quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Votos de Ano Novo

O Senhor te abençoe e te proteja.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face e te seja favorável.
O Senhor volte para ti os seus olhos e te conceda a paz.


É esta a bênção que Deus revela a Moisés para os filhos de Israel. São estes os meus votos para todos os amigos e amigas que frequentam o blogue, que partilharam e partilham a caminhada ao encontro do Verbo ao modo e estilo de São Domingos, nosso pai.

Meditação de Natal - 5

As chuvas de inverno tinham passado e o campo em flor convidava a sair. Havia no ar uma promessa de fertilidade, de frutos a brotar, de uma felicidade anunciada.
E tu chegastes como uma brisa suave ou um raio de luz quase imperceptível numa manhã de sol e paz. Eras um convite, uma proposta, uma revolução na minha vida já traçada pelos homens, eras uma mudança radical de projectos e futuro. Tudo passaria a ser diferente.
E perguntei como seria possível, se eu não conhecia homem e se estava prometida a um homem que esperava por mim para ser sua esposa e mãe dos seus filhos. Mas como poderia conhecer alguém e estar prometida se era por ti que esperava, se era para ti que desde sempre tinha sido preservada e protegida? E ainda hoje é por ti que sou protegida e preservada.
No momento e apesar das interrogações não alcancei toda a dimensão da proposta e do convite. Ser a mãe de Deus, do Salvador de Israel? Agora olho para ti, frágil menino nos meus braços e uma vez mais me interrogo, serei a mãe de Deus? Que Deus é este que se faz menino? Como nos salvarás lindo menino?
Tomei consciência dos riscos que acarretava a resposta ao teu convite, à tua proposta de maternidade quando José me disse que me repudiaria em segredo. Ele é um homem justo, é um homem que me ama, e por esse amor não quis que sofresse o castigo reservado pela lei de Moisés às mulheres que aceitam ser mães fora da união matrimonial. Foi um sinal do seu amor mas foi também um momento de dor, da dor de me sentir estranha ao homem que amava e me amava. A brisa suave que eras transformava-se em vento de tempestade, revoltando já não as flores do campo mas as folhas velhas e secas das nossas relações organizadas e projectadas pelas leis patriarcais ancestrais.
Mas uma noite tudo mudou. Creio que também a José lhe fizestes a mesma proposta e convite que a mim, alterar a sua vida, entregá-la nas mãos de Deus que com a sua colaboração se fazia Deus connosco em ti. És irresistível nas propostas que fazes de alteração de vida, parece que te comprazes em que deixemos de lado os nossos planos para arriscar e aventurar-nos nos teus planos. Sempre fostes assim e não acredito que mudes algum dia. Gostas que as pessoas nada tenham por certo e garantido senão o amor de Deus e a sua protecção. Pergunto-me que partidas me terás reservadas para o futuro.
Tranquilizadas as nossas vidas nesse projecto que não era nosso mas teu, no qual nós não tínhamos qualquer poder, parti ao encontro da nossa prima Isabel. Foi caminhando pelas montanhas da Galileia que percebi um pouco mais do convite que me tinhas feito, que nos tinhas feito. Tu vinhas ao nosso encontro, eu transportava-te no meu seio, para que nós aprendêssemos a transportar-te nos nossos corações e a ir ao encontro do outro. Se o nosso Deus descia da sua glória para habitar connosco, para ser um connosco e como nós, como nos poderíamos recusar a descer ao nível do outro a visitá-lo e a ser um com ele e como ele?
No entanto quero dizer-te que não é fácil e há poucos dias experimentámos isso, eu e José. É verdade que ninguém sabia que receberia o Salvador do mundo, e não sei se mesmo sabendo nos receberiam, mas passámos uma noite em vão batendo de porta em porta para que nos acolhessem e ninguém nos quis acolher. Estavam todos demasiados ocupados, nas suas hospedarias e casas e também nos seus corações e portanto nada disponíveis para acolher alguém que parecia prestes a dar à luz. Não é fácil acolher o outro em situação problemática, é inevitavelmente uma complicação.
Tu certamente um dia passarás por isso, baterás à porta e não te abrirão, estarão demasiado ocupados com o seu mundo pequeno e ruidoso, com as suas verdades feitas e riquezas adquiridas. Mas acredito que outros te abrirão as portas, aqueles que não são queridos por ninguém, aqueles aos quais também muito poucas portas se abrem, aqueles que buscam com as suas limitações a verdade e a justiça. E quando tal acontecer farás festa com eles. Sei que será assim porque tu és uma festa, um dom, um presente, um banquete destinado a saciar os que têm fome, todas as fomes. Foste-o para mim e para José serás também para aqueles que te acolherem como seu Deus e Salvador.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Meditação de Natal - 4

Olho-te embevecido e tu sorris, estreito-te nos meus braços e tu contemplas-me. Eu bato à porta e chamo, quem abrir será minha morada. Tu bateste à minha porta e eu quase não dei por isso e por pouco não passastes a diante. Como te poderei receber, como poderei ser tua morada?
Pediste-me que fosse teu pai, e não sou teu pai nem tu és meu filho. Dar-te-ei o nome de Jesus, mas também esse não é o meu nome nem o nome da minha tribo. Foi-me dado para que tu desse, e por isso nem do teu nome posso ser pai. Contudo, e para todos sou o teu pai e serei o teu pai.
Olho-te uma vez mais e aperto-te com mais força nos meus braços. Que serei eu para ti, porque és tu mais meu pai e eu teu filho que o contrário. Tu és o meu criador, o meu princípio e o meu fim, que poderei ser eu para ti, que pai poderei ser para ti?
Olho a tua fragilidade e tomo consciência que mais ninguém te poderá proteger senão eu, a ti e à tua mãe. E sei também desde já que os perigos serão grandes porque o anjo anunciou a tua mãe que serias o motivo da queda de muitos. Os que não quererão cair, aqueles que terão medo da queda, farão tudo para te eliminar, e eu terei que te proteger deles, mesmo que isso me custe a vida. Meu menino Jesus não deixarei que te façam mal.
Quando começares a entender as letras e as leis dos homens ensinar-te-ei a Escritura e a Lei de Moisés. Um dia poderás discutir com os homens do templo e os sábios de Israel, poderás discutir com eles a justiça de Deus e como ela se manifesta através da verdade e da misericórdia. Tu serás a sabedoria feita carne para aniquilar a mentira dos preceitos opressores.
Mais tarde ensinar-te-ei a arte e o ofício das madeiras e serás por todos conhecido como o filho do carpinteiro. Conhecerás como a madeira se trabalha e poderás reconhecer que o tratamento dado à madeira verde é bem diferente do tratamento dado à madeira seca e velha. E se tu fores tratado como a madeira verde que a força do Altíssimo esteja contigo para enfrentares os inimigos às portas da cidade.
Ensinar-te-ei também o sentido da liberdade, mesmo que isso me custe três dias de busca. Mas não se resume a nossa vida a três dias de busca, a essa busca para a qual tu nos darás a resposta? Quero que sejas livre e libertes os que viverem contigo, que sejas a verdadeira liberdade. Prometo criar-te em liberdade.
Aperto-te nos meus braços e olho-te uma vez mais. Como te poderei receber, como poderei ser tua morada? Abraço-te com mais força e na tua singularidade aceito-te como és, aceito-te como risco a correr, como aventura a viver, como tempestade que liberta as forças da natureza para nos conduzir à bonança. Aceito-te como meu filho, a nascer em cada dia, porque só nascendo em cada dia em aceitação da diferença poderás ser meu filho e eu habitação da tua presença.
Chamaste-me um dia e eu quase não ouvi. Olhando para ti agora pergunto-me como me chamarás no futuro, se por pai se por José. Prefiro que me chames por José, serei eu, poderei ser eu, como todo o meu ser, a responder-te. Não sou teu pai e por isso deves reservar esse tratamento para o teu verdadeiro Pai, ainda que esteja confiante que não deixarás de partilhar a tua filiação connosco, comigo e com todos os outros que como eu caminham na busca da paternidade.
Quando me chamares chama-me por José e ouvirei o teu chamamento e irei em tua busca com todos os meus defeitos e fragilidades, tropeçando nas minhas misérias, mas sempre na esperança de te encontrar e de que me queiras chamar teu filho e dar a graça de ser tua morada.
Estreito-me nos meus braços e sussurro-te: chama-me José.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Meditação de Natal - 3

A noite fria reuniu-nos junto da fogueira enquanto os rebanhos dispersos pelo campo se juntavam também para se aquecerem e protegerem. Longe ouvia-se o uivo de um lobo na noite, um grito feroz a quebrar o silêncio do frio da noite.
Mais um pau para a fogueira e no céu estrelado elevam-se com o fumo as fagulhas levantadas das brasas que crepitam. O vermelho e o laranja do fogo iluminam os rostos recolhidos e enregelados, porque esta vida de pastor não é fácil e menos ainda com este frio.
O silêncio é quase sagrado, ninguém quer dar início à conversa, mas pela cabeça dos presentes circulam as ideias e as memórias do vivido recentemente. Há três noites atrás neste mesmo lugar e por volta desta mesma hora foram surpreendidos por uma grande luz e um grupo de anjos que nos céus cantavam glória a Deus nas alturas. Ficaram aterrados de medo, um medo maior que o provocado pelos ataques dos lobos, pois nunca tinham visto nada assim, nada que estivesse tão fora das suas concepções e experiências. Foi um momento aterrador pela novidade e pela beleza tão nova e tão diferente.
Foi por causa desse medo que um dos anjos se lhes dirigiu directamente e os enviou a visitar um menino recém nascido e deitado numa manjedoura, era o Salvador do mundo, o Messias esperado. E eles foram, ainda que meio às cegas e tontos por tanta luz e tanta novidade. E encontraram de facto o menino deitado numa manjedoura, e sua mãe e seu pai, e uma enorme pobreza pois como viajantes muito pouco tinham trazido consigo.
Olharam, viram, admiraram, ofereceram do pouco que também possuíam, partilharam da enorme alegria dos pais e depois regressaram aos seus campos e rebanhos, uns muito alegres mas outros nem tanto.
O pastor mais velho foi um dos que regressou com a cara fechada e absorto nos seus pensamentos. O anjo tinha anunciado que lhes tinha nascido um salvador, mas ele só tinha visto um pobre menino deitado numa manjedoura aquecido do frio da noite pelo bafo de um burro e de uma vaca. Esperava um rei, um homem todo poderoso, um filho de rei, mas encontrara um menino frágil, cheio de fome, necessitado de tudo e sem qualquer poder. Como poderia aquela pobre criança ser Deus, o salvador esperado?
Diante de tanta dúvida quebrou o silêncio e desabafou: - Não é possível que seja Deus, não pode ser Deus, fomos enganados, é apenas um menino, mais um menino, filho de homem! A tristeza cobriu-lhe o rosto como um véu de morte e as rugas do rosto tornaram-se ainda mais profundas como se fossem as marcas abismais do tempo de espera desde a promessa feita ao primeiro homem.
Perante tal desabafo e desatino o pastor mais jovem, aquele que tinha regressado com a maior expressão de alegria estampada no rosto disse-lhe: - Não podes falar assim porque em verdade o que tu vistes é o nosso Deus e Salvador. Contudo, não te podes esquecer de uma verdade que vem da experiência dos nosso pais no deserto, ninguém pode ver a Deus e continuar vivo. Se acreditas nisto tens que acreditar também que aquele menino é o nosso Deus e Salvador e assumiu a forma humana que tu vistes, e nós vimos, para que pudéssemos ver Deus e continuar vivos. Se vês o menino apenas com os olhos não vês nada, vês simplesmente mais um menino, mas se vês com os olhos do coração e com fé então verás o teu Deus e Salvador e o maior gesto de amor para connosco, pois não só desceu das alturas para nos salvar como ainda se fez homem para que o pudéssemos olhar e contemplar.
Perante tais palavras do jovem pastor ninguém ousou mais quebrar o silêncio, nem o pastor mais velho, que no seu coração começou a sentir a necessidade de voltar à gruta para rever o menino recém-nascido. Quantas vezes teria que voltar, quantas vezes teremos que voltar para o ver com outros olhos?

domingo, 27 de dezembro de 2009

Homilia Domingo da Sagrada Família

Celebramos neste domingo da oitava do Natal a festa da Sagrada Família e o Evangelho de São Lucas apresenta-nos o episódio da perda e encontro de Jesus no templo de Jerusalém.
Como texto escolhido pela liturgia para a apresentação da família que deve servir de modelo às famílias cristãs é um texto estranho, até contraditório, porque parece haver muito pouco de família, ou pelo menos e à luz dos parâmetros psicológicos e sociais actuais estamos mais perante uma família problemática que uma família modelo.
Antes de mais, e conhecendo um pouco a história prévia ao acontecimento relatado pelo Evangelho de hoje, sabemos que o casal vive uma relação especial, uma relação em que a sombra da infidelidade pairou no ar. Sabemos também que há um filho que não é fruto da relação matrimonial, o que não deixou de causar problemas ao casal e até colocar a hipótese de dissolução da união matrimonial.
Hoje, e pelo Evangelho de São Lucas, ficamos a saber que o jovem adolescente vive com bastante liberdade e independência, ou se quisermos olhar com uma lente mais crítica, vive com uns pais pouco atentos à sua segurança e controlo. Um dia de viagem sem conhecimento do paradeiro do filho parece bastante negligência e descuido. E o filho, pela resposta à mãe quando encontrado no templo de Jerusalém, parece também um miúdo um pouco mal-educado para com os seus pais, ou mãe, porque no relato o pai parece quase omisso, uma figura de segundo plano e sem qualquer autoridade sobre o filho.
Estamos assim, e face a estes dados, perante uma família que aparentemente tem muito pouco para oferecer de exemplo a outras famílias. Bem pelo contrário, parece mais uma das nossas famílias contemporâneas, com todos os seus problemas e defeitos, uma família desestruturada e em crise.
Mas é aqui e nesta dimensão e circunstância de crise que a sagrada família de Nazaré se revela surpreendentemente uma família modelo, uma família a seguir e a imitar. E revela-se como modelo a imitar na medida em que não são os laços sanguíneos o que a une, nem é o poder ou a autoridade que governa, mas são outros valores, valores que ultrapassam a dimensão meramente sociológica, antropológica ou cultural, são valores evangélicos, valores da dimensão do transcendental e do divino.
Assim compreende-se que José tenha aceite não só Maria na sua aparente infidelidade mas também que ela fosse mãe de um filho que não era seu, do seu sangue, mãe do Filho de Deus. Nesta relação e nesta família não é o sangue, a linhagem que cria os laços de pertença, nem o sentido de propriedade, mas sim a aceitação do outro pelo que ele vale por si próprio e aos olhos de Deus.
Podemos ver já vividas por Maria e José as recomendações de São Paulo aos Colossenses de que os esposos se devem respeitar e amar como convém no Senhor. E o que convém no Senhor é que os esposos se amem e vivam em comunhão, com sentimentos de misericórdia, de bondade, de paciência, de humildade e de mansidão.
Sentimentos que também devem presidir à relação com os filhos, à sua educação e formação, pois só assim eles poderão crescer em liberdade e responsabilidade, aprender a amar os pais por aquilo que receberam deles em termos de amor e carinho, e não apenas em termos materiais ou sociais.
Estas recomendações de São Paulo foram também vividas por Jesus porque o evangelista diz-nos ao terminar o relato deste episódio que ao regressar a Nazaré Jesus era obediente a seus pais e crescia em espírito, estatura e graça. O episódio de Jerusalém e a resposta um pouco desabrida mostra a consciência da sua liberdade e missão, mas também o sentido da educação que tinha recebido de seus pais. Uma vez mais e acima dos laços familiares estava o laço divino, a pertença e filiação divina, uma realidade que também a nós, a cada um de nós, nos deve marcar nas nossas relações.
Antes de mais, e antes de ser pais e filhos, geração genética e sanguínea, somos criaturas de Deus, somos seus filhos bem amados e portanto é a nossa filiação e relação divina que deve marcar a nossa vida e as outras relações que possamos estabelecer. A família e as relações familiares são um espelho não só da relação e familiaridade que habita a Trindade mas também da relação que Deus estabelece com a humanidade e com cada um de nós.
Desta realidade nasce um desafio enorme para as nossas famílias e relações familiares, que devem libertar-se do peso e dos laços humanos que as condicionam para passarem a viver fundadas no amor e na liberdade de Deus e na responsabilidade que tal forma de vida acarreta. Peçamos ao Senhor a graça de o podermos experimentar.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Meditação de Natal - 2

Saímos de Nazaré e fizemo-nos ao caminho, a este trilho calcado pelos pés dos homens e dos animais carregados de mercadorias. Parecia que seria fácil, rápido, mas quanto nos falta ainda para chegar a Belém.
O pó do caminho levantado pelo vento frio e agreste colou-se aos nossos rostos e roupas. Por entre a fresta do véu que mostra os olhos pequenos e negros vê-se o pó colado às sobrancelhas de Maria; José tem também a barba polvilhada e por vezes sacode aquele que se lhe agarrou aos pés.
O pó fere-nos a carne e lembra-nos que também nós somos formados do mesmo pó, que um dia num excesso de louco amor criativo Deus criador moldou o primeiro homem deste mesmo pó, pó amassado com a saliva do seu Verbo e vivificado pelo sopro do seu Espírito.
Hoje este pó nos traz essa verdade à memória e a esperança de que este menino transportado no seio de Maria nos liberte desta pobre condição, que restitua a essa forma tão terrena a grandeza que teve no momento da sua criação.
Caminhamos e confiantes cruzamo-nos com aqueles que se cruzam connosco. Podem ser ladrões, salteadores, simples viajantes temerosos como nós, não sabemos, mas ainda assim arriscamos cruzar-nos com eles, partilhar esse olhar de quem viaja, de quem se sabe fora de toda e qualquer protecção. Todos estamos no mesmo caminho, no mesmo processo, e isso dá-nos uma solidariedade, um espírito de partilha que não se encontra em outros lugares e momentos da vida. O viajante é sempre um solidário, acompanha-o a graça de Deus e a sua presença angelical, e por isso se cruza com os outros, arrisca uma palavra, uma saudação, até a partilha da parca merenda.
Um dia partilharemos outra mesa, a mesa celestial, onde o pão será de todos e para todos, onde todos saberemos que fomos convidados e temos um lugar porque partilhámos a nossa parca merenda com o outro que se cruzou connosco no caminho.
O menino salta de alegria no seio de Maria, também ele projecta e sonha reunir um dia todos os homens à volta da mesma mesa, não no céu mas já aqui na terra, e para isso entregará o seu corpo como alimento, como mesa de reunião, como palavra convidativa. Aceitarão os homens esse alimento e a sua forma de partilha?
À medida que o dia avança e o caminho se vai trilhando começam a aparecer os primeiros sinais de desconforto, são já muitas horas de viagem para Maria e ainda que acomodada nas costas do pobre burrito o corpo não deixa de sentir o cansaço da viagem. É tempo de uma pausa, de um descanso, pois não se pode correr o risco do menino vir ao mundo neste descampado, neste deserto, ainda que seja no deserto, neste mesmo deserto que um dia já adulto fará a experiência da tentação, essa experiência tão intrínseca ao próprio homem, e que descobrirá a sua filiação divina e a sua missão redentora. Contudo, agora ainda não é tempo, ainda não chegou a hora. Tudo seria precipitado neste momento.
Retemperadas as forças, saciada a sede e recomposto o corpo através de uns passos frágeis e equilibrados retomamos a viagem, pois falta ainda muito para chegar a Belém, um dia mais de viagem. E não sabemos o que nos espera no caminhar que temos por diante, só Deus sabe e só Deus poderá saber. O caminho é uma surpresa, uma dádiva, um desafio, mas também uma possibilidade aberta a Deus através da paisagem, dos outros e da própria meta que nos propomos alcançar, de Belém.
José sente os pés já cansados da jornada mas como está habituado ao dia a dia da sua marcenaria, do caminhar lento atrás das madeiras, não se queixa. Maria pelo contrário começa a expressar a sua apreensão, a sua preocupação, pois o seu corpo não deixa de dar sinais do cansaço e do menino que parece querer antecipar-se à data prevista do seu nascimento.
Como é difícil caminhar neste estado! Mas será que não caminhamos todos neste estado de esperanças, de gravidez de uma realidade que nascerá um dia, no dia em que nos entreguemos totalmente a ela. O homem transporta em si um mundo novo por nascer, um mundo que espera a luz, mas é necessário fazer o caminho para que ele nasça, arriscar-se à viagem pelo desconhecido de si e dos outros que se cruzam no caminho. Belém está logo ali, ao virar da esquina, mas pode estar também muito longe, a anos-luz. A distância é equidistante à nossa capacidade de arriscar caminhar nos trilhos dos homens e no trilho de Deus.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Antífona do Ó do dia 23 de Dezembro

Ó Emanuel, nosso rei e legislador, esperança das nações e salvador do mundo: vinde salvar-nos, Senhor nosso Deus.

O Emanuel é Deus connosco, Deus que vem, Deus que se abaixa. Abram-se os céus e desça, diz Isaías.
Assim fez. Ele desceu Senhor do mundo por amor, legislador supremo. Agora já o possuímos, agora o vemos, está connosco para sempre. Neste pequeno presépio é Ele, o Emanuel, Deus connosco.
Mas também no sacrário temos outro presépio, o Deus connosco na Eucaristia.

O nosso coração pode e deve ser outra presença, outro presépio, o verdadeiro e original.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Meditação de Natal

A dois dias do Natal contemplamos a partida de Maria e de José para Belém. A notícia e ordem do recenseamento obrigatório emanada de Roma surgiram como uma perturbação, como mais um acontecimento extraordinário nestes últimos meses, já de si povoados de acontecimentos extraordinários e perturbadores. Contudo, porque o império e as suas forças assim obrigam, não podiam escapar e José é um homem justo que cumpre os seus deveres e obrigações e não quer faltar neste caso à sua obrigação. José quer ter o seu papel na história e garantir que o seu filho, quase prestes a vir a este mundo, tenha uma referência histórica. Ele nascerá no tempo de César Augusto e sob o governo de Quirino. Poderá isso um dia dar-lhe alguma liberdade, alguns direitos, uma cidadania reconhecida? Quem sabe…
A situação muito particular de Maria, quase prestes a dar à luz, tem sido a grande preocupação para esta viagem, pois a qualquer momento a criança pode querer vir a este mundo. Nos últimos dias e enquanto preparavam a pequena trouxa que os acompanharia o estado de Maria foi o tema das conversas e das horas de sono perdidas de José. Ele bem queria que Maria desse à luz em Nazaré, apoiada pela família e ajudada pelas mulheres da aldeia que já tantas outras vezes se encontrarem no mesmo estado.
Mas Deus quis sempre algo diferente para a mulher que José ama e parece que até neste caso se passa o mesmo, é como se uma vez mais a quisesse proteger do mundo e das suas formas comuns. A virgindade de Maria será preservada até da curiosidade das parteiras da aldeia.
Outra preocupação que atravessa a mente de José é a estadia em Belém e o alojamento, uma vez que não têm ali família directa que os possa acolher. Onde ficarão, onde pernoitarão, numa cidade tão pequena e certamente tão povoada de forasteiros como eles para cumprirem o mandato romano. Na bolsa que escondeu à cintura José colocou duas pequenas moedas para pagar o alojamento mas dúvida que lhes sirva de muito. Entrega-se a Deus e à sua bondade e providência, a esse Deus que lhe deu uma missão tão sublime mas ao mesmo tempo tão difícil de ser pai de um filho que não é seu e marido de uma esposa que é e sempre será virgem.
José sente-se e sabe-se curador de um tesouro que não lhe pertence, mas do qual Deus lhe pedirá contas, porque é um servo fiel e lhe quer dar muito mais para cuidar. É esta consciência que o assalta e o faz preocupar-se com Maria e esta viagem.
Entretanto e sabendo como o menino não quer continuar escondido no seio de sua mãe, Maria preparou a trouxa com os pouco panos finos que possui, panos que servirão para o agasalhar assim que nasça. Também ela está agitada e preocupada pois gostaria de algum sossego neste momento, mas Deus sabe o que faz e como José também ela é apenas um instrumento, ainda que especial, nesta história de salvação.
Com tudo pronto, com a casa entregue ao cuidado e vigilância da família, depois das últimas verificações da trouxa e do que pode faltar, Maria sobe para o pobre burrito que a transportará. José ajuda-a a subir para que não faça nenhum esforço que a coloque em risco e já na montada despedem-se dos que ficam.
Têm pela frente uma longa jornada, uma jornada cujo fim desconhecem, mas à qual se avançam porque a história dos homens assim o proporcionou e o plano de Deus assim o quis.
Em cada dia, e em vários dias especiais da nossa vida, Deus faz-nos o mesmo desafio, partir de viagem para outro lugar, para outro modo de ser, para outro estar no mundo e na história dos homens. Como Maria e José temos todas as razões para querer continuar onde estamos e como estamos, mas não podemos deixar de olhar para o desafio de sair, de partir, e arriscar, pois só dessa forma poderemos encontrar-nos com o nascimento de Jesus.
Instalados na nossa rotina, no nosso mundo vizinho, não possibilitamos a experiência da confiança, da entrega total e pobre a Deus que nos vem resgatar da nossa condição servil. Só à beira do abismo podemos experimentar a vertigem.

Antífona do Ó do dia 22 de Dezembro

Ó Rei das nações e Pedra angular da Igreja: vinde salvar o homem que formastes do pó da terra.

O desejado, o Rei, a Pedra angular, só o Cristo salvador pode fazer chegar à unidade de fé, de esperança, de amor e de felicidade a criatura humana perdida pelas suas próprias mãos. Tudo vem a ele, tudo é um nele, porque tudo foi feito por ele e para ele. Que sejam um, disse um dia Ele, como o Pai e o Filho são um.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O mal da distracção

Encontramos nos Apotegmas dos Padres do Deserto o seguinte dito do padre Poimén: “o princípio de todos os males é a distracção”.
Parece um pouco estranho que a distracção seja o princípio de qualquer mal, mas a verdade é que a experiência do dia de hoje me mostrou que tal é de facto verdade, pode ser de facto verdade.
Retirado para um mosteiro beneditino no norte de Portugal, com mais quatro irmãos que me acompanham, tinha-me proposto viver o dia de hoje em silêncio e atento ao bater do meu coração e aos convites do Senhor a estar com Ele. Lá fora o tempo invernal de chuva, trovoada e vento convidava à interiorização, ao silêncio interior, que o próprio mosteiro por si só também já convida. Queria aproveitar esta oportunidade para viver um Natal mais espiritual, de maior intimidade com Deus menino que nasce e desejo que nasça no meu coração.
Mas qual não foi a minha surpresa, ou se calhar nem tanto, quando dei comigo neste silêncio a pensar num conjunto de coisas que tenho para fazer quando regressar a Lisboa, na viagem de regresso e mesmo depois das festas que se aproximam a uma velocidade vertiginosa.
A distracção invadiu-me completamente e assim o silêncio que me tinha proposto fazer para um encontro mais íntimo com Deus neste Advento acabou por ser povoado por um conjunto de preocupações que neste momento de nada me adiantam, uma vez que não as posso solucionar.
É difícil fazer silêncio na nossa vida, não nos deixarmos invadir pelas distracções que nos cercam por todo o lado e impedem o encontro silencioso e profundo com Deus. Necessitamos disciplina, ordem, como também diz Poimén, uma alma sóbria, que não se alcança sem a graça de Deus e sem o exercício quotidiano deste mesmo silêncio e sobriedade de vida.
Que o Senhor tenha misericórdia de nós e nos conceda a graça de encontrarmos o silêncio, nem que seja momentâneo, para experimentarmos o encontro com Ele neste Natal.

Antífona do Ó do dia 21 de Dezembro

Ó Sol nascente, esplendor da luz eterna e sol de justiça: vinde iluminar os que vivem nas trevas e na sombra da morte.

O divino oriente, o sol incriado é a Sabedoria divina, o Filho de Deus que se proclamou luz do mundo. Ninguém conhece Deus sem ele, ninguém chega a Deus senão por ele.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Antífona do Ó do dia 20 de Dezembro

Ó Chave da Casa de David, que abris e ninguém pode fechar, fechais e ninguém pode abrir: vinde libertar os que vivem nas trevas e nas sombras da morte.

O que está encarcerado é o mundo cativo do mal e do demónio, o mundo que vive nas trevas e não possui mais a ciência de Deus. A Cristo senhor, que é a chave do Céu, cabe a tarefa de abrir a porta da luz e da bondade a esse mundo encerrado.

Homilia Domingo IV do Advento

Neste quarto e último domingo do Advento as diversas leituras da Liturgia da Palavra colocam diante dos nossos olhos textos que estão cheios de movimento, de uma acção que pode ser mais prometida para o futuro, que pode acontecer no presente histórico ou que já aconteceu e por isso mesmo é assumida.
O texto da leitura do profeta Miqueias está cheio desses verbos que prometem uma acção para o futuro: de ti Belém sairá aquele que há-de reinar, Deus voltará para o seu povo, Ele se levantará para apascentar o seu rebanho. Estes verbos no âmbito da promessa indicam acções para o futuro, mas indicam também uma acção de Deus, um movimento que se insere na história e na relação com Deus. O ser de Deus, a sua presença e revelação não é assim um vazio, uma inactividade, uma imortalidade no sentido da ausência de vida. Bem pelo contrário, Deus revela-se na história e no seu ser como movimento, como acção para criar, para salvar e para redimir.
Neste sentido não podemos acreditar num Deus inactivo, num Deus desinteressado por nós e pelo devir da história da humanidade. Ainda que por vezes pareça estranho e alheado de todas as necessidades humanas e pessoais Deus continua presente e activo, continua a prometer os seus bens, a sua salvação e a agir para que ela se torne efectiva e concreta.
Mas para que tal aconteça Deus não prescinde da participação do homem, dos homens e das mulheres e é assim que encontramos na leitura do Evangelho de Lucas a caminhada apressada de Maria para a casa de sua prima Isabel. Maria que tinha já aceite ser participe do mistério da Encarnação assume com esta mudança, com esta actividade, uma participação mais activa, mais visível, pois coloca-se ao serviço de alguém que necessita da sua ajuda e colaboração. O mistério invisível do qual ela fazia parte passa desta forma e através da caridade e solidariedade a uma realidade visível e activa, concreta. Quase que podemos dizer que o mistério da Encarnação deixa o nível teórico e desce ao nível prático, ou empírico, através de uma realidade humana que espelha em si mesma o mistério já presente e pressentido.
A caridade, a solidariedade, a atenção ao outro e às suas necessidades espelham o mistério da Encarnação, tornando-o de facto presente e vivo, actual e actuante, facto que não pode deixar de nos colocar em alerta relativamente à nossa caridade e solidariedade, uma vez que é desta forma que podemos tornar ainda hoje real e presente o mistério da Encarnação.
Corroboram estas palavras a leitura da Epístola aos Hebreus, na qual nos é dito que ao entrar no mundo Jesus Cristo, ou seja no momento da Encarnação, Deus não quis sacrifícios nem oblações mas apenas formou um corpo para se exercer nele a liberdade da obediência. É necessário um corpo para haver comunicação, para haver acção, para que o movimento desejado por Deus possa desenvolver-se.
Este quarto domingo do Advento, às portas da celebração do nascimento do nosso Salvador e do mistério da Encarnação que lhe é inerente, coloca diante de nós essa necessidade de um corpo, de um meio de existência, comunicação e comunhão, e a necessidade de actividade concreta a partir desse mesmo corpo e em direcção aos outros corpos, aos outros seres humanos.
Deus deu-nos a todos um corpo, formou-nos um corpo e não foi para o utilizarmos ou desperdiçarmos em holocaustos nem sacrifícios que ofendem a sua divindade e a própria dignidade dessa mesma obra divina que é o corpo, mas para servir de instrumento e meio para o cumprimento da sua vontade. E como nos esquecemos tão frequentemente disto, acabamos por negar o próprio Natal que nos propomos celebrar e celebramos em cada ano, porque o Natal é também comemoração do corpo, do corpo humano que Deus assumiu para nos salvar e mostrar a possibilidade de salvação através dele.
Não necessitamos de muito, Deus não necessita de muito, apenas de no nosso corpo expressarmos o mistério da sua existência e encarnação através da solidariedade e amor que Ele mesmo manifestou ao assumir o nosso corpo humano. De cada vez que o fizermos actualizamos o mistério da Visitação e fazemos que o Natal seja cada dia que o homem se dispuser a tal.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Antífona do Ó do dia 19 de Dezembro

Ó Rebento da raiz de Jessé, estandarte erguido diante dos povos: vinde libertar-nos, não tardeis mais.

Da Sabedoria incriada, Daquele que falou a Moisés na sarça-ardente, chegamos à cepa dos reis de Judá. Dela brotará o rebento que dará o fruto esperado.


"Que grandes são a luz e a dignidade que recebe a alma verdadeiramente enxertada em ti! Oh incomensurável generosidade! A memória empurra a sentir-nos obrigados a amar-te e a seguir as tuas pegadas e doutrina de Cristo. Por isso, o entendimento se detém na mesma luz e contempla. Bem pronto a vontade ama o que o entendimento viu e conheceu. De este modo um ramo oferece ao outro o seu fruto.

De onde tiras, oh árvore, esses frutos de vida, sendo por ti mesma estéril e estando morta? Da árvore da vida, de tal modo que se não estivesse enxertado nela nenhum fruto poderia produzir por mim mesma, porque sou nada."

Oração de Santa Catarina de Sena

Antífona do Ó do dia 18 de Dezembro

Ó Chefe da Casa de Israel, que no Sinai deste a Lei a Moisés: vinde resgatar-nos com o poder do vosso braço.

Adonai, Aquele que é, o Soberano Criador e Senhor. Ele salvou o povo de Israel da servidão do Egipto, ofereceu-lhe a sua lei, protegeu-o através de prodígios grandiosos no deserto. Agora é uma salvação ainda maior, ainda mais universal e que deve ser realizada em todo o mundo, agora é a libertação e salvação de todos e portanto é necessário aplicar todo o poder.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Antífona do Ó do dia 17 de Dezembro

Ó Sabedoria do Altíssimo, que tudo governais com firmeza e suavidade: vinde ensinar-nos o caminho da salvação.

A Sabedoria que sai da boca de Deus é o Verbo, o Filho de Deus, gerado desde toda a eternidade. Esta Sabedoria dispôs com força e suavidade o maravilhoso plano de salvação do mundo. Plano eterno e realizado no tempo pelo Verbo de Deus feito carne.

Antífonas do Ó


A sete dias da noite de Natal a Igreja apela fervorosa a vinda do seu Senhor e Salvador com antífonas próprias para o Magnificat.
São as Antífonas do Ó, que desde o século VI marcam cada dia da semana que nos separa do Natal e que se iniciam com essa letra que assinala a admiração e a expectativa.
A celebração da festa da Expectação de Nossa Senhora, ou da Senhora do Ó, cuja devoção encontramos presente em diversos locais de Portugal, dava início a esta semana. Hoje já não celebramos esta festa mas as antífonas são ainda cantadas no Oficio litúrgico de Vésperas, dando desta forma uma caminhada muito particular a estes dias prévios ao nascimento do Menino.
No seu conjunto, bem como individualmente, estas exuberantes antífonas recordam os traços característicos do Messias. Partindo de Deus, da sabedoria incriada, atravessando os séculos e a história da promessa, terminam no presépio de Belém onde repousa humildemente o Emanuel.
Cantando ou rezando seguimos o percurso da Promessa, descemos do Paraíso, passando pelos Patriarcas e os reis de Judá, para chegar até à doce e humilde serva, a filha de Sião, a Virgem Maria que adora de joelhos o menino como seu Deus e o estreita nos braços como seu filho.
Caminhemos juntos, colocando nos nossos lábios as palavras que podem de uma forma penetrante iluminar a nossa espera como iluminou e suavizou a espera de Maria.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Homilia Domingo III do Advento

O convite de São Paulo aos Filipenses “alegrai-vos sempre no Senhor” marca este terceiro domingo do Advento. É esta alegria que atenua a cor litúrgica do roxo, dando-lhe este tom rosa que colocamos nos paramentos, e que também justifica a denominação de domingo “gaudete”, domingo da alegria, que se dá a este terceiro domingo do Advento.
Contudo, o convite de São Paulo à alegria não é um convite fácil, simples, pois a alegria de que São Paulo fala, a que São Paulo nos convida, é uma alegria que nasce do Senhor uma alegria de bondade, é afinal algo mais que um simples estado de espírito ou de disposição psicológica. A alegria cristã a que somos convidados neste terceiro domingo do Advento é a vitória de um combate e o fruto de um sementeira.
Houve tempos, e certamente ainda há pessoas que pensam assim, em que se considerava que a alegria era uma ofensa a Deus. De alguma forma tinha-se esquecido a recomendação de São Paulo e por uma influência jansenista considerava-se a alegria como um estado contrário ao ser cristão. A mentalidade e a espiritualidade deixaram-se marcar profundamente pela dor e pela tragédia da sexta-feira santa, pelo peso do pecado, por um sentido trágico da vida em que Deus aparece como um tirano e um justiceiro implacável. Não havia lugar nem para a felicidade nem para a alegria pois elas atentavam contra Deus.
Hoje, pelo contrário, a vida cristã e a espiritualidade estão incondicionalmente marcadas pela alegria, pela alegria da manhã de Páscoa e da ressurreição. Contudo, devemos interrogar-nos se esta alegria é verdadeiramente cristã ou um simples estado psicológico. Será que não nos colocámos nos antípodas da espiritualidade jansenista, esquecendo que a alegria cristã é também ela marcada e profundamente marcada pela dor, e não o pode deixar de ser? Resiste, ou resistirá a nossa alegria aos momentos de dor e de deserto em que a vida tantas vezes nos coloca?
A nossa concepção e construção da vida espiritual, da relação com Deus, assenta hoje muito na ideia de bem-estar, de satisfação, na ideia de uma tranquilidade e uma calma incomparáveis, de um estado “soft” em que a alegria é mais uma das manifestações desse mesmo estado. De alguma forma é como se na vida espiritual não houvesse problemas, como se na nossa intimidade e proximidade com Deus ficássemos livres dos problemas. Nesta concepção presume-se que na relação com Deus se elimina todo o mal, desaparecem todos os conflitos, que não existem acidentes.
Ora, a verdade é que não é assim, e a alegria que se vive ou que buscamos viver só pode ser o resultado de uma vitória, de um dom que nos chega de Deus depois de vencermos o combate. A nossa relação com Deus não é uma sesta tranquila, um encontro mágico e prazenteiro, é uma luta de corpo a corpo, como a de Jacob e o anjo ou como a de Jesus no jardim das oliveiras quando teve que confrontar a sua vontade com a vontade do Pai. E quando vencemos e nos vencemos no combate contra o mal então a alegria surge, a alegria verdadeira que é dom de Deus pela vitória alcançada.
Esta luta corpo a corpo torna-se ainda mais acutilante quando se processa na nossa existência comunitária, quando temos que nos relacionar uns com os outros, quando nos vemos confrontados com a necessidade de colocar a questão que as multidões colocavam a João Baptista depois de ouvirem a sua pregação junto ao rio Jordão: “o que devemos fazer” para, vivendo uns com os outros, alcançar a alegria?
A resposta de São João não é propriamente extraordinária, porque de facto o que recomenda, e nos recomenda também a nós, é que nos demos conta daqueles que estão ao nosso lado, que partilham a nossa vida e o nosso mundo, e vivamos na justiça e na solidariedade com eles. São João não pede nenhuma ascese, nem penitências dolorosas, nem exercícios de piedade balofa, mas apenas que partilhemos o que temos e vivamos em justiça, uns com os outros, ou seja, que vivamos a caridade fraterna. E quando vivemos em caridade, quando semeamos a bondade e o amor nas nossas relações familiares, comunitárias, alcançamos também aí o fruto da alegria que é dom de Deus.
A realidade do nosso dia a dia parece no entanto querer contradizer que esta vitória e este fruto sejam possíveis, que aconteçam de facto. Tal deve-se a essa falta de consciência, da nossa parte, daquilo que nos é dito pelo profeta Sofonias “o Senhor teu Deus está no meio de ti”. Acreditamos muito pouco nisto, que Deus está de facto no meio de nós e por essa razão não nos entregamos completamente ao combate contra o mal nem nos deixamos guiar pela bondade na nossa sementeira da caridade. A nossa fé e a correspondente alegria estão ainda manietadas pela ideia de um Deus distante e uma alegria que lhe é ofensiva. Necessitamos por isso de continuar a viver uma conversão que nos transforme, de continuar por mais algum tempo neste Advento preparatório para o nascimento do Senhor e no qual este domingo da alegria é uma paragem alentadora.
Desta forma e nesta caminhada para o Natal, para a celebração da vinda de Deus até nós na nossa condição humana, peçamos a São João que nos alcance de Deus o sentido da sua presença actual entre nós e em nós e a alegria de exultar como ele exultou no seio de sua mãe Isabel perante tal presença.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Homilia Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria

Celebramos hoje a Solenidade da Imaculada Conceição da Virgem Maria, uma festa que podemos dizer é um luxo, uma extravagância de Deus, aliás a única a que se deu o direito em todo o mistério da Encarnação.
Os Evangelhos, as Cartas dos Apóstolos, a fé da Igreja, diz-nos que a Encarnação do Filho de Deus é a realização do projecto de Deus para nos resgatar da nossa condição de pecadores, para nos redimir dessa situação em que nos tínhamos colocado depois do pecado do primeiro homem no paraíso. Expulsos dali e marcados pelo sinal do pecado Deus vem ao nosso encontro conforme o prometido para nos reabilitar, para nos retomar e outorgar a condição de filhos, adoptados mas filhos. Todos somos pecadores desde Adão e Deus vem habitar entre nós, fazer-se homem como nós excepto no pecado, para nos libertar a todos dessa condição e desse mesmo pecado.
Neste sentido o mais normal, o mais natural e consentâneo com este mistério e fim da Encarnação, era que o Filho se gerasse numa mulher como o resto da humanidade, uma mulher também pecadora. Podemos interrogar-nos se isso alteraria alguma coisa ao processo de salvação, porque se o Filho assumia tudo o que há em nós, sofria toda a humilhação da nossa condição pecadora e mortal, que diferença fazia humilhar-se ainda mais, para além da morte e morte de cruz, à condição de filho de uma pecadora? A condição imaculada da Virgem Maria era prescindível no plano de Deus para a encarnação do seu Filho.
Contudo, Deus não prescindiu dela e é neste sentido que podemos dizer que é um luxo, uma extravagância, a única a que Deus se deu o direito. E fê-lo porque Deus é um artista, é um perfeccionista, não um mero criador de obras em série, mas um apaixonado por cada obra criada, por cada momento da criação. Deus só faz obras-primas, no verdadeiro e total sentido da palavra. E para a encarnação do seu Filho criou essa obra-prima que foi a Virgem Imaculada, uma virgem não só pura de corpo mas também de alma, para que nela se gerasse uma nova obra, uma nova criação, uma nova história.
Podemos usar neste sentido a metáfora do ramo de flores que um apaixonado oferece à pessoa que ama. Para a amada uma rosa bastaria, o gesto diria tudo, contudo o apaixonado não deixa de levar um ramo de duas dúzias de rosas vermelhas. É um exagero, é um luxo, uma extravagância, mas o sinal visível do amante e apaixonado que o seu amor é único, vai para além de todos os limites do possível e do razoável. Com a imaculada concepção de Maria Deus oferece à humanidade o seu ramo de rosas extravagante, exagerado, mas manifestação do seu grande amor por aqueles que ama e pelos quais vai iniciar uma obra que nada tem de glória, bem pelo contrário, que é um abaixamento total da sua condição divina e toda poderosa até ao ponto do aniquilamento. A imaculada é um gesto de amor, um gesto terno que contrasta com os momentos de dor e sofrimento da paixão, também ela manifestação de amor.
Neste sentido, e numa dimensão distinta temos que olhar para a obra de Deus em nós, porque cada um de nós e à semelhança de Maria é uma obra-prima, uma extravagância e um luxo de Deus. Cada um de nós é um gesto, um sinal e uma presença do amor de Deus. Como respondemos a essa realidade, a essa obra divina em cada um de nós?
O Evangelho de São Lucas que serve à liturgia da Palavra desta solenidade relata-nos a anunciação do anjo Gabriel a Maria. Enviado por Deus, Gabriel faz a Maria uma proposta, uma proposta que também podemos considerar descabida e desfasada no tempo, pois Maria está já comprometida com José. O anjo Gabriel coloca assim Maria numa situação complicada, pois antes desse compromisso seria tudo muito mais fácil, não haveria lugar para dúvidas ou interrogações. Mas agora é necessário fazer uma escolha, e não é uma escolha entre o bem e o mal, é uma escolha entre dois bens, o esposo e um filho. Maria arrisca tudo e escolhe o projecto de Deus, com tudo o que isso significa de risco, de incerteza, de desconhecido e de entrega à absoluta protecção de Deus.
A nós, a cada um de nós, obra de amor, Deus faz as mesmas propostas, umas vezes de optar entre o bem e o mal, mas outras vezes de optar entre bens que não podemos viver em simultâneo. Somos nós capazes de como Maria aceitar o desafio e arriscar tudo com Deus, aceitar viver o desafio de uma obra-prima por vezes incompreendida e rejeitada por aqueles que a contemplam? Maria colocou-se e entregou-se à protecção da sombra do Altíssimo e dessa forma completou em si o projecto que Deus havia já iniciado com a sua concepção imaculada. Possamos e tenhamos nós a coragem de nos entregarmos à protecção de Deus, permitindo que dessa forma se cumpra em nós a obra também imaculada que Deus iniciou connosco quando num momento de paixão amorosa nos criou.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Frei Juan Bautista Maíno

Quando falamos de pregação pela imagem, e de pregadores dominicanos que usaram a pintura para transmitir a Boa Nova de Jesus, logo nos vem à memória o nome de Fra Angélico. Dele recordamos as célebres Anunciações, os frescos do convento de São Marcos de Florença, os encantadores anjos que alegram o paraíso e o juízo final.
Contudo não foi o único e ao longo da história encontramos outros frades dominicanos que através da pintura ou da escultura procuraram expressar a sua fé e a pregação a que estavam vocacionados pela Ordem a que pertenciam.
O Museu do Prado tem desde Outubro passado uma exposição sobre um pintor espanhol, Juan Bautista Maíno, uma figura pouco conhecida quer como pintor quer como dominicano que foi, mas com uma obra tão voluptuosa que é impossível ficarmos indiferentes a ela.
Por essa sua pertença dominicana, por ser também filho de uma portuguesa e ter passado por Portugal aquando da visita de Filipe II em 1619 não podemos deixar de dar notícia dele.
Segundo o registo de baptismo, celebrado em Pastrana, Juan Bautista nasceu em 1581, filho de um italiano de nome Maíno e de uma portuguesa Ana de Figueiredo, ambos sediados na cidade por razões de oficio ligado aos têxteis, facto que se vai repercutir na obra de Maíno e na qualidade da sua representação dos tecidos que vestem as figuras humanas.
Como era habitual na época, e sendo descendente de italianos de uma forma mais fácil, Maíno fez a sua formação em Itália e aí pôde encontrar-se com mestres como Annibale Carracci ou Guido Reni e obras como as de Caravaggio. Pintores que o influenciaram e que na exposição do Museu do Prado podemos também contemplar.
Foram cinco anos de ausência, entre 1605 e 1610, pois em 1611 Maíno está já em Toledo a assinar um contrato para a pintura de frescos na catedral. Um ano depois assina também contrato para um retábulo com os frades de São Domingos do convento de São Pedro Mártir de Toledo. A proximidade e as relações são tão fortes que em 27 de Julho de 1613 Maíno está a professar como religioso no mesmo convento.
O retábulo que pinta para a igreja do convento é hoje a sua maior e mais significativa obra e nela podemos apreciar a adoração dos pastores, a adoração dos reis, o Pentecostes e a ressurreição de Jesus, acontecimentos evangélicos que liturgicamente marcam o calendário das festas cristãs e por isso são conhecidos como as quatros Pascoas. No conjunto o mistério da revelação de Deus aos homens.
Em 1616 o prior do convento de São Pedro Mártir de Toledo, frei António de Sotomayor é nomeado confessor de Filipe II. Sendo o grande protector de Maíno não o deixa para trás na sua mudança para a Corte, na qual Maino aparece como mestre de desenho e pintura do príncipe. É nesta qualidade que acompanha o séquito real que em 1619 vem a Lisboa, na qual tem também a tarefa de tratar da venda de umas casas que pertenciam a sua mãe.
Entre Madrid e Toledo Maíno vai vivendo e exercendo a sua pintura, até que em 1630 se encontra em Salamanca para pintar uma retábulo para o convento de San Esteban, retábulo desaparecido com a exclaustração das ordens religiosas. Alguns anos mais tarde, em 1639, Maíno aparece envolvido nas teias da inquisição, pois Isabel de Briñas, uma mulher acusada de falsa santidade, usava uma miniatura pintada por si. Maíno tem que testemunhar e justificar a pintura que era usada pela mulher.
Em 1649, a 17 de Abril, Maíno é sepultado no convento de São Tomás de Madrid, deixando uma obra diminuta mas rica de pormenores que quase nos apetece tocar para comprovar que são tinta sobre tela e não telas sobre tintas. A escassa produção de Maíno justifica-se por palavras próprias e em função de opções pessoais. Num litígio com douradores, em 1620, Maíno assume-se como pintor, mas acima disso assume-se como sacerdote e frade de São Domingos. Essa era de facto a sua primeira e principal profissão e da qual os quadros dominicanos que pintou não deixam margens para dúvidas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Homilia Domingo II do Advento

Em cada ano litúrgico encontramos no segundo domingo do Advento a figura de São João Baptista, o precursor do Messias, o enviado a anunciar a sua presença no meio de nós.
Comparando com os evangelistas Mateus e Marcos, Lucas não nos faz no seu Evangelho nenhuma descrição da figura física de João, nem da sua indumentária de pele de camelo ou vida austera e penitente no deserto. Pelo contrário, alarga os seus e nossos horizontes situando João no espaço e no tempo histórico, apresentando aqueles que politicamente governavam o mundo e religiosamente Jerusalém quando João começou a pregar o arrependimento no deserto.
Esta precisão do tempo, do espaço e do contexto político e religioso visa no Evangelho de São Lucas sublinhar a verdade dos acontecimentos, visa sublinhar que o que se relata não é um mito ou uma história para embalar crianças. Esta precisão histórica e política visa sublinhar que se está perante um acontecimento que é mais decisivo que os gestos daqueles governantes, um acontecimento que confronta aqueles mesmos gestos com a sua caducidade e mentira face à revelação de Deus.
A sobriedade descritiva do Evangelho São Lucas tem assim esse objectivo de nos centrar no que verdadeiramente é essencial na figura de João, ou seja, na Palavra que foi incumbido de anunciar. Essa Palavra diante da qual ele se situa, se situam os reis e os poderosos mencionados, e também nós somos convidados a situar-nos.
João recebe da Palavra Eterna a missão de profeta, mas só a leva a cabo no deserto. É necessário um contexto para creditar e certificar a missão atribuída por Deus. São necessários sinais e em João o grande sinal é o deserto. Como Oseias que desposou uma prostituta, a mandado de Deus, para mostrar ao povo santo a prostituição idolátrica a que se tinha votado, também João vai para o deserto para mostrar ao povo o caminho que devia seguir, o caminho da conversão.
O deserto é o mundo sem Deus, é um mundo sem vida, mas é nele que João se apresenta como enviado de Deus e como alguém com uma palavra de revelação. Esta localização geográfica obriga por si mesma a uma conversão, a uma alteração, porque para alguém ir ao deserto é necessário querer ir, é necessário colocar-se em marcha, fazer o percurso até lá. Aqueles judeus que iam ao encontro de João para o escutar tinham obrigatoriamente que abandonar os seus caminhos habituais para se poderem encontrar com ele, para poderem entrar no deserto e ouvir a sua pregação. Abriam-se desta forma a uma conversão possível.
Também nós temos os nossos desertos, os nossos mundos sem Deus e sem vida e necessitamos predispor-nos e obrigar-nos a ir até eles para nos encontrarmos com a revelação de Deus. Se os deixarmos esquecidos, encerrados na sua própria solidão e aridez não haverá possibilidade de conversão. Poderá acontecer-nos o mesmo que ao povo de Israel, que no deserto erigiu o seu touro de ouro para os governar e conduzir. Construíram um símbolo da pujança física, uma idolatria do corpo, um símbolo da produtividade, uma idolatria do dinheiro, um símbolo da fecundidade, uma idolatria da sexualidade, esquecendo-se que ao mesmo tempo e nesse mesmo deserto Deus lhes entregava a sua lei, os seus mandamentos de salvação. Também nós podemos incorrer na mesma tentação se não visitarmos os nossos desertos e nãos nos predispusermos a aceitar aí a Palavra da revelação de Deus.
Porque se o deserto é o mundo sem Deus, é também no deserto que Deus se revela, que Deus se nos pode fazer presente, como se fez presente na pregação de João. Foi ele e ali no deserto, que perante um homem de Nazaré apontou e disse “eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, eis aquele que eu anuncio e por quem tanto anseio, eis aquele que é o nosso salvador e deveis seguir porque eu já cumpri a minha missão.
A voz de João, o seu convite à conversão e mudança de vida, torna-se assim tão sinal profético como o próprio deserto onde João vive a experiência de Deus e cumpre a sua missão.
João fala no deserto, mas não fala de si, nem por si, nem dos outros como o pai sacerdote, a tribo ou os poderes instituídos. João fala da Palavra e pela Palavra, ele é a voz que grita no deserto que os caminhos devem ser aplanados e as veredas endireitadas. O grito de João junto ao Jordão no deserto é a voz da cólera de Deus, uma cólera totalmente distinta da nossa porque nasce da paixão amorosa de Deus pelas suas criaturas enquanto que a nossa nasce da inveja possessiva que nos habita e molda. A voz da cólera, o grito urgente da cólera de Deus traduzir-se-á de forma plena na encarnação do Filho, na Palavra feita carne para nossa salvação e nosso alimento, na Palavra do amor. João faz-se no deserto instrumento e eco dessa voz e ao fazê-lo abala o deserto, irrompe como uma força que coloca em causa o pressuposto e o adquirido. A voz desfaz o deserto.
Como João também nós somos chamados, e de modo especial no Advento, a gritar a presença da Palavra entre nós, a abalar os desertos que nos cercam e esperam uma voz de salvação. E como João não nos podemos contentar com as palavras sussurradas, com as vozes mansas, com as conversas de corredor, não nos podemos contentar em dizer apenas as nossas palavras, as que nos satisfazem ou agradam. O mundo, o deserto em que habitamos, necessita da provocação da Palavra, das palavras que nascem da cólera do amor de Deus por cada um de nós, precisa dos gritos da nossa voz de fé.
Peçamos ao Senhor a força do Espírito para fazermos da nossa vida e das nossas vozes revelação e eco da sua Palavra viva que vem até nós.


domingo, 29 de novembro de 2009

Homilia Domingo I do Advento

A leitura do Evangelho deste primeiro domingo do Advento é mais um trecho da secção apocalíptica do Evangelho de São Lucas. Depois de afirmada a conquista e destruição de Jerusalém afirma-se a destruição do mundo, porque na concepção apocalíptica judaica uma destruição era inerente à outra. Sendo destruída Jerusalém, como centro do mundo, era inevitavelmente destruído também o mundo.
Esta concepção simplista, automática, da mentalidade apocalíptica judaica enquadra o texto de São Lucas, mas não mais que isso, porque a mensagem de Jesus que encontramos nestas palavras não é uma mensagem de destruição ou aniquilação, mas uma mensagem de salvação, uma mensagem de esperança, “levantai as vossas cabeças”. Mais do que um fim do mundo estamos perante o anúncio de um novo mundo, uma nova realidade e por isso a Igreja coloca este texto na liturgia da Palavra do primeiro domingo do Advento, assinalando essa novidade e mundo novo que somos convidados a procurar.
A imagem que Jesus nos apresenta da vinda do Filho do Homem com grande poder e glória sobre a nuvem não representa o fim, não é o último acontecimento da história, mas um movimento constante, um devir que está a acontecer na mesma história e portanto exige uma necessidade de atenção e de sabedoria para ser tornar perceptível e real. É esse convite e recomendação a estarmos vigilantes, atentos, para que o nosso coração não se torne pesado e não sermos surpreendidos quando comparecermos diante de Deus.
Mas o que significa estar vigilantes? Como podemos estar vigilantes em todo o momento? Colocar esta interrogação não é de todo descabido, porque se num primeiro momento podemos intuir vários sentidos para o que significa vigiar, é de todo importante sabermos como fazê-lo verdadeira e correctamente, como nos contratos que socialmente assinamos, em que lemos as rubricas das responsabilidades a que nos obrigamos. A que nos obriga o estado de vigilância cristã? Vamos tentar uma resposta.
Hoje podemos dizer que o nosso computador vigia quando hiberna. Para não gastar energia auto suspende-se e aguarda vigilante que a um pequeno toque nosso volte à actividade. O computador vigia, aguarda, mas não vai além disso. É esta a nossa vigilância? Aguardar que algo se passe!
Podemos também considerar que uma noitada de trabalho, uma directa, ou até uma saída à noite com os amigos, é uma vigilância. Muitas vezes uma vigilância até bastante organizada em que aparecem alguns químicos para não cairmos no sono e na desconexão do grupo. Vigiamos, mas para não nos perdermos; vigiamos mas centrados em nós e nas nossas necessidades.
A mãe que aguarda impaciente a chegada dos filhos, ou a família que espera pacientemente na sala do hospital faz também a sua vigilância, aguarda em expectativa uma notícia, uma presença que não é já a sua. Podemos não fazer nada, por vezes perdemos a paciência, mas estamos vigilantes e estamos por alguém, por um outro a que aguardamos ou desejamos.
Por fim temos também a vigilância daquele que se assume como responsável, a vigilância daquele que se encarrega de que não falte nada, de que a obra chegue a bom termo e sem prejuízo, a vigilância daquele que diz “deixa que eu tomarei conta”. Esta é a vigilância cristã, é a vigilância que nos é solicitada neste início de advento, uma vigilância activa e participativa, uma vigilância responsável e coerente.
Contudo, se o Advento nos solicita esta atitude de vigilância temos que perceber a sua total dimensão e realidade, porque de facto a expectativa da espera prende-se e relaciona-se com um acontecimento que já ocorreu na história, um acontecimento que tem já dois mil anos, o nascimento do Filho de Deus entre nós. Assim, como podemos vigiar e esperar algo que já ocorreu?
A resposta para esta questão é-nos dada pelo complemento da recomendação a vigiar, “orai em todo o tempo” e pelas palavras de São Paulo aos Tessalonicenses “o Senhor vos faça crescer na caridade uns para com os outros”. A caridade que manifestamos uns aos outros é esse vigiar activo e participativo, é esse actualizar constante e num eterno devir do acto de caridade e amor que se deu de forma plena na encarnação do Filho de Deus. O nosso vigiar deve traduzir-se no actualizar desse amor, no fazer com que no mundo e na história dos homens não tenha fim essa expectativa do amor e da felicidade. Para isso tomamos conta, arregaçamos as mangas e metemos mãos à obra.
E porque sabemos que muitas vezes nos deixamos subjugar pelas preocupações da vida, pelas armadilhas do mal, porque perdemos a esperança, a oração a que Jesus nos convida apresenta-se-nos como a sentinela que nãos nos permite adormecer nem deixar de vigiar. A oração liberta-nos de nós próprios e coloca-nos num estado de atenção aos outros, aos problemas, à própria intervenção de Deus na nossa história e na história dos homens nossos companheiros. A oração pode e deve ser a sentinela da nossa vigilância.
Até ao Natal, à festa do nascimento do nosso Salvador, temos quatro semanas para procurarmos viver esta expectativa da vinda de Deus até nós na nossa condição humana. Procuremos viver mantendo a nossa caridade e fraternidade activas e a nossa oração como uma sentinela vigilante que espera a aurora.

domingo, 22 de novembro de 2009

Homilia Solenidade de Cristo Rei

O ano litúrgico termina com esta celebração da Solenidade de Jesus Cristo como Rei do Universo. E ainda que a primeira leitura, do livro do profeta Daniel e a segunda leitura, do livro do Apocalipse, apresentem um rei celeste, divino, uma figura que até nos podemos atrever a apelidar de mítica, o Evangelho desta Solenidade pelo contrário apresenta-nos uma figura bastante limitada e humana, uma figura que nada tem de real, de nobre, de poder, na situação em que se encontra e se afirma como sendo rei.
O Evangelho de São João desta solenidade de Cristo Rei apresenta-nos o Jesus da paixão, o Jesus do processo judicial de Pilatos, o Jesus entregue para a condenação à morte por aqueles que bem pouco antes o tinham aclamado como o rei esperado de Israel. Contudo, é neste processo e nesta aniquilação, neste sofrimento e nesta morte ignominiosa que Jesus se revela como o verdadeiro Rei do Universo, da história e dos homens.
E revela-se como Rei porque se assume como verdadeiramente é oculto na figura humana desfigurada do homem, e porque se assume como o único que age por sua liberdade e vontade. Se no último momento da paixão, antes de expirar o último suspiro, diz “Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito”, estas palavras são apenas a conclusão e a assumpção de toda a entrega que se inicia no momento da encarnação e de uma forma mais efectiva no momento da agonia do jardim das oliveiras.
Pilatos pergunta a Jesus se ele é rei, mas Jesus não lhe responde à primeira, bem pelo contrário contra interroga Pilatos para que seja ele próprio a encontrar a resposta para a questão que coloca. O silêncio de Jesus é a resposta, porque de facto só os outros podem dizer de Jesus se ele é rei ou não, só os que o aceitam é que podem proclamar essa realeza.
Este silêncio de Jesus, ou não resposta directa, contrapõe-se à resposta que dá no jardim das oliveiras quando Judas com os soldados chegam para o prender e levar. À pergunta “és tu Jesus de Nazaré”, Jesus apresenta-se diante dos soldados e populaça e diz-lhes “eu sou”, provocando a queda de alguns e o recuo de outros. Neste momento Jesus diz quem é verdadeiramente e de uma forma crucial, depois de uma longa noite de oração com o Pai sobre o cumprimento da vontade e o cálice a beber. Jesus é Deus, o mesmo Deus que se tinha revelado a Moisés na sarça-ardente, e por isso os soldados caiem e a populaça recua. Jesus identifica-se na sua realidade e com toda a autoridade, revela-se e responde antecipadamente à pergunta de Pilatos, revela-se como o único que tem poder sobre a sua vida e a entrega que vai fazer para o cumprimento do projecto salvador de Deus.
Pilatos compreende de alguma forma a resposta de Jesus e ainda que depois de uma forma ambígua, mesclada de cobardia e poder, lave as mãos sobre o fim estabelecido para Jesus, a verdade é que quando é censurado por ter escrito na placa a colocar na cruz “Jesus de Nazaré Rei dos Judeus” não abdica do que escreveu, confirmando assim dessa forma não só a verdade que se revelava, mas também a resposta que tinha encontrado, ainda que difusa e pouco consistente para lhe permitir outra resposta e solução.
Testemunhas deste processo também nós somos confrontados por Jesus, porque de facto como Pilatos também nós somos chamados a dar uma resposta, a rascunhar uma resposta convicta e convincente. Somos capazes de a dar, ou como Pilatos preferimos olhar para o lado, para o politicamente correcto, e deixar Jesus seguir o seu fim trágico?
Hoje a resposta exige-se-nos quando nos entram pelos olhos adentro as situações de injustiça, de miséria, de violência e de ódio. As vítimas destas circunstâncias são hoje os nossos Cristos, as figuras humanamente desfiguradas, que exigem uma resposta, uma tomada de posição da nossa parte.
E neste sentido é bastante interessante olharmos para outro interveniente no processo de aniquilação de Jesus, da sua paixão e morte, para o centurião romano que depois de ver Jesus elevado na cruz, despojado de toda a dignidade, aniquilado na sua própria humanidade, proclama “ verdadeiramente este é o Filho de Deus”. É a proclamação de fé mais sublime, mas simultaneamente a maior proclamação da realeza de Jesus, porque no momento em que não é nada, em que está despojado de todo e qualquer poder, até mesmo da dignidade humana, há alguém que reconhece a realeza através da afirmação da filiação divina. É no aniquilamento, na entrega livre do seu espírito nas mãos do Pai que Jesus se revela como rei do universo.
Também nós somos convidados por Deus a ser como este centurião romano, o último da escala hierárquica do poder que tinha levado Jesus até à morte, mas que na sua simplicidade e limitação e perante a tragédia do outro é capaz de proclamar a sua compreensão do mistério que se revela. Também nós nas nossas limitações e circunstâncias podemos e devemos dar testemunho de Jesus Cristo, da sua realeza manifestada em cada situação de injustiça e mentira, de violência e exploração.
Os nossos medos, os nossos respeitos humanos, a mentira e o desprezo, alguma ligeireza das nossas convicções, o mesmo medo da cruz, podem ser formas de voltar a crucificar Jesus, de aniquilarmos ignominiosamente a realeza de Deus que se manifesta veladamente através de cada filho de Deus com quem partilhamos a vida.
Canta Salomão que preferiu a Sabedoria aos tronos e aos ceptros, possamos nós também cantar as mesmas palavras, porque preferimos a sabedoria aos poderes deste mundo, porque dispusemos da nossa vontade e liberdade para construir o Reino de Deus entre nós.

domingo, 15 de novembro de 2009

Homilia Domingo XXXIII do Tempo Comum

A primeira leitura e o Evangelho deste penúltimo domingo do ano litúrgico apresentam-nos a realidade do fim dos tempos, do fim da história e da humanidade.
Alguns filmes, como o “2012” que estreou esta semana, baseado em profecias diversas, apresentam-nos visualmente esse fim e como estamos marcados por essa mentalidade, essa concepção de um fim catastrófico, trágico, em que tudo e todos serão aniquilados.
A leitura da profecia de Daniel e o discurso de Jesus no Evangelho de São Marcos que escutámos estão alicerçados também nesta concepção, nesta ideia que surgiu no mundo bíblico por volta do século segundo antes de Cristo e que apenas tinha como objectivo dar uma resposta imediata e esperançada para as angústias dos que viviam aqueles tempos difíceis da perseguição, da exploração e da escravatura imperial. Os maus, os que violentavam e exploravam não seriam os vencedores finais.
Contudo, tanto a profecia de Daniel como as palavras de Jesus convidam-nos a olhar mais para além dessa realidade, dessa dimensão catastrófica e trágica, convidam-nos à esperança e a um estilo de vida que deve estar pautado por este fim ao qual todos estamos destinados, mas que não nos deve de modo nenhum condicionar nem privar da liberdade de acreditar e viver para além dele.
A profecia de Daniel diz-nos que o fim será um tempo de angústia, mas também nesse tempo e no meio dessa angústia virá a salvação, para aqueles que estiverem inscritos no livro de Deus. Nas palavras de Jesus serão os seus eleitos que serão reunidos dos quatro pontos cardeais, depois de um tempo de aflição. Ora, perante isto o importante não é o tempo, o acontecimento, mas a condição e o estatuto em que cada um for encontrado, porque como também nos diz Jesus ninguém sabe a hora nem o dia desse acontecimento final.
Na profecia de Daniel os sábios resplandecerão como a luz e os que tiverem ensinado o caminho da justiça serão como as estrelas. Assim, o que verdadeiramente conta nesse momento final é a sabedoria e a justiça, a sabedoria com que tivermos vivido e a justiça que tivermos praticado e ensinado a praticar. Nas palavras de Jesus esta sabedoria e justiça traduz-se nessa capacidade de discernimento de perceber nos sinais dos tempos, no rebentar da folha da figueira, o que verdadeiramente se está a passar e como Deus está a agir no mundo, e como nós podemos colaborar nessa acção.
E quando olhamos os sinais dos tempos e tentamos perceber o que significam, não podemos esquecer que tanto o mundo em que vivemos, como as pessoas que somos, são obra do amor de Deus, são fruto do seu amor e da sua misericórdia, e que Deus nunca abandonou a história a que deu origem a partir da primeira obra da criação, que tem estado presente, está presente e actuante, e mais que tudo interveio na história através da incarnação do seu Filho para nos libertar dessa mesma condição trágica de finitude a que estávamos condenados pelo pecado.
A encarnação de Jesus Cristo, a sua vida, paixão morte e ressurreição são o sinal mais inequívoco de que Deus quer saber de nós, não nos quer condenados, nem nos condena ou castiga a um fim trágico e aniquilador. Deus não abandonou a história do homem, não abandona a nossa história pessoal, nem deixa que um fim aniquilador se abata sobre nós.
Contudo, e para que seja assim, não podemos viver longe da verdade nem na injustiça; bem pelo contrário, temos que procurar em cada momento da nossa vida viver como sábios, como homens e mulheres que conscientes da sua liberdade e fim vivem com responsabilidade. As alterações climáticas a que estamos assistindo mostram-nos tal qual um sinal vermelho dos semáforos como levámos já longe a nossa irresponsabilidade na administração dos recursos naturais, da conservação das espécies e bens comuns da humanidade, e como é necessário inverter a marcha para que não terminemos numa catástrofe. Paralelamente, as violações das leis, a corrupção, a falta de verdade e transparência, a ganância e a mentira, mostram-nos como estamos à beira de um colapso das estruturas e mecanismos que construímos fundados na liberdade, no reconhecimento mutuo dos direitos e deveres. Os atentados à vida, como o aborto e a eutanásia, a desestruturação da família, a falta de valores que norteiem a educação e formação das crianças e jovens, a relativização de todo e qualquer valor moral ou ético, estão a conduzir-nos a outro fim que é o fim do mesmo homem enquanto medida da própria construção do mundo.
Deus não quer o nosso fim trágico, a nossa aniquilação, mas nós estamos irresponsavelmente a fazer tudo para que isso aconteça, impedindo assim que a obra de Deus continue e a salvação que o seu Filho nos trouxe seja consumada até ao fim dos tempos.
Este é um discurso apocalíptico, mas se é assim é porque de facto acreditamos que é possível a conversão, que é possível a mudança de estilo de vida, de princípios e valores, de comportamentos. Não está fora do nosso alcance essa mudança, está na nossa mão, e a Palavra de Deus e os seus mandamentos são pistas para a sua concretização, para a sua viabilização. E ainda que algumas pessoas o afirmem, a Palavra de Deus e os seus mandamentos não são uma ingerência na nossa vida privada, uma violência sobre a nossa autonomia e liberdade, bem pelo contrário são possibilidades de uma realização mais plena da nossa própria natureza e história pessoal e comunitária.
Perante todas as possibilidades de tragédia, de fins apocalípticos do mundo, a maior tragédia e o mais triste fim é vivermos à sombra do medo de Deus, na ignorância das possibilidades de realização total que Deus oferece à nossa existência.
Peçamos ao Senhor a Sabedoria para discernir os sinais dos tempos e viver a justiça a que somos convidados.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Frei José de Santo António (Castelo Branco)

Assento da Tomada de Hábito, como se encontra no original:

Aos 19 dias do mês de Março de 1701 tomou o hábito de pupilo nas mãos do Nosso Muito Reverendo Prior Provincial Padre Mestre frei José Galrão o Irmão frei José de Santo António que no século se chamava D. José de Castelo Branco, filho legítimo dos Condes de Pombeiro; em fé do que fiz este assento, dia mês e ano ut supra.
Frei André Rangel, Mestre dos Noviços
[À margem:] Faleceu no terramoto do primeiro de Novembro de 1755 sem que aparecesse o seu corpo.[1]
[1] AHD – Livro das Profissões do Convento de São Domingos de Lisboa, fólio nº 188.

Dominicanos falecidos no terramoto de Lisboa de 1755

Rezam as notícias que chegaram até nós, que no dia fatídico do terramoto de Lisboa de 1755 morreram três frades dominicanos no desabamento da igreja e complexo conventual e mais três leigos, um oficial da botica que existia na convento e dois criados do convento.
João Baptista de Castro na sua obra “Mapa de Portugal Antigo e Moderno” diz-nos que os frades falecidos foram:
O Padre Presentado frei Manuel dos Santos, excelente Pregador e aquele que estava destinado a pregar nesse mesmo dia;
O Padre frei José de Castelo Branco, filho dos Condes de Pombeiro;
O Padre frei António José César, organista.
À margem do assento da tomada de hábito de frei José de Castelo Branco, ou de Santo António, nome religioso que tomou, está registado que faleceu no terramoto do primeiro de Novembro de 1755 mas sem que aparecesse o seu corpo.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

A estrela de São Domingos

Qualquer imagem para ser reconhecível e identificável necessita de signos, de sinais identificadores únicos e inequívocos. Nas imagens religiosas tal facto nem sempre é possível, pois há signos e elementos identificadores, os chamados atributos iconográficos que se repetem e por isso geram muita confusão no momento de identificação da imagem.
Relativamente a São Domingos, à sua imagem e atributos iconográficos, temos que ter presente que eles foram fixados muito cedo, de uma forma muito rápida e pouco depois da morte do santo. São atributos que acompanharam a imagem no evoluir dos séculos e aos quais se acrescentaram outros conforme o tempo e o lugar em que a imagem era produzida.
Um desses atributos iconográficos é a estrela que se lhe apresenta na fronte, um atributo bastante precoce e que aparece ligado aos primeiros relatos hagiográficos.
Contudo, e ainda antes desses relatos terem sido redigidos, podemos ver que na carta que o Papa Gregório IX dirige em 1233 aos comissários de Bolonha, para que impulsionem o processo de canonização de São Domingos, se refere a este mesmo comparando-o com uma estrela.
Com razão se alegram muitos no nosso tempo por terem visto em pleno dia uma estrela, ainda quando recordam ter contemplado inumeráveis durante o decorrer da noite.”[1]
A partir dali todas as fontes identificaram São Domingos com esse símbolo, a estrela, inserindo-a nos relatos dos prodígios que rodearam o nascimento de Domingos ou do seu baptizado. Podemos encontrar em Constantino de Orvieto e em Pedro Ferrando as referências mais precisas e denunciadoras desta utilização.
Outro sinal que antecipa o futuro encontra-se na visão que teve uma senhora, nobre tanto pela sua honradez como pelas suas raízes, e que tinha retirado da pia baptismal a São Domingos. Viu como o menino Domingos tinha sobre a sua fronte uma estrela muito brilhante que iluminava toda a terra. Divinos presságios! A tocha e a estrela prefiguravam que Domingos seria como Elias.”[2]
Deus quis antecipar o que seria aquele menino e para tal serviu-se da sua madrinha, a qual, em sonhos teve a seguinte visão. Pareceu-lhe que o menino tinha na fronte uma estrela cuja luz iluminava toda a terra. Com isso dava a entender que seria luz das gentes e que iluminaria os que vivem nas trevas e nas sombras da morte. Quem teve esta visão era uma dama da nobreza, a qual estupefacta pelo que tinha contemplado, cheia de gozo, não deixou de o comunicar à mãe do menino.”[3]
Iconograficamente uma das primeiras representações deste atributo encontra-se numa das miniaturas dum livro de coro do Convento de Santa Maria Novela de Florença, um Antifonário composto por volta de 1275, e nela podemos ver o aparecimento da estrela na fronte de São Domingos no momento do seu baptismo.
A partir de então, relacionada com a representação deste momento da vida do Santo ou isoladamente, a estrela aparece como um dos atributos mais significativos de São Domingos.

[1] GREGÓRIO IX, Papa, Carta aos Comissários de Bolonha, in GALMES, Lorenzo e GOMEZ, Vito, Santo Domingo de Guzman Fuentes para su conocimiento. Madrid, BAC, 1987, 143.
[2] ORVIETO, Constantino de, Narração sobre São Domingos, in GALMES, Lorenzo e GOMEZ, Vito, Santo Domingo de Guzman Fuentes para su conocimiento. Madrid, BAC, 1987, 253.
[3] FERRANDO, Pedro, Narração sobre São Domingos, in GALMES, Lorenzo e GOMEZ, Vito, Santo Domingo de Guzman Fuentes para su conocimiento. Madrid, BAC, 1987, 223.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Frei José de Santo António (Castelo Branco)

Assento da Profissão Religiosa de frei José de Santo António, como se encontra no original:

Aos vinte e nove do mês de Junho de mil e setecentos e seis, das quatro para as cinco horas da tarde, em dia do Apostolo São Pedro, professou por filho deste Convento de São Domingos de Lisboa o Irmão frei José de Santo António, filho legítimo dos senhores Condes de Pombeiro, sendo Provincial desta Província o Muito Reverendo Padre Presentado frei Manuel de Sena e Prior deste Convento o Muito Reverendo Padre Presentado frei Rodrigo de Lancastre, em cujas mãos professou o dito frei José de Santo António; Mestre de Noviços o Padre frei Aberto de São Tomás ao qual irmão foi dito que pela profissão se obrigava a estreita obediência de nossas sagradas Constituições e Regra e que se em algum tempo se achasse que ele tinha passado alguma coisa que encontrasse a disposição que as nossas Sagradas Constituições ordenam ficaria a profissão nula, o que ele ratificou em fé do que fiz este assento, dia mês ano ut supra.
Frei Rodrigo de Lancastre, Prior
Frei Alberto de S. Tomás, Mestre de Noviços
Frei Joseph de Santo António

Homilia Domingo XXXII do Tempo Comum

Histórias estranhas as que nos apresentam a primeira leitura do Livro dos Reis e o Evangelho de São Marcos deste domingo. A uni-las não só as viúvas, essas pobres mulheres quase sem nada, mas também os homens e a postura diante da precariedade de cada uma delas, uma postura de certa forma até escandalosa.
Elias chega a Sarepta e encontra uma mulher que pouco mais tem que um resto de farinha e de azeite para se alimentar e juntamente com o filho esperar a morte. É no entanto a essa mulher prestes a experimentar a morte que Elias pede o alimento, pede o pouco que ela ainda possui, como se desejasse apressar o fim eminente e inevitável.
No templo de Jerusalém, diante da arca do tesouro, Jesus observa as esmolas que os fiéis deitam nessa mesma arca. Uns deitam bastante, parece que muito do que lhes sobra, outros deitam alguma coisa, o suficiente, mas uma viúva apresenta-se e deita as duas pequenas moedas que tem, as únicas que tem. Deita tudo. Jesus tudo observa, sem intervir, sem se manifestar, mesmo quando pouco antes tinha condenado aqueles que exploravam as viúvas com motivo de longas rezas.
Estas duas mulheres, estas pobres viúvas, são protagonistas de histórias de generosidade, dão tudo o que possuem, mas são também vítimas das exigências de um e da passividade de outro. Elias encontra-se com a viúva de Sarepta e depois de lhe pedir a água pede-lhe tudo o demais que tem. É a sua autoridade de profeta que exige e o impede de nem sequer a ajudar a recolher a pouca lenha que procurava para cozer o pão que ele pedia que lhe fizesse e desse. O profeta não só pede tudo, como se isenta de fazer alguma coisa, apenas apresenta uma promessa. Jesus, no templo, assiste a tudo e de uma forma passiva não impede que aquela pobre viúva se desfaça das duas moedas que possuía. Para alguém que criticava o templo, que um dia expulsara os vendilhões, era normal que se tivesse abeirado daquela viúva e a tivesse impedido de contribuir para afinal mais uma forma obsoleta de religiosidade. Mas nada fez, apenas assistiu a tudo permitindo que a viúva saísse mais pobre e o templo continuasse a enriquecer-se com o dinheiro dos pobres.
Nas duas histórias parece que as viúvas estão condenadas, que Deus não quer saber mesmo delas, que apesar da crítica profética e divina as viúvas foram mesmo feitas para serem exploradas. Deus parece tudo tomar e nada dar em troca.
A nossa história pessoal e de discípulos de Jesus Cristo tem muito de semelhante com a história desta viúvas, porque também a nós Deus vem pedir o que temos, o pouco que temos, mas é contudo muito porque nos garante ainda a subsistência até à morte. Como no caso da viúva de Sarepta Deus quer que lhe entreguemos o que ainda nos garante a segurança, o pouco que ainda nos possa restar, porque só na medida em que lhe entregarmos tudo, em que nos disponibilizarmos para a morte, Ele pode vir até nós na sua dádiva total.
E não é fácil esta entrega, a nossa generosidade, porque como à viúva de Sarepta o que nos é apresentado é apenas uma promessa, nada mais que isso. E ou confiamos nessa promessa e permitimos que Deus venha até nós, ou não confiamos e Deus pode passar ao nosso lado.
Elias diz à viúva, face à surpresa e ao absurdo do pedido, que não tenha medo, medo que também a nós nos paralisa e nos bloqueia a entrega total do que Deus nos pede. Porque muitas vezes, frequentemente, o que Deus nos pede não é muito do nosso património material, desse até somos capazes de nos desfazer e desprender com alguma facilidade. O que Deus nos pede é do nosso património espiritual, se assim o podemos chamar, é desse nosso narcisismo, desse nosso orgulho, da superficialidade, das nossas concepções egocêntricas que englobam o próprio Deus e a nossa relação com Ele.
Como dizia o Mestre Echkart o que Deus nos pede é que nos esvaziemos de nós próprios, dos nossos projectos, das nossas concepções, até de Deus, para que Deus possa verdadeiramente vir habitar em nós. E como isso é tão difícil, como nos custa tanto colocarmo-nos na mão do outro, dependentes, confiantes apenas numa palavra prometida. Queremos garantir o pouco, sempre um pouco que nos possa dar segurança até à morte, nem que seja a nossa imaginária fé em Deus.
E contudo, Jesus deixa-nos a promessa de que a nossa entrega total, a nossa generosidade absoluta tem uma recompensa, tem o seu olhar misericordioso, porque ele mesmo se entregou de forma total e radical para nos garantir que o cumprimento da promessa não era nenhuma ilusão.
É vã toda a segurança dos homens, canta-nos o salmista; contudo Senhor continuamos a confiar nessa segurança, continuamos a encher-nos dela, ocupando o espaço e o tempo que Vos pertence. Dá-nos Senhor um espírito de generosidade para nos irmos abandonando nas tuas mãos e à tua acção salvadora em nós. Ajuda-nos a que se cumpra em nós a tua Palavra.

domingo, 1 de novembro de 2009

Homilia Solenidade de Todos os Santos

Chegar a um sítio, para o qual se foi convidado, e deparar-se com uma multidão incontável, vinda de todos os povos e tribos, falando todas as línguas, não é muito agradável. É necessário ter um espírito muito cosmopolita e uma boa dose de à vontade para enfrentar esta multidão e sentir-se em casa e entre amigos.
Ora a leitura do livro do Apocalipse que nós escutámos nesta Festa de Todos os Santos é um convite a este espírito cosmopolita, não só para o momento do juízo final, mas sobretudo para o nosso dia a dia, para o nosso quotidiano e para a construção do reino de Deus neste mundo em que nos encontramos.
Porque de facto a grande multidão de que fala o autor do Apocalipse é a mesma multidão que povoa a terra e o mundo que habitamos, é a mesma multidão que se cruza connosco todos os dias na vida familiar, no trabalho, nos caminhos das cidades ou do campo. E como no juízo final vêm de todos os lados, falam línguas diferentes, são de povos e nações diferentes, têm outros valores, defendem outros princípios, lutam por outros direitos, podem até acreditar em um Deus outro.
Mas estão aí e como nós procuram viver a misericórdia, procuram ajudar o próximo, procuram a implantação da justiça e da paz, procuram o bem comum e a felicidade de um número cada vez maior de homens e mulheres. Podemos não acreditar, podemos até não querer, mas são bem-aventurados e para eles está também reservado o reino dos céus, a presença nessa grande assembleia que louva o Senhor.
O ancião do Apocalipse, face ao desconhecimento de João relativamente à razão da presença de tão numerosa assembleia, diz-lhe que todos aqueles que estão vestidos de túnicas brancas são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas túnicas no sangue do cordeiro. Ora o sangue do cordeiro foi derramado pela salvação dos homens, é o resultado de um crime violento contra um projecto de amor e de paz, que o Filho de Deus veio trazer aos homens seus irmãos. Desta forma todos aqueles que no seu viver se assemelham a este projecto, que derramam o seu sangue, fazem essa lavagem da sua túnica no sangue do Cordeiro e tornam-se dignos de participar na grande assembleia.
Ao falarmos de derramamento de sangue podemos limitar-nos apenas aos mártires, às vítimas mais violentas do ódio e da injustiça. Tal forma de pensar é restritiva e deixa de fora muitos outros homens e mulheres que não derramando o seu sangue, não sendo vítimas de violência, mesmo assim, não deixam de purificar a sua túnica no sangue do cordeiro.
Podemos e devemos pensar nas mães de família, nos enfermeiros e guardas prisionais, no irmão mais velho que protege o irmão mais novo, nas crianças que são deixadas abandonadas sem o carinho de um pai ou de uma mãe, podemos e devemos pensar em todos aqueles que sofrem, quer no corpo ou no espírito. Todos eles lavam as suas túnicas no sangue do Cordeiro, pois esse sangue foi derramado por todos e para salvação de todos.
Num mundo de imagens, em que uma imagem vale mais que mil palavras, esta realidade pode aparecer-nos como suspeita, como uma ilusão, como um ópio para alimentar a servidão e o sofrimento do povo. Face a essa suspeita não podemos deixar de ter presente as palavras da Carta de São João que escutámos, ou seja que neste momento ainda não se manifestou o que havemos de ser, que ainda não é visível ao nossos olhos, mas que no dia em que se manifestar veremos não só essas realidades tais como são mas também o próprio Deus tal como é.
A esperança dessa visão, e o agir de acordo com essa esperança através de gestos de bem e de verdade, leva-nos como diz São João a essa purificação. Temos já o meio da nossa purificação e por isso o importante é ir agindo, é ir realizando no mundo as acções que tornam essa purificação actuante e actual, realidade em nós e nos outros que nos rodeiam.
Celebramos hoje a festa de todos os santos, mas a verdade é que pouco lhes adianta a nossa celebração, uma vez que eles estão já purificados e contemplam a visão de Deus em toda a sua pureza. Esta celebração adianta-nos a nós, a nós que ainda caminhamos na esperança e na necessidade de nos irmos purificando através das obras de misericórdia. Os santos que celebramos, conhecidos e desconhecidos, dão-nos o exemplo de que é possível, de que está ao nosso alcance, com a graça de Deus e com a nossa esperança, esse processo de purificação para a contemplação final de Deus. Peçamos-lhes a sua intercessão para não desanimarmos e não perdermos a esperança.