domingo, 23 de agosto de 2015

Homilia do XXI Domingo do Tempo Comum

A leitura do Evangelho de São João que hoje escutámos finaliza o capítulo sexto deste Evangelho, um capítulo que temos vindo a ler de forma continuada nestas últimas semanas e depois da narração do milagre da multiplicação dos pães com que o mesmo capítulo se inicia.
É um capítulo que nos oferece a interpretação do milagre operado por Jesus, um milagre que manifesta o dom total de Deus, o alimento que Deus coloca à nossa disposição, mas é também um capítulo que nos revela as dificuldades de Jesus, a incompreensão face à sua mensagens e aos sinais que desenvolve para manifestar a sua pessoa.
Poderíamos dizer que é o capítulo de excelência das opções que são necessárias fazer, das responsabilidades que são necessárias tomar, da adesão total que é exigida, e por isso assistimos a uma progressão do geral para o particular, da multidão para o grupo restrito dos discípulos que é confrontado com essa questão de permanecer ou debandar.
Esta problemática aparece-nos patente em dois outros acontecimentos, também eles narrados pelo Evangelho de São João. De forma paradigmática vemos na narração do episódio da samaritana como as palavras de Jesus provocam a fé e a adesão dos homens e mulheres da aldeia. São estrangeiros, marginais ao núcleo da tradição sacerdotal e religiosa de Jerusalém, que aderem sem qualquer preconceito à verdade de Jesus.
Paradoxalmente, no episódio do cego de nascença, aqueles que são a elite, os membros do núcleo da tradição sacerdotal e religiosa do templo, são completamente obtusos à realidade manifestada por Jesus nesse mesmo milagre, são incapazes de perceber a luz que lhes é oferecida. Face a Jesus e à luz que manifesta da verdade a opção é assumidamente contrária, é uma rejeição liminar.
No capítulo sexto do Evangelho de São João e depois do milagre da multiplicação dos pães é possível ver ao modo de um jogo de xadrez como as opções também se vão assumindo, umas mais equivocadas, outras nem tanto, e no fim de forma clara, ainda que sob a forma de mistério, que é afinal a única opção possível.
Logo após a multiplicação dos pães, a multidão procura Jesus, e, tal como ele próprio o assume, apenas movida pelo interesse material. Estão ali porque foram saciados, assim como a samaritana pede a Jesus a água viva para não ter que voltar ao poço. Equivocadamente movem-se e optam por Jesus apenas fundados nos seus interesses materiais, na sua satisfação e bem-estar, o que conduz inevitavelmente ao desencontro, a uma não opção.
Diante da explicação dada por Jesus da realidade do milagre, do seu significado mais profundo, afinal trata-se da dar a sua carne para que tenham vida, para um grupo de discípulos a opção é a da rejeição total, pois não só são palavras duras como um desafio a um dos mais fundamentais interditos da vida humana, a alimentação a partir do outro igual a mim, o proibido dos proibidos. Afinal como pode ele dar-nos a sua carne a comer?
Como clímax e conclusão desta progressão encontramos a pergunta que Jesus coloca aos discípulos, pois também eles podem querer ir embora. É o momento de fazer uma opção, de dar uma resposta, de assumir o seguimento, a fé naquele que é o Santo de Deus.
E uma vez mais é Pedro que responde ao desafio, iluminado, tal como em outro momento e em outra pergunta, pelo Espirito Santo. Se não foi a carne que lhe permitiu dizer que Jesus é o Filho de Deus, também agora não é a carne que lhe permite dizer, a quem iremos se só tu tens palavras de vida eterna.
A resposta e a opção de Pedro, em nome dos discípulos e de toda a Igreja, é uma opção pelo mistério, pelo desenvolvimento de um processo com alguém que conhecemos mas está para além de tudo o que nos é permitido conhecer ou experimentar. Uma vez mais constatamos, e tal como Jesus tinha dito pouco antes, que é o Pai que nos concede o dom de nos encontrarmos verdadeiramente com o Filho, com o dom que nos faz, com a carne que é nosso alimento.
Encontro este que nos custa a realizar e a assumir, não só porque nos confrontamos com o interdito de nos alimentarmos uns dos outros, mas também porque apesar do mistério da incarnação continuamos a ter medo da nossa carne, continuamos a considerá-la como uma matéria pouco nobre.
E não só esta matéria viu Deus que era muito boa, como também a assumiu no momento da sua habitação entre os homens. Tal como São Paulo refere aos cristãos de Éfeso, para a santificar, para a poder apresentar a si mesmo sem mancha nem ruga, cheia de glória, santa e imaculada.
Desta forma, purificados pelo baptismo da água e da palavra, não podemos viver exilados do nosso corpo, da nossa carne, mas conscientes que na sua finitude e fragilidade se encontra o meio que Deus nos concede para experienciar a vida, enquanto dom que nos é concedido e dom que concedemos aos outros.
Somos habitação de Deus, templos do Espirito Santo, um mistério que Jesus iluminou com a multiplicação dos pães, mostrando-nos que somos alimento uns para os outros, que a nossa carne não deve estar sujeita à escravatura de qualquer vício ou idolatria, mas consagrada ao amor que liberta e nos conduz à plenitude.
É grande este mistério, mas na medida em que o vivemos mais nos aproximamos daquilo que acreditamos, que na nossa carne veremos a Deus.
 
Ilustração:
1 – Crucifixão de São Pedro, de Luca Giordano, Galeria da Academia, Veneza.
2 – Madalena Penitente, de Nicolas Chaperon, Museus de Belas Artes de Nancy.

domingo, 26 de julho de 2015

Homilia do XVII Domingo do Tempo Comum

A Liturgia da Palavra propõe-nos em cada ciclo B, para a celebração dominical, a leitura continuada do Evangelho de São Marcos. Contudo hoje, e quando o evangelista São Marcos se preparava para nos relatar o milagre da multiplicação dos pães, a Liturgia da Palavra propõe-nos a versão do Evangelho de São João.
Esta interrupção da leitura continuada, que nos pode parecer necessária devido ao reduzido tamanho do Evangelho de São Marcos para preencher um ano litúrgico, é no entanto deliberada, pois oferece-nos a possibilidade de ver a verdadeira dimensão do milagre que Jesus opera.
Neste sentido, temos já na leitura que escutámos uma referência a essa dimensão ao ser-nos dito que a Páscoa se encontrava próxima. O milagre da multiplicação dos pães está assim associado à grande festa. O discurso do pão da vida, que vamos escutar nos próximos domingos, e que se encontra no seguimento do relato do milagre da multiplicação dos pães no Evangelho de São João, dá-nos a completa dimensão do milagre realizado.
Milagre que, pela sua magnificência e dimensão, nos pode impedir de ver um pormenor da narração, que é extremamente significativo para cada um de nós, e que o Evangelho de São João e a leitura que escutámos põe em evidência.
Antes de mais temos que ter presente que, na narração do Evangelho de João, é Jesus o primeiro a manifestar preocupação pela multidão, pela fome daquela multidão que o tinha seguido, que o procurava e que tinha passado o dia a escutá-lo segundo o Evangelho de São Marcos.
A esta preocupação e solicitação do Mestre respondem os discípulos mais chegados com a impossibilidade de satisfazer a fome daquela gente, nem duzentos denários de pão chegariam para alimentar aquela multidão.
E é face a esta incapacidade, ou impossibilidade da estrutura e organização à volta de Jesus para responder às necessidades da circunstância, que surge uma proposta, que poderíamos dizer irrisória, quase ofensiva face às reais necessidades. Para que serviriam cinco pães e dois peixes para tanta gente? No entanto, é esta oferta insignificante que põe em movimento o milagre, que provoca a possibilidade de alimentar aqueles mais de cinco mil homens.
E como se não bastasse a miserável oferta apresentada, o Evangelho de São João faz questão de nos salientar ainda que ela é feita por um jovem rapazinho, por um anónimo do meio do grupo dos que seguiam Jesus, por alguém que não tem qualquer poder, bem pelo contrário é manifestação da fragilidade e da precaridade.
Este jovem rapazito, com os seus cinco pães e dois peixes, na sua pobreza, é assim uma provocação, aos discípulos incapazes de encontrar uma solução para a preocupação de Jesus, à comunidade cristã à qual se dirige o Evangelho de São João e que também não sabe como responder aos desafios que lhe são colocados pelos seus pobres, a cada um de nós que é desafiado a dar o pouco que tem.
Este jovem rapazito provoca assim toda a humanidade e cada um de nós a não cruzar os braços, a deixar de desculpar-se porque não tem nada, ou tem muito pouco, que não adianta qualquer acção aparentemente insignificante face aos mecanismos do mundo.
E tal como ele muitos outros exemplos na vida e na história da Igreja nos desafiam nessa confiança que o pouco com Deus é muito. São Vicente de Paulo, São Martinho de Lima, Frederico Ozanam, Madre Teresa de Calcutá, e tantos outros irmãos nossos que se lançaram em desafios sem qualquer suporte, praticamente sem nada, mas acreditando que Deus estava com eles e não os deixaria desamparados.
Perdido no meio da multidão, ultrapassado pela grandeza do milagre, este jovem rapazito mostra-nos que não podemos querer resolver as situações pelas nossas próprias forças, capacidades ou património, mas que com a nossa boa vontade e cooperação, oferecendo o que recebemos de Deus, seja muito ou pouco, podemos ir para lá de todas as esperanças e encontrar soluções para os problemas.
Não posso fazer a multiplicação dos pães, mas sei que com o meu pouco, oferecido de vontade, e com a graça de Deus, o resultado da minha oferta ou acção será sempre um milagre a acontecer.
A fé no Senhor como nossa força e nosso alento nos conduza a não temer a nossa oferta, o dado por amor será retribuído com amor.

 
Ilustração:
“A Multiplicação dos pães e dos peixes”, de Ambrosius Francken, Museu de Belas Artes de Antuérpia.

domingo, 19 de julho de 2015

Homilia do XVI Domingo do Tempo Comum

No domingo passado o Evangelho apresentava-nos Jesus a enviar os discípulos em missão dois a dois. Hoje apresenta-nos o seu regresso, cheios de alegria e com o sentimento de missão cumprida, se assim o podemos dizer.
É face a esta realidade da missão cumprida que Jesus convida os discípulos a passar a um lugar isolado e a descansar, pois o vai e vem das multidões não lhes dava oportunidade para esse descanso merecido.
Para muitos dos membros das nossas comunidades e meios urbanos este é também o tempo merecido de descanso, o tempo das férias, em que podemos mudar de ritmo, mudar de lugar, fazer uma experiência de vida diferente da habitual. É um direito conquistado pelos trabalhadores.
Contudo, e antes de ser um direito que normalizámos juridicamente, o descanso é um dever, é uma obrigação inerente à nossa própria condição humana, pois necessitamos dele para viver, para nos encontrarmos nas devidas condições físicas, psicológicas e até espirituais para realizar a missão que o Senhor nos confiou.
Neste sentido, o convite de Jesus ao descanso dos apóstolos é para nós um desafio na concretização deste descanso, pois frequentemente preenchemos de tal modo o nosso tempo de férias que acabamos por não descansar nada. Quantas vezes não terminámos já as nossas férias assumindo que necessitávamos de umas férias para recuperar das férias?
E ao falar de descanso, deste dever, não podemos esquecer que o domingo é por excelência o tempo do descanso, um dia que o Senhor confiou à humanidade para que se possa retemperar nas suas forças, encontrar-se consigo própria e com o seu Criador. E aqui volta-se a colocar a questão da forma como aproveitamos o tempo de descanso. Semanalmente é-nos oferecida essa possibilidade, e como é que nós a aproveitamos?
O descanso semanal do domingo, ou das férias anuais, vivido cuidadamente revela o respeito pelo próprio corpo, pela própria condição humana, o sentido do equilibro entre o corpo e alma, o necessário equilíbrio entre o fazer e o ser.
O descanso possibilita-nos o encontro connosco e com os outros e de um modo muito particular com o Outro que é Deus, se assumimos que este tempo de descanso que são as férias ou o domingo têm também essa função, também nos possibilitam esse encontro de uma forma mais próxima.
E é este encontro tripartido, vivido no descanso, que nos permite perceber no regresso ao ritmo do quotidiano que há irmãos nossos, homens e mulheres, que vão à nossa frente, que se antecipam à nossa caminhada e missão, tal como aconteceu com a multidão que precedeu Jesus e os discípulos no lugar onde procuravam refugiar-se e descansar.
É uma multidão sedenta, que anda em busca de uma resposta, de uma palavra ou uma luz, é uma multidão que tantas vezes, e tal como Jesus assume, anda como ovelhas sem pastor, desorientada, sem esperança ou qualquer sentimento de confiança numa mudança para melhor.
E face a ela não podemos deixar de nos compadecer, não podemos deixar de partilhar a sua situação, pois tal como nos recordava São Paulo na carta aos Efésios, estamos todos reunidos num só corpo, estamos ligados em Cristo aos que estão mais perto e àqueles que estão mais longe, somos em conjunto um homem novo.
O descanso vivido à luz do projecto de Deus, como um tempo de enriquecimento, de fortalecimento, pois Deus cumula de bens aqueles que ama até durante o sono, torna-nos assim mais aptos para estar no meio do mundo e dos irmãos, para sermos verdadeiramente construtores do Reino de Deus.
Desta forma, e conscientes que a vida no seu ritmo diário é um constante combate, procuremos pois aproveitar o tempo de descanso que o Senhor nos oferece não só para restabelecer as nossas forças físicas, mas também para retemperar as nossas forças espirituais, para recuperar o brilho natural da nossa condição de filhos de Deus, de membros vivos do corpo ressuscitado de Cristo.

 
Ilustração:
"Jesus Cristo e os Discípulos”, desenho e aguarela de Rembrandt.

domingo, 12 de julho de 2015

Homilia do XV Domingo do Tempo Comum

As leituras que escutámos colocam diante de nós uma realidade que algumas vezes, para não dizer bastantes vezes, nos custa a aceitar, a comprometermo-nos com ela. Somos eleitos de Deus, somos uma opção do seu amor, e nesse amor somos enviados ao mundo e aos outros para partilhar esta eleição e construir o Reino querido por Deus.
A leitura do livro do Profeta Amós é neste sentido muito clara, uma vez que nos apresenta um homem que era guardador de gado, cultivador de sicómoros, e que sem qualquer iniciativa da sua parte, sem qualquer pretensão pessoal, é enviado por Deus ao santuário de Betel.
Amós sai da comodidade da sua vida, poderíamos dizer da sua zona de conforto e segurança, para se dirigir a um local e a outros que não reconhecem nele qualquer autoridade, nenhuma credencial para a missão que pretende realizar. E Amós vai, sem qualquer pretensão de crítica pessoal da instituição a que se dirige, mas porque Deus o enviou, porque o Senhor lhe confiou esta missão.
Neste sentido, e face à consciência que temos que também cada um de nós é enviado por Jesus Cristo, Amós é para nós um modelo e um testemunho da forma como nos devemos situar na nossa missão e face à crítica e à rejeição que podemos sofrer no exercício dessa mesma missão. Não estamos para criticar ninguém, para julgar ninguém, estamos porque fomos enviados.
E se na nossa missão se encontra a necessidade de chamar a atenção para alguma realidade que não está bem, que provoca o mal, ou gera a injustiça e o sofrimento, tal necessidade deriva da consciência de que chamados por Deus somos enviados do amor e para o amor. Tal como nos recordava São Paulo na Carta aos Efésios fomos escolhidos antes da criação do mundo para sermos santos e irrepreensíveis em caridade.
A caridade é assim o princípio e o fim da nossa missão, porque somos escolhidos e enviados pelo amor para conjuntamente vivermos no amor e dessa foram sermos santos e irrepreensíveis diante de Deus.
A história da Igreja e a nossa história pessoal mostra-nos no entanto que muitas vezes fugimos e falhámos nesta missão que nos foi confiada, que muitas vezes, mais que pelo amor, nos deixámos conduzir pelas nossas paixões e interesses, pelas nossas próprias apreciações e valorizações. Centrámos a missão em nós esquecendo-nos que nos foi confiada.
Conhecedor profundo do coração do homem, Jesus sabia que esta tentação pairaria sempre sobre a cabeça dos seus discípulos e a missão que lhes confiava, e por essa razão quando os envia, como escutámos no Evangelho de São Marcos, os envia dois a dois e lhes recomenda que não levem nada para o caminho.
Ainda que seja uma exigência legal da Lei de Moisés para o reconhecimento do testemunho de alguém, o envio dos discípulos dois a dois por parte de Jesus evidencia essa dimensão comunitária e externa a cada um daqueles que é enviado. A missão e a mensagem não é propriedade pessoal, mas é um tesouro que lhes é confiado para ser partilhado com outros.
As outras exigências do envio, como não levar dinheiro, nem pão, nem alforge, nem duas túnicas, prendem-se com a liberdade necessária para a credibilidade da mensagem e da missão. Uma vez mais se nos coloca como evidente, que a mensagem não pode ficar sequestrada, retida, não é uma matéria negociável.
Contudo, não podemos esquecer que esta pobreza e liberdade nos remetem para a caridade, para o amor, para a confiança na acção de Deus na própria missão que nos foi confiada. Partindo da pobreza das nossas limitações e fragilidades Deus confia-nos o seu amor para que o levemos aos outros sem qualquer apropriação, partilhando e participando do projecto da herança comum constituída em Jesus Cristo.
As leituras deste domingo recordam-nos assim que a missão a que somos chamados e a graça que lhe é inerente são uma opção e uma escolha de Deus, as quais devemos acolher com amor e confiança para sermos verdadeiramente um hino de louvor à sua glória.

 
Ilustração:
“Jesus envia os Apóstolos”, iluminura do Evangeliário Siysky, Biblioteca da Academia das Ciências Russia

domingo, 28 de junho de 2015

Homilia do XIII Domingo do Tempo Comum

A leitura que escutámos do Livro da Sabedoria dizia-nos que não foi Deus quem fez a morte e nem se alegra com a perdição dos vivos.
O Evangelho de São Marcos que escutámos vem ao encontro desta grande afirmação do Livro da Sabedoria, e mostra-nos como os gestos de Jesus, as suas atitudes, são a mais profunda confirmação desta verdade divina. Deus não se satisfaz com a morte nem com a desgraça da obra da sua criação.
A cura da mulher que sofria de um fluxo e a reanimação da filha de Jairo mostra-nos esta atitude compassiva e misericordiosa de Deus, atitude de que a entrega da vida de Jesus é o testemunho mais eloquente e incontestável.
Estes dois milagres, que nos revelam esta não satisfação de Deus com o mal, revelam-nos também uma outra realidade, realidade esta que está já na nossa mão, sob o nosso controlo e vontade, e que é a atitude de fé, de busca da misericórdia de Deus.
Neste sentido é bom que olhemos a figura de Jairo, esse chefe da sinagoga e portanto com poder e projecção social, que não se intimida com o que os outros podem pensar, com a sua posição social e religiosa, mas muito pelo contrário, se humilha e dispõe a perder tudo para que Jesus socorra a sua filha que está doente.
Diz-nos o Evangelho que este homem, conhecido e reconhecido de todos, se foi prostrar aos pés de Jesus. Sem qualquer medo, ou respeito humano, Jairo vai ao encontro daquele que pode salvar a sua filha, manifesta diante de todos a sua fé em Jesus, ainda que seja uma fé incipiente, condicionada pela necessidade física de uma cura.
Jairo apresenta-se-nos assim como um desafio à nossa fé, ao nosso testemunho diante dos homens da fé que temos em Jesus Cristo. Face a Jairo não podemos deixar de pensar nem de assumir os nossos silêncios diante da questão de Deus, da pessoa de Jesus Cristo. Quantas vezes não nos silenciámos para não nos incomodarmos, para não perdermos um amigo, ou até para não ser um pouco mais exigentes com a nossa fidelidade de vida cristã?
Mas Jairo não representa apenas um desafio de fé face aos outros, ele representa igualmente um desafio de fé face a Deus, pois após aquela exposição tão perigosa diante de todos não obtém nenhuma resposta clara de Jesus, nem uma palavra mínima de compreensão ou resposta. E ainda que o texto evangélico nos diga que Jesus foi com ele, nada neste momento nos diz que a resposta ao seu pedido estava em vias de se concretizar.
Jairo desafia-nos assim na confiança face ao silêncio de Deus. Ainda que Deus não responda ao nosso pedido, às nossas orações tantas vezes angustiadas, ele não deixa de estar presente, não deixa de se colocar ao nosso lado, de ir connosco até onde se encontre a verdadeira resposta às nossas necessidades. Muitas vezes a resposta que esperamos de Deus face aos nossos pedidos não é a resposta que mais nos convém, que verdadeiramente nos faz estar em sintonia com Deus, que nos transforma como aconteceu com a mulher que sofria de um fluxo de sangue e interrompe a caminhada de Jesus para a casa de Jairo.
Esta mulher encontra-se nos antípodas de Jairo relativamente à abordagem de Jesus, pois vem em segredo, às escondidas pelo meio da multidão, sem coragem de se expor, sem coragem sequer para fazer um pedido. Apenas a confiança a move, a fé face ao que ouviu contar de Jesus.
E é nesta circunstância quase anedótica, o que teriam pensado os discípulos quando Jesus lhes pergunta quem o tocou no meio daquela multidão eufórica, que o milagre acontece, que há uma força que sai de Jesus e cura a mulher.  
Esta mulher envergonhada, que não se expõe diante de todos, manifesta contudo uma fé muito mais fundada e verdadeira que Jairo, uma fé que vai para além do toque. Esta mulher vê em Jesus mais que um curandeiro, e por isso a sua confiança num simples toque, apenas nas suas vestes.
Podemos assumir que esta mulher manifesta uma fé no mistério da encarnação, que vem ao encontro do Filho de Deus que assumiu as vestes da humanidade, que se esconde sob os véus da carne humana, mas não deixa de ser o Filho de Deus nem a fonte da vida. E por isso a sua transformação e a sua cura por um simples toque nas vestes de Jesus.
Estamos assim diante de duas figuras que abordam Jesus de forma distinta mas que nos revelam conjuntamente que não podemos esperar uma resposta de Jesus, uma acção divina, um milagre, se não formos iluminados e conduzidos pelo mistério da encarnação, pela fé de que o Filho de Deus se fez pobre para nos enriquecer com a sua pobreza, como nos recordava São Paulo na Carta aos Coríntios.
Peçamos pois ao Senhor a graça de o procurarmos e nos dirigirmos a Ele sempre com os olhos postos no seu mistério, confiantes da sua generosidade, Ele que fez a experiência da nossa condição humana e a elevou à dignidade divina.

 
Ilustração:
“A virtude da Fé”, de George Henry Harlow, Indianapolis Museum of Art.

domingo, 21 de junho de 2015

Homilia do XII Domingo do Tempo Comum

Passemos à outra margem é a ordem que Jesus dá aos seus discípulos no Evangelho que acabámos de escutar. Ordem que vemos repetida em muitas outras situações, umas vezes aplicada aos discípulos, outras vezes aplicada a si próprio.
É preciso ir a outras aldeias, vamo-nos daqui, passemos à outra margem, são expressões de uma realidade que não podemos deixar de ter presente em Jesus; ele está em movimento, em constante movimento, assumindo que não há uma zona de conforto ou segurança, que o conforto e a segurança estão no próprio movimento.
Parar, deixar-se ficar no mesmo sítio, instalar-se, é excluir-se do grande movimento, da grande acção de Deus na história pessoal e da humanidade, é excluir-se de um processo em realização do qual somos apenas parte e não o todo, do qual somos participantes com a nossa disponibilidade e acolhimento.
Assim, somos convidados a largar as amarras, a sair da nossa zona de conforto e segurança, a partir para a outra margem, ou como nos diz o Papa Francisco, a ir ao encontro das periferias, que podem, muito bem, estar em nós próprios.
A outra margem do lago, de que falava o Evangelho de São Marcos, é a região dos pagãos, a margem da Decápole onde Jesus se vai encontrar com um conjunto de homens e mulheres que, ainda que estranhos à sua tradição religiosa, vão ser capazes de o identificar como Filho de Deus.
Na margem de cá as multidões são um conforto, uma satisfação pessoal, mas são igualmente uma tentação ao enclausuramento na tradição, nos esquemas patriarcais estabelecidos, na continuidade de uma situação que não tinha mais como aguentar-se uma vez que inviabilizava o projecto fundamental de Deus.
A passagem à outra margem envolve inevitavelmente um risco, implica a passagem da tormenta, tal como experimentaram os discípulos. A passagem à outra margem implica muito frequentemente a questão que os mesmos discípulos colocaram a Jesus: “não te importas que pereçamos?”
É o silêncio de Deus, esse distanciamento que tantas vezes nos parece que acontece, como se Deus se tivesse desinteressado da sua obra. E contudo, ele está ali, permanece em silêncio, presente, porque foi por sua ordem que passámos à outra margem. E a sua promessa é que permanecerá connosco até ao fim dos tempos.
Jesus dorme profundamente na barca dos discípulos, cansado certamente das solicitações daquela multidão inumerável, dos passos dados por aquelas terras nas quais as gentes não o procuravam senão por causa do pão e dos milagres que realizava.
Jesus dorme profundamente na nossa barca, e certamente também cansado, porque tal como aquela gente não lhe damos descanso, não o procuramos pela verdadeira razão, pela luz e vida que ele é para a nossa vida, mas porque queremos que nos satisfaça mais um pedido ou mais uma necessidade.
Aparentemente alheado da nossa situação, adormecido profundamente, não deseja nada mais que o reconheçamos como Senhor, como aquele que tem poder para acalmar os ventos e os mares furiosos, as forças do mal que tentam impedir-nos de avançar, de nos encontrarmos com a sua verdade nas margens da nossa vida.
E contudo, a sua situação na barca, o seu sono, é a razão da mais profunda confiança e perseverança na luta face aos ventos e ao mar revoltosos. Aquele Jesus que um dia disse aos seus discípulos que o Filho do homem não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça, descansa agora na barca sobre a almofada da fé, sobre a almofada da nossa confiança da sua presença salvadora.
Assim, nas mais diversas situações de tormenta em que nos possamos encontrar, nessa passagem à outra margem onde nos podemos encontrar verdadeiramente com o Filho de Deus, somos convidados por Jesus a manter firme a fé, a confiar que no seu silêncio se manifesta a sua presença, que ele não abandona nem pode deixar perecer nenhum daqueles que o Pai lhe confiou.
No meio das ondas mais alterosas e dos ventos mais fortes não deixemos nunca de dizer: “Senhor eu creio que estás aqui! Aumenta a minha fé!”

 
Ilustração:
“Jesus na tempestade do Mar da Galileia”, de Rembrandt.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Um caminhar mais além

 
O cristianismo não é a religião da nostalgia, mas a fé viva da esperança, um caminhar mais além das queridas recordações do passado, do lamento do tempo passado, da nostalgia das coisas que não voltam.
Gianfranco Ravasi
Ilustração: Rosas amarelas do jardim da casa dos meus pais.