São Lucas situa-nos a narração da parábola do fariseu e publicano que sobem ao templo para orar dizendo-nos que Jesus a contou para confrontar alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros. Estamos assim perante uma parábola que parte da nossa relação com os outros e se espelha na relação com Deus.
O fariseu que sobe ao templo, e dá graças a Deus, perde todo o mérito do bem que fez na medida em que se compara com o que os outros fizeram, ou fazem. O seu ponto de referência não é Deus, mas são os outros e os seus comportamentos mais ou menos correctos.
Neste sentido, para além de se colocar como juiz dos seus irmãos, cai na tentação de perceber o coração dos outros homens, daquele publicano que se aproximava como ele junto do altar de Deus. Percepção e conhecimento que só é possível a Deus, porque só Deus conhece verdadeiramente o coração do homem e de cada homem.
O fariseu coloca-se assim como centro, como deus das coisas boas que faz, dos preceitos que cumpre rigorosamente, não reconhecendo que são dom da generosidade e bondade de Deus, e coloca-se orgulhosamente como ponto de referência mesmo para aquilo que os outros não fazem ou não vivem.
Por esta razão Jesus diz que ao regressar a casa não regressou justificado, porque no fundo e ainda que dirigindo-se a Deus não tinha deixado de estar centrado em si mesmo, não tinha deixado de se assumir como deus das suas próprias realizações, não se tinha libertado da sua auto-suficiência.
Pelo contrário, o publicano não estabelece outra relação senão com Deus, não tem outro ponto de comparação senão o próprio Deus, diante do qual se descobre e confessa pecador. Ao apresentar o seu pecado, as suas fraquezas e infidelidades não despreza ninguém, nem se compara com ninguém, mas expõe-se unicamente ao que era dom de Deus e não tinha sabido acolher.
Como nos diz Jesus, ele regressou justificado a sua casa, e regressou porque se apresentou para ser curado por Deus, para ser erguido por Deus, para viver diante de Deus como pecador, como nos convida o Senhor através do profeta Oseias. Porque ainda que o nosso amor seja como o nevoeiro da manhã que logo desaparece, se nos apresentarmos nessa humildade e simplicidade, o senhor virá a nós como aguaceiro de Outono, encharcando-nos da sua graça.
Apresentemo-nos por isso diante do Senhor sem juízos e sem desculpas, como Adão nu na sua miséria e infidelidade, para que os senhor nos revista da sua graça e possamos voltar libertos e fortalecidos para os novos combates que sempre se desenham no caminho da fidelidade a Deus.
Ilustração: “O publicano e o fariseu”, fresco da Basílica de Ottobeuren, Alemanha.







