sábado, 9 de julho de 2011

Licença e Censuras da Ordem à publicação do livro “Arte da Perfeição Cristã”

A publicação de um livro religioso no século XVIII acarretava as devidas licenças por parte do Santo Oficio, do Paço Real e do Bispo diocesano ou legitimo Prelado Superior. Apresentamos a licença que foi emitida por parte do Prior Provincial da Ordem dos Pregadores para a impressão do livro "Arte da Perfeição Cristã" de frei José da Câmara e as censuras que a fundamentaram e aprovavam.

Censura do M.R.P. Fr. José da Purificação, Mestre na Sagrada Teologia, Académico da Academia Real da História Portuguesa, Ex-Definidor de Capítulo Geral da Ordem dos Pregadores, e Regente que foi dos Estudos do Convento de São Domingos de Lisboa.
M.R.P. Provincial
Manda-me Vossa Paternidade Muito Reverenda que lendo eu o livrinho das Meditações do Santíssimo Rosário, que o Padre Frei José da Câmara deseja por meio da estampa imprimir nos corações, mais que nos bronzes, o informe com o meu parecer. E considerando eu, que o Santíssimo Rosário é o património da nossa Sagrada Religião, como ainda entre os estranhos o reconhece o Doutíssimo Navarro, seu devotíssimo: Rosarium est patrimonium Ordinis Dominicani; e que Nosso Pai São Domingos nos o deixou por herança, não só para lhe colhermos os seus frutos, como temos colhido abundantíssimos de virtudes, de letras, e de honras; mas também para os comunicarmos, e repartirmos pelos Fiéis Católicos: como também vendo eu o Rosal do Santíssimo Rosário, que plantou Nosso Pai São Domingos, tão multiplicado no mundo, que todo ele está cheio de Rosários, como já há tempo bem advertiu o Sapientíssimo João Labbé: Dominicus Rosas inseruit, et Rosariis Orbem implevit; digo com a devida obediência ao preceito de Vossa Paternidade Muito Reverenda que não obstante o terem saído à luz, e actualmente estarem a sair tantos livrinhos de Meditações do Rosário, bem pode sair à luz este livrinho; para que multiplicado na estampa, como se multiplicam Rosários nas Oficinas, fique cheio o mundo deles, e de outros livrinhos, como hoje está cheio de Rosários. Este é o meu parecer: Vossa Paternidade Muito Reverenda mandará o que for servido. São Domingos de Lisboa aos 3 de Outubro de 1738.
Frei José da Purificação.

Censura do M.R.P. Fr. Crispim de Oliveira, Mestre na Sagrada Teologia, Qualificador do Santo Oficio, Pregador da Capela Real do Sereníssimo Senhor Infante D. Francisco, Examinador Sinodal do Arcebispado de Lisboa Oriental, e Prior que foi do Convento de São Domingos de Évora.
M.R.P.M. Provincial
Por ordem de Vossa Paternidade Muito Reverenda vi o livrinho, que o Padre frei José da Câmara quer dar ao prelo, intitulado Arte da Perfeição Cristã, e certamente devo louvar o grande acerto do seu espírito; porque sendo muitas as artes, com que o demónio nos vence, e com que muitos homens se perdem; bem é haverem também muitas, com que o demónio se vença, e com que os homens se salvem: para estes dois fins não há melhores armas, nem caminho tão seguro, como tudo o que aqui se escreve nesta Arte, ou neste livrinho. As armas lá foram forjadas no fogo daquele grande amor, que Maria Santíssima tem aos homens; e umas tais armas, como estas, que inimigos pode haver a quem não vençam? O caminho, também Maria Santíssima o ensinou ao nosso grande Patriarca São Domingos, quando o constituiu venturoso Apostolo do seu Santíssimo Rosário; e caminho ensinado por uma tal Senhora, a quem não há-de meter na Bem-Aventurança? Bastava conter-se neste pequeno livrinho aquele grande brasão, com que a Mãe de Deus quis autorizar a sempre venturosa Família Dominicana, para ser merecedor de uma, e muitas estampas. Isto é o que me parece. Vossa Paternidade Muito Reverenda fará o que for servido. São Domingos de Lisboa, em 14 de Outubro de 1738.
Frei Crispim de Oliveira.

Frei José de França, Mestre em a Sagrada Teologia, Deputado do Santo Oficio, Prior Provincial da Ordem dos Pregadores nestes Reinos de Portugal, &c. Em virtude das presentes, e autoridade de nosso oficio, damos licença ao Padre frei José da Câmara, para dar à estampa um livrinho de Meditações dos Mistérios do Santíssimo Rosário com as suas Indulgências, por nos constar pela aprovação dos Padres Mestres, que o reviram, que será de muita utilidade aos que o lerem. Dada neste Convento de Santa Cruz de Viana, aos 30 de Outubro de 1738.
Frei José de França, Prior Provincial.
Reg. a fol.17.
Frei Simão de Távora, Presentado, Secretário, e Companheiro.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Meditação da Perda e Encontro de Jesus no Templo no livro “Arte da Perfeição Cristã”

Terminamos os Mistérios Gozosos do Rosário do livro “Arte da Perfeição Cristã”, com a meditação da Perda e Encontro de Jesus no Templo de Jerusalém, composta por frei José da Câmara.

“Meditação
Considera, alma minha, a pontualidade da Virgem Santíssima em ir celebrar a solenidade da Páscoa com seu Esposo São José, e com o Menino Jesus, e por esta ocasião o perdeu a Senhora no Templo, sem culpa sua, e sendo seu querido Filho a sua alma, a sua vida, e toda a sua consolação, como ficaria o coração desta Senhora quando se achou sem seu Filho? Lembravam-lhe os cruéis e poderosos tiranos, que tantas diligências tinham feito buscando-o para lhe tirar a vida desde que nasceu; e com o receio de que estes o tivessem achado, tais foram os seus temores, horrores, e amarguras por espaço de três dias, que com seu Esposo o andou buscando, que o não acabar às mãos da dor, foi porque milagrosamente lhe conservou a vida o mesmo Menino Deus. Oh alma minha: quantas vezes terás perdido a Deus, estando fora da sua Graça? E que dor te causou esta perda? Comias, e dormias com todo o sossego! Considera bem a tua loucura! Ainda hoje não sabes se estás fora da sua Graça, e assim descansas? Maria Santíssima estando tanto na sua graça, só porque de vista o perdeu, foi tão grande a sua mágoa e tão excessivo o desvelo de o buscar; e há-de ser possível, que tu, alma minha, tão pouco cuides em buscar a graça de Deus, que não sabes se a perdeste? Ora busca ao teu Deus com o maior desvelo, procura-o com um vivo pesar de o teres ofendido, que só assim o hás-de achar no mesmo instante, em que o buscares.
No Templo achou Maria Santíssima a seu Filho no meio dos Doutores, ouvindo o que diziam, e respondendo ao que lhe perguntavam. Ouvia com paciência, e respondia com discrição; por isso se admiravam todos das suas perguntas, e das suas respostas. Para estar com os homens deixou o Menino Deus a sua Santíssima Mãe! Oh como extremosamente os ama! Mas oh como os homens correspondem mal a este amor! O Menino Deus perdido por não deixar os homens, e os homens perdidos por deixarem a Deus! Não é justo, nem razão, alma minha, que assim seja; não deixes ao teu Deus, nem por quanto há no mundo.
Pondera que alegria seria a da Santíssima Virgem quando no Templo descobriu aquele Tesouro riquíssimo, aquela preciosa Pérola, e aquela soberana Jóia de infinito valor! Quem poderá explicar o prazer que recebeu quando viu aquela desejada Luz, que era a luz dos seus olhos? Nestes ficaram as lágrimas, mas mudou-se a causa delas, porque d’antes nasciam de dor e sentimento; agora nascem de uma consolação Celestial, de uma alegria suma, e de um alívio soberano.
Pede à Virgem Santíssima te alcance de seu Filho graça, para que nunca percas a sua amizade: mas se a desgraça for tanta, que assim suceda, que com uma verdadeira contrição o busques, e com ela logo o aches.”

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Meditação do Mistério da Apresentação por frei José da Câmara

No seguimento dos Mistérios Gozosos meditados por frei José da Câmara no seu livro “Arte da Perfeição Cristã” apresentamos hoje a meditação sobre o Mistério da Apresentação de Jesus no Templo e a Purificação de Nossa Senhora.

“Meditação
Considera, alma minha, aquela suma obediência, e profunda humildade de Maria Santíssima, que sendo Virgem Imaculada, ficando muito mais pura ao conceber, no parto, e depois do parto sempre Virgem, quis ir ao Templo a purificar-se, sendo mais pura que o sol, para cumprir com o que determinava a Lei às outras mães; obrando assim para nos dar exemplo, e ensinar o como devemos cumprir com as Leis Divinas. Oh como imitas pouco, alma minha, esta obediência da Virgem Santíssima, pois tão pouco cuidas em cumprir com aquilo que Deus te manda! Passa pela memória os preceitos Divinos, e pondera o pouco que os tens cumprido, quando a Mãe de Deus assim os observava, que até os, a que não está obrigada, executava. Tempo é já de te aproveitares do exemplo, que Maria Santíssima te oferece, cuidando em cumprir com a Lei de Deus, e tendo um vivo pesar de ter faltado à observância desta Lei.
Ofereceu Maria Santíssima seu bento Filho ao Eterno Pai com um par de Rolas, que era a oferta dos pobres. Oh como Deus Menino ama a pobreza, que como pobre quer ser tratado! Sempre, que desprezas os pobres, alma minha, desprezas uma Imagem de Cristo; e se te prezas de ser alma Cristã, não o mostras nestas obras! Que mais havia de fazer um Gentio, que desprezar a Imagem do verdadeiro Deus? Mas o Gentio despreza-a, porque lhe falta o lume da Fé; e tu tendo esta virtude, obras como se a não tiveras! Também não corresponde bem à pobreza de Deus Menino o amor, que tens aos bens da terra: cuida só nos bens da Glória, que estes te adquiriu o Menino Deus. Se ao Eterno Pai ofereceu Maria Santíssima seu bento Filho pelos homens, também por ti o ofereceu; e fiado nessa oferta, com grande confiança pede perdão a Deus das tuas culpas, que pelos merecimentos de Deus Menino, e de sua Mãe Santíssima to oferece o Eterno Pai, se muito de veras lho suplicares.
Considera, como querendo a Virgem Senhora nossa neste Mistério ocultar a quase infinita dignidade de Mãe de Deus, a não pode esconder ao Santo velho Simeão, que adorando por verdadeiro Deus aquele Menino, lhe começou a dizer louvores, e a sua Mãe Santíssima, exclamando com grande veneração e alegria: Agora, Senhor, morrerei em paz, pois meus olhos viram a Saúde e Salvação de Israel. Com que ternuras, e afectos diria aquele Santo Velho estas palavras, considerando que tinha ao mesmo Deus em seus braços? Nestes louvores acompanhava ao justo Simeão a Santa viúva Ana, que assistia no Templo, e tinha sido a Mestra da Maria, Senhora nossa. Oh como faria suave consonância no Céu o eco desta harmonia!
Pede à Virgem Santíssima te alcance a graça para louvares o Filho, e a Mãe, como deves, que assim viverás alegre nesta vida, e o possuirás na eterna.”

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Meditação do Nascimento de Jesus por frei José da Câmara

Continuamos a apresentação das meditações do pequeno livro “Arte da Perfeição Cristã”, do dominicano frei José da Câmara. Desta feita encontramo-nos com a meditação sobre o nascimento de Jesus em Belém, terceiro Mistério Gozoso do Rosário.

“Meditação
Considera, alma minha, aquela inefável alegria e inexplicável complacência que a Virgem Santíssima teria, vendo o Divino Verbo feito homem, de quem era Mãe, ficando Virgem! Oh com que humildade profunda, e com que devoção afectuosa o adoraria? Pondera as muitas lágrimas de alegria, amor, e ternura, em que romperia o coração desta Senhora, vendo ao Divino Verbo feito Menino para remir, e resgatar o Mundo da escravidão do pecado, vendo ao Senhor do Universo tão pobre, que nascia num Presépio por não achar outro lugar! Oh que confusão, alma minha, para aquele insaciável apetite que tens de adquirir riquezas, Palácios, Alfaias, e tudo o mais de que usa a vaidade do Mundo! Conformam-se estes desejos com não ter o Menino Deus naquele presépio outro berço mais que um pouco de feno? Que dizem as riquezas, que desejas, com tanta pobreza, como a que estás observando neste Supremo Rei da glória? Os Palácios com um presépio, que lhe serve de morada? As alfaias supérfluas com uns pobres panos, em que sua Mãe Santíssima o envolveu?
Sendo Senhor do Mundo todo, não houve quem lhe oferecesse uma casa, em que nascer! Oferece-lhe o teu coração, alma minha. Porém se esse coração está ocupado com afectos mundanos, é certo que aquele Deus menino te não há-de aceitar essa oferta; nem tu te atreverás a oferecer-lhe para morada o teu coração ocupado de semelhantes afectos. Mas considera bem, que o Menino Deus está chorando, sendo o motivo das suas lágrimas o ver, que para o teu coração o não convidas! Lança fora de teu coração todos os afectos terrenos, e oferece-o ao Menino Deus para aposento.
Ainda que o vês dos homens tão desconhecido naquele presépio, em que está reclinado, nele Maria Santíssima, e seu Esposo o adoram, os Anjos como a seu Deus o veneram, os Pastores o reverenciam, o Céu, a terra, e todas as mais criaturas insensíveis, no modo que lhes é possível, como a seu criador lhe tributam obséquios, porque todas as criaturas se derretem em doçuras à vista de tal prodígio. E há-de ser possível, alma minha, que não vás render adorações ao teu Deus, que por amor de ti se fez menino, padecendo frios e experimentando pobrezas? Ora seja este o mais eficaz motivo para de hoje em diante sobre todas as coisas o amares.
Pede ao Menino Deus por intercessão da Virgem Santíssima, sua Mãe, queira com o seu frio abrasar teu coração, com o seu desamparo amparar-te, e com a sua pobreza enriquecer-te do seu soberano amor e da sua Divina graça.”

terça-feira, 5 de julho de 2011

Meditação de frei José da Câmara sobre o Mistério da Visitação

Continuamos a publicação das meditações compostas por frei José da Câmara para o seu livrinho “Arte da Perfeição Cristã”. Desta feita a meditação tem por tema a visita de Nossa Senhora a sua prima Isabel.

"Meditação
Considera, alma minha, a grande Caridade, diligência e pressa, com que a Virgem Santíssima, sendo Mãe de Deus, menina de quinze anos, a mais delicada e perfeita de todas as mulheres, costumada ao retiro e recolhimento, por moção do Espírito Santo não recusou pôr-se a caminho na companhia de seu Esposo, andando dezanove léguas a pé pelas ásperas montanhas da Judeia, para ir dar os parabéns a sua Prima Santa Isabel de haver concebido o Sagrada Baptista. A toda a pressa caminha, porque lhe serve de guia o Amor Divino. Não é o Amor Divino vagaroso, nem sabe ir passo a passo; por isso pelas montanhas da Judeia não só caminhava, mas corria aquela delicada Donzela sem que lhe servissem de embaraço as asperezas dos montes, ou o dilatado da jornada. Para quem se abrasa no amor de Deus, tudo é suave, nada é penoso. Se sentes, alma minha, os trabalhos desta vida, é porque anda engolfada nestas caducas temporalidades: se só cuidasses em amar a Deus, nada te havia de penalizar, porque os maiores trabalhos te haviam de ser suaves, padecidos por seu amor; assim, como à Virgem Santíssima pareceu suave esta jornada tão dilatada, em que a guiava o Divino Amor.
Acompanha, alma minha, na sua jornada a esta Soberana Senhora, observa-lhe as acções, sem te escaparem até os seus pensamentos. Como iria entretida em colóquios Divinos com o Filho, que levava em seu puríssimo ventre! Quem soubera meditar os actos fervorosos de amor de Deus, em que se iria exercitando! As graças, que a Deus daria por tão supremo benefício, como o de se ver exaltada à dignidade de Mãe de Jesus! Como caminharia nesta contemplação elevada, admirando-se seu Esposo do silêncio que na Virgem observava, reverenciando a sua rara Santidade e prodigiosas virtudes? Oh que pouco imitas esta Caridade, que a Rainha dos Anjos te ensinou para acudires ao teu próximo! Sabes qual foi o fim desta jornada tão custosa? Foi para o Divino Verbo, no puríssimo ventre de Maria recluso, santificar o Baptista, livrando-o da culpa original, e para que Santa Isabel se enchesse da graça do Espírito Santo. Logo que foi concebido o Menino Deus, obrou tais finezas pelos homens: e tu nem por teu Deus obras finezas!
Considera como a Senhora entrando em casa de Zacarias foi a primeira, que saudou a sua Prima. Pondera a humildade, com que esta recebe a tão grande Senhora, confessando-se indigna de mercê tão soberana. Quantas vezes tem entrado o mesmo Deus humanado em teu peito na Mesa da Comunhão? Com que humildade o recebestes em tua morada, sendo ele o Rei da Glória e tu uma vil criatura? Ora aprende de Santa Isabel humildade para com a mais profunda receberes ao teu Deus quando na soberana Mesa o comungares. Considera, como entrando a Rainha dos Anjos em casa de Zacarias, tudo nesta casa foi harmonia e música suave de louvores; Santa Isabel louva a Senhora dizendo: Sois bendita entre as mulheres, bento é o fruto do vosso ventre: com muito afecto deves dizer à Rainha dos Anjos estes louvores, quando rezares a Ave-Maria.
Pede à Virgem Santíssima alcance de seu bento Filho te visite, para que sempre a ele, e a ela louves, e te faças digna de alcançar a sua Divina graça."

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Meditação do livro "Arte da Perfeição Cristã" de frei José da Câmara

Deixamos hoje uma meditação que frei José da Câmara, religioso da Ordem dos Pregadores, compôs para o seu livro “Arte da Perfeição Cristã”, livro dedicado ao Sereníssimo Senhor D. António, Infante de Portugal, e publicado em Lisboa, na Oficina Silviana da Academia Real, em 1739.

"Meditação
Considera alma minha o infinito amor de Deus que o moveu a obrar por ti tantas finezas, vindo ao Mundo em pessoa para te remir e resgatar. Não obrou estas finezas pelos Anjos, e só as obrou por ti, que nada lhe merecias e tão mal lhe havias de corresponder! Com que tens gratificado estas finezas? Com que tens correspondido a este amor? Pondera devagar o que tens obrado na tua vida, e acharás que tudo tem sido em ti ingratidões? Cuida em seres agradecida a quem por teu amor tanto obrou. Veio Deus do Céu à terra a buscar-te e tu ainda lhe queres fugir? O que pretende de ti é que o ames; e sendo ele tão digno de ser amado, hás-de deixar de o amar? Obrando por ti tantas finezas, hás-de faltar ao seu amor?
Considera aquela humildade suma de Maria, Senhora Nossa, pois anunciando-lhe o Anjo estar para Mãe de Deus escolhida, respondeu: Aqui está a escrava do Senhor, cumpra-se em mim a sua vontade. Oh humildade a mais profunda! A soberba de Eva foi a origem do nosso mal, e a humildade de Maria foi o princípio de todo o nosso bem; pois com tão humilde resposta, do Sangue puríssimo do Coração da Senhora formou o Espírito Santo um corpo, e criando uma alma, naquele Corpo inefável a infundiu, o qual unido à pessoa do Divino Verbo, resultou em um instante um Menino Deus encerrado no puríssimo ventre de Maria Santíssima. Deus feito homem com corpo passível! Oh amor imenso! A natureza humana unida tanto a Deus? Oh amor infinito! De Deus à natureza humana vai uma infinita distância, e tudo isto se venceu! Mas tudo vence um amor Divino!
Pede, alma minha, ao Espírito Santo, que te assista, para poderes meditar tão inefáveis excelências, como as que se encerram neste soberano Mistério. Considera as graças, que aquele Deus Menino, já com perfeitíssimo uso de razão, renderia ao Eterno Pai no mesmo instante da sua Conceição, por lhe dar Corpo passível para padecer pelos homens, oferecendo-se desde logo a padecer e morrer. Quis estar por nove meses recluso no ventre de sua Santíssima Mãe, começando desde logo com esta reclusão a obrar finezas pelos homens. Que fosse possível que a Sabedoria de Deus estivesse dissimulada e calada por tanto tempo! Oh Divino amor! E há-de ser possível, que considerando eu toas estas finezas, não me assombre? Não me eleve ao mais alto de tanto amor? Neste amor me abraso já; só a vós, meu Deus, quero amar, e só o que for vossa vontade quero cumprir, para assim de alguma sorte corresponder ao infinito do vosso amor.
Pede, alma minha, à Virgem Santíssima te queira fazer participante da sua viva fé, da sua pronta obediência, e da sua profunda humildade."

domingo, 3 de julho de 2011

Homilia do XIV Domingo do tempo Comum

No trecho do Evangelho de São Mateus que escutamos neste domingo, Jesus convida-nos de uma forma muito clara a tomar sobre nós o seu jugo, que segundo as suas mesmas palavras é suave e nos dará descanso e alívio.
Na nossa liberdade e desejo de auto-suficiência este convite a tomar o jugo aparece-nos como uma capitulação, uma subjugação a um poder estranho e superior que parece querer escravizar-nos. O jugo de que fala Jesus aparece-nos mais como estratégia, como mecanismo de subjugação do império romano relativamente aos povos conquistados, que como instrumento ou objecto de madeira destinado à unificação de animais de carga e trabalho.
E não podemos deixar de ter presente que as palavras de Jesus, e a própria redacção dos Evangelhos, se inserem numa cultural rural, agrícola, e que muitas das imagens e das referências têm por fundo essa mesma cultura e o seu contexto natural. Desta forma, quando Jesus fala do jugo, fala dessa trave de madeira que se coloca sobre o cachaço dos animais para lhes facilitar o exercício da força no transporte da carga ou no lavrar da terra.
Há assim no convite de Jesus uma dimensão de partilha e de suavidade, de misericórdia para connosco e os nossos esforços, que não podemos esquecer nem deixar de ter presente no nosso horizonte e compromisso de assumir o jugo de Jesus. Ao convidar-nos a tomar o seu jugo Jesus convida-nos a partilhar com ele a caminhada, a sabê-lo ao nosso lado nos esforços de puxar o nosso carro com as suas cargas históricas e humanas.
Neste sentido o jugo é e será sempre suave porque se partilhará, será equilibradamente dividido, e se partilhará com aquele que sabe já, desde a sua obediência e do seu amor, levar o jugo do peso da cruz. Pelo que, e de alguma forma, mais do que carregar com o jugo somos nós os carregados nesse jugo, a nossa força e o nosso esforço ainda que exigidos e exigentes estão suavizados pela companhia daquele que já fez o caminho e conhece os tropeços.
Na natureza e no trabalho agrícola, numa junta de animais há sempre um mais forte que vai um pouco mais à frente, que incentiva o outro a caminhar e a carregar. No nosso jugo é Jesus que vai à frente, é ele o mais forte e afinal aquele que verdadeiramente puxa a carga e puxa por nós.
E é por esta razão que Jesus convida aqueles que andam cansados e oprimidos a dirigirem-se a ele e a aceitar o seu jugo; ou seja, a partilhar com ele os esforços da carga do peso diário e da nossa condição humana finita e frágil, que também ele carregou por amor e para nos aliviar desse mesmo peso finito e frágil, e para nos ensinar e mostrar que é possível não ficar cativo e escravo dessa mesma condição.
A aceitação do convite ao jugo implica no entanto um espírito prévio, uma abertura de espírito que se traduz nessa pequenez de que fala Jesus. Porque foi aos pequeninos que o Pai revelou estas verdades e não aos sábios ou poderosos. Os sábios, inteligentes e poderosos procurarão de todas as formas carregar os jugos sem a ajuda de ninguém, confiantes apenas nas suas forças e capacidades, no seu engenho e perspicácia.
Pelo contrário, os pequeninos, aqueles que são como crianças, saberão que sozinhos não serão capazes, interiormente terão o gosto e a alegria da partilha dos esforços e da companhia e por isso não só procurarão ajuda como aceitarão aquela que lhes for oferecida. E neste caso a ajuda de Jesus e a sua fraternidade.
Cabe assim fazer eco das palavras da Carta de São Paulo aos Romanos e pedir ao Senhor que habite em nós e dê vida aos nossos corpos mortais, que nos vivifique e fortaleça para caminharmos lado a lado com Jesus, sabendo que a carga que levamos é partilhada e foi já aliviada pelo seu compromisso de caminhar juntamente connosco.