segunda-feira, 11 de junho de 2018

Homilia do X Domingo do Tempo Comum Ano B

As leituras que escutámos neste domingo, nomeadamente a leitura do Livro do Génesis e a leitura do Evangelho de São Marcos, são conhecidas de todos nós, as questões que abordam já de alguma maneira nos interpelaram e nos deixaram a pensar. Conhecemos e reconhecemos o encontro de Deus com o homem e a mulher depois de terem cometido o pecado, e conhecemos e reconhecemos igualmente a história em que Jesus parece dirigir-se de uma forma menos educada a sua mãe.
Contudo, não podemos deixar de explorar outros elementos presentes nestes textos, elementos e realidades que nos dizem respeito e que vamos experimentando mais ou menos frequentemente no nosso dia-a-dia, no nosso convívio humano.
Neste sentido é bom que olhemos para as circunstâncias em que Maria vem com o resto da família ao encontro de Jesus. Aos ouvidos da família tinham chegado um conjunto de notícias pouco abonatórias sobre Jesus, um conjunto de difamações, e por isso a família o procura para o tentar reconduzir à tranquilidade do seu meio original.
Estas difamações afectam a dignidade de Jesus, a verdade da sua missão, mas elas são fruto de uma outra realidade, de um outro pecado, que é a inveja. Um pecado tão grave que é o único que se apresenta expresso nos mandamentos da lei de Moisés, quando se proíbe cobiçar as coisas do outro, os bens e animais do outro, a mulher do outro.
A inveja é o pecado que nasce dos olhos, daquilo que se vê, e a inveja dos fariseus e escribas relativamente a Jesus nasce do que lhes é possibilitado ver, das multidões que acorrem para o ouvir, para serem curadas por ele, que buscam uma mudança de vida junto dele. Cegos pela sua paixão e pelo seu egoísmo, não são capazes de ver o bem que se produz; e a partir desta incapacidade geram a difamação, expõem o outro de um forma completamente estranha ao seu próprio ser e natureza.
Como veremos mais tarde, com o processo de condenação de Jesus, a satisfação da inveja destes escribas e homens da lei será a eliminação total do outro, não por qualquer mal que tenha feito, não porque lucrem alguma coisa com isso, mas apenas porque o outro os coloca em questão nas suas forças brutais e na sua fome de satisfação.
Este processo desenvolve-se no entanto em cada um de nós, desde o momento do nascimento, como nos diz a psicologia, mais ou menos acentuado, mais ou menos virulento de acordo com a satisfação que vamos tendo connosco próprios, poderíamos dizer na medida em que temos uma boa auto-estima, em que apreciamos e valorizamos o que somos e o que temos.
A inveja não nos permite apreciar verdadeiramente o que somos e temos, os dons que Deus nos concede, e por isso é um atentado à graça e amor divinos, uma injustiça e ingratidão face a Deus. Por outro lado, a inveja também não nos permite apreciar verdadeiramente o outro e as suas qualidades, não nos permite perceber como são para nós uma riqueza, um dom, que devemos valorizar e procurar usufruir. O outro enriquece-me e valoriza-me com o que tem e como é na sua individualidade. Seremos nós capazes de acolher e apreciar o outro?
São Tomás de Aquino apresenta como remédio para a inveja a caridade, pois só a caridade nos permite sair de nós próprios e ir ao encontro do outro, de valorizar o que temos, pois sabemos que só temos cinco pães e dois peixes, como aconteceu com os discípulos no milagre da multiplicação dos pães, mas é com esse pouco que Deus conta para nos saciar a todos, para aprendermos a valorizar o que temos e somos. É pouco, mas é importante, é único, é o necessário para fazer alguma coisa.
A caridade permite-nos também evitar o outro pecado que nos é apresentado na primeira leitura do Livro do Génesis, o pecado da desresponsabilização e da culpabilização do outro. Quando Adão atira as culpas do sucedido para Eva, está a fugir à sua responsabilidade, à capacidade que tinha de dizer não, de fazer de forma diferente, mas está a cometer um pecado muito mais grave na medida em que implica também Deus no sucedido. Foi a mulher que tu me destes que fez com que eu comesse.
Assim, quando não assumimos as nossas responsabilidades, e atiramos com as culpas para os outros, estamos a culpabilizar Deus, estamos a responsabilizar Deus pelo mal sucedido, reservando para nós uma superioridade e uma isenção que não nos pertence, uma vez que somos seres finitos, limitados e por esse mesmo facto passiveis de erro, de falha, de uma incapacidade de fazer bem feito.
A experiência da caridade permite-nos assumir as nossas fraquezas e falhas, os nossos erros, porque a caridade não oculta as debilidades, bem pelo contrário acolhe-as, porque é a partir dessas debilidades e limitações, dos erros cometidos, que se pode perceber a força da graça, a luz e a vida de Deus a actuar nas malhas da nossa existência limitada e finita.
Por esta razão, a leitura da Carta de São Paulo aos Coríntios nos apresentava a urgência e a necessidade de não olharmos para as coisas visíveis, mas de colocarmos os nossos olhos nas invisíveis, naquelas realidades que estão para além do nosso horizonte existencial. Porque se ficarmos apenas no que nos é visível soçobraremos nas nossas intenções, nos nossos projectos, na nossa finitude. O desânimo apoderar-se-á de nós, porque apenas fazemos a experiência da ruina e da tenda que se desfaz em pó da terra.
Assim, torna-se urgente olhar os outros com amor, falar dos outros com amor, olharmo-nos e reconhecermo-nos com amor, pois só devidamente amados e amantes seremos capazes de vencer o ciúme e a inveja, a maledicência e a calúnia, seremos capazes de nos responsabilizarmos pelos nossos erros e de não culparmos os outros, de acolhermos o outro na sua fragilidade e falha que é tanto dele como nossa. Só o amor nos permite a renovação diária, que nos aproxima da santidade.

 
Ilustração:
1 – Encontro de Jesus e sua mãe antes da paixão, de El Greco, Art Institut de Chicago.
2 – A Caridade, de Abbott Handerson Thayer, Smithsonian Institut?

domingo, 6 de maio de 2018

Homilia do VI Domingo da Páscoa Ano B

Todos sabemos como a palavra de Jesus e a sua missão representam uma boa nova, uma novidade, uma revolução, e o texto do Evangelho de São João que hoje escutámos é bastante representativo desta novidade e revolução. As palavras de Jesus são uma revolução na forma como concebemos a religião e como podemos conceber as relações entre nós.
Antes de mais, Jesus revela-nos que a religião não é uma escravatura, uma submissão cega a alguns preceitos e formulários éticos e rituais, bem pelo contrário a nossa relação com o divino é e deve ser pautada pela liberdade e pela amizade. De servos passámos a amigos, de subjugados passámos a homens livres.
Por outro lado, e numa tentativa de superar os nossos instintos mais selvagens, de supremacia para a sobrevivência, Jesus diz-nos que nos devemos amar uns aos outros, que não nos devemos reger pela lei da concorrência desenfreada mas pelo espirito da fraternidade que nasce do amor que Deus coloca no nosso coração.
Contudo, e por incrível que pareça, nós somos bastante refractários a esta novidade, a esta liberdade e amizade, preferimos que os outros pensem por nós, nos apresentem propostas e soluções, preferimos ser servos a ser homens livres, ou então colocamo-nos como donos da verdade e queremos que todos sigam as nossas ideias e propostas, passamos a ditadores sem respeito pelo outro e a sua singularidade.
A liberdade e a correspondente responsabilidade intimidam-nos uma vez que as respostas e soluções, os nossos actos passam a ser exclusivamente nossos, da nossa tutela e autonomia. E como muitas vezes cometemos erros, falhamos, é inquestionável na experiência da liberdade, e o nosso orgulho não está disposto a assumi-los, vamos vacilando e acolhendo a sujeição a outros sem maiores dramas ou questões.
Paralelamente, como o mandamento do amor também não é fácil, temos que assumir que é bastante difícil, vamos sobrevivendo através de simulações, de aproximações, que não nos satisfazem totalmente, mas nos libertam do peso de consciência da insatisfação, pois afinal fizemos alguma coisa, ou pelo menos tentámos.
Jesus colocou a fasquia muito alta, mas ao fazê-lo sabia que podíamos atingir o nível que nos estava a pedir, ou melhor, a oferecer, pois fomos criados por Deus para viver em liberdade e fraternidade, para ser colaboradores da obra divina, uma vez criados à sua imagem e semelhança. A liberdade e o amor, podemos dizer, são marcas divinas colocadas no nosso coração e às quais não podemos deixar de dar resposta, às quais somos atraídos para que se possam desenvolver de modo a atingirem a sua plenitude e perfeita integração na nossa felicidade.
Para um eficaz desenvolvimento deste processo temos que partir da expressão de São Pedro na casa de Cornélio, e que escutávamos na primeira leitura dos Acos dos Apóstolos, “também eu sou um simples homem”. É esta consciência de igualdade, nas fraquezas e limitações, nas graças e potencialidades de realização, que nos permite estar uns com os outros como amigos, em verdadeira e profunda fraternidade, em completa liberdade. Sabemos que não somos superiores, nem o outro é superior, e se alguma qualidade ou algum dom temos em particular é para ser colocado ao serviço do outro, para o seu crescimento. Os dons encerrados em nós próprios e para nossa auto-satisfação esgotam-se e morrem.  
Esta experiência da igualdade, que parte da igualdade aos olhos de Deus e do amor de Deus por cada um em particular, leva-nos a amar sem preconceitos ou expectativas, de forma gratuita e pelo gozo do próprio dom do amor. A expressão mais próxima de nós desta realidade amorosa é o amor materno, um amor único que é capaz de permitir perder-se para que o outro seja alguém na sua individualidade.
É inquestionável, pela nossa própria experiência, que esta novidade proposta por Jesus exige esforço, aplicação, um recomeçar constante. No entanto, face aos desaires, nos momentos de dúvida sobre a validade de tal esforço, não podemos deixar de ter presente aquilo que nos dizia São João na leitura da sua Carta, Deus amou-nos antes que nós o amássemos, ele precede-nos no amor, e o amor colocado no nosso coração é um dom maravilhoso da sua pessoa.
Assim, na humildade e na esperança somos convidados a viver o amor, amando-nos uns aos outros e amando a Deus, que é a fonte de todo o amor. Este amor e a busca da sua fidelidade, impede-nos de idolatrar o que quer que seja, de vivermos como escravos de quem quer que seja, deuses, ideologias, modas, pessoas. O amor torna-nos livres e leva à libertação do outro, e por isso onde não há liberdade não há amor.
Jesus revelou-nos que o nosso Deus ama-nos de tal modo que nos concede a liberdade até de o negarmos, de o abandonarmos, mas ele é fiel no seu amor e nunca nos abandona, porque a sua maior glória, poderíamos dizer o seu maior gozo, é o homem livre, vivo, pleno diante de si, espelho do seu amor e da sua liberalidade.
Saibamos com a luz do Espirito Santo sê-lo cada dia e em cada circunstância.

 
Ilustrações:
1 – “A idolatria de Salomão”, de Sebastiano Conca, Museus do Prado Madrid.
2 – “São Pedro e o Centurião Cornélio”, de Bernardo Cavallino, Galleria Nazionale d’ Arte Antica, Roma.

 

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Homilia do V Domingo da Páscoa Ano B

O Evangelho de São João que escutámos neste domingo fala-nos da videira e dos ramos, da necessidade que temos de estar intimamente unidos a Jesus para que a nossa vida produza verdadeiramente frutos de vida, para que sejamos verdadeiramente seus discípulos.
É um texto sobejamente conhecido de todos nós, mas por vezes não contemplamos o total alcance do seu significado. Para tal, necessitamos ter presente que Jesus profere estas palavras, fala desta íntima ligação de cada um de nós com Ele, após o grande gesto da lavagem dos pés aos discípulos no contexto da última ceia. Podemos dizer que Jesus dá um tom mais elevado ao gesto que tinha realizado.
Sabemos que o gesto de Jesus lavar os pés aos discípulos é um gesto de serviço, é uma intimação a que os discípulos façam o mesmo entre si e com os outros homens e mulheres. A maior glória do discípulo é este serviço humilde que presta aos seus irmãos, pois também o Senhor fez o mesmo com cada um dos seus discípulos, e o discípulo não é maior que o mestre.
Podemos e devemos assim lavar os pés uns aos outros, servir os irmãos, procurar fazer o bem, e felizmente encontram-se muitos homens e mulheres que o realizam, que vivem este espirito de serviço, ainda que não se digam crentes ou católicos praticantes.
As palavras de Jesus, ao falar-nos da necessidade de estarmos unidos a Ele, de sermos os ramos da videira, vão ao encontro deste serviço e ministério a que somos chamados, pois vem dizer-nos que o bem que procuramos fazer, o nosso serviço aos homens nossos irmãos, ganha outra dimensão quando nos encontramos ligados a Deus, são iluminados e transfigurados pela fé adquirindo uma dimensão divina.
A rotina do quotidiano coloca-nos, no entanto, alguns problemas, faz-nos pensar se o que estamos a fazer verdadeiramente tem sentido, tem valor, algum poder transformante da realidade ou das pessoas. A rotina, a monotonia, fazem-nos rapidamente desistir desta ligação, e poderíamos dizer, desta excelência quotidiana que o Senhor nos pede. Afinal é tão mais fácil continuar a viver como vivemos, sem fazermos mal a ninguém, procurando fazer o bem todos os dias, pela menos uma boa acção como os escuteiros.
Contudo, é aqui que as palavras de Jesus nos desafiam, e sobretudo num elemento que fomos perdendo do nosso horizonte cristão, que deixámos de cuidar porque o assumimos como algo externo a nós próprios, como uma imposição, e que é o dever. Hoje fala-se muito de direitos, de igualdade, de equilíbrios e simetrias, mas perdeu-se a dimensão do dever e por isso Gilles Lipovetsky pôde escrever um livro a que deu o título de “Crepúsculo do Dever”.
Quando Jesus nos fala da videira e dos ramos, da necessidade de ligação, dos ramos que necessitam ser cortados para que produzam mais frutos, está a falar-nos também do dever, dessa necessidade intrínseca de fazer as coisas, de procurar o bem, não por uma razão ou imposição exterior, mas pela alegria e pela satisfação que elas produzem em nós, por essa consciência de participação numa história e numa acção divina, que exigem esforço, aplicação, mas que nos alcançam a realização plena como homens e filhos de Deus. A seiva divina alimenta-nos para essa realização e por isso essa necessidade de ligação interna e de depuração do que está a mais na nossa vida.
Assim, quando eu cuido da minha família, dos seus membros, quando procuro o seu bem-estar e a sua felicidade, não o faço por um dever que me foi imposto pela sociedade, ou pela cultura em que estou inserido, pela tradição familiar. Não é um esforço que me escraviza, mas é um dever para a realização plena da minha pessoa, que se completa nos outros com quem partilho a vida, com os quais construo um projecto de vida, uma realização. A família que eu cuido e alimento, que protejo, é uma parcela da família divina que me foi dada cuidar e por isso toda a minha aplicação, todo o dever em fazer tudo por ela, é também experiência da familiaridade e do amor que une a Santíssima Trindade.
O trabalho que todos os dias realizo não é um mero negócio, não é uma troca da minha força por uma mão cheia de dinheiro, não é um dever de fazer alguma coisa, de me sustentar pelo meu trabalho. O trabalho é também um dever interior a mim próprio, porque desde o primeiro momento da criação Deus chamou o homem e a mulher a serem cooperadores da sua obra da criação quando lhes disse crescei e multiplicai-vos. O meu dever de trabalhar é um dever que deriva desse convite de Deus, é uma cooperação e participação numa obra que me alcança e ultrapassa, mas que conta comigo, no qual sou também fundamental. O trabalho dignifica-me na medida da minha colaboração na obra divina.
Os nossos deveres quotidianos são assim fundamentais para a nossa realização, para a nossa plenitude, poderíamos dizer são um elemento de excelência na nossa vida, e qualquer dificuldade ou embaraço que nos possam causar devem ser iluminados e confortados pela nossa ligação mais íntima com Jesus, com essa permanência que nos é pedida, e podemos dizer é o dever mais fundamental de cada um de nós.
São João, na leitura que escutámos da sua Carta, recordava-nos que o Senhor nos concede tudo o que lhe pedimos se fizermos o que lhe é agradável, se cumprirmos o seu mandamento que é acreditar em Jesus e amar os irmãos. Os nossos deveres serão cada vez mais suaves, mais íntegros a nós próprios, conaturais ao nosso viver, se não perdermos do nosso horizonte e da nossa rotina diária a fé em Jesus e o amor aos irmãos. Uma e outros transfiguram completamente a nossa existência, a nossa limitação e finitude humanas, produzem frutos abundantes que glorificam a Deus e nos tornam verdadeiros discípulos de Jesus.
Que não nos cansemos de procurar, pela excelência de vida na fé e no amor, de produzir bons frutos para a maior glória a Deus.

1 – “Cristo a verdadeira vide”, ícone, Museu Bizantino e Cristão de Atenas.
2 – “Cristo na marcenaria de São José”, de Matteo Pagano, Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

 

domingo, 22 de abril de 2018

Homilia do IV Domingo da Páscoa Ano B

Todos conhecemos o conto de fadas dos irmãos Grimm “A Branca de Neve”, sabemos como a rainha má tem um espelho ao qual pergunta se há alguém mais bela do que ela. Pergunta narcisista, mas que nos revela, tal como acontece frequentemente nos contos populares e para crianças, a grande tentação que todos os homens e mulheres sofrem de ânsia de poder, de um poder absoluto que coloca todos os outros debaixo dos seus pés.
O espelho do conto da Branca de Neve mostra-nos como nesta sede de poder aspiramos a que todos sejam como nós, sejam o reflexo de nós, sendo para tal aniquilados na sua identidade e diferença. É também a política de todos os regimes totalitaristas, de todos os extremismos e radicalismos, pois nada pode haver de diferente, de dissonante daquele que tem o poder.
O espelho e o desejo de reflexo espelhado aniquilam a liberdade do outro, a liberdade de pensar, de ser, de procurar, o seu processo único e irrepetível na história, inviabiliza a convivência e o enriquecimento até daquele mesmo que procura o seu reflexo no outro. O espelho não nos diz quem somos, para isso necessitamos do outro, mas é mais fácil aceitarmos o espelho que o outro, pois o outro ao dizer-nos quem somos transforma-nos e altera-nos. O outro faz de nós outros.
A figura do Bom Pastor que nos é apresentada no Evangelho deste Quarto Domingo da Páscoa vem revolucionar esta concepção, podemos dizer que vem partir todos os espelhos, colocar-nos em situação de já não necessitarmos de espelho, porque alguém nos diz quem somos. O pastor de que Jesus fala, e que se associa à grande tradição bíblica, é um pastor conhecedor do nome de cada uma das suas ovelhas, que as chama pelo seu nome, que as conduz sem terror ou coacção, de uma forma livre.
Podemos dizer que estamos uma vez mais no coração da grande revolução de Jesus, na revolução da concepção religiosa, pois Jesus dá-nos uma imagem de Deus que não deseja que os seus fiéis, os crentes sejam seus escravos, sem vez nem voz, mas pelo contrário seus amigos, seus íntimos, filhos que são chamados pelo nome e que podem livremente responder. A concepção religiosa de Jesus, expressa também nesta imagem do Bom Pastor, deixa ao homem a liberdade de escolher, de escutar o apelo divino e de o seguir.
A uma obediência cega, sem responsabilidade, Jesus contrapõe uma obediência activa, responsável, poderíamos dizer adulta, pois o que obedece, o que procura a fidelidade fá-lo não por medo de represálias, mas por sentido de colaboração e partilha, por amor da obra em que se sente e sabe envolvido e cujo fim depende também de si.
A liberdade para uma resposta, para a colaboração, exige uma identidade, poderíamos dizer uma personalidade forte, autêntica, que se conhece nos seus limite e fraquezas assim como nas suas forças e potencialidades. O Bom Pastor ao chamar cada uma das ovelhas pelo seu nome, coloca-nos diante dos olhos, como em perspectiva, essa identidade e personalidade. Sabemos quem somos, vamos intuindo esse nome novo que está gravado no livro dos eleitos de que fala o Apocalipse, um nome de vencedores, de colaboradores na obra da criação e da redenção, o nome dos filhos de Deus, porque conhecemos e reconhecemos Aquele que nos chama como origem e fim.
A figura do Bom Pastor obriga-nos assim a uma renovada relação com Deus, a um acolhimento que se vai fazendo descoberta, integração, participação, desenvolvimento de identidade porque nos reflectimos em Deus e somos reflexo do seu amor. Mas obriga-nos também a uma renovada atenção às relações que estabelecemos entre nós, relações que devem ser de liberdade, de respeito, de desenvolvimento para a plenitude da condição humana nos seus mais diversos elementos constitutivos.
Não podemos de maneira nenhuma, depois de escutar o apelo do Bom Pastor à liberdade divina, desejar ou procurar que os outros sejam nossos espelhos, sem identidade e personalidade, como marionetas que manobramos ao nosso belo prazer, ou melhor ao prazer do nosso narcisismo. Os outros são por si próprios e por Deus e devemos acolhê-los como nosso complemento, como parcelas para o nosso desenvolvimento total na sua diferença e identidade.
Este trabalho, este esforço, deve ser desenvolvido quotidianamente nas nossas relações familiares, na relação entre esposos, entre pais e filhos, entre colegas de trabalho e escola, entre amigos. Não posso querer que o outro seja como eu, como as minhas expectativas o conceberam, como a minha imaginação o construiu. Devemos acolher o outro tal como ele é pois também nesse acolhimento se manifestará o que Deus é, a verdade de Deus, que habita e brilha em cada homem e mulher na sua singularidade. Cada um de nós é uma imagem de Deus, única e irrepetível, e assim Deus nos pede que o acolhamos, escutando nessa singularidade a sua voz de amor.

 
Ilustração:
1 – “Narciso”, de Caravaggio, Galleria Nazionale d’Arte Antica, Roma.
2  - “O Bom Pasotr”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.    

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Homilia do III Domingo da Páscoa Ano B

Este é o terceiro domingo da Páscoa e continuamos por isso a celebrar o grande mistério da ressurreição de Jesus, um mistério que não podemos considerar como algo do passado, um mistério que não nos diz respeito. Bem pelo contrário, o mistério da ressurreição de Jesus diz respeito a cada um de nós, envolve-nos e desafia-nos na nossa vida, no que vamos realizando e vivendo em cada dia, em cada instante.
Este desafio passa pela forma como vivemos o mistério, o mistério que nos assume integralmente, pois era mais fácil para cada um de nós pensar que Jesus ressuscitado é um espirito, um fantasma, como os próprios discípulos começaram por supor. Um espirito, um fantasma, pode amedrontar-nos, fazer-nos temer, mas não nos implica, nem se compromete connosco, não partilha a nossa realidade. Um fantasma é sempre um estranho, algo exterior a nós próprios, e o ressuscitado é alguém que conhecemos, alguém para nós, um dos nossos.
Por outro lado, podemos pensar a ressurreição como também uma ausência, um silêncio, um grande silêncio. Depois da experiência humana, Deus retira-se para o seu silêncio, para a sua eternidade, e deixa-nos a governar a nossa vida, entregues a nós próprios. E ainda que esta ideia nos possa também intimidar, é por vezes muito agradável, pois Deus é um outro, um totalmente outro, que já deixou de ter alguma coisa a ver connosco. Podemos viver assim na nossa total autonomia e liberdade.
Contudo, as experiências que os discípulos fazem do ressuscitado, e de modo particular a que nos é hoje apresentada pelo Evangelista São Lucas, é bem diferente, coloca Jesus ressuscitado no meio de nós, interagindo com cada um de nós, continuando pessoa com quem podemos conversar, partilhar, que podemos amar, porque nos continua a amar.
Este é afinal o grande desafio da ressurreição, da nossa vida de ressuscitados em Cristo e com Cristo, fazer a descoberta da sua presença na banalidade da nossa vida, nos pequenos momentos e gestos do nosso quotidiano. Essa foi a experiência que os próprios discípulos tiveram que fazer, e por isso Jesus lhes pede que o toquem, que se recordem das suas palavras, que o alimentem com uma posta de peixe.
Jesus ressuscitado está presente na memória que fazemos da sua vida entre nós, nas palavras que escutamos e nos foram transmitidas pelos Apóstolos, no pão e no vinho que se transformam no seu Corpo e Sangue pela acção do Espirito Santo, mas está também presente quando nos levantamos pela manhã e nos é oferecido um novo dia de vida, está presente quando nos sentamos à mesa e partilhamos o pão de um pequeno-almoço, no abraço de despedida do filho que deixamos à porta do colégio, no pedido do colega que espera que o ajudemos numa tarefa do serviço.
Jesus ressuscitado está presente e dialoga connosco na brisa fresca do final da tarde numa caminhada no parque, no cheiro da terra húmida, na água que nos cai sobre o corpo e cola a roupa à pele, recordando-nos o calor de um abraço, a dimensão da nossa pele que nos protege e envolve. Jesus ressuscitado está presente ao final do dia, quando o cansaço nos alcança e o corpo nos diz que necessita de repouso, quando reentramos em casa e com um abraço do filho vem o pedido de ajuda nos exercícios de matemática. Esse esforço suplementar, esse sacrifício é partilhar a vida em ressurreição, morrer para nós para o outro poder ser.
Jesus ressuscitado continua a pedir-nos uma posta de peixe, continua a pedir-nos que o alimentemos, com a nossa vida bem vivida, com a nossa fidelidade, com a nossa disponibilidade, com o nosso testemunho de vida, com o nosso amor. À samaritana Jesus pediu que lhe desse de beber, aos discípulos pediu-lhes uma posta de peixe, a nós pede-nos o testemunho, a disponibilidade para acolher o outro, para reconhecer a sua presença no outro que é carne e osso, que se alimenta e respira como nós, que ama e deseja ser amado como nós.
Muitas vezes somos tentados e pensamos que para testemunhar Jesus temos que ir para longe, fazer algo de extraordinário, ser super-homens ou supermulheres. É uma ilusão, porque mesmo aí, na radicalidade de vida e de opções, são os pequenos desafios e esforços do quotidiano que fazem a diferença. A ressurreição, que é o mesmo que dizer a santidade, faz-se de pequenas obras, de pequenas gotas de amor, que dizem ao mundo em quem acreditamos, em quem colocámos a nossa esperança, desenvolvendo em simultâneo e para a plenitude a perfeição do amor em cada um de nós.  
Que nesta terceira semana do tempo pascal estejamos atentos à presença constante de Deus nos detalhes de cada dia e saibamos ser agradecidos por tão grande dom com que fomos abençoados.

 
Ilustração:
1 – “A paz esteja convosco”, aparição de Jesus aos discípulos, de Andrey Mironov.
2 – “Os discípulos de Emaús”, pintura de Arcabas, igreja de Saint Hugues le Chartreuse, Grenoble.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Altar Dominicano em São Martinho de Aldoar

Em 28 de Março de 1758, o Vigário da freguesia de São Martinho de Aldoar, Bartolomeu da Silva Pereira dava resposta aos interrogatórios das inquirições ordenadas pelo Marquês de Pombal na forma da ordem que tinha recebido do Reverendo Senhor Doutor Provisor e Vigário da Ordem de Malta.
É através das respostas dadas que ficamos a saber que nessa data a igreja tinha três altares.
Um altar-mor dedicado a São Martinho, padroeiro da igreja, e dois altares colaterais.
O altar-mor não tinha mais nenhuma imagem para além da imagem de São Martinho.
No altar lateral, da parte do Evangelho, estava colocada uma imagem do Senhor Jesus Crucificado, e imagens de São Sebastião e Nossa Senhora do Amparo.
No altar lateral, da parte da Epístola, encontrava-se a imagem de Nossa Senhora do Rosário, outra de Santo António e outra de São Gonçalo.
A igreja feita ao moderno, com uma só nave, possuía também uma Irmandade do Santíssimo Sacramento, uma Irmandade do Santíssimo Rosário, e uma outra de Subsino.[1]
Ao visitarmos hoje a igreja de São Martinho de Aldoar, podemos ainda encontrar o altar da parte da Epístola com as imagens de Nossa Senhora do Rosário e São Gonçalo tal como é referido pelo Vigário da freguesia em 1758.
Igreja de São Martinho de Aldoar.

 Altar-mor da igreja de São Martinho com as imagens de São Paio e Santo António

Altares Colaterais no arco que separa a capela-mor da nave da igreja. 
O altar lateral do lado do Evangelho do século XVIII apenas mantém a imagem de São Sebastião.

O altar lateral do lado da Epístola mantém do século XVIII a imagem de Nossa Senhora do Rosário e a imagem de São Gonçalo.

 Imagem de Nossa Senhora do Rosário da igreja de São Martinho de Aldoar.

Imagem de São Gonçalo de Amarante da igreja de São Martinho de Aldoar.



[1] CAPELA, José Viriato – As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758, 579.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Homilia da Solenidade da Páscoa da Ressurreição do Senhor

Estamos a celebrar a Páscoa da Ressurreição de Jesus e o Evangelho de São João que escutamos neste domingo apresenta-nos esse momento em que Maria Madalena pelo romper da aurora vai ao sepulcro onde o corpo de Jesus tinha sido depositado.
Podemos imaginar Maria Madalena caminhando pelas ruas de Jerusalém, por aquelas ruas nas quais também tinha acompanhado o mestre e amigo, onde a memória o tornava presente, movida por um desejo profundo e legítimo de o encontrar novamente, de ouvir a sua voz. Não é fácil aceitar que aqueles que amamos desapareçam da nossa vida, se é que alguma vez chegamos a aceitar, e os lugares que frequentaram parecem querer que permaneçam vivos.
Podemos imaginar também a dor de Maria Madalena, a sua tristeza, e esse sentimento de desorientação, de abismo vertiginoso em que a dúvida nos assalta, pois de que serve ir ao sepulcro que foi selado, onde já nada mais se pode fazer ao corpo que se conheceu, que se acarinhou e cuidou, que se amou. Aquela visita de nada servirá ao que jaz no sepulcro, inacessível para sempre.
Contudo, é necessário ir, não por ele, mas por si, Maria Madalena, aquela que sofre a dor da perda, cujo coração está destroçado com tão grande tragédia. Esta visita é um movimento de luto, um simular da aceitação da fatalidade, pois bem no fundo não deixa de brotar essa recusa a estar só, essa negação de que o outro partiu para uma viagem sem regresso.
Ao chegar ao túmulo Maria Madalena sofre a mais atroz das suas experiências, pois depara-se com o sepulcro violado, completamente escancarado a todo e qualquer estranho, acessível a qualquer um que passasse por ali. À dor da morte de Jesus acresce agora a dor do desaparecimento do corpo. Nesta manhã de Páscoa deixa de haver o que restava do objecto amado, nem um cadáver há já para ver, para prestar os últimos cuidados. A dor da perda torna-se assim lancinante, duplamente dor.
Hannah Arendt escreveu ao seu mestre e amigo Karl Jaspers que o essencial da sua fé se jogava na imprevisibilidade e é afinal nessa imprevisibilidade que Maria Madalena se vê envolvida, de que Maria Madalena se torna testemunha activa. Naquele romper da manhã vinha com um projecto, tinha as suas ideias e planos, carregava a sua dor, e tudo se desmoronou face a uma realidade insuspeita, completamente nova, a uma vida que lhe escapava e a ultrapassava, a uma nova dor.
A Páscoa na sua dimensão de mistério é também, para cada um de nós, o integrar desta imprevisibilidade, é acolhê-la, é assumir que a vida nos alcança enquanto nós estamos a fazer planos para viver, como dizia John Lennon. Deus é muito maior do que podemos imaginar e a sua vida entrelaça-se na nossa vida de uma forma insuspeitável, admirável, não coarctando a nossa liberdade e autonomia, mas iluminando-a e potenciando-a.
Face ao acontecimento imprevisível, Maria Madalena corre a anunciar aos discípulos o que tinha visto, a sua leitura dos acontecimentos, afinal a expressão da sua perda, da sua dor, “levaram o Senhor e não sabemos onde o colocaram”. É a sua dor que a move, a perda do que lhe podia ainda restar para cuidar. Maria Madalena está ainda centrada em si mesma e por isso quando se encontrar com Jesus ressuscitado no jardim não vai ser capaz de o reconhecer, vai pensar que se trata do jardineiro que lhe pode dar alguma informação sobre o paradeiro do corpo desaparecido.
As palavras de Maria Madalena são no entanto a expressão da maior verdade e dimensão do mistério da ressurreição de Jesus. Deixámos de saber onde ele se encontra, onde o colocaram, porque Jesus ressuscitado pode estar no meio das nossas casas, nas nossas relações familiares, como pode estar no meio da rua, num encontro fortuito com um sem-abrigo, pode estar numa criança que sofre num hospital de oncologia como pode estar numa jovem que é explorada sexualmente.
Com a ressurreição de Jesus, a presença de Deus no meio dos homens deixou de ter um lugar controlado, deixou de estar sujeita a esquemas concebidos, pois essa presença joga-se e torna-se efectiva na imprevisibilidade, na novidade da vida, na aventura do encontro que nos leva para fora de nós e que nos coloca verdadeiramente frente ao outro.
A celebração da Páscoa é assim um convite a sair de nós, a deixar a nossa timidez e o nosso medo, a acolher o impensável e o maravilhoso, a novidade da aventura em que Deus se envolve e nos envolve.

 
Ilustração:
1 – Maria Madalena no sepulcro, de Giovanni Girolamo Savoldo, Getty Center, USA.
2 – As santas mulheres junto ao túmulo, de William-Adolphe Bouguereau, Royal Museum of Fine Arts de Antuérpia.