sexta-feira, 31 de março de 2017

Nós sabemos de onde ele é! (Jo 7,27)

Pela festa dos Tabernáculos Jesus sobe a Jerusalém e, ainda que inicialmente se movimente em segredo, rapidamente a urgência do anúncio o leva a expor-se a discussões e a ser reconhecido pela multidão. O conflito vai num crescendo e por causa do seu poder e influência sobre as multidões começa a ser detestado, a ser objecto de uma trama para que a morte rapidamente lhe possa pôr fim.
Entre a multidão começam a circular os rumores, as questões sobre a sua pessoa, a sua origem, o poder que tem e exerce como o Messias esperado. E é neste contexto de rumores que alguns afirmam que ele é um pecador, que sabem de onde vem e qual a sua família e portanto todas as expectativas messiânicas são falsas.
“Sabemos”, é a palavra definitiva daqueles homens e instituições religiosas sobre Jesus, uma palavra que silencia a palavra viva do mestre e que as multidões cansadas e desgarradas sem pastor escutam com avidez.
Ao afirmarem um saber sobre Jesus aqueles homens manifestam um ressentimento que contamina tudo, as relações com os outros, a relação com Deus e a estima de si, manifestam um juízo que reduz o outro àquilo que acreditam saber dele. E afinal sabe-se tão pouco do outro, que é sempre um mistério.
O ressentimento é uma cólera contra o mundo, contra os outros, é o sentimento que experimenta aquele que se encontra encerrado na sua própria existência e tem como único fito procurar um culpado para a sua situação. Nada nem ninguém está protegido.
Diante do ressentimento Jesus apresenta-se e propõe-nos uma relação e um movimento completamente orientado para o Pai, a comunhão plena com Deus na realização da sua vontade.
Peçamos pois ao Senhor Jesus a graça de habitar na intimidade de Deus, de nos encontrarmos completamente voltados para fora de nós, para a realização da vontade de Deus Pai, e de em todas as provas vivermos com confiança a chamada “hora” que espera de todos nós.

 
Ilustração:
“Jesus diante de Caifás”, de Mattias Stom, sem localização.

quinta-feira, 30 de março de 2017

O Pai deu testemunho de mim. (Jo 5,37)

Jesus prossegue o seu debate com os judeus no seguimento da cura do paralítico da piscina de Betsatá, um debate teológico sobre a sua pessoa e filiação divina e que João registou de modo magistral.
Para fundamentar o milagre operado, o poder inerente à sua identidade divina, Jesus invoca três testemunhos, seguindo neste processo a tradição e a lei que dizia que um testemunho só era válido com duas ou mais testemunhas.
Antes de mais Jesus invoca o testemunho de João Baptista, a quem os judeus tinham enviado emissários, que tinha reconhecido Jesus como o Messias esperado, e em parte pelas obras realizadas por Jesus. João é capaz de responder aos emissários que ele não é o Messias, contudo diz-lhes também que a sua presença é já visível para os que o quiserem ver nas obras e milagres extraordinários que vão acontecendo.
O segundo testemunho que Jesus invoca são essas mesmas obras, pelas quais é fácil perceber que não as faz por si próprio, mas por alguém que o enviou e lhe confiou o poder de as realizar. Como era possível não ver naqueles milagres os sinais da presença divina?
Por fim Jesus evoca o testemunho das escrituras às quais os judeus estavam tão apegados. Se quisessem ler o profeta Isaías podiam ver como a promessa se estava a cumprir, como a Palavra de Deus tomava forma, se concretizava nas obras que realizava, pois os cegos viam, os coxos andavam e os leprosos eram curados.
Para além destes argumentos, que poderemos dizer históricos, considerar circunstanciais, nós temos pela fé, alicerçada no relato dos discípulos, a palavra e testemunho do próprio Pai, que tanto no momento do baptismo como no alto do monte Tabor proclamou que Jesus era o seu filho muito amado, a quem devíamos escutar.
Para nós não existem apenas provas externas, existe a proclamação do Pai, a manifestação da filiação divina, do amor do Pai pelo Filho, a convicção clara que Jesus é o rosto do Pai, a maior prova do amor de Deus por todos os homens.
Senhor, que saibamos dar testemunho do teu amor diante de todos os nossos irmãos.

 
Ilustração:
“Transfiguração”, de Peter Paul Rubens, Museu de Belas Artes de Nancy.

quarta-feira, 29 de março de 2017

Meu Pai trabalha incessantemente! ( Jo 5, 17)

Para o paralítico curado por Jesus uma vida nova começava. Tudo agora seria diferente. Para Jesus também uma nova fase da sua vida se inicia, pois o milagre realizado fornece motivos a todos aqueles que o queriam ver morto, que queriam ver-se livre dele, para agirem de forma mais organizada e sistemática. E tudo isto porque o milagre foi realizado a um sábado, dia sagrado de descanso, dia em que estava proibido trabalhar.
Este facto, esta transgressão de Jesus do preceito sabático, vai dar origem a uma discussão, a um debate teológico entre Jesus e aqueles que se lhe opunham, que o criticavam. Neste debate Jesus começa por afirmar que o Pai trabalha sempre, incessantemente, e ele próprio também trabalha todo o tempo. Afirmação escandalosa, provocatória, pois coloca em causa o sábado enquanto dia sagrado de descanso e afirma uma filiação divina impossível de aceitar.
A afirmação de Jesus revela contudo a acção permanente de Deus Pai na história e na vida de cada homem, uma acção vivificante, iluminadora, uma acção sempre renovada em cada dia e em cada momento. Deus trabalha pela salvação dos homens, dá-lhes a vida e oferece-lhes a ressurreição.
E Jesus trabalha juntamente com o Pai, pois o Pai age por Jesus, nas suas obras e palavras, na sua vida transformadora da vida de todos os homens, no cumprimento da vontade salvadora. E é desta intimidade e unidade de acção que provém todo o poder das obras de Jesus.
O evangelista São João regista nesta discussão de Jesus com os judeus, de forma paradigmática, a filiação divina, a divindade de Jesus, precisando que é esta afirmação da filiação o motivo porque Jesus será conduzido à morte.
Ao declarar que Deus era seu Pai e que trabalhava em união com ele, Jesus faz-se igual a Deus, assume a sua natureza, e isso é intolerável para aqueles que o escutavam e aceitavam Deus escondido no santo dos santos, mas não mais que isso. Outra presença real, possível de manifestação aos sentidos era impossível.
Face a esta discussão, e ao fim a que levou, temos que agradecer a Deus a felicidade e a honra de sermos convidados a viver como filhos e de acolher a partir de Jesus a vida divina do Pai. Neste acolhimento fazemos a experiência do trabalho do Pai, a sua acção na nossa vida, acolhendo-a e transfigurando-a apesar das nossas infidelidades e faltas.
Deus não deixa de trabalhar incessantemente para nos conformar à sua imagem, para nos fazer regressar à natureza gloriosa com que nos criou. Saibamos nós acolher esse trabalho com humildade procurando viver a vontade de Deus Pai na nossa vida.

 
Ilustração:
“Jesus e a mulher adúltera”, atribuído a Tintoretto, Academia de Veneza.

terça-feira, 28 de março de 2017

Senhor não tenho ninguém! (Jo 5,7)

Jesus sobe a Jerusalém por ocasião de uma festa e ao passar junto da piscina de Betsatá encontra-se com um homem deitado, enfermo havia já trinta e oito anos.
Jesus pergunta-lhe se quer ser curado, pergunta que poderemos considerar descabida, pois não haveria aquele homem doente e paralítico de querer ficar curado?
Contudo, a pergunta tem um objectivo que vai para além da própria cura, da necessidade física daquele homem. A pergunta visa estabelecer uma relação, visa passar da visibilidade da situação a uma resposta que não pode nem deve ser apenas visível, visa uma resposta interior transfigurante da pessoa em si.
E vemos esta necessidade de resposta interior, de transformação, quando mais tarde o homem se encontra com Jesus no templo e lhe é dito que não volte a pecar para que não lhe suceda algo pior. A graça da cura física implicava uma cura espiritual e por isso essa advertência de Jesus, pois era uma situação mais grave que a doença paralisante anterior descuidar a vida nova recebida na relação com a palavra de Jesus.
O encontro com o paralítico à beira da piscina e a resposta à pergunta de Jesus, sobre o desejo de cura, revelam ainda uma outra dimensão do sofrimento, a inexistência de pessoas que ajudem o homem paralítico. Não há ninguém que o ajude a entrar nas águas quando elas se agitam.
Estas palavras e queixa do paralítico encontram-se também muitas vezes nos nossos lábios, no nosso espirito. Também nós nos queixamos de que não temos ninguém que nos ajude, em casa a preparar o jantar depois de um dia de trabalho, no escritório porque todos têm a sua tarefa e não podem descuidar-se, na relação de amizade porque o outro está sempre à espera que seja eu a ceder ou a perdoar. Tantas situações.
Podemos viver em sociedade, em família, em comunidades religiosas, mas é inevitável que em determinados momentos vivamos o peso da solidão, o sentimento de que não temos ninguém para nos ajudar. O próprio Jesus fez essa experiência no jardim das oliveiras quando todos os abandonaram.
A esta queixa do paralítico Jesus responde-lhe que se levante e ande, que deixe de confiar nos homens, porque não são garantia de nada, e confie em si próprio e naquele que lhe ordena que se levante e ande. Esta palavra estará sempre com ele, poderá acompanhá-lo, fortalecê-lo, não o deixará só nem sem ajuda.
E estas palavras e garantia são também para nós, para cada um de nós. Também Jesus nos diz levanta-te e anda, carrega a tua enxerga e vai para casa, ou melhor, regressa à casa que eu sou, à minha palavra em que podes habitar e confiar.
Na nossa inconstância e vacilação, Senhor Jesus estende-nos a mão, toma-nos e conduz-nos!

 
Ilustração:
“Jesus na piscina de Betsatá”, de Artus Wolffort, Art Gallery of Ontário.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O homem acreditou. (Jo 4,50)

Jesus regressa à Galileia e surpreendentemente é bem recebido, poderíamos dizer quase euforicamente, pelos galileus.
Eles tinham visto o que Jesus tinha feito em Jerusalém e acolhem-no na expectativa de ver também ali realizados novos e grandes milagres. É o extraordinário que os move atrás de Jesus, que os dispõe ao acolhimento.
Influenciado por esta multidão e este desejo, um funcionário real dirige-se a Jesus, pois o seu filho está doente em Cafarnaum. E como tantos outros pede a Jesus um milagre, que vá curar o seu filho.
Pedido normal, face ao conhecido e ao que se dizia, mas rapidamente contestado por Jesus, pois as circunstâncias não permitem outra resposta, todos querem ver coisas extraordinárias.
É a insistência do funcionário que provoca a alteração, mas também essa confiança interior de que Jesus podia fazer alguma coisa sem visibilidade, sem espectáculo. O funcionário é um homem que acredita que algo pode ser feito no silêncio, pelo poder da palavra.
E por isso quando Jesus lhe diz que vá tranquilo, que o seu filho está vivo, este homem parte sem hesitações, sem dúvidas, confiando na palavra, no poder da palavra de Jesus, poder confirmado quando os seus criados o encontram e lhe atestam a cura do filho.
Este homem fez confiança em Jesus sem necessidade de provas, sem necessidade de uma presença física, bastou-lhe a palavra. E afinal esse é o grande desafio que se coloca a cada cristão, confiar na palavra, acreditar sem necessidade de satisfações sensíveis, ou de emoções. Viver a fé com os seus riscos e as suas purificações fundados apenas na palavra.
Este desafio vem dos primórdios da criação, pois também ali e no momento da tentação, há uma oposição entre a palavra e a visão. Encontramos dois registos, se assim podemos falar, o da palavra de Deus que é uma palavra de bênção, que realiza o que diz, e o da visão induzida pela serpente que comporta a gula, a cobiça e a possessão do fruto proibido
A palavra é assim a nossa fonte e o nosso fim de realização de plenitude, ela deve iluminar o nosso caminhar, ela apenas nos deve bastar para continuar com confiança nos passos de Jesus. Permanecer na Palavra é o que Deus nos pede para nossa salvação!

 
Ilustração:
“Jesus curando os doentes”, de Fritz von Uhde, Neumeister Kunstauktionen.

domingo, 26 de março de 2017

Homilia do IV Domingo da Quaresma

A liturgia da Palavra propõe-nos hoje a leitura do capítulo nove do Evangelho de São João, uma vez mais uma leitura longa de um texto construído à volta de uma questão fracturante e que não podemos deixar de abordar nesta nossa caminhada de fé e de preparação para a Páscoa.
Tudo começa com o encontro de Jesus com um cego de nascença, realidade que não pode deixar de suscitar questões, e uma questão ancestral e transversal a muitas religiões, a da culpabilização de Deus por aquilo que não está bem, que impede a plena realização das pessoas, como se Deus se satisfizesse com a desgraça, a vingança pelos actos cometidos.
A resposta de Jesus a esta questão é muito clara, não há uma sede de vingança da parte de Deus, Deus não se realiza castigando, bem pelo contrário, estas realidades servem a Deus para manifestar o seu amor e a sua acção restauradora do homem decaído pelo pecado, são oportunidades para fazer o bem, para manifestação da sua glória, como diz Jesus.
Os acidentes e as doenças não estão na vontade nem no projecto de Deus, são circunstanciais à nossa condição e finitude de criaturas, são muitas vezes o resultado da nossa vontade e liberdade mal orientadas. E Deus serve-se dessas realidades para vir ao nosso encontro, para se mostrar mais próximo, para manifestar o seu amor. Quantas pessoas não fizeram já essa experiência da presença de Deus no meio das trevas, na noite escura e sem sentido? Deus manifestou-se presente, fez-se luz para quem atravessava esse breu da noite sem sentido.
E fê-lo da mesma forma como o fez com o cego de nascença do Evangelho, de uma forma progressiva, gradual, porque certamente na nossa dor e infelicidade não estamos em condições de suportar a sua presença sem uma preparação. O cego de nascença de que fala o Evangelho começa por referir-se a um homem, depois já se lhe refere como um profeta, e quando se encontra face a face com Jesus, com aquele que o curou mas desconhece, é capaz de acreditar no filho do homem e depois ajoelhar e dizer “meu Senhor”.
Este ajoelhar é sintomático de todo o processo de encontro, de todo o milagre, pois também Jesus teve que se ajoelhar para apanhar um pouco da terra para fazer o lodo que possibilitou devolver a visão ao cego. Deus abaixa-se para tocar o nosso pó, a nossa fragilidade, a nossa desgraça, para nos dar a salvação. Nós necessitamos fazer o mesmo não só no encontro com os outros que sofrem, mas no encontro com Deus, nessa aproximação que nos permite encontrarmo-nos face a face com aquele que nos cura.
Neste processo, neste aproximar-se, necessitamos estar atentos à novidade da acção de Deus, poderíamos dizer ao seu agir extravagante, pois de contrário ficaremos encerrados como os fariseus do Evangelho naquilo que conhecemos e desperdiçaremos a oportunidade que se nos apresenta. Podemos correr um risco ainda maior que é fechar os nossos olhos à acção de Deus que vemos desenrolar e que não aceitamos porque não decorre de acordo com os nossos esquemas, com as nossas expectativas.
Neste sentido é interessante notar como o cego interpela os fariseus para perceberem na sua cura uma manifestação dos tempos messiânicos, pois não era uma promessa do profeta Isaías aquele tipo de acontecimento, de transformação na vida das pessoas aquando da vinda do Messias? Contudo, e apesar da interpelação, os fariseus não quiseram abrir os olhos, preferiram permanecer naquela discussão sobre o modo de como tinha sido curado, encerrando-se assim à novidade e à luz.
Esta tentação da resistência à novidade está já presente na primeira leitura que escutámos, quando vemos Samuel eleger, para objecto de realização da missão a que tinha sido enviado, o filho mais velho de Jessé. É fácil deixar-se levar pelos olhos, pelas aparências, por uma imagem ilusória, porque aquilo que estamos habituados. Contudo, e como Deus diz, é o que está no coração do homem que verdadeiramente marca a diferença, que faz ver com outros olhos aquilo que os sentidos físicos permitem.
Desta forma somos chamados a passar do patamar do imediato, dos sentidos básicos, para um patamar superior, o patamar de Deus e da sua obra redentora. Deus vem ao encontro do homem para o salvar, para lhe dar uma nova visão que lhe permita encontrar-se pessoalmente com aquele que é o seu criador e o seu salvador.
Como baptizados, mergulhados já não na piscina do “enviado”, mas na graça do enviado que é Filho de Deus, os nossos sentidos foram purificados, iluminados para não ver já à maneira puramente humana mas à maneira divina. No Ritual de Iniciação Cristã de Adultos este mistério está bem patente nos gestos que o sacerdote traça sobre os ouvidos, os olhos, a boca, o peito, os ombros daquele que se prepara para receber o baptismo. A signação com o sinal da cruz marca essa nova dimensão do olhar, do ver, do ouvir, do falar, do amar. Os sentidos são consagrados de modo a captar as maravilhas da obra de Deus, a acção salvadora na vida do próprio e do mundo.
E é esta captação das maravilhas da obra de Deus que nos faz luminosos, que nos faz não só ver a luz divina mas também irradiá-la, ser luz junto dos outros nossos irmãos que caminham nas trevas e na cegueira do sem sentido. E hoje é necessário que os cristãos assumam de forma convicta esta missão. Num mundo de guerra, de exploração, de opressão, de violência e falta de respeito pela vida e os seus valores, necessitamos testemunhar a graça de Deus que toca a nossa natureza para a elevar, para lhe dar um brilho e dimensão divinas.
A bondade, a justiça e a verdade são frutos da nossa condição de filhos da luz. Que elas estejam sempre presentes nos nossos gestos e palavras, na nossa busca de fidelidade à luz divina que recebemos.

 
Ilustração:
1 – “Cura do cego de nascença”, de Orazio de Ferrari, Colecção de Arte do Banco Carige.
2 – “Jesus com o cego”, de Andrey Mironov.

sábado, 25 de março de 2017

Eis a escrava do Senhor! (Lc 1,38)

A anunciação do Anjo Gabriel a Maria é uma daquelas narrações bíblicas que se prestam à nossa contemplação. Cada versículo, cada detalhe, cada palavra, pode iluminar o nosso coração na contemplação deste mistério.
Sabemos como à saudação do Anjo Gabriel a jovem de Nazaré fica perturbada, mas ainda assim não deixa de se manifestar humilde e disponível diante de Deus, face ao projecto de Deus que lhe é anunciado.
A sua confiança é grande e por isso o abandono à vontade de Deus é total. O sentido da pergunta que coloca, “como será isto”, não é uma dúvida ou um entrave, mas bem pelo contrário, uma oferta, um perguntar o que queres que faça.
Maria não dá as razões que poderia dar face à pergunta que coloca, razões válidas, como a de José, a dos comentários do povo, a da sua segurança. Ela nada antepõe ao plano de Deus, ao anúncio feito, Maria não dúvida, ela apenas crê, faz confiança na verdade que lhe é anunciada.
E ainda que não compreenda o que lhe é dito, a dimensão do mistério em que está a ser envolvida e assume participar, ela não deixa de livremente acolher esse mistério, o anúncio feito, ela vai conceber do Espirito Santo e dar à luz um filho que será chamado Filho do Altíssimo. Será ele, o seu filho, que salvará o povo.
Diante de ti Maria, Serva do Senhor, ensina-nos a discernir a vontade de Deus, a acolher sem reservas e com fé, a dizer sim como tu disseste. Nossa Senhora do Sim rogai por nós.

 
Ilustração:
“Anunciação”, de Bartolomé Esteban Murillo, Museu do Prado, Madrid.

sexta-feira, 24 de março de 2017

Amarás! (Mc 12,30)

Um escriba chega perto de Jesus e pergunta-lhe qual é o primeiro dos mandamentos. Seria um exame doutrinal, ou uma armadilha? Jesus não se preocupa com isso e responde ao escriba.
A resposta de Jesus é a citação dos versículos que qualquer judeu piedoso deve recitar em cada manhã. O nosso Deus é o único Senhor que amarás de todo o teu coração, tal como está consignado no Livro do Deuteronómio.
O escriba apenas solicita o primeiro mandamento, um único mandamento, para que Jesus passe no exame, mas Jesus não se limita a tal e enuncia paralelamente ao texto do Deuteronómio o texto do Levítico: amarás o teu próximo como a ti próprio.
O escriba conhece um e outro mandamento e por isso não pode ficar senão satisfeito com a resposta de Jesus, que felicita igualmente o escriba pela sua satisfação e alegria, manifestando-lhe que não estava longe do Reino de Deus.
O mandamento primeiro é assim o mandamento do amor, explicitado numa dupla dimensão, o amor a Deus e o amor ao próximo. É com essa dupla explicitação que se constrói e desenvolve o Reino de Deus.
O Reino de Deus é assim amar, o amor colocado em actos concretos quer dirigidos a Deus quer dirigidos aos irmãos, aos outros homens e mulheres. O amor dirigido aos irmãos, aos outros homens e mulheres garante a autenticidade do amor a Deus, pois não pode amar o que é invisível aquele que não ama o seu irmão que é visível.
Como testemunha incomparável do amor a Deus e aos irmãos Jesus termina por assumir em si a dimensão do Reino, ele próprio é o Reino. E por essa razão procurar construir o Reino de Deus entre os homens obriga necessariamente a ter Jesus como centro, como modelo. Ele é o caminho, a verdade e a vida do Reino e para o Reino.
Procuremos pois seguir Jesus no seu modo de amar, conscientes que amar é uma ordem, um mandamento, que nos abre a oportunidade da realização plena como homens e como filhos de Deus.

 
Ilustração:
“Jesus penitente”, de Niccolò Frangipane, Carmen Thyssen Museum, Madrid.  

quinta-feira, 23 de março de 2017

Um homem forte guarda o seu palácio. (Lc 11, 21)

Jesus realiza mais um milagre, expulsa um demónio, e o mudo liberto da possessão começou a falar. Como sempre a multidão que assistiu ao acontecimento comenta, reage, uns louvando outros criticando, uns acreditando outros querendo provas. Uma discussão sobre o poder se gera à volta de Jesus.
E é nesta discussão que Jesus nos apresenta aquela que podemos considerar uma realidade propensa à tentação, a confiança nas nossas forças e nas nossas armas, porque um homem forte e bem armado pode guardar o seu palácio. Quantas vezes não fazemos esta experiência, quantas vezes não nos fiamos no que temos, seja força, seja poder, seja prestígio? Quantas vezes acreditamos estar seguros com o que temos!
No entanto, e como Jesus alerta os seus ouvintes, nós desconhecemos a força do outro, pode aparecer alguém mais forte e mais bem armado que nos pode deitar por terra, que nos pode retirar as armas e as bases da segurança e obrigar a entregar o nosso palácio.
As história bíblicas apresentam-nos vários exemplos desta possibilidade, e apresentam-nos mesmo a possibilidade de isso acontecer com as forças obscuras que muitas vezes nos impedem de fazer o bem e fazer as coisas bem feitas. Forças que nos desarmam e vencem.
Jesus passou também por esta experiência nas tentações do deserto, mas se o adversário não o venceu, não o desarmou nem se apoderou do palácio da sua vontade, foi porque Jesus se apoiou na Palavra de Deus, porque soube responder às invectivas do inimigo com as armas da Palavra divina e a assistência do Espirito Santo.
Hoje Jesus assegura-nos esse mesmo apoio e por isso nos diz que só vence quem está com ele, só junta quem junta com ele, só vive quem vive com ele, ele é o homem forte no qual nos podemos apoiar para defender o nosso palácio.
Jesus venceu o maligno e venceu-o com armas poderosas, as armas do amor e da obediência, da humildade e da confiança em Deus Pai, e oferece-nos a sua protecção, se nos acolhermos a ele, se nos colocamos sob a sua guarda e protecção. Esta é a condição, e não há meios-termos, ou estamos com ele ou estamos contra ele. É afinal uma escolha radical e total que compromete toda a minha vida.
Procuremos pois fazer as escolhas acertadas, sem medo de nos acolhermos sob a protecção de Jesus, à guarda dos seus exércitos celestes.

 
Ilustração:
“Ecce homo com as Arma Christi”, de Jan Mostaert, Hamburg Kunsthalle, Alemanha.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Não vim revogar mas completar! (Mt 5,17)

Se havia alguma dúvida, relativamente à sua relação com a Lei, Jesus não deixa que ela se mantenha. Ele não é contra a Lei, os mandamentos, os preceitos, confiados por Moisés ao povo para que ele pudesse seguir o caminho da vida.
Os seus frequentes contenciosos com os escribas, os doutores da Lei, os fariseus e os anciãos do povo é que nos podem provocar essa ideia, mas ela está bem longe do propósito de Jesus que no contexto do Sermão da montanha diz claramente que não veio revogar a Lei, mas pelo contrário completá-la.
Se alguém tinha alguma pretensão a uma revolução, ela cai por terra, e de uma forma radical quando Jesus diz que nem o mais pequeno sinal deixará de ser cumprido, que aquele que cumpriu a lei na sua radicalidade e assim a ensinar aos outros será o maior no reino dos Céus.
Contudo, se os mandamentos e os preceitos permanecem como uma referência inquestionável, a palavra e a vida de Jesus mostram-nos que devem adquirir uma outra dimensão, que não podem esquecer o fim para que foram constituídos, ou seja a vida e o caminho da felicidade, o homem e a sua realização plena.
Jesus confirma a Lei de Moisés, não rejeita nenhum dos pequenos preceitos, vive-os no seu quotidiano, mas redimensiona-os à luz da dimensão profética e da verdade que os constitui. Jesus liberta os mandamentos e os preceitos da rigidez moralizante, do espirito condenatório e elitista, da dimensão marginalizante que tinham adquirido com o tempo.
Jesus assume os mandamentos e os preceitos mas partindo sempre do homem e das suas condições, das suas circunstâncias, que Ortega y Gasset tanto gostava de referir, pois as leis não têm sentido no vazio, numa realidade sem relações. Jesus assume os mandamentos e os preceitos como um desafio a superar, como uma dimensão profética de uma realidade a que o homem está destinado e para a qual não pode deixar de se inclinar.
E são estas dimensões, profética e humana, que estão implícitas quando Jesus deixa como resumo de toda a Lei o mandamento do amor como ele o viveu, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O cumprimento perfeito dos mandamentos passa assim pela imitação de Jesus, pela imitação do seu amor sem medida. É o amor que marca a diferença!

 
Ilustração:
“Cristo e o jovem rico”, de Andrey Mironov, 2010.

terça-feira, 21 de março de 2017

Perdoar até sete vezes? (Mt 18,21)

Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-lhe se um irmão o ofendesse o deveria perdoar até sete vezes. Conhecendo nós, antecipadamente, a resposta de Jesus, podemos dizer que Pedro estava a ser muito pobrezinho, muito pouco fraterno, a ficar muito aquém do que Jesus pedia.
Contudo, não podemos deixar de ter presente que o número sete é o símbolo da plenitude, o que significa que afinal Pedro não estava a ser mesquinho, mas estava já a elevar a fasquia do perdão. A pergunta de Pedro encerra já um projecto de plenitude, de um perdão enorme.
A resposta de Jesus, que Pedro deve perdoar setenta vezes sete, ultrapassa contudo a dimensão da plenitude, ela visa mostrar que há uma outra dimensão do perdão a assumir, a dimensão divina, de contrário o homem nunca chegará a perdoar verdadeiramente.
Para compreender a resposta de Jesus temos que remontar à leitura do livro do Génesis, à escalada de violência que acarreta a vingança. Em Génesis 4,24 um descendente de Caim clama a todos os que o querem ouvir: “Matei um homem porque me feriu, matei um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta vezes sete!”
Jesus conhecendo o coração do homem, sabendo como facilmente se inclina para a vingança e para guardar no coração o ressentimento, pede a Pedro que entre na lógica do amor, que assuma viver na espiral da misericórdia, pois só deve forma se pode perdoar mais que sete vezes e mais que setenta vezes.
Após a ressurreição, Pedro vai fazer a experiência das palavras de Jesus, do perdão concedido setenta vezes sete, da espiral de misericórdia que é convidado a viver. Após as diversas negações na noite da paixão, Pedro necessita do perdão de Jesus, mas não apenas do perdão humano em toda a sua plenitude, Pedro necessita do perdão misericordioso que o restabelece e restaura na sua dignidade.
“Pedro, tu amas-me”, é a pergunta de Jesus. E a cada resposta afirmativa de Pedro, Jesus confirma-o no seu amor, “apascenta as minhas ovelhas”. É o perdão desmesurado, o perdão do amor, o perdão que restaura a dignidade de Pedro, o perdão divino, o perdão daquele que sabe tudo e tudo pode assumir em si pelo seu amor infinito.
A Quaresma é o tempo favorável para fazer a experiência do perdão dado e recebido sem medida, com um amor infinito, com uma dimensão divina. Saibamos pois acolher a oportunidade perdoando misericordiosamente, restaurando o outro na sua dignidade com o perdão transfigurado pelo amor de Deus.

 
Ilustração:
“São Pedro penitente”, de Gerard van Honthorst, Bonhams Auctions 2007.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A casa de meu Pai. (Lc 2,49)

O seu nome não é referido, como se fosse uma personagem de segundo plano, mas José está lá, no templo de Jerusalém, junto de Maria, procurando Jesus, sofrendo pela incerteza do sucedido. No momento do encontro uma palavra remete-o ainda mais para o anonimato: não sabíeis que eu devia estar na casa de meu pai?
A casa de meu pai, o templo de Jerusalém! E a casa de Nazaré? Aquelas humildes quatro paredes que o acolhiam e lhe davam protecção, entre as quais aprendia o ofício de carpinteiro e a fé dos patriarcas? Aquela casa que Maria alegrava com a sua ternura como o lírio do campo alegra os vales e que ele cuidava como um templo divino, o lugar sagrado da habitação do amor!
Podemos assumir que José compreendeu as palavras de Jesus, a sua referência a Deus como Pai, pois Deus é o pai amoroso de todo o povo eleito, mas também não podemos deixar de assumir que ainda assim as palavras de Jesus foram como uma espada que lhe trespassou o coração.
Todos criamos expectativas, todos desejamos os filhos como propriedade nossa, como uma realização pessoal, e afinal como Jesus para José eles são apenas um dom, um desafio ao medo e ao amor. Quem nunca sentiu o medo da responsabilidade face à contemplação do filho amado?
Ver crescer Jesus junto de Maria, partilhando a intimidade do lar e aprendendo a profissão de carpinteiro, deve ter sido uma alegria e uma fonte de acção de graças para José. No silêncio e na humildade, nesse quase anonimato, o homem justo participa do projecto de Deus cooperando sem pretensões, assumindo as responsabilidades com amor, procurando ser o servo fiel que espera a vinda do seu senhor para o servir, para lhe entregar o fruto do seu amor transfigurado pela renúncia à vontade própria.   
Nesta nossa caminhada quaresmal o encontro de Jesus no templo entre os doutores e a resposta que dá a Maria e a José põem de relevo o sacrifício pedido a José, a abnegação dos seus projectos e sonhos para viver uma aventura de amor no silêncio e na humildade do anonimato.
José na vida de Jesus e na história da nossa salvação convida-nos a morrer para nós próprios, a morrer na nossa vontade, para que em nós nasça e viva o Filho de Deus.

 
Ilustração:
“A morte de São José”, de Bartolomeo Altomonte, Dorotheum, Viena.

domingo, 19 de março de 2017

Homilia do III Domingo da Quaresma

O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma apresenta-nos o encontro de Jesus com a samaritana junto ao poço de Jacob. É um texto longo, com um diálogo muito bonito e rico, e por essa razão um dos textos de formação para aqueles adultos que se preparam para receber o baptismo.
Todos nós estamos presentes naquele encontro na pessoa da samaritana, e por isso como baptizados não podemos deixar de regressar sempre a este encontro e perceber o que ele nos ilumina no seguimento de Jesus, na nossa busca de fidelidade àquilo que Deus nos pede.
Neste sentido, iniciamos a nossa reflexão e abordagem a partir da própria samaritana e da sua vida e circunstância do encontro. É uma mulher que sofre certamente de marginalização e por isso vem àquela hora tão imprópria buscar água ao poço. Poderíamos dizer que vem às escondidas tal como Nicodemos foi de noite ao encontro de Jesus.
A marginalização deriva da sua vida relacional, dessa busca de realização em relações humanas que não acabam de a satisfazer. A samaritana é uma mulher de amor, que sofre pelo amor que busca e não encontra. E é mergulhada nessa insatisfação que o Senhor vem ao seu encontro quando pede que lhe dê de beber.
Mas a samaritana não é apenas uma mulher marginalizada, vitima do amor que busca, ela é também uma mulher forte, uma mulher que é capaz de responder a quem a provoca, como acontece com Jesus. O pedido tem assim uma resposta altiva e assertiva, pois como era possível que um judeu lhe pedisse água, quando tal pedido acarretaria uma contaminação, uma perda de pureza legal. Seria uma provocação? E como tinha ele uma água viva, se não tinha um balde e até lhe estava a pedir de beber?
A samaritana não é tonta, bem pelo contrário, é uma mulher sábia e diligente que é capaz de manter um diálogo, de desenvolver uma busca para encontrar respostas, até para aquela situação estranha e provocadora daquele judeu sentado à beira do poço que lhe pede de beber e imediatamente lhe oferece uma água viva que não se vê de onde lhe provém.
É nesta estranheza e discrepância que se vai desenvolver todo o diálogo entre ela e Jesus, colocando de manifesto algo que nos diz respeito como é o desencontro entre aquilo que queremos ouvir de Deus, as respostas que esperamos, e o que Deus verdadeiramente nos diz.
Envolvida no seu sofrimento, nas suas preocupações, a samaritana deseja uma água que a liberte de ter que voltar ao poço, uma água que lhe facilite a vida. Contrariamente ao desejado, Jesus oferece-lhe uma água viva, uma fonte que brota em si própria, mas que não a liberta das obrigações quotidianas e da responsabilidade da lida da casa e de voltar ali para buscar água.
Também nós muitas vezes queremos ouvir de Deus as respostas que nos convêm, que nos facilitariam a vida, que nos resolveriam os problemas, mas Deus dá-nos outra resposta, que é sempre uma resposta de vida, um dom que nos permite mais do que desejamos, que nos permite olhar os problemas por outro prisma, que é uma nascente de realização em nós. Necessitamos por isso estar atentos, de ouvidos e coração bem abertos para ouvir a voz do Senhor.
Neste encontro não podemos ficar apenas na pessoa da samaritana, necessitamos olhar Jesus que tem um papel activo, provocador, e muito pedagógico. Jesus sabiamente vai ao encontro daquela mulher, confrontando-a com a verdade da sua vida e da sua busca, com a sua própria fé, mas sem a condenar ou descriminar pela sua vida.
Mesmo quando lhe pede que vá chamar o seu marido, não é para lhe atirar em cara a sua desordem afectiva, mas porque de acordo com os costumes e leis a mulher não deveria falar com estranhos senão diante do seu marido. A conversa ia já adiantada, Jesus tinha já preso a atenção da samaritana, e por isso, para a sua continuação, era necessária a presença do marido. O assunto era já demasiado sério para se permitir uma conversa ligeira.
Jesus não marginaliza nem condena, não discute nem entra em controvérsias com a samaritana, apenas e como bom mestre a conduz ao encontro da verdade, à necessidade de haver adoradores em espirito e verdade, de homens e mulheres que reconheçam a sua sede de Deus e a busquem saciar com amor e verdade. Jesus conduz a samaritana a si própria, centra-a na sua fé e esperança e mostra-lhe o potencial que está escondido e ela tem buscado sem saber encontrar.
Não podemos deixar de notar que o evangelista traça neste encontro uma dimensão de Jesus muito humana, um homem cansado, com sede e até com fome, pois os discípulos foram à cidade comprar alimentos. Contudo, esta dimensão humana, esta imagem de fragilidade não pode deixar de nos sensibilizar, uma vez que ela é expressão do mistério da encarnação, desse mistério de Deus que se fez homem e frágil como nós para que nos pudéssemos encontrar com ele.
Quando Jesus mergulha na fraqueza da samaritana, expressa por exemplo na sua preguiça de não ter que voltar à fonte, está também ele fraco, cansado, poderíamos dizer sem vontade de voltar ali mais, partilhando a mesma condição daquela mulher. Deus coloca-se ao nosso lado, partilha as nossas dores e cansaços, para nos oferecer a água viva do Espirito, do seu Espirito que nos ilumina e resgata dessa condição.
Tal como nos dizia São Paulo na Carta aos Romanos da segunda leitura, Deus prova o seu amor por nós nesta fraqueza, partilhando a nossa vida quando somos pecadores, derramando em nossos corações o seu amor pelo Espirito que nos foi dado. E é com esta confiança e nesta esperança que devemos viver, que devemos buscar cada dia a fidelidade.
A cada um de nós, nas alegrias e tristezas das nossas vidas, nas conquistas e nos desaires, Jesus continua a dizer “dá-me de beber”. Que o saibamos escutar, que não nos deixemos distrair pelas preocupações e ruídos do mundo, para que tal como ele saibamos dizer: o meu alimento, o que verdadeiramente me mata a sede e a fome é fazer a vontade do Pai.

 
Ilustração:
1 – “Jesus e a Samaritana”, de Angelika Kauffmann, Neue Pinakothek, Munique.
2 – “Jesus e a Samaritana”, de Odilon Redon, Städel, Frankfurt am Main.

sábado, 18 de março de 2017

O pai saiu ao seu encontro. (Lc 15,28)

Jesus apresentou-lhes mais uma parábola, a eles que eram publicanos e pecadores, e a eles que eram escribas e doutores da lei. Todos tinham vindo para o ouvir, ainda que as razões fossem diferentes. Contudo, a história servia a uns e servia a outros, abrissem os ouvidos e dispusessem o coração à novidade.
Um pai com dois filhos, um pai que ama infinitamente, dois filhos que desconhecem o amor do pai. Um filho que parte e outro que fica, um que esbanja tudo o que recebe e outro que tudo guarda. Situações e histórias diferentes mas o mesmo centro, o pai que ama sem medida.
E um pai que assume no seu amor uma atitude, a do acolhimento inquestionável, a disponibilidade para ir ao encontro dos filhos, pois ambos regressam a casa, cada um da sua situação e história.
O pai da parábola é a imagem do Pai do Céu, de Deus que vem ao nosso encontro, estejamos nós mais próximos ou mais longe, cheguemos nós de histórias complicadas de aventuras e esbanjamentos ou de histórias quotidianas de rotina e austeridade.
Deus vem até àquele que pecador se dirige ao seu encontro, não querendo já nada mais que ser tratado por servo, mas que o Pai acolhe com alegria e dignidade, fazendo uma festa porque aquele filho estava morto e voltou à vida.
Deus vem ao encontro daquele que não quer entrar, que ainda que partilhando a intimidade da casa desconhece o amor do Pai por todos os filhos, desconhece a alegria do acolhimento e do encontro. Deus vem ao encontro daqueles que não querem entrar de livre vontade, e daqueles que partilhando a casa não permitem que outros entrem.
Nas fraquezas e desastres de cada filho, o pai sai sempre ao encontro, ao encontro de cada um deles e das suas situações, não querendo nada mais que cada um entre na festa do seu amor, da largueza do seu coração, faça a experiência do seu amor.
Diante deste Pai, em que acreditamos como nosso Deus Salvador, o que nos impede de nos dirigirmos a ele? O peso e a escuridão dos nossos pecados, da nossa via errante e aventureira? O peso e o desânimo das nossas rotinas? O nosso egoísmo e avareza face aos outros e face aos bens, diante do amor que nos devemos?
Deus nosso Pai não se interessa por isso, a sua misericórdia é capaz de aniquilar as nossas misérias, a ele interessa-lhe a nossa disposição ao encontro e à participação na sua festa, no seu amor. Um coração aberto e disposto a esse amor fará sempre a experiência de Deus acolhedor e em caminho até si.
Levantemo-nos pois para ir ao encontro do Pai que vem já de braços abertos!

 
Ilustração:
“O regresso do filho pródigo”, de Nikolay Losov, Museu Nacional de Belas Artes da República Bielorrússia.   

sexta-feira, 17 de março de 2017

Mandou os servos para receber os frutos. (Mt 21,34)

O Evangelho de São Mateus informa-nos que a parábola dos vinhateiros homicidas se dirige aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, que eles perceberam bem a mensagem e só não prenderam Jesus porque tiveram medo do povo.
Na parábola está entendida a história da revelação, os profetas que Deus tinha enviado e não tinham sido escutados, que tinham sido assassinados, mas está também e de forma profética a realidade que se perfila no horizonte para Jesus, o filho e herdeiro enviado numa última tentativa de colecta dos frutos.
Assim, face a esta primeira leitura, podemos assumir que a parábola pouco tem a dizer-nos, fala-nos de acontecimentos do passado, dirige-se a destinatários concretos que somos capazes de identificar e não somos nós. Mas será bem assim?
Sãos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, surpreendentemente, que nos colocam em jogo, ao dizerem que o dono entregará a sua vinha querida a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a devido tempo. Nós sabemos que somos nós, que a pedra rejeitada por aqueles homens, e que é o Filho, se tornou para nós pedra angular.
Cumpre-nos assim perguntar como estamos a cuidar a vinha, que frutos dispomos para entregar, mas também como estamos a acolher os servos que o dono da vinha nos envia hoje para receber esses frutos? Porque o Senhor continua a mandar os seus servos.
A vinha nova, cuidada e murada que nos foi confiada, é a vinha da graça divina, da filiação divina alcançada por Jesus Cristo. Os frutos que somos chamados a apresentar são os frutos do Espirito Santo, a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fé, a modéstia, a continência e a castidade.
Os nossos irmãos, homens e mulheres que se cruzam connosco todos os dias na intimidade da família, nos postos de trabalho, no anonimato da rua, são os servos que o Senhor continua a enviar para que possam recolher os frutos da sua vinha. O dono da vinha não vem por si próprio recolher os frutos, mas envia os seus servos, os homens e mulheres.
Que amor lhes retribuo? Que alegria lhes partilho? Que paz lhes concedo? Como os acolho com paciência? Como sou capaz de perdoar a falta cometida? Que tempo lhes concedo para mudarem? Como lhes testemunho a minha fé? Como as minhas atitudes e modos de ser os provocam? Que castidade desenvolvemos nas relações que estabelecemos?
Os servos do Senhor continuam a vir bater à porta, a procurar os frutos devidos, que tenho eu para lhes dar, sabendo que cada um deles é tão proprietário da vinha como eu pela morte do Filho que nos fez herdeiros.

 
Ilustração:
“Parábola dos vinhateiros homicidas”, de Andrey Mironov, 2013.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Há entre nós um grande abismo! (Lc 16,26)


A parábola do rico e do pobre Lázaro é uma peça extraordinária de redacção, um texto em que se percebe que o Evangelista São Lucas teve muito cuidado na construção dos contrastes, na apresentação dos elementos que evidenciam os abismos que construímos.
É a situação do rico e do pobre neste mundo, o abismo entre a pobreza e a riqueza que os separa, é o abismo entre o seio de Abraão e a mansão dos mortos, é o abismo da satisfação de um e a infelicidade de outro, nesta vida e na outra.
A parábola mostra-nos como é muito fácil construir um abismo, uma separação intransponível, basta-nos para tal faltar com um dedo que pode saciar a sede, um gesto simples que pode ser preterido porque estamos distraídos com a nossa satisfação.
Aquele homem rico, satisfeito com os seus prazeres, nunca foi capaz de olhar para Lázaro, de partilhar com ele o que quer que fosse, mas vai solicitar a sua ajuda para matar a sede que o atormenta. Poderíamos dizer, que atrevimento!
Assim sendo, a primeira lição a retirar desta parábola é a do perigo da riqueza para a construção de muros, de abismos, que nos impedem de olhar e aproximar do outro. Mas há outra lição ainda a retirar e que se prende com a construção de abismos porque não estamos atentos à Palavra, abismo que desenvolve todos os outros abismos.
Quando o desgraçado rico pede a Abraão que envie Lázaro a casa dos seus irmãos, pois diante de um morto podem converter-se e mudar de vida, a resposta de Abraão é que possuem já os profetas e Moisés para poderem mudar de vida. Não será um ressuscitado a provocar-lhes a alteração de vida.  
A resposta insinua inevitavelmente uma falta de resposta face à ressurreição de Jesus, mas mostra também que é pela Palavra que se pode mudar de vida, que se podem construir pontes, que não nos encerramos em nós próprios.
Não é a ressurreição, e neste caso de Jesus, que pode mudar a atitude de alguém, mas a fé nas suas palavras, na revelação de Deus, em Moisés e nos profetas. É a adesão à Palavra, é a escuta da Palavra e a busca da fidelidade a essa Palavra que impedem a construção dos abismos.
A ressurreição de um morto pode provocar temor, espanto, até um propósito de mudança, mas não a convicção da palavra dada e recebida. Os discípulos de Jesus vivem e testemunham a ressurreição porque acreditaram na palavra, porque estabeleceram uma relação. É a escuta da Palavra de Deus que vai orientar o nosso coração e nos vai ajudar a olhar toda a realidade de forma diferente.
Procuremos pois escutar atentamente a Palavra para inviabilizar qualquer abismo entre nós e com Deus.

 
Ilustração:
“O Rico e o pobre Lázaro”, de Hendrick ter Brugghen, Central Museum in Utrecht.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Não sabeis o que estais a pedir! (Mt 20, 22)

A mãe dos filhos de Zebedeu, Tiago e João, aproxima-se de Jesus para lhe fazer um pedido, que o mestre ordene que no seu reino os seus filhos se sentem à sua direita e à sua esquerda. Pedido motivado certamente pelo amor de mãe, mas ainda assim surpreendente e até estranho no grupo dos discípulos de Jesus. Tendo em conta a reacção dos outros discípulos, da sua indignação, a mãe de Tiago e João tinha ido longe de mais no que estava a pedir.
Esta ousadia da mãe dos filhos de Zebedeu torna-se ainda mais gritante e provocadora na medida em que pouco antes Jesus tinha anunciado, pela terceira vez, o fim que o esperava em Jerusalém, a sua paixão e morte, a negação e rejeição por parte de todos. Como poderia aquela mulher estar a fazer tal pedido face ao anunciado?
O despropósito do pedido agrava-se ainda mais se tivermos em conta tudo o que o Evangelho de São Mateus nos apresenta previamente das palavras e encontros de Jesus. É o encontro com o homem rico que não é capaz de se separar das suas riquezas, é a pergunta de Pedro sobre a recompensa daqueles que como eles deixaram tudo para seguir Jesus, e por fim é a parábola dos trabalhadores do final do dia que recebem tanto como os da manhã, pois os últimos serão os primeiros.
Jesus já tinha vindo a colocar as coisas no devido sítio, a apresentar a radicalidade do seguimento e como era necessário desprender-se de muito, até do que se poderia considerar justo, para o seguir, para ter um lugar consigo, um lugar no último lugar que é o primeiro. Mas enquanto Jesus falava de serviço e humildade, de dom de si próprio sem esperança de recompensa, os discípulos apenas pensavam na promoção, nos lugares de poder e governo.
Na lógica e nos planos de Jesus ser o primeiro significa ser o servo de todos, ser aquele que é capaz de se desprender das coisas que lhe são mais caras e esperar confiante que a recompensa virá, não pelo trabalho realizado, mas pela justiça do amor vivido. O importante é o vivido verdadeiramente. E Jesus abre-nos o caminho deste processo de vida através do seu dom total, do dom até à cruz.
Seguir Jesus é assim partilhar com ele os nossos sofrimentos, eliminar os dos nossos irmãos, amar e perseverar nesse amor apesar das dificuldades, é entregar a sua vida no serviço humilde do quotidiano, muitas vezes sem qualquer agradecimento, sem qualquer glória, escondidos como o fermento na massa. Neste silêncio o Pai mede o peso do nosso amor e chama-nos a entrar na sua intimidade, a partilhar a glória do mistério da encarnação.
A mãe dos filhos de Zebedeu e todas as circunstâncias que tornam o seu pedido despropositado, infeliz, convidam-nos a repensar a nossa oração e o que pedimos a Deus. Estaremos a pedir o que nos convêm, ou estaremos a pedir que em nós se faça vida a vontade de Deus? Senhor afasta de mim este cálice, contudo não se faça a minha vontade mas a tua!

Ilustração:
“Encontro de Jesus com os filhos e mulher de Zebedeu”, de Paolo Veronese, Musée de Grenoble.   

terça-feira, 14 de março de 2017

O maior entre vós será servo. (Mt 23,11)

É diante da multidão que Jesus fala aos seus discípulos sobre os escribas e os fariseus e a duplicidade de vida que levam, sobre a hipocrisia do que exigem aos outros mas se recusam a praticar e viver. É um aviso, um apelo, para que assim não aconteça com eles.
Jesus inicia esta série de imprecações e críticas contra os fariseus e escribas, que vai ocupar todo o capítulo vinte e três do Evangelho de São Mateus, colocando em evidência o exterior, as marcas externas que apenas têm como objectivo diferenciar, demarcar-se dos outros, aparentar aquilo que se não é ou vive. São as ricas vestimentas, as borlas e filactérias, os primeiros lugares, os títulos e deferências que enganam o outro, a máscara do orgulho para se ser considerado pelo que se não é.
Com os seus discípulos tal não pode acontecer, não podem viver à custa da imagem e para a imagem, para o que os outros podem pensar. E tal não pode acontecer porque antes de mais são irmãos, são todos irmãos, e viver como irmãos supõe humildade e verdade, calor humano, um espirito de serviço e sobretudo um dom de entrega muito forte.
Os irmãos que vivem como irmãos não estão dependentes do que os outros podem pensar, vivem em liberdade porque se conhecem e reconhecem, porque o outro é parte de si, porque sabem que o que entregam e confiam uns aos outros é verdadeiro e irrepetível, inegociável.
E como viver como irmãos representa um esforço, uma aplicação contínua, Jesus apresenta-se como modelo a seguir, mostra-nos a verdadeira fraternidade em termos práticos, de uma forma radical humilhando-se até à morte pelos seus irmãos, pelo amor de os resgatar da morte.
Sabemos que os discípulos não participaram deste último momento, com excepção de João e as mulheres que acompanharam Jesus até à crucifixão, mas sabemos como foram objecto de um gesto que os transtornou e os marcou de forma indelével neste aprender da humildade e do serviço aos outros, de ser o maior sendo o servo de todos.
Quando o mestre se ajoelhou diante de cada um deles para lhes lavar os pés a transformação aconteceu, no fundo do coração aqueles homens pressentiram o que mais tarde perceberam, que o amor não tem limites, que o amor serve na maior humildade, que o amor se entrega totalmente.
Não era o maior de entre eles que se humilhava, pelo contrário esse até teve alguma dificuldade em perceber o gesto de Jesus, mas era o próprio Mestre que se inclinava e como um servo lhes lavava os pés, até àquele que depois o traiu e entregou. Como poderiam eles aspirar a maior glória que a glória da humildade do serviço manifestada pelo Mestre? Como podemos nós aspirar a outras glórias?

 
Ilustração:
“Jesus lavando os pés aos apóstolos”, de Palma Giovane, San Giovanni in Bragora, Veneza.