domingo, 22 de janeiro de 2017

Homilia do III Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São Mateus que escutámos apresenta-nos o início do ministério público de Jesus, os primeiros momentos da sua vida pública, aquilo que poderíamos dizer o lançamento da exposição aos olhos de todos.
Por esta razão, São Mateus apresenta nesta passagem os grandes tópicos da vida de Jesus, os elementos que vão marcar o seu ministério e que nos próximos domingos iremos encontrar nas leituras do Evangelho, como são o apelo à conversão, o ensino da nova Lei, a proclamação da presença do Reino dos Céus, e as curas e milagres que manifestam essa presença a todos os homens sem excepção.
Neste início do ministério de Jesus, São Mateus tem também a preocupação de nos situar, de nos contextualizar estes primeiros momentos, não só a nível geográfico mas também a nível histórico, poderíamos dizer circunstancial, e assim nos informa que Jesus passou de Nazaré para Cafarnaum após a prisão de João Baptista.
Perante esta informação poderíamos supor algum medo por parte de Jesus, algum temor relativamente à sua vida, mas tal não está em causa, porque a migração para Cafarnaum representa um dado mais do assumir de Jesus da profecia de Isaías de que nos fala o Evangelista e que mais tarde, no regresso à sua terra natal, Jesus vai assumir verbalmente diante de todos provocando o escândalo e a rejeição por parte daqueles que o conheciam desde a infância.
A opção geográfica de Cafarnaum como local para início das actividades prende-se inevitavelmente com a pujança económica e o desenvolvimento da cidade, mas também com a abertura cultural, uma certa marginalidade religiosa que deixa terreno para uma convocatória, para um anúncio de algo novo a acontecer. Como Jesus dirá num outro momento, não são os bons que necessitam de cura! Aquele caminho do mar onde circulavam povos tão diferentes, aquela Galileia dos gentios, estavam preparados na sua diversidade para escutar.
E é por um apelo que Jesus inicia a sua actividade, um apelo à conversão, à semelhança e na continuidade de João Baptista e da sua pregação junto do rio Jordão. Jesus vai ao encontro das expectativas e desejos daqueles homens que certamente se encontravam desorientados, como ovelhas sem pastor, face ao que acreditar, em que Deus acreditar, pois eram tantos e cada um com a sua singularidade.
É com uma pregação curta e incisiva, directa, com este apelo à mudança de vida, e sem qualquer discurso moralista, que Jesus consegue captar a atenção, consegue distinguir-se e fazer-se ouvir, consegue captar a benevolência de uns quantos que decidem deixar tudo para o seguir quando os chama no meio dos seus afazeres e trabalhos.
As redes que Pedro e André lançavam e que Tiago e João concertavam representam na perfeição a situação em que se encontravam todos aqueles homens e mulheres aos quais Jesus se dirige e apela a uma mudança de vida. Afinal também eles andavam enredados com diversas realidades que não lhes permitia viver em liberdade e dignidade, também eles estavam presos nas malhas da rede de uma vida sem sentido.
E por incrível que pareça continuamos envolvidos nessas mesmas redes, continuamos a ser capturados por aquelas redes que nos quartam na nossa liberdade, na nossa dignidade, que nos impossibilitam de viver em plenitude. São as redes do nosso egoísmo, da nossa injustiça ou violência, da nossa preguiça, da exploração e utilização do próximo como um objecto ou uma mercadoria. Tantas realidades que nos aprisionam.
E Jesus vem lançar-nos o desafio de assumirmos ser pescadores de homens, de entrarmos numa nova rede, Jesus vem oferecer-nos a liberdade optando por constituir uma malha da rede do amor, por ser uma pedra viva da Igreja que é o seu corpo. Opção pessoal e intransmissível que não se fundamenta em doutrinas ou discursos, mas apenas e exclusivamente num encontro de intimidades, se assim podemos falar.
São João, testemunha privilegiada destes primeiros chamamentos junto às margens do lago, conta-nos que a resposta de Jesus face à disponibilidade dos pescadores para o seguir foi “vinde ver”, vinde viver na intimidade a experiência e então sabereis como ser pescadores de homens, como partilhar a minha missão, como a vossa vida pode ser outra.
São Paulo, na Carta aos Coríntios que lemos, não deixa de assinalar a mesma necessidade, pois com a sabedoria das palavras corremos o risco de desvirtuar a cruz de Cristo. É a vida, a intimidade da relação com Deus e o testemunho na relação com os irmãos que podem despertar no outro a curiosidade por Jesus, o desejo de largar as redes que nos prendem, que nos transforma em pescadores de homens.   
Peçamos a Deus Pai a luz do Espirito para sermos verdadeiramente anunciadores do Evangelho, de Jesus crucificado que nos salvou, não com palavras mas com obras de misericórdia.

 
Ilustração:
“os Pescadores Valencianos”, de Joaquin Sorolla y Bastida.

domingo, 8 de janeiro de 2017

Homilia da Solenidade da Epifania do Senhor

Estamos a terminar o tempo do Natal, e a Solenidade da Epifania coloca-nos diante desse grande mistério da revelação de Deus aos homens no mistério da Encarnação. Deus faz-se carne da nossa carne e os magos vindos do oriente para adorar o Menino revelam-nos que esse mistério, que essa encarnação, se dirige a todos os homens e a todos os tempos.
Nesse sentido, é bom que tenhamos presente duas realidades que trespassam os textos da primeira leitura do Profeta Isaías e o Evangelho que escutámos, como são o desafio da superação da desilusão, e a grandeza divina da realidade quotidiana.
O texto do profeta Isaías que escutámos faz eco de um momento delicado da história do povo de Israel, pois assiste-se ao regresso do povo à sua terra depois do exílio na Babilónia. Foi um momento de grande euforia, de grandes esperanças e alegrias. Contudo, o choque com a realidade, com a pobreza, com a destruição do templo e a incapacidade imediata de o reconstruirem, gerou uma grande desilusão e frustração. As expectativas estavam longe de serem alcançadas.
É neste cenário, perante este espirito de um certo derrotismo, que o profeta vem lançar o seu grito de esperança, que desafia o povo a não perder a esperança, bem pelo contrário a reanimá-la e a reforçá-la pois algo maior ainda está para acontecer. Aqueles que acreditarem e perseverarem na esperança do cumprimento das promessas divinas não só reconstruirão o templo como verão afluir a ele todos os povos e os tesouros das nações.
A chegada dos magos a Jerusalém e a inexistência de qualquer recém-nascido no seio da família real deve ter provocado também uma desilusão, pelo menos num primeiro momento. Ter-se-iam equivocado na sua busca? Teria sido em vão todo o esforço da viagem? Inadvertidamente Herodes vai servir de reanimador da esperança, vai servir de ponte à frustração do desencontro, e vai reencaminhar a esperança daqueles homens para o que vinham buscar desde longe. Afinal as Escrituras confirmavam a busca em que se tinham envolvido.
Esta realidade da frustração, da desilusão face às expectativas que construímos, pode também acontecer connosco, com cada um de nós e nas mais diversas situações da vida, no nosso mundo profissional, nas nossas relações afectivas, na nossa própria relação e expectativa face à acção de Deus. Num primeiro momento podemos viver como se tudo se fosse realizar como idealizado, sonhado, e depois confrontarmo-nos com uma realidade bem diferente.
As leituras do profeta Isaías e do Evangelho de São Mateus dizem-nos que não podemos cruzar os braços, que não podemos perder a esperança. São naturais as expectativas, são luminosos e gratificantes os primeiros momentos, mas também existem os desafios que se lhes seguem, as dificuldades que necessitamos enfrentar e superar. E é quando continuamos a viver na esperança, a lutar por acreditar, que fazemos a experiência do extraordinário que estava ao virar da esquina. Para os magos foi a estrela que novamente se iluminou e os conduziu ao lugar onde se encontrava o menino. Continuar a acreditar, manter viva a esperança, faz-nos encontrar a luz que nos guia à realização plena.
Realização plena que não se encontra no alto dos céus, nem na profundidade dos mares, acessível apenas a alguns eleitos. A realização encontra-se presente no nosso dia-a-dia, na nossa casa, nessa casa a que os magos se dirigiram e onde encontraram o Menino Rei que procuravam. É no nosso quotidiano, nas nossas realidades mais simples e básicas, que nos podemos encontrar com Deus, que lhe podemos oferecer o que de melhor temos.
Seria certamente diminuto o sentido do mistério da encarnação, do Filho de Deus se fazer carne da nossa carne, homem como todos os homens excepto no pecado, se não fosse para nos mostrar que é na nossa condição humana que se encontra o caminho para a nossa realização plena, para a nossa felicidade, iniciada aqui e agora através do bem e do amor, da verdade e da justiça com que vivemos e que nos projecta na eternidade.
Deus manifesta-se na nossa humanidade para a divinizar, em todas as dimensões, em todos os tempos e em todos os lugares, e os magos que procuram o Menino representam-nos a todos neste processo de busca e encontro. Deus vem ao nosso encontro se partirmos também ao seu encontro. E quando tal encontro acontece, regressamos inevitavelmente como os magos por outro caminho, o caminho da nossa humanidade divinizada, o caminho da consciência da nossa identidade divina.
Procuremos pois manter acesa a nossa busca, assim como a esperança de a levar a bom termo, pois é essa esperança que nos conduz. Tal como diz o poema de São João da Cruz somente a sede nos ilumina na busca da fonte, “de noche iremos, de noche, que para encontrar la fuente, solo la sede nos alumbra”.

 
Ilustração:
“Adoração dos Magos”, de Andrey Mironov.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Oração de Noite de Natal

A porta fechou-se, lentamente, silenciosa, como a não querer perturbar o frio da noite. A chave rodou na fechadura, fixando a barreira entre o interior e o exterior.
Terminada a festa, despedidos os amigos, arrumada a louça que sobre a mesa ficou, aqui estamos nós, apenas os dois, eu e tu.
Olho-te com ternura, e sei que também me olhas com ternura. Sempre me olhas com ternura, mesmo quando eu nem sequer te olho.
Seguro-te nos braços; e o coração estremece. Um desejo enorme, não sei muito bem de quê, percorre-me o corpo. Será o desejo de te ter sempre assim, comigo, nos meus braços, neste tremor de amor?
Mas todos os dias te tenho à minha mão. Aliás, todos os dias te posso acariciar, elevar, contemplar, amar… todos os dias me ofereces essa possibilidade de fusão do teu corpo com o meu. Nas minhas mãos te ofereces, sempre para mim, em silêncio, sem reticências.
Estreito-te nos meus braços, olho-te ainda com mais ternura. Tu vens sempre ao meu encontro, todos os dias, como a aurora resplandecente, e eu distraído não te dou lugar. Centrado em mim, cansado de tanto, não te amo como te é devido.
Estamos os dois, aqui, no meio da noite, rodeados do silêncio de uma noite mágica. É a tua noite. Amas-me! Eu sei que me amas, pelo simples facto de estares aqui. Que o perfume do teu amor me faça correr atrás de ti!

 
Ilustração:
“São José com o Menino Jesus”, de Guido Reni, Museum of Fine Arts de Boston.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Homilia do IV Domingo do Advento

Estamos a celebrar o quarto domingo do Advento e o Evangelho de São Mateus apresenta-nos um episódio que à primeira vista podemos pensar que não tem nada a haver connosco, que é uma história que diz respeito apenas a Maria e a José, aos pais de Jesus, e à relação que existia entre eles.
Contudo, quando temos presente o objectivo da redacção dos Evangelhos, quando colocamos no horizonte da nossa leitura que tudo o que nos é narrado nos Evangelhos nos diz respeito, e que a história de José e Maria e os seus problemas conjugais não são uma notícia de qualquer coluna social de um jornal, temos que tentar perceber como nos interpela esta história e o que nela subjaz de desafio de Deus à nossa vida.
Neste sentido, partimos da realidade da vida de cada um dos intervenientes, de José e de Maria, que estavam prometidos em casamento, que certamente tinham sonhado uma vida futura, tinham construído um projecto de família. E nesse projecto pessoal e comum Deus vem intervir de uma forma surpreendente, desconcertante, pois começa por anunciar a Maria que vai ser mãe, quando ela não conhece homem, ou seja, não coabita ainda com José, e depois a este convida-o a aceitar a mulher que tudo aponta ter cometido uma traição ao compromisso matrimonial.
Um e outro, Maria e José, encontram-se face a face com uma alteração de planos, ainda que no fundo, e bem no fundo, não haja qualquer alteração de planos, mas apenas um redimensionamento desses mesmos planos, poderíamos dizer uma requalificação. Maria e José têm no seu projecto de vida a constituição de uma família, a maternidade e a paternidade, e a proposta de Deus, o grande desafio, é que o façam já não por si, poderíamos dizer pelo seu poder, mas o façam pelo poder de Deus, inserindo-se no projecto salvífico de Deus.
E é por esta razão que o evangelista São Mateus insere na narração da vida de Jesus esta história, que podemos considerar quase como uma inconfidência, um deslise pouco simpático relativamente a Maria e a José; mas se o faz é para nos colocar diante dos olhos o desafio de Deus na vida destas duas pessoas, a sua intervenção, que não se opõe nem contraria os planos humanos, mas aos quais oferece uma outra dimensão. No final de contas, é o objectivo do grande projecto de encarnação do Filho de Deus, oferecer uma outra dimensão à vida humana.
Assim sendo, temos que nos interrogar sobre a forma como estamos a acolher esta requalificação que Deus nos oferece, temos que procurar perceber como nos nossos planos e projectos damos lugar a Deus, acolhemos a sua oferta de vida, a qualificação que faz da nossa vida. Deus nãos nos pede que abdiquemos dos nossos projectos e sonhos, das pessoas com quem vivemos, das aspirações que naturalmente temos, mas que os saibamos ver e viver com outra dimensão, com uma qualificação divina, percebendo que tudo nos é oferecido e tudo deve ser oferecido a Deus.
Tal como diz São Paulo na Carta aos Romanos, fomos escolhidos e chamados por Deus para viver esta transfiguração, para viver a vida do Espirito que redimensiona a nossa condição e história humanas, tal como aconteceu com Jesus que era da descendência de David, mas que o espirito constituiu Filho de Deus.
Ao prepararmos o nascimento de Jesus procuremos pois abrir o nosso coração à novidade de Deus, à santidade que nos é oferecida e que altera completamente os nossos projectos e sonhos, as nossas aspirações mais profundas e sérias, pois coloca-os no projecto e na vontade de Deus. Ao acolher o Menino saibamos repelir o medo e a dúvida que nos impedem de viver em santidade, em plenitude humana e divinamente.

   
Ilustração:
“O sonho de são José”, de Vicente López y Portaña, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Homilia do III Domingo do Advento

Ao iniciarmos a nossa celebração rapidamente nos damos conta de que há algo diferente, o presidente da celebração aparece hoje vestido com um paramento diferente, com uma casula cor-de-rosa. Esta cor, que recorda a aurora, quando o dia começa a despontar, interpela-nos na dimensão do que estamos a celebrar, vai ao encontro do convite formulado pelo profeta Isaías na leitura que escutámos: alegrai-vos pois a vossa salvação está próxima.
A meio da caminhada do Advento somos convidados a alegrar-nos, a tomar uma atitude diferente daquela que possivelmente temos tomado, somos convidados a retomar a esperança com paciência, a acreditar que é possível, a fortalecer as mãos cansadas e a robustecer os joelhos vacilantes. Afinal já fizemos uma boa parte do caminho e vislumbra-se já o final da jornada, o Natal aparece quase ao virar da esquina.
Este domingo, chamado “gaudete” pelo convite à alegria, é uma oportunidade para pararmos, para aferirmos de como temos vivido o nosso Advento, de como nos temos preparado para viver o Natal do Senhor. E ao fazer este balanço podemos deparar-nos com a nossa inconstância, com os nossos fracassos, com os propósitos que estabelecemos e ainda estão longe de serem concretizados, podemos verificar que mudámos muito pouco, que nos temos descuidado na preparação para a celebração do Natal.
Diante destes resultados e cenário é possível que nos questionemos sobre a validade do que nos propusemos, do esforço que despendemos e será necessário ainda despender e podemos por isso soçobrar desanimadamente. Valerá qualquer esforço quando mudo tão pouco ou quase nada na minha vida?
Esta questão da validade do que fazemos está subjacente ao episódio do Evangelho que escutámos, pois também João tinha acreditado em Jesus, tinha criado uma expectativa e por causa dela não se considerava digno de levar as sandálias daquele que considerava como Messias, como escutámos no Evangelho do domingo passado. Contudo, e já na prisão, aquilo que ouve dizer de Jesus está bem longe dessas expectativas, da esperança que tinha acalentado, e por isso sente necessidade de enviar os seus discípulos para que lhe possam confirmar a esperança e a validade do realizado por aquele Jesus.
Jesus responde com imagens e promessas messiânicas que podemos encontrar no profeta Isaías, mas mais importante que as curas e os milagres que possam testemunhar da opção acertada de João quando acreditou em Jesus, o anúncio da boa nova aos pobres é o que marca a diferença, é o que deve levar João a não ter qualquer dúvida relativamente a Jesus. Afinal também ele desde o primeiro momento se encontrava na sua pregação na lógica desta boa nova.
Para nós, também este anúncio da boa nova deve ser a marca da diferença, a realidade que nos alimenta na caminhada e nos faz ver com outros olhos aqueles que podemos considerar num primeiro momento como fracassos. Diante daquilo que não fomos capazes de fazer, que apenas tentámos, não houve um qualquer anúncio de boa nova? Não houve um toque que fez a diferença, que nos faz sentir mais dolorosamente a incapacidade ou infidelidade?
Em cada Advento, em cada Quaresma, de cada vez que nos lançamos num processo de conversão, a Boa Nova do Reino é anunciada à pobreza do nosso ser, das nossas forças, e até da nossa fé vacilante. Afinal, e bem no fundo dos nossos propósitos, estamos conscientes de que Deus vem, que vem para fazer justiça, que caminha connosco para nos salvar e portanto cada tentativa, cada esforço aplicado, é uma aproximação de Deus, é um apelo lancinante à nossa coragem para não temermos nem desanimarmos da aproximação.
Tal como nos diz São Tiago na leitura que escutámos temos que ser agricultores da fé, temos que semear na esperança, temos que acreditar na colheita, e pacientemente esperar que o fruto germine, cresça, floresça e dê fruto. Há todo um processo, um tempo, e como diz Coelet um tempo próprio para cada coisa. A nós, a cada um de nós, compete-nos fazer o devido a cada tempo, pois é por essa dedicação e fidelidade que seremos julgados nos frutos que produzirmos.
Assim, que esta cor festiva dos paramentos que vestimos, que o convite de Isaías a alegrar-nos, o apelo de Tiago a esperarmos com paciência, e a afirmação de Jesus que o menor no Reino dos Céus é maior que João, nos ajudem a retomar a nossa caminhada com mais afinco e coragem, com um espirito mais dinâmico e confiante. Deus vem ao nosso encontro nos passos que damos em sua direcção.

 
Ilustração:
“São João Baptista apresentando Jesus”, de Bartolomé Esteban Murillo, Art Institut of Chicago.  

domingo, 4 de dezembro de 2016

Homilia do II Domingo do Advento

O Evangelho que escutámos apresenta-nos a figura de João Baptista, uma das grandes figuras do Advento, a par com Maria e o profeta Isaías que nos acompanha na primeira leitura de cada domingo deste tempo de preparação para o Natal.
João é um profeta, o último dos profetas, o precursor do Messias, e desenvolve desde o primeiro momento uma actividade que não deixa de nos parecer estranha, inadequada, quando temos presente que João é filho de um sacerdote do templo, como era o seu pai Zacarias.
Respondendo ao apelo de Deus, à sua vocação se assim se pode falar, João abandona aquela que poderia ser também para ele uma carreira sacerdotal, um futuro assegurado, e refugia-se no deserto para desenvolver de forma inusitada, e por isso profética, a actividade que lhe estava destinada no templo de Jerusalém pela linhagem de sangue.
Com João e a sua pregação opera-se uma transferência do centro de gravidade, pois deixa de ser o sacrifício de animais no templo da cidade santa que abre o acesso ao perdão, para passar a ser a conversão do coração, a mudança de atitudes. A pregação de João mostra que não é o sangue de touros e cabritos que pode mudar o coração do homem, mas é o seu desejo de conversão, de ser uma melhor pessoa. Inacreditavelmente, e sem que nada o fizesse supor, João desenvolve no deserto de forma sublime o verdadeiro ministério sacerdotal.
Esta pregação chega hoje até nós e uma vez mais nos recorda que a nossa conversão, que a nossa mudança de vida, a nossa conformidade com a mensagem de Jesus, não se realiza se não tivermos o coração aberto para tal, se não aplicarmos a nossa vontade e desenvolvermos algum esforço para que assim aconteça. Não é fora de nós que a conversão acontece, mas no nosso interior, no nosso coração.
E esta conversão, esta alteração da nossa vida, não é para vivermos um retorno à idade paradisíaca, a um tempo ou mundo em que as metáforas do profeta Isaías nos podem conduzir de uma forma imediata. No pensamento bíblico não há hipótese para a reencarnação, para o mito do eterno retorno, porque a vida e a história são processos que apenas avançam.
Assim, quando o profeta Isaías nos diz que o lobo viverá com o cordeiro, para apenas mencionar umas das realidades prometidas, não está a falar de um paraíso, mas de um mundo futuro, de uma consequência de um facto extremamente importante e significativo como é o da redenção da humanidade, da obra da criação operada pelo Filho de Deus.
Esta mesma ideia está presente na Carta de São Paulo aos Romanos que escutámos, embora não como um projecto ainda a realizar, mas uma realização já alcançada e portanto exigente para com todos aqueles que dela fazem parte, nela se integraram pela fé em Jesus Cristo.
Quando São Paulo escreve aos romanos, a comunidade cristã atravessa momentos muito duros, poderíamos dizer uma tragédia face à incapacidade de acolher aqueles que tinham sido expulsos da cidade de Roma. No ano 49 o imperador Cláudio tinha expulsado os judeus de Roma devido aos conflitos internos da comunidade por causa de um tal Cristo. Uma década depois quando o regresso é possível a comunidade oriunda dos pagãos não consegue aceitar aqueles que tinham sido expulsos.
Perante esta situação São Paulo apela à conversão, à abertura do coração e ao acolhimento, pois cada um foi acolhido de forma distinta mas pela mesma pessoa, Jesus Cristo. Se os judeus foram acolhidos pela fidelidade de Deus, os pagãos foram acolhidos pela misericórdia. É o mesmo que acolhe, ainda que de forma diferente, e por isso exige aos acolhidos a mesma atitude, a mesma fidelidade misericordiosa sem excepções.
É por esta razão que João Baptista diz aos que hipocritamente se abeiram do seu baptismo de conversão que Deus pode suscitar filhos de Abraão até das pedras, ou seja, Deus pode suscitar verdadeiramente discípulos em qualquer lugar, em qualquer tempo, nos homens e mulheres de qualquer condição, bastando para tal essa abertura de coração, essa disposição a uma alteração de vida.
É afinal o grande desafio deste segundo domingo do Advento, deixarmo-nos alterar por Deus, deixarmo-nos nascer para o discipulado, deixarmos aberto o nosso coração para que Deus o transforme, para que o aplane de modo a que o seu Filho aí possa fazer caminho de vida connosco.

 
Ilustração:
“São João Baptista pregando”, de Luca Giordano, Los Angeles County Museum of Art.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Eu farei de vós pescadores de homens! (Mt 4,19)

É nas margens do mar da Galileia que Jesus chama os primeiros discípulos, homens habituados à faina da pesca, pescadores de toda a vida.
Por isso não é estranho que Jesus os tenha convidado para ser pescadores, para que no seu seguimento continuassem com o exercício da actividade que antes exerciam sem qualquer problema. Afinal tratava-se de deixar uma rede por outra rede.
Contudo, o objecto da pesca deixa de ser o mesmo, os pescadores do mar da Galileia deixam de pescar peixes para se tornarem pescadores de homens. Proposta inusitada e até desconcertante, propensa a questionamentos.
Se o Evangelho de Mateus não nos faz eco desses questionamentos, não é no entanto displicente fazê-los aqui e agora. Como é possível ser pescador de homens? Como se pescam homens? E sobretudo, sabendo nós que a pesca representa a morte dos peixes, retirados do seu habitat natural, como pescar homens não acarreta o mesmo fim, ou seja, a morte dos homens pescados?
A bem da verdade, temos que assumir que ser pescado representa verdadeiramente uma morte, mas no caso dos homens uma morte para a vida, pois deixamos as águas do nosso pecado, da nossa condição mortal, e somos elevados a uma outra vida, a uma outra dignidade e qualidade de vida, à vida divina.
Pelo baptismo, fomos pescados das águas do abismo do pecado e elevados para a barca da vida da graça. Interessa saber de que modo e até que ponto continuamos a debater-nos para nos libertarmos da rede e voltar às águas turvas, ou pelo contrário nos sujeitamos com humildade e confiança a ser elevados pelo grande pescador que é Jesus e a permanecer fielmente na sua barca!

 
Ilustração:
“O Chamamento de Pedro e André”, de Lorenzo Veneziano, Staatliche Museum, Berlim.