quarta-feira, 8 de abril de 2026

Eles pararam com um ar muito triste! (Lc 24,17)

Eles pararam com um ar muito triste! (Lc 24,17)

Os discípulos a caminho de Emaús são uma imagem de nós próprios, quando feridos nas nossas expectativas e esperanças experimentamos a desilusão, quando o nosso coração partido em mil pedaços se questiona sobre o que sobra, onde ficamos, ao que nos podemos agarrar para não nos afogarmos na dor e no desespero.

Caminhando não se sabe para onde, talvez para bem longe da fonte do sofrimento, levamos espelhada no rosto e nas palavras, no ritmo do andar, a tristeza que nos corrói.

E é a este caminhar dorido e doloroso que Jesus se aproxima, sem pressas, colocando-se ao lado, caminhando em escuta, acolhendo e recolhendo a dor e a mágoa, a frustração e a decepção, tentando juntar os pedaços partidos e dispersos com muita paciência e atenção.

E recolhidos os pedaços, acolhidas as dores e as mágoas, a sua palavra brota como luz, como um fogo, para fazer arder os corações, para iluminar os cantos escuros, as incompreensões, as perspectivas enviesadas.

Por esta razão a sua Palavra continua a ser tão importante, tão necessária na nossa vida, porque nela podemos ler os nossos acontecimentos e a nossa história, não como num documento de análise, mas como num encontro com uma pessoa, com aquele cuja presença é vida e nos dá vida. A sua palavra impulsiona o nosso coração e coloca-nos em movimento, alenta-nos para não nos deixarmos esmagar pela dor e pela desilusão.

A desilusão pode assim ser uma passagem, uma Páscoa, em que vivemos o encontro com o Senhor e Mestre Jesus, uma experiência de encontro com Aquele que desce ao nosso encontro e ao encontro do inferno das nossas decepções.

Esta passagem e encontro não nos livra do sofrimento, nem da dor, mas devolve ao nosso coração o ardor, o desejo da libertação, a força para lutar, o ímpeto para recomeçar, partir de novo para uma nova história como o fizeram os discípulos, sem medo e cheios de alegria, ao regressar a Jerusalém.

Ilustração:

Rembrandt – Os dois discípulos e Jesus Cristo a caminho de Emaús. Colecção de desenhos do Museu do Louvre.