domingo, 10 de dezembro de 2017

Homilia do II Domingo do Advento Ano B

As leituras que escutámos neste segundo domingo do Advento estão marcadas pela necessidade de nos empenharmos na preparação da vinda do Senhor Jesus, de endireitarmos os nossos caminhos tortuosos para que o Senhor possa chegar até nós.
Após o convite à vigilância, do domingo passado, apresenta-se-nos hoje o convite ao empenho e ao esforço para que os caminhos da vinda do Senhor estejam desimpedidos dos obstáculos que lhe dificultam ou barram a passagem.
Este empenho e esforço estão personificados na figura de João Baptista que o Evangelho de São Marcos nos apresenta logo no início do Evangelho sem qualquer referência, sem qualquer história, sem qualquer enquadramento. Se não conhecêssemos algo mais de João pelos outros Evangelhos seria totalmente um estranho.
Contudo, o seu aparecimento no início do Evangelho de São Marcos é bastante significativo, pois estabelece a ponte entre a novidade e a tradição, entre a profecia de Isaías que escutávamos na primeira leitura e o seu cumprimento, entre um projecto e a sua concretização plena. João é um apelo e uma convocação que nos vêm do futuro para uma vida nova, para a participação livre e activa na plenitude da realização do prometido por Deus.
Assim, o facto de João se encontrar no deserto e ali desenvolver a sua pregação, como nos apresentava o Evangelho, não é de estranhar. O deserto é o lugar de passagem, o lugar do êxodo, e com João inicia-se uma nova passagem, entramos numa nova caminhada histórica, num novo tempo, o tempo da realização da promessa.
A nossa vida, na expectativa do encontro face a face com Deus, o advento que é toda a nossa vida, e de que o Advento de preparação para o Natal é uma imagem sintética, é também um êxodo, uma nova e constante caminhada diária, que nos deve levar sempre mais além. No deserto ninguém permanece muito tempo, é passagem para outro lugar e assim deveria acontecer connosco, de modo a chegarmos ao Natal e ao fim da vida completamente outros.
A pessoa de João Baptista e a pregação que desenvolve no deserto são um convite ao êxodo das nossas satisfações e vaidades, dos nossos orgulhos e egocentrismos, são um convite a sairmos de nós próprios para ir ao encontro do Outro que é Deus e dos outros que são suas imagens e semelhança.
Para tal, contudo, necessitamos despojar-nos, abandonar as nossas roupagens habituais, as nossas satisfações tantas vezes gulosas e, como João, revestir-nos de uma outra roupa, alimentar-nos de outros alimentos. Só na austeridade do despojamento, da libertação do que nos encerra e alimenta egoisticamente, podemos estar disponíveis para o encontro e o acolhimento Daquele que vem.
Como nos recordava o profeta Isaías na primeira leitura, o Senhor vem, vem ao nosso encontro, mas tal vinda e encontro necessitam do nosso consentimento, do nosso assentimento, da disponibilização de um espaço e de um tempo, de um modo de ser.
Aquela conversão e mudança de vida de que tantas vezes falamos, de que tantas vezes fazemos eco à luz da Palavra de Deus, não pode ser uma realidade abstracta, algo do género do amor platónico, um processo que uma vez mais não deixamos de centrar em nós próprios. A nossa conversão, o nosso êxodo, a nossa caminhada ao encontro do Senhor, deve ser uma disponibilização para o outro, para um caminhar com o outro, para o encontro com o outro que nos revela Deus na sua pessoa única e irrepetível.
É esta presença de Deus entre nós que igualmente João Baptista nos recorda. Deus está já presente entre nós, de uma forma oculta, e muitas vezes de um modo que nos destabiliza, que nos questiona e interpela numa nova compreensão, numa outra abertura e disponibilidade. Deus vem até nós, até cada um de nós, mas para o perceber necessitamos estar atentos, vigilantes, preparados, livres e ágeis para reconhecer essa vinda e presença.
Por esta razão não podemos viver na ansiedade e no medo de que a leitura da Segunda Carta de São Pedro nos fazia eco. Conscientes e crentes da vinda do Senhor, que é paciente para connosco, vivemos na paz, procuramos viver na santidade e na piedade, e dessa forma realizamos a essência do baptismo no Espirito Santo que recebemos. Mortos para o pecado vivemos para Deus, procuramos cada dia ser fiéis ao dom recebido, renovando-nos e alimentando-nos na magnanimidade do amor de Deus para connosco e de nós para com todos.
Que nesta segunda semana de Advento do Natal do Senhor Jesus nos saibamos despojar do supérfluo, do que nos prende e impede de caminhar, e mais livres e de coração pacificado possamos ir ao encontro do outro para nele encontrarmos a presença de Deus que é o totalmente Outro.

 
Ilustração:
1 – “Pregação de São João Baptista”, de Jan Reisner, igreja de São Francisco de Sales, Cracóvia.
2 – “Paisagem com a Pregação de São João Baptista”, de Abraham Bloemaert, Rijksmuseum, Amesterdão.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Homilia do I Domingo do Advento Ano B

Estamos a iniciar um novo ano litúrgico e um novo Advento que nos deverá preparar para a celebração do Natal do Senhor. O Evangelho de São Marcos que escutámos e nos vai acompanhar neste novo ano litúrgico convidava-nos a vigiar, a ser como porteiros que vigiam na expectativa da vinda do dono da casa.
Esta vigilância não é contudo fácil, nem certamente tão simples como muitas vezes a assumimos, e por essa razão o Santo Cardeal Henry Newman escreveu num sermão: “não devemos apenas acreditar, mas vigiar; não devemos apenas amar, mas vigiar; não devemos apenas obedecer, mas vigiar”!
Vigiar é assim um desafio, uma proposta divina, que não pode deixar de estar presente de uma forma acutilante, porque muitas vezes no nosso amor, na nossa caridade, na nossa fé, na nossa vida quotidiana nos esquecemos daquele que é o Senhor da casa, daquele que é o Principio, o Caminho e o Fim, tal como encontramos explicitado no livro do Apocalipse, o alfa e o ómega, o princípio e o fim.
Podemos de facto procurar fazer as coisas bem-feitas, viver com os valores cristãos, praticar a justiça e a verdade, amar o próximo, mas corremos o risco de fazer tudo isso de uma forma imperfeita, incompleta, apenas pro nós próprios e sem o pleno sentido da divinização que Deus nos oferece com a necessidade de vigiar. Afinal, o que Deus nos pede é que todas as nossas obras Nele tenham começo, Nele se desenvolvam, e Nele alcancem a plenitude.
Este sentido da participação, da união divinizante, é manifestado na própria celebração da Eucaristia quando na aclamação final da consagração o sacerdote diz que tudo o que se realizou é por Cristo, com Cristo e em Cristo para louvor e honra de Deus Pai. E assim deve acontecer com tudo o que fazemos, desde o nosso trabalho, a nossa amizade, a nossa missão, até à própria vida afectiva do casal ou de cada um de nós celibatários.
Esta vigilância atenta e divinizante faz-nos perceber também como Deus não cessa de vir ao nosso encontro, de sair ao nosso encontro em todas as situações, mesmos as da fragilidade e do pecado, como escutávamos na leitura do Profeta Isaías. Deus vem e é necessário estar atento para intuir essa vinda, de que o Natal é afinal a manifestação mais esplendorosa, mas que não é a única.
Estas visitas de Deus ao encontro da nossa humanidade  têm contudo a fragilidade do maná, daquele alimento que o povo de Israel colhia no deserto mas que não podia armazenar para o dia seguinte, que não podia ser acumulado mais que o necessário para alimento de cada família. Cada experiência da vinda do Senhor ao nosso encontro é também única, pessoal, e por isso mesmo frágil, sem possibilidade de acumulação, mas que nos prepara e nos deixa desejosos da próxima. Tal como dizia Santa Catarina de Sena, impele-nos a mergulhar mais e mais no seu mistério.
Fragilidade que aumenta na medida em que somos levados como a folha seca no remoinho do vento, em que nos deixamos dispersar pelas realidades do mundo, pelas tentações que nos distraem e ofuscam da verdadeira e plena realização, na medida que em que não assumimos o princípio de onde vimos, o caminho que se nos oferece e o fim a que estamos destinados. Bailamos ao sabor do momento, dos interesses mais imediatos, das imagens e dos conceitos que os outros podem fazer de nós, desorientados no caminho.
E contudo, tal como nos diz São Paulo na Carta aos Coríntios que escutámos, fomos enriquecidos em tudo, já não nos falta nenhum dom da graça, podemos dizer que estamos preparados e equipados verdadeira e dignamente para vigiar, para guardar a porta na expectativa do Senhor que vem.
Nos ambientes monásticos e conventuais este tempo de Advento é vivido com alguma austeridade; coloca-se uma capa negra para recordar a finitude da vida, cuida-se com maior intensidade o silêncio, a oração é mais prolongada, e até as refeições são mais ligeiras, quase um jejum, e tudo para afinar a atenção, a escuta, a vigilância. Necessitamos despojar-nos, libertar-nos, para estar mais ágeis para vigiar e para guardar e aguardar a vinda do Senhor.
Ao iniciarmos este Advento quais vão ser os meus propósitos? Com os dons da graça que o Senhor nos concedeu como me vou preparar individual e familiarmente para o nascimento do Filho de Deus? De que modo vou orientar os meus pensamentos, as minhas palavras e as minhas acções pelo coração de Jesus Cristo?
Que não sejamos como aquele administrador da parábola que começou a comer e a beber, a bater nos servos que lhe estavam confiados, porque já não acreditava na vinda do seu senhor. Tal como a sentinela que vigia entre as ameias da muralha estejamos nós atentos, despertos, ágeis, irrepreensíveis, de modo a responder prontamente ao grito: eis o Senhor que vem, ide ao seu encontro!

 
Ilustração:
1 – “A rendição de Breda”, de Diego Velázquez, Museu do Prado (Pormenor).
2 – “Legionário adormecido”, de Ubaldo Gandolfi.

domingo, 19 de novembro de 2017

Homilia do XXXIII Domingo do Tempo Comum do Ano A

Estamos a chegar ao fim de mais um ano litúrgico e o Evangelho de São Mateus que escutámos vem ao nosso encontro nessa necessidade de fazer uma avaliação, de aferir o que fizemos com os dons e talentos que Deus nos concedeu, com as oportunidades e potencialidades da nossa vida, confiadas por Deus para a nossa realização e participação na obra de Deus.
A parábola dos talentos que Jesus apresenta, e escutávamos no Evangelho, coloca no entanto em foco uma outra realidade e questão que não podemos esquecer, que muitas vezes é para nós uma questão pertinente, que nos pode afastar de Deus, que nos pode deixar paralisados na rentabilização dos nossos dons e talentos.
Quantas vezes não nos interrogaram já sobre o porquê das doenças, das guerras, da fome e da violência, como se Deus se tivesse ausentado para parte incerta como o Senhor da parábola, e não quisesse saber de nada. O repouso de Deus após a obra da criação, tal como nos narra o Livro do Génesis, é provocante nesta ausência de Deus, permite estas questões e por isso as encontramos também plasmadas na Sagrada Escritura. Os autores sagrados recolheram-nas e podemos encontrá-las nos Salmos ou nos Livros Sapienciais de uma forma explícita.
Contudo, a ausência de Deus é a manifestação da oportunidade deixada ao homem para participar e colaborar na obra da criação. Na sua liberdade, sem qualquer pressão ou subjugação, o homem pode voluntariamente colaborar com a obra da criação, continuar a obra iniciada por Deus.
Podemos por isso assumir que a ausência de Deus se torna presença quando o homem na sua liberdade, na sua vontade, colabora com a obra da criação, quando procura um mundo melhor, mais justo, mais verdadeiro, quando coloca as suas energias, capacidades e potencialidades ao serviço do bem. O Deus ausente não deixa assim de estar presente nessa energia, nessa disposição e colaboração livre do homem. O criador faz-se presente na obra criativa do homem.
Pelo contrário, a preguiça, a inércia, o desleixo, o enterrar dos talentos, tal como nos apresentava a parábola de Jesus, manifestam a morte, o fim sem sentido e desta forma tornam efectiva a ausência de Deus. Deus ausenta-se com a nossa indisposição para a colaboração na obra da criação, com a nossa recusa, porque Deus a nada nos força. Como dizia Maurice Zundel, como um pobre mendigo Deus espera a nossa ajuda e colaboração.
Ajuda e colaboração que passa por coisas muito pequenas, pelas realidades do nosso quotidiano, pelas pequenas tarefas, pela fidelidade nas realidades da nossa rotina. A parábola do Evangelho que escutámos coloca-nos isso em evidência, quando o servo que recebeu mais talentos é louvado não pela sua capacidade multiplicadora, de rentabilização dos talentos, mas pela fidelidade nas coisas pequenas.
Muitas vezes sofremos essa tentação de pensarmos que necessitamos fazer algo grandioso, espectacular, como encontrar a cura para a doença do cancro, para nos realizarmos, para sentirmos que estamos a contribuir para um mundo melhor, que estamos a colaborar na obra da criação. E contudo, essas oportunidades acontecem com muito poucas pessoas, são excepções, que nos mostram que não podemos prescindir das pequenas obras, da nossa fidelidade nas coisas pequenas de que nos fala a parábola do Evangelho.
Quando ouvimos as histórias pessoais desses génios, dos grandes inventores, facilmente percebemos que também eles chegaram onde chegaram, descobriram o que descobriram ou inventaram, porque estiveram atentos às pequenas coisas, porque foram fiéis na sua observação, na sua atenção e na sua busca de uma resposta.
Afinal é este o nosso caminho, o projecto que Deus nos deixa como forma de colaboração, estar atentos para agir quando for necessário, para fazer o que nos compete, com fidelidade, alegria e confiança, poderíamos dizer com virtuosidade como a mulher da leitura do Livro dos Provérbios. Ela não faz nada de extraordinário para além do que lhe compete como esposa, como mãe, como dona de casa, como alguém que tem bens e os reparte generosamente com aqueles que não têm.
A parábola do Evangelho diz-nos que Deus se ausentou para nos oferecer a oportunidade de colaboração, de realização, mas diz-nos também que o Senhor um dia regressará, virá tomar contas da nossa gestão, do que fizemos com os dons, talentos, oportunidades e potencialidades que possuímos.
Este regresso não pode contudo encerrar-nos numa imagem negativa de Deus, uma imagem perversa, insinuada pelo servo que recebeu apenas um talento e o foi enterrar porque sabia que o senhor colhia onde não semeava. Não nos podemos deixar intimidar pela autoridade do senhor, pelo seu poder, não podemos permitir que o medo vença, porque se é verdade que o Senhor regressará também é verdade que não nos pedirá contas para além das nossas capacidades. Não nos será pedido mais do que somos capazes, do que nos confiou no seu amor e conhecimento das nossas limitações.
Com esta confiança, certos do amor de Deus, podemos e devemos fazer nossas umas palavras que são atribuídas a Santo Inácio de Loyola e o Papa Bento XVI citou na Alocução do Ângelus de 17 de Junho de 2012: “age como se tudo dependesse de ti, mas consciente de que na realidade tudo depende de Deus”!

 
Ilustração:
1 – A Parábola dos Talentos, de Andrey Mironov, 2013.
2 – Conhecimento e Fé, de Andrey Mironov, 2007.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

De mãos postas

Fomos ensinados assim e nunca parámos para pensar a razão de ser.
Foi com as nossas mães ou avós, com os nossos catequistas, que aprendemos que para rezar devíamos juntar as mãos. Aprendemos, e mecanicamente continuamos assim a rezar, a juntar as mãos para elevar as nossas preces a Deus.
Esta atitude, esta postura, tem no entanto um significado profundo, tem raízes antigas, pois já o Talmude nos refere que os judeus utilizavam esta forma física para se recolher e elevar o seu pensamento a Deus.
No mundo romano esta atitude de juntar as mãos era um sinal de submissão, e por isso quando um soldado capturado e condenado à morte juntava as mãos apresentava a sua rendição, a sua submissão àquele que o tinha derrotado.
Este gesto foi assumido na época medieval como manifestação de lealdade e homenagem, de preito ao senhor ou superior. Manifestava igualmente uma submissão, mas uma submissão assumida numa espécie de cooperação com aquele que podia garantir a segurança e subsistência daquele que se submetia.
Ainda hoje, e na liturgia da ordenação presbiteral, o que vai ser ordenado coloca as suas mãos entre as mãos do bispo ordenante e promete-lhe obediência. Há uma submissão numa missão de cooperação.
Desta forma, quando ainda hoje unimos as nossas mãos para rezar estamos a assumir uma submissão, uma submissão a Deus, mas igualmente a assumir a nossa cooperação com a obra de Deus, a manifestar de forma gestual as palavras do Pai Nosso “venha a nós o vosso reino, seja feita a vossa vontade”.
E porque a nossa oração se faz por Jesus, nosso advogado junto do Pai, ao juntarmos as mãos cruzamos os polegares, para que a cruz da nossa redenção esteja sempre diante dos nossos olhos, presente no sentido da nossa oração.
Que o Senhor nos ajude a cuidar dos gestos da nossa oração, a interiorizá-los de forma consciente, pois também o nosso corpo reza quando o Espirito gera em nós a oração que nos brota nos lábios.

 
Ilustração:
“Mãos em Oração”, desenho aguarelado de Albrecht Durer, in Albertina, Viena.

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Homilia do XXV Domingo do Tempo Comum - Ano A

Os meus caminhos não são os vossos caminhos e os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, escutávamos na leitura do Livro do Profeta Isaías; e quando nos confrontamos com a parábola dos trabalhadores da vinha, que escutámos na leitura do Evangelho de São Mateus, percebemos que é bem verdade, os nossos pensamentos não são os pensamentos de Deus, a nossa justiça não é a justiça de Deus.
Diante do pagamento de forma igual para trabalhadores que despenderam horas e esforços distintos, como escutámos na parábola, somos quase instintivamente levados a pensar que Deus é injusto, que maneja uma lógica que não nos parece nada certa, nada justa.
Esta não é contudo a única ocasião; estranhamente, ao percorrer a Sagrada Escritura, encontramos outros momentos e outras histórias que nos colocam diante de uma lógica pouco acertada, de opções divinas aparentemente injustas, como acontece por exemplo com o sacrifício de Abel e Caim.
Porque é que Deus aceita a oferta de Abel em detrimento da de Caim, quando afinal este último não cometeu nada de errado, apresenta apenas os produtos da terra? Pelo contrário é o seu irmão Abel que ao apresentar a oferta comete um crime até aí não registado na obra da criação, como é a morte de um animal.
A história de Jacob e Esaú é outro exemplo, pois a bênção patriarcal é obtida através de uma trapaça, de uma mentira. E a história de David, o grande rei, também não fica atrás nesta lógica que poderíamos dizer disfuncional, pois David quando é escolhido para ser ungido como rei é o mais novo dos irmãos, o que teria menos competências. E mais tarde, apesar de toda a tragédia e violência que envolve a história de David com a mulher de Urias, é o filho deste adultério que vai suceder a David e ser o rei da sabedoria.
Enganar-se-á Deus nas suas opções, andará equivocado? Ou tal como nos dizia o profeta Isaías os seus pensamentos e os seus caminhos são diferentes dos nossos?
As diversas histórias que encontramos de injustiça são contudo histórias de amor, histórias de justiça. Recordando São Paulo, estas histórias revelam-nos que Deus escolhe os fracos, os pecadores, para confundir os fortes, para consciencializar os bons da bondade que não lhes pertence mas é oferecida. Estas histórias recordam-nos que ninguém pode fazer valer os seus títulos para justificar os dons de Deus.
Afinal Deus dá-nos tudo o que nós somos, tudo o que aceitamos ser na nossa liberdade e face à sua oferta. Deus não nos ama porque somos bons, só Deus é bom diz Jesus ao jovem rico que se aproxima dele, mas somos bons porque Deus nos ama, porque o seu amor se projecta em nós e nos faz ser o que Deus é e não aquilo que somos. Deus torna justo em nós o que é injusto, a justiça divina é justificante, ao contrário da nossa que é retributiva.
Assim, se considerarmos que Deus é injusto, nunca o poderemos fazer pela sua falta de justiça, mas bem pelo contrário pelo seu excesso de amor, Deus não tem limites na sua generosidade, na sua bondade, no seu amor, e isso ultrapassa-nos completamente.
Por essa razão, acontece connosco o que encontramos nos trabalhadores que murmuram do salário recebido, vemos com maus olhos a bondade e generosidade do Senhor para com os outros. Esta murmuração e acusação de injustiça revelam a nossa incapacidade de aceitar o amor de Deus, a generosidade divina de querer fazer com todos de modo igual.
Ao aceitar o pagamento generoso do senhor da vinha tornamo-nos participantes do seu amor, somos não apenas beneficiários mas também agentes, podemos dizer que não nos desprestigiamos por ficar em último lugar, ou receber como os outros, pois aquele mesmo que nos retribui, que nos oferece, colocou-se em último lugar, fez-se servo de todos, para que todos pudessem gozar da sua graça, da sua filiação divina.
A generosidade do senhor da vinha para com todos os trabalhadores é uma manifestação da oferta que nos é feita, a oferta do próprio Deus. E por essa razão a saída ao longo do dia do senhor da vinha e o convite a todos os que encontra, quer prontos a trabalhar quer distraídos do trabalho, ou sem nada para fazer, para que se dirijam à sua vinha.
A vinha tal como nos revela a tradição dos profetas como Isaías, Jeremias, Ezequiel, o livro do Cântico dos Cânticos, é a própria aliança de Deus com o povo, é a relação de intimidade de uma vida comum com Deus. Aceitar ir trabalhar para a vinha é aceitar integrar essa aliança, essa intimidade e relação, e o pagamento é o próprio senhor da vinha, é entrar na sua intimidade como amigo e não como servo.
Que o nosso coração se abra à generosidade de Deus, que o saibamos escutar no apelo que nos faz em cada hora, em cada dia. E se nos acontecer como ao bom ladrão, que apenas na última hora se encontrou com Jesus, o Senhor da Vinha, que saibamos como ele dizer, “lembra-te de mim quando vieres no teu Reino”.

 
Ilustração:
1 – “Os trabalhadores da vinha”, de Christian Wilhelm Ernest Dietrich, Palace on the Water, Royal Baths Museum.
2 – “Parábola dos trabalhadores da vinha”, de Salomon Koninck, Hermitage Museum.

domingo, 17 de setembro de 2017

Homilia do XXIV Domingo do Tempo Comum - Ano A

O Evangelho de São Mateus que escutámos neste domingo apresenta-nos a magnanimidade do perdão, poderíamos dizer a sua dimensão de mistério; que humanamente nos ultrapassa, mas que na fé nos salva e nos edifica como homens e mulheres de verdade.
Nos nossos círculos de relações, nas nossas conversas, é frequente confrontarmo-nos com a acusação de que a Igreja não deixa de falar do pecado, que carregamos os outros com a culpabilização dos erros cometidos, dos pecados. Poderíamos dizer que somos acusados de um certo sadismo, de um gosto de ver os outros culpados.
Contudo, esses mesmos que acusam a Igreja da exploração do pecado são os primeiros a exigir uma nova lei de Talião, a expressar a exigência de olho por olho e dente por dente, a assumir o dogma da nossa sociedade ocidental e capitalista de que tudo tem que se pagar, tudo deve ser pago. Alguém que cometeu uma falta deve pagar por ela.
O Evangelho de Jesus Cristo opõe-se determinantemente a esta concepção, podemos dizer que inverte os polos, e assim o pecado passa para um segundo plano porque o verdadeiramente fundamental é o perdão, é a grandeza do perdão que Deus nos concede e somos convocados a viver uns com os outros.
A parábola do rei que vem ajustar contas, e que Jesus apresenta a Pedro para ilustrar a necessidade de não se ficar num perdão limitado, confinado a uma determinação, mostra-nos a mudança operada, a disparidade de realidades.
Quando o rei se apresenta para cobrar as suas dívidas estamos ao nível da justiça, estamos ainda sob o regime da lei, e portanto se há alguma dívida é justo, é de lei, que seja remida. E é perante esta lei, esta justiça, que é aceitável que o servo tenha que perder tudo para pagar a sua dívida, como a mulher e os filhos.
Esta violência, este exagero da usurpação do que é mais querido e fundamental como a família para ser vendido, tem na parábola o efeito de ajudar a tomar consciência da dimensão da dívida e das suas consequências. O pecado pode de facto levar-nos a perder tudo, até o que nos é mais querido e fundamental como a família.
O pedido aflito do servo, consciente da dimensão e gravidade da sua dívida, leva à mudança de atitude do senhor e rei, que se enche de compaixão e piedade, sentimentos que não são já da ordem da justiça, mas do amor e da dignidade do próprio senhor e rei. É a sua dignidade, a sua magnanimidade que lhe permitem esta mudança de registro. O direito da equivalência é substituído pela gratuidade, pela liberalidade.
A cena seguinte da parábola mostra-nos no entanto que o servo liberto e perdoado não percebeu nada do que lhe tinha sucedido, pois ao espancar e condenar à prisão o seu companheiro e igual ignora a sabedoria e grandeza daquele que lhe tinha dado tanto, ignora e esquece a compaixão de que tinha sido objecto. Ao exigir o pagamento do seu companheiro, o servo perdoado permaneceu no jugo da lei, permaneceu preso à sua dívida, não assumiu a liberdade alcançada.
Por esta razão se torna extremamente importante para nós a repreensão do rei quando o servo devedor volta à sua presença. Antes de mais pela chamada de atenção pela falta de sensibilidade para com o outro, e depois pela falta de semelhança da atitude do seu senhor. Aquele a quem tinha sido perdoada toda a dívida não tinha sido capaz de ser como o senhor, de o imitar nos seus gestos e magnanimidade.
Este “ser como” que o senhor refere é bastante significativo na parábola, pois exige uma semelhança, um acolhimento, um assumir de que o perdão só nos alcança na medida em que o realizamos com os outros, em que somos capazes de perdoar os outros. Como nos questionava a leitura do Livro de Ben-Sirá, como podemos pedir perdão a Deus se somos incapazes de perdoar os nossos semelhantes? Como podemos pedir a Deus a cura e guardamos rancor do nosso semelhante?
O perdão é uma realidade divina, Deus perdoou-nos antes de nós o merecermos, como nos diz São Paulo, e portanto mais não podemos fazer que perdoar os nossos irmãos. Poderíamos dizer que o perdão é como um rio, um fluxo que parte de Deus, mas só nos irriga e ilumina, na medida em que somos passagem, canalização, para outros.
Para nos ajudar e facilitar a viver o perdão, a assumi-lo na nossa vida, para além da consciência de que Deus nos perdoou primeiro, não podemos esquecer as palavras de São Paulo, de que não vivemos nem morremos para nós próprios.
Assim, quando ao procurarmos viver o perdão nos apareça a tentação de que será uma humilhação, uma inferiorização, um desprestígio, devemos antepor e confrontar essa tentação com a certeza de que não morremos, nem nos humilhamos, mas bem pelo contrário assumimos o papel e a função de ser como aquele que nos perdoou primeiro, que é um pai amoroso, um rei magnânimo, um servo que entrega a sua vida para a salvação do outro.

 
Ilustração:
1 – “A parábola do servo injusto”, Jan Sanders van Hemessen, University of Michigan Museum of Art, Ann Arbor.
2 – “A parábola do servo injusto”, Domenico Fetti, Gemaldegalerie Alte Meister, Dresden.    

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Homilia do XXII Domingo do Tempo Comum - Ano A

Estamos a regressar das férias de verão, aos poucos vamos retomando as nossas actividades, e sabiamente no plano de Deus as leituras deste domingo ajudam-nos a olhar para o trabalho que vamos retomar, para as actividades que constituem o nosso quotidiano e nas quais somos chamados a ser cristãos, a tomar a cruz tal como Jesus nos interpela no Evangelho de São Mateus que escutámos.
Muitas vezes, e até mesmo nos comentários a esta passagem do Evangelho encontramos, infelizmente, uma conotação muito negativa deste carregar a cruz; poderíamos dizer, uma carga brutal de convicção de que a cruz é sofrimento. Temo que sofrer, temos que sofrer, é a nossa cruz.
Esta convicção afasta-se contudo do plano de Deus e das próprias palavras de Jesus. Não foi Deus que desejou o sofrimento do homem, assim como a morte não é da sua vontade, uma e outra realidade são consequência do nosso pecado e da nossa condição finita. Por outro lado, o anúncio que Jesus faz aos discípulos não termina na cruz nem na morte, há a ressurreição, que Pedro não percebeu e portanto como amigo tentou desviar Jesus do fim trágico anunciado.
Pedro tinha em vista as coisas dos homens, podíamos dizer a nossa busca de felicidade sem qualquer entrave ou sofrimento. Contudo, o fim último que Jesus apresenta, a felicidade da eternidade expressa na ressurreição, e que nos deve orientar, passa para além do sofrimento e da morte, é superior, e é ele que nos deve iluminar e guiar.
Neste sentido, ao retomarmos os nossos ritmos, somos convidados a acolher a nossa cruz, não como um fim, uma fatalidade, mas como uma realidade intrínseca a opções que se fazem por um fim maior, que se fazem por amor. Alguém que ama, que está apaixonado, é capaz de acolher o sofrimento de não ter outrem ou não estar em outro lugar, porque está com a pessoa amada. A dor da renúncia, o sacrifício, são assim relativizados, pois o mais importante é o que amamos, o que consideramos importante, e pelo qual abdicamos de outras coisas.
Assumir a nossa cruz, carregar com ela, exige assim na medida em que priorizamos umas realidades e relativizamos outras, em que realizamos um discernimento dos valores intrínsecos a cada objecto, pessoa ou actividade, uma transformação interior, uma não conformação com este mundo, como nos diz São Paulo na Carta aos Romanos.  
Esta não conformação com o mundo passa pelas realidades exteriores que não dignificam o homem, não respeitam a vida e a natureza, mas passa sobretudo pela interioridade do homem e por esse culto espiritual que somos chamados a exercer. A nossa vida deve ser uma manifestação da beleza e do amor de Deus, da ternura da verdade de sermos filhos amados de Deus.
Como acontecia com o profeta Jeremias, da primeira leitura deste domingo, há em nós um ardor, uma vida divina que nos impele a ir mais além, a fazer o bem, a procurar a verdade, a tentar a perfeição, a buscar a ressurreição, e que muitas vezes é obrigado a desenvolver-se no meio da violência, do ódio e da perseguição.
A sedução de Deus, do divino que ansiamos, provoca-nos à busca infinita e não podemos abdicar dela, porque de contrário e como diz Deus ao profeta é dos homens que passaremos a ter medo, e a nossa vida será uma total perda ainda que tenhamos ganho o mundo, como diz São Paulo.
Como discípulos de Jesus, ao voltarmos ao nosso trabalho, aos ritmos da nossa vida familiar, às nossas relações sociais, que o amor presida a todas as nossas palavras e gestos, que não nos deixemos vencer pela tentação do mais fácil, como é proposto a Jesus por Pedro e nas tentações do deserto, mas que aspiremos sempre ao bem maior, à plena realização como homens filhos de Deus, conscientes de que a lógica do amor implica uma morte, uma cruz, mas que ela não tem a última palavra, essa chama-se ressurreição.

 
Ilustração:
“Opção – Toma a cruz e segue”, de Andrey N. Mironov.

domingo, 14 de maio de 2017

Homilia do V Domingo da Páscoa

As palavras que escutámos hoje no Evangelho são proferidas por Jesus no momento da última ceia, depois de ter lavado os pés aos discípulos e de ter anunciado a traição de Judas e as negações de Pedro. Podemos por isso imaginar o sentimento de consternação e de tristeza que pairava sobre os discípulos. Tudo, o que tinham vivido juntos, parecia que se desmoronava ali, não só as expectativas criadas à volta de Jesus, mas igualmente as relações, a fidelidade fraternal que tinham desenvolvido.
Perante este sentimento, conhecendo o coração de cada um dos seus discípulos, Jesus vai em seu socorro, pedindo-lhes que não se deixem perturbar no coração, que não desistam de acreditar. Este pedido é contudo uma acha mais para a fogueira, pois Jesus pede-lhes que acreditem nele como acreditam em Deus. Homens habituados a acreditar num Deus único, reservado no santo dos santos do templo, como poderiam acreditar daquela maneira que lhes era pedida por Jesus?
Momento difícil para os discípulos assim como para Jesus; a desorientação é grande, e por isso a pergunta honesta e pungente de Tomé, “ se não sabemos para onde vais como podemos saber o caminho?” Que casa é essa que nos vais preparar, se tudo o que nos dissestes deitou por terra tudo o que esperávamos a acreditávamos, como é possível que nos peças que acreditemos, e acreditemos dessa forma tão violenta como é acreditar em Deus?
E é a este caos de sem sentido que Jesus responde com as palavras sobejamente conhecidas de todos nós, “ eu sou o caminho, a verdade e a vida”! Acreditai em mim, acreditai no que vivestes comigo, acreditai nas minhas obras, acreditai que eu sou a imagem e a presença do Pai na história de cada um de vós e de todos os homens. Eu Sou Aquele em que acreditais.
Este pedido de Jesus, esta oferta de um alicerce para a vida, continua a ser-nos feito e oferecido a cada um de nós; não temos outro caminho para nos encontrarmos com o rosto de Deus, para conhecer Deus. Tal como os discípulos também nós necessitamos esvaziar-nos das falsas imagens de Deus, das imagens e concepções idolátricas para nos encontrarmos com o verdadeiro Deus. Jesus continua a ser para todos os homens o verdadeiro caminho, a verdade e a vida para o encontro com Deus.
Tal como escutávamos na leitura da Epístola de São Pedro, Jesus é a pedra angular em que podemos assentar a nossa construção do conhecimento e da fidelidade à vida que Deus nos oferece. Uma vida que não é para ser vivida de uma forma angelical, num formato de amor platónico, mas é para ser vivida com tudo o que ela encerra de bom e menos bom, de graça e de pecado. Se não colocarmos a nossa vida assente na vida e na verdade de Jesus faremos mais tarde ou mais cedo a experiência do tropeço e do desmoronar, do escândalo da finitude da nossa vida.
É Jesus na sua humanidade e divinidade que nos revela a nossa mais profunda e verdadeira natureza e identidade. Nós somos a mais bela obra de Deus, e se só isso não nos bastasse já para o combate por uma vida digna, o mistério da encarnação veio revelar-nos que somos também presença e habitação de Deus, não somos apenas imagem e semelhança mas verdadeiramente presença de Deus.
A atenção de Jesus por esta realidade habitacional de Deus revela-se bastante precocemente, quando aos doze anos responde a Maria e a José que deveria estar na casa de seu Pai. Revela-se depois na sua vida pública quando frequenta as casas dos pecadores e publicanos, quando diz a Zaqueu que quer ficar em sua casa. O Filho de Deus vem habitar entre os homens, vem fazer morada nas suas casas e tendas, na sua fragilidade e na sua segurança. O Deus do segredo dos santos dos santos, da intocável arca da aliança, vem fazer habitação entre os homens, vem deleitar-se no convívio com eles como nos diz o Livro da Sabedoria.   
Esta habitação, cuja outra face da moeda é a habitação da nossa humanidade na glória divina depois da ascensão de Jesus aos céus, obriga-nos a um cuidado atento ao outro, à vida do outro. A habitação de Deus em cada homem e mulher não nos permite qualquer tipo de marginalização, de exclusão, como encontrávamos relatado nos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura.
A habitação de Deus entre nós deve levar-nos ao acolhimento do outro, mesmo daquelas realidades que nos parecem estranhas, opostas à nossa concepção e ideias e valores. E se este acolhimento nos pode parecer difícil, exigente, temos que olhar para Jesus e com fé esforçarmo-nos, pois Ele prometeu àqueles que nele acreditassem que seriam capazes de não só fazer as suas obras mas outras ainda maiores porque Ele estava junto do Pai.
A fé em Jesus como Deus abre-nos um caminho de encontro com o outro, dispõe-nos para a verdade que o outro encerra, e faz-nos viver uma vida completamente nova, a vida divina que se encontra em cada um de nós. Nesta semana que agora iniciamos, procuremos pois estar atentos aos outros, nas suas necessidades e debilidades, mas procuremos também estar atentos à vida que vivemos, ao fundamento em que alicerçamos as nossas atitudes, prioridades, palavras e gestos.
Que procuremos verdadeiramente que Jesus seja a nossa pedra angular!
Que vivamos as nossas realidades quotidianas como um sacrifício espiritual que oferecemos a Deus pelo nosso sacerdócio santo recebido no baptismo!

 
Ilustração:
1 – “Jesus lava os pés aos discípulos”, de Palma il Giovan, San Giovanni in Bragora, Veneza.
2 – “Simão de Cirene ajuda Jesus a levar a cruz”, de Ticiano, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 7 de maio de 2017

Homilia do IV Domingo da Páscoa

Estamos a celebrar o domingo do Bom Pastor. Jesus apresenta-se no Evangelho de São João, que escutámos, como o Pastor que abre a porta às ovelhas, que chama cada uma pelo seu nome, e que depois de as ter feito passar pela porta segue à frente delas até às pastagens abundantes.
Ao comentar o Evangelho deste domingo prestamos uma especial atenção a dois pormenores, que encontramos igualmente presentes em outros contextos e circunstâncias do mesmo Evangelho de São João.
O primeiro deles prende-se com o chamar pelo nome; Jesus, o Bom Pastor, chama cada uma das ovelhas pelo seu nome. Facto importante, porque não somos mais um número, mais um elemento na anonimato da massa, mas uma pessoa, alguém com o qual se estabelece uma relação.
Podemos ver a importância deste chamar pelo nome no episódio de Zaqueu, que Jesus desconhecia, mas que interpela pelo seu nome ao convidar a descer da árvore porque desejava ficar em sua casa. A nossa busca de Deus, o nosso desejo de ver Jesus, é já uma porta aberta para escutarmos o nosso nome, para o estabelecimento de uma relação pessoal e única com Jesus que vem ao nosso encontro.
Outro momento importante para o chamar do nome é o encontro de Maria Madalena com Jesus ressuscitado. É o pronunciar do nome que desperta para a realidade, para a nova presença e a nova relação que é necessário estabelecer. Quando aquele que parece um jardineiro pronuncia o nome de Maria há toda uma realidade relacional que se reaviva, que podemos dizer ressuscita. Maria Madalena reconhece Jesus pelo seu nome pronunciado.
Assim, e nas circunstâncias em que nos encontramos, na nossa busca de fidelidade, de conhecimento de Jesus, não podemos deixar de estar atentos ao apelo que Jesus nos lança, ao nome por que nos chama para o seguir, para o acolhermos e para o reconhecermos na nova realidade da sua ressurreição.
Ainda neste sentido, não podemos esquecer que o Apocalipse nos apresenta um livro onde estão inscritos todos os nomes, os nomes daqueles que seguiram o cordeiro, no contexto desta leitura do Evangelho o Pastor, que foram capazes de perceber o apelo ao seguimento. A cada um é dado um nome novo, um nome que deriva dessa relação pessoal e única com o Pastor e que apenas cada um conhece. Procuremos pois escrever o nome novo com Jesus.
O segundo pormenor, a que necessitamos dar atenção neste contexto do Bom Pastor, é a realidade abundante a que o pastor nos conduz. Por várias vezes e em circunstâncias diversas a abundância da graça e da vida é-nos apresentada pelo Evangelho.
Podemos vê-la nas bodas de Caná, não só no transbordar das talhas de onde sai o vinho novo, mas também na qualidade excelente desse mesmo vinho. Podemos vê-la na conversa com a Samaritana junto ao poço de Jacob e à qual é prometida e oferecida uma água viva, uma fonte que jorra para a vida eterna, que como sabemos provoca um grande equívoco na pobre mulher. Podemos vê-la no milagre da multiplicação dos pães, quando no final e depois de todos saciados ainda sobram doze cestos de pedaços.
Inquestionavelmente o Bom Pastor conduz-nos às pastagens verdejantes, às águas cristalinas, à abundância da vida e por isso não nos podemos distrair com as outras ofertas, com os salteadores e ladrões que nos prometem oásis de delícias mas que depois experimentamos serem puras miragens.
A confiança e a fé de que a promessa não é publicidade enganosa assentam nas palavras de São Pedro, entre outras, que escutámos na Segunda Leitura. Nós fomos curados pelas suas chagas, ele suportou os nossos pecados no madeiro da cruz para que vivamos para a justiça, para que não mais tivéssemos que nos perder pelo deserto em busca de alimento, porque ele se fez nosso alimento, nosso guarda e protector.
Assim sendo, temos que estar atentos às diversas ofertas de felicidade que se nos apresentam a cada esquina, a cada paraíso que nos é oferecido nas imagens e slogans da publicidade. É verdade que estamos destinados à felicidade, que a devemos buscar, mas também devemos estar conscientes que ela é exigente, que não se alcança por um passo de mágica, que exige esforço e aplicação, uma disposição para a verdade e para a iluminação do espirito. A felicidade é uma conquista.
Neste sentido, e nesta busca de felicidade a que todos aspiramos, não podemos deixar de recordar que hoje se celebra também o dia mundial de oração pelas vocações. Aquele e aquela que descobrem a sua vocação encontram-se com a felicidade, com um processo de esforço e aplicação que desde o primeiro momento tem por horizonte a realização plena. Assim, tudo o que faz e que até pode custar e implicar sofrimento é relativo face ao fim a que se destina.
Todos sabemos como passamos por dificuldades a nível das vocações sacerdotais e religiosas, não há sacerdotes para celebrar os sacramentos, nem religiosos para testemunhar a alegria do Reino construído na fraternidade. Contudo, e como nos recordava ainda há tempos o Papa Francisco a falta de vocações consagradas deve-se antes de mais à falta de vocações para a família.
Faltam hoje no mundo homens e mulheres que assumam a vida familiar, a constituição de uma família como uma vocação divina, como um processo para a realização e a felicidade do casal, mas igualmente como uma manifestação da vida divina, da presença e da história de Deus com os homens. São Paulo recorda-nos isso quando nos diz que o amor entre o homem e a mulher é uma manifestação do amor de Cristo pela sua Igreja. Um amor pessoal, um amor com nomes e apelos sinceros, um amor de entrega total, um amor para a vida em abundância.
Celebramos também hoje o dia da Mãe, e por isso não posso deixar de lançar este apelo às mães e pais aqui presentes. A vocação a que Deus vos chamou foi a de ser pais e mães, procurai sê-lo com sentido divino, formando os vossos filhos para enfrentar os desafios do mundo, mas formando-os também na escuta e na relação com Deus. Que o vosso amor conjugal e o amor pelos vossos filhos sejam testemunhos da transfiguração operada pela passagem de Jesus Cristo nas vossas vidas.
Jesus é a porta por onde devemos passar. Ele é a nossa salvação. Que o vosso amor, e o amor de cada um de nós, estejam marcados indelevelmente pela santidade desta passagem.

 
Ilustração:
1 – “Parábola de Jesus Bom Pastor”, de Marten van Valckenborch, Kunsthistorisches Museum, Viena de Áustria.  
2 – “O Bom Pastor”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.

domingo, 30 de abril de 2017

Homilia do III Domingo da Páscoa

Ao iniciar o seu Evangelho, São Lucas diz a Teófilo, aquele para quem escreve, que procurou informar-se de tudo para que a sua doutrina, o conhecimento de Jesus que tinha recebido, fosse sólido.
É nesta busca de solidez da doutrina que encontramos o episódio dos discípulos de Emaús, um acontecimento que podemos considerar histórico, e que nos revela muito do que foi o dia da ressurreição de Jesus para os discípulos. As circunstâncias do encontro, o diálogo, o desenlace final, mostram-nos a diversidade de experiências, mas igualmente o mistério único de que foram participantes.
Ao afastarem-se de Jerusalém os discípulos manifestam a desilusão que os tinha alcançado, a frustração das expectativas, eles que tinham vivido com Jesus durante três anos e tinham acalentado expectativas de libertação. Eles que tinham testemunhado palavras e obras grandes diante de Deus e dos homens esperavam outro fim.
Nesta frustração podemos rever-nos cada um de nós, podemos considerar que somos irmãos dos discípulos de Emaús, que caminhamos com eles, pois também algumas vezes nos afastamos de Deus quando ele não responde ou corresponde às nossas expectativas, aos nossos planos e projectos.
Há em cada um de nós um pouco de Tomé, que fica junto do grupo, na expectativa, e apesar das suas interrogações e desejos de ver e tocar, e um pouco de Cléofas e do companheiro, que se afastam, apesar do conhecimento, das notícias e testemunhos dos outros, que os deveria fazer permanecer.
Mas em cada uma das situações há algo maravilhoso da parte de Deus, de Jesus ressuscitado, que não se impõe, nem condena, que não apressa a fé, bem pelo contrário faz-se presente suavemente e deixa que o tempo e a sua presença revolvam as dúvidas e as frustrações. Jesus deixa tempo aos seus discípulos para que apreendam o mistério, para que compreendam, para que se possam situar face aos acontecimentos.
A explicação que Jesus dá aos discípulos enquanto caminham é sintomática desta, poderíamos dizer, paciência e pedagogia de Jesus. Ele não força nada, não se impõe, mas deixa a liberdade a cada um para na sua circunstância, na sua história, fazer a descoberta do seu mistério e da sua presença. Desta forma a alegria do encontro da presença é muito maior, poderíamos dizer, concede algum mérito àquele que descobre.
A liberdade que Jesus nos concede no caminhar ao encontro da sua presença está no entanto vinculada a uma disposição, a uma outra atitude, patente no convite dos discípulos a que Jesus fique com eles. Para um verdadeiro e pleno encontro com Jesus ressuscitado não podemos deixar de ter o coração aberto, essa disposição para o acolher, mesmo quando parece que ele quer ir mais além. Necessitamos dizer-lhe que fique connosco, que venha habitar no nosso coração, fazer de nós habitação tua. Por diversas vezes e em textos bíblicos diferentes há referência a essa necessidade do acolhimento, da disposição para Deus para que ele venha ao nosso encontro.
E paradoxalmente, no relato dos discípulos de Emaús, é quando Jesus desaparece depois de abençoar e partir o pão que os discípulos o reconhecem e percebem o ardor que sentiam no coração enquanto o escutavam no caminho. Este paradoxo visa mostrar a Teófilo, para quem São Lucas escreve, que não podia ter a pretensão do conhecimento total de Jesus, da apropriação da sua pessoa e da sua história.
Jesus ressuscitado é um mistério de presença e ausência, uma presença na palavra e no pão, no acolhimento e no encontro, mas igualmente uma ausência porque está para além da materialidade das realidades de que se serve para manifestar a sua presença. É nesta tensão que os discípulos são convidados a viver, a dar o seu testemunho.
Também hoje nos é possibilitado fazer a mesma experiência dos discípulos de Emaús, também hoje temos à nossa disposição a Palavra, as Sagradas Escrituras, também hoje o mesmo pão continua a ser abençoado e partido na Eucaristia, e também hoje nos reunimos e acolhemos na expectativa da presença do Senhor nesta celebração dominical.
Necessitamos assim colocar a questão do ardor do nosso coração, da alegria que vivemos, dos passos que damos para ir ao encontro dos nossos irmãos para lhes comunicar que afinal é verdade que Jesus ressuscitou. Apesar das nossas fraquezas estamos de facto convictos da experiência que vivemos da presença de Jesus? Acreditamos e esperamos em Deus por Jesus ressuscitado?
Como nos recorda a leitura da Carta de São Pedro, não foi por coisas corruptíveis que fomos resgatados da vã maneira de viver, mas pelo sangue de Cristo, e se tal aconteceu foi para que acreditássemos, para que a nossa fé e a nossa esperança fossem alicerçadas verdadeiramente em Deus.
Procuremos pois viver com alegria e confiança o mistério da presença de Jesus ressuscitado, e com ardor e esperança testemunhá-lo aos nossos irmãos pela caridade e a fraternidade que nos devemos.

 
Ilustração:
1 – “Encontro na estrada de Emaús”, de Altobello Melone, National Gallery, Londres.
2 – “Ceia em Emaús”, de Andrey Mironov.

domingo, 23 de abril de 2017

Homilia do II Domingo da Páscoa

Com alguma frequência encontramos amigos, mais velhos ou mais novos, que nos dizem que gostavam de saber mais sobre Jesus, que é uma pena que os Evangelhos não nos contem mais coisas sobre a vida de Jesus, a sua infância, a sua vida de família, as suas relações de amizade e até da sua doutrina. À primeira vista parece que necessitam de uma biografia e de uma colecção das suas obras completas, como se realiza para os grandes escritores e pensadores.
Para estes amigos e para este desejo de conhecimento, o Evangelho de São João que escutámos dá-nos a resposta. O que nos foi escrito, contado, transmitido, é para que acreditemos que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que acreditando tenhamos a vida em seu nome. Assim, não temos necessidade de uma biografia, não necessitamos de saber mais, necessitamos de saber o necessário para acreditar que Jesus é o Messias e o Filho de Deus, e é isso que os Evangelhos nos transmitem, e a partir daí tenhamos a vida divina.
Neste sentido, e neste conhecimento que nos é facultado, a leitura do Evangelho de São João que escutámos revela-nos alguns dados fundamentais como são a presença de Jesus na história dos homens e de cada um de nós.
O primeiro sinal desta presença é-nos dado quando Jesus se apresenta no meio dos discípulos reunidos em casa e com a porta fechada. Jesus faz-se presente não só porque tinha prometido que onde estivessem dois ou três reunidos em seu nome estaria presente, mas porque tem essa capacidade de se fazer presente, já revelada quando no monte Tabor se transfigura diante de Pedro, Tiago e João. Não é uma presença mística, unicamente espiritual, é uma presença concreta na sua realidade humana e divina, e por isso pode apresentar-lhes as mãos com as feridas dos cravos e pode aparecer e desaparecer gloriosamente. Algo que nunca tinha feito antes.
O segundo sinal da sua presença é-nos revelado na segunda aparição, oito dias depois, quando estando já Tomé presente lhe apresenta as mãos e o lado para experimentação da sua realidade, demonstrando assim a sua presença oculta aquando da manifestação de Tomé de querer tocar e ver com os seus sentidos humanos a nova realidade daquele que conhecia como Mestre.
Para aqueles que hoje dizem que gostavam de ver Jesus, de falar com ele, não podemos deixar de lhes responder que Jesus está presente, que está ao nosso lado, que nos escuta e que nos apresenta as respostas que buscamos, ainda que sejam de uma forma completamente diferente daquelas que imaginámos ou expectávamos. Que é a partir dos Evangelhos que podemos e devemos estabelecer um diálogo.
A história de Tomé vai contudo mais longe, é mais radical, pois mostra-nos que Jesus está também presente quando lhe fechamos as portas, quando nos encerramos em nós próprios, quando temos dúvidas e questões, quando colocamos em causa o que nos é revelado, a nossa fé, quando pecamos. Deus está presente nessas fronteiras, nessa marginalidade, se assim podemos dizer, para nos estender a mão, para nos erguer, para nos responder, para nos libertar e reintegrar na vida que nos alcançou com o seu sacrifício de vida. Jesus não se ausentou da nossa humanidade, está presente de uma outra forma.
A manifestação de Jesus ressuscitado a Tomé revela-nos também a misericórdia de Deus, a continuidade do amor e da confiança de Jesus naqueles que escolheu para seus discípulos e amigos. Apesar das questões de Tomé e do seu desejo de querer ver e tocar, Jesus não o condena, nem o critica, assim como não o faz com nenhum dos discípulos. Não há qualquer juízo, qualquer discurso, mas apenas a manifestação da pessoa que conheciam e que deve continuar a ser acreditada, tida como viva e presente.
É esta experiência, poderíamos dizer este acolhimento do dom da presença, que permite fazer a profissão de fé. Num primeiro momento, e quando os discípulos comunicam a Tomé a aparição de Jesus, dizem-lhe que tinham visto o Senhor. Fazem já pela experiência presencial vivida a profissão de fé em Jesus como Senhor. Tomé, face à oferta de Jesus ressuscitado, à presença total que lhe é oferecida pessoalmente, vai mais longe e reconhece em Jesus não apenas o Senhor, o Messias, mas também o Filho de Deus, a divinidade presente na sua vida e busca.
Na vida e na história de cada um de nós esta presença é constante, e por isso o que nos é pedido é que não tenhamos medo de estender a mão, de querer ver e tocar, de querer o encontro pessoal e radical. Como nos diz a Carta de São Pedro, necessitamos amar, necessitamos acreditar com amor, e ainda que tenhamos que passar por provas, a fé em Jesus Cristo ressuscitado, presente no meio de nós, será sempre fonte de alegria inefável, fortaleza para continuar a buscar e a testemunhar verdadeiramente.

 
Ilustração:
1 – “Aparição a Tomé”, de Franciszek Smuglewicz, Museu Nacional de Varsóvia.
2 – “Aparição de Cristo aos Apóstolos”, de Andrey Mironov.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Serei eu Mestre? (Mt 26,25)

Quando no decurso da última ceia com os discípulos Jesus anuncia que um dos presentes o vai entregar às mãos dos inimigos, cada um deles, no seu interior, coloca em pânico a questão, “serei eu?”
Os discípulos são conscientes da sua falta de amor, das invejas existentes, do ciúme que sentem uns pelos outros, são conscientes de não terem entendido muito bem os ensinamentos do Mestre e de algumas vezes lhes ter passado pela cabeça a ideia de voltar ao sossego da sua vida anterior. Mas, dessas fraquezas e incompreensões até ao desejo de o entregar para ser condenado ia uma grande distância, jamais se tinham colocado essa possibilidade.
Judas ousa colocar a questão, verbalizar o que todos pensavam no íntimo do coração, e dessa forma assume a possibilidade que mais nenhum tinha jamais pensado. Ele tinha-o pensado, tinha-o até já falado, ou melhor, negociado, faltava apenas o momento oportuno para o levar a cabo.
Judas como os outros discípulos foi escolhido por Jesus, era um dos que partilhava a sua intimidade. Tal como cada um de nós, tinha sido eleito desde a criação do mundo para ser santo e imaculado na presença do Senhor, como nos recorda a Carta de São Paulo aos Efésios.
E ainda que nos pareça completamente descabido, aquele que vai ser o traidor, Judas, era amado por Jesus, era um dos seus. É um abismo paradoxal face ao qual nos encontramos, Deus não pode mais que amar aquele que o vai trair.
É por essa razão que no momento da ceia lhe estende o pedaço de pão molhado no seu prato. Tal como hoje, também naquele tempo era aos mais próximos que se estendia o pão, era com eles que se partilhava o pão. Ao entregar-lhe o pedaço de pão, Jesus oferece a sua amizade a Judas, sela com ele um pacto, renova-lhe a participação no seu mistério já expressa nos lavar dos pés.
Então Judas sai, e faz-se noite, as trevas adensam-se, porque o amado na entrega do pedaço de pão conduz aos infernos da traição aquele que o alimentou e o serviu. Judas leva-o consigo, em si, ainda que nem tenha consciência disso. Em algum momento terá pensado que naquele pedaço de pão foi configurado ao seu Mestre e Senhor? Que no seu desastre de vida não deixa de ser sua imagem e semelhança?
Mais tarde na oração dirigida ao Pai, Jesus não deixa de manifestar a dor pela perdição de Judas, pois vigiou para que nenhum se perdesse, e nenhum se perdeu a não ser o filho da perdição, e para que se cumprisse a Escritura.
Face ao relato da traição de Judas, a fé é a única resposta possível, a única saída viável, pois foi a fé que faltou a Judas que o levou à traição e posteriormente a colocar fim à sua vida. Se Judas tivesse acreditado que nada estava perdido quando entregou o Mestre, que bastaria um olhar para tudo ser diferente, deixar-se olhar pelos olhos amorosos de Jesus.
E se o olhar já não fosse possível, bastaria acreditar na palavra, acreditar que naquele mesmo instante era por ele, mais que por qualquer outro que Jesus se entregava nas mãos dos verdugos. Aquele que tinha vindo para salvar o que estava perdido, estava a salvá-lo a ele.
Teremos nós hoje esta fé, esta esperança, acreditaremos que o Senhor nos salva porque nos perdemos? Quando é que na nossa perdição ou desaire ousaremos levantar os olhos e cruzá-los com o olhar amante de Jesus?

 
Ilustração:
“Judas Iscariotes”, de Eilif Peterssen, Nordnorsk Kunstmuseum, Tromso, Noruega.