plena de Jesus são um apelo constante. No alto da cruz o grito “tenho sede” é a manifestação de um desejo eterno e intimo, de um desejo de saciar a sede no encontro com os homens para que estes possam ter a vida divina.
No seu Filho feito homem Deus revela-se como um mendicante, um pedinte que estende a mão na expectativa e na esperança de uma esmola, de uma dádiva, por ínfima que seja. E esta dádiva feita com doçura e humildade faz com que se torne força, uma força capaz de tornar ligeiro o fardo que carregamos todos os dias.
Depois de ouvirmos do Mestre o apelo, e de termos aprendido com Ele que a resposta humilde e confiante nos fortalece para seguirmos em caminho, que os nossos cansaços e jugos não nos impeçam de lhe responder confiadamente.

 
Ilustração:
Aparição de Jesus a Francisco e companheiros, Jose Benlliure y Gil.

 

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Desgarrar-se para se encontrar - Mt 18,12

Estou a lembrar-me de alguns filmes americanos em que assistimos ansiosos a uma perseguição a alta velocidade e ficamos surpreendidos como os vilões conhecem tão bem as saídas das auto-estradas. Em outros filmes, geralmente catastróficos, vemos as longas filas paradas nas imensas auto-estradas americanas sem nenhum movimento de avanço que permita a fuga.
São surpreendentes as auto-estradas, com os seus painéis de sinalização, com os quilómetros que nos faltam, com as saídas que se aproximam, com a indicação do destino final. Por vezes, gostávamos que a nossa vida fosse como as auto-estradas, com sinais bem precisos de quanto nos falta andar e onde devemos sair. Era tudo tão mais fácil, tudo avançaria impecavelmente.
Mas a nossa vida não é uma auto-estrada, é mais como uma estrada regional, que serpenteia no meio da montanha ou da planície, na qual tantas vezes os sinais desaparecem, nas quais sem nos aperceber já nos perdemos.
Recordo com graça uma viagem para Castelo Branco, no início da década de noventa do século passado; íamos para a ordenação do Padre Marcelino, quando nos deparámos no meio de um caminho rural, apesar de o mapa pelo qual nos guiávamos indicar uma estrada naquele lugar. Ao ver-nos desgarrados do caminho certo alguém nos disse que de facto se podia passar por ali, mas apenas de jipe, e nós tínhamos um pequeno Corsa.
Nas auto-estradas não corremos o risco de nos desgarrarmos, mas nas estradas rurais isso pode facilmente acontecer. Contudo, estarmos desgarrados não significa que estamos perdidos, porque aquele que se desgarrou não perdeu tudo, tem no mínimo a oportunidade de voltar atrás, de refazer o caminho, vai necessitar de estar atento, de ver com olhos de ver e pode até encontrar alguém que lhe indica qual o caminho a seguir.
O risco de nos perdermos acontece inacreditavelmente nas auto-estradas, porque aí, se não estivermos atentos aos sinais para sairmos na saída certa, se não estivermos atentos aos quilómetros que nos faltam e aos litros de combustível que nos restam, podemos perecer no meio do nada, sem possibilidade de voltar atrás e sem alguém para nos dizer o que quer que seja de como prosseguir.
Nos extravios da nossa vida, misteriosamente, vem ao nosso encontro Aquele que nos indica o caminho certo, o que fazer e como fazer, como necessitamos fazer uma estrada no deserto ou aplanar os nossos montes de orgulho. Deus vem ao encontro dos extraviados e desgarrados, porque para eles nada está perdido, há um olhar que se pode apurar, há um caminho que se fez e pode ser refeito, há um desejo de encontro com alguém que nos pode salvar.
Alegremo-nos neste Advento de cada vez que nos desgarrarmos dos nossos propósitos aferrados e firmemente ancorados porque é por esse caminho misterioso que a promessa de salvação chega ao coração das nossas existências imprevisíveis, é por eles que a misericórdia do Pai nos espera.
 
Ilustração:
Sinais em cruzamento, Ithaca, Nova York.