domingo, 30 de abril de 2017

Homilia do III Domingo da Páscoa

Ao iniciar o seu Evangelho, São Lucas diz a Teófilo, aquele para quem escreve, que procurou informar-se de tudo para que a sua doutrina, o conhecimento de Jesus que tinha recebido, fosse sólido.
É nesta busca de solidez da doutrina que encontramos o episódio dos discípulos de Emaús, um acontecimento que podemos considerar histórico, e que nos revela muito do que foi o dia da ressurreição de Jesus para os discípulos. As circunstâncias do encontro, o diálogo, o desenlace final, mostram-nos a diversidade de experiências, mas igualmente o mistério único de que foram participantes.
Ao afastarem-se de Jerusalém os discípulos manifestam a desilusão que os tinha alcançado, a frustração das expectativas, eles que tinham vivido com Jesus durante três anos e tinham acalentado expectativas de libertação. Eles que tinham testemunhado palavras e obras grandes diante de Deus e dos homens esperavam outro fim.
Nesta frustração podemos rever-nos cada um de nós, podemos considerar que somos irmãos dos discípulos de Emaús, que caminhamos com eles, pois também algumas vezes nos afastamos de Deus quando ele não responde ou corresponde às nossas expectativas, aos nossos planos e projectos.
Há em cada um de nós um pouco de Tomé, que fica junto do grupo, na expectativa, e apesar das suas interrogações e desejos de ver e tocar, e um pouco de Cléofas e do companheiro, que se afastam, apesar do conhecimento, das notícias e testemunhos dos outros, que os deveria fazer permanecer.
Mas em cada uma das situações há algo maravilhoso da parte de Deus, de Jesus ressuscitado, que não se impõe, nem condena, que não apressa a fé, bem pelo contrário faz-se presente suavemente e deixa que o tempo e a sua presença revolvam as dúvidas e as frustrações. Jesus deixa tempo aos seus discípulos para que apreendam o mistério, para que compreendam, para que se possam situar face aos acontecimentos.
A explicação que Jesus dá aos discípulos enquanto caminham é sintomática desta, poderíamos dizer, paciência e pedagogia de Jesus. Ele não força nada, não se impõe, mas deixa a liberdade a cada um para na sua circunstância, na sua história, fazer a descoberta do seu mistério e da sua presença. Desta forma a alegria do encontro da presença é muito maior, poderíamos dizer, concede algum mérito àquele que descobre.
A liberdade que Jesus nos concede no caminhar ao encontro da sua presença está no entanto vinculada a uma disposição, a uma outra atitude, patente no convite dos discípulos a que Jesus fique com eles. Para um verdadeiro e pleno encontro com Jesus ressuscitado não podemos deixar de ter o coração aberto, essa disposição para o acolher, mesmo quando parece que ele quer ir mais além. Necessitamos dizer-lhe que fique connosco, que venha habitar no nosso coração, fazer de nós habitação tua. Por diversas vezes e em textos bíblicos diferentes há referência a essa necessidade do acolhimento, da disposição para Deus para que ele venha ao nosso encontro.
E paradoxalmente, no relato dos discípulos de Emaús, é quando Jesus desaparece depois de abençoar e partir o pão que os discípulos o reconhecem e percebem o ardor que sentiam no coração enquanto o escutavam no caminho. Este paradoxo visa mostrar a Teófilo, para quem São Lucas escreve, que não podia ter a pretensão do conhecimento total de Jesus, da apropriação da sua pessoa e da sua história.
Jesus ressuscitado é um mistério de presença e ausência, uma presença na palavra e no pão, no acolhimento e no encontro, mas igualmente uma ausência porque está para além da materialidade das realidades de que se serve para manifestar a sua presença. É nesta tensão que os discípulos são convidados a viver, a dar o seu testemunho.
Também hoje nos é possibilitado fazer a mesma experiência dos discípulos de Emaús, também hoje temos à nossa disposição a Palavra, as Sagradas Escrituras, também hoje o mesmo pão continua a ser abençoado e partido na Eucaristia, e também hoje nos reunimos e acolhemos na expectativa da presença do Senhor nesta celebração dominical.
Necessitamos assim colocar a questão do ardor do nosso coração, da alegria que vivemos, dos passos que damos para ir ao encontro dos nossos irmãos para lhes comunicar que afinal é verdade que Jesus ressuscitou. Apesar das nossas fraquezas estamos de facto convictos da experiência que vivemos da presença de Jesus? Acreditamos e esperamos em Deus por Jesus ressuscitado?
Como nos recorda a leitura da Carta de São Pedro, não foi por coisas corruptíveis que fomos resgatados da vã maneira de viver, mas pelo sangue de Cristo, e se tal aconteceu foi para que acreditássemos, para que a nossa fé e a nossa esperança fossem alicerçadas verdadeiramente em Deus.
Procuremos pois viver com alegria e confiança o mistério da presença de Jesus ressuscitado, e com ardor e esperança testemunhá-lo aos nossos irmãos pela caridade e a fraternidade que nos devemos.

 
Ilustração:
1 – “Encontro na estrada de Emaús”, de Altobello Melone, National Gallery, Londres.
2 – “Ceia em Emaús”, de Andrey Mironov.

domingo, 23 de abril de 2017

Homilia do II Domingo da Páscoa

Com alguma frequência encontramos amigos, mais velhos ou mais novos, que nos dizem que gostavam de saber mais sobre Jesus, que é uma pena que os Evangelhos não nos contem mais coisas sobre a vida de Jesus, a sua infância, a sua vida de família, as suas relações de amizade e até da sua doutrina. À primeira vista parece que necessitam de uma biografia e de uma colecção das suas obras completas, como se realiza para os grandes escritores e pensadores.
Para estes amigos e para este desejo de conhecimento, o Evangelho de São João que escutámos dá-nos a resposta. O que nos foi escrito, contado, transmitido, é para que acreditemos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que acreditando tenhamos a vida em seu nome. Assim, não temos necessidade de uma biografia, não necessitamos de saber mais, necessitamos de saber o necessário para acreditar que Jesus é o Messias e o Filho de Deus, e é isso que os Evangelhos nos transmitem, e a partir daí tenhamos a vida divina.
Neste sentido, e neste conhecimento que nos é facultado, a leitura do Evangelho de São João que escutámos revela-nos alguns dados fundamentais como são a presença de Jesus na história dos homens e de cada um de nós.
O primeiro sinal desta presença é-nos dado quando Jesus se apresenta no meio dos discípulos reunidos em casa e com a porta fechada. Jesus faz-se presente não só porque tinha prometido que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome estaria presente, mas porque tem essa capacidade de se fazer presente, já revelada quando no monte Tabor se transfigura diante de Pedro, Tiago e João. Não é uma presença mística, unicamente espiritual, é uma presença concreta na sua realidade humana e divina, e por isso pode apresentar-lhes as mãos com as feridas dos cravos e pode aparecer e desaparecer gloriosamente. Algo que nunca tinha feito antes.
O segundo sinal da sua presença é-nos revelado na segunda aparição, oito dias depois, quando estando já Tomé presente lhe apresenta as mãos e o lado para experimentação da sua realidade, demonstrando assim a sua presença oculta aquando da manifestação de Tomé de querer tocar e ver com os seus sentidos humanos a nova realidade daquele que conhecia como Mestre.
Para aqueles que hoje dizem que gostavam de ver Jesus, de falar com ele, não podemos deixar de lhes responder que Jesus está presente, que está ao nosso lado, que nos escuta e que nos apresenta as respostas que buscamos, ainda que sejam de uma forma completamente diferente daquelas que imaginámos ou expectávamos. Que é a partir dos Evangelhos que podemos e devemos estabelecer um diálogo.
A história de Tomé vai contudo mais longe, é mais radical, pois mostra-nos que Jesus está também presente quando lhe fechamos as portas, quando nos encerramos em nós próprios, quando temos dúvidas e questões, quando colocamos em causa o que nos é revelado, a nossa fé, quando pecamos. Deus está presente nessas fronteiras, nessa marginalidade, se assim podemos dizer, para nos estender a mão, para nos erguer, para nos responder, para nos libertar e reintegrar na vida que nos alcançou com o seu sacrifício de vida. Jesus não se ausentou da nossa humanidade, está presente de uma outra forma.
A manifestação de Jesus ressuscitado a Tomé revela-nos também a misericórdia de Deus, a continuidade do amor e da confiança de Jesus naqueles que escolheu para seus discípulos e amigos. Apesar das questões de Tomé e do seu desejo de querer ver e tocar, Jesus não o condena, nem o critica, assim como não o faz com nenhum dos discípulos. Não há qualquer juízo, qualquer discurso, mas apenas a manifestação da pessoa que conheciam e que deve continuar a ser acreditada, tida como viva e presente.
É esta experiência, poderíamos dizer este acolhimento do dom da presença, que permite fazer a profissão de fé. Num primeiro momento, e quando os discípulos comunicam a Tomé a aparição de Jesus, dizem-lhe que tinham visto o Senhor. Fazem já pela experiência presencial vivida a profissão de fé em Jesus como Senhor. Tomé, face à oferta de Jesus ressuscitado, à presença total que lhe é oferecida pessoalmente, vai mais longe e reconhece em Jesus não apenas o Senhor, o Messias, mas também o Filho de Deus, a divinidade presente na sua vida e busca.
Na vida e na história de cada um de nós esta presença é constante, e por isso o que nos é pedido é que não tenhamos medo de estender a mão, de querer ver e tocar, de querer o encontro pessoal e radical. Como nos diz a Carta de São Pedro, necessitamos amar, necessitamos acreditar com amor, e ainda que tenhamos que passar por provas, a fé em Jesus Cristo ressuscitado, presente no meio de nós, será sempre fonte de alegria inefável, fortaleza para continuar a buscar e a testemunhar verdadeiramente.

 
Ilustração:
1 – “Aparição a Tomé”, de Franciszek Smuglewicz, Museu Nacional de Varsóvia.
2 – “Aparição de Cristo aos Apóstolos”, de Andrey Mironov.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Serei eu Mestre? (Mt 26,25)

Quando no decurso da última ceia com os discípulos Jesus anuncia que um dos presentes o vai entregar às mãos dos inimigos, cada um deles, no seu interior, coloca em pânico a questão, “serei eu?”
Os discípulos são conscientes da sua falta de amor, das invejas existentes, do ciúme que sentem uns pelos outros, são conscientes de não terem entendido muito bem os ensinamentos do Mestre e de algumas vezes lhes ter passado pela cabeça a ideia de voltar ao sossego da sua vida anterior. Mas, dessas fraquezas e incompreensões até ao desejo de o entregar para ser condenado ia uma grande distância, jamais se tinham colocado essa possibilidade.
Judas ousa colocar a questão, verbalizar o que todos pensavam no íntimo do coração, e dessa forma assume a possibilidade que mais nenhum tinha jamais pensado. Ele tinha-o pensado, tinha-o até já falado, ou melhor, negociado, faltava apenas o momento oportuno para o levar a cabo.
Judas como os outros discípulos foi escolhido por Jesus, era um dos que partilhava a sua intimidade. Tal como cada um de nós, tinha sido eleito desde a criação do mundo para ser santo e imaculado na presença do Senhor, como nos recorda a Carta de São Paulo aos Efésios.
E ainda que nos pareça completamente descabido, aquele que vai ser o traidor, Judas, era amado por Jesus, era um dos seus. É um abismo paradoxal face ao qual nos encontramos, Deus não pode mais que amar aquele que o vai trair.
É por essa razão que no momento da ceia lhe estende o pedaço de pão molhado no seu prato. Tal como hoje, também naquele tempo era aos mais próximos que se estendia o pão, era com eles que se partilhava o pão. Ao entregar-lhe o pedaço de pão, Jesus oferece a sua amizade a Judas, sela com ele um pacto, renova-lhe a participação no seu mistério já expressa nos lavar dos pés.
Então Judas sai, e faz-se noite, as trevas adensam-se, porque o amado na entrega do pedaço de pão conduz aos infernos da traição aquele que o alimentou e o serviu. Judas leva-o consigo, em si, ainda que nem tenha consciência disso. Em algum momento terá pensado que naquele pedaço de pão foi configurado ao seu Mestre e Senhor? Que no seu desastre de vida não deixa de ser sua imagem e semelhança?
Mais tarde na oração dirigida ao Pai, Jesus não deixa de manifestar a dor pela perdição de Judas, pois vigiou para que nenhum se perdesse, e nenhum se perdeu a não ser o filho da perdição, e para que se cumprisse a Escritura.
Face ao relato da traição de Judas, a fé é a única resposta possível, a única saída viável, pois foi a fé que faltou a Judas que o levou à traição e posteriormente a colocar fim à sua vida. Se Judas tivesse acreditado que nada estava perdido quando entregou o Mestre, que bastaria um olhar para tudo ser diferente, deixar-se olhar pelos olhos amorosos de Jesus.
E se o olhar já não fosse possível, bastaria acreditar na palavra, acreditar que naquele mesmo instante era por ele, mais que por qualquer outro que Jesus se entregava nas mãos dos verdugos. Aquele que tinha vindo para salvar o que estava perdido, estava a salvá-lo a ele.
Teremos nós hoje esta fé, esta esperança, acreditaremos que o Senhor nos salva porque nos perdemos? Quando é que na nossa perdição ou desaire ousaremos levantar os olhos e cruzá-los com o olhar amante de Jesus?

 
Ilustração:
“Judas Iscariotes”, de Eilif Peterssen, Nordnorsk Kunstmuseum, Tromso, Noruega.

terça-feira, 11 de abril de 2017

Não cantará o galo sem que me tenhas negado. (Jo 13,38)

Estavam reunidos para celebrar a Páscoa, a alegria transparecia no rosto de quase todos, e sem se perceber muito bem como o Mestre sentiu-se intimamente perturbado. O seu semblante alterou-se e sem qualquer preparação psicológica anunciou aos seus amigos ali reunidos que um deles o ia trair.
Podemos imaginar o murro no estômago que todos sentiram, o nó que se formou na garganta e lhes embargou a voz, ao ponto de apenas o discípulo amado ser capaz de perguntar: “quem é Senhor?” Olharam-se uns aos outros numa tentativa de percepção de quem seria o traidor.
Pedro, na sua habitual rusticidade, não aceita o que Jesus diz, e afirma que ainda que alguém possa trair o Mestre ele está disposto a dar a vida, está disposto a seguir Jesus até ao fim, a ser fiel inquestionavelmente. A tal disposição Jesus responde com o anúncio da negação, uma negação tripla ainda antes do galo cantar, ainda antes da noite terminar.
As palavras de Jesus feriram, devem ter sido um outro murro e muito mais forte no estômago e no coração de Pedro. Como era possível que o Senhor dissesse que ele o trairia ainda essa noite? Ele que tinha já deixado tanta coisa para o seguir. O orgulho de Pedro desmoronou-se!
Mas é esta ferida no orgulho de Pedro que lhe permitirá não cair na tentação do desespero, que lhe permitirá reconhecer o amor incondicional de Jesus, a porta aberta por este anúncio de traição. O Mestre sabia já o que ele faria, conhecia as suas fraquezas, e não o condenava nem o excluía, bem pelo contrário anunciava-lhe a realização da sua pretensão de entrega e fidelidade, embora para mais tarde e de outra forma.
Deus conhece as nossas fraquezas e potencialidades de infidelidade, mas não nos condena nem nos fecha a porta, bem pelo contrário, por causa delas oferece-nos a mão estendida do perdão, da misericórdia, para não soçobrarmos nas nossas infidelidades. Não é um conjunto de homens e mulheres perdidos que lhe interessam, mas aqueles que estão dispostos a fazer a experiência do perdão, a retomar o caminho onde foi abandonado.
Neste dia da Semana Santa ousemos apresentar ao Senhor as nossas próprias negações e traições para dessa forma sermos acolhidos por Ele e acolhermos a graça de uma vida nova que é já ressurreição.

 
Ilustração:
“A negação de Pedro”, de Andrey Mironov.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Maria ungiu os pés de Jesus com perfume. (Jo 12,3)

Seis dias antes da Páscoa Jesus encontra-se em Betânia, é convidado da casa de Marta, Maria e Lázaro. Uma vez mais regressa à casa dos amigos, onde sabe que pode repousar, que se pode fortalecer com a amizade que lhe tributam. Os discípulos, íntimos da família estão também ali.
Durante a refeição que é servida aos convidados e amigos, Maria vem até junto de Jesus, ajoelha-se ao seu lado, e sem que ninguém o pudesse prever começa a ungir os pés do Mestre e Amigo. Surpresa geral e até um olhar de escândalo, Judas queixa-se do desperdício, afinal com o dinheiro gasto com aquele perfume podia alimentar-se os pobres.
Mas Maria sabe muito bem o que faz, da intimidade da escuta de Jesus, percebeu que é no tempo presente que podemos e devemos cuidar daqueles que futuramente serão defuntos. É no tempo presente, no aqui e no agora, enquanto estão vivos que convém amá-los, que convém perfumá-los, cuidar do seu corpo divinamente.
Celebrando desta forma requintada o corpo do Senhor, ungindo Jesus com um perfume de alto preço, Maria anuncia profeticamente que o corpo não está destinado à destruição, anuncia a ressurreição, anuncia a habitação divina no corpo de cada homem e mulher.
Num outro encontro, há já algum tempo, uma mulher da Samaria tinha perguntado a Jesus sobre o lugar onde se deveria adorar a Deus. Maria, irmã de Lázaro, responde-lhe neste gesto desmesurado da unção dos pés de Jesus, nesta atitude de prostração aos pés do amigo.
Horas mais tarde o próprio Jesus vai repetir a cena, não ungindo os pés dos discípulos, mas também ele inclinando-se aos pés de cada um para os lavar, para os libertar do pó da terra e confiar-lhes a graça divina, a participação na sua glória. O gesto de Jesus ao lavar os pés aos discípulos confirma o gesto e a unção de Maria em Betânia, o templo de Deus é a carne do homem, é o homem vivo.
Face a estes gestos de Maria e de Jesus não podemos deixar de olhar para a nossa vida, para os nossos gestos e tentar perceber como eles são ou não gestos de unção, gestos que perfumam a vida daqueles com que nos cruzamos. Não se trata de saber se somos melhores ou piores que os outros, se somos exemplares nas nossas atitudes, mas de perceber se compreendemos verdadeiramente que o corpo do homem e da mulher é habitação de Deus, é templo do Espirito Santo.
Se o compreendermos verdadeiramente trataremos o corpo do outro com um respeito e uma doçura infinitas, quer no assento do transporte público quer na intimidade dos lençóis de linho, quer na cadeira do tribunal quer na cama do bloco cirúrgico. O cuidado e o respeito serão manifestações de que acreditamos que a morte não tem a última palavra sobre nós, sobre o nosso corpo. Ele ressuscitará uma vez que é habitado por Deus.

 
Ilustração:
“Maria ungindo os pés de Jesus”, de Daniel Gerhartz.     

domingo, 9 de abril de 2017

Homilia do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor

A entrada de Jesus em Jerusalém, recordada e celebrada na procissão dos ramos, assinala o início da grande semana do ano litúrgico, da Semana Santa, da grande semana que nos oferece contemplar e viver o grande mistério da nossa redenção.
Assim, ao darmos início a esta Semana, temos que olhar para essa descida de Jesus desde Betânia até Jerusalém, descida que termina com a entrada na cidade santa de Jerusalém. O movimento que o Evangelho nos apresenta associa-se ao movimento de kenosis que o Filho viveu em todo o mistério da Encarnação.
Tal como nos recordava São Paulo na leitura da Carta aos Filipenses, o Filho não se valeu da igualdade com Deus, mas assumindo a condição de servo humilhou-se até à morte e morte de cruz. Aquele que habitava na glória das alturas assume a condição humana, baixa-se a essa servidão para poder libertar o homem do poder da morte. E para significar de forma mais veemente esse abaixamento, esse despojamento divino para elevar a condição humana, Jesus entra na cidade santa montado num jumentinho, filho de uma jumenta.
Diz-nos o evangelista que tal acontece para se realizar a profecia, mas acontece também para significar o mistério inerente à redenção humana operada por Jesus. Na língua hebraica a raiz da palavra jumento é a mesma da palavra húmus, a lama de que o homem foi feito por Deus.
Desta forma, ao colocar-se sobre um jumentinho para entrar na cidade santa, Jesus assume a condição humana na sua fragilidade de pó da terra e sob a sua glória faz com que ela seja introduzida na divindade. O jumentinho sobre o qual Jesus entra em Jerusalém pode-se dizer, é uma metáfora do mistério da encarnação e da redenção. Jesus eleva a nossa humanidade à divindade.
Face a este mistério, e ao iniciarmos a Semana Santa, não podemos deixar de nos interrogar sobre a forma como de facto assumimos na nossa corporeidade e na relação com os outros este movimento operado por Jesus, essa elevação que nos alcançou com o seu abaixamento, com o seu aniquilamento. Viveremos condignamente a nossa condição de resgatados das forças e dos laços da morte?
É o acolhimento desta libertação que nós vemos patente naqueles que estendem as suas capas à passagem de Jesus. Podemos pensar num gesto de glorificação, mas temos que pensar no significado de confiança que representa este acto. Aqueles que lançavam as capas aos pés do jumentinho onde Jesus seguia estavam cheios de confiança e de esperança, tinham deixado de sentir necessidade de uma protecção física ou material, porque o verdadeiro protector vinha até eles.
Podemos dizer que à luz deste gesto, tal como Jesus se tinha despojado da sua glória também aqueles homens se dispunham a despojar da protecção humana para serem acolhidos sob a protecção daquele que vinha como Rei e Senhor, como Messias. É o acolhimento que é necessário realizar, confiante, esperançado, fiel, perseverante.
Acolhimento que volta a estar patente no momento em que Jesus envia os seus discípulos a casa de uma tal pessoa para celebrar lá a Páscoa. A ordem é clara: é em tua casa que quero celebrar a Páscoa. A não identificação da pessoa coloca-nos a todos em jogo, pois na casa de cada um de nós Jesus quer celebrar a Páscoa.
No livro do Apocalipse vamos encontrar esta mesma referência e necessidade, quando se diz que Jesus bate à porta e espera que se abra, pois àqueles que lhe abrirem a porta ele a transporá e celebrará uma ceia com eles. Jesus vem ao nosso encontro, deseja entrar na nossa casa, fazer-se íntimo de cada um de nós, e se lhe abrirmos a porta oferecer-nos-á uma ceia que não podemos deixar de dizer que é ele próprio, o seu corpo divino.
Estes mistérios são celebrados nesta grande Semana Santa, pois na Quinta-feira Santa celebraremos a instituição da Eucaristia, do mistério do Corpo que nos é entregue para alimento, na Sexta-feira Santa a Paixão e morte de Jesus, a redenção da nossa corporeidade, e no Sábado Santo o grande silêncio que precede a revolução da Ressurreição celebrada na Vigília da noite Pascal.
Procuremos pois viver e celebrar dignamente estes dias, conscientes do grande mistério em que estamos envolvidos e do grande dom que nos é feito, depois da paixão e da morte que Jesus sofreu por nós, na ressurreição somos ressuscitados com ele.

 
Ilustração:
1 – “Entrada de Jesus em Jerusalém”, de Andrey Mironov.
2 – “Entrada em Jerusalém”, atelier de Pieter Coecke van Aelst, Bonnefanten Museum, Maastricht.
                                                                             

sábado, 8 de abril de 2017

Decidiram dar-lhe a morte. (Jo 11,53)

O cerco vai-se apertando, os ânimos vão ficando mais exaltados e nas veias circula o ódio contra Jesus. O medo apodera-se dos corações, é preferível um homem morrer, um inocente, a perder-se o poder que se tem. As autoridades decidem a morte de Jesus, é um perigo para eles e para o poder que possuem.
Jesus aceita a morte, ainda que distante de toda esta trama de violência que se gera à sua volta, Jesus aceita o papel que lhe compete, aceita entregar a sua vida nas mãos dos homens, ser julgado por homens sem qualquer sentido de justiça, condenado por eles sem escrúpulos a uma morte ignominiosa.
Ele morre por ter anunciado aos homens o amor sem medida de Deus, o amor eterno que desde o primeiro momento da criação Deus mantém pela sua obra, e de modo particular pela obra que é sua imagem e semelhança. Ele morre por ter revelado um Deus que se apaixona, que perdoa, que sente as dores da maternidade por um filho que se perde. Ele morre por ter apresentado Deus humano.
A cruz elevada no alto do Gólgota revela-nos esse amor abissal de Deus pela humanidade, o seu coração amante para que todos os homens o saibam e possam amar sem medo. A cruz revela-nos que o amor vence o mal, o ódio, a violência, que Deus se entrega para vencer o mal que nos corrompe.
Quando traçamos sobre nós o sinal da cruz, no início de cada oração, de cada celebração da Missa, era bom que nos recordássemos desse amor, de como estamos e fomos mergulhados na mesma cruz em que Jesus esteve pregado, como ao traçá-la sobre nós estamos a assinalar a habitação do amor de Deus. Pela sua cruz Jesus deu-nos a vida divina que nos habita, fez de nós habitação de Deus.
Que o saibamos cuidar e assinalar dignamente, que descubramos todo o significado e poder deste gesto tantas vezes banalizado no seu traçar desajeitado e sem sentido.

 
Ilustração:
“O pagamento de Judas pela traição”, Giotto di Bondone, fresco da Capela dei Scrovegni, Pádua.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Quem é que pretendes ser? (Jo 8,53)

A discussão entre Jesus e os seus interlocutores vai subindo de tom, ao ponto de o acusaram de ser um demónio. A tensão é extrema e as pedras que procuram para apedrejar Jesus mostra a gravidade da situação, a tensão a que se chegou.
Tudo isto porque a palavra de Jesus os provocou em todos os sentidos, mas de modo mais incisivo quando lhes disse que se guardassem a sua palavra não veriam a morte. Afinal quem é que ele era? Ou melhor, quem é que ele pretendia ser? Porque ninguém pode escapar à morte!
E contudo, as palavras de Jesus não podem ser mais verdadeiras, porque guardar a sua palavra é guardar a Palavra de Deus, é guardar a Palavra que está presente desde o primeiro momento da criação, que faz as coisas surgirem do nada e à imagem e semelhança da qual o homem foi criado.
Guardar a palavra de Jesus é guardar fidelidade a uma palavra que não pode mentir, é permanecer numa palavra que se mantém fiel apesar de tudo o que o homem pode fazer ou duvidar, dos ouvidos que pode fechar.
Na nossa vida existe por vezes também esta tensão entre a Palavra de vida que recebemos e que nos é oferecida e as certezas que vamos construindo e nos impedem de acolher a palavra, a vida divina que ela nos traz.
É muito mais fácil acreditar nas palavras dos homens, ainda que o vento as leve como o pó, que acreditar numa Palavra que se encarna, que ama até à morte, que se entrega para ser crucificada. Paradoxo de uma palavra viva, de vida, que se deixa matar, aniquilar.
Nesta caminhada da Quaresma rezamos ao Senhor para que nos liberte das palavras vãs, do ruido de fundo das palavras que circulam e nos enredam num vazio sem sentido, e que saibamos acolher a Palavra viva de vida que nos liberta da nossa morte e finitude, que nos assume na sua imortalidade divina.

 
Ilustração:
“Ecce homo”, de Mihály Munkácsy, Museu Déri, Debrecen, Hungria.

terça-feira, 4 de abril de 2017

Então sabereis que Eu Sou! (Jo 8,28)

Visão de São Tomás de Aquino, de Santi di Tito
No trecho do Evangelho de São João, que nos é proposto hoje, encontramos por três vezes a expressão “morrereis nos vossos pecados”. Sentença sem apelação.
Mas que nos quer dizer Jesus com estas palavras, com esta sentença, ele que veio não para julgar mas para salvar o mundo?
Para compreender o que nos quer dizer, o porquê desta sentença, temos que olhar para a chave que nos apresenta para a sua compreensão: “vós sabereis que Eu Sou!”
Este “Eu Sou” ressoa fortemente nos ouvidos dos escribas e dos fariseus que o escutam, pois sabem que tal afirmação diz respeito a Deus na revelação a Moisés.
Foi a Moisés que Deus se revelou como “Eu Sou”, é o nome de Deus, é a sua identidade. Este homem de Nazaré, este Jesus, proclama para ele próprio aquilo que pertence a Deus, proclama-se Deus.
Jesus revela aqui e desta forma a sua identidade verdadeira, ele é o enviado do Pai, e este “Eu Sou” ficará totalmente patente aos olhos de todos quando ele for levantado na cruz.
Na cruz ficará visível o seu ser de amor, a entrega feita ao homem desde o primeiro momento da criação quando lhe conferiu a imagem e semelhança, ficará patente a descida à habitação humana na sua maior fragilidade para que ela pudesse subir à divindade.
Na cruz todos ficamos a saber que Deus é um Deus activo, um Deus do presente, um Deus de amor, um Deus da vida, um Deus que perdoa quando se entrega, que confia no homem mesmo quando ele o crucifica.
Como são fortes as palavras de Jesus, como nos revolucionam os sistemas estabelecidos, as concepções idolátricas. Por essa razão, não podemos mais que balbuciar esta oração: “Senhor eu acredito em Ti, acredito na tua palavra, mas aumenta a minha fé, de modo que eu viva da tua vida, afim que eu seja em ti.


Ilustração:
“Visão de São Tomás de Aquino”, de Santi di Tito, Museu de São Marcos de Florença.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Vai e não voltes a pecar. (Jo 8,11)

Jesus estava no templo a ensinar e trazem-lhe uma mulher, dizem os escribas e fariseus seus acusadores que apanhada em flagrante delito de adultério.
É uma armadilha para ver se apanham Jesus, se lhe encontram mais matéria para o poderem acusar, para fundamentar a trama que se concebe no segredo para o eliminar.
Jesus percebe a intenção e sem grandes declarações, sem entrar em discussões teológicas ou morais começa a escrever no chão, reenviando aqueles homens acusadores ao seu próprio crime e pecado. Afinal estavam a servir-se da mulher para o apanhar a ele em flagrante, há má intenção no que pretendem.
Saindo um após outro deixam a mulher sozinha com Jesus, os que a tinham trazido presa abrem-lhe uma porta de saída, oferecem-lhe sem o saber uma oportunidade de futuro e de esperança.
Ninguém te condenou, perguntou Jesus; e face à resposta negativa da mulher, diz-lhe, vai que eu também não te condeno.
Vai, pequena palavra, uma ordem simples, mas cheia de força e de futuro, plena de liberdade e confiança. Vai, é ainda hoje a ordem que Jesus nos dá. Vai e faz o bem, não voltes a pecar.
Que confiança que o Senhor deposita em nós, e que paz habita o nosso coração quando ouvimos esta palavra de Jesus. Não necessitamos temer, não ficamos presos, não nos tornamos escravos.
Podemos ir, o Senhor confia em nós, como o pai da parábola do filho pródigo não teme confiar-nos os seus bens, o seu património, a vida nova da graça. O seu amor por nós é imenso.
Senhor, que eu não tema abeirar-me de ti nesta Quaresma, de pedir-te perdão das minhas faltas. Também tu me vais dizer pela voz do sacerdote, vai em paz. Vais abrir-me um futuro, uma esperança nova de que a minha vida pode ser diferente, pode ser melhor.
Senhor, que eu vá até ti cheio de confiança!

 
Ilustração:
“Jesus e a pecadora”, de Andrey Mironov.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Nós sabemos de onde ele é! (Jo 7,27)

Pela festa dos Tabernáculos Jesus sobe a Jerusalém e, ainda que inicialmente se movimente em segredo, rapidamente a urgência do anúncio o leva a expor-se a discussões e a ser reconhecido pela multidão. O conflito vai num crescendo e por causa do seu poder e influência sobre as multidões começa a ser detestado, a ser objecto de uma trama para que a morte rapidamente lhe possa pôr fim.
Entre a multidão começam a circular os rumores, as questões sobre a sua pessoa, a sua origem, o poder que tem e exerce como o Messias esperado. E é neste contexto de rumores que alguns afirmam que ele é um pecador, que sabem de onde vem e qual a sua família e portanto todas as expectativas messiânicas são falsas.
“Sabemos”, é a palavra definitiva daqueles homens e instituições religiosas sobre Jesus, uma palavra que silencia a palavra viva do mestre e que as multidões cansadas e desgarradas sem pastor escutam com avidez.
Ao afirmarem um saber sobre Jesus aqueles homens manifestam um ressentimento que contamina tudo, as relações com os outros, a relação com Deus e a estima de si, manifestam um juízo que reduz o outro àquilo que acreditam saber dele. E afinal sabe-se tão pouco do outro, que é sempre um mistério.
O ressentimento é uma cólera contra o mundo, contra os outros, é o sentimento que experimenta aquele que se encontra encerrado na sua própria existência e tem como único fito procurar um culpado para a sua situação. Nada nem ninguém está protegido.
Diante do ressentimento Jesus apresenta-se e propõe-nos uma relação e um movimento completamente orientado para o Pai, a comunhão plena com Deus na realização da sua vontade.
Peçamos pois ao Senhor Jesus a graça de habitar na intimidade de Deus, de nos encontrarmos completamente voltados para fora de nós, para a realização da vontade de Deus Pai, e de em todas as provas vivermos com confiança a chamada “hora” que espera de todos nós.

 
Ilustração:
“Jesus diante de Caifás”, de Mattias Stom, sem localização.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Pai deu testemunho de mim. (Jo 5,37)

Jesus prossegue o seu debate com os judeus no seguimento da cura do paralítico da piscina de Betsatá, um debate teológico sobre a sua pessoa e filiação divina e que João registou de modo magistral.
Para fundamentar o milagre operado, o poder inerente à sua identidade divina, Jesus invoca três testemunhos, seguindo neste processo a tradição e a lei que dizia que um testemunho só era válido com duas ou mais testemunhas.
Antes de mais Jesus invoca o testemunho de João Baptista, a quem os judeus tinham enviado emissários, que tinha reconhecido Jesus como o Messias esperado, e em parte pelas obras realizadas por Jesus. João é capaz de responder aos emissários que ele não é o Messias, contudo diz-lhes também que a sua presença é já visível para os que o quiserem ver nas obras e milagres extraordinários que vão acontecendo.
O segundo testemunho que Jesus invoca são essas mesmas obras, pelas quais é fácil perceber que não as faz por si próprio, mas por alguém que o enviou e lhe confiou o poder de as realizar. Como era possível não ver naqueles milagres os sinais da presença divina?
Por fim Jesus evoca o testemunho das escrituras às quais os judeus estavam tão apegados. Se quisessem ler o profeta Isaías podiam ver como a promessa se estava a cumprir, como a Palavra de Deus tomava forma, se concretizava nas obras que realizava, pois os cegos viam, os coxos andavam e os leprosos eram curados.
Para além destes argumentos, que poderemos dizer históricos, considerar circunstanciais, nós temos pela fé, alicerçada no relato dos discípulos, a palavra e testemunho do próprio Pai, que tanto no momento do baptismo como no alto do monte Tabor proclamou que Jesus era o seu filho muito amado, a quem devíamos escutar.
Para nós não existem apenas provas externas, existe a proclamação do Pai, a manifestação da filiação divina, do amor do Pai pelo Filho, a convicção clara que Jesus é o rosto do Pai, a maior prova do amor de Deus por todos os homens.
Senhor, que saibamos dar testemunho do teu amor diante de todos os nossos irmãos.

 
Ilustração:
“Transfiguração”, de Peter Paul Rubens, Museu de Belas Artes de Nancy.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Meu Pai trabalha incessantemente! ( Jo 5, 17)

Para o paralítico curado por Jesus uma vida nova começava. Tudo agora seria diferente. Para Jesus também uma nova fase da sua vida se inicia, pois o milagre realizado fornece motivos a todos aqueles que o queriam ver morto, que queriam ver-se livre dele, para agirem de forma mais organizada e sistemática. E tudo isto porque o milagre foi realizado a um sábado, dia sagrado de descanso, dia em que estava proibido trabalhar.
Este facto, esta transgressão de Jesus do preceito sabático, vai dar origem a uma discussão, a um debate teológico entre Jesus e aqueles que se lhe opunham, que o criticavam. Neste debate Jesus começa por afirmar que o Pai trabalha sempre, incessantemente, e ele próprio também trabalha todo o tempo. Afirmação escandalosa, provocatória, pois coloca em causa o sábado enquanto dia sagrado de descanso e afirma uma filiação divina impossível de aceitar.
A afirmação de Jesus revela contudo a acção permanente de Deus Pai na história e na vida de cada homem, uma acção vivificante, iluminadora, uma acção sempre renovada em cada dia e em cada momento. Deus trabalha pela salvação dos homens, dá-lhes a vida e oferece-lhes a ressurreição.
E Jesus trabalha juntamente com o Pai, pois o Pai age por Jesus, nas suas obras e palavras, na sua vida transformadora da vida de todos os homens, no cumprimento da vontade salvadora. E é desta intimidade e unidade de acção que provém todo o poder das obras de Jesus.
O evangelista São João regista nesta discussão de Jesus com os judeus, de forma paradigmática, a filiação divina, a divindade de Jesus, precisando que é esta afirmação da filiação o motivo porque Jesus será conduzido à morte.
Ao declarar que Deus era seu Pai e que trabalhava em união com ele, Jesus faz-se igual a Deus, assume a sua natureza, e isso é intolerável para aqueles que o escutavam e aceitavam Deus escondido no santo dos santos, mas não mais que isso. Outra presença real, possível de manifestação aos sentidos era impossível.
Face a esta discussão, e ao fim a que levou, temos que agradecer a Deus a felicidade e a honra de sermos convidados a viver como filhos e de acolher a partir de Jesus a vida divina do Pai. Neste acolhimento fazemos a experiência do trabalho do Pai, a sua acção na nossa vida, acolhendo-a e transfigurando-a apesar das nossas infidelidades e faltas.
Deus não deixa de trabalhar incessantemente para nos conformar à sua imagem, para nos fazer regressar à natureza gloriosa com que nos criou. Saibamos nós acolher esse trabalho com humildade procurando viver a vontade de Deus Pai na nossa vida.

 
Ilustração:
“Jesus e a mulher adúltera”, atribuído a Tintoretto, Academia de Veneza.

terça-feira, 28 de março de 2017

Senhor não tenho ninguém! (Jo 5,7)

Jesus sobe a Jerusalém por ocasião de uma festa e ao passar junto da piscina de Betsatá encontra-se com um homem deitado, enfermo havia já trinta e oito anos.
Jesus pergunta-lhe se quer ser curado, pergunta que poderemos considerar descabida, pois não haveria aquele homem doente e paralítico de querer ficar curado?
Contudo, a pergunta tem um objectivo que vai para além da própria cura, da necessidade física daquele homem. A pergunta visa estabelecer uma relação, visa passar da visibilidade da situação a uma resposta que não pode nem deve ser apenas visível, visa uma resposta interior transfigurante da pessoa em si.
E vemos esta necessidade de resposta interior, de transformação, quando mais tarde o homem se encontra com Jesus no templo e lhe é dito que não volte a pecar para que não lhe suceda algo pior. A graça da cura física implicava uma cura espiritual e por isso essa advertência de Jesus, pois era uma situação mais grave que a doença paralisante anterior descuidar a vida nova recebida na relação com a palavra de Jesus.
O encontro com o paralítico à beira da piscina e a resposta à pergunta de Jesus, sobre o desejo de cura, revelam ainda uma outra dimensão do sofrimento, a inexistência de pessoas que ajudem o homem paralítico. Não há ninguém que o ajude a entrar nas águas quando elas se agitam.
Estas palavras e queixa do paralítico encontram-se também muitas vezes nos nossos lábios, no nosso espirito. Também nós nos queixamos de que não temos ninguém que nos ajude, em casa a preparar o jantar depois de um dia de trabalho, no escritório porque todos têm a sua tarefa e não podem descuidar-se, na relação de amizade porque o outro está sempre à espera que seja eu a ceder ou a perdoar. Tantas situações.
Podemos viver em sociedade, em família, em comunidades religiosas, mas é inevitável que em determinados momentos vivamos o peso da solidão, o sentimento de que não temos ninguém para nos ajudar. O próprio Jesus fez essa experiência no jardim das oliveiras quando todos os abandonaram.
A esta queixa do paralítico Jesus responde-lhe que se levante e ande, que deixe de confiar nos homens, porque não são garantia de nada, e confie em si próprio e naquele que lhe ordena que se levante e ande. Esta palavra estará sempre com ele, poderá acompanhá-lo, fortalecê-lo, não o deixará só nem sem ajuda.
E estas palavras e garantia são também para nós, para cada um de nós. Também Jesus nos diz levanta-te e anda, carrega a tua enxerga e vai para casa, ou melhor, regressa à casa que eu sou, à minha palavra em que podes habitar e confiar.
Na nossa inconstância e vacilação, Senhor Jesus estende-nos a mão, toma-nos e conduz-nos!

 
Ilustração:
“Jesus na piscina de Betsatá”, de Artus Wolffort, Art Gallery of Ontário.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O homem acreditou. (Jo 4,50)

Jesus regressa à Galileia e surpreendentemente é bem recebido, poderíamos dizer quase euforicamente, pelos galileus.
Eles tinham visto o que Jesus tinha feito em Jerusalém e acolhem-no na expectativa de ver também ali realizados novos e grandes milagres. É o extraordinário que os move atrás de Jesus, que os dispõe ao acolhimento.
Influenciado por esta multidão e este desejo, um funcionário real dirige-se a Jesus, pois o seu filho está doente em Cafarnaum. E como tantos outros pede a Jesus um milagre, que vá curar o seu filho.
Pedido normal, face ao conhecido e ao que se dizia, mas rapidamente contestado por Jesus, pois as circunstâncias não permitem outra resposta, todos querem ver coisas extraordinárias.
É a insistência do funcionário que provoca a alteração, mas também essa confiança interior de que Jesus podia fazer alguma coisa sem visibilidade, sem espectáculo. O funcionário é um homem que acredita que algo pode ser feito no silêncio, pelo poder da palavra.
E por isso quando Jesus lhe diz que vá tranquilo, que o seu filho está vivo, este homem parte sem hesitações, sem dúvidas, confiando na palavra, no poder da palavra de Jesus, poder confirmado quando os seus criados o encontram e lhe atestam a cura do filho.
Este homem fez confiança em Jesus sem necessidade de provas, sem necessidade de uma presença física, bastou-lhe a palavra. E afinal esse é o grande desafio que se coloca a cada cristão, confiar na palavra, acreditar sem necessidade de satisfações sensíveis, ou de emoções. Viver a fé com os seus riscos e as suas purificações fundados apenas na palavra.
Este desafio vem dos primórdios da criação, pois também ali e no momento da tentação, há uma oposição entre a palavra e a visão. Encontramos dois registos, se assim podemos falar, o da palavra de Deus que é uma palavra de bênção, que realiza o que diz, e o da visão induzida pela serpente que comporta a gula, a cobiça e a possessão do fruto proibido
A palavra é assim a nossa fonte e o nosso fim de realização de plenitude, ela deve iluminar o nosso caminhar, ela apenas nos deve bastar para continuar com confiança nos passos de Jesus. Permanecer na Palavra é o que Deus nos pede para nossa salvação!

 
Ilustração:
“Jesus curando os doentes”, de Fritz von Uhde, Neumeister Kunstauktionen.

domingo, 26 de março de 2017

Homilia do IV Domingo da Quaresma

A liturgia da Palavra propõe-nos hoje a leitura do capítulo nove do Evangelho de São João, uma vez mais uma leitura longa de um texto construído à volta de uma questão fracturante e que não podemos deixar de abordar nesta nossa caminhada de fé e de preparação para a Páscoa.
Tudo começa com o encontro de Jesus com um cego de nascença, realidade que não pode deixar de suscitar questões, e uma questão ancestral e transversal a muitas religiões, a da culpabilização de Deus por aquilo que não está bem, que impede a plena realização das pessoas, como se Deus se satisfizesse com a desgraça, a vingança pelos actos cometidos.
A resposta de Jesus a esta questão é muito clara, não há uma sede de vingança da parte de Deus, Deus não se realiza castigando, bem pelo contrário, estas realidades servem a Deus para manifestar o seu amor e a sua acção restauradora do homem decaído pelo pecado, são oportunidades para fazer o bem, para manifestação da sua glória, como diz Jesus.
Os acidentes e as doenças não estão na vontade nem no projecto de Deus, são circunstanciais à nossa condição e finitude de criaturas, são muitas vezes o resultado da nossa vontade e liberdade mal orientadas. E Deus serve-se dessas realidades para vir ao nosso encontro, para se mostrar mais próximo, para manifestar o seu amor. Quantas pessoas não fizeram já essa experiência da presença de Deus no meio das trevas, na noite escura e sem sentido? Deus manifestou-se presente, fez-se luz para quem atravessava esse breu da noite sem sentido.
E fê-lo da mesma forma como o fez com o cego de nascença do Evangelho, de uma forma progressiva, gradual, porque certamente na nossa dor e infelicidade não estamos em condições de suportar a sua presença sem uma preparação. O cego de nascença de que fala o Evangelho começa por referir-se a um homem, depois já se lhe refere como um profeta, e quando se encontra face a face com Jesus, com aquele que o curou mas desconhece, é capaz de acreditar no filho do homem e depois ajoelhar e dizer “meu Senhor”.
Este ajoelhar é sintomático de todo o processo de encontro, de todo o milagre, pois também Jesus teve que se ajoelhar para apanhar um pouco da terra para fazer o lodo que possibilitou devolver a visão ao cego. Deus abaixa-se para tocar o nosso pó, a nossa fragilidade, a nossa desgraça, para nos dar a salvação. Nós necessitamos fazer o mesmo não só no encontro com os outros que sofrem, mas no encontro com Deus, nessa aproximação que nos permite encontrarmo-nos face a face com aquele que nos cura.
Neste processo, neste aproximar-se, necessitamos estar atentos à novidade da acção de Deus, poderíamos dizer ao seu agir extravagante, pois de contrário ficaremos encerrados como os fariseus do Evangelho naquilo que conhecemos e desperdiçaremos a oportunidade que se nos apresenta. Podemos correr um risco ainda maior que é fechar os nossos olhos à acção de Deus que vemos desenrolar e que não aceitamos porque não decorre de acordo com os nossos esquemas, com as nossas expectativas.
Neste sentido é interessante notar como o cego interpela os fariseus para perceberem na sua cura uma manifestação dos tempos messiânicos, pois não era uma promessa do profeta Isaías aquele tipo de acontecimento, de transformação na vida das pessoas aquando da vinda do Messias? Contudo, e apesar da interpelação, os fariseus não quiseram abrir os olhos, preferiram permanecer naquela discussão sobre o modo de como tinha sido curado, encerrando-se assim à novidade e à luz.
Esta tentação da resistência à novidade está já presente na primeira leitura que escutámos, quando vemos Samuel eleger, para objecto de realização da missão a que tinha sido enviado, o filho mais velho de Jessé. É fácil deixar-se levar pelos olhos, pelas aparências, por uma imagem ilusória, porque aquilo que estamos habituados. Contudo, e como Deus diz, é o que está no coração do homem que verdadeiramente marca a diferença, que faz ver com outros olhos aquilo que os sentidos físicos permitem.
Desta forma somos chamados a passar do patamar do imediato, dos sentidos básicos, para um patamar superior, o patamar de Deus e da sua obra redentora. Deus vem ao encontro do homem para o salvar, para lhe dar uma nova visão que lhe permita encontrar-se pessoalmente com aquele que é o seu criador e o seu salvador.
Como baptizados, mergulhados já não na piscina do “enviado”, mas na graça do enviado que é Filho de Deus, os nossos sentidos foram purificados, iluminados para não ver já à maneira puramente humana mas à maneira divina. No Ritual de Iniciação Cristã de Adultos este mistério está bem patente nos gestos que o sacerdote traça sobre os ouvidos, os olhos, a boca, o peito, os ombros daquele que se prepara para receber o baptismo. A signação com o sinal da cruz marca essa nova dimensão do olhar, do ver, do ouvir, do falar, do amar. Os sentidos são consagrados de modo a captar as maravilhas da obra de Deus, a acção salvadora na vida do próprio e do mundo.
E é esta captação das maravilhas da obra de Deus que nos faz luminosos, que nos faz não só ver a luz divina mas também irradiá-la, ser luz junto dos outros nossos irmãos que caminham nas trevas e na cegueira do sem sentido. E hoje é necessário que os cristãos assumam de forma convicta esta missão. Num mundo de guerra, de exploração, de opressão, de violência e falta de respeito pela vida e os seus valores, necessitamos testemunhar a graça de Deus que toca a nossa natureza para a elevar, para lhe dar um brilho e dimensão divinas.
A bondade, a justiça e a verdade são frutos da nossa condição de filhos da luz. Que elas estejam sempre presentes nos nossos gestos e palavras, na nossa busca de fidelidade à luz divina que recebemos.

 
Ilustração:
1 – “Cura do cego de nascença”, de Orazio de Ferrari, Colecção de Arte do Banco Carige.
2 – “Jesus com o cego”, de Andrey Mironov.

sábado, 25 de março de 2017

Eis a escrava do Senhor! (Lc 1,38)

A anunciação do Anjo Gabriel a Maria é uma daquelas narrações bíblicas que se prestam à nossa contemplação. Cada versículo, cada detalhe, cada palavra, pode iluminar o nosso coração na contemplação deste mistério.
Sabemos como à saudação do Anjo Gabriel a jovem de Nazaré fica perturbada, mas ainda assim não deixa de se manifestar humilde e disponível diante de Deus, face ao projecto de Deus que lhe é anunciado.
A sua confiança é grande e por isso o abandono à vontade de Deus é total. O sentido da pergunta que coloca, “como será isto”, não é uma dúvida ou um entrave, mas bem pelo contrário, uma oferta, um perguntar o que queres que faça.
Maria não dá as razões que poderia dar face à pergunta que coloca, razões válidas, como a de José, a dos comentários do povo, a da sua segurança. Ela nada antepõe ao plano de Deus, ao anúncio feito, Maria não dúvida, ela apenas crê, faz confiança na verdade que lhe é anunciada.
E ainda que não compreenda o que lhe é dito, a dimensão do mistério em que está a ser envolvida e assume participar, ela não deixa de livremente acolher esse mistério, o anúncio feito, ela vai conceber do Espirito Santo e dar à luz um filho que será chamado Filho do Altíssimo. Será ele, o seu filho, que salvará o povo.
Diante de ti Maria, Serva do Senhor, ensina-nos a discernir a vontade de Deus, a acolher sem reservas e com fé, a dizer sim como tu disseste. Nossa Senhora do Sim rogai por nós.

 
Ilustração:
“Anunciação”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.