domingo, 14 de maio de 2017

Homilia do V Domingo da Páscoa

As palavras que escutámos hoje no Evangelho são proferidas por Jesus no momento da última ceia, depois de ter lavado os pés aos discípulos e de ter anunciado a traição de Judas e as negações de Pedro. Podemos por isso imaginar o sentimento de consternação e de tristeza que pairava sobre os discípulos. Tudo, o que tinham vivido juntos, parecia que se desmoronava ali, não só as expectativas criadas à volta de Jesus, mas igualmente as relações, a fidelidade fraternal que tinham desenvolvido.
Perante este sentimento, conhecendo o coração de cada um dos seus discípulos, Jesus vai em seu socorro, pedindo-lhes que não se deixem perturbar no coração, que não desistam de acreditar. Este pedido é contudo uma acha mais para a fogueira, pois Jesus pede-lhes que acreditem nele como acreditam em Deus. Homens habituados a acreditar num Deus único, reservado no santo dos santos do templo, como poderiam acreditar daquela maneira que lhes era pedida por Jesus?
Momento difícil para os discípulos assim como para Jesus; a desorientação é grande, e por isso a pergunta honesta e pungente de Tomé, “ se não sabemos para onde vais como podemos saber o caminho?” Que casa é essa que nos vais preparar, se tudo o que nos dissestes deitou por terra tudo o que esperávamos a acreditávamos, como é possível que nos peças que acreditemos, e acreditemos dessa forma tão violenta como é acreditar em Deus?
E é a este caos de sem sentido que Jesus responde com as palavras sobejamente conhecidas de todos nós, “ eu sou o caminho, a verdade e a vida”! Acreditai em mim, acreditai no que vivestes comigo, acreditai nas minhas obras, acreditai que eu sou a imagem e a presença do Pai na história de cada um de vós e de todos os homens. Eu Sou Aquele em que acreditais.
Este pedido de Jesus, esta oferta de um alicerce para a vida, continua a ser-nos feito e oferecido a cada um de nós; não temos outro caminho para nos encontrarmos com o rosto de Deus, para conhecer Deus. Tal como os discípulos também nós necessitamos esvaziar-nos das falsas imagens de Deus, das imagens e concepções idolátricas para nos encontrarmos com o verdadeiro Deus. Jesus continua a ser para todos os homens o verdadeiro caminho, a verdade e a vida para o encontro com Deus.
Tal como escutávamos na leitura da Epístola de São Pedro, Jesus é a pedra angular em que podemos assentar a nossa construção do conhecimento e da fidelidade à vida que Deus nos oferece. Uma vida que não é para ser vivida de uma forma angelical, num formato de amor platónico, mas é para ser vivida com tudo o que ela encerra de bom e menos bom, de graça e de pecado. Se não colocarmos a nossa vida assente na vida e na verdade de Jesus faremos mais tarde ou mais cedo a experiência do tropeço e do desmoronar, do escândalo da finitude da nossa vida.
É Jesus na sua humanidade e divinidade que nos revela a nossa mais profunda e verdadeira natureza e identidade. Nós somos a mais bela obra de Deus, e se só isso não nos bastasse já para o combate por uma vida digna, o mistério da encarnação veio revelar-nos que somos também presença e habitação de Deus, não somos apenas imagem e semelhança mas verdadeiramente presença de Deus.
A atenção de Jesus por esta realidade habitacional de Deus revela-se bastante precocemente, quando aos doze anos responde a Maria e a José que deveria estar na casa de seu Pai. Revela-se depois na sua vida pública quando frequenta as casas dos pecadores e publicanos, quando diz a Zaqueu que quer ficar em sua casa. O Filho de Deus vem habitar entre os homens, vem fazer morada nas suas casas e tendas, na sua fragilidade e na sua segurança. O Deus do segredo dos santos dos santos, da intocável arca da aliança, vem fazer habitação entre os homens, vem deleitar-se no convívio com eles como nos diz o Livro da Sabedoria.   
Esta habitação, cuja outra face da moeda é a habitação da nossa humanidade na glória divina depois da ascensão de Jesus aos céus, obriga-nos a um cuidado atento ao outro, à vida do outro. A habitação de Deus em cada homem e mulher não nos permite qualquer tipo de marginalização, de exclusão, como encontrávamos relatado nos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura.
A habitação de Deus entre nós deve levar-nos ao acolhimento do outro, mesmo daquelas realidades que nos parecem estranhas, opostas à nossa concepção e ideias e valores. E se este acolhimento nos pode parecer difícil, exigente, temos que olhar para Jesus e com fé esforçarmo-nos, pois Ele prometeu àqueles que nele acreditassem que seriam capazes de não só fazer as suas obras mas outras ainda maiores porque Ele estava junto do Pai.
A fé em Jesus como Deus abre-nos um caminho de encontro com o outro, dispõe-nos para a verdade que o outro encerra, e faz-nos viver uma vida completamente nova, a vida divina que se encontra em cada um de nós. Nesta semana que agora iniciamos, procuremos pois estar atentos aos outros, nas suas necessidades e debilidades, mas procuremos também estar atentos à vida que vivemos, ao fundamento em que alicerçamos as nossas atitudes, prioridades, palavras e gestos.
Que procuremos verdadeiramente que Jesus seja a nossa pedra angular!
Que vivamos as nossas realidades quotidianas como um sacrifício espiritual que oferecemos a Deus pelo nosso sacerdócio santo recebido no baptismo!

 
Ilustração:
1 – “Jesus lava os pés aos discípulos”, de Palma il Giovan, San Giovanni in Bragora, Veneza.
2 – “Simão de Cirene ajuda Jesus a levar a cruz”, de Ticiano, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 7 de maio de 2017

Homilia do IV Domingo da Páscoa

Estamos a celebrar o domingo do Bom Pastor. Jesus apresenta-se no Evangelho de São João, que escutámos, como o Pastor que abre a porta às ovelhas, que chama cada uma pelo seu nome, e que depois de as ter feito passar pela porta segue à frente delas até às pastagens abundantes.
Ao comentar o Evangelho deste domingo prestamos uma especial atenção a dois pormenores, que encontramos igualmente presentes em outros contextos e circunstâncias do mesmo Evangelho de São João.
O primeiro deles prende-se com o chamar pelo nome; Jesus, o Bom Pastor, chama cada uma das ovelhas pelo seu nome. Facto importante, porque não somos mais um número, mais um elemento na anonimato da massa, mas uma pessoa, alguém com o qual se estabelece uma relação.
Podemos ver a importância deste chamar pelo nome no episódio de Zaqueu, que Jesus desconhecia, mas que interpela pelo seu nome ao convidar a descer da árvore porque desejava ficar em sua casa. A nossa busca de Deus, o nosso desejo de ver Jesus, é já uma porta aberta para escutarmos o nosso nome, para o estabelecimento de uma relação pessoal e única com Jesus que vem ao nosso encontro.
Outro momento importante para o chamar do nome é o encontro de Maria Madalena com Jesus ressuscitado. É o pronunciar do nome que desperta para a realidade, para a nova presença e a nova relação que é necessário estabelecer. Quando aquele que parece um jardineiro pronuncia o nome de Maria há toda uma realidade relacional que se reaviva, que podemos dizer ressuscita. Maria Madalena reconhece Jesus pelo seu nome pronunciado.
Assim, e nas circunstâncias em que nos encontramos, na nossa busca de fidelidade, de conhecimento de Jesus, não podemos deixar de estar atentos ao apelo que Jesus nos lança, ao nome por que nos chama para o seguir, para o acolhermos e para o reconhecermos na nova realidade da sua ressurreição.
Ainda neste sentido, não podemos esquecer que o Apocalipse nos apresenta um livro onde estão inscritos todos os nomes, os nomes daqueles que seguiram o cordeiro, no contexto desta leitura do Evangelho o Pastor, que foram capazes de perceber o apelo ao seguimento. A cada um é dado um nome novo, um nome que deriva dessa relação pessoal e única com o Pastor e que apenas cada um conhece. Procuremos pois escrever o nome novo com Jesus.
O segundo pormenor, a que necessitamos dar atenção neste contexto do Bom Pastor, é a realidade abundante a que o pastor nos conduz. Por várias vezes e em circunstâncias diversas a abundância da graça e da vida é-nos apresentada pelo Evangelho.
Podemos vê-la nas bodas de Caná, não só no transbordar das talhas de onde sai o vinho novo, mas também na qualidade excelente desse mesmo vinho. Podemos vê-la na conversa com a Samaritana junto ao poço de Jacob e à qual é prometida e oferecida uma água viva, uma fonte que jorra para a vida eterna, que como sabemos provoca um grande equívoco na pobre mulher. Podemos vê-la no milagre da multiplicação dos pães, quando no final e depois de todos saciados ainda sobram doze cestos de pedaços.
Inquestionavelmente o Bom Pastor conduz-nos às pastagens verdejantes, às águas cristalinas, à abundância da vida e por isso não nos podemos distrair com as outras ofertas, com os salteadores e ladrões que nos prometem oásis de delícias mas que depois experimentamos serem puras miragens.
A confiança e a fé de que a promessa não é publicidade enganosa assentam nas palavras de São Pedro, entre outras, que escutámos na Segunda Leitura. Nós fomos curados pelas suas chagas, ele suportou os nossos pecados no madeiro da cruz para que vivamos para a justiça, para que não mais tivéssemos que nos perder pelo deserto em busca de alimento, porque ele se fez nosso alimento, nosso guarda e protector.
Assim sendo, temos que estar atentos às diversas ofertas de felicidade que se nos apresentam a cada esquina, a cada paraíso que nos é oferecido nas imagens e slogans da publicidade. É verdade que estamos destinados à felicidade, que a devemos buscar, mas também devemos estar conscientes que ela é exigente, que não se alcança por um passo de mágica, que exige esforço e aplicação, uma disposição para a verdade e para a iluminação do espirito. A felicidade é uma conquista.
Neste sentido, e nesta busca de felicidade a que todos aspiramos, não podemos deixar de recordar que hoje se celebra também o dia mundial de oração pelas vocações. Aquele e aquela que descobrem a sua vocação encontram-se com a felicidade, com um processo de esforço e aplicação que desde o primeiro momento tem por horizonte a realização plena. Assim, tudo o que faz e que até pode custar e implicar sofrimento é relativo face ao fim a que se destina.
Todos sabemos como passamos por dificuldades a nível das vocações sacerdotais e religiosas, não há sacerdotes para celebrar os sacramentos, nem religiosos para testemunhar a alegria do Reino construído na fraternidade. Contudo, e como nos recordava ainda há tempos o Papa Francisco a falta de vocações consagradas deve-se antes de mais à falta de vocações para a família.
Faltam hoje no mundo homens e mulheres que assumam a vida familiar, a constituição de uma família como uma vocação divina, como um processo para a realização e a felicidade do casal, mas igualmente como uma manifestação da vida divina, da presença e da história de Deus com os homens. São Paulo recorda-nos isso quando nos diz que o amor entre o homem e a mulher é uma manifestação do amor de Cristo pela sua Igreja. Um amor pessoal, um amor com nomes e apelos sinceros, um amor de entrega total, um amor para a vida em abundância.
Celebramos também hoje o dia da Mãe, e por isso não posso deixar de lançar este apelo às mães e pais aqui presentes. A vocação a que Deus vos chamou foi a de ser pais e mães, procurai sê-lo com sentido divino, formando os vossos filhos para enfrentar os desafios do mundo, mas formando-os também na escuta e na relação com Deus. Que o vosso amor conjugal e o amor pelos vossos filhos sejam testemunhos da transfiguração operada pela passagem de Jesus Cristo nas vossas vidas.
Jesus é a porta por onde devemos passar. Ele é a nossa salvação. Que o vosso amor, e o amor de cada um de nós, estejam marcados indelevelmente pela santidade desta passagem.

 
Ilustração:
1 – “Parábola de Jesus Bom Pastor”, de Marten van Valckenborch, Kunsthistorisches Museum, Viena de Áustria.  
2 – “O Bom Pastor”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 30 de abril de 2017

Homilia do III Domingo da Páscoa

Ao iniciar o seu Evangelho, São Lucas diz a Teófilo, aquele para quem escreve, que procurou informar-se de tudo para que a sua doutrina, o conhecimento de Jesus que tinha recebido, fosse sólido.
É nesta busca de solidez da doutrina que encontramos o episódio dos discípulos de Emaús, um acontecimento que podemos considerar histórico, e que nos revela muito do que foi o dia da ressurreição de Jesus para os discípulos. As circunstâncias do encontro, o diálogo, o desenlace final, mostram-nos a diversidade de experiências, mas igualmente o mistério único de que foram participantes.
Ao afastarem-se de Jerusalém os discípulos manifestam a desilusão que os tinha alcançado, a frustração das expectativas, eles que tinham vivido com Jesus durante três anos e tinham acalentado expectativas de libertação. Eles que tinham testemunhado palavras e obras grandes diante de Deus e dos homens esperavam outro fim.
Nesta frustração podemos rever-nos cada um de nós, podemos considerar que somos irmãos dos discípulos de Emaús, que caminhamos com eles, pois também algumas vezes nos afastamos de Deus quando ele não responde ou corresponde às nossas expectativas, aos nossos planos e projectos.
Há em cada um de nós um pouco de Tomé, que fica junto do grupo, na expectativa, e apesar das suas interrogações e desejos de ver e tocar, e um pouco de Cléofas e do companheiro, que se afastam, apesar do conhecimento, das notícias e testemunhos dos outros, que os deveria fazer permanecer.
Mas em cada uma das situações há algo maravilhoso da parte de Deus, de Jesus ressuscitado, que não se impõe, nem condena, que não apressa a fé, bem pelo contrário faz-se presente suavemente e deixa que o tempo e a sua presença revolvam as dúvidas e as frustrações. Jesus deixa tempo aos seus discípulos para que apreendam o mistério, para que compreendam, para que se possam situar face aos acontecimentos.
A explicação que Jesus dá aos discípulos enquanto caminham é sintomática desta, poderíamos dizer, paciência e pedagogia de Jesus. Ele não força nada, não se impõe, mas deixa a liberdade a cada um para na sua circunstância, na sua história, fazer a descoberta do seu mistério e da sua presença. Desta forma a alegria do encontro da presença é muito maior, poderíamos dizer, concede algum mérito àquele que descobre.
A liberdade que Jesus nos concede no caminhar ao encontro da sua presença está no entanto vinculada a uma disposição, a uma outra atitude, patente no convite dos discípulos a que Jesus fique com eles. Para um verdadeiro e pleno encontro com Jesus ressuscitado não podemos deixar de ter o coração aberto, essa disposição para o acolher, mesmo quando parece que ele quer ir mais além. Necessitamos dizer-lhe que fique connosco, que venha habitar no nosso coração, fazer de nós habitação tua. Por diversas vezes e em textos bíblicos diferentes há referência a essa necessidade do acolhimento, da disposição para Deus para que ele venha ao nosso encontro.
E paradoxalmente, no relato dos discípulos de Emaús, é quando Jesus desaparece depois de abençoar e partir o pão que os discípulos o reconhecem e percebem o ardor que sentiam no coração enquanto o escutavam no caminho. Este paradoxo visa mostrar a Teófilo, para quem São Lucas escreve, que não podia ter a pretensão do conhecimento total de Jesus, da apropriação da sua pessoa e da sua história.
Jesus ressuscitado é um mistério de presença e ausência, uma presença na palavra e no pão, no acolhimento e no encontro, mas igualmente uma ausência porque está para além da materialidade das realidades de que se serve para manifestar a sua presença. É nesta tensão que os discípulos são convidados a viver, a dar o seu testemunho.
Também hoje nos é possibilitado fazer a mesma experiência dos discípulos de Emaús, também hoje temos à nossa disposição a Palavra, as Sagradas Escrituras, também hoje o mesmo pão continua a ser abençoado e partido na Eucaristia, e também hoje nos reunimos e acolhemos na expectativa da presença do Senhor nesta celebração dominical.
Necessitamos assim colocar a questão do ardor do nosso coração, da alegria que vivemos, dos passos que damos para ir ao encontro dos nossos irmãos para lhes comunicar que afinal é verdade que Jesus ressuscitou. Apesar das nossas fraquezas estamos de facto convictos da experiência que vivemos da presença de Jesus? Acreditamos e esperamos em Deus por Jesus ressuscitado?
Como nos recorda a leitura da Carta de São Pedro, não foi por coisas corruptíveis que fomos resgatados da vã maneira de viver, mas pelo sangue de Cristo, e se tal aconteceu foi para que acreditássemos, para que a nossa fé e a nossa esperança fossem alicerçadas verdadeiramente em Deus.
Procuremos pois viver com alegria e confiança o mistério da presença de Jesus ressuscitado, e com ardor e esperança testemunhá-lo aos nossos irmãos pela caridade e a fraternidade que nos devemos.

 
Ilustração:
1 – “Encontro na estrada de Emaús”, de Altobello Melone, National Gallery, Londres.
2 – “Ceia em Emaús”, de Andrey Mironov.

domingo, 23 de abril de 2017

Homilia do II Domingo da Páscoa

Com alguma frequência encontramos amigos, mais velhos ou mais novos, que nos dizem que gostavam de saber mais sobre Jesus, que é uma pena que os Evangelhos não nos contem mais coisas sobre a vida de Jesus, a sua infância, a sua vida de família, as suas relações de amizade e até da sua doutrina. À primeira vista parece que necessitam de uma biografia e de uma colecção das suas obras completas, como se realiza para os grandes escritores e pensadores.
Para estes amigos e para este desejo de conhecimento, o Evangelho de São João que escutámos dá-nos a resposta. O que nos foi escrito, contado, transmitido, é para que acreditemos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que acreditando tenhamos a vida em seu nome. Assim, não temos necessidade de uma biografia, não necessitamos de saber mais, necessitamos de saber o necessário para acreditar que Jesus é o Messias e o Filho de Deus, e é isso que os Evangelhos nos transmitem, e a partir daí tenhamos a vida divina.
Neste sentido, e neste conhecimento que nos é facultado, a leitura do Evangelho de São João que escutámos revela-nos alguns dados fundamentais como são a presença de Jesus na história dos homens e de cada um de nós.
O primeiro sinal desta presença é-nos dado quando Jesus se apresenta no meio dos discípulos reunidos em casa e com a porta fechada. Jesus faz-se presente não só porque tinha prometido que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome estaria presente, mas porque tem essa capacidade de se fazer presente, já revelada quando no monte Tabor se transfigura diante de Pedro, Tiago e João. Não é uma presença mística, unicamente espiritual, é uma presença concreta na sua realidade humana e divina, e por isso pode apresentar-lhes as mãos com as feridas dos cravos e pode aparecer e desaparecer gloriosamente. Algo que nunca tinha feito antes.
O segundo sinal da sua presença é-nos revelado na segunda aparição, oito dias depois, quando estando já Tomé presente lhe apresenta as mãos e o lado para experimentação da sua realidade, demonstrando assim a sua presença oculta aquando da manifestação de Tomé de querer tocar e ver com os seus sentidos humanos a nova realidade daquele que conhecia como Mestre.
Para aqueles que hoje dizem que gostavam de ver Jesus, de falar com ele, não podemos deixar de lhes responder que Jesus está presente, que está ao nosso lado, que nos escuta e que nos apresenta as respostas que buscamos, ainda que sejam de uma forma completamente diferente daquelas que imaginámos ou expectávamos. Que é a partir dos Evangelhos que podemos e devemos estabelecer um diálogo.
A história de Tomé vai contudo mais longe, é mais radical, pois mostra-nos que Jesus está também presente quando lhe fechamos as portas, quando nos encerramos em nós próprios, quando temos dúvidas e questões, quando colocamos em causa o que nos é revelado, a nossa fé, quando pecamos. Deus está presente nessas fronteiras, nessa marginalidade, se assim podemos dizer, para nos estender a mão, para nos erguer, para nos responder, para nos libertar e reintegrar na vida que nos alcançou com o seu sacrifício de vida. Jesus não se ausentou da nossa humanidade, está presente de uma outra forma.
A manifestação de Jesus ressuscitado a Tomé revela-nos também a misericórdia de Deus, a continuidade do amor e da confiança de Jesus naqueles que escolheu para seus discípulos e amigos. Apesar das questões de Tomé e do seu desejo de querer ver e tocar, Jesus não o condena, nem o critica, assim como não o faz com nenhum dos discípulos. Não há qualquer juízo, qualquer discurso, mas apenas a manifestação da pessoa que conheciam e que deve continuar a ser acreditada, tida como viva e presente.
É esta experiência, poderíamos dizer este acolhimento do dom da presença, que permite fazer a profissão de fé. Num primeiro momento, e quando os discípulos comunicam a Tomé a aparição de Jesus, dizem-lhe que tinham visto o Senhor. Fazem já pela experiência presencial vivida a profissão de fé em Jesus como Senhor. Tomé, face à oferta de Jesus ressuscitado, à presença total que lhe é oferecida pessoalmente, vai mais longe e reconhece em Jesus não apenas o Senhor, o Messias, mas também o Filho de Deus, a divinidade presente na sua vida e busca.
Na vida e na história de cada um de nós esta presença é constante, e por isso o que nos é pedido é que não tenhamos medo de estender a mão, de querer ver e tocar, de querer o encontro pessoal e radical. Como nos diz a Carta de São Pedro, necessitamos amar, necessitamos acreditar com amor, e ainda que tenhamos que passar por provas, a fé em Jesus Cristo ressuscitado, presente no meio de nós, será sempre fonte de alegria inefável, fortaleza para continuar a buscar e a testemunhar verdadeiramente.

 
Ilustração:
1 – “Aparição a Tomé”, de Franciszek Smuglewicz, Museu Nacional de Varsóvia.
2 – “Aparição de Cristo aos Apóstolos”, de Andrey Mironov.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Serei eu Mestre? (Mt 26,25)

Quando no decurso da última ceia com os discípulos Jesus anuncia que um dos presentes o vai entregar às mãos dos inimigos, cada um deles, no seu interior, coloca em pânico a questão, “serei eu?”
Os discípulos são conscientes da sua falta de amor, das invejas existentes, do ciúme que sentem uns pelos outros, são conscientes de não terem entendido muito bem os ensinamentos do Mestre e de algumas vezes lhes ter passado pela cabeça a ideia de voltar ao sossego da sua vida anterior. Mas, dessas fraquezas e incompreensões até ao desejo de o entregar para ser condenado ia uma grande distância, jamais se tinham colocado essa possibilidade.
Judas ousa colocar a questão, verbalizar o que todos pensavam no íntimo do coração, e dessa forma assume a possibilidade que mais nenhum tinha jamais pensado. Ele tinha-o pensado, tinha-o até já falado, ou melhor, negociado, faltava apenas o momento oportuno para o levar a cabo.
Judas como os outros discípulos foi escolhido por Jesus, era um dos que partilhava a sua intimidade. Tal como cada um de nós, tinha sido eleito desde a criação do mundo para ser santo e imaculado na presença do Senhor, como nos recorda a Carta de São Paulo aos Efésios.
E ainda que nos pareça completamente descabido, aquele que vai ser o traidor, Judas, era amado por Jesus, era um dos seus. É um abismo paradoxal face ao qual nos encontramos, Deus não pode mais que amar aquele que o vai trair.
É por essa razão que no momento da ceia lhe estende o pedaço de pão molhado no seu prato. Tal como hoje, também naquele tempo era aos mais próximos que se estendia o pão, era com eles que se partilhava o pão. Ao entregar-lhe o pedaço de pão, Jesus oferece a sua amizade a Judas, sela com ele um pacto, renova-lhe a participação no seu mistério já expressa nos lavar dos pés.
Então Judas sai, e faz-se noite, as trevas adensam-se, porque o amado na entrega do pedaço de pão conduz aos infernos da traição aquele que o alimentou e o serviu. Judas leva-o consigo, em si, ainda que nem tenha consciência disso. Em algum momento terá pensado que naquele pedaço de pão foi configurado ao seu Mestre e Senhor? Que no seu desastre de vida não deixa de ser sua imagem e semelhança?
Mais tarde na oração dirigida ao Pai, Jesus não deixa de manifestar a dor pela perdição de Judas, pois vigiou para que nenhum se perdesse, e nenhum se perdeu a não ser o filho da perdição, e para que se cumprisse a Escritura.
Face ao relato da traição de Judas, a fé é a única resposta possível, a única saída viável, pois foi a fé que faltou a Judas que o levou à traição e posteriormente a colocar fim à sua vida. Se Judas tivesse acreditado que nada estava perdido quando entregou o Mestre, que bastaria um olhar para tudo ser diferente, deixar-se olhar pelos olhos amorosos de Jesus.
E se o olhar já não fosse possível, bastaria acreditar na palavra, acreditar que naquele mesmo instante era por ele, mais que por qualquer outro que Jesus se entregava nas mãos dos verdugos. Aquele que tinha vindo para salvar o que estava perdido, estava a salvá-lo a ele.
Teremos nós hoje esta fé, esta esperança, acreditaremos que o Senhor nos salva porque nos perdemos? Quando é que na nossa perdição ou desaire ousaremos levantar os olhos e cruzá-los com o olhar amante de Jesus?

 
Ilustração:
“Judas Iscariotes”, de Eilif Peterssen, Nordnorsk Kunstmuseum, Tromso, Noruega.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Não cantará o galo sem que me tenhas negado. (Jo 13,38)

Estavam reunidos para celebrar a Páscoa, a alegria transparecia no rosto de quase todos, e sem se perceber muito bem como o Mestre sentiu-se intimamente perturbado. O seu semblante alterou-se e sem qualquer preparação psicológica anunciou aos seus amigos ali reunidos que um deles o ia trair.
Podemos imaginar o murro no estômago que todos sentiram, o nó que se formou na garganta e lhes embargou a voz, ao ponto de apenas o discípulo amado ser capaz de perguntar: “quem é Senhor?” Olharam-se uns aos outros numa tentativa de percepção de quem seria o traidor.
Pedro, na sua habitual rusticidade, não aceita o que Jesus diz, e afirma que ainda que alguém possa trair o Mestre ele está disposto a dar a vida, está disposto a seguir Jesus até ao fim, a ser fiel inquestionavelmente. A tal disposição Jesus responde com o anúncio da negação, uma negação tripla ainda antes do galo cantar, ainda antes da noite terminar.
As palavras de Jesus feriram, devem ter sido um outro murro e muito mais forte no estômago e no coração de Pedro. Como era possível que o Senhor dissesse que ele o trairia ainda essa noite? Ele que tinha já deixado tanta coisa para o seguir. O orgulho de Pedro desmoronou-se!
Mas é esta ferida no orgulho de Pedro que lhe permitirá não cair na tentação do desespero, que lhe permitirá reconhecer o amor incondicional de Jesus, a porta aberta por este anúncio de traição. O Mestre sabia já o que ele faria, conhecia as suas fraquezas, e não o condenava nem o excluía, bem pelo contrário anunciava-lhe a realização da sua pretensão de entrega e fidelidade, embora para mais tarde e de outra forma.
Deus conhece as nossas fraquezas e potencialidades de infidelidade, mas não nos condena nem nos fecha a porta, bem pelo contrário, por causa delas oferece-nos a mão estendida do perdão, da misericórdia, para não soçobrarmos nas nossas infidelidades. Não é um conjunto de homens e mulheres perdidos que lhe interessam, mas aqueles que estão dispostos a fazer a experiência do perdão, a retomar o caminho onde foi abandonado.
Neste dia da Semana Santa ousemos apresentar ao Senhor as nossas próprias negações e traições para dessa forma sermos acolhidos por Ele e acolhermos a graça de uma vida nova que é já ressurreição.

 
Ilustração:
“A negação de Pedro”, de Andrey Mironov.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Maria ungiu os pés de Jesus com perfume. (Jo 12,3)

Seis dias antes da Páscoa Jesus encontra-se em Betânia, é convidado da casa de Marta, Maria e Lázaro. Uma vez mais regressa à casa dos amigos, onde sabe que pode repousar, que se pode fortalecer com a amizade que lhe tributam. Os discípulos, íntimos da família estão também ali.
Durante a refeição que é servida aos convidados e amigos, Maria vem até junto de Jesus, ajoelha-se ao seu lado, e sem que ninguém o pudesse prever começa a ungir os pés do Mestre e Amigo. Surpresa geral e até um olhar de escândalo, Judas queixa-se do desperdício, afinal com o dinheiro gasto com aquele perfume podia alimentar-se os pobres.
Mas Maria sabe muito bem o que faz, da intimidade da escuta de Jesus, percebeu que é no tempo presente que podemos e devemos cuidar daqueles que futuramente serão defuntos. É no tempo presente, no aqui e no agora, enquanto estão vivos que convém amá-los, que convém perfumá-los, cuidar do seu corpo divinamente.
Celebrando desta forma requintada o corpo do Senhor, ungindo Jesus com um perfume de alto preço, Maria anuncia profeticamente que o corpo não está destinado à destruição, anuncia a ressurreição, anuncia a habitação divina no corpo de cada homem e mulher.
Num outro encontro, há já algum tempo, uma mulher da Samaria tinha perguntado a Jesus sobre o lugar onde se deveria adorar a Deus. Maria, irmã de Lázaro, responde-lhe neste gesto desmesurado da unção dos pés de Jesus, nesta atitude de prostração aos pés do amigo.
Horas mais tarde o próprio Jesus vai repetir a cena, não ungindo os pés dos discípulos, mas também ele inclinando-se aos pés de cada um para os lavar, para os libertar do pó da terra e confiar-lhes a graça divina, a participação na sua glória. O gesto de Jesus ao lavar os pés aos discípulos confirma o gesto e a unção de Maria em Betânia, o templo de Deus é a carne do homem, é o homem vivo.
Face a estes gestos de Maria e de Jesus não podemos deixar de olhar para a nossa vida, para os nossos gestos e tentar perceber como eles são ou não gestos de unção, gestos que perfumam a vida daqueles com que nos cruzamos. Não se trata de saber se somos melhores ou piores que os outros, se somos exemplares nas nossas atitudes, mas de perceber se compreendemos verdadeiramente que o corpo do homem e da mulher é habitação de Deus, é templo do Espirito Santo.
Se o compreendermos verdadeiramente trataremos o corpo do outro com um respeito e uma doçura infinitas, quer no assento do transporte público quer na intimidade dos lençóis de linho, quer na cadeira do tribunal quer na cama do bloco cirúrgico. O cuidado e o respeito serão manifestações de que acreditamos que a morte não tem a última palavra sobre nós, sobre o nosso corpo. Ele ressuscitará uma vez que é habitado por Deus.

 
Ilustração:
“Maria ungindo os pés de Jesus”, de Daniel Gerhartz.