segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

União de vontades

 
União plena da vontade à vontade de Deus, qualquer que ela possa ser, no esquecimento total de si. Trabalhe nisto, aplique-se a isto.
Carta de Charles de Foucauld a Paul Claudel

Ilustração: Folhas de castanheiro com sol de outono.

domingo, 5 de janeiro de 2014

União à vontade de Deus

 
Neste mundo a união da vontade à vontade divina, por amor, é o amor de Deus.
Carta de Charles de Foucauld a Paul Claudel

Ilustração: Capela em Vernier, Suíça.

Homilia Solenidade da Epifania do Senhor

Celebramos hoje a Solenidade da Epifania do Senhor, o mistério da revelação de Deus aos homens, e como acontecimento evangélico paradigmático deste mistério encontramo-nos com a adoração dos reis magos vindos do oriente.
É um desses acontecimentos que encontramos nos chamados Evangelhos da Infância, que são como que uma introdução, um pórtico, dos Evangelhos de São Lucas e São Mateus. Evangelhos da Infância que não podem ser lidos à luz da investigação histórica, uma vez que as narrações ali desenvolvidas não existem para satisfação da nossa curiosidade relativamente aos primeiros anos da vida de Jesus.
Bem pelo contrário, encontramo-nos face a narrações que só alcançam a sua verdadeira dimensão e verdade quando lidas à luz da Páscoa, à luz do grande mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus.
Neste sentido, o anúncio dos anjos aos pastores que pudemos contemplar e meditar na noite de Natal, face aos títulos cristológicos anunciados, não pode ser dissociado do anúncio às mulheres que na manhã de Páscoa correm ao túmulo de Jesus e se encontram também ali com outros anjos que lhes anunciam a ressurreição.
O anúncio dos anjos na noite do nascimento do Salvador é assim uma prefiguração do anúncio da manhã de Páscoa, tal como a adoração dos reis vindos do oriente é a prefiguração, a metáfora, da adoração do fim dos tempos, da plenitude gloriosa que o profeta Isaías também já anuncia na primeira leitura desta solenidade.
A adoração dos magos, com o que comporta de encontros e desencontros é assim a manifestação clara que Jesus não é uma propriedade particular, uma especificidade local, mas aquilo que podemos chamar no verdadeiro sentido da palavra “património da humanidade”.
Jesus, no seu mistério pertence a toda a humanidade, dirige-se a toda a humanidade e os reis magos vindos do oriente mais não representam que simbolicamente essa mesma humanidade na sua diversidade original e na busca do divino que lhe é inerente, acredite-se ou não em Jesus Cristo como Filho de Deus.
Por outro lado, a adoração dos magos, com a acidentada passagem por Jerusalém e o encontro com Herodes, é a manifestação da revolução que Jesus opera face ao mal, uma vez que Jesus põe a descoberto o mal que afecta o homem e contagia todas as instituições humanas. Desde o seu nascimento Jesus manifesta-se como uma ameaça ao mal e ao poder que se constitui sobre o mal e coloca em causa a humanidade.
A adoração dos reis magos enquanto representação da busca do divino, inerente à humanidade, é para cada um de nós um verdadeiro apelo, um desafio, à consciencialização do processo em que estamos envolvidos. E neste sentido, a passagem por Jerusalém não é um desastre, ou um equívoco sinistro, mas a explicitação da necessidade de uma orientação divina, do encontro com o mistério da revelação.
Estes homens vindos do oriente perceberam pelos seus conhecimentos e pelo seu estudo, pela sua inteligência, que a natureza lhes manifestava algo de extraordinário. O mundo tal como o conhecemos manifesta a obra de Deus, a sua acção, e a sua presença. Diante de tal realidade colocaram-se em caminho, arriscaram o desconhecido e outros mundos, outras culturas, até outros sinais, para compreender na sua plenitude o que antes tinham intuído, percebido pelas suas capacidades.
A passagem por Jerusalém foi a oportunidade para se encontrarem e confrontarem com os dados da revelação, com a necessidade da fé que aprofunda e desafia os próprios conhecimentos adquiridos. A partir dali puderam encontrar o menino, puderam compreender os sinais que tinham visto na natureza e o seu cabal significado.
Este processo, esta caminhada, é inerente a toda a humanidade e, tal como aconteceu com os reis magos, é feito de avanços e recuos, de perdas e encontros, de incertezas que só são vencidas na medida em que se arrisca a fé, em que se acolhe o dom de Deus, em que se aceita que Deus vem ao nosso encontro e se nos manifesta das mais diversas formas.
Dado o encontro com o menino, a adoração, os reis regressam por outro caminho, porque é impossível voltar pelo mesmo caminho depois do encontro com o Salvador, com aquele que é a luz que ilumina cabalmente o homem na sua essência e revela Deus na sua natureza.
Desta forma, a epifania de Jesus, a manifestação de Deus, é para todos nós um motivo de esperança, de vivermos cheios de esperança, uma vez que nos revela que as nossas buscas nos conduzem sempre, mais tarde ou mais cedo, ao encontro com o salvador, e que a nossa humanidade em nada sai diminuída por essa busca e esse reconhecimento.
A epifania de Jesus manifesta-nos afinal que Deus assumiu a nossa humanidade e com a incarnação do Filho esta mesma humanidade readquiriu a dignidade divina perdida. Saibamos viver com dignidade a herança que nos foi confiada em Cristo Jesus.

 
Ilustração: “Adoração dos Magos”, de Abraham Bloemaert, Museu Central de Utrecht.

 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Jesus voltou-se e olhou-os. (Jo 1,38)

É após o baptismo no rio Jordão e a indicação de João que dois homens começam a seguir Jesus. Pouco mais tarde é-nos dito que um deles é André, irmão de Simão Pedro. O outro permanece no desconhecido, sem identificação, assumindo por isso a identidade do discípulo que Jesus amava.
Estes dois amigos e discípulos de João Baptista seguem Jesus de longe, timidamente, um pouco envergonhados pela ousadia de seguirem aquele que afinal desconhecem, de quem apenas sabem que devem seguir devido à indicação de João Baptista.
Já um pouco afastados da beira do rio, e certamente devido a algum ruido inadvertido, Jesus volta-se para trás e descobre-os, encontra-se com eles, surpreende-se, admira-se, e podemos dizer que se apaixona por eles. E como não podia deixar de ser, pergunta-lhes: “Que procurais?”.
É sintomática esta paixão de Jesus face àqueles que o procuram, como também e tão bem podemos constatar no encontro com o jovem rico. Jesus admira-se e apaixona-se por aqueles que arriscam segui-lo, por aqueles que começam a procurá-lo com simplicidade e humildade, até com timidez.
Jesus alegra-se com o nosso desejo, com o nosso compromisso, com a nossa vontade de ir atrás dele, com a liberdade e generosidade com que procuramos segui-lo. Jesus não é indiferente aos nossos passos, aos nossos primeiros passos tantas vezes vacilantes e incertos.
E quando se apercebe do nosso caminhar, da nossa busca, não deixa de se voltar, não deixa de se prontificar a dar-nos uma resposta, a acolher-nos, e invariavelmente pergunta: “Que procurais?”
Quando nos prontificamos a seguir Jesus, ele vem ao nosso encontro, dispõe-se a caminhar connosco, e isso deveria ser uma razão para não temermos segui-lo, para seguirmos confiantes na sua peugada.
Senhor Jesus, tu vais à nossa frente, mas como é reconfortante saber que ao mínimo passo nosso te voltas e colocas ao nosso lado, nos buscas mais que nós te buscamos.

 
Ilustração: “São João Evangelista”, Benedetto Luti, Museu de Arte de Philbrook.   

Razão para ser humildes

 
Felizmente não nos fizemos a nós próprios, foi Ele que nos fez, e que se recorda que foi da terra que nos fez. Sejamos portanto muito humildes para com Ele e bastante reconhecidos.
Carta do Padre Michel Caillava para Paul Claudel

Ilustração: Pintura de Adão e Eva do Museu de História e Arte de Genebra.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

João viu Jesus que vinha ao seu encontro. (Jo 1,29)

Neste tempo de Natal João permanece nas leituras que a Liturgia da Palavra nos oferece e acompanha-nos no encontro e na descoberta de Jesus.
É junto ao Jordão que encontramos João a cumprir a sua missão de preparar os caminhos para a vinda do Messias.
É junto ao Jordão que o vemos encontrar-se com Jesus, com Jesus que vem ao seu encontro, que vem ao baptismo de água de que não necessita mas que servirá para a manifestação da sua glória e da sua identidade.
João tem uma missão recebida do Alto, e tem consciência dessa missão, mas é a vinda de Jesus ao seu encontro que lhe permite levar a bom termo a missão, que lhe permite completá-la através do reconhecimento daquele que é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Depois deste acontecimento, deste encontro, João pode retirar-se, uma vez que aquele que não conhecia se lhe manifestou, que o que era antes de si o ultrapassou, uma vez que viu com os seus olhos o que lhe tinha sido anunciado.
Nas nossas mais diversas circunstâncias não podemos deixar de assumir que algo de semelhante se passa connosco, que também nós procuramos anunciar o Senhor, preparar os caminhos para a sua vinda, para a sua manifestação.
Contudo, para que o possamos apontar e identificar aos outros temos que estar atentos e perceber que também na nossa vida Jesus vem até nós, que Jesus vem ao nosso encontro para que o reconheçamos, para que o acolhamos, e só depois o identifiquemos aos outros.
Há como que um trabalho complementar, um processo em simultâneo, em que a possibilidade do anúncio de Jesus aos outros se relaciona estreitamente com o nosso encontro pessoal, com o reconhecimento de Jesus que vem até nós.
Procuremos pois ver as formas diversas e quotidianas como Jesus vem até nós, vem ao nosso encontro, e reconhecendo o amor expresso nesse encontro, procuremos anunciá-lo e apresentá-lo com alegria e convicção, com a certeza de que a nossa palavra nos precede no amor do mesmo Jesus e no seu desejo de encontro com todos os homens

 
Ilustração: “João anunciando o Messias”, de Paolo Veronese, Galeria Borghese, Roma.

Para melhor rezar

 
Não procurei mais que melhor compreender para melhor rezar.
Carta de Paul Claudel ao padre Brunot.

Ilustração: Evangelistas Lucas e Marcos do púlpito da igreja de Saint-Gallen.