Eles pararam com um ar muito triste! (Lc 24,17)
Os discípulos a caminho de Emaús são
uma imagem de nós próprios, quando feridos nas nossas expectativas e esperanças
experimentamos a desilusão, quando o nosso coração partido em mil pedaços se
questiona sobre o que sobra, onde ficamos, ao que nos podemos agarrar para não nos
afogarmos na dor e no desespero.
Caminhando não se sabe para onde, talvez
para bem longe da fonte do sofrimento, levamos espelhada no rosto e nas
palavras, no ritmo do andar, a tristeza que nos corrói.
E é a este caminhar dorido e doloroso
que Jesus se aproxima, sem pressas, colocando-se ao lado, caminhando em escuta,
acolhendo e recolhendo a dor e a mágoa, a frustração e a decepção, tentando juntar
os pedaços partidos e dispersos com muita paciência e atenção.
E recolhidos os pedaços, acolhidas as
dores e as mágoas, a sua palavra brota como luz, como um fogo, para fazer arder
os corações, para iluminar os cantos escuros, as incompreensões, as
perspectivas enviesadas.
Por esta razão a sua Palavra continua
a ser tão importante, tão necessária na nossa vida, porque nela podemos ler os
nossos acontecimentos e a nossa história, não como num documento de análise,
mas como num encontro com uma pessoa, com aquele cuja presença é vida e nos dá
vida. A sua palavra impulsiona o nosso coração e coloca-nos em movimento,
alenta-nos para não nos deixarmos esmagar pela dor e pela desilusão.
A desilusão pode assim ser uma
passagem, uma Páscoa, em que vivemos o encontro com o Senhor e Mestre Jesus,
uma experiência de encontro com Aquele que desce ao nosso encontro e ao
encontro do inferno das nossas decepções.
Esta passagem e encontro não nos
livra do sofrimento, nem da dor, mas devolve ao nosso coração o ardor, o desejo
da libertação, a força para lutar, o ímpeto para recomeçar, partir de novo para
uma nova história como o fizeram os discípulos, sem medo e cheios de alegria, ao
regressar a Jerusalém.
Ilustração:
Rembrandt – Os dois discípulos e Jesus Cristo a caminho de Emaús. Colecção de desenhos do Museu do Louvre.

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