sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Pausa para Ti, Jesus

Sento-me por instantes, as costas denotam já o cansaço do dia,
e no entanto quanto falta ainda.
Foram as compras, a fruta e os caramelos,
as multidões nas caixas de pagamento, a mesa e o arroz doce.
A última prenda embrulhada,
já não em papel florido mas num simples e antigo papel de merceeiro.
Também nós vamos assim,
umas vezes em papel florido, outras vezes em papel de embrulho.
Contudo, somos sempre um presente,
apenas necessitamos que alguém desate o laço ou rasgue a folha de papel.
Agora aqui sentado, sentindo o corpo queixar-se,
acerca-se ao coração esse desejo miudinho de ficar quieto,
de parar, nem que seja por uns momentos, de contemplar e meditar.
Mas falta ainda tanto…
o arranjo da mesa, o bacalhau e os fritos de Natal,
a ceia de consoada e a Missa do galo.
E novamente chega ao coração esse desejo miudinho,
e o diálogo de David com o profeta Natan.
Quero construir uma casa para o Senhor,
moro num palácio e a arca do Senhor numa tenda, disse David.
Faz o que o coração de pede, respondeu Natan a David.
Mas nem sempre o que o coração pede é,
o que o Senhor nosso Deus deseja, e assim
não será David a construir, mas Deus a fazer uma casa a David.
Também aqui nestes instantes a mesma voz,
a mesma resposta,
não te compete fazer-me uma casa, eu farei para ti uma casa,
não te compete contemplar-me porque eu te contemplo,
não te compete fazer-me um Natal porque eu já me fiz Natal para ti.
Compete-te dar, fazer-te alimento e festa, ser homem e irmão,
porque foi o que eu fiz… por ti, pelos teus e por todos os homens.
Incarna, sê o que és, faz o que fazes,
por amor, foi o que eu fiz.
Contempla-me no doce dos sonhos e das rabanadas,
na luz trémula das velas,
no perfume do pinho e do incenso,
e no brilho dos olhos dos pequeninos.
Tudo é divinamente possível ao amor, com amor.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 23 de Dezembro

Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo, vinde salvar-nos Senhor nosso Deus.

Emanuel, Deus connosco, que alegria e que conforto. Deus está próximo, está connosco, é a nossa protecção. Como diz São Paulo o que nos poderá separar do amor de Deus, do amor feito tão próximo, feito nosso; a espada, a fome, a perseguição, a morte? Nada nos poderá separar do Deus feito homem, do Deus que quis estar connosco, ser um de nós, do Deus amor por cada um de nós.
E porque nada nos poderá separar podemos chamá-lo nosso rei e nosso legislador, aquele que nos governa e nos dá a sábia lei da caridade e da misericórdia. Não é um rei distante, nem são leis que nos desconhecem, pelo contrário porque o nosso Deus fez a nossa experiência de vida deu-nos uma lei que é vida, que não nos afasta de nós mesmos mas nos integra ainda mais na humanidade redimida, na nossa condição divina tantas vezes obscurecida pelas nossas infidelidades.
Vem Salvador do mundo e esperança das nações porque só tu nos podes resgatar, só tu pela experiência da incarnação nos podes apontar os caminhos para a transformação do mundo e a construção de uma nova história.
Por ti esperamos Senhor, vem, não tardes, alenta a nossa esperança, transforma os nossos corações e fortalece os nossos braços neste desejo de ter sermos fiéis e colaborarmos na construção do teu Reino de paz, justiça e amor.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 22 de Dezembro

Ó Reis das nações e Pedra angular da Igreja, vinde salvar o homem que formastes do pó da terra.

Tu nos formastes Senhor do pó da terra, pó que nos acompanha e molda em tantas quedas, em tantas tendências, pó ao qual voltaremos inevitavelmente.
Mas não só de pó nos formastes, também do teu hálito e da tua saliva, dando forma ao pó num molde semelhante a ti, dando vida à forma para que te pudesse conhecer e amar.
E contudo, a liberdade que nos destes nessa semelhança a ti levou-nos para longe, fez-nos procurar a vida e a sabedoria longe de ti e do teu amor criador.
Descobrimos assim que estávamos nus, longe de ti o descobrimos quando comendo do fruto proibido tomámos consciência que nada éramos sem ti, sem a tua verdade.
Então surgiu o medo, o medo de nos vermos tal como somos, o medo de te vermos como és, e descobrimos que já não te podíamos ver face a face porque o teu amor era tremendamente grande para que o pudéssemos suportar na nossa pequenez.
Expulsastes-nos do paraíso ou fomos nós que nos afastámos porque já não te podíamos suportar? Fosse como fosse, ainda assim, longe e tantas vezes esquecidos de ti nunca deixastes de nos acompanhar, de estar presente e iluminar a vida.
A nossa infidelidade não te era indiferente e o teu amor revoltava-se por te termos longe, por te termos distanciado tanto envolvendo-te em nuvens e trovões, numa arca intocável, num templo tão santo que não se podia frequentar.
E ó maravilha do amor, maravilhosa paixão de Deus pelo homem, do criador pela sua criatura, decidistes não já visitar o homem para ver o que ele fazia mas fazer-te um como ele para que te pudesse reencontrar no amor que tens por cada um deles, para que não mais te encerrasse numa arca mas te fizesse companheiro e amigo, presença viva e constante, apaixonada.
Fizestes-te Senhor um como nós, excepto no pecado, porque de facto não podias assumir a distância que nos tinha separado, não te podias separar de ti mesmo, o teu amor incarnado não podia distinguir-se do teu amor eterno e criador.
Fizestes-te um como nós e pelo teu amor e a tua entrega nas nossas mãos resgataste-nos do nosso inferno, eliminastes a distância que nos separava. Pudemos regressar ao amor original do Pai.
Apesar de tudo o que fizestes por nós, como nos é difícil seguir-te, assentar a nossa vida e os nossos projectos na tua vontade e no teu amor, viver o mesmo amor que tens por nós. Deste-nos a possibilidade de ser reis e continuamos a optar pela escravidão, deste-nos a oportunidade de ser profetas da Palavra e continuamos a seguir as palavras de outros, deste-nos a hipótese de sermos sacerdotes do Altíssimo e continuamos a sacrificar aos ídolos do nosso egoísmo.
Por isso te pedimos, te continuamos a pedir, que venhas resgatar-nos, libertar-nos, tu que és a rocha, pedra angular sobre a qual toda a edificação colhe corpo e solidez, tu que és o Rei das nações, aquele sob quem todo o governo é justo e recto.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 21 de Dezembro

Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça, vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte.

Na nossa noite e nas trevas do nosso conhecimento te esperamos e desejamos Senhor. Vem Senhor Jesus, iluminar o nosso dia e a nossa vida.
Tu és o Sol nascente, a esperança de um novo dia, de um novo mundo e de uma nova vida. Como em cada manhã as coisas retomam cor e ganham vida com o astro resplandecente, assim também contigo e com a tua vinda tudo retoma outra cor e outra vida. És o princípio de um novo mundo e de uma nova história.
E como o astro da manhã, também tu incendeias os nossos céus com as cores da esperança e a alegria da salvação que nos alcançarás pela hora do meio-dia, quando no zénite da hora te erguermos em sacrifício eterno.
Nesse momento, em que serás sol de justiça, o astro resplandecente da manhã se envergonhará da sua luz e da sua beleza e, ocultando o seu brilho, mostrará aos homens o verdadeiro Sol, a verdadeira luz, Aquele que pode verdadeiramente iluminar os homens no seu caminhar quotidiano. Serão as trevas para brilhar a tua luz eterna.
Mas ainda não é a hora e por isso agora vens como luz suave, bordando os cumes dos montes da nossa humanidade ferida com a claridade de uma criança, de um recém nascido, para que te possamos contemplar sem ficar ofuscados, para que nos possamos aproximar de ti sem medo e adorar-te sem temermos a idolatria porque não és um astro dos céus, um deus do Olimpo, mas um de nós, nosso irmão, Filho de Deus e Filho do homem, nossa carne e esplendor divino.
Vem Senhor, vem iluminar a nossa vida e na luz deste Menino possam ser iluminados os nossos recônditos mais escuros e mais necessitados desta luz suave e humilde.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 20 de Dezembro

Ó Chave da casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir; vinde libertar os que vivem nas trevas do cativeiro e nas sombras da morte.

Só tu Senhor podes abrir e fechar, só tu tens poder para nos libertar.
Um dia a nossa desobediência fechou-nos as portas do paraíso, trouxe-nos para as regiões tenebrosas das sombras da morte.
Hoje a nossa desobediência, a nossa insistência na liberdade longe de ti, continua a levar-nos para o cativeiro do mal.
E tu esperas o nosso pedido de socorro, que voltemos atrás para poderes abrir uma vez mais uma passagem pelo mar vermelho da nossa história.
Aguardas o nosso olhar suplicante para que possas abrir as portas da tua misericórdia e cumular-nos das tuas delícias.
Aguardas a expressão do nosso desejo de fechar o passado e o mal que nos atinge num cerrado de onde não mais possa sair.
Senhor tu tens a chave que nos abre a porta da salvação e a chave que fecha a porta do mal e do pecado.
Um dia Senhor tu abristes essa porta e deixaste-nos passagem na ferida da lança no teu coração; nesse mesmo dia fechastes as portas ao inimigo quando no nosso corpo mortal desafiastes a morte e a vencestes com o teu amor.
Abre-nos hoje Senhor os nossos olhos e os nossos ouvidos, o nosso coração, para encontrarmos também a tua porta aberta na Palavra da escritura e no teu Corpo feito alimento.

Homilia do IV Domingo do Advento

Este quarto e último domingo do Advento, no Evangelho de São Mateus que escutámos, apresenta-nos pela primeira vez neste tempo de preparação para o Natal a figura de José, do esposo de Maria, aquele que é convidado por Deus a ser pai de um filho que não é seu.
Nesta caminhada de preparação para o Natal, em que nos confrontámos com a figura de João Baptista e a sua missão de precursor, com tudo o que acarretou de fé e dúvidas, surge-nos agora a figura de José que transporta consigo e com os desafios que Deus lhe coloca a mesma carga de dúvidas e de fé, a mesma semelhança com cada um de nós.
Neste sentido não podemos deixar de ver em José e na situação particular em que se encontra a nossa mesma situação de contingência face a tantos acontecimentos da nossa vida, a tantas situações em que nos vemos envolvidos mas que nos escapam do nosso controlo e do nosso desejo.
José, a quem estava prometida Maria, vê-se confrontado com a situação da mulher que ama se encontrar de esperanças, grávida de um filho para o qual ele nada tinha contribuído. Para além da surpresa e certamente de algum desconforto José encontra-se perante o dilema de repudiar aquela que ama e que aparentemente parecia que o tinha traído. O amor e a justiça levam-no a optar por exercer esse repúdio de uma forma secreta, afinal apenas no seu coração traído e desapontado, pois caso contrário teria não só que enfrentar o vexame público como ainda a sentença de lapidação destinada às mulheres que se encontravam na mesma situação em que se encontrava aquela que ele ama, Maria.
José encontra-se assim num dilema terrível e, face à possibilidade de perder tudo, opta pela viabilidade de uma vida de fachada, uma união social e religiosa reconhecida mas não vivida de facto. José opta por uma mentira e é perante ela que Deus se lhe revela e o desafia e convida a viver de verdade. É neste sentido que o anjo do Senhor vem até ele, naquela noite do desespero e da opção pela mentira, solicitando-lhe da parte de Deus que não tema receber Maria por sua mulher. Deus quer uma vida de verdade, uma opção por amor, ainda que estranha aos seus parâmetros, ainda que fora do seu controlo e dos seus projectos pessoais.
A proposta do anjo é demasiado interessante para não deixarmos de meditar nela, no que ela tem de convite a não temer, porque é o medo que muitas vezes nos impede de arriscar, de aceitar desafios que nos podem ser muito gratificantes. E no caso de Deus esse convite é ainda mais premente, urgente, uma vez que nos convida a não ter medo do que desconhecemos, do que está fora do nosso controlo, mas que está nos seus planos. O convite do anjo a José, como a todos nós, é um convite de confiança, a confiarmos em Deus, na sua presença e na sua protecção.
E este convite não é em vão, não é um convite castrador da nossa liberdade e da nossa vontade, bem pelo contrário é um convite que nos conduz à promessa de darmos um nome ao Filho de Deus. Se Deus convida e apela à justiça de José, para aceitar Maria com tudo o que ela transporta de desconhecido e de surpresa, é para que ele possa dar o nome de Jesus àquele que nascerá dela, ao filho que afinal não é dele.
É este o grande convite que Deus nos faz, a cada um de nós, quando nos solicita a nossa colaboração, quando nos pede uma opção radical por um projecto de vida estranho aos olhos dos outros, quando nos pede que aceitemos viver uma situação cujo fim não vemos e cujo sentido não compreendemos, quando nos pede que aceitemos que se faça em nós a sua vontade e não a nossa.
Por esta razão José aparece neste quarto domingo do Advento como figura preparatória do Natal, da comemoração do mistério do nascimento do Filho de Deus feito homem, para nos dizer e convidar a dar também um nome a Jesus, um nome actual, o nosso nome com tudo o que ele comporta de vida vivida por nós, de dor e alegria, de partilha e egoísmo, de divindade e de pecado.
Hoje, como naquele tempo, Deus continua a apelar à nossa justiça, a convidar-nos a não temer, nem a Ele nem às realidades que se nos escapam, a aceitar acolhê-las como um filho, pleno de esperança e de futuro, e ao qual temos e devemos dar um nome, o nome de Deus connosco, Emanuel ou Jesus, Deus salva-nos. Hoje, como a José, Deus continua a apelar à nossa colaboração para a incarnação do Filho, para que sejamos instrumentos da manifestação do Deus que vem até nós, que está connosco e nos salva sempre que lhe abrirmos a porta para entrar, para se fazer um de nós, um connosco.
Vem Senhor Jesus, por ti esperamos.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 19 de Dezembro

Ó Rebento da raiz de Jessé, sinal erguido diante dos povos, vinde libertar-nos, não tardeis mais.

À medida que o tempo passa a ansiedade vai aumentando e o sussurro de expectação vai crescendo também. Vem Senhor, vem, não tardeis mais.
A raiz antiga e velha está carcomida da infidelidade e da falta de esperança. Parece já morta, sem seiva e sem vida. Mas eis que um rebento, um novo ramo se anuncia nessa raiz já quase sem vida.
Como os rebentos à volta da oliveira assim são os filhos nascidos na juventude, feliz do homem que assim encheu a aljava. A oliveira neste caso é já velha, milenar, contudo o Filho, que toma o lugar de todos os filhos não nascidos na juventude, enche a aljava, recupera e retoma tudo o perdido desta raiz, deste pai.
Como flecha nas mãos de um guerreiro assim é este rebento, cheio de força e de vigor para liquidar o inimigo. E liquida-o nascendo dessa raiz já carcomida, rebento novo e insuspeito para o inimigo. Dali já nada havia a esperar e no entanto eis o rebento.
Rebento que cresce e se faz árvore, que estenderá um dia os braços para abraçar o céu e a terra, para unir os filhos com o Pai. E à sua sombra se abrigarão os homens, porque desse rebento crescido e feito árvore da vida nos virá a salvação e a protecção.
O rebento será assim um sinal erguido diante de todos os povos, para todos os povos, um sinal de esperança porque também de vitória sobre o último inimigo.
Vem Rebento da raiz de Jessé, vem, porque só em ti e por ti podemos ser enxertados na verdadeira raiz, podemos ser alimentados com a verdadeira seiva da vida, podemos dar algum fruto que mereça ser colhido para a eternidade. Vem Senhor, não tardeis!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 18 de Dezembro

Ó Chefe da Casa de Israel, que no Sinai deste a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço.
Um passo em frente e novamente um suspiro, um grito de ansiedade.
A Sabedoria é agora Chefe da Casa de Israel, o poderoso que liberta e o sábio que legisla.
Está presente no tempo e na história, atento aos sofrimentos do seu povo na escravidão.
É o chefe da casa de Israel, de Isaac, de Abraão, é o chefe que ilumina e conduz os chefes, é o Deus dos nossos pais.
Atento à dor e ao sofrimento não se esqueceu do seu povo e de braço estendido libertou-o das mãos dos inimigos, daqueles que os oprimiam e pretendiam aniquilá-los.
Foram as pragas, os gafanhotos e o sangue na água, o granizo de fogo e a noite escura, a morte dos primogénitos tanto dos homens como dos animais. E a passagem do anjo exterminador, a passagem do mar vermelho a pé enxuto, os cavalos e os cavaleiros submergidos pelas ondas do mar, foi a passagem pelo deserto, o encontro e o desencontro com a liberdade.
Um Chefe poderoso substituído por um touro de ouro, a vida e a liberdade esquecida por um ícone de força e de poder, a idolatria das nossas forças e do braço estendido e poderoso que não temos.
Uma manifestação aterradora, o fumo das entranhas da terra, os tremores e abalos, a voz poderosa como um trovão, o medo e a revelação da lei junto ao monte. Um compromisso, uma aliança, um jugo ou uma liberdade, mas sempre uma possibilidade de opção.
E a força e o medo, misturados numa amalgama de fé e idolatria, de libertação e subjugação. O deserto e o desencontro com Deus.
Um suspiro e um grito de socorro, vinde libertar-nos, estendei o vosso braço para nos resgatar. E apareceu uma criança, um menino indefeso e humilde, pobre, para que não nos atemorizássemos mais com a Sabedoria que chefia e comanda, que liberta e legisla. É um Deus poderoso que vem ter connosco, mas faz-se pequenino para que não o temamos, para que o aceitemos e aceitemos a sua lei, afinal é uma lei de filhos e não de bastardos ou escravos, é uma lei de amor e salvação.
E o seu poder está aí, nesse menino, nesse milagre do incomensurável, do todo-poderoso, se fazer criança, se fazer frágil e pequeno. E a nossa carne assumida e resgatada, a nossa humana condição divinizada é o seu braço estendido.
Vem Chefe da Casa de Israel, por ti esperamos para que nos conduzas à terra da promessa onde mana leite e mel.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Antífona do Ó do dia 17 de Dezembro

Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação.

Um grito, um suspiro, uma aspiração, um desejo, Ó Sabedoria vem!
Tu que estavas presente no momento da criação, que modelastes o mundo e os mundos com a tua beleza e o teu amor;
Tu que desenhastes o homem à imagem de Deus para que conhecesse o seu criador e o reconhecesse tão perto de si como o seu próprio corpo;
Tu que destes a vida com um sopro para que o hálito divino sempre nos atraísse para ti;
Tu que tudo governas com sabedoria e suavidade porque em ti não há perturbação nem mentira.
Vem Sabedoria do Altíssimo, vem habitar entre nós, vem revelar-nos o caminho de casa que esquecemos.
Vem Sabedoria do Altíssimo iluminar os nossos olhos para te ver onde passas ao raiar da manhã e ao pôr-do-sol, na dor e no amor, na mão estendida e no coração ferido.
Vem Sabedoria do Altíssimo ensinar-nos o caminho da Salvação, o Divino feito homem, a força feita fraqueza, a misericórdia superando a culpa.
Vem Sabedoria do Altíssimo feita criança para poderes ser recebida, amada, para que não nos escusássemos de não te ter à mão.
Vem habitar nos nossos corações, vem mostrar-nos o caminho, a nossa humanidade assumida e redimida porque nela te encontramos de uma forma completa.
Vem Sabedoria, caminha connosco uma vez mais, habita à nossa porta ainda que nós tantas vezes nos esqueçamos de habitar à tua. Vem e não deixes nunca de vir!

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A crise interior de João Baptista

Ao ver chegar o fim dos seus dias e da sua missão como precursor do Messias São João Baptista vive uma profunda crise interior, um grande dilema, pois no seu coração e na sua razão chocam-se a esperança do Messias libertador do povo de Israel e as acções um tanto ou quanto desconcertantes e estranhas de Jesus, em quem ele tinha reconhecido um dia o Messias. Encarcerado por ordem de Herodes, consciente do fim trágico e violento que o espera João vive nesse dilema da verdade sobre o Messias e sobre Jesus.
À luz da tradição o Messias era alguém que libertaria o povo de Israel, alguém que exerceria o poder da justiça, que realizaria o julgamento sobre os bons e os maus. Contudo, aquele que João tinha reconhecido como Messias não estava a fazer nada disso, não estava a corresponder ao modelo do Messias esperado, bem pelo contrário parece que fazia tudo para contrariar esse mesmo modelo e imagem tradicional. Ter-se-ia enganado?
É assim, e para tentar encontrar luz para a sua missão, para o que tinha sido a sua missão, para o que via e para a esperança que o habitava, e para a justificação do reconhecimento anterior do Messias naquele Jesus, que envia dois dos seus discípulos ter com Jesus para lhe trazerem uma resposta. Afinal és tu o Messias esperado, ou equivoquei-me no reconhecimento que fiz?
Para confirmar a fé de João, a sua missão e a sua vida, e o reconhecimento que tinha realizado do Messias, Jesus não só realiza várias curas diante dos enviados como os remete para a profecia de Isaías, afinal a profecia que João tinha assumido com a sua vida, à qual tinha tentado ser fiel com a sua pregação, com o seu apelo à conversão.
Perante a profecia de Isaías e os milagres operados é fácil para os enviados e para João perceber que aquele Jesus era verdadeiramente o Messias. Poderá então João ter-se enganado na concepção do Messias, na ideia tradicional que o marcava e o fazia estar neste dilema? Se aquele Messias curava e perdoava os pecados de que modo e quando exerceria a justiça?
A verdade é que pela cura, pelos milagres, pelos sinais da misericórdia de Deus Jesus estava já a exercer o julgamento e a libertação que marcava o modelo messiânico. Só que não exercia essas realidades de acordo com as concepções humanas, com os parâmetros humanos, de que estava enfermado o modelo, e por isso o equívoco, por isso a incerteza e a dúvida. Jesus salva e julga de acordo com o amor de Deus pelos homens e não pelos critérios dos homens para com Deus.
Este dilema de João é para nós uma imagem de algumas realidades que também vivemos quando Jesus, Deus, se nos apresenta de uma forma que não corresponde aos nossos critérios, às nossas expectativas. Há como que um desencontro entre o nosso salvador e o verdadeiro Deus que nos vem salvar, uma desproporção entre as nossas concepções humanas e a realidade divina. Assim, resta-nos um trabalho contínuo de transformação do nosso olhar, dos nossos critérios, um despojamento das nossas contrafeitas imagens de Deus para que a verdadeira divindade se possa revelar e salvar-nos.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A parábola dos filhos obedientes (Mt 21,28-31)

As parábolas de Jesus sempre nos colocam em cheque, sempre nos fazem vacilar entre um ou outro personagem, pois sempre nos podemos identificar com um ou com outro dos intervenientes.
Nesta parábola do pai que pede aos filhos que vão trabalhar para a sua vinha encontramos dois filhos e duas atitudes completamente opostas. Um primeiro filho que se nega ao pedido do pai mas depois vai trabalhar para a vinha, e um segundo filho que aquiesce ao pedido do pai mas depois não vai. São duas figuras que podemos encarnar, que são imagens de muitas das nossas realidades e compromissos.
Elas no entanto evidenciam uma realidade bem mais profunda que a adesão ao pedido do pai, é a realidade da relação com o pai, do conhecimento e reconhecimento, de um respeito que um filho primeiramente não mostra mas depois desenvolve e que o outro filho mostra mas é apenas hipocritamente e portanto não tem.
Se o primeiro filho, aquele que frontalmente se nega a anuir ao pedido do pai, reconhece o seu erro e muda de atitude, é porque encontra no pai e reconhece a liberdade que o pai tem pela sua decisão, o respeito que o pai tem por ele enquanto filho e enquanto capacidade para dizer sim e dizer não. O pai não se impõe, não obriga, apenas faz um pedido e espera uma resposta, que neste caso chega quando se reconhece a autonomia e a liberdade pessoais.
Podemos dizer que este filho faz um processo de caminhada de conversão, um processo que tramita pela sua autonomia e pela sua liberdade que conscientemente reconhecidas não podem deixar de conduzir a uma outra resposta, a uma adesão e a um consentimento positivo ao pedido feito.
Ao contrário, o filho que não vai para a vinha mas diz que sim ao pai envereda por um processo de mentira, de uma obrigação e opressão que não existe porque também ele tem a liberdade de dizer não como teve a liberdade de não ir depois de se comprometer com o pai que iria trabalhar para a vinha. Este filho não conhece o pai, não conhece a sua liberalidade e julga o pai por si mesmo, pela sua hipocrisia e incapacidade de agir livremente. Inversamente ao irmão rebelde este filho obediente distancia-se do pai e da liberdade que o pai possibilita.
Encontramos também nestas duas atitudes o verso e o reverso da dinâmica do ser cristão, uma dinâmica que não se restringe apenas a uma resposta, a uma apresentação exterior, mas a um compromisso activo, participativo, revelador da resposta verdadeiramente dada. Não basta dizer sim ao pai, é necessário ir de facto para a vinha, mostrar factualmente a resposta afirmativamente dada.
Neste sentido cabe-nos perguntar e avaliar das nossas respostas a Deus, e de como em cada uma delas estamos a respeitar a liberdade que Deus nos dá, uma liberdade que conscientemente não nos pode deixar indiferentes, que inevitavelmente nos tem que dar um outro tipo de relação com Deus e portanto uma outra resposta aos seus pedidos. Afinal a pergunta é como somos livres em Deus e são livres as nossas respostas e os nossos compromissos.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Homilia do III Domingo do Advento

Neste terceiro domingo do Advento, domingo “Gaudete”, é a leitura do livro do profeta Isaías que nos dá o mote da nossa celebração convidando-nos à alegria, a essa alegria esperançada de que o mundo será diferente, de que o deserto e as terras áridas se cobrirão de flores e de beleza, de que as realidades deficientes e insuficientes serão superadas e justificadas.
E com esta alegria e esperança, tal como João Baptista, dirigimo-nos a Jesus e fazemos-lhe a mesma pergunta que lhe fizeram os enviados de João, “és tu Aquele que há-de vir ou devemos esperar outro?”
Mas tal como para João e também para nós a pergunta é um tanto ou quanto descabida, desfasada da realidade de que partimos para a colocar. Assim, não podemos esquecer que, no momento da pregação no deserto, João reconheceu em Jesus aquele de quem ele não era digno de desatar a sandália, reconheceu em Jesus o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo quando este se aproximava para ser baptizado, e mesmo no trecho que lemos hoje do Evangelho de São Mateus é dito que João tinha conhecimento das obras que Jesus operava, ou seja, das curas e dos milagres.
João Baptista tem assim uma noção, uma ideia, da pessoa que é Jesus, da missão messiânica que Jesus está a realizar. A questão, o que está em causa, é a distância entre aquilo que se vê, que João vê, e a realidade que lhe está subjacente, o seu significado. Não é plausível que João esperasse de Jesus o Messias guerreiro, vencedor, libertador do povo de Israel, ainda que seja essa a imagem tradicional e a de maior impacto histórico e que alguns discípulos de Jesus vão acalentar durante bastante tempo apesar dos sinais contrários dados pelo próprio Jesus. A sua proximidade familiar, alguma intimidade vivida no deserto, a possibilidade de Jesus ter sido discípulo de João durante algum tempo, levam-nos a acreditar que João não esperava um Jesus muito diferente do que tem presente diante de si.
Assim sendo, a pergunta que João manda fazer a Jesus é uma busca de sentido para o que vê, mas também para a sua própria situação e missão. João pregou no deserto, foi procurado por multidões, mas agora sofre na prisão e espera o seu fim, pois tem consciência de como tinha sido incómodo, o quanto tinha provocado a ira das autoridades. Terá valido a pena tudo isso? Ou terá sido em vão? Valerá a pena morrer? E morrer por quê ou quem?
A resposta de Jesus é uma citação mais ou menos livre da profecia de Isaías, profecia já antes aplicada a João enquanto precursor do Messias, enquanto aquele que brada no deserto para que sejam endireitadas as veredas e aplanados os caminhos. Jesus confronta assim João com o que tinha sido anunciado pelo profeta Isaías, com o que se estava a passar, e de alguma forma com a missão que João tinha assumido de encarnar uma parte dessa profecia.
E vemos que a resposta de Jesus se dirige directamente a João, à confirmação da fé de João no Messias que via diante de si, quando ao terminar o elenco das obras e dos acontecimentos extraordinários Jesus lhe diz “ e bem-aventurado aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo”. Feliz serás tu João ao não encontrares motivo de decepção, de escândalo, nas coisas que eu faço, mas, acreditando no que está para lá do que vês, aceites sem temor entregar a tua vida, tal como o fizestes até hoje.
Jesus convida João à fé em si, à fé na sua missão messiânica, a perceber que por debaixo daqueles sinais visíveis, e aos olhos de tantos tão pouco significativos, se escondia uma realidade nova, uma realidade totalmente revolucionária que era a da presença de Deus entre os homens, a criação de um novo mundo e uma nova história, e da qual ele João também era participante.
As últimas palavras de Jesus, quando se dirige já à multidão e elogia João, corroboram esta leitura, pois sendo João o maior entre os filhos de mulher, sendo aquele que foi capaz de reconhecer o Messias quando nem sequer ainda havia algum sinal exterior da sua presença, nos reinos dos céus o menor será maior que ele. Ora, o menor no reino dos céus é aquele que se faz nada, é aquele que se aniquila para que os outros sejam, é o próprio Jesus, o Filho de Deus, do qual todos ganham estatura e grandeza, sentido, na medida em que participam do seu mistério, da sua missão, da sua entrega de vida e aniquilação.
Assim, João tem sentido e só se compreende, só se pode compreender a si próprio e à sua missão, aceitando esta participação, aceitando a grandeza invisível que se oculta sob a insignificância do que é visível, aceitando participar antecipadamente e invisivelmente com a entrega da sua vida no mistério invisível da redenção na morte visível de Jesus na cruz.
Na nossa caminhada de discípulos de Jesus, e também nesta caminhada de Advento, vem ao nosso encontro este mesmo desafio, esta mesma necessidade de colocarmos ao serviço da missão de Jesus as realidades que tantas vezes se nos escapam por falta de sentido, a nossa participação pessoal e insignificante no mistério grandioso da redenção.
E quando por vermos tantas coisas sem sentido nos interrogarmos sobre a validade da nossa participação e missão, se é agora que o Senhor está connosco ou nos voltamos para outro salvador, não podemos deixar de trazer à nossa razão e ao nosso coração as palavras de São Tiago “sede pacientes, fortalecei os vossos corações porque a vinda do Senhor está próxima”.
João Baptista na sua missão precursora de Jesus, na sua radicalidade de vida e nesta entrega e participação na missão misteriosa e redentora de Jesus convida-nos a procurarmos viver da mesma forma, a partilhar do mesmo mistério de vida.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Frei Tomás de Sena

Continuamos a divulgação de frades dominicanos do século dezoito apresentando o registo de tomada de hábito e profissão de frei Tomás de Sena, natural de Guimarães, e que professou para exercer o ministério de organista.
Tendo presente esta e outras entradas ao longo do século para este ministério específico percebemos o cuidado que havia no Convento de São Domingos de Lisboa em assegurar um acompanhamento instrumental aos Ofícios Litúrgicos, tão importante para a beleza da celebração. E podemos perguntar-nos se alguma vez existiu alguma produção original, se algum dos frades deixou alguma composição original. Da minha parte desconheço.

1709.Janeiro.21
Tomada de hábito de noviço do coro
Aos 21 do mês de Janeiro de 1709, das sete horas para as oito da noite tomou o hábito de noviço do coro o irmão frei Tomás de Sena, em as mãos do Muito Reverendo Padre frei Manuel de Brito Prior deste convento de São Domingos de Lisboa, em fé do que fiz este assento, dia, mês, ano, ut supra.
Frei Alberto de São Tomás, Mestre de Noviços

1710.Fevereiro.2
Profissão religiosa
Aos dois de Fevereiro de mil e setecentos e dez, em dia da Purificação de Nossa Senhora, depois de Completas, que foram imediatamente junto a Vésperas, professou por filho deste convento de São Domingos de Lisboa o irmão frei Tomás de Sena, sendo Provincial desta Província o Muito Reverendo Padre Mestre frei Manuel de Sena, e Prior deste convento o Muito Reverendo Padre Presentado frei Veríssimo de Lima, em cujas mãos professou, e Mestre de Noviços o padre frei Alberto de São Tomás, ao qual irmão foi dito que pela profissão se obrigava a estreita obediência de nossas Sagradas Constituições e Regra e que se em algum tempo se achasse que ele tinha raça, ou alguma coisa que encontrasse a disposição que nossas Sagradas Constituições ordenam ficaria a profissão nula, o que ele ratificou, o qual é filho legítimo de Francisco da Fonseca Coutinho e de Gracia Sodre Pereira, naturais da vila de Guimarães, e ali mesmo moradores e declaro que este irmão entrou por organista, em fé de que fiz este assento, dia, mês, ano, ut supra.
Frei Veríssimo de Lima, Presentado e Prior
Frei Alberto de São Tomás, Mestre de Noviços
Frei Tomás de Senna

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Se tivesses atendido às minhas palavras… (Is 48,18)

Com que emoção e dor o Senhor desabafa a nossa falta de resposta às suas ofertas, como apesar de tudo não nos deixámos prender pelas suas palavras, não fomos capazes de ser fiéis. E tantas ofertas que Ele nos fez, a paz como um rio, a justiça como as ondas do mar, a descendência para a eternidade, a sua intimidade e amizade incontestável. Mas nós não nos deixámos envolver, não escutámos o seu apelo, não prestámos atenção à sua oferta, bem pelo contrário preferimos o caminho dos ímpios e dos pecadores à senda do seu amor. Em lugar de nos deixarmos guiar por Ele, sabendo para onde nos conduzia e como nos conduzia, preferimos ser como a palha levada pelo vento sem saber como nem para onde.
E quando já era bastante não darmos atenção, olharmos para o lado, decidimos contestar até as ofertas e o que elas significavam. Assim, quando João Baptista pregou o arrependimento e a penitência contestámos a sua dureza, a radicalidade das suas palavras e a extravagância do seu agir no deserto. Como Herodes gostávamos de o ouvir mas nada dele nos fez alterar um passo no nosso caminho.
Quando Jesus nos mostrou a benevolência de Deus, a intimidade a que éramos convidados, o amor que Deus nutre por nós, achámos que era demasiado bom para ser verdade, e quando o vimos estirado sobre a cruz gritámos que tinha ido longe de mais, não era necessário tanto, tinha exagerado em tanto amor e nós não podíamos pactuar com tanto.
E contudo, não deixámos nem deixamos de pedir que Deus se nos revele, que nos fale, que nos mostre o seu poder, que intervenha no mundo e na nossa vida para alterar o rumo das coisas. Continuamos a pedir caminhos quando eles já foram traçados e até em várias vias para que não nos pudéssemos escusar a seguir alguma.
A cada palavra nossa, a cada pedido de uma explicação de Deus, de uma palavra sua para consentirmos alterar a nossa vida, as nossas acções, Deus responde-nos com Jesus, indica-nos que o Filho foi a sua Palavra definitiva, que a verdadeira e única Sabedoria se fez caminho, verdade e vida em Jesus e que as suas obras dão testemunho disso.
Não podemos pedir mais, a resposta está dada e definitivamente.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Sou Eu, o Senhor teu Deus, que te seguro pela mão… (Is 41,13)

Como poderei Senhor temer alguma coisa depois de escutar estas palavras tuas na boca do Profeta Isaías? Como poderei ainda ter medo, duvidar que não estejas comigo e me acompanhas e proteges? Como é possível Senhor…?
Não é um estranho que está comigo, não é alguém distante, não é sequer um deus que me priva da minha liberdade, é o Senhor, aquele que é e sempre será, o que pode dizer sou Eu, Aquele que me criou e deu o ser, porque é, existe e mantém a existência.
E ainda mais que próximo, caminha comigo, estende-me a mão e segura-me para que não vacile, para que não desista, para que não me sinta só. Está comigo e segura-me a mão, para que possa também estender a mão a outros.
A sua mão na minha mão abre-me ao dom e à oferta, não me encerra mas dispõe-me para a entrega. A sua mão na minha mão conforta-me e anima-me, suporta-me e fortalece-me.
Como é possível que alguma vez me tenha sentido só? Como foi possível sentir-me frágil e sem forças, talvez perdido…, se a tua mão me segurava, se a tua mão me encaminhava e guiava.
Senhor meu Deus perdoa-me as vezes que te larguei de mão, que me esqueci de ti, que me esqueci que me levavas como um pai leva o filho pela mão, seguro, cuidado, protegido, amado. Senhor nunca me largues de mão, segura-me forte.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Homilia da Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

Tal como um raio de sol que desponta sobre as montanhas e nos anuncia um dia pleno de beleza e de luz, assim a Imaculada Conceição nos anuncia a chegada da nossa salvação. É a aurora que anuncia a presença do sol divino que vem raiando. E por isso a celebramos neste tempo de Advento, nesta preparação para o Natal, como antecipação amorosa do grande mistério.
Como nos diz São Paulo na Carta aos Efésios “se Deus nos escolheu antes da criação do mundo para sermos santos”, em Maria essa escolha foi cuidada de forma especial, pois era necessário que alguém realizasse a promessa de vitória feita aos primeiros pais no paraíso, era necessário que alguém fosse capaz de dar corpo ao Filho, que houvesse alguém como um jardim paradisíaco para que brotasse nele a nova árvore da vida. Maria foi preservada da mancha do pecado para ser esse novo jardim, o paraíso, esse campo virgem ainda não cultivado onde pudesse nascer sem mancha nem ruga a semente da eternidade.
Maria na sua imaculada concepção é antecipadamente beneficiada do cumprimento do mistério pascal, é a primeira usufruidora da graça e da vida plena que o Filho nos vai alcançar com o seu sacrifício de amor, com a dádiva da sua vida para o resgate da nossa condição de exilados do paraíso e de espoliados da filiação divina.
Mas à nossa semelhança, e ainda que gozando antecipadamente dos benefícios do mistério da encarnação e da redenção, que nós gozamos à posteriori, Maria encontra-se livremente perante Deus para dar uma resposta, encontra-se na nossa mesma condição de aceitar ou rejeitar o convite de Deus.
A preservação face ao pecado não a limitou na sua liberdade de resposta e para que não houvesse qualquer possibilidade de constrangimento ou sedução, qualquer possibilidade de ausência de liberdade total, Deus não se lhe dirige pessoalmente, mas envia-lhe o seu mensageiro, correndo o risco de que alguma coisa falhasse, mas preservando-se desta forma de qualquer acusação de persuasão ou sedução. Deus quer a virgem Maria livre para uma resposta pura e livre.
E da mesma forma age connosco, não se nos dirigindo pessoalmente, mas através da nossa inteligência e da nossa consciência mostrando-nos e indicando-nos onde e como espera a nossa resposta ao seu chamamento, ao seu pedido de incarnação actual do Filho no mundo presente. Deus deixa-nos também livres, padecendo ainda os efeitos da culpa do pecado, mas com a possibilidade de superarmos esses efeitos por intermédio do remédio da sua graça na luz e na força do Espírito Santo. Deixa-nos livres para que de nenhuma forma o possamos acusar de nos ter seduzido ou nos ter constrangido.
E se alguma vez dizemos ou cantamos que o Senhor nos seduziu e nós nos deixámos seduzir, não é porque prescindimos ou nos foi retirada a nossa liberdade, mas porque na proposta de Deus encontrámos o prazer e a realização que aspirávamos encontrar. Há inevitavelmente um diálogo, uma proposta e uma resposta, e como no jogo humano da sedução aquele que seduz só avança depois do seduzido ter aceite, ter dado o sinal verde do seu consentimento e participação.
Como de Maria, Deus espera um sinal nosso e da nossa liberdade, e assim quanto mais nos pede a nossa resposta menos se faz determinante, menos se impõe, mais espaço nos deixa para essa mesma resposta. Deus é liberdade e quer a nossa liberdade e só a nossa recusa dessa liberdade nos conduz ao medo e ao receio que levaram Adão e Eva a esconderem-se quando ouviram os passos de Deus no jardim do paraíso. Não é Deus que nos priva da liberdade mas somos nós que nos privamos em cada recusa, em cada resposta negativa aos seus apelos e convites, à participação e à cooperação que espera de nós.
Ao celebrarmos a Imaculada Conceição celebramos os méritos e os frutos da redenção de Jesus, de que sua mãe é a primeira beneficiada por ter assentido ao convite de colaboração que Deus lhe fez. Mas celebramos também a liberdade humana no que ela tem de condição primordial para que o projecto de Deus se realize, para que a salvação aconteça de facto, celebramos afinal a nossa liberdade na resposta livre que Maria deu ao anjo Gabriel “faça em mim a sua vontade segundo a tua palavra”.
Que o Espírito Santo nos mantenha despertos e vigilantes para sabermos e encontrarmos as respostas livres e cooperantes que o Senhor nos solicita na incarnação presente do seu projecto de amor e salvação.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A ovelha perdida (Mt 18,12-14)

Deus não deixa de nos surpreender e as palavras de Jesus relativamente ao amor de Deus para connosco ainda mais.
O Evangelho de hoje conta-nos a história do pastor que deixa as outras noventa e nove ovelhas para procurar aquela que se desgarrou do rebanho. É uma história simples mas desproporcionada e até reveladora de um certo descuido, de uma falta de segurança que nos molda e marca constantemente.
Assim, se uma ovelha se perdeu não seria mais normal que o pastor tivesse conduzido as outras noventa e nove ao seu redil, à sua casa e só depois disso partisse ao encontro e na busca da centésima ovelha perdida? Não teríamos nós esse cuidado, temerosos que ainda alguma outra se perdesse?
Mas Jesus, e com ele Deus, não tem esse medo, não se importa de arriscar porque o importante é de facto a ovelha desgarrada, é a ovelha que anda perdida e corre perigo, é ela que deve ser buscada e trazida de regresso ao rebanho.
Por esta história e urgência na busca e salvação da ovelha perdida percebemos o amor de Deus para connosco, a sua misericórdia, a sua capacidade de arriscar tudo, até a perda total do rebanho, para nos fazer regressar sãos e salvos até junto de si.
Perante esta história, e o risco subjacente que o pastor corre, como é possível que ainda tenhamos medo de Deus, como é possível que tenhamos medo de arriscar um pouco na busca de qualquer ovelha perdida? Deus arriscou tanto por nós, arrisca em cada dia tanto por cada um de nós na liberdade que nos concede, que nos devemos interrogar como é possível que temamos tanto arriscar um pouco nele e por ele? Como é possível que não confiemos ao ponto de nos entregarmos um pouco àquele que se despojou de tudo e correu o risco de perder tudo para nos levar de regresso ao Pai?
A história da ovelha perdida é assim uma palavra de alento e esperança neste Advento, uma palavra a fortalecer a nossa espera do Deus que se faz menino para nos levar como cordeiros nos braços até junto do Pai e Senhor.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Ao ver a fé daquela gente… (Lc 5,20)

Jesus ficou surpreendido com a fé daquela gente e não era para menos, nós também ficaríamos depois de vermos todos os esforços a que se dedicaram para conseguir introduzir o paralítico que jazia no catre junto de Jesus.
Jesus encontra-se a ensinar quando aparecem uns homens que trazem um paralítico para que seja curado. É difícil a entrada até onde ele se encontra, pois a multidão apinha-se até à porta e não deixam passar aqueles que chegaram mais tarde. Como poderiam deixar então passar alguém que é trazido num catre, alguém que tem de ser acompanhado por outros para que possa chegar a algum lado.
Perante o impossível, a ousadia de arriscar em algo completamente impensável, a ousadia de arriscar uma possibilidade inusitada. Sobem ao terraço, sobem o catre com o paralítico e por entre as telhas descem-no até à presença de Jesus.
Podemos imaginar a surpresa, a estupefacção dos presentes face ao aparecimento do paralítico suspenso no ar, até a crítica que se gerou naqueles que pouco antes os tinham impedido de passar. Como era possível? Como tinham tido tal ousadia?
Contudo, e como Jesus reconhece, era a fé que os movia, era a fé que alimentava a ousadia e por essa fé conseguiram a cura que buscavam, ou mais, conseguiram a cura física e a cura espiritual daquele que ali tinham trazido e introduzido.
Perante os resultados finais dos esforços daqueles homens, a cura do paralítico e a sua salvação, podemos e devemos interrogar-nos sobre a ousadia a que nos conduz a nossa fé. De que modo a nossa fé em Deus, da sua acção sobre a nossa vida, nos leva a esforços extraordinários, nos conduz a possibilidades tão arriscadas quanto ousadas? Teremos nós hoje a ousadia de subir ao terraço da nossa consciência, levar o paralítico connosco no que ele representa de paralisia das nossas vidas, e apresentá-lo a Jesus? Dar-nos-emos ao trabalho de tentar introduzir junto de Jesus aqueles que conhecemos e reconhecemos como paralíticos, necessitados da palavra salvadora de Jesus e da nossa intervenção empenhada e ousada?
Prepararmo-nos para o Natal é também enveredar por esforços para que o menino Deus nasça nos corações daqueles que não conseguem entrar pelos seus meios, que estão paralisados nos seus medos e temores de Deus, é agirmos com fé e confiança de que alguma coisa acontece se da nossa parte não nos escusarmos ou fugirmos aos esforços que nos competem.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Homilia do II Domingo do Advento

O Evangelho deste segundo domingo do Advento apresenta-nos a figura de São João Baptista, aquele que vem anunciar que o Messias está já presente entre os homens, que as profecias antigas estão a ser cumpridas, que o rebento do tronco de Jessé anunciado por Isaías está já a despontar. João é o precursor de Jesus e o último dos profetas do Messias.
Face à sua condição profética e a esta proximidade da realização das promessas feitas ao povo eleito, João assume uma missão e um discurso que são provocadores, que visam levar os seus contemporâneos a despertarem para a realidade presente e para a conversão necessária, para essa necessidade de aplanar os caminhos e endireitar as veredas exigida pelo profeta Isaías.
Como modelo profético e protótipo de comunicação, João Baptista é a imagem perfeita, a plena realização, pois é simultaneamente uma ideia, uma imagem, uma testemunha e uma referência cultural, um todo ao qual acresce a profundidade da sua experiência, neste caso divina, que habitualmente não se encontra nos produtos ou imagens que nos são impingidas pela publicidade e o marketing.
Assim, como nos diz o Evangelho, encontramos João no deserto vestido com uma veste tecida de pelos de camelo e um cinto de cabedal. É a imagem da austeridade e do despojamento daquele que era filho de sacerdote e podia na sua missão profética fazer uso das roupagens tradicionais reservadas aos sacerdotes e aos oficiais do culto. Mas João opta por uma roupa menos confortável, podemos dizer por uma imagem de marca, que o diferencia do resto dos comuns.
Não é uma questão de somenos porque, à luz dos dados que nos são fornecidos pela antropologia, a roupa, a farda, a forma como nos apresentamos socialmente, determina e é determinada pela nossa própria missão e sentido de comunicação. Desta forma João assume pela extravagância do seu vestir a imagem de ruptura com a sociedade de que fazia parte e a hierarquia de que era membro pela progenitura. O vestido de pelo de camelo e o cinto de cabedal são também um sinal profético, um sinal da pobreza e austeridade que se exigia e da conversão necessária para o acolhimento do Messias.
E se o profeta Isaías diz que o rebento do tronco de Jessé será cingido pela justiça e pela lealdade, o cinto de cabedal com que João se cinge profetiza essa mesma lealdade e justiça na necessidade que sofre de um acolhimento verdadeiro, de uma prática fiel e consentânea com a lei divina.
Nesta forma de comunicação, neste assumir profético da vida, não podemos esquecer o lugar no qual João habita, o lugar no qual exerce a sua missão, o deserto, que é por excelência no mundo bíblico o lugar da comunicação de Deus. Ao falar no deserto João reivindica uma credibilidade que lhe é fornecida pelo mesmo deserto. Assim, se Oseias para reivindicar e tornar patente a prostituição do povo eleito se casa com uma prostituta, também João ao assumir a vida no deserto reivindica e patenteia o mesmo deserto em que o povo vive, porque o deserto é o mundo sem Deus, e os homens de Israel vivem à margem de Deus.
João vive como um marginal no deserto para mostrar a marginalidade do povo em relação a Deus, mas também para apelar ao regresso do povo ao deserto, à experiência do encontro do povo com Deus, à escuta da sua palavra. Tinha sido no deserto que Deus tinha dado a lei, tinha sido nesse mesmo deserto e momento que o povo tinha cometido o maior dos seus pecados ao fundir um touro em ouro para o adorar, mas tinha também sido nesse mesmo deserto e nesse mesmo momento que Deus salvador se tinha mostrado misericordioso e verdadeiramente Deus ao não aniquilar o povo pela falta cometida.
Ao clamar no deserto João faz-se voz de Deus, faz-se uma vez mais sinal da presença amorosa de Deus, presença salvadora e por isso quando os fariseus e saduceus se aproximam para receber o baptismo de penitência João não pode deixar de reclamar deles obras consentâneas com o que estavam a fazer publicamente. Não havia mais espaço nem tempo para contemporizações, para vidas duplas, porque Aquele que João anuncia virá para exercer a justiça e observar a fidelidade.
Esta fidelidade e justiça, anunciada pelo profeta Isaías como faixa e cintura do Messias, convertidas em necessidade de conversão no cinto de cabedal que segura as roupas de João, serão manifestadas de uma forma sublime no momento da última ceia quando Jesus se envolver com uma faixa de linho para lavar os pés aos seus discípulos e neles a toda a humanidade. Aí estará a verdadeira justiça e fidelidade, nesse momento de total abaixamento, de total serviço ao outro, de última manifestação do mistério de Deus que vem ao nosso encontro na humildade para nos libertar dos nossos pecados.
Por isso João clama no deserto, eleva a sua voz, faz premente a necessidade de mudança de vida e de coerência. Voz que também se dirige a nós, a cada um de nós, e nos exorta e apela a uma conversão, a um deixarmos queimar pelo fogo do Espírito as obras mortas como palha seca, para que possam ganhar vigor os rebentos que despontam de fidelidade e virtude.
Nesta caminhada adventícia para o Natal escutemos a voz de João e deixemos que o Espírito, esse fogo purificador que recebemos com a água do baptismo, nos vá purificando, nos vá renovando, nos vá aquecendo e iluminando na busca que fazemos do Senhor nos desertos tantas vezes ressequidos das nossas vidas. Que venha sobre eles o orvalho da Graça e a chuva do Justo para o pleno florescimento.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Frei André de São Paulo

Prosseguimos a apresentação de frades dominicanos do século XVIII. Desta feita apresentamos frei André de São Paulo, natural de Santa Maria de Vilar do Porro, hoje pertencente ao Concelho de Boticas.
Tomou o hábito de irmão Converso no Convento de São Paulo de Almada a 27 de Março de 1705 e fez o seu noviciado no Convento de São Domingos de Lisboa de 10 de Agosto de 1706 a 11 de Agosto de 1707 dia em que professou nas mãos do Prior do dito convento frei Rodrigo de Lencastre.
Por estes registos podemos também ficar a saber que pelo menos neste triénio frei Alberto de São Tomás foi o Mestre de Noviços do Convento de Lisboa.

1705.Março.27
Tomada de hábito de irmão converso em Almada
Aos 27 de Março de 1705 pelas quatro para as cinco horas da tarde, tomou o hábito de converso no Convento de Almada, o irmão frei André de São Paulo, natural do lugar de Vilar do Porro, freguesia de Nossa Senhora da Assunção, Comarca de Chaves, filho de Domingos Afonso e de sua mulher Antónia Fernandes e de como tomou, e recebeu o hábito das mãos do Padre Prior de São Paulo de Almada, o Padre frei José de São Joaquim, fiz este termo, em fé de que me assinei aqui, dia, mês, ano, ut supra.
Frei Alberto de São Tomás, Mestre de Noviços
Frei André de São Paulo

1706.Agosto.10
Início do Noviciado
O Irmão frei André de São Paulo começou o seu ano de noviciado em dez do mês de Agosto de 1706, às três horas da tarde antes de se começarem as segundas vésperas de São Lourenço, em fé do que fiz este assento, dia, mês, ano ut supra.
Frei Alberto de São Tomás

1707.Agosto.11
Profissão religiosa
Aos onze do mês de Agosto de 1707 professou por filho do Convento de São Paulo de Almada o irmão frei André de São Paulo, sendo Provincial desta Província o Muito Reverendo Padre Mestre frei Manuel de Sena, e Prior deste Convento o Muito Reverendo Padre Mestre frei Rodrigo de Lencastre deputado do Santo Oficio, em cujas mãos professou, e Mestre de Noviços o Padre frei Alberto de São Tomás, ao qual irmão foi dito, que pela profissão se obrigava a estreita obediência de nossas Sagradas Constituições e Regra e que se em algum tempo se achasse que ele tinha raça ou alguma coisa que encontrasse a disposição delas, ficaria a profissão nula, o que ele ratificou; o qual é filho legítimo de Domingos Afonso e Antónia Fernandes, sendo baptizado na freguesia de Nossa Senhora da Assunção do Lugar do Porro termo de Chaves; declaro que professou depois da missa do dia, em fé do que fiz este assento, dia mês ano ut supra.
Frei Rodrigo de Lencastre, Prior
Frei Alberto de São Tomás, Mestre de Noviços
Frei André de São Paulo

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Seja feito segundo a vossa fé (Mt 9,29)

O encontro de Jesus com os dois cegos é um relato que se desenvolve em dois níveis, em dois momentos que se diferenciam pela distância, pelo título dado a Jesus e pela própria acção levada a cabo por cada um dos intervenientes.
Assim, num primeiro momento encontramos Jesus em caminho e dois cegos que de longe invocam a sua misericórdia. Não sabendo nem tendo outro conhecimento, ou um conhecimento mais intimo, chamam Jesus de “filho de David”. Para eles e naquele momento era o título cristológico possível e aceitável pois ainda não tinham partilhado da intimidade de Jesus, da sua acção salvadora.
Já em casa, partilhando da intimidade de Jesus podem responder ao questionamento sobre a sua fé chamando Jesus de “Senhor”. Houve uma alteração nas suas vidas e na relação com Jesus que agora não é já um estranho, mas alguém que se relaciona com eles e os questiona sobre a possibilidade de lhes fazer aquilo que pedem. A alteração acontece ainda mesmo antes de acontecer o milagre.
O narrador evangelista não nos diz o que solicitavam de Jesus, ainda que posteriormente se perceba que era a cura da sua cegueira, pois é disso que Jesus os vai curar. Contudo, e para além dessa cura física, estava em causa a sua fé, a confiança que depositavam em Jesus de que ele podia fazer alguma coisa por eles, operar uma mudança significativa nas suas vidas.
Tudo no relato concorre para mostrar o poder de Jesus, o seu poder taumatúrgico, mas também e sobretudo para mostrar a necessidade da fé e do seu poder, da sua capacidade operativa. A fé opera milagres, a confiança em Jesus pode realmente alterar a nossa vida, o curso das coisas. E por isso são tão significativas as palavras de Jesus “seja feito segundo a vossa fé”.
Palavras significativas e desafiantes porque colocam em questão a nossa fé, ou seja a sua profundidade, a sua convicção plena e a confiança total. Quantas vezes quando solicitamos alguma ajuda a Jesus o fazemos de uma forma tão superficial, quase sem confiança de que alguma coisa realmente pode acontecer? Quantas vezes, os nossos pedidos, as nossas orações, não sofrem dessa falta de intimidade de que sofriam os cegos enquanto estavam no caminho e solicitavam a misericórdia de Jesus?
E é na intimidade que se descobre o Senhor, que se nos revela o que verdadeiramente pedimos, que nos confrontamos com a nossa confiança tanto mais ou menos segura, que Jesus nos responde que tudo será feito de acordo com a nossa fé, com a confiança que colocamos nele.
Peçamos assim a Deus a cura da nossa cegueira, dessa cegueira da falta de confiança.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Onde iremos buscar pão? (Mt 15,33)

Por duas vezes encontramos no Evangelho de São Mateus o milagre da multiplicação dos pães. Por duas vezes Jesus sente compaixão pela multidão que o escuta e sem alimento não pode regressar a suas casas. Por duas vezes Jesus interpela os discípulos no sentido de saber quais as provisões para alimentar toda aquela gente.
Os discípulos são colocados em questão e por isso um pouco mais tarde, no capítulo 16, ao entrarem na barca para atravessarem o lago, na expectativa da possibilidade de uma terceira multiplicação dos pães, vão questionar-se sobre o pão que lhes falta e vão recriminar-se por não o terem trazido.
Estes dois milagres colocam no entanto para os discípulos e para cada um de nós uma questão profundamente central no nosso seguimento de Jesus e na nossa fé. A nossa cooperação e partilha da missão, ou melhor, da misericórdia de Deus para com os homens e mulheres. Porque afinal quando Jesus se questiona como alimentar aquelas multidões fá-lo por misericórdia, porque tem pena delas, sente a sua fraqueza e sua incapacidade para ir muito mais além. Não podemos esquecer que tinham vindo de longe e neste segundo relato é-nos dito que muitos deles eram doentes, coxos e surdos, que Jesus curou, portanto inevitavelmente pessoas frágeis e fragilizadas.
Ao solicitar o pão aos discípulos e, depois de ter dado graças ao Pai, ao entregar esse mesmo pão aos discípulos, Jesus está a mostrar a necessidade que tem da humanidade para a difusão da sua misericórdia, como nos chama a ser canais do seu amor e da razão e sentido da sua encarnação. Jesus quer e necessita que sejamos as suas mãos, o seu corpo, os seus olhos, o seu coração e o seu amor junto daqueles que sofrem, que estão sós, abandonados, junto daqueles que necessitam de uma palavra ou de um pão.
E quando nos desculpamos da nossa incapacidade, tal como acontece com os discípulos somos interrogados sobre o que temos. E por vezes temos alguma coisa, outras vezes possivelmente só sete pães e dois peixes, mas é desse pouco que Jesus se vai servir para saciar a multidão. Jesus não necessita de muito, necessita apenas do pouco que temos, desse pouco que pela força do Espírito Santo pode ser multiplicado, transformado e saciar.
A multiplicação dos pães mostra-nos assim como Jesus age milagrosamente, como manifesta a sua misericórdia mas como nessa acção e manifestação conta connosco, conta com o que pouco que consideramos ter. Na medida em que lho entregarmos, em que lho ofertarmos, o receberemos de volta, transfigurado pela força de Deus e potenciado para realizar e satisfazer de uma forma insuspeita e inimaginável à nossa razão as necessidades que conhecemos e encontrarmos.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vinde e segui-me. (Mt 4,19)

A festa de Santo André neste início de Advento dá-nos a oportunidade de nos encontrarmos uma vez mais com o convite de Jesus ao seu seguimento. Caminhando ao longo das margens do lago Jesus passa por Pedro e André e diz-lhes apenas “vinde e segui-me”. Pouco depois chama também Tiago e João fazendo o mesmo convite.
E eles deixaram tudo e seguiram Jesus, sem o conhecerem, sem terem visto qualquer milagre, sem conhecerem mais nenhuma palavra dele. Abandonaram tudo por nada, ou por quase nada, pois tinham Aquele que os convidava a segui-lo.
Vinde e segui-me é o mesmo convite que nos é dirigido em cada dia, neste processo de procurarmos viver na peugada de Jesus, e como a Tiago e João, a André e a Pedro, apenas nos resta a pessoa de Jesus, a garantia da sua palavra de que seremos diferentes naquilo que somos e fazemos.
Jesus convidou-os a deixar as redes da pesca para serem pescadores de homens, uma tarefa estranha e tão incompreensível quanto o conhecimento que tinham de Jesus. A nós, a cada um de nós, pede-nos que deixemos as nossas redes, signifiquem elas o que significarem, para O seguirmos e nos dedicarmos também à pesca de homens.
Para Pedro e André, Tiago e João, foi necessário experimentarem a intimidade de Jesus, conhecerem a sua palavra, passarem pela cruz e pela ressurreição, para perceberem ao que Jesus os convidava e enviava. Só depois da força do Espírito Santo puderam definitivamente deixar as suas redes de pescadores para se dedicarem à realização do convite de Jesus.
Também a nós nos faz falta essa experiência da intimidade de Jesus, esse conhecimento da sua palavra e a passagem pelo mistério da cruz e da ressurreição para sabermos como através das nossas redes, trabalhadas ou abandonadas, podemos ser verdadeiramente pescadores de homens.
A resposta para o como o fazer é um tanto ou quanto imprecisa, díspar, porque tanto pode significar o martírio como a cruzada, tanto pode significar a liberdade como a escravidão. A história da Igreja em dois mil anos mostra-nos os modos como tentámos pescar homens para o Reino de Deus e como algumas vezes com os mínimos esforços fomos capazes e outras vezes com grandes forças só cometemos erros tremendos.
Um episódio ocorrido em 1511 na ilha da Espanhola com um grupo de frades dominicanos pode dar-nos uma luz. Enviados para acompanhar os conquistadores espanhóis depararam-se com uma situação ultrajante de injustiça contra os índios e verdadeiros senhores daquelas terras. No quarto domingo do Advento de 1511, frei António de Montesinos, sob preceito formal da comunidade, prega o sermão do Percursor do Messias, São João Baptista, e face a tanta violência e injustiça, pergunta aos civilizados conquistadores espanhóis, “por acaso não são eles também homens?”. E tudo explode, critica, violência, marginalização, acusação ao rei. Os frades tinham posto em causa o mundo que tinham construído, o império sonhado e conquistado defendendo os direitos à terra de uns índios que nem sequer eram considerados gente.
Contudo, se os frades puderam colocar em causa o que viam, a injustiça a que assistiam, foi porque previamente se tinham assumido como profetas, tinham assumido ser a voz daqueles que não tinham voz, tinham assumido ser leais aos homens e fiéis a Deus. A força do Espírito para tal veio-lhes pela formação teológica que tinham recebido, o conhecimento da Palavra de Deus que tinham adquirido, mas também da ascese de vida a que se tinham dedicado. Eram pobres entre os pobres e para falarem de Deus e dos direitos dos homens naquele quarto domingo do Advento tinham passado uma semana de oração intensa, de vigília constante e de jejum.
Só confiados no Senhor e entregues ao seu poder salvador poderemos realizar o seu mandato. Colocando nele as nossas fraquezas encontraremos a sua força.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Senhor, eu não sou digno (Mt 8,8)

No pórtico de entrada do Advento o encontro de Jesus com o centurião, um encontro de duas vontades, o encontro de duas dignidades, um encontro de palavra.
O centurião vem suplicar a Jesus pelo seu servo paralítico que jaz em casa sofrendo horrivelmente. Tem vontade que o seu servo seja curado, manifesta uma predilecção, uma compaixão que comunica a Jesus, confiado numa compaixão maior. Jesus por seu lado, e perante tal manifestação de abertura ao outro e ao seu poder salvador, dispõe-se a ir a casa do centurião curar o paralítico. Jesus tem vontade de ir, e de ir curar aquele que jaz enfermo.
Mas entre as duas vontades e as necessidades expressas um abismo de dignidade, um reconhecimento por parte do centurião “Senhor eu não sou digno”, Senhor eu não estou à altura, Senhor eu não sou, não sou como tu és.
Maravilha de fé e de consciência, de reconhecimento já não da sua pequenez, ainda que senhor de homens que lhe obedecem, mas da sua inexistência, da sua incapacidade de ser face àquele que é em toda a sua expressão de ser.
Senhor eu não sou, mas diz uma palavra e serei, poderei alcançar o ser que és, o meu servo que sou eu na minha inexistência poderá ser curado, e então eu poderei ser digno de te receber. Tu palavra criadora, palavra redentora, que dás vida e a perpétuas. Uma só palavra basta Senhor.
Encontro paradoxal este entre Jesus e o centurião, e imagem de um outro encontro, desse encontro da Palavra com a humanidade. Não somos dignos Senhor de que venhas até nós, que venhas até à nossa casa humana, a este corpo tão perecível e inconstante. Mas vens Senhor, viestes e vens em cada instante e queres continuamente vir, é tua vontade vir até nós. Que saibamos reconhecer a nossa ausência de ser, de incapacidade para te receber, para que a tua palavra nos transfigure e um dia possamos sentar-nos como o centurião com Abraão, Isaac e Jacob à mesa do teu Reino.

domingo, 28 de novembro de 2010

Homilia do I Domingo do Advento

Iniciamos um novo ano litúrgico e o tempo do Advento, este tempo de preparação para vivermos e fazermos memória do mistério da Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo nosso Senhor. E ao iniciarmos este novo tempo e ano, a liturgia da Palavra nas suas leituras deixa-nos um convite, a caminhar, a despertar do sono, a andar dignamente, a vigiar e a estar preparados. Um conjunto de atitudes que nos devem marcar, e nos devem marcar de tal forma, que permita que os outros reconheçam em nós homens e mulheres que sabem que estão neste mundo mas não são deste mundo, que sabem que um dia serão arrebatados dele independentemente do que estejam a fazer.
A leitura da profecia de Isaías deixa-nos esse convite de caminharmos à luz do Senhor, ou seja de que não tenhamos uma atitude passiva na nossa fé e na nossa integração no mundo e sociedade que nos rodeia; um convite que nos solicita também a um despojamento e a uma libertação das cargas que transportamos para mais facilmente caminharmos.
Quantas vezes damos por nós instalados, poderíamos até dizer preguiçosamente instalados, não aceitando que necessitamos uma certa disciplina de vida, um despojamento de muitas coisas que consideramos necessárias, mas que de facto não nos servem de muito e, mais frequentemente do que assumimos, impedem-nos de sermos mais livres, mais nós próprios, mais abertos e disponíveis para os outros.
Quantas vezes, por uma certa ideia de não pactuar com as coisas do mundo, não nos refugiamos na nossa fé e comunidade e fugimos das urgências desse mesmo mundo que nos solicita e tão frequentemente exige um testemunho mais convicto e coerente. Quantas vezes para ter a consciência mais tranquila quanto às nossas obrigações, mais descansada na fé e no que aprendemos na catequese, não nos aventuramos nem nos responsabilizamos numa formação mais profunda e num conhecimento mais sério da Palavra de Deus.
E isto porque o convite de Isaías a caminhar é um convite a caminhar à luz do Senhor, ou seja conhecedores e conscientes de quem o Senhor é, e do que nos pede. E é importante este caminhar consciente e responsável, porque só sabendo de onde vimos, para onde vamos e quem somos poderemos de facto e em verdade caminhar para o nosso verdadeiro fim, contemplar a face de Deus cara a cara. Neste sentido é necessário não só conhecer a Palavra de Deus, no que ela nos revela do próprio Deus, no que nos está prometido e no que nos é pedido como vida comprometida com esse fim, mas também o que somos na nossa condição humana, nesta corporeidade que nos marca e tantas vezes consideramos como impedimento para a caminhada fiel, esquecendo-nos que não há outra via possível e o mistério da Encarnação que celebramos nos Natal nos confirma isso mesmo.
São Paulo na Epístola aos Romanos corrobora o mesmo convite de Isaías alertando-nos para a necessidade de nos levantarmos, de andarmos dignamente como em pleno dia, pois a salvação está mais perto de nós. E para o podermos fazer devemos revestir-nos do próprio Senhor Jesus Cristo.
E, verdade seja dita, muitas vezes vivemos como se estivéssemos adormecidos, deixando-nos embrenhar e envolver de tal modo pelas solicitações do dia a dia, pelas necessidades mais urgentes, que somos incapazes de ver a relatividade de muitas delas e a necessidade que temos de temperar tudo isso com a justiça, a verdade e o amor de Deus. Muitas vezes vivemos de tal modo encarcerados num desejo de salvação pelas nossas forças e conquistas que nos esquecemos, como diz São Paulo, que a salvação está perto de nós, está mesmo à nossa mão, e que como Adão no paraíso apenas temos que estender a mão e colhê-la. Como fruto foi-nos já oferecido por Aquele que aceitou entregar a sua vida na cruz para nos resgatar da condição da morte e do pecado.
Aceitando e colhendo este fruto a nossa vida torna-se luz e podemos dizer que caminhamos em pleno dia à luz do Senhor. Aceitando e colhendo este fruto assumimos que a nossa vida tem uma outra dimensão, foi transfigurada pela encarnação do Filho de Deus e pelo baptismo fomos mergulhados no oceano dessa transfiguração, que espera e deseja a plena realização.
Contudo, e como nos diz Jesus no Evangelho é necessário uma vigilância, um olhar constante sobre o que fazemos, de modo a dar dignidade a tudo isso e sobretudo essa dimensão divina que todas as coisas estão chamadas a assumir e que nós estamos corresponsabilizados a outorgar. Se o fizermos, quando chegar o momento do arrebatamento de que fala Jesus, estaremos tranquilos e confiantes, pois quer no campo ou quer agarrados à mó, onde quer que estejamos e o que quer que façamos, estaremos inevitavelmente já em Deus, participando e partilhando da sua vida divina, da sua graça transfigurante e divinizante.
Peçamos assim ao Senhor que veio até nós, que vem e virá sempre que nos disponibilizarmos para O acolher e fazer vida em nós, que não deixe de bater à nossa porta e de insistir para que a abramos. Que o tempo frio destes dias de Inverno, propícios aos recolhimento, nos ajude a estar mais atentos aos sinais da sua vinda e à sua presença tantas vezes silenciosa na nossa vida tão cheia de ruído e de outras luzes ofuscantes da sua luz e da sua voz.

sábado, 27 de novembro de 2010

Vigai e orai (Lc 21,36)

Terminamos o ano litúrgico e preparamo-nos para iniciar um outro a partir de amanhã, primeiro domingo do Advento. E não podia ser mais eloquente o conselho que o Senhor nos deixa nesta passagem de anos litúrgicos, em cada passagem de ano, em cada momento da nossa vida. Vigiai e orai.
E vigiamos e oramos porque nos sabemos débeis, frágeis, porque vivemos num mundo e em diversas circunstâncias que atentam contra a nossa fidelidade ao Senhor Jesus, que nos empecilham na caminhada de uma vida mais consentânea com o seu mandamento do Amor, com o mistério da sua encarnação.
Por todas estas razões é necessário vigiar, porque sem vigilância o nosso corpo e o nosso espírito tendem a deixar-se enredar na intemperança, nas múltiplas embriaguezes, nos excessos que nos corroem o corpo e a alma; porque sem vigilância nos deixamos submergir pelas preocupações da vida, enterrando-nos muitas vezes em necessidades que são puros devaneios ou gratificações de um vazio que ainda não soubemos ou não quisemos preencher com o que de verdade o preenche.
E oramos porque sabemos que há uma força que nos pode ajudar a superar as dificuldades e as tentações, porque sabemos que não somos deste mundo ainda que estejamos nele, estamos apenas de passagem, e por isso é necessário manter orientada a nossa bússola no norte que é Deus. E oramos porque tal como comemos para nos mantermos vivos, e fazemos exercício físico para nos mantermos saudáveis, também a alma e o espírito necessitam exercitar-se e alimentar-se. A oração é o exercício e a mesma alimentação.
O peregrino russo nos seus relatos conta-nos que foi esta mesma recomendação de Jesus que o levou a peregrinar em busca da forma como viver esta recomendação, afinal como vigiar e orar em todo o tempo. Nós não podemos peregrinar como ele por terras longínquas em busca de um mestre que nos ensine, as circunstâncias da vida não nos permitem. Por essa razão, e porque mais longe que vaiamos existe apenas um mestre, temos que nos satisfazer com buscar esse único mestre que mais longe ou mais perto está sempre ao nosso dispor, Jesus o Filho de Deus.
O mistério da Encarnação de Jesus, que a partir de amanhã começamos a preparar com o tempo litúrgico do Advento, é o mapa da nossa busca, o caminho certo por onde vigilantes e de coração aberto podemos peregrinar ao encontro daquele nos deseja colmar de todos os prazeres e delícias. Caminhemos confiantes ao encontro do Senhor.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Erguei-vos e levantai a cabeça (Lc 21,28)

Podemos ler o discurso escatológico em que se inserem estas palavras de Jesus numa dimensão histórica ou meta histórica. Podemos ver nele a repercussão da queda de Jerusalém às mãos dos exércitos romanos no ano 70, mas também a revelação dos sinais que conduzirão ao fim dos tempos e da história.
Há no entanto uma outra leitura possível, uma leitura alegórica, mas que ainda assim vai ao encontro desta recomendação de Jesus de nos erguermos e levantarmos a cabeça. É uma leitura pessoal, uma leitura espiritual, que decorre da nossa vida enquanto processo de fidelidade ou fidelização ao convite de Jesus de o seguirmos com a nossa cruz.
Assim, podemos ver nas várias situações de catástrofe, de violência, de morte, a situação em que nos encontramos neste mundo, uma situação de luta e combate contra o mal, contra as várias forças que nos impedem ou tentam impedir de ser mais livres, mais coerentes com a nossa condição de filhos de Deus e discípulos de Jesus Cristo.
Perante estas realidades, estas situações, que nos podem desanimar, que nos podem fazer vacilar na confiança e na esperança de que Deus está ao nosso lado e nos protege, a proposta de Jesus não é só a perseverança fiel, mas uma perseverança activa, confiante. Não podemos estar de braços cruzados, perseverantes incontestavelmente, mas quase que masoquisticamente sofrendo porque nos foi recomendado que perseverássemos.
A proposta de Jesus é que perante as dificuldades, perante as forças destrutivas que nos podem querer abalar e abater, ergamos a cabeça, perseveremos erguidos sobre as nossas próprias fragilidades e tentações, esperançados de que não só a nossa libertação está próxima mas ela vem já ao nosso encontro na mesma medida em que nos erguemos e olhamos de frente as realidades. É uma questão de fé e de confiança na sua operacionalidade, na sua força de vida e vivificante.
E ao erguer-nos e levantarmos a cabeça deparamos com Aquele que está preso na cruz, com Aquele que no momento de total aniquilação ergueu a cabeça e entregou o seu espírito ao Pai porque só essa entrega o podia libertar daquela situação de violência e dar sentido a toda a perseverança vivida.
Ergamo-nos portanto e levantemos a cabeça para olhar Aquele que à nossa frente nos mostra o caminho da perseverança e do combate convicto da vitória.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Mártires Dominicanos do Vietname

A Ordem dos Pregadores celebra hoje a memória dos mártires do Vietname, a memória daqueles frades e irmãos leigos que, na sua maioria durante o século XIX, deram a vida por Jesus Cristo naquelas terras do Oriente. São cinquenta e nove mártires entre bispos, sacerdotes, leigos catequistas, membros da fraternidade sacerdotal de São Domingos.
Recordo de modo especial o Mártir frei Jerónimo Hermosilla, e faço-o porque no mês de Maio passado, quando fazia o Caminho de Santiago, e depois de ter celebrado a Eucaristia na Catedral de Santo Domingo de la Calzada, um sacerdote presente também na celebração me conduziu até junto do altar que lhe está dedicado numa das capelas da catedral.
Não sabia e jamais podia imaginar que ali estivesse um altar dedicado a um dos mártires dominicanos do Vietname. Contudo, sabendo hoje que frei Jerónimo Hermosilla era filho daquela cidade, é por mais natural que lhe tenham dedicado um altar numa das capelas da catedral.
Frei Jerónimo nasceu em Santo Domingo de la Calzada em 1800, a 30 de Setembro. Com vinte e três anos professou no Real Convento de São Domingos de Valença, depois de já ter iniciado os seus estudos teológicos no seminário daquela diocese.
Imediatamente após a ordenação de sub diácono oferece-se voluntário para as missões, sendo por isso enviado para Manila, na altura a grande plataforma missionária da Província do Rosário no Oriente, para aí completar os seus estudos e aprender as línguas necessárias à missão.
Em 1829 chega ao Vietname e inicia uma difícil tarefa de evangelização, pois para além das dificuldades de ambientação e cultura tem que enfrentar as ameaças e perseguições de que os missionários cristãos são objecto. Em 1839, passados dez anos sobre a sua chegada, dois bispos missionários dominicanos são martirizados, D. frei Domingo Henares e D. frei Clemente Ignácio Delgado. É um rude golpe na organização de dinâmica da Igreja.
Para que as comunidades não ficassem sem pastor frei Jerónimo Hermosilla é nomeado bispo, embora só em 1841 e depois de uma longa e penosa viagem possa ser consagrado como tal. A sua principal missão é reorganizar o Vicariato Apostólico enfraquecido e dizimado pelas perseguições constantes. Enquanto bispo foi um grande animador das comunidades imitando nas condições possíveis o grande amor de São Paulo pelas suas comunidades. Assim viveu e lutou durante vinte anos.
Em 1861 é detido pelas autoridades e exposto a duríssimos dias de prisão, ou melhor de enjaulamento, pois no diminuto local onde o colocaram não se podia mover, apenas estar de joelhos ou sentado. A 1 de Novembro desse mesmo ano é degolado juntamente com frei Valentim Bérrio Ochoa e frei Pedro Almató. Dias mais tarde o seu fiel catequista e ajudante José Khang, que o tinha tentado defender aquando da captura, é também executado.
Tinham passado ainda poucos anos, nem meio século, sobre o sucedido martírio quando o Papa Pio X beatifica em 1906 frei Jerónimo Hermosilla. A 19 de Junho de 1988 é canonizado pelo Papa João Paulo II juntamente com os outros 117 mártires vietnamitas.
Para os dominicanos do Convento de São Domingos de Lisboa a celebração da memória destes mártires do Vietname adquire um significado ainda mais festivo na medida em que na dedicação da igreja conventual foram colocadas relíquias sob o altar dos mártires frei Pedro Almató e frei Melchior Garcia Sampedro.