sexta-feira, 22 de junho de 2012

Fazer o Caminho Português de Santiago

Foi com alguma surpresa que ouvi da minha mãe o comentário que o meu sobrinho, com treze anos, queria fazer o Caminho de Santiago comigo. Fiquei sem saber o que responder, porque nunca tínhamos conversado sobre isso, ele nunca me tinha manifestado esse desejo, ainda que já por várias vezes tivéssemos visto as fotografias dos Caminhos que fiz em 2000, 2004 e 2010.
Assim, da última vez que estivemos juntos, abordei a questão e, face à confirmação do desejo dele e à autorização dos pais, decidimos fazer o Caminho Português a Santiago, que neste momento é o que se apresenta mais viável.
Vamos fazer o Caminho Português a Santiago a partir de Valença do Minho, com tranquilidade, sem grandes pressas, para desfrutar do caminho e da experiência de viver uma semana fora dos nossos ritmos normais.
Neste sentido, organizámos já as etapas, que não vão ser muito longas, para não serem cansativas, mas sobretudo para termos tempo de apreciar a paisagem e os monumentos. O importante no Caminho de Santiago é a experiência do caminhar, a possibilidade de se encontrar consigo próprio e com Deus no silêncio, na beleza da natureza, nos outros peregrinos, na arte e na cultura que bordeiam os trilhos ou as estradas.
Partiremos de Valença do Minho no dia 30 de Junho e passaremos a Tuy. Uma pequena etapa de sete quilómetros para aquecer os músculos. No dia 1 de Julho iremos até Porriño e no dia 2 até Redondela. Duas etapas sem grande esforço. No dia 3 de Julho passaremos a Pontevedra e dali a Caldas de Rey no dia 4. No dia seguinte, 5 de Julho, chegaremos a Padrón e dali até Santiago de Compostela no dia 6 de Julho.
Em Santiago, no sábado dia 7, poderemos cumprir todos os rituais como abraçar o Santo e participar na celebração da Eucaristia em que se pode apreciar o “Botafumeiro”, bem como conhecer um pouco da cidade.
Como é uma peregrinação, e não meramente um passeio, teremos cada dia a celebração da Eucaristia e um momento de oração ou reflexão. Como peregrinos carregaremos também com a nossa mochila, faremos a experiência do peso das nossas tralhas, pois não teremos carro de apoio.
Face a isto, e porque há amigos que já manifestaram o desejo de nos acompanhar, nos próximo dias irei apresentando mais algumas informações, nomeadamente no que diz respeito ao equipamento, pois há que ter muito cuidado com o peso.

Ilustração: “Partida dos peregrinos do albergue de Pontevedra”, 5 de Abril de 2004.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Pai-Nosso (Mt 6,9)

Não é raro encontrarmos pessoas que nos dizem que não rezam, que não sabem rezar, que não sabem o que dizer ou até que já se esqueceram das orações que aprenderam em pequenos, muitas vezes ao colo da mãe ou da boca da avó.
Encontramos situações diversas, e perante elas não podemos responder de outra forma senão com as palavras de Jesus: “quando orardes não digais muitas palavras, porque o vosso Pai sabe bem o que precisais”.
E ainda que estas mesmas palavras nos levantem dificuldades, porque se Deus já sabe para quê recordar lhe, a verdade é que nós necessitamos de ser recordados, necessitamos ser colocados em presença da grande realidade que nos envolve, derivando daqui a resposta àqueles que não sabem já rezar ou não encontram as palavras.
De facto, não são necessárias muitas palavras, por vezes o silêncio é suficiente, mas mesmo aí nesse silêncio encontramo-nos com a grande circunstância em que nos movemos e que Jesus nos revelou, a paternidade divina.
Neste sentido a nossa oração é um situar-se face ao Pai, é reconhecer-se filho, é sentir os homens e as mulheres que nos rodeiam como irmãos, é constituir uma família, porque é esse o grande mistério de Deus e a oferta que nos faz enquanto imagens suas.
Pai é afinal a primeira e a última palavra da nossa oração, o princípio de onde partimos e o fim a que nos dirigimos. Pai é o caminho que vamos fazendo, descobrindo em cada passo a sua força e nos irmãos que nos acompanham a sua presença confortante.
Pai é a palavra que nos coloca em relação, que não nos deixa sós e entregues a nós próprios, que nos faz encontrar a verdade da nossa própria natureza e identidade.
Pai porque somos filhos, nosso porque somos irmãos, e tudo com Jesus Cristo e por Jesus Cristo.

Ilustração: “Criança a rezar nos joelhos da mãe”, desenho a lápis com aguarela de Pierre Édouard Frére, Walters Art Museum.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Quando rezares entra no teu quarto (Mt 6,6)

A oração é o dom mais precioso que Deus nos faz. Por essa razão, e pela sua experiência pessoal, Jesus exorta os seus discípulos e ouvintes a não desperdiçarem esse dom, a darem-lhe verdadeiramente atenção, de modo a que possa frutificar como todos os outros dons de Deus.
Neste sentido, toda a oração feita hipocritamente para chamar a atenção dos outros, para mostrar uma grande piedade, para dar uma imagem devota, acaba por negar o verdadeiro sentido da oração e a dimensão do dom que ela comporta.
A oração é antes de mais a certeza de que eu posso falar a alguém e que esse alguém me escuta. Deus apresenta-se como o ouvinte, o interlocutor, ao qual tudo pode ser contado, desde as maiores alegrias até às maiores infidelidades.
Deus está presente na minha vida nos momentos de maior felicidade bem como nos momentos mais dolorosos ou humildes do meu quotidiano e por isso pode participar de tudo e pode conhecer tudo.
Contudo, tanto nos momentos de dor como nos momentos de alegria, e a maior parte das vezes nestes, esquecemos que podemos ter esse diálogo, que temos alguém que nos escuta e com quem podemos partilhar a nossa dor, o nosso desespero, ou a nossa alegria.
Por isso, quando Jesus nos convida a entrar no nosso quarto e a fechar a porta para rezar no silêncio a Deus, não nos convida a outra coisa senão a tomarmos consciência de como Deus está já presente no íntimo da nossa vida e do nosso coração e como necessitamos escutá-lo, estabelecer um diálogo com ele.
A oração transforma-se assim em uma experiência de alegria, em um encontrar-se com uma presença constante, mas que tantas vezes passa em silêncio devido à nossa distracção, ao nosso desejo de tudo controlar, ao facto de contarmos apenas só connosco e com as nossas forças.
A oração é assim o dom de Deus que nos abre à transformação, que ilumina cada uma das nossas realidades, que nos faz encontrar com o que somos, fizemos e estamos chamados a ser. Como o fermento na massa, ou como a luz no candelabro, a oração ilumina e faz crescer.
Mas tal acontece, e é possível porque a oração é o gemido do Espírito em nós, é como o choro do bebé que busca o calor do corpo da mãe, o rebento da semente que procura o sol para crescer e frutificar.
Hoje, em qualquer momento e em qualquer lugar, procuremos entrar no nosso interior, fechar a porta do exterior, e dizer a Deus o que nos vai no coração, escutando nesse dizer como crescemos e nos iluminamos, como Deus se faz resposta à nossa busca.

Ilustração: “Oração”, de Josep Kinzel.

terça-feira, 19 de junho de 2012

O Pai dos céus faz nascer o sol sobre bons e maus. (Mt 5, 45)

É muito fácil colocarmos etiquetas, dividirmos em grupos ou facções, para sabermos com o que lidamos, que abordagem desenvolver na nossa relação.
Temos assim aqueles que nos são próximos e os que nos são distantes, os vizinhos do lado e os do último andar, o colega da secretária e a amiga com quem vamos tomar café no intervalo da manhã.
Temos os irmãos, a família, os amigos, os conhecidos e os desconhecidos, e agora no mundo cibernético temos a possibilidade de ter amigos que nunca vimos, cuja proximidade se estabelece por um “like”, por um “aceito”.
A lei que organizava o povo de Israel e as suas relações com os povos vizinhos estava também estruturada nestas categorias de proximidade e distância. Era assim obrigatório amar o próximo e possível odiar o inimigo, ainda que este inimigo pudesse ser próximo.
A diversidade das situações que a lei abarcava deixa perceber que não era fácil etiquetar e definir o inimigo, e por isso qualquer israelita devia obrigatoriamente conduzir o boi perdido a casa do dono, fosse ele amigo ou inimigo.
Face a esta ambiguidade e diversidade, Jesus apela ao primordial, coloca diante dos seus ouvintes o que era verdadeiramente fundamental, a igualdade de todos face a Deus, porque para Deus não há bons nem maus, Deus para todos faz nascer o sol e cair a chuva, ou seja, dá uma oportunidade de existir, uma possibilidade de relação.
E é neste sentido que Jesus convida os seus discípulos e ouvintes a ser perfeitos, a não saudarem apenas aqueles que os saúdam, a não viverem apenas com os amigos, mas a reconhecerem em cada situação a oportunidade de estabelecerem uma relação, a encontrar-se com Deus no outro e na sua diferença.
Tarefa difícil, na medida em que, ao prescindirmos das etiquetas, ao optarmos pelo acolhimento sem preconceitos, iniciamos um processo cujo fim desconhecemos, cujo controlo não nos pertence, cuja novidade constante nos pode desconcertar e abalar.
Contudo, o Senhor deixa-nos esse desafio, lança-nos esse repto de irmos ao encontro do outro para nele nos encontrarmos connosco próprios enquanto filhos de Deus e com o outro enquanto imagem do Pai.

Ilustração: Saída de Burguete. Caminho de Santiago. 1 de Maio de 2010.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Olho por olho e dente por dente? (Mt 5,38)

O capítulo quinto do Evangelho de São Mateus, na sua dimensão programática da vida da comunidade dos discípulos não podia deixar de fora a lei de talião e por isso a vemos abordada por Jesus no discurso da montanha.
A lei de talião, enunciada no livro do Deuteronómio, é já em si mesma uma regulamentação da violência, um combate à violência desproporcionada, que o livro do Génesis nos apresenta quando Lamec jura vingança. “Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta vezes sete.”
Ao trazer o tema para o seu discurso, Jesus não procura dar-lhe uma nova regulamentação, reformar a lei no seu enunciado, mas apelando à sua origem, ao que lhe estava subjacente, a própria violência desmesurada, aponta aos discípulos qual deve ser a sua atitude.
Assim, à lei do dente por dente, do olho por olho, ao equilibro justo, Jesus opõe a violência do amor, o despropósito e a desproporção da não-violência e da caridade. Não basta agir justamente face à violência, a qualquer violência, é necessário inverter o mecanismo, é necessário contrapor a liberalidade e a boa vontade, é necessário inviabilizar qualquer possibilidade, mesmo que seja mínima.
E por isso a oferta da outra face, a oferta do manto face ao pedido da túnica, o outro quilómetro para além do já andado, o dom livre e generoso que desarma e potencia a paz e a partilha.
Não é fácil, e todos vamos fazendo essa experiência todos os dias, pois custa-nos menos o equilibro da justiça e mesmo a violência da resposta, mas necessitamos aceitar o desafio de Jesus e procurar viver essa liberdade do dom, a desproporção da oferta que desarma.
Que o Senhor nos liberte do medo e nos conceda a graça da liberalidade e da paz.

Ilustração: “Luta de camponeses”, de Adriaen Brouwer, Alte Pinakothek Munique.

domingo, 17 de junho de 2012

Homilia do XI Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São Marcos que escutámos termina dizendo que Jesus pregava a palavra de Deus com muitas parábolas, conforme eram capazes de entender, e que não lhes falava de outro modo, mas em particular tudo explicava aos discípulos, que muitas vezes pouco conseguiam entender e por isso a necessidade de uma explicação.
Este desajuste da pregação de Jesus e da sua compreensão não pode deixar de nos interrogar, pois confrontamo-nos com um processo que parece contradizer-se nos seus elementos. Como é possível anunciar a palavra, transmitir uma mensagem, usando um método que depois não permite a cabal compreensão da mensagem, da palavra?
Antes de mais, temos que ter presente que as parábolas não eram um monopólio de Jesus, que era um método comum no mundo semita e que já em outros momentos da história do povo de Israel tinha sido utilizado e com bastante poder comunicativo.
Um dos exemplos mais perfeitos deste passado histórico e poder comunicativo encontra-se na história do rei David, pois o profeta Natan serve-se de uma pequena história de uma ovelha de um pobre para fazer tomar consciência ao rei do pecado que tinha cometido quando habilmente fez desaparecer Urias para tomar Betsabé como esposa. O profeta não ataca directamente o rei, nem o acusa do seu crime, mas através de uma história coloca-o face a face com a consciência e o crime e pecado cometidos.
A parábola é assim um processo pedagógico, uma narração construída sobre elementos concretos e conhecidos, e no caso do texto do Evangelho de hoje em elementos do mundo da agricultura, portanto familiares aos ouvintes, para veicular a esses mesmos ouvintes uma mensagem, que obrigatoriamente necessita uma interpretação, uma descodificação.
O objectivo comum de todas as parábolas é convidar-nos a uma mudança de olhar e de comportamento, a um outro posicionamento face às realidades que a própria história evoca. Para compreender a parábola torna-se assim necessário colocar-se em causa, aceitar deixar-se interpelar pela história contada.
De aspecto simples, quase banal, as parábolas encerram uma lição exigente, um gérmen de revolução, e por isso quando Jesus é condenado pelos tribunais de Jerusalém não é só uma questão de filiação divina que está em causa, é também um conjunto de histórias, um conjunto de parábolas, que ainda que agradáveis e simpáticas colocavam em causa verdades instituídas.
Para além da dificuldade de compreensão, inerente às parábolas enquanto interpelação e alteração de olhares, as parábolas de Jesus sofreram ainda de uma dificuldade acrescida, pois ele serve-se das parábolas para falar de um objecto, de uma realidade, que não é descritível, que escapa à demonstração, como é o reino de Deus.
A linguagem metafórica, com o que comporta de comparação e de representação, é a única linguagem possível para tentar dizer um dinamismo que escapa à descrição, que só se pode enunciar por outras palavras, porque o reino de Deus é e não é, está a ser mas ainda não é.
Neste sentido, devemos perguntar se depois de lermos as parábolas do reino podemos dizer concretamente o que é o reino de Deus. E a bem da verdade, temos que responder que não, porque as parábolas não nos impõem uma conclusão, uma determinação sintética, mas abrem-nos para outra realidade, para um mistério.
As parábolas, e nomeadamente as parábolas do reino que Jesus conta, querem colocar-nos em caminho, em direcção a um desconhecido que se vislumbra, querem elevar-nos da realidade e da materialidade para outra coisa mais.
E neste sentido as parábolas que hoje o Evangelho nos apresenta são paradigmáticas, pois tanto a parábola da semente que cresce sem qualquer intervenção do homem, como a parábola do grão de mostarda que tem uma força geradora tão grande, querem manifestar uma fragilidade e um poder que são inerentes ao reino e ao seu dinamismo, uma acção que é anterior e exterior ao homem.
Assim, e tendo presente a parábola da semente que cresce sem qualquer intervenção do homem, percebemos que o reino de Deus é uma vida, um acontecer, um dinamismo que parte de si mesmo, do seu poder e força internas. É Deus, na palavra que é semente, que vai agindo, que vai fazendo crescer e ao homem compete-lhe apenas ser boa terra, predispor-se a ser boa terra para acolher a semente como nos é dito em outra parábola.
Não podemos por isso dizer que o reino de Deus é isto ou aquilo, é esta realidade ou aquela. Apenas podemos identificar elementos do desenvolvimento desse reino, um germinar, uma planta, um fruto que parece despontar nas acções do homem que coopera.
A oração, a fraternidade, os méritos do nosso trabalho, a justiça que praticamos e tantas outras realidades, enquanto manifestações do reino, não são acções nossas mas daquele que vai agindo, que vamos permitindo que actue em nós e por intermédio de nós.
Por outro lado, a parábola da semente de mostarda mostra como da fragilidade pode nascer a força e a transformação, como uma pequena semente, a mais pequena das sementes, encerra em si um potencial tão grande de realização.
Assim, somos convidados a não nos deixarmos vencer, nem a desanimar, face àquilo que nos parece irrisório, frágil, minúsculo, porque não sabemos verdadeiramente o seu poder transformante, multiplicador, o seu potencial.
A mais pequena palavra de solidariedade, a mais breve oração, um qualquer gesto de caridade pode de facto transformar-se, pode tornar-se numa grande obra à sombra da qual outras se podem acolher, com a qual outros homens e mulheres podem colaborar.
Face às parábolas que escutámos no Evangelho de hoje deixemo-nos pois interpelar por elas, observemos com atenção o que elas nos apontam, nos desvelam da mensagem de Deus e do reino a viver entre nós, conscientes que caminhamos na fé e sem uma visão clara, como diz São Paulo aos Coríntios, mas ainda assim, confiantes que a acção de Deus, a sua força germinal, é inerente a este mesmo caminhar.

Ilustração: “A umbrela vermelha”, de Franz von Lenbach, Kunsthalle Hamburgo.
(À sombra da umbrela, no meio de campos maduros, uma vida que se desenvolve)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

A verdade possível sobre o encerramento do Seminário Dominicano de Fátima

Face à notícia do encerramento do seminário dominicano de Fátima, o Prior Provincial, frei Raul de Almeida Rolo, escreveu ao jornal A VOZ um carta de esclarecimento que foi publicada no dia 14 de Agosto de 1967.
Nesse mesmo dia, e na primeira página do jornal, aparecia em caixa o destaque sobre a abertura em Lisboa do Centro de Estudos Eclesiásticos.

“Os Dominicanos restabelecem a verdade explicando o que realmente se passou
O reverendíssimo Dr. Frei Raul de Almeida Rolo, Provincial da Ordem de São Domingos em Portugal, vice-presidente da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos e presidente da Comissão Instaladora, eleito pela Assembleia Geral dos Provinciais federados para a fundação de um Centro de Estudos Eclesiásticos, comum a diversos institutos religiosos, enviou-nos com pedido de publicação, uma carta esclarecimento a uma notícia publicada no nosso jornal e já por nós rectificada.
Eis o esclarecimento do insigne Provincial, por nós solicitado, logo que tivemos conhecimento do equívoco:
… Senhor Director do jornal «A Voz» Lisboa.
Senhor, Digne-se Vossa Excelência aceitar os meus respeitosos cumprimentos.
Fiquei profundamente impressionado e com o sentimento da mais viva repulsa pela falsa e caluniosa notícia enviada ao nosso jornal e neste publicada no dia 11 do corrente mês sob a epígrafe – Encerramento de um Seminário Dominicano – seguida ainda de breve mas tendenciosa e malévola interpretação.
Como efectivamente o Estudo Dominicano de Filosofia e Teologia se suspende agora em Fátima – porém, muito ao contrário do que supunha o vosso informador, por motivos que muito o acreditam e honram – creio ser de pura ética e de elementar justiça esclarecer de quanto segue os respeitáveis leitores do conceituado jornal que Vossa Excelência tão superiormente dirige:
1 – O Estudo dominicano de Fátima é centro de formação filosófica e teológica para os alunos dominicanos, carmelitanos, missões da Consolata e da Sociedade do Verbo Divino. Nele ensinam professores dominicanos e carmelitas.
2 – Em virtude dos resultados positivos desta colaboração, e de a maior parte dos institutos religiosos em Portugal ainda não ter resolvido o problema dos estudos de filosofia e de teologia, o Provincial dos dominicanos, juntamente com os Provinciais dos institutos que formam o Estudo de Fátima, propuseram na Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Institutos Religiosos, celebrada em 24 de Abril último, ampliar a experiência de Fátima por uma cooperação mais vasta dos institutos religiosos no campo da formação.
3 – Aderiram a esta proposta quinze institutos religiosos, reunindo-se os respectivos Provinciais na tarde desse mesmo dia para iniciar o projecto de execução.
4 – Por resolução unânime, determinou-se que o Centro de Estudos Eclesiásticos se estabelecesse em Lisboa, para facilitar uma cooperação mais íntima com a futura Universidade da Igreja, por parte dos institutos religiosos.
5 – Este Centro de Estudos Eclesiásticos está em vias de organização, esperando-se poder abrir já no próximo ano lectivo de 1967-1968.
6 – Em vista do acolhimento da proposta feita em 24 de Abril e do bom andamento para a sua realização, o Conselho Provincial dos Dominicanos, nas suas reuniões celebradas em 26 de Maio e 4 de Julho, votou um súplica a dirigir ao seu reverendíssimo Mestre Geral, no sentido de ser autorizada a cooperação plena e a consequente integração do Estudo de Fátima no Centro de Estudos Eclesiásticos de Lisboa.
7 – Para presidente da Comissão Instaladora do novo centro de Estudos, formada por Provinciais e professores, foi eleito o Provincial dos Dominicanos. Para presidir à secção dos professores foi eleito também o dominicano Frei Raimundo Duarte de Oliveira, director do Estudo de Fátima.
8 – Todos os professores dominicanos portugueses que ensinam em Fátima são professores efectivos do Centro de Lisboa, excepto um, por ter sido convidado pelo Instituto Teológico de Otava (Canadá), para aí reger um curso de teologia.
9 – É, pois, em virtude de um gesto de confiança de um maior número de institutos religiosos pela experiência realizada no Estudo Dominicano de Fátima que esta experiência se amplia transferindo-se para Lisboa.
Reiterando os meus melhores cumprimentos, me subscrevo de Vossa Excelência Atento e Venerando.
Padre frei Raul de Almeida Rolo, OP, Prior Provincial
Fátima, 12 de Agosto de 1967
Convento dos Padres Dominicanos. Fátima.

Muito nos apraz este esclarecimento e agradecer a gentileza das palavras do venerando Provincial. Seria caso, noutras circunstâncias menos penosas, para dizer que há males que vêm por bem…
Apenas um breve reparo: «a breve mas tendenciosa e malévola interpretação a que se refere o ilustre superior religioso tinha apenas a intenção de explicar o motivo do suposto encerramento disciplinar.
Como se vê as aparências iludem quase sempre os incautos. A verdade é que a ordem dominicana acaba de ser honrada mais uma vez e de forma tão notável, com o que muito nos regozijamos.”

A bem da verdade histórica, há que assumir que a interpretação tendenciosa e malévola, não era tão tendenciosa e malévola como se fez crer, que a fonte da notícia estava verdadeiramente bem informada da vida dominicana, e que o projecto do Centro de Estudos Eclesiásticos foi uma solução bastante digna para uma situação extremamente difícil de que a correspondência com o Mestre da Ordem Aniceto Fernandez é testemunha documental.