domingo, 16 de setembro de 2018

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Marcos apresenta-nos neste domingo a pergunta que Jesus faz aos discípulos e que é de todos nós conhecida, “quem dizeis que eu sou”; uma questão, num primeiro momento, relacionada com terceiros, mas depois relacionada com cada um deles; uma questão que cada um de nós deve procurar responder, tal como Pedro respondeu.
Contudo, e na medida em que todos devemos dizer quem é Jesus, não podemos perder de vista que esta questão é colocada aos discípulos enquanto se encontram em caminho, em direcção às terras de Cesareia de Filipe. Também a nós é colocada esta questão enquanto nos encontramos em caminho, em processo, também a nós nos é colocada nas fronteiras da nossa existência, nos terrenos que escapam ao nosso conforto. E é aí, nesses territórios inóspitos do encontro com o outro ou por evangelizar da nossa existência, que devemos dar a resposta.
Uma resposta que não é nem pode ser sempre a mesma, que não pode ser única para a vida. Infelizmente muitos dos nossos irmãos encontraram uma resposta simples na sua infância, na catequese, na tradição familiar e contentaram-se com ela, ou não se aperceberam que ela devia evoluir, construir-se e reconstruir-se em cada etapa da vida.
Uma criança pode dizer que Jesus é amigo, pode e deve fazer essa experiência, mas um jovem deve já dizer mais alguma coisa de Jesus, deve percebê-lo na sua juventude, no espirito de abertura e autonomia, na liberdade que anseia, no desejo de um mundo melhor. Um homem e uma mulher maduros devem ter outra experiência e dar outra resposta, Jesus já não é só amigo, é também caminho de vida já trilhado, é verdade encontrada na humanidade e na fraternidade, é companheiro de viagem para os bons e maus momentos. Ao declinar da vida, Jesus amigo é aquele que abre a porta para a passagem para a outra vida, é o companheiro do silêncio, é o ressuscitado que nos afiança a ressurreição, é o sentido para que tudo o vivido não tenha sido em vão na medida em que foi vivido com amor.
A nossa resposta à pergunta de Jesus, nas diversas fases da nossa vida, tão pouco pode ser uma resposta teórica, uma resposta conceptual, fruto de tudo o que lemos ou aprendemos nos livros ou do que escutámos dos outros. Será inevitavelmente uma resposta pobre, se é que chegará a ser resposta, porque a nossa resposta verdadeira, convicta, é uma resposta de vida, é uma resposta de obras como nos diz a Carta de São Tiago que escutámos.
Não podemos pretender dar uma resposta a Jesus e de Jesus se não a traduzirmos em obras, em gestos concretos do nosso quotidiano, e é por essa razão que ele diz aos discípulos que se alguém o quer seguir deve tomar a sua cruz. Muitas vezes, e muitos dos nossos irmãos assim o vivem, assumimos este carregar a cruz como uma inevitabilidade que temos que abraçar, como um jugo ao qual não podemos escapar. A cruz torna-se um castigo, um fardo pesado.
No entanto, se algum peso há na cruz é porque a cruz está em confronto com o mundo, com os valores e pretensões do mundo, desse mundo de que Pedro faz eco quando se coloca a dissuadir Jesus para não levar a cabo a sua missão de entregar a vida para nos dar a vida. O peso da cruz resulta desse confronto interno do nosso coração entre os valores do espirito, a vida divina, e os valores do mundo, poderíamos dizer o nosso orgulho e auto-referência. A lógica da cruz, que é lógica de amor, opõe-se à lógica do mundo, que é a lógica da satisfação egoísta.
Mas, se como cristãos, discípulos que procuram ser fiéis no seguimento de Jesus, assumimos a cruz, na sua lógica de amor, e com ela todos os combates do mundo, não o podemos fazer de forma infantil, ingénua, tal seria enganar-nos e conceber uma resposta equivocada e até leviana ao que temos de dizer sobre Jesus e de Jesus. A cruz é exigente, solicita-nos um esforço, uma entrega; como nos diz Jesus, um perder a vida para a ganhar, um sair de nós para ir ao encontro do outro que nos interpela como imagem e semelhança de Deus, como primeiro apelo de Deus ao amor.
Contudo, nesta exigência radical, neste perder a vida, não podemos esquecer que a cruz que carregamos cada dia é uma experiência partilhada a dois, é uma sintonia e uma unidade com Aquele que é o nosso advogado, o nosso defensor, como nos dizia a leitura do profeta Isaías, com Aquele que já nos livrou da morte pela sua vida entregue em total liberdade e abandono confiante à vontade salvífica do Pai.
A cruz, e com ela a resposta que damos quotidianamente dizendo quem é Jesus, deve estar imbuída desta convicção e confiança, desta fé, deve expressar com coragem e ousadia que o Senhor nos acompanha, que é o seu Espirito que nos inspira as respostas como inspirou a afirmação de Pedro “Tu és o Messias”. Ancorados nesta verdade caminhamos na terra dos vivos, entre os homens e mulheres, mas paralelamente na presença do Senhor, em estreita união com Ele e com a sua Palavra de Vida.
Alimentados pela Palavra de Deus, fortalecidos pelo Corpo e Sangue desta Eucaristia, podemos assim, nesta semana que agora iniciamos, levar a nossa cruz com mais alegria e confiança, pois se nela experimentamos a nossa fraqueza e debilidade fazemos também a experiência da graça e da força de Deus.

 
1 – “Eis o Homem! Ecce Homo”, de Andrey Mironov.
2 – “Santo André”, de Andrey Mironov.
 

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Homilia do XXIII Domingo do Tempo Comum - Ano B

A Liturgia da Palavra deste domingo, nas suas três leituras, deixa-nos algumas propostas de atitudes, de respostas, a situações em que nos vemos envolvidos, muitas vezes sem grande consciência da nossa parte.
A leitura do profeta Isaías apela e convida-nos à coragem, a uma atitude que muitas vezes temos perante outros desafios da vida, mas que nos esquecemos de ter perante a fé e o testemunho que dela radica.
Quando Isaías faz este apelo à coragem, o povo de Israel enfrenta o desaire da deportação, da perda da sua terra e das suas referências enquanto povo; é um povo exilado, sem rei, sem lei, sem lugar de culto. Contudo, e apesar dessa desolação, Deus apela à coragem, a não ter medo, porque o Senhor alterará a seu tempo o decurso dos acontecimentos e da história e aqueles que são os mais frágeis experimentarão a alegria de uma vida nova. A esperança proporciona a coragem.
Hoje em dia, quando vemos a Igreja a ser atacada, quando vemos os conluios que se tramam no interior da própria Igreja, quando tomamos consciência da dimensão do pecado da Igreja, a primeira reacção é de estupefacção, seguida imediatamente de um colocar-se à margem, de um afastamento. Afinal quem é que deseja pertencer a uma comunidade, a um grupo que demonstra tantos pecados, tanta infidelidade aos seus compromissos e princípios?
Conhecemos certamente irmãos nossos que já o fizeram de uma forma declarada e irreversível, e outros que o ponderam fazer, pois sentem-se perdidos e desorientados. É perante esta realidade e esta desorientação, poderíamos dizer esta desolação, que Deus nos convida novamente à coragem, a não temer, porque nenhum de nós está na Igreja por Pedro ou Paulo ou Apolo, pelo Papa Francisco ou pelo padre tal, estamos por Jesus Cristo em quem acreditamos, de quem partimos nos nossos valores e para o qual tendemos na nossa caminhada de busca de fidelidade.
Acreditamos que Jesus é o caminho, a verdade e a vida, e por isso permanecemos, com coragem, sem medo, porque também acreditamos que Deus não deixará de fazer ver os que estão cegos, não deixará mudos os que devem falar, porque acreditamos que ouvindo podemos ajudar-nos a libertar-nos uns aos outros do mal que nos oprime, da desolação em que caímos. A coragem de acreditar e permanecer brota da fé na acção de Deus, da fé de que Deus não fecha os seus ouvidos aos gritos dos inocentes, aos gemidos dos oprimidos. Como nos diz Isaías Deus fará brotar da terra árida nascentes de água viva.
É esta fé que nos leva também a estar atentos ao que vemos e ouvimos, ao que dizemos, como nos diz a Carta de São Tiago a não fazer acepção de pessoas, a não colocar etiquetas e rótulos.
A Carta de São Tiago expressa-se de modo claro e inequívoco à acepção de pessoas por causa da sua condição e poder económico; contudo, não podemos esquecer nem deixar de olhar atentamente a acepção de pessoas que fazemos na Igreja, no interior das nossas comunidades, por causa dos seus comportamentos, da sua diferença de pensar e ver as coisas, da sua diferença de opinião e até de busca de fidelidade à Palavra de Deus. Quantos rótulos e etiquetas colocamos nos outros sem conhecer as suas razões, sem conhecer a sua história, apenas porque desta forma rotulada nos é mais fácil relacionar com a diferença do outro, inviabilizando assim a riqueza da descoberta pessoal, da personalização.
Personalização que está retratada de forma magistral no encontro de Jesus com o surdo-mudo que a leitura do Evangelho de São Marcos nos apresenta. Este homem que não pode expressar-se, que não pode entrar em comunicação, é trazido pela massa anónima da multidão para que Jesus faça alguma coisa com ele, para que o cure.
Jesus, que o podia curar diante da multidão, afasta-se com ele, como que retirando-o daquele anonimato e até daquela rotulagem que a multidão produzia, potenciando assim um encontro pessoal, a descoberta de um “eu” que se pode relacionar com o “tu” que é Jesus. A acção de Jesus é assim a de devolver ao outro a sua própria pessoa, a sua identidade que se constrói e desenvolve no relacionamento com os outros.
E este é o grande processo que todos nós somos chamados a desenvolver na nossa vida, na nossa caminhada de crentes e de cristãos, a passar de um anonimato imposto pela multidão, pela massa, a uma pessoa que se reconhece em si mesmo e no que Deus lhe revela de si próprio. Neste processo de personalização vamos perdendo a tentação da rotulagem e da acepção de pessoas uma vez que nos descobrimos também pecadores e fracos, necessitados dessa graça que Deus nos concede para sermos diferentes, melhores.
Processo que, como acontece regularmente na acção de Jesus, assenta na dimensão humana, não prescinde da humanidade de cada um de nós e da humanidade do próprio Jesus, que toca o surdo nos ouvidos com os seus dedos, na língua muda com a sua própria saliva. Descobrimos o nosso eu, a nossa pessoa, nessa humanidade tocada por Deus, na carne que nos constitui e na qual Deus quis vir habitar, quis fazer-se um de nós.  
Processo que também conta com a nossa liberdade e vontade, poderíamos dizer com a nossa coragem em participar neste desenvolvimento, pois após ter tocado o surdo-mudo Jesus diz-lhe Efatá, “abre-te” à novidade que te está a ser apresentada, à novidade da pessoa que és e que Deus te revela no teu relacionamento com Ele, nessa reciprocidade de acolhimento entre o teu eu e o eu de Deus.
E como se não bastasse já toda a transformação, este encontro de eu e tu, Jesus após o milagre operado recomenda o silêncio, poderíamos dizer a não tradução em palavras do acontecido, porque de facto esse encontro e descoberta é indizível, é inexpressável, é uma história pessoal, uma história de amor, e as palavras não têm o poder de dizer essa história e esse amor. Será a vida, a fidelidade, a coragem de acreditar e lutar que dirá do milagre realizado, que expressará esse encontro e essa descoberta personalizante de cada um em Deus.
A Palavra de Deus que escutámos neste domingo é assim bastante desafiante, e na semana que agora iniciamos não podemos deixar de lhe dar corpo e de lhe fazer eco. Necessitamos encher-nos de coragem para acreditar em Deus que não desampara os seus fiéis, para acreditar na Igreja que somos todos nós com mais ou menos pecados, para não fazermos juízos uns dos outros porque frequentemente nos equivocamos, para guardar silêncio porque até das pedras o Senhor pode fazer arautos da sua verdade.
Que o Senhor nos ilumine com a sua sabedoria e nos conceda a graça da fortaleza e da fidelidade em todos os desafios que nos são colocados pelo mundo em que vivemos e nos movemos.

 
Ilustração:
1 – “Isaías profetiza o regresso do exílio”, de Maarten van Heemskerck, Frans Hall Museum, Holanda.
2 – “Jesus cura um surdo-mudo”, de James Tissot, Brooklyn Museum.

domingo, 2 de setembro de 2018

Homilia do XXII Domingo do Tempo Comum Ano B

A leitura do Evangelho de São Marcos que escutámos apresenta-nos um confronto entre Jesus e os fariseus sobre os ritos de purificação, sobre esse gesto básico de higiene como é lavar as mãos antes das refeições e que se tinha transformado num ritual religioso, num exercício de definição do puro e do impuro.
A resposta de Jesus à interpelação e crítica dos fariseus parte de uma citação do profeta Isaías, “este povo honra-me com os lábios mas o seu coração está longe de mim”. A partir dela, e colocando em perspectiva este acontecimento com o encontro de Jesus com o jovem rico, podemos ter uma visão mais ampla da questão à qual Jesus procura dar uma resposta verdadeira, libertadora, poderíamos dizer potenciadora da resposta efectiva e viva que cada um de nós deve dar.
Todos nós sabemos que, quando o jovem rico diz a Jesus que cumpre todos os mandamentos, Jesus lhe responde dizendo que lhe falta ainda uma coisa, que é vender os seus bens, dar o seu valor aos pobres e segui-lo. Podemos olhar esta conversa a partir da resposta exigente de Jesus, da radicalidade da pobreza, certamente o fazemos habitualmente, mas não podemos deixar de olhar para o cumprimento dos mandamentos do jovem rico. Ele faz tudo o que está dito para fazer, cumpre os mandamentos, mas ainda assim falta-lhe qualquer coisa.
Esta falta que é apontada ao jovem rico é a liberdade que Jesus apresenta aos fariseus no cumprimento do preceituado ritualmente; não se pode ficar encerrado, aprisionado, no cumprimento dos mandamentos, nos escrúpulos do rito, porque de contrário tudo o realizado será uma mera imposição externa, um culto de lábios, sem qualquer envolvimento do coração, da pessoa na sua totalidade e integridade, como nos desafiam as palavras de Isaías.
Os mandamentos, os preceitos, são instrumentos para a libertação, para a prossecução do caminho. Tal como escutávamos na primeira leitura do Livro do Deuteronómio, depois da libertação física da terra do Egipto era necessário proceder a uma libertação espiritual, que se apresenta nos mandamentos, pois só dessa forma se poderia verdadeiramente tomar posse da terra prometida. Os mandamentos e os preceitos servem à libertação, a essa centralidade da atenção, para que não nos desviemos do caminho.
Muitos dos nossos irmãos assumem os mandamentos da lei de Deus, os preceitos da Igreja, como uma violação da sua liberdade e autonomia, como uma invasão e escravização, quando afinal não têm outro objectivo para Deus senão o de nos colocar no caminho da vida, o de nos ajudar a não nos desviarmos do fim a que estamos destinados.
Neste sentido, torna-se necessário aferir cada dia, no nosso exame de consciência qual o grau de interioridade ou exterioridade daquilo que vivemos e fazemos, da busca de fidelidade ao que o Senhor Jesus nos pede. Ficamos apenas pelo cumprimento exterior, pelo simples ritual das coisas, ou pelo contrário esse exterior e ritual é verdadeira manifestação, poderíamos dizer eco, do que nos vai no coração? Quando procuramos viver os mandamentos da Lei de Deus, os preceitos da Igreja é porque queremos cumprir ou porque sentimos a necessidade e o desejo de algo mais na nossa vida? Não se trata de ser mais legalista que a lei, mais papista que o Papa, mas de uma coerência fiel, porque o que Deus nos pede é para nossa felicidade e sua glória e portanto devemos procurar fazer o melhor que sabemos e podemos.
Esta procura de fidelidade, de vivência radical, tem no entanto duas tentações, dois desvios, nos quais facilmente podemos cair, e que funcionam mais ou menos como uma jaula.
A primeira tentação prende-se com a exigência pessoal de cumprir escrupulosamente tudo o que nos foi recomendado, prescrito, deixando para isso de lado os outros, aqueles órfãos e viúvas de que nos falava a Carta de São Tiago, e que são na Sagrada Escritura os símbolos máximos do outro enquanto apelos ao nosso amor, à nossa partilha, à nossa generosidade. Afinal de que nos serve procurar a fidelidade a Deus nos gestos e ritos se nos esquecemos dos outros, daqueles que à nossa volta são a maior e mais visível presença de Deus? De que me serve procurar amar a Deus sobre todas as coisas se me recuso a amá-lo presente nos meus irmãos?
A outra tentação que pode derivar da busca de fidelidade aos mandamentos é a tentação do agrilhoamento de Deus, da subjugação de Deus e da sua liberdade aos nossos ritos e cumprimentos. É esse jogo comercial da troca por troca, em que exigimos de Deus uma resposta, uma solução, porque fizemos tudo o que nos foi pedido, porque fizemos tudo para lhe agradar. Assumimos o controlo de Deus. A pureza ritual contra a qual Jesus se rebela é a manifestação da liberdade total e plena de Deus. Deus não se vende nem se manipula.
Atentos à possibilidade de nos desviarmos, às tentações em que podemos tropeçar, procuremos seguir no caminho da nossa fidelidade, conscientes como nos diz Jesus, que o verdadeiro combate entre o puro e o impuro se realiza no nosso coração, ali onde nascem as paixões. Mas se nele a lei do amor estiver viva e eficaz nada nos será impuro, nem nada nos intimidará, porque em tudo encontraremos a bondade e a presença amorosa de Deus.

 
Ilustração:
1- “Jesus e o jovem rico”, de Andrey Mironov.
2 – “Jesus preso à coluna”, de Wenzel Coebergher, Musée des Augustins de Toulouse.

 

domingo, 26 de agosto de 2018

Homilia do XXI Domingo do Tempo Comum Ano B

A leitura do Evangelho deste domingo termina com uma questão pertinente da parte de Jesus, com uma questão que dirige aos seus discípulos e a cada um de nós, porque afinal todos nos encontramos na mesma situação, todos nós somos confrontados na nossa vida com as palavras de Jesus. Também vós quereis ir embora?
Todos sabemos como os começos de um projecto, de uma caminhada, são agradáveis, diríamos fáceis, pois estamos motivados, estamos perante uma novidade, um desafio que nos impele ou atrai. Contudo, com o passar do tempo, parece que as coisas se complicam, se tornam mais difíceis, poderíamos dizer, transpondo para o contexto do Evangelho de hoje, que as palavras se tornam mais duras, mais difíceis de aceitar e acolher.
Também sabemos, que nestas circunstâncias ou podemos abandonar o projecto, desistir, atirar a toalha ao chão, ou volver o olhar para o primeiro momento, ou para o que o precedeu, e perceber afinal o que nos moveu a começar, que desejo ou atractivo nos colocou naquela situação. Na lógica das palavras de Jesus, no Evangelho de hoje, é perceber o espirito e a vida do que fazemos ou do que nos moveu, é passar para além da materialidade das palavras ou dos momentos, das dificuldades e obstáculos. É acreditar e querer continuar, é fazer novamente opção por se colocar em caminho ou em processo.
O escândalo que os discípulos de Jesus estavam a viver, e de que o Evangelho nos faz notícia, é um verdadeiro equívoco, porque à Lei de Moisés todos sabiam que ninguém podia dar a sua carne em alimento ou o seu sangue a beber. O sangue é um elemento sagrado que pertence apenas a Deus, e portanto Jesus jamais poderia estar a falar em termos materiais, concretos daquelas realidades.
Assim, o escândalo dos discípulos é apenas uma manifestação da disparidade de interesses, de espirito, poderíamos dizer de leitura, um confronto entre a radicalidade das palavras de Jesus e um interesse mais mundano por parte dos discípulos. Não nos podemos esquecer que estamos no contexto e seguimento do milagre da multiplicação dos pães. Um dom que lhes foi oferecido e que deveria ter conduzido a uma outra percepção da pessoa de Jesus e da sua missão, do alimento que afinal oferecia a todos os homens com a sua vida e simbolicamente manifestado e vivido naquela abundância de alimento material.
Na nossa caminhada na fé, no nosso seguimento de Jesus, estamos envolvidos no mesmo processo, há um bem, um dom que nos precede, e que em determinado momento acolhemos livremente, se nos tornou atractivo, e pelo qual optámos viver. Contudo, vivemo-lo na contingência da nossa fragilidade, da nossa condição pecadora, transportamo-lo em vasos de barro como diz São Paulo, e por isso é necessário estar vigilantes, desenvolver uma dinâmica de uma permanente opção, de uma renovada actualização diária. Afinal, é dizer em cada dia, em cada momento, perante cada dificuldade, cada obstáculo, “a quem iremos nós Senhor se tu tem palavras de vida eterna”, se tu és a força, a luz e a vida que me ajuda a ultrapassar esta situação, a viver de uma forma mais plena.
Esta dinâmica de opção actual e actualizante desenvolve-se de modo particular, porque muito prático, nas nossas relações humanas, neste sentido de que somos membros do mesmo corpo, muito concretamente, do Corpo glorioso de Cristo. Em cada um de nós habita a graça divina, cada um de nós é manifestação do Deus em que acreditamos, uma vez criados à sua imagem e semelhança.
Por esta razão São Paulo fala, na Carta aos Efésios, da submissão das mulheres aos maridos e do cuidado atento e diligente dos maridos para com as suas mulheres. Não se trata de misoginia da parte de São Paulo, de qualquer preconceito, mas da apresentação de uma atitude complementar à do homem, que nas palavras de São Paulo está muito mais responsabilizado do que uma leitura preconceituosa e misógina nos pode induzir. Para São Paulo cabe ao homem dignificar a mulher, amá-la como ao seu corpo, cuidá-la como Cristo cuidou a Igreja, santificá-la.
Esta responsabilidade é contudo de todos nós, homens ou mulheres, pais ou filhos, namorados ou amigos, colegas ou apenas vizinhos do mesmo banco do transporte público. Todos estamos chamados por Deus a ser instrumentos da santidade dos nossos irmãos, a procurar a dignidade do outro, a sua pureza, a cuidar dele como cuidamos do nosso corpo, a amar sem condições nem recompensas como Cristo amou a Igreja. Podemos dizer que todos estamos implicados na felicidade do outro, na realização plena do outro como homem ou mulher, como verdadeiros filhos de Deus.
E a submissão, seja do homem seja da mulher, não é nada mais que uma atitude de acolhimento, de participação ou cooperação nessa santidade que se busca em comum, que se sabe que é dom que se partilha, porque como também diz São Paulo, usando ainda a imagem do corpo, quando um membro se alegra também nós participamos na sua alegria, quando um membro sofre todos somos atingidos pelo mesmo sofrimento. Há um espirito e uma vida que nos une, que nos vivifica comummente, há um espirito e uma vida que não nos permite virar as costas, desistir do outro, abandonar o outro à margem, porque se o fizermos somos nós próprios que nos abandonamos na privação da doação. A presença de Deus no outro apela-nos a permanecer juntos uns dos outros, a não desistirmos uns dos outros.
Que também nós queiramos servir o Senhor, como o Povo conduzido por Josué e Pedro e os discípulos que permaneceram junto de Jesus, porque não só sabemos que o Senhor fez grandes coisas por nós, mas porque colocou no nosso coração esse desejo e dom que nos afiança em cada momento que em Deus está a nossa plenitude, a nossa vida verdadeira e eterna. Procuremos ser-lhe fiéis!

 
Ilustração:
1 – “Quo vadis”, de Andrey Mironov.
2 – “O Bom Samaritano”, de Johann Carl Loth, Schloss Weibeinstein, Alemanha.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Homilia do X Domingo do Tempo Comum Ano B

As leituras que escutámos neste domingo, nomeadamente a leitura do Livro do Génesis e a leitura do Evangelho de São Marcos, são conhecidas de todos nós, as questões que abordam já de alguma maneira nos interpelaram e nos deixaram a pensar. Conhecemos e reconhecemos o encontro de Deus com o homem e a mulher depois de terem cometido o pecado, e conhecemos e reconhecemos igualmente a história em que Jesus parece dirigir-se de uma forma menos educada a sua mãe.
Contudo, não podemos deixar de explorar outros elementos presentes nestes textos, elementos e realidades que nos dizem respeito e que vamos experimentando mais ou menos frequentemente no nosso dia-a-dia, no nosso convívio humano.
Neste sentido é bom que olhemos para as circunstâncias em que Maria vem com o resto da família ao encontro de Jesus. Aos ouvidos da família tinham chegado um conjunto de notícias pouco abonatórias sobre Jesus, um conjunto de difamações, e por isso a família o procura para o tentar reconduzir à tranquilidade do seu meio original.
Estas difamações afectam a dignidade de Jesus, a verdade da sua missão, mas elas são fruto de uma outra realidade, de um outro pecado, que é a inveja. Um pecado tão grave que é o único que se apresenta expresso nos mandamentos da lei de Moisés, quando se proíbe cobiçar as coisas do outro, os bens e animais do outro, a mulher do outro.
A inveja é o pecado que nasce dos olhos, daquilo que se vê, e a inveja dos fariseus e escribas relativamente a Jesus nasce do que lhes é possibilitado ver, das multidões que acorrem para o ouvir, para serem curadas por ele, que buscam uma mudança de vida junto dele. Cegos pela sua paixão e pelo seu egoísmo, não são capazes de ver o bem que se produz; e a partir desta incapacidade geram a difamação, expõem o outro de um forma completamente estranha ao seu próprio ser e natureza.
Como veremos mais tarde, com o processo de condenação de Jesus, a satisfação da inveja destes escribas e homens da lei será a eliminação total do outro, não por qualquer mal que tenha feito, não porque lucrem alguma coisa com isso, mas apenas porque o outro os coloca em questão nas suas forças brutais e na sua fome de satisfação.
Este processo desenvolve-se no entanto em cada um de nós, desde o momento do nascimento, como nos diz a psicologia, mais ou menos acentuado, mais ou menos virulento de acordo com a satisfação que vamos tendo connosco próprios, poderíamos dizer na medida em que temos uma boa auto-estima, em que apreciamos e valorizamos o que somos e o que temos.
A inveja não nos permite apreciar verdadeiramente o que somos e temos, os dons que Deus nos concede, e por isso é um atentado à graça e amor divinos, uma injustiça e ingratidão face a Deus. Por outro lado, a inveja também não nos permite apreciar verdadeiramente o outro e as suas qualidades, não nos permite perceber como são para nós uma riqueza, um dom, que devemos valorizar e procurar usufruir. O outro enriquece-me e valoriza-me com o que tem e como é na sua individualidade. Seremos nós capazes de acolher e apreciar o outro?
São Tomás de Aquino apresenta como remédio para a inveja a caridade, pois só a caridade nos permite sair de nós próprios e ir ao encontro do outro, de valorizar o que temos, pois sabemos que só temos cinco pães e dois peixes, como aconteceu com os discípulos no milagre da multiplicação dos pães, mas é com esse pouco que Deus conta para nos saciar a todos, para aprendermos a valorizar o que temos e somos. É pouco, mas é importante, é único, é o necessário para fazer alguma coisa.
A caridade permite-nos também evitar o outro pecado que nos é apresentado na primeira leitura do Livro do Génesis, o pecado da desresponsabilização e da culpabilização do outro. Quando Adão atira as culpas do sucedido para Eva, está a fugir à sua responsabilidade, à capacidade que tinha de dizer não, de fazer de forma diferente, mas está a cometer um pecado muito mais grave na medida em que implica também Deus no sucedido. Foi a mulher que tu me destes que fez com que eu comesse.
Assim, quando não assumimos as nossas responsabilidades, e atiramos com as culpas para os outros, estamos a culpabilizar Deus, estamos a responsabilizar Deus pelo mal sucedido, reservando para nós uma superioridade e uma isenção que não nos pertence, uma vez que somos seres finitos, limitados e por esse mesmo facto passiveis de erro, de falha, de uma incapacidade de fazer bem feito.
A experiência da caridade permite-nos assumir as nossas fraquezas e falhas, os nossos erros, porque a caridade não oculta as debilidades, bem pelo contrário acolhe-as, porque é a partir dessas debilidades e limitações, dos erros cometidos, que se pode perceber a força da graça, a luz e a vida de Deus a actuar nas malhas da nossa existência limitada e finita.
Por esta razão, a leitura da Carta de São Paulo aos Coríntios nos apresentava a urgência e a necessidade de não olharmos para as coisas visíveis, mas de colocarmos os nossos olhos nas invisíveis, naquelas realidades que estão para além do nosso horizonte existencial. Porque se ficarmos apenas no que nos é visível soçobraremos nas nossas intenções, nos nossos projectos, na nossa finitude. O desânimo apoderar-se-á de nós, porque apenas fazemos a experiência da ruina e da tenda que se desfaz em pó da terra.
Assim, torna-se urgente olhar os outros com amor, falar dos outros com amor, olharmo-nos e reconhecermo-nos com amor, pois só devidamente amados e amantes seremos capazes de vencer o ciúme e a inveja, a maledicência e a calúnia, seremos capazes de nos responsabilizarmos pelos nossos erros e de não culparmos os outros, de acolhermos o outro na sua fragilidade e falha que é tanto dele como nossa. Só o amor nos permite a renovação diária, que nos aproxima da santidade.

 
Ilustração:
1 – Encontro de Jesus e sua mãe antes da paixão, de El Greco, Art Institut de Chicago.
2 – A Caridade, de Abbott Handerson Thayer, Smithsonian Institut?

domingo, 6 de maio de 2018

Homilia do VI Domingo da Páscoa Ano B

Todos sabemos como a palavra de Jesus e a sua missão representam uma boa nova, uma novidade, uma revolução, e o texto do Evangelho de São João que hoje escutámos é bastante representativo desta novidade e revolução. As palavras de Jesus são uma revolução na forma como concebemos a religião e como podemos conceber as relações entre nós.
Antes de mais, Jesus revela-nos que a religião não é uma escravatura, uma submissão cega a alguns preceitos e formulários éticos e rituais, bem pelo contrário a nossa relação com o divino é e deve ser pautada pela liberdade e pela amizade. De servos passámos a amigos, de subjugados passámos a homens livres.
Por outro lado, e numa tentativa de superar os nossos instintos mais selvagens, de supremacia para a sobrevivência, Jesus diz-nos que nos devemos amar uns aos outros, que não nos devemos reger pela lei da concorrência desenfreada mas pelo espirito da fraternidade que nasce do amor que Deus coloca no nosso coração.
Contudo, e por incrível que pareça, nós somos bastante refractários a esta novidade, a esta liberdade e amizade, preferimos que os outros pensem por nós, nos apresentem propostas e soluções, preferimos ser servos a ser homens livres, ou então colocamo-nos como donos da verdade e queremos que todos sigam as nossas ideias e propostas, passamos a ditadores sem respeito pelo outro e a sua singularidade.
A liberdade e a correspondente responsabilidade intimidam-nos uma vez que as respostas e soluções, os nossos actos passam a ser exclusivamente nossos, da nossa tutela e autonomia. E como muitas vezes cometemos erros, falhamos, é inquestionável na experiência da liberdade, e o nosso orgulho não está disposto a assumi-los, vamos vacilando e acolhendo a sujeição a outros sem maiores dramas ou questões.
Paralelamente, como o mandamento do amor também não é fácil, temos que assumir que é bastante difícil, vamos sobrevivendo através de simulações, de aproximações, que não nos satisfazem totalmente, mas nos libertam do peso de consciência da insatisfação, pois afinal fizemos alguma coisa, ou pelo menos tentámos.
Jesus colocou a fasquia muito alta, mas ao fazê-lo sabia que podíamos atingir o nível que nos estava a pedir, ou melhor, a oferecer, pois fomos criados por Deus para viver em liberdade e fraternidade, para ser colaboradores da obra divina, uma vez criados à sua imagem e semelhança. A liberdade e o amor, podemos dizer, são marcas divinas colocadas no nosso coração e às quais não podemos deixar de dar resposta, às quais somos atraídos para que se possam desenvolver de modo a atingirem a sua plenitude e perfeita integração na nossa felicidade.
Para um eficaz desenvolvimento deste processo temos que partir da expressão de São Pedro na casa de Cornélio, e que escutávamos na primeira leitura dos Acos dos Apóstolos, “também eu sou um simples homem”. É esta consciência de igualdade, nas fraquezas e limitações, nas graças e potencialidades de realização, que nos permite estar uns com os outros como amigos, em verdadeira e profunda fraternidade, em completa liberdade. Sabemos que não somos superiores, nem o outro é superior, e se alguma qualidade ou algum dom temos em particular é para ser colocado ao serviço do outro, para o seu crescimento. Os dons encerrados em nós próprios e para nossa auto-satisfação esgotam-se e morrem.  
Esta experiência da igualdade, que parte da igualdade aos olhos de Deus e do amor de Deus por cada um em particular, leva-nos a amar sem preconceitos ou expectativas, de forma gratuita e pelo gozo do próprio dom do amor. A expressão mais próxima de nós desta realidade amorosa é o amor materno, um amor único que é capaz de permitir perder-se para que o outro seja alguém na sua individualidade.
É inquestionável, pela nossa própria experiência, que esta novidade proposta por Jesus exige esforço, aplicação, um recomeçar constante. No entanto, face aos desaires, nos momentos de dúvida sobre a validade de tal esforço, não podemos deixar de ter presente aquilo que nos dizia São João na leitura da sua Carta, Deus amou-nos antes que nós o amássemos, ele precede-nos no amor, e o amor colocado no nosso coração é um dom maravilhoso da sua pessoa.
Assim, na humildade e na esperança somos convidados a viver o amor, amando-nos uns aos outros e amando a Deus, que é a fonte de todo o amor. Este amor e a busca da sua fidelidade, impede-nos de idolatrar o que quer que seja, de vivermos como escravos de quem quer que seja, deuses, ideologias, modas, pessoas. O amor torna-nos livres e leva à libertação do outro, e por isso onde não há liberdade não há amor.
Jesus revelou-nos que o nosso Deus ama-nos de tal modo que nos concede a liberdade até de o negarmos, de o abandonarmos, mas ele é fiel no seu amor e nunca nos abandona, porque a sua maior glória, poderíamos dizer o seu maior gozo, é o homem livre, vivo, pleno diante de si, espelho do seu amor e da sua liberalidade.
Saibamos com a luz do Espirito Santo sê-lo cada dia e em cada circunstância.

 
Ilustrações:
1 – “A idolatria de Salomão”, de Sebastiano Conca, Museus do Prado Madrid.
2 – “São Pedro e o Centurião Cornélio”, de Bernardo Cavallino, Galleria Nazionale d’ Arte Antica, Roma.

 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Homilia do V Domingo da Páscoa Ano B

O Evangelho de São João que escutámos neste domingo fala-nos da videira e dos ramos, da necessidade que temos de estar intimamente unidos a Jesus para que a nossa vida produza verdadeiramente frutos de vida, para que sejamos verdadeiramente seus discípulos.
É um texto sobejamente conhecido de todos nós, mas por vezes não contemplamos o total alcance do seu significado. Para tal, necessitamos ter presente que Jesus profere estas palavras, fala desta íntima ligação de cada um de nós com Ele, após o grande gesto da lavagem dos pés aos discípulos no contexto da última ceia. Podemos dizer que Jesus dá um tom mais elevado ao gesto que tinha realizado.
Sabemos que o gesto de Jesus lavar os pés aos discípulos é um gesto de serviço, é uma intimação a que os discípulos façam o mesmo entre si e com os outros homens e mulheres. A maior glória do discípulo é este serviço humilde que presta aos seus irmãos, pois também o Senhor fez o mesmo com cada um dos seus discípulos, e o discípulo não é maior que o mestre.
Podemos e devemos assim lavar os pés uns aos outros, servir os irmãos, procurar fazer o bem, e felizmente encontram-se muitos homens e mulheres que o realizam, que vivem este espirito de serviço, ainda que não se digam crentes ou católicos praticantes.
As palavras de Jesus, ao falar-nos da necessidade de estarmos unidos a Ele, de sermos os ramos da videira, vão ao encontro deste serviço e ministério a que somos chamados, pois vem dizer-nos que o bem que procuramos fazer, o nosso serviço aos homens nossos irmãos, ganha outra dimensão quando nos encontramos ligados a Deus, são iluminados e transfigurados pela fé adquirindo uma dimensão divina.
A rotina do quotidiano coloca-nos, no entanto, alguns problemas, faz-nos pensar se o que estamos a fazer verdadeiramente tem sentido, tem valor, algum poder transformante da realidade ou das pessoas. A rotina, a monotonia, fazem-nos rapidamente desistir desta ligação, e poderíamos dizer, desta excelência quotidiana que o Senhor nos pede. Afinal é tão mais fácil continuar a viver como vivemos, sem fazermos mal a ninguém, procurando fazer o bem todos os dias, pela menos uma boa acção como os escuteiros.
Contudo, é aqui que as palavras de Jesus nos desafiam, e sobretudo num elemento que fomos perdendo do nosso horizonte cristão, que deixámos de cuidar porque o assumimos como algo externo a nós próprios, como uma imposição, e que é o dever. Hoje fala-se muito de direitos, de igualdade, de equilíbrios e simetrias, mas perdeu-se a dimensão do dever e por isso Gilles Lipovetsky pôde escrever um livro a que deu o título de “Crepúsculo do Dever”.
Quando Jesus nos fala da videira e dos ramos, da necessidade de ligação, dos ramos que necessitam ser cortados para que produzam mais frutos, está a falar-nos também do dever, dessa necessidade intrínseca de fazer as coisas, de procurar o bem, não por uma razão ou imposição exterior, mas pela alegria e pela satisfação que elas produzem em nós, por essa consciência de participação numa história e numa acção divina, que exigem esforço, aplicação, mas que nos alcançam a realização plena como homens e filhos de Deus. A seiva divina alimenta-nos para essa realização e por isso essa necessidade de ligação interna e de depuração do que está a mais na nossa vida.
Assim, quando eu cuido da minha família, dos seus membros, quando procuro o seu bem-estar e a sua felicidade, não o faço por um dever que me foi imposto pela sociedade, ou pela cultura em que estou inserido, pela tradição familiar. Não é um esforço que me escraviza, mas é um dever para a realização plena da minha pessoa, que se completa nos outros com quem partilho a vida, com os quais construo um projecto de vida, uma realização. A família que eu cuido e alimento, que protejo, é uma parcela da família divina que me foi dada cuidar e por isso toda a minha aplicação, todo o dever em fazer tudo por ela, é também experiência da familiaridade e do amor que une a Santíssima Trindade.
O trabalho que todos os dias realizo não é um mero negócio, não é uma troca da minha força por uma mão cheia de dinheiro, não é um dever de fazer alguma coisa, de me sustentar pelo meu trabalho. O trabalho é também um dever interior a mim próprio, porque desde o primeiro momento da criação Deus chamou o homem e a mulher a serem cooperadores da sua obra da criação quando lhes disse crescei e multiplicai-vos. O meu dever de trabalhar é um dever que deriva desse convite de Deus, é uma cooperação e participação numa obra que me alcança e ultrapassa, mas que conta comigo, no qual sou também fundamental. O trabalho dignifica-me na medida da minha colaboração na obra divina.
Os nossos deveres quotidianos são assim fundamentais para a nossa realização, para a nossa plenitude, poderíamos dizer são um elemento de excelência na nossa vida, e qualquer dificuldade ou embaraço que nos possam causar devem ser iluminados e confortados pela nossa ligação mais íntima com Jesus, com essa permanência que nos é pedida, e podemos dizer é o dever mais fundamental de cada um de nós.
São João, na leitura que escutámos da sua Carta, recordava-nos que o Senhor nos concede tudo o que lhe pedimos se fizermos o que lhe é agradável, se cumprirmos o seu mandamento que é acreditar em Jesus e amar os irmãos. Os nossos deveres serão cada vez mais suaves, mais íntegros a nós próprios, conaturais ao nosso viver, se não perdermos do nosso horizonte e da nossa rotina diária a fé em Jesus e o amor aos irmãos. Uma e outros transfiguram completamente a nossa existência, a nossa limitação e finitude humanas, produzem frutos abundantes que glorificam a Deus e nos tornam verdadeiros discípulos de Jesus.
Que não nos cansemos de procurar, pela excelência de vida na fé e no amor, de produzir bons frutos para a maior glória a Deus.

1 – “Cristo a verdadeira vide”, ícone, Museu Bizantino e Cristão de Atenas.
2 – “Cristo na marcenaria de São José”, de Matteo Pagano, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.