domingo, 14 de janeiro de 2018

Homilia do II Domingo do Tempo Comum Ano B

Após as festas do Natal estamos a iniciar um novo tempo litúrgico, um tempo que nos vai permitir conhecer e acompanhar a vida pública de Jesus, e iniciamos esse novo tempo com o relato do encontro de Jesus com André e João junto do rio Jordão.
É um momento importante, bastante importante, e por essa razão João vai recordá-lo nesta dimensão tão especial e pormenorizada no seu Evangelho, esquecendo e deixando completamente perdidas na memória as razões porque estava ali, as razões porque João Baptista lhes indica, a ele e a André, que aquele Jesus é o Cordeiro de Deus.
Contudo, e ainda que o Evangelho não nos faça presente as razões porque aqueles dois se encontravam ali, podemos intui-las, pois aqueles que se tinham abeirado de João Baptista eram homens e mulheres insatisfeitos, homens e mulheres que buscavam um sentido para as suas vidas, um outro sentido, uma possibilidade de um encontro renovado com Deus.
Ao desejo de André e João, à sua busca, encaminha-se o desejo e a busca de Deus, num processo que se faz a meias. O homem caminha-se ao encontro de Deus que naturalmente vem ao encontro do homem. Nesta circunstância é Jesus que passa, que se aproxima, para que o encontro se dê. E como poderiam estar perdidos, sem saber muito bem onde se encontravam nesta busca, João Baptista aponta-lhes a resposta, a oportunidade. Está ali, é aquele.
Quantas vezes não nos deparámos, também nós, com esta explicitação, com este dedo apontado de João Baptista, agora na palavra, no gesto, no testemunho de alguém com quem nos cruzámos? Afinal Deus continua a vir ao nosso encontro, continua a querer responder aos nossos desejos e à nossa busca, continua a perguntar a cada um de nós, que procurais? Que procuramos?
E sem que tenhamos consciência disso, a nossa questão continua a ser a mesma, “onde vives”, onde podemos estar contigo, onde nos podemos encontrar contigo, onde podemos ser contigo? É uma questão primordial na nossa vida e para a qual Deus continua a responder-nos como Jesus respondeu a João e a André, “vinde ver”.
Sabemos que não viram muito, não podiam ter visto muito, pois naquele local deserto pouco mais haveria que umas pequenas tendas para aqueles que pernoitavam, antes ou depois do baptismo de João. Estando ali de passagem, Jesus não podia deixar de estar numa delas.
Se olharmos para o futuro, passados três anos sobre este primeiro encontro, para a manhã da ressurreição, este mesmo João vai ver apenas o lençol e as ligaduras no sepulcro vazio de Jesus; contudo, é-nos dito que depois de ter visto, e só ter visto isto, acreditou.
O convite de Jesus a vir e ver é assim algo que vai para além dos sentidos físicos, é um ver de coração, é um vir para ser com, é a oferta de poder repousar a cabeça sobre o seu peito, tal como João o fez na noite da última ceia, na noite do maior amor e da maior traição.
Ir e ver é acolher uma transformação, é fazer a experiência de Deus em nós, de sermos outros que não nós próprios, outros que são filhos de Deus, que são habitação sua, que são templo do Espirito Santo, e, tal como nos diz São Paulo na segunda leitura que escutámos, devem viver com dignidade a sua dimensão corpórea.
Esta transformação da nossa condição, da nossa identidade, poderíamos até dizer da nossa natureza, está explicita no encontro de Jesus com Simão que passa a ser Pedro, como nos relata o Evangelho. E se olharmos para a relação que existe entre Pedro e pedra percebemos que o novo nome dado ao irmão de André está fundamentado na rocha onde todos devemos construir a nossa casa, sobre a rocha que nenhum temporal pode derrubar.
A tradição bíblica judaica reconhece o templo como a rocha, mas é também no Senhor Deus como um rochedo que nos podemos refugiar, como canta o salmista. Jesus assume esta ideia, que poderíamos dizer metafórica, e assim aparece-nos como o novo rochedo de onde dimana a água viva, o rochedo novo da construção do templo que é Ele próprio. E todos aqueles que se encontram verdadeiramente com ele, que buscam a sua semelhança, são como uma rocha, uma casa bem alicerçada, um outro Pedro.
Todo este processo, esta possibilidade de encontro, comporta no entanto algo que hoje em dia nos exige algum esforço, como é a escuta. Necessitamos escutar, necessitamos ouvir, necessitamos estar atentos, e para tal necessitamos fazer silêncio, exterior e interior.
Se André e João não estivessem atentos, à escuta do que João Baptista dizia, não teriam visto Jesus, não se teriam apercebido da sua presença no meio da multidão. Se Samuel, que encontrámos na primeira leitura, não estivesse no silêncio da noite, não teria escutado a voz de Deus. Necessitamos escutar, porque como nos diz São Paulo a fé chega-nos pelo ouvido, pelo que escutamos.
O Papa Francisco ainda esta semana, numa das suas homilias, chamava a atenção para a necessidade de fazermos momentos de silêncio nas nossas celebrações litúrgicas. Na tradição dominicana diz-se que o silêncio é o pai dos pregadores. Necessitamos pois de silêncio.
Que nesta semana que agora iniciamos sejamos capazes de guardar silêncio, de nos dispormos a escutar o que o Senhor nos diz, a encontrar-nos com Ele para transformados e conscientes na sua habitação em cada um de nós nos encontrarmos dignamente com os nossos irmãos na busca comum do sentido da vida.

 
Ilustração:
1 – Ecce Agnus Dei, de Giovanni di Paolo, Art Institute of Chicago.
2 – Correndo para o sepulcro, de Eugène Burnand, Musée d’Orsay, Paris.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Homilia do II Domingo do Advento Ano B

As leituras que escutámos neste segundo domingo do Advento estão marcadas pela necessidade de nos empenharmos na preparação da vinda do Senhor Jesus, de endireitarmos os nossos caminhos tortuosos para que o Senhor possa chegar até nós.
Após o convite à vigilância, do domingo passado, apresenta-se-nos hoje o convite ao empenho e ao esforço para que os caminhos da vinda do Senhor estejam desimpedidos dos obstáculos que lhe dificultam ou barram a passagem.
Este empenho e esforço estão personificados na figura de João Baptista que o Evangelho de São Marcos nos apresenta logo no início do Evangelho sem qualquer referência, sem qualquer história, sem qualquer enquadramento. Se não conhecêssemos algo mais de João pelos outros Evangelhos seria totalmente um estranho.
Contudo, o seu aparecimento no início do Evangelho de São Marcos é bastante significativo, pois estabelece a ponte entre a novidade e a tradição, entre a profecia de Isaías que escutávamos na primeira leitura e o seu cumprimento, entre um projecto e a sua concretização plena. João é um apelo e uma convocação que nos vêm do futuro para uma vida nova, para a participação livre e activa na plenitude da realização do prometido por Deus.
Assim, o facto de João se encontrar no deserto e ali desenvolver a sua pregação, como nos apresentava o Evangelho, não é de estranhar. O deserto é o lugar de passagem, o lugar do êxodo, e com João inicia-se uma nova passagem, entramos numa nova caminhada histórica, num novo tempo, o tempo da realização da promessa.
A nossa vida, na expectativa do encontro face a face com Deus, o advento que é toda a nossa vida, e de que o Advento de preparação para o Natal é uma imagem sintética, é também um êxodo, uma nova e constante caminhada diária, que nos deve levar sempre mais além. No deserto ninguém permanece muito tempo, é passagem para outro lugar e assim deveria acontecer connosco, de modo a chegarmos ao Natal e ao fim da vida completamente outros.
A pessoa de João Baptista e a pregação que desenvolve no deserto são um convite ao êxodo das nossas satisfações e vaidades, dos nossos orgulhos e egocentrismos, são um convite a sairmos de nós próprios para ir ao encontro do Outro que é Deus e dos outros que são suas imagens e semelhança.
Para tal, contudo, necessitamos despojar-nos, abandonar as nossas roupagens habituais, as nossas satisfações tantas vezes gulosas e, como João, revestir-nos de uma outra roupa, alimentar-nos de outros alimentos. Só na austeridade do despojamento, da libertação do que nos encerra e alimenta egoisticamente, podemos estar disponíveis para o encontro e o acolhimento Daquele que vem.
Como nos recordava o profeta Isaías na primeira leitura, o Senhor vem, vem ao nosso encontro, mas tal vinda e encontro necessitam do nosso consentimento, do nosso assentimento, da disponibilização de um espaço e de um tempo, de um modo de ser.
Aquela conversão e mudança de vida de que tantas vezes falamos, de que tantas vezes fazemos eco à luz da Palavra de Deus, não pode ser uma realidade abstracta, algo do género do amor platónico, um processo que uma vez mais não deixamos de centrar em nós próprios. A nossa conversão, o nosso êxodo, a nossa caminhada ao encontro do Senhor, deve ser uma disponibilização para o outro, para um caminhar com o outro, para o encontro com o outro que nos revela Deus na sua pessoa única e irrepetível.
É esta presença de Deus entre nós que igualmente João Baptista nos recorda. Deus está já presente entre nós, de uma forma oculta, e muitas vezes de um modo que nos destabiliza, que nos questiona e interpela numa nova compreensão, numa outra abertura e disponibilidade. Deus vem até nós, até cada um de nós, mas para o perceber necessitamos estar atentos, vigilantes, preparados, livres e ágeis para reconhecer essa vinda e presença.
Por esta razão não podemos viver na ansiedade e no medo de que a leitura da Segunda Carta de São Pedro nos fazia eco. Conscientes e crentes da vinda do Senhor, que é paciente para connosco, vivemos na paz, procuramos viver na santidade e na piedade, e dessa forma realizamos a essência do baptismo no Espirito Santo que recebemos. Mortos para o pecado vivemos para Deus, procuramos cada dia ser fiéis ao dom recebido, renovando-nos e alimentando-nos na magnanimidade do amor de Deus para connosco e de nós para com todos.
Que nesta segunda semana de Advento do Natal do Senhor Jesus nos saibamos despojar do supérfluo, do que nos prende e impede de caminhar, e mais livres e de coração pacificado possamos ir ao encontro do outro para nele encontrarmos a presença de Deus que é o totalmente Outro.

 
Ilustração:
1 – “Pregação de São João Baptista”, de Jan Reisner, igreja de São Francisco de Sales, Cracóvia.
2 – “Paisagem com a Pregação de São João Baptista”, de Abraham Bloemaert, Rijksmuseum, Amesterdão.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Homilia do I Domingo do Advento Ano B

Estamos a iniciar um novo ano litúrgico e um novo Advento que nos deverá preparar para a celebração do Natal do Senhor. O Evangelho de São Marcos que escutámos e nos vai acompanhar neste novo ano litúrgico convidava-nos a vigiar, a ser como porteiros que vigiam na expectativa da vinda do dono da casa.
Esta vigilância não é contudo fácil, nem certamente tão simples como muitas vezes a assumimos, e por essa razão o Santo Cardeal Henry Newman escreveu num sermão: “não devemos apenas acreditar, mas vigiar; não devemos apenas amar, mas vigiar; não devemos apenas obedecer, mas vigiar”!
Vigiar é assim um desafio, uma proposta divina, que não pode deixar de estar presente de uma forma acutilante, porque muitas vezes no nosso amor, na nossa caridade, na nossa fé, na nossa vida quotidiana nos esquecemos daquele que é o Senhor da casa, daquele que é o Principio, o Caminho e o Fim, tal como encontramos explicitado no livro do Apocalipse, o alfa e o ómega, o princípio e o fim.
Podemos de facto procurar fazer as coisas bem-feitas, viver com os valores cristãos, praticar a justiça e a verdade, amar o próximo, mas corremos o risco de fazer tudo isso de uma forma imperfeita, incompleta, apenas pro nós próprios e sem o pleno sentido da divinização que Deus nos oferece com a necessidade de vigiar. Afinal, o que Deus nos pede é que todas as nossas obras Nele tenham começo, Nele se desenvolvam, e Nele alcancem a plenitude.
Este sentido da participação, da união divinizante, é manifestado na própria celebração da Eucaristia quando na aclamação final da consagração o sacerdote diz que tudo o que se realizou é por Cristo, com Cristo e em Cristo para louvor e honra de Deus Pai. E assim deve acontecer com tudo o que fazemos, desde o nosso trabalho, a nossa amizade, a nossa missão, até à própria vida afectiva do casal ou de cada um de nós celibatários.
Esta vigilância atenta e divinizante faz-nos perceber também como Deus não cessa de vir ao nosso encontro, de sair ao nosso encontro em todas as situações, mesmos as da fragilidade e do pecado, como escutávamos na leitura do Profeta Isaías. Deus vem e é necessário estar atento para intuir essa vinda, de que o Natal é afinal a manifestação mais esplendorosa, mas que não é a única.
Estas visitas de Deus ao encontro da nossa humanidade  têm contudo a fragilidade do maná, daquele alimento que o povo de Israel colhia no deserto mas que não podia armazenar para o dia seguinte, que não podia ser acumulado mais que o necessário para alimento de cada família. Cada experiência da vinda do Senhor ao nosso encontro é também única, pessoal, e por isso mesmo frágil, sem possibilidade de acumulação, mas que nos prepara e nos deixa desejosos da próxima. Tal como dizia Santa Catarina de Sena, impele-nos a mergulhar mais e mais no seu mistério.
Fragilidade que aumenta na medida em que somos levados como a folha seca no remoinho do vento, em que nos deixamos dispersar pelas realidades do mundo, pelas tentações que nos distraem e ofuscam da verdadeira e plena realização, na medida que em que não assumimos o princípio de onde vimos, o caminho que se nos oferece e o fim a que estamos destinados. Bailamos ao sabor do momento, dos interesses mais imediatos, das imagens e dos conceitos que os outros podem fazer de nós, desorientados no caminho.
E contudo, tal como nos diz São Paulo na Carta aos Coríntios que escutámos, fomos enriquecidos em tudo, já não nos falta nenhum dom da graça, podemos dizer que estamos preparados e equipados verdadeira e dignamente para vigiar, para guardar a porta na expectativa do Senhor que vem.
Nos ambientes monásticos e conventuais este tempo de Advento é vivido com alguma austeridade; coloca-se uma capa negra para recordar a finitude da vida, cuida-se com maior intensidade o silêncio, a oração é mais prolongada, e até as refeições são mais ligeiras, quase um jejum, e tudo para afinar a atenção, a escuta, a vigilância. Necessitamos despojar-nos, libertar-nos, para estar mais ágeis para vigiar e para guardar e aguardar a vinda do Senhor.
Ao iniciarmos este Advento quais vão ser os meus propósitos? Com os dons da graça que o Senhor nos concedeu como me vou preparar individual e familiarmente para o nascimento do Filho de Deus? De que modo vou orientar os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas acções pelo coração de Jesus Cristo?
Que não sejamos como aquele administrador da parábola que começou a comer e a beber, a bater nos servos que lhe estavam confiados, porque já não acreditava na vinda do seu senhor. Tal como a sentinela que vigia entre as ameias da muralha estejamos nós atentos, despertos, ágeis, irrepreensíveis, de modo a responder prontamente ao grito: eis o Senhor que vem, ide ao seu encontro!

 
Ilustração:
1 – “A rendição de Breda”, de Diego Velázquez, Museu do Prado (Pormenor).
2 – “Legionário adormecido”, de Ubaldo Gandolfi.

domingo, 19 de novembro de 2017

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum do Ano A

Estamos a chegar ao fim de mais um ano litúrgico e o Evangelho de São Mateus que escutámos vem ao nosso encontro nessa necessidade de fazer uma avaliação, de aferir o que fizemos com os dons e talentos que Deus nos concedeu, com as oportunidades e potencialidades da nossa vida, confiadas por Deus para a nossa realização e participação na obra de Deus.
A parábola dos talentos que Jesus apresenta, e escutávamos no Evangelho, coloca no entanto em foco uma outra realidade e questão que não podemos esquecer, que muitas vezes é para nós uma questão pertinente, que nos pode afastar de Deus, que nos pode deixar paralisados na rentabilização dos nossos dons e talentos.
Quantas vezes não nos interrogaram já sobre o porquê das doenças, das guerras, da fome e da violência, como se Deus se tivesse ausentado para parte incerta como o Senhor da parábola, e não quisesse saber de nada. O repouso de Deus após a obra da criação, tal como nos narra o Livro do Génesis, é provocante nesta ausência de Deus, permite estas questões e por isso as encontramos também plasmadas na Sagrada Escritura. Os autores sagrados recolheram-nas e podemos encontrá-las nos Salmos ou nos Livros Sapienciais de uma forma explícita.
Contudo, a ausência de Deus é a manifestação da oportunidade deixada ao homem para participar e colaborar na obra da criação. Na sua liberdade, sem qualquer pressão ou subjugação, o homem pode voluntariamente colaborar com a obra da criação, continuar a obra iniciada por Deus.
Podemos por isso assumir que a ausência de Deus se torna presença quando o homem na sua liberdade, na sua vontade, colabora com a obra da criação, quando procura um mundo melhor, mais justo, mais verdadeiro, quando coloca as suas energias, capacidades e potencialidades ao serviço do bem. O Deus ausente não deixa assim de estar presente nessa energia, nessa disposição e colaboração livre do homem. O criador faz-se presente na obra criativa do homem.
Pelo contrário, a preguiça, a inércia, o desleixo, o enterrar dos talentos, tal como nos apresentava a parábola de Jesus, manifestam a morte, o fim sem sentido e desta forma tornam efectiva a ausência de Deus. Deus ausenta-se com a nossa indisposição para a colaboração na obra da criação, com a nossa recusa, porque Deus a nada nos força. Como dizia Maurice Zundel, como um pobre mendigo Deus espera a nossa ajuda e colaboração.
Ajuda e colaboração que passa por coisas muito pequenas, pelas realidades do nosso quotidiano, pelas pequenas tarefas, pela fidelidade nas realidades da nossa rotina. A parábola do Evangelho que escutámos coloca-nos isso em evidência, quando o servo que recebeu mais talentos é louvado não pela sua capacidade multiplicadora, de rentabilização dos talentos, mas pela fidelidade nas coisas pequenas.
Muitas vezes sofremos essa tentação de pensarmos que necessitamos fazer algo grandioso, espectacular, como encontrar a cura para a doença do cancro, para nos realizarmos, para sentirmos que estamos a contribuir para um mundo melhor, que estamos a colaborar na obra da criação. E contudo, essas oportunidades acontecem com muito poucas pessoas, são excepções, que nos mostram que não podemos prescindir das pequenas obras, da nossa fidelidade nas coisas pequenas de que nos fala a parábola do Evangelho.
Quando ouvimos as histórias pessoais desses génios, dos grandes inventores, facilmente percebemos que também eles chegaram onde chegaram, descobriram o que descobriram ou inventaram, porque estiveram atentos às pequenas coisas, porque foram fiéis na sua observação, na sua atenção e na sua busca de uma resposta.
Afinal é este o nosso caminho, o projecto que Deus nos deixa como forma de colaboração, estar atentos para agir quando for necessário, para fazer o que nos compete, com fidelidade, alegria e confiança, poderíamos dizer com virtuosidade como a mulher da leitura do Livro dos Provérbios. Ela não faz nada de extraordinário para além do que lhe compete como esposa, como mãe, como dona de casa, como alguém que tem bens e os reparte generosamente com aqueles que não têm.
A parábola do Evangelho diz-nos que Deus se ausentou para nos oferecer a oportunidade de colaboração, de realização, mas diz-nos também que o Senhor um dia regressará, virá tomar contas da nossa gestão, do que fizemos com os dons, talentos, oportunidades e potencialidades que possuímos.
Este regresso não pode contudo encerrar-nos numa imagem negativa de Deus, uma imagem perversa, insinuada pelo servo que recebeu apenas um talento e o foi enterrar porque sabia que o senhor colhia onde não semeava. Não nos podemos deixar intimidar pela autoridade do senhor, pelo seu poder, não podemos permitir que o medo vença, porque se é verdade que o Senhor regressará também é verdade que não nos pedirá contas para além das nossas capacidades. Não nos será pedido mais do que somos capazes, do que nos confiou no seu amor e conhecimento das nossas limitações.
Com esta confiança, certos do amor de Deus, podemos e devemos fazer nossas umas palavras que são atribuídas a Santo Inácio de Loyola e o Papa Bento XVI citou na Alocução do Ângelus de 17 de Junho de 2012: “age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”!

 
Ilustração:
1 – A Parábola dos Talentos, de Andrey Mironov, 2013.
2 – Conhecimento e Fé, de Andrey Mironov, 2007.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

De mãos postas

Fomos ensinados assim e nunca parámos para pensar a razão de ser.
Foi com as nossas mães ou avós, com os nossos catequistas, que aprendemos que para rezar devíamos juntar as mãos. Aprendemos, e mecanicamente continuamos assim a rezar, a juntar as mãos para elevar as nossas preces a Deus.
Esta atitude, esta postura, tem no entanto um significado profundo, tem raízes antigas, pois já o Talmude nos refere que os judeus utilizavam esta forma física para se recolher e elevar o seu pensamento a Deus.
No mundo romano esta atitude de juntar as mãos era um sinal de submissão, e por isso quando um soldado capturado e condenado à morte juntava as mãos apresentava a sua rendição, a sua submissão àquele que o tinha derrotado.
Este gesto foi assumido na época medieval como manifestação de lealdade e homenagem, de preito ao senhor ou superior. Manifestava igualmente uma submissão, mas uma submissão assumida numa espécie de cooperação com aquele que podia garantir a segurança e subsistência daquele que se submetia.
Ainda hoje, e na liturgia da ordenação presbiteral, o que vai ser ordenado coloca as suas mãos entre as mãos do bispo ordenante e promete-lhe obediência. Há uma submissão numa missão de cooperação.
Desta forma, quando ainda hoje unimos as nossas mãos para rezar estamos a assumir uma submissão, uma submissão a Deus, mas igualmente a assumir a nossa cooperação com a obra de Deus, a manifestar de forma gestual as palavras do Pai Nosso “venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”.
E porque a nossa oração se faz por Jesus, nosso advogado junto do Pai, ao juntarmos as mãos cruzamos os polegares, para que a cruz da nossa redenção esteja sempre diante dos nossos olhos, presente no sentido da nossa oração.
Que o Senhor nos ajude a cuidar dos gestos da nossa oração, a interiorizá-los de forma consciente, pois também o nosso corpo reza quando o Espirito gera em nós a oração que nos brota nos lábios.

 
Ilustração:
“Mãos em Oração”, desenho aguarelado de Albrecht Durer, in Albertina, Viena.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Homilia do XXV Domingo do Tempo Comum - Ano A

Os meus caminhos não são os vossos caminhos e os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, escutávamos na leitura do Livro do Profeta Isaías; e quando nos confrontamos com a parábola dos trabalhadores da vinha, que escutámos na leitura do Evangelho de São Mateus, percebemos que é bem verdade, os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus, a nossa justiça não é a justiça de Deus.
Diante do pagamento de forma igual para trabalhadores que despenderam horas e esforços distintos, como escutámos na parábola, somos quase instintivamente levados a pensar que Deus é injusto, que maneja uma lógica que não nos parece nada certa, nada justa.
Esta não é contudo a única ocasião; estranhamente, ao percorrer a Sagrada Escritura, encontramos outros momentos e outras histórias que nos colocam diante de uma lógica pouco acertada, de opções divinas aparentemente injustas, como acontece por exemplo com o sacrifício de Abel e Caim.
Porque é que Deus aceita a oferta de Abel em detrimento da de Caim, quando afinal este último não cometeu nada de errado, apresenta apenas os produtos da terra? Pelo contrário é o seu irmão Abel que ao apresentar a oferta comete um crime até aí não registado na obra da criação, como é a morte de um animal.
A história de Jacob e Esaú é outro exemplo, pois a bênção patriarcal é obtida através de uma trapaça, de uma mentira. E a história de David, o grande rei, também não fica atrás nesta lógica que poderíamos dizer disfuncional, pois David quando é escolhido para ser ungido como rei é o mais novo dos irmãos, o que teria menos competências. E mais tarde, apesar de toda a tragédia e violência que envolve a história de David com a mulher de Urias, é o filho deste adultério que vai suceder a David e ser o rei da sabedoria.
Enganar-se-á Deus nas suas opções, andará equivocado? Ou tal como nos dizia o profeta Isaías os seus pensamentos e os seus caminhos são diferentes dos nossos?
As diversas histórias que encontramos de injustiça são contudo histórias de amor, histórias de justiça. Recordando São Paulo, estas histórias revelam-nos que Deus escolhe os fracos, os pecadores, para confundir os fortes, para consciencializar os bons da bondade que não lhes pertence mas é oferecida. Estas histórias recordam-nos que ninguém pode fazer valer os seus títulos para justificar os dons de Deus.
Afinal Deus dá-nos tudo o que nós somos, tudo o que aceitamos ser na nossa liberdade e face à sua oferta. Deus não nos ama porque somos bons, só Deus é bom diz Jesus ao jovem rico que se aproxima dele, mas somos bons porque Deus nos ama, porque o seu amor se projecta em nós e nos faz ser o que Deus é e não aquilo que somos. Deus torna justo em nós o que é injusto, a justiça divina é justificante, ao contrário da nossa que é retributiva.
Assim, se considerarmos que Deus é injusto, nunca o poderemos fazer pela sua falta de justiça, mas bem pelo contrário pelo seu excesso de amor, Deus não tem limites na sua generosidade, na sua bondade, no seu amor, e isso ultrapassa-nos completamente.
Por essa razão, acontece connosco o que encontramos nos trabalhadores que murmuram do salário recebido, vemos com maus olhos a bondade e generosidade do Senhor para com os outros. Esta murmuração e acusação de injustiça revelam a nossa incapacidade de aceitar o amor de Deus, a generosidade divina de querer fazer com todos de modo igual.
Ao aceitar o pagamento generoso do senhor da vinha tornamo-nos participantes do seu amor, somos não apenas beneficiários mas também agentes, podemos dizer que não nos desprestigiamos por ficar em último lugar, ou receber como os outros, pois aquele mesmo que nos retribui, que nos oferece, colocou-se em último lugar, fez-se servo de todos, para que todos pudessem gozar da sua graça, da sua filiação divina.
A generosidade do senhor da vinha para com todos os trabalhadores é uma manifestação da oferta que nos é feita, a oferta do próprio Deus. E por essa razão a saída ao longo do dia do senhor da vinha e o convite a todos os que encontra, quer prontos a trabalhar quer distraídos do trabalho, ou sem nada para fazer, para que se dirijam à sua vinha.
A vinha tal como nos revela a tradição dos profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, o livro do Cântico dos Cânticos, é a própria aliança de Deus com o povo, é a relação de intimidade de uma vida comum com Deus. Aceitar ir trabalhar para a vinha é aceitar integrar essa aliança, essa intimidade e relação, e o pagamento é o próprio senhor da vinha, é entrar na sua intimidade como amigo e não como servo.
Que o nosso coração se abra à generosidade de Deus, que o saibamos escutar no apelo que nos faz em cada hora, em cada dia. E se nos acontecer como ao bom ladrão, que apenas na última hora se encontrou com Jesus, o Senhor da Vinha, que saibamos como ele dizer, “lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”.

 
Ilustração:
1 – “Os trabalhadores da vinha”, de Christian Wilhelm Ernest Dietrich, Palace on the Water, Royal Baths Museum.
2 – “Parábola dos trabalhadores da vinha”, de Salomon Koninck, Hermitage Museum.

domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano A

O Evangelho de São Mateus que escutámos neste domingo apresenta-nos a magnanimidade do perdão, poderíamos dizer a sua dimensão de mistério; que humanamente nos ultrapassa, mas que na fé nos salva e nos edifica como homens e mulheres de verdade.
Nos nossos círculos de relações, nas nossas conversas, é frequente confrontarmo-nos com a acusação de que a Igreja não deixa de falar do pecado, que carregamos os outros com a culpabilização dos erros cometidos, dos pecados. Poderíamos dizer que somos acusados de um certo sadismo, de um gosto de ver os outros culpados.
Contudo, esses mesmos que acusam a Igreja da exploração do pecado são os primeiros a exigir uma nova lei de Talião, a expressar a exigência de olho por olho e dente por dente, a assumir o dogma da nossa sociedade ocidental e capitalista de que tudo tem que se pagar, tudo deve ser pago. Alguém que cometeu uma falta deve pagar por ela.
O Evangelho de Jesus Cristo opõe-se determinantemente a esta concepção, podemos dizer que inverte os polos, e assim o pecado passa para um segundo plano porque o verdadeiramente fundamental é o perdão, é a grandeza do perdão que Deus nos concede e somos convocados a viver uns com os outros.
A parábola do rei que vem ajustar contas, e que Jesus apresenta a Pedro para ilustrar a necessidade de não se ficar num perdão limitado, confinado a uma determinação, mostra-nos a mudança operada, a disparidade de realidades.
Quando o rei se apresenta para cobrar as suas dívidas estamos ao nível da justiça, estamos ainda sob o regime da lei, e portanto se há alguma dívida é justo, é de lei, que seja remida. E é perante esta lei, esta justiça, que é aceitável que o servo tenha que perder tudo para pagar a sua dívida, como a mulher e os filhos.
Esta violência, este exagero da usurpação do que é mais querido e fundamental como a família para ser vendido, tem na parábola o efeito de ajudar a tomar consciência da dimensão da dívida e das suas consequências. O pecado pode de facto levar-nos a perder tudo, até o que nos é mais querido e fundamental como a família.
O pedido aflito do servo, consciente da dimensão e gravidade da sua dívida, leva à mudança de atitude do senhor e rei, que se enche de compaixão e piedade, sentimentos que não são já da ordem da justiça, mas do amor e da dignidade do próprio senhor e rei. É a sua dignidade, a sua magnanimidade que lhe permitem esta mudança de registro. O direito da equivalência é substituído pela gratuidade, pela liberalidade.
A cena seguinte da parábola mostra-nos no entanto que o servo liberto e perdoado não percebeu nada do que lhe tinha sucedido, pois ao espancar e condenar à prisão o seu companheiro e igual ignora a sabedoria e grandeza daquele que lhe tinha dado tanto, ignora e esquece a compaixão de que tinha sido objecto. Ao exigir o pagamento do seu companheiro, o servo perdoado permaneceu no jugo da lei, permaneceu preso à sua dívida, não assumiu a liberdade alcançada.
Por esta razão se torna extremamente importante para nós a repreensão do rei quando o servo devedor volta à sua presença. Antes de mais pela chamada de atenção pela falta de sensibilidade para com o outro, e depois pela falta de semelhança da atitude do seu senhor. Aquele a quem tinha sido perdoada toda a dívida não tinha sido capaz de ser como o senhor, de o imitar nos seus gestos e magnanimidade.
Este “ser como” que o senhor refere é bastante significativo na parábola, pois exige uma semelhança, um acolhimento, um assumir de que o perdão só nos alcança na medida em que o realizamos com os outros, em que somos capazes de perdoar os outros. Como nos questionava a leitura do Livro de Ben-Sirá, como podemos pedir perdão a Deus se somos incapazes de perdoar os nossos semelhantes? Como podemos pedir a Deus a cura e guardamos rancor do nosso semelhante?
O perdão é uma realidade divina, Deus perdoou-nos antes de nós o merecermos, como nos diz São Paulo, e portanto mais não podemos fazer que perdoar os nossos irmãos. Poderíamos dizer que o perdão é como um rio, um fluxo que parte de Deus, mas só nos irriga e ilumina, na medida em que somos passagem, canalização, para outros.
Para nos ajudar e facilitar a viver o perdão, a assumi-lo na nossa vida, para além da consciência de que Deus nos perdoou primeiro, não podemos esquecer as palavras de São Paulo, de que não vivemos nem morremos para nós próprios.
Assim, quando ao procurarmos viver o perdão nos apareça a tentação de que será uma humilhação, uma inferiorização, um desprestígio, devemos antepor e confrontar essa tentação com a certeza de que não morremos, nem nos humilhamos, mas bem pelo contrário assumimos o papel e a função de ser como aquele que nos perdoou primeiro, que é um pai amoroso, um rei magnânimo, um servo que entrega a sua vida para a salvação do outro.

 
Ilustração:
1 – “A parábola do servo injusto”, Jan Sanders van Hemessen, University of Michigan Museum of Art, Ann Arbor.
2 – “A parábola do servo injusto”, Domenico Fetti, Gemaldegalerie Alte Meister, Dresden.