As leituras que escutámos
neste Quarto Domingo do tempo Pascal, conhecido nos três anos litúrgicos como
Domingo do Bom Pastor, conduzem-nos à identidade de Jesus, à sua
personalidade, intuída não só por ele próprio mas também pelos discípulos já
após as aparições do ressuscitado.
Neste sentido, é
interessante ver na leitura dos Actos dos Apóstolos como São Pedro procura
apresentar a pessoa de Jesus e a sua identidade.
Diante daqueles homens
que tinham condenado Jesus e permitido a sua morte, porque não se encaixava na
perspectiva de salvador e libertador do jugo do império romano, o apóstolo
afirma a salvação operada por Jesus à luz do próprio nome.
Todos sabiam que o
nome Jesus significava “Deus salva” ou “Deus vem salvar”, e portanto o apóstolo
São Pedro procura mostrar àqueles homens e mulheres como de facto Jesus era o
Messias esperado, o salvador, mais que não fosse pelo nome que lhe tinha sido
dado.
Portanto, não havia
que duvidar da identidade e da pessoa de Jesus, ainda que não tivesse libertado
o povo do jugo e da opressão romanas. Jesus tinha de facto operado a salvação
de todos os homens, tinha realizado a libertação do mal, e aquele homem curado
diante de todos e pelo poder do nome de Jesus era a prova mais que evidente
desse facto.
Contudo, o conhecimento
desta identidade da pessoa de Jesus, para que possa ser revolucionário e
libertador, não pode ficar apenas num plano teórico, não pode ser uma mera
ideia, por muito nobre que seja, pois não vivemos só de ideias mas de relações
que estabelecemos até com as próprias ideias.
E neste sentido o
Evangelho de São João convida-nos a estabelecer uma relação com Jesus, a ter um
conhecimento fundado e fundamentado através de uma imagem ou metáfora que Jesus
usa para se identificar a si próprio, como é a do “Bom Pastor”.
É uma imagem que já o
Antigo Testamento e nomeadamente alguns profetas utilizam para falar da relação
de Deus com o povo eleito. Para um povo nómada, habituado a lidar com animais e
rebanhos, era a imagem perfeita para significar o cuidado e a atenção de Deus
para com o povo.
Jesus vai contudo mais
longe, aprofunda essa imagem e relação, contrapondo não só a acção e os direitos
que assistiam aos pastores, que podiam abandonar o rebanho face a determinados
perigos e portanto de certa maneira se tornavam mercenários, mas pondo em
evidência o amor que o verdadeiro pastor e dono das ovelhas manifestam diante
delas, a vida que colocam em jogo para que o rebanho não se perca.
A entrega da vida do
pastor pelas ovelhas é assim a manifestação do amor e da salvação, e na medida
em que se acolhe essa entrega, que se opera uma apropriação por parte das
ovelhas dessa vida entregue, estabelece-se uma relação e cria-se uma intimidade
que permite um outro conhecimento.
A Igreja primitiva
assumiu de forma clara esta metáfora do bom pastor e do que ela significava e
portanto não é difícil encontrar nas primitivas representações iconográficas de
Jesus Cristo a imagem do pastor com a ovelha aos ombros. As pinturas das
catacumbas testemunham-nos esta assimilação e apropriação.
Mas testemunham-nos
também uma outra ideia que encontramos na Carta de São João que lemos neste
domingo. O Bom Pastor conduz as ovelhas para o paraíso perdido, para essa
possibilidade de se manifestar o que verdadeiramente somos, ou seja, a nossa
semelhança com Deus.
Desta forma, tem todo
o sentido que rezemos neste domingo pelas vocações consagradas, sacerdotais e
religiosas, pois no seu plano salvador Deus continua a chamar por homens e
mulheres que queiram levar os seus irmãos aos ombros para os conduzir ao
encontro do Bom Pastor que os reconduzirá à casa do Pai.
Hoje, quando tantos
homens e mulheres, e sobretudo jovens, não têm conhecimento do nome de Jesus,
do poder que nele se encerra, e da liberdade que nos alcança, somos chamados a tomar
consciência desta urgente missão da Igreja, de todos nós baptizados, e a fazer
alguma coisa por ela.
A oração é a primeira realidade
que nunca pode deixar de estar presente e a acompanhar os pastores e as
ovelhas. Rezemos pois pelos pastores da Igreja e pelas ovelhas que de modo
particular sentem o chamamento de Jesus a segui-lo.
Ilustração:
“Bom Pastor”, de Philippe
de Champaigne, Museu das Ursulinas de Mâcon.
"Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e elas conhecem-Me. Mas há ovelhas que não estão neste aprisco..."
ResponderEliminarNão será de nós que Jesus fala? Não é verdade que muitas vezes nos afastamos, nem que seja para conhecer as "novas pastagens"? Inter pars
Caro Frei José Carlos,
ResponderEliminarAs leituras do IV Domingo do Tempo Pascal e a Homilia que teceu leva-me a reflectir sobre a intemporalidade da metáfora o “Bom Pastor”, as suas ovelhas e o seu significado. Jesus é o Bom Pastor e a Humanidade inteira é o Seu rebanho: as que estão na “cerca” e as que estão fora dela e que Jesus conhece a todas pelo nome e chama por cada um de nós. Às que estão na cerca e, por vezes, abandonam o rebanho, os que decidiram não fazer parte, ou como, afirma no texto, e os que “não têm conhecimento do nome de Jesus, do poder que nele se encerra, e da liberdade que nos alcança”. De todos, Jesus não desiste, convida, sem pressão, enviando o sopro do Divino Espírito Santo. E, é na relação de intimidade, de confiança que conseguimos estabelecer com Jesus que aprendemos o que quer de cada um de nós, que nos transformamos.
Jesus ensinou aos discípulos que o caminho, o lugar para a divulgação da Boa Nova era a estrada, e não o espaço “fechado”.
A seara do Senhor é grande e, por conseguinte, são necessários mais trabalhadores, em que o género não deverá ser o factor determinante da escolha.
Como nos salienta ...” o Evangelho de São João convida-nos a estabelecer uma relação com Jesus, a ter um conhecimento fundado e fundamentado através de uma imagem ou metáfora que Jesus usa para se identificar a si próprio, como é a do “Bom Pastor”.(…)
(...) A entrega da vida do pastor pelas ovelhas é assim a manifestação do amor e da salvação, e na medida em que se acolhe essa entrega, que se opera uma apropriação por parte das ovelhas dessa vida entregue, estabelece-se uma relação e cria-se uma intimidade que permite um outro conhecimento.”…
Façamos nossas as palavras de Frei José Carlos e …“Rezemos pois pelos pastores da Igreja e pelas ovelhas que de modo particular sentem o chamamento de Jesus a segui-lo”.
Grata, Frei José Carlos, pela partilha da Homilia que nos conduz a uma profunda reflexão, quando se vivem tempos de grandes desequilíbrios, intranquilidade, injustiça, indiferença, perseguição. Bem-haja. Que o Senhor o ilumine, o abençoe e o guarde.
Votos de boa semana, com paz, alegria, confiança e esperança. Bom descanso.
Um abraço mui fraterno,
Maria José Silva
Frei José Carlos,
ResponderEliminarAgradeço-lhe a bela Homilia do IV Domingo do Tempo Pascal.Muito profunda que nos ajuda à nossa Meditação.Também gostei muito da beleza da ilustração do Bom Pastor.Obrigada,pela partilha maravilhosamente bela que deu neste Domingo às suas ovelhas.Rezemos pois pelos pastores da Igreja e pelas ovelhas que de modo particular sentem o chamamento de Jesus a segui-lo.Bem-haja.Que o Senhor o ilumine , o guarde e o abençoe.Votos de um bom fim de semana.e um bom descanso.
Um abraço fraterno.
AD