quarta-feira, 31 de março de 2010

Ainda a traição de Judas

O Evangelho de hoje apresenta-nos Judas na óptica da redacção do evangelista Mateus, e fá-lo de uma forma que não podemos deixar de ter em atenção.
Assim, ao narrar a traição de Judas, ao dizer que foi ter com os príncipes dos sacerdotes para entregar Jesus por trinta moedas, o evangelista não deixa de frisar que Judas era um dos Doze, um do grupo dos discípulos de Jesus, um daqueles que tinha escolhido e chamado para andar consigo, que tinha partilhado da sua intimidade.
É desta realidade que se desenvolve a traição, mas é também desta realidade que nos podemos ver e nos podemos identificar com Judas. Como chamados por Jesus, cada um à sua maneira, no seu lugar e no seu tempo, fomos chamados com tudo aquilo que temos e somos, com os nossos costados menos bons e os outros melhores. Deus chama-nos a segui-lo na nossa condição, na nossa complexidade e totalidade, não apenas na nossa boa vida, santidade, ainda que seja para a santidade que ele nos chama e nos impele. Deus chama-nos inteiros e quer-nos inteiros para que a sua graça possa agir em nós e transformar-nos. Deus não nos quer super homens, ou super mulheres, quer-nos homens e mulheres que se querem assemelhar cada vez mais a ele.
E por essa razão, porque Deus não desiste de nos assemelhar a Ele, de nos estender a mão, mesmo quando o traímos, é que Jesus no jardim das oliveiras, quando Judas chega com a guarda para o prender, se lhe dirige chamando-o de amigo, “amigo a que vens?”
Tudo estava traçado, não havia volta atrás, mas ainda assim Jesus não desiste de estender a mão, não desiste de oferecer a Judas a sua misericórdia e o seu amor.
“Amigo…”, como é possível ainda chamá-lo de amigo?
Mas a verdade é que Jesus continuou a chamá-lo de amigo e continua a chamar-nos de amigos quando nas nossas fraquezas lhe somos infiéis e o atraiçoamos. E fá-lo porque sabe do que somos feitos, experimentou a nossa condição humana e por isso sabe como é fácil cairmos no desespero, no julgamento e na condenação de nós próprios impedindo-nos e inviabilizando-nos o caminho de regresso. É muito mais fácil permanecermos na nossa noite escura, nas nossas trevas a voltar à luz e ver aí a verdade de nós próprios e das nossas obras.
Contudo, e apesar das trevas, a luz teima em brilhar, teima em vir ao nosso encontro e por isso não podemos deixar de a acolher, porque não há nada, não há miséria maior que não possa ser resgatada por Deus, pelo mistério redentor de Jesus Cristo. Para tal necessitamos não só de uma santa dose de confiança na misericórdia de Deus mas também um reconhecimento e uma aceitação, um consentimento, dos nossos próprios limites no que concerne à fidelidade.
Necessitamos derrubar os nossos limites, as barreiras que construímos para nos protegermos e auto-justificarmos, para que Deus possa entrar, para que a sua misericórdia chegue até nós em toda a sua plenitude. Necessitamos despojar-nos de nós próprios para que Deus nasça ou ressuscite em nós.

terça-feira, 30 de março de 2010

A traição de Judas

Um pouco de pão ensopado no molho da carne, é esta a oferta de Jesus a Judas. Um sinal para João e Pedro que queriam saber quem seria o traidor, mas para o ainda não traidor um último convite, um último gesto de abertura e eleição, de uma eleição muito especial para a qual era necessário cortar com tudo, abdicar de todos os seus projectos e preconceitos.
O gesto de Jesus é um gesto de hospitalidade, um gesto muito especial reservado para um convidado especial, que se desejava brindar pela sua presença no banquete ou na festa. Judas percebe a intenção de Jesus, percebe o pedido e a eleição e por isso aceita o pão molhado no prato da carne. Contudo não é capaz do passo final, não é capaz de abdicar de tudo para a entrega da eleição e por isso, como nos diz São João no Evangelho, é depois de engolir o pão que Satanás entrou nele.
A recusa do convite de Jesus, da sua predilecção e eleição é assim sempre uma traição, uma porta aberta à entrada de Satanás, do mal perturbador das nossas vidas e acções, uma noite escura na qual se entra, como Judas entrou, e na qual é difícil perceber o sentido e a verdade do que fazemos. Perante a recusa da luz de Cristo nada mais resta que a escuridão da nossa desorientação.
Nesta mesma cena, neste mesmo momento da recusa de Judas, uma outra traição se anuncia, não de alguém que sai para a noite mas de alguém que fica na sala, que afirma a defesa e a entrega da vida por Jesus. É a traição de Pedro que negará Jesus três vezes antes do galo cantar. Jesus sabe-o e Pedro de certa forma também, apesar da sua convicção e confiança nas suas forças. No momento da dor, do fracasso, em que a vida se colocará em perigo Pedro negará o Senhor.
Contudo, e ainda aí, Pedro manter-se-á com Jesus, fixo no rosto que verá passar já carregado de humilhação e maus-tratos. Então arrepender-se-á e chorará amargamente porque não foi capaz de defender o Senhor de entregar a sua vida junto com a dele.
É este o milagre da passagem da Páscoa, de ressuscitar dos nossos pecados e das nossas infidelidades, de não perdermos nunca o olhar do rosto de Jesus, de aceitar o pão que nos oferece do seu próprio amor, para estarmos sempre com ele, apesar de tudo.

domingo, 28 de março de 2010

Hino de Louvor

Louva minha alma o Senhor,
Louva-o por tudo o que me concedeu.
Louva-o pela alegria de O saber presente,
Louva-o pelo amor que colocou no meu coração,
Pelo amor com que me ama, com que me ama pelos irmãos.
Louva-o porque me chamou a servi-lo,
Porque se serve de mi, pobre e frágil pecador,
Porque faz em mim e por mim maravilhas.
Louva-o pelo que sou e pelo que não sou
Pelo que quero ser e tantas vezes fico aquém de ser.
Louva-o por esta inquietação de fidelidade
Por vezes tão à mão e outras vezes tão distante.
Louva-o pelo que faço e não faço, pelo que já não posso
Louva-o pelo cansaço de hoje e de tantos outros dias,
Louva-o por essa esperança de que não é em vão.
Louva-o pela Palavra que nos tocou e me toca cada dia,
Pela carne vivificada pelo Espírito, caminho para o Pai,
Pela cruz que nos liberta das mortes sem sentido.
Louva-o por este pão e este vinho, Corpo e Sangue do Senhor
Que em cada dia realizo pelo poder do Espírito Santo.
É o seu corpo no meu corpo, o meu corpo no seu corpo
A sua divindade na minha humanidade, a sua glória na minha pequenez.
Louva minha alma jubilosa, porque em cada dia e a cada dia
Deus se me faz presente, Deus se me mostra amante.

PS:
Aos amigos que me felicitaram pelo meu aniversário o meu agradecimento e a minha oração. Que Deus vos abençoe em tudo o que de bom desejais.

sábado, 27 de março de 2010

Convite para a festa

Jesus, do seu refúgio no deserto, vem a Betânia e ressuscita Lázaro. Por causa disso muitos acreditaram nele, mas também por causa disso os homens do poder decidem a sua morte. É preferível que morra um só homem pelo povo que pereça o povo inteiro, a nação com todas as suas estruturas e organizações.
Estamos nas vésperas da Páscoa e muitos sobem a Jerusalém para celebrar a grande festa. É uma multidão imensa, vinda de cada recanto da nação para fazer a festa. Jesus é conhecido, muitos sabem que ele anda por ali e por isso naturalmente perguntam se ele virá à festa também. É uma questão natural uma vez que se sabe que habitualmente sobe a Jerusalém para celebrar a Páscoa, desde pequeno que era trazido pela família.
A pergunta daqueles homens é hoje uma pergunta que nos toca, porque mais do que saber se Jesus vem à festa necessitamos perguntar se nós vamos à festa. O convite foi feito, os emissários foram enviados, tudo está preparado e o Senhor da festa dá uma festa, vem à festa, é a festa. Estamos nós dispostos e disponíveis para a festa?
Iniciamos a semana santa, uma semana carregada de dor e sofrimento, de traição e tragédia, uma semana que nos marca profundamente e que por vezes nos tolda o olhar para a festa que nos espera no final deste percurso. Por vezes, ou demasiadas vezes deixamo-nos ficar pelo caminho, obcecados com as coisas menos positivas, com as nossas prisões, com a nossa condição de pecadores.
Não temos uma festa preparada para nós? Não nos foi prometido um banquete? Porque nos custa tanto mudar do nosso trajar do quotidiano para o traje de gala que se leva à festa? E se tivéssemos de buscar esse traje fora de nós, se o tivéssemos de comprar…, mas não, esse traje foi-nos já adquirido por Jesus, é-nos oferecido e foi-nos oferecido a partir do momento em que ele assumiu a nossa condição humana, a nossa carne humana e a redimiu com a sua paixão morte e ressurreição.
Necessitamos por isso apenas de nos dispor a dar ao nosso trajar a dignidade que lhe é devida, a querer e a lutar por isso, fazendo resplandecer em nós as rendas e os tecidos ricos, as sedas e os veludos, os rubis e as esmeraldas, afinal imagens e metáforas do que podem ser as nossas boas obras e a coerência da nossa vida face à condição de cristãos e de filhos de Deus, de convidados de honra para uma festa que é nossa.
Esta semana é o tempo e a oportunidade de pormos um pouco de brilho no nosso trajar, de nos lavarmos e perfumarmos para entrar elegantemente na festa.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Pedras que matam...

Hoje, uma vez mais, pegaram em pedras para atirarem ao meu filho Jesus. Foi no templo mas já houve outros lugares e outras tentativas. Quando nos custa aceitar a verdade dos outros é muito fácil pegar em pedras e atirar, esmagar o outro com o peso da nossa recusa. As pedras são armas fáceis, estão à mão, mesmo que às vezes sejam tão irreais na medida em que são palavras.
Estas pedras também um dia me estiveram destinadas, por causa de um sim e de um filho de que aceitei ser mãe. Escapei por pouco ou até por muito, por pouco que era a justiça de José que me repudiava em segredo, por muito porque também ele assumiu o filho que não era nosso, também ele assentiu nesse projecto que nos alterava a vida.
São estas pedras que nos sacrificam à luz da lei de Moisés, pedras para aqueles que forem apanhados em adultério, pedras para aqueles que blasfemarem de Deus e colocarem a sua lei em causa.
Em outras pedras também se sacrificam vidas, são as pedras do altar do templo pelas quais escorre o sangue de milhares de gordos cordeiros. São pedras talhadas, ornadas, que servem ao sacrifício para Deus. Mas não serão pedras inúteis depois de Deus nos ter dito pelo profeta que se satisfaz mais com o coração arrependido que com os nossos sacrifícios? Para que servem as pedras sacrificiais?
Outras pedras se levantam todos os dias, pedras que sacrificam e imolam aqueles que são diferentes, que assumem ser diferentes, viver em verdade a sua realidade. São as pedras da nossa surdez, pedras opacas e duras indiferentes à sorte do outro.
Estêvão anda por aqui, ronda, porque quer conhecer Jesus. Já veio ter comigo para que lhe apresente o meu filho, para que o introduza junto dele. Ainda não foi possível e por estes dias creio que tão pouco será possível. Gosto de Estêvão mas vê-se ao longe que traz consigo uma aura de martírio. Estas pedras mortais, lacerantes da carne serão um dia o seu fim e a sua glória pois também ele é como Jesus, quer viver a radicalidade da verdade de Deus nosso Pai e criador.
Como ele quantos mais serão apedrejados por esse desejo de verdade e fidelidade? Quantos conseguirão escapar? Contudo, mesmo que não escapem, sabem que assentaram a sua vida sobre a rocha verdadeira, a grande pedra de onde jorra a água da vida, essa pedra que saciou a sede do povo no deserto e saciará todas as sedes que se abeirarem dela. É uma pedra rejeitada mas é uma pedra angular, base e fecho de toda a construção que possamos fazer na nossa vida.
Se o fizermos, se fizermos essa construção assente na pedra que é fonte e colocarmos o fim no cume mais alto, pedra angular, seremos também pedras vivas de um templo que se constrói vivo e grandioso. E poderemos ser uma pedra ricamente lavrada, um capitel de um arco, ou uma tosca pedra de uma soleira, pedras todas diferentes mas todas fundamentais e necessárias para o desenvolvimento e a beleza da construção. Que saibamos e aceitemos ocupar o nosso lugar e libertar-nos das pedras dilacerantes que nos enchem a mão ou desejamos apanhar para arremeter.

A força da palavra

Os judeus agarraram em pedras para apedrejar Jesus, estavam não só insatisfeitos com as suas palavras mas completamente chocados e ofendidos por ele se ter feito um com Deus e como Deus. As suas palavras eram uma blasfémia para os seus ouvidos e para a sua religião.
Pergunto-me quantas vezes não reagimos como estes judeus, quantas vezes não consideramos as palavras de Jesus ofensivas, porque nos provocam na nossa infidelidade, na nossa mediocridade, nos ofendem na nossa vaidade egocêntrica e idolátrica.
Perante esta ameaça, este perigo, Jesus confronta-os com as suas obras, deixa de lado a sua palavra e apresenta-lhes o que tinha feito, as curas, os milagres, tudo de extraordinário que muitos deles tinham presenciado ou conheciam por ouvir dizer. Ele tinha feito as coisas bem, tinha feito coisas boas, porque o queriam apedrejar, porque o condenavam?
De facto, e como reconhecem aqueles que tinham pegado em pedras, perante as obras não havia nada a dizer, não havia condenação possível, as obras eram de facto boas, e certamente nada mais se passaria se por detrás delas não houvesse uma palavra, uma palavra de autoridade que se assumia como vinda de Deus, como sendo Deus. Esta era a questão e é a questão ainda para nós.
Porque a realização das nossas obras, obras boas, pode não provocar muito mais que um resultado positivo. Há como que um resultado esperado, contabilizável. Podemos ver isso de alguma forma nas campanhas de solidariedade, em que nos fixamos nos números e no volume, em que a nossa implicação fica de certa forma à superfície. São obras boas e desejáveis, mas são obras que necessitam uma palavra de vida, implicativa, para que possam ser algo mais, um sinal, um signo, como se discute nesta polémica de Jesus com os judeus.
E essa palavra de vida é-nos dada pelo próprio Jesus nesta mesma discussão quando, fazendo referência ao Salmo 82, diz que somos deuses e portanto devíamos agir de acordo com essa natureza.
“Até quando julgareis injustamente e favorecereis a causa dos ímpios? Defendei o oprimido e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao pobre. Libertai o oprimido e o necessitado, e defendei-os das mãos dos pecadores. Todos vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo.” (Salmo 82,3-4.6)
A autoridade e o significado das nossas obras radica nesta consciência da divindade que nos é comum, e na medida em que a assumirmos as nossas obras boas serão boas mas também significativas, sinais de uma outra realidade que nos é comum e que só os olhos do coração à luz da fé podem ver.
Foram assim as obras de Jesus e por isso eram um motivo de reconhecimento mas também um motivo para a sua condenação. É fácil praticar as obras quando elas nos ajudam, nos satisfazem e realizam, quando nos deixam envaidecidos pelo bem que praticámos, é contudo muito mais difícil praticar essas mesmas obras quando elas exigem uma renúncia da nossa vaidade, uma aniquilação de nós próprios para que sejam mais que uma obra boa, um sinal de outra realidade, uma redenção para o outro e para nós.
Temos que rever as nossas obras, as menos boas e as boas, para as confrontar com a significatividade divina que lhes devia ser inerente.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Da Anunciação a Jerusalém

Era um dia calmo de primavera, as flores despontavam nos campos e uma brisa leve refrescava o sol dourado que nos aquecia. No recato da casa, num momento de silêncio interior, entre a roupa acabada de apanhar e a tremula luz que se desprendia de uma candeia de azeite pendurada na parede, apareceu Gabriel, aquele jovem desconhecido mas tão presente desde há tanto tempo.
Foi uma surpresa, uma surpresa que me deixou perplexa, pois como se atrevia a invadir o espaço e a privacidade de uma jovem donzela, como tinha tal ousadia, colocando-se em perigo e colocando-me em perigo? Ainda donzela estava já prometida a um homem, a José que me amava e esperava por mim e pelo dia das nossas núpcias. Ele não devia ter entrado ali.
Dobrando o joelho por terra, e depois de me saudar, disse-me que seria mãe, que conceberia e daria à luz um filho, que seria grande e chamar-se-ia Filho do Altíssimo, que reinaria sobre a casa de Jacob, que teria o trono de David e reinaria para sempre.
Não me ri como Sara, a mulher de Abraão, mas como ela perguntei da veracidade e possibilidade de tal anúncio. Se Sara era já uma mulher avançada na idade para poder ser mãe, eu era ainda muito jovem e não conhecia homem.
Hoje, passados trinta e três anos, sei que o anúncio se cumpriu, o anúncio da minha maternidade, pois tenho um filho, chama-se Jesus, mas tudo o resto é uma incógnita, uma grande incerteza, ainda que saiba bem no fundo do coração que Jesus é de verdade o que Gabriel me anunciou. Mas os homens não o sabem ou não o querem saber.
Jesus viveu sempre comigo até há bem pouco tempo. Aprendeu a profissão de José e é um bom carpinteiro. Um dia o deserto, onde ele sempre gostou de ir, transformou-o e depois dessa experiência nunca mais foi o mesmo. Retomou uma frase que nos disse um dia em Jerusalém quando ainda só tinha doze anos, que tinha que cuidar da casa de seu Pai e dos seus irmãos. Partiu e aos poucos fui sabendo dele pelos ecos que me chegavam.
Não eram grandes notícias, nem muito tranquilizantes. Soube que tinha andado com João nas margens do Jordão mas pouco depois abandonou-o e constituiu um grupo com novos discípulos, alguns pescadores, homens rudes, um ou outro que parece que não concorda muito com a forma como acolhe aqueles que o procuram.
Pela família de Nazaré fui sabendo que muitos o procuravam para se curarem, outros para serem libertos dos seus tormentos, outros apenas para conversarem com ele e encontrarem alguma luz na sua busca da verdade. Sei também que muitos o procuraram e procuram para o tentar destruir, não só porque lhes é incómodo mas porque já por várias vezes se assumiu como Filho de Deus.
Foi por causa disto que um dia fui à procura dele, os homens da família e da aldeia disseram-me que estava louco, talvez até possuído pelo demónio e por isso era necessário trazê-lo para casa. Fui com a família e encontrei-o rodeado de gente pobre, doentes e aflitos que nada mais queriam que a sua palavra e a sua presença. Quando lhe anunciaram que estava fora à procura dele respondeu que a sua mãe era aquela e aqueles que cumpriam a vontade do Pai.
Para a família foi um escândalo, mas para mim foi um louvor, uma graça, porque me retirou das teias e das relações familiares e de sangue. Posso ser sua mãe porque o dei à luz, mas sou também sua mãe, sobretudo, porque a Gabriel respondi que se fizesse em mim a Palavra do Senhor, ou seja a vontade de Deus. Ele sempre sonhou com uma família grande, irmãos sem conta, irmãos que o são pela afinidade de coração e de sonhos, pela luta por um mesmo ideal de paz. Dessa família faço parte e fazem parte aquele pequeno grupo que o acompanha, somos irmãos, somos filhos e somos pais e mães uns dos outros. Quantos mais poderemos ser, ainda não sei, porque tudo está dependente dessa adesão, desse aceitar que ele é especial e nos faz especiais.
Depois daquele encontro Nazaré foi aos poucos ficando para trás, para ele e para mim. Já uma vez ficou, quando tivemos que fugir para o Egipto; agora fica porque o quero acompanhar, porque sinto que algo paira no ar, como se tudo se preparasse para se cumprir a parte que falta do anúncio de Gabriel. Por isso caminhamos para Jerusalém.
Há um papel para mim, uma função, assim como há para todos aqueles que estão neste momento com ele e para todos os que quiserem no futuro estar com ele. Necessitamos apenas de o acolher como parte de nós próprios, um outro nós que espera a realização plena e que se realizará na medida do acolhimento

A Anunciação do Arcanjo Gabriel a Maria

O arcanjo Gabriel foi enviado a uma cidade da Galileia chamada Nazaré, a uma virgem chamada Maria desposada com um homem chamado José.
É uma missão divina, uma missão necessária, até urgente, mas muito delicada pois tudo depende de uma resposta dessa jovem mulher com quem se vai encontrar. Tudo está em jogo e muito se espera mas nada se força, pois é necessária uma resposta livre, um compromisso completamente isento de qualquer pressão.
Ave ó cheia de graça o Senhor está contigo!
A boa educação manda que se saúde quem se encontra e o enviado de Deus não foge às regras da boa educação. Saúda Maria, aquela que está cheia de graça, aquela com quem o Senhor está e passará a estar ainda de um forma mais real depois do seu consentimento à proposta que lhe é enviada. Maria preparada pela graça divina é habitada por Deus, por um Deus que se quer e necessita fazer um como nós, como ela, e para isso necessita um corpo, necessita um assentimento a esse projecto incarnacional.
É uma realidade aparentemente insignificante mas profundamente necessária porque sem um corpo não há experiência, não há dimensionalidade para o contacto, não há possibilidade de experimentar em todas as suas realidades a verdadeira natureza do homem, a fragilidade da criança, o desenvolvimento do adolescente, a maturidade do adulto, a finitude do próprio corpo constituído dos elementos do pó da terra. Deus quer ser homem, quer viver a nossa própria condição em todas as suas diversas dimensões e realidades.
E neste sentido ainda hoje, e para cada um de nós, é feita a mesma anunciação, o mesmo pedido de incarnação. Deus continua a querer fazer-se homem entre nós, não gerado como no seio de Maria, mas gerado no coração de cada um de nós e incarnado na nossa própria carne, nas nossas próprias dimensões experienciais humanas. Porque se Deus se gerou no seio de Maria foi porque antes ela o tinha acolhido no seu coração.
A esta pedido Maria perturbou-se, assim como nos devemos perturbar cada um de nós, porque de facto Maria e nós temos os nossos planos, temos as nossas realidades e circunstâncias nas quais ainda que procuremos Deus não lhe damos o devido espaço para a sua incarnação, para a sua presença viva e actuante entre nós. Maria contestou a proposta do anjo Gabriel dizendo-lhe que não conhecia homem, nós certamente contestamos a proposta escudando-nos nas nossas faltas de tempo, nos nossos compromissos, nas nossas infidelidades. Quem somos nós para que Deus se nos dirija e nos peça uma incarnação, nós que somos pecadores?
Mas não foi para os pecadores que Deus se encarnou, não foi este mesmo corpo que ele quis para si, para nos mostrar que é possível, que aliás é este o único caminho para uma resposta?
À contestação de Maria o anjo responde-lhe como nos responde a nós com o poder do Altíssimo, com a sua força, com o Espírito Santo que opera em Maria a gestação e pode operar em nós a fidelidade da incarnação. De facto a nós não nos é possível, nas nossas limitações é impossível, mas com a força do Espírito Santo e o poder do Altíssimo tudo nos é possível.
E porque ainda podemos ter dúvidas Deus dá-nos testemunhos desse seu poder e da sua acção no mundo. Para Maria foi o estado de graça da sua prima Isabel, para nós é a história e a vida de Maria e de Jesus, mas também a vida e a história de tantos homens e mulheres que se cruzam connosco e que mudam o mundo com um pequeno consentimento, com um pequeno gesto de amor, com uma entrega livre e comprometida a outros que ninguém quer ou pelos quais ninguém quer lutar.
Perante tantos sinais, tantos testemunhos de que Deus ainda hoje está presente e actuante entre nós, porque nos custa tanto assentir como Maria assentiu na proposta de Deus?
Que se faça em nós a palavra do Senhor porque nos dispomos a ser seus servos, a viver a sua vontade mais que a nossa, porque queremos não já viver por nós mas que Cristo viva em nós.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Discípulos livres na Verdade

À medida que a hora de Jesus se aproxima o seu confronto com os fariseus e escribas judeus vai assumindo dimensões mais radicais e violentas. É neste confronto que no entanto alguns se posicionam e acreditam na sua palavra. Para esses, para alguns desses, Jesus dirige estas palavras radicais e desafiantes, comprometedoras no sentido do seguimento a que se propunham: “sereis verdadeiramente meus discípulos, conhecereis a verdade e a verdade vos libertará se permanecerdes na minha palavra”.
Ser verdadeiramente discípulo, conhecer a verdade e ser livre por essa mesma verdade tem uma condição, permanecer na palavra de Jesus.
Permanecer na palavra de Jesus é acreditar e viver que Deus é a Verdade, que nele se encontra a verdade que buscamos e desejamos, uma verdade que não nos é totalmente acessível neste momento, porque não a poderíamos suportar, mas que um dia contemplaremos face a face porque a buscámos e desejámos nas nossas vidas.
Permanecer na palavra de Jesus é acreditar que ele é a Palavra verdadeira de Deus, que a sua vida é a manifestação da verdade de Deus, Deus que é amor e misericórdia, que veio e vem ao encontro dos homens para os resgatar da sua condição de finitude, da mentira das suas vidas. Por isso disse que era o caminho, a verdade e a vida.
Permanecer na palavra de Jesus é acreditar que a Palavra de Deus se fez carne, que assumiu a nossa condição humana com todas as suas realidades, menos a do pecado, para as resgatar e redimir. Os milagres, as curas e os perdões que Jesus opera com aqueles com quem se encontra são manifestações deste resgate e deste assumir em verdade de toda a nossa condição.
Desta forma, permanecer na palavra de Jesus é acreditar também em nós, é procurar a verdade que há em nós, escondida sob as máscaras da vaidade e da arrogância. Necessitamos encontrar-nos com a palavra da verdade sobre nós próprios para nos encontrarmos com a palavra verdadeira de Jesus.
Sendo verdadeiros connosco próprios, sendo verdadeiros com Cristo nosso Salvador e sendo verdadeiros com Deus Verdade essencial poderemos iniciar ou viver um processo que é inevitavelmente de liberdade e libertador e portanto de salvação e santidade.


terça-feira, 23 de março de 2010

Quem és tu Jesus?

Quem és tu? Perguntaram os fariseus a Jesus. Quem és tu perguntamos ainda hoje, pergunta cada um de nós porque inevitavelmente este homem que se diz Deus não nos deixa indiferentes. Podemos dizer que não nos interessa, que não acreditamos nele, que era mais um profeta, até que era um louco, mas tudo isso não nega nem impossibilita que passados dois mil anos ele continue a questionar-nos e a provocar-nos.
Quem és tu? E a pergunta surge mais acutilante na medida em que depois de breves anos de vida, a maior parte deles no anonimato, te encontramos preso numa cruz, condenado a uma morte dolorosa e ignominiosa. Mas isto não seria interpelante, porque muitos outros homens morreram crucificados como tu, se por esta mesma razão, por esta mesma morte não te tivessem seguido muitos outros homens e mulheres dispostos a entregar a sua vida, a serem eles mesmos crucificados para que tu fosses conhecido e conhecida a tua morte.
Quem és tu, para que durante centenas de anos homens e mulheres procurassem seguir-te nas suas fragilidades e virtudes, sacrificassem a sua saúde, a sua família, os seus gostos e satisfações pessoais, e tudo o mais por ti e por tua causa? Estariam todos loucos, seriam todos masoquistas, alienados, pobres sem mais qualquer esperança? Terão andado todos enganados?
E o que nos legaram esses mesmos homens e mulheres que te seguiram depois de morte tão escandalosa? O que seria das nossas cidades sem as catedrais, da nossa cultura sem os livros que preservaram nas suas bibliotecas monásticas, do nosso saber sem as aulas que fundaram nos claustros dos seus conventos, dos direitos dos homens sem os sermões em que se questionava se os índios não eram também homens? E tudo isto foi por Jesus, por esse homem que se disse Filho de Deus.
Estes mesmos homens e por esta mesma razão cometeram alguns crimes, bastantes barbaridades, colocaram em causa o próprio fundamento do que diziam defender, mas não foi porque acreditaram nesse fundamento, porque estavam tão certos de não haver outra resposta que o fizeram? Eram homens deste mundo, com os seus defeitos, mas como todos e cada um de nós com a sua capacidade de se apaixonar por uma causa e vivê-la até ao limite. E com paixão, ou quando nos deixamos cegar por ela, não ficamos livres de cometer erros.
Quem és tu? E a resposta surge estampada quando levantado na cruz, lugar da revelação do filho do homem e do Filho de Deus. “Eu sou”, diz Jesus, mas é-o de forma cabal na cruz. É homem que experimenta o sofrimento e experimenta a morte, é homem na passagem e na experiência inevitável de todo e qualquer homem; é Deus porque é perdão, porque é redenção, porque diz “perdoa-lhes Pai porque não sabem o que fazem” e porque entrega ao Pai o seu espírito, regressa Àquele em cujo seio sempre habitara.
Quem és tu Jesus? A resposta, a nossa resposta pessoal, tem que partir indubitavelmente da cruz, porque é ali que se revela quem é Jesus. E por esta razão é que todos os santos, todos aqueles que procuraram viver a fidelidade a este Jesus, meditaram, olharam, contemplaram e abraçavam o seu crucifixo. A pergunta e a resposta estão ali escritas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

A mulher adúltera e a justiça de Deus

O texto do Evangelho deste dia é a sequência imediata do episódio da mulher adúltera que escutámos na leitura dominical. Realizado o milagre, se assim se pode chamar, Jesus explica as razões da sua realização, retira do acontecimento toda a verdade revelada para a cabal compreensão dos discípulos.
E a verdade revelada é uma vez mais a da justiça de Deus e a sua diferença relativamente à justiça dos homens. Como aqueles escribas e fariseus a nossa justiça é fundada nas aparências, no superficial, em muitos dos nossos interesses e lucros, enquanto que a justiça de Deus é uma justiça iluminadora, uma justiça que é misericórdia porque tem em conta a natureza do homem e as suas fragilidades.
Por isso é que os fariseus e os escribas abandonaram a cena depois de Jesus ter dito que quem não tivesse pecados atirasse a primeira pedra. As suas palavras, a sua justiça revelava-se misericordiosa para com os pecadores, a pecadora, mas implacável para aqueles que sendo também pecadores se recusavam a praticar a mesma misericórdia, se deixavam guiar pelas aparências e pelos seus interesses maquiavélicos.
Jesus não podia agir de outra maneira, não pode agir ainda hoje na nossa vida de pecado de outra maneira, porque de facto ele é a justiça de Deus, ele dá testemunho juntamente com o Pai dessa justiça, e como a sua história e vida é um acto de amor e misericórdia, um acto de entrega e fidelidade, a sua justiça é misericórdia.
Nesta caminhada para a Páscoa cabe-nos a missão de nos aproximarmos dele, de nos deixarmos iluminar pela sua palavra e aceitarmos que quanto mais misericordiosos formos com os outros mais misericordiosa a justiça de Deus será para connosco.

Tomada de Hábito de frei Pedro Agostinho em 1950

Prosseguindo o levantamento e a divulgação do fundo documental dos dominicanos em Portugal no século XX apresentamos mais duas fotografias históricas, tiradas aquando da tomada de hábito de frei Pedro Agostinho Leão da Silva Cunha, no Convento de São Pedro Mártir em Sintra no dia 17 de Outubro de 1950.
Segundo o frei Vicente, que aparece nas duas fotografias, por essa data os padres do Canadá tinham mandado regressar os frades que estavam a estudar em Espanha e por isso aparecem na foto mais pequena o frei Jorge Lereno, o frei Armindo e o frei João Leite, recém chegados.

1ª Fila: Frei Adriano Teixeira, Padre Luis Sylvain, Frei Pedro Agostinho, Padre Diamantino, Pároco de Ramalde no Porto e do frei Pedro Agostinho, e Frei Bartolomeu Martins.
2ª Fila: Frei Raul Rolo, Frei Francisco Mendes, Frei João Fróis, Frei Vicente Vieira dos Santos.
3ª Fila: Frei Sérgio Astolfi, de origem italiana.
4ª Fila: Frei Gonçalo Vaz e Frei Raimundo Duarte de Oliveira.
Da Esquerda para a Direita:
Frei Vicente, Frei João Leite, Frei Pedro Agostinho, Frei Armindo Carvalho e Frei Jorge Lereno

domingo, 21 de março de 2010

Homilia Domingo V da Quaresma

O Evangelho deste quinto domingo da Quaresma apresenta-nos o episódio da mulher adultera, episódio da vida de Jesus que podemos considerar histórico ou muito provável uma vez que no seu tempo a questão da execução por lapidação estava em discussão junto dos rabinos e doutores da lei de Israel.
É um episódio que encontramos apenas no Evangelho de São João, ainda que provavelmente não seja da autoria de João, pois não só usa um vocabulário diferente do resto do texto do Evangelho, como se percebe pela leitura que foi um episódio colocado à força, como que enxertado na continuidade da narração do texto.
Os primeiros comentários ao Evangelho de São João, como o de São João Crisóstomo, desconhecem este relato e só com Santo Agostinho é que o vamos encontrar meditado e comentado. Há assim um desconhecimento, ou pelo menos uma certa reticência na sua aceitação, ainda que num texto siríaco do século terceiro como é a Didaskália ele apareça transcrito tal e qual como hoje os encontramos no Evangelho.
Isto significa que ainda que o acontecimento se tenha dado, que o texto se tenha redigido, houve uma certa dificuldade na sua aceitação. E a dificuldade prende-se com a natureza do pecado, com o adultério que não só era condenado pela lei de Israel mas que também foi condenado por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor 6,9).
Foi necessária uma certa prática da reconciliação e da penitência, uma reflexão sobre o sucedido para se perceber que a história ia e vai muito para além do adultério da mulher apanhada em flagrante, ela é apenas um motivo para a revelação dos outros adultérios e da verdadeira relação que é pedida.
Assim, convém ter em conta que como o autor do texto diz tudo foi preparado como uma armadilha para apanhar Jesus, era ele o objectivo, era ele que queriam apanhar como adultero e por isso não aparece na história o homem que estava com a mulher em flagrante, porque à luz da lei de Moisés tanto um como outro deveriam ser apedrejados até à morte. Era Jesus que eles queriam apanhar, e queriam-no apanhar em flagrante face à lei e face à sua própria palavra.
É uma armadilha mortal, porque se Jesus se coloca do lado da lei de Moisés nega toda a sua compaixão, todas as suas palavras e gestos para com aqueles que tinham sido excluídos e eram considerados pecadores. Pelo contrário se não condena a mulher coloca-se contra a lei de Moisés, e como a própria lei estabelecia quem se colocasse contra ela deveria ser apedrejado, porque como a lei era de Deus não tinha nada de injusto. O círculo de morte que estabelecem à volta da mulher apanhada em flagrante envolve assim também Jesus, pois a pena de morte para o crime da mulher como para o crime do crítico da lei era a mesma.
Face a isto, a este desafio e a uma questão de vida, porque não era uma questão retórica que estava em jogo, Jesus levanta-se para pronunciar o seu juízo, para dar a resposta que eles pretendiam. E neste aspecto é interessante notar que Jesus se levanta mudando assim como que de plano e condição, deixando a posição humana para hieraticamente assumir a posição de Deus. “Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra”.
E eles foram saindo, porque de facto tinham pecados, e o primeiro deles era o do próprio adultério, eles tinham sido infiéis a Deus ao arvorarem a própria lei como última resposta, como última realidade. A lei que lhes tinha sido dada como guia e orientação tinha sido idolatrada, tinha sido elevada à condição da própria divindade, esquecendo e subtraindo a misericórdia de Deus espelhada e subjacente à própria lei. Como lhes tinha anunciado o profeta eles tinham cavado cisternas para guardar a água mas as cisternas estavam rotas, os esquemas judiciais falhavam à essência da lei que era a misericórdia de Deus para com eles, para com todos os homens.
Abandonando o local fica apenas Jesus e a mulher, a adúltera e o verdadeiro esposo, ficam apenas Deus e a humanidade necessitada de perdão pela idolatria. E na sua misericórdia, dando cumprimento à essência da lei Jesus envia a mulher reconciliada para casa, ela que podia ter também abandonado a cena quando os outros se ausentaram. Porque razão ficou, senão porque no fundo esperava e desejava aquele perdão, o juízo de amor sobre a sua vida desencontrada?
Todos nós somos esta mulher porque quase todos os dias adulteramos a nossa condição de cristãos e filhos de Deus sujeitando-nos a outros senhores e a outros esposos, trocamos a felicidade da fidelidade do amor de Deus pelos prazeres momentâneos da nossa auto satisfação e glória. Idolatramos outras leis esquecendo-nos da verdadeira lei de Deus, da lei do amor, e neste aspecto somos também como aqueles fariseus e escribas porque nos nossos ambientes armamos os mesmos círculos de morte com as nossas críticas, as nossas invejas, o nosso azedume e até a nossa competição ou vaidade.
Necessitamos por isso ir abandonando esses esquemas, essas armadilhas, e ir deixando-nos ficar cada vez mais junto aos pés de Jesus para receber o seu perdão. E uma vez mais não podemos esquecer que se o juízo é proferido pela divindade, ela mantém-se abaixada na nossa humanidade, ao nosso nível, escrevendo no nosso pó da terra, a fórmula como lhe podemos seguir em fidelidade.

sábado, 20 de março de 2010

Jesus e a mulher adúltera

Parecia um dia normal, um dia como tantos outros. No templo, naquela manhã, apenas se ouviam os ruídos normais da preparação para o culto. Jesus tinha vindo até ali e sentado procurava ensinar aqueles que o queriam ouvir naquela manhã.
Sem se saber de onde uma multidão de homens irrompe pelos átrios e perturba o silêncio que ainda se respira. Apanharam uma mulher em flagrante adultério e trazem-na a Jesus para que a julgue, para que emita um juízo sobre ela e o pecado em que tinha sido apanhada.
É uma armadilha, uma armadilha bem preparada porque sabiam que ele estava ali, sabiam que podiam apanhar a mulher em flagrante e porque querem uma resposta de Jesus que o coloque em questão, que o conduza à morte, às possibilidades de morte que engendraram nos seus espíritos perversos.
Contudo Jesus, em lugar de lhes responder directamente à pergunta e à provocação, começa a escrever no chão com o dedo. Podemos pensar que Jesus queria ganhar tempo para obter uma resposta satisfatória, uma resposta a dar-lhes, ou também que não era um assunto dele e portanto distanciava-se com esse silêncio e indiferença. Afinal que tinha ele a ver com aquilo? Teria sido ele o companheiro da mulher apanhada em delito e que eles não apresentavam?
Podemos pensar que ao escrever no chão escrevia a sentença que imediatamente proferiria, como faziam os tribunos romanos em qualquer julgamento, que escreviam a sentença antes de ela ser lida em alta voz aos presentes e condenado.
A verdade é que não se sabe o que Jesus escrevia, João não nos diz, e por isso desde a antiguidade, Santo Agostinho, São Jerónimo e Santo Ambrósio, entre outros Padres da Igreja, viram neste gesto uma acção simbólica, semelhante à dos profetas, através da qual Jesus evocava àqueles homens acusadores um versículo do profeta Jeremias: “aqueles que se afastarem de mim serão escritos no pó” (Jer 17,13), ou então, que “o Senhor perscruta os corações, sonda os rins para dar a cada um segundo a sua conduta” (Jer 17,10). Jesus recorda assim àqueles homens o julgamento de Deus sobre os pecados de Israel e portanto o seu próprio julgamento.
São Tomás de Aquino faz uma leitura mais alegórica deste gesto de Jesus e assim vê nele a diferença da lei antiga com a nova lei. Enquanto que no monte Sinai Deus tinha escrito pelo seu próprio dedo os dez mandamentos nas tábuas de pedra apresentadas por Moisés, agora o filho escreve no pó com o seu próprio dedo. A pedra significava a dureza da lei, da antiga lei, o pó no qual Jesus escreve significa a suavidade e a leveza da nova lei de Jesus Cristo (São Tomás, Comentário ao Evangelho de João 1131).
Jesus ao escrever no chão pronuncia uma palavra que não é formalmente um julgamento, um juízo dele sobre eles, mas que inevitavelmente os remete para o tribunal individual da consciência, os remete para o confronto com a verdade.
Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, ou seja, considere-se cada um a si mesmo, entre em si mesmo, ascenda ao tribunal da sua consciência, obrigue-se a confessar, pois sabe quem é, porque nenhum dos homens sabe o que é o homem senão o espírito do homem que está nele (1 Cor 2,11).
E um a um começaram a sair, deixando a mulher apenas com Jesus. A armadilha quebrou-se e tanto a mulher como Jesus ficaram livres, ela para receber o perdão de Deus, ele para o poder dar e resgatar aquela mulher da sua condição de pecadora.
Também nós, o que há em nós de velho e viciado necessita sair para que se possa operar o perdão. Abandonemo-nos à graça e à misericórdia de Jesus.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Solilóquio de Frei José de Santa Teresa ao Santíssimo Sacramento

Solilóquio ao Santíssimo Sacramento, incluindo o Mistério da Cruz no Calvário do Padre Frei José de Santa Teresa

Amante de nossas almas / Fénix do amor soberano
Digno por tantas finezas / Mil vezes de ser amado.
Enigma estais parecendo / Entre pareceres tantos
A quem só decifra a Fé / Julgando a olhos fechados.

Enfim Senhor, vós sois Deus / Escondido entre esses raios,
Um sois, e pareceis outro / Melindres de enamorado.
Iguaria posta a todos / Que chamais por convidados
Na mesa mais liberal / Que viram séculos, e anos.

Aonde vos dais de graça / Sendo que fostes comprado
Por dinheiro, e vos vendeu / Aquele traidor ingrato.
Mas deve ser que ofendido / Já buscais o desengano
Dizendo que os interesses / Não são de amor tão honrado.

Essa é a razão porque agora / De graça vos estais dando
Porque dos amantes só / As dádivas são retrato.
Que esses efeitos vos lembrem / Nessa hóstia é ponto claro,
Mas por não ser por vingança / Vos vestis de ponto em branco.

De púrpura vos vestiram / Quando na cruz encravado,
Mas o Amor em tela branca / Quis mudar a cor de cravo.
Memórias daquelas penas / Repetis neste Sacrário,
Mas, sem queixas de ofendido / Só de finezas lembrado.

Mas que prodígios que admiro? / Se eu sei que estais de encarnado,
Como me dizem meus olhos / Que estais vestido de branco?
Sem dúvida pretendeis / Nesses disfarces sagrados
Que os olhos da alma vos vejam / Já que os do corpo se enganam.

Como quereis que vos veja / Senhor com olhos cerrados?
Assim é pois me levais / Os olhos por disfarçado.
Ora pois que às cegas chego / Qual outro ao pé do Calvário
Não com lança, mas aos pés / De vosso trono lançado.

Deixai que com as mãos assim / Chegue com tino palpando
Porque as mãos, talvez dos olhos / São substitutos galhardos.
Porem Senhor como agora / Topei aqui outro engano?
Encontro em vós quantidade / Sabendo que não estais quanto?

Valha-me a Fé que me diz / Que só quereis que gostando
Vos conheça quem vos busca, / E vos adore gostado.
Quem o negará se adverte / Que fostes por meus pecados
Um lírio roxo, e que agora / Vos vejo aí lírio branco.

Daquela fineza grande / Que na cruz obrastes, quando
Morrestes por mim, infiro / Por mais amante este caso.
Quem por amor deu a vida / Nos mais rigorosos passos
Que impossíveis não vencera / Para viver com o Amado?

E assim com digno respeito / Como merece o sagrado
Dessa fineza adeuzada / Dessa intercessão me valho.
Se minhas culpas por grandes / Me servirem de embaraço
Fazei que meus passos lentos / Se alentem com vossos braços.

Bem é verdade que temo / Senhor, meus erros passados;
Mas animo-me que sei / Destes por mim sete passos.
Dai-me a mão que se me ocupa / Alguém profundo letargo
Me livrem de alguma queda / As luzes de tantos raios.

Dai-me a mão, Senhor, que cego / Em tanta luz me embaraço
Que se tropeçar me tenham / Vossos tão abertos braços.
Mas aí tão generoso / Vos contemplo, e tão galhardo
Que quando vos peço a mão / Todo o Corpo me estais dando.

Dai-me graça porque possa /Gozar de mistério tanto
Ou já remido na Cruz, / Ou já em vós transformado.[1]

[1] FALCONI, Francisco – Rosário do Santíssimo Sacramento, Lisboa, Domingos Carneiro, 1662.

quarta-feira, 17 de março de 2010

O amor do Pai

O Senhor nosso Deus diz-nos através das palavras do profeta Isaías: “pode a mulher esquecer-se da criança que amamenta e não ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Mas ainda que ela o esquecesse, Eu nunca te esquecerei”.
Isaías dirige-se ao povo de Sião, ao povo que experimentava a desolação, a perda das estruturas sobre as quais se construía a sua identidade. Era um momento de humilhação, mas nesse mesmo momento Deus revela-se da forma mais terna, mais carinhosa, com uma imagem de maternidade que a ninguém pode deixar indiferente.
Estas palavras de Isaías dirigem-se hoje a cada um de nós, a cada um que experimenta as dificuldades de caminhar na fidelidade ao amor do Senhor e no amor dos irmãos. Face a tudo o que nos desanima, o que nos faz sentir derrotados, o que nos oprime e humilha Deus diz que não nos esquece, que não nos pode esquecer uma vez que somos fruto das suas entranhas. E as suas entranhas são de misericórdia!
Se Deus não nos esquece, não nos pode esquecer, como caminhamos temerosos no seu caminho, como tantas vezes cruzamos os braços e não nos arriscamos a viver um pouco mais audaciosamente, quer com Ele quer com os irmãos?
Este tempo da Quaresma é um tempo precioso para nos consciencializarmos de como nos devemos abandonar com mais confiança nos braços do Pai, de como devemos como filhos pródigos regressar a casa do pai com a esperança e confiança de que não deixámos de estar presentes no amor, ainda que ausentes e distantes fisicamente.

terça-feira, 16 de março de 2010

Jesus cura o paralítico da piscina

Jesus sobe a Jerusalém para uma festa e junto à piscina de Betsatá encontra um paralítico. Havia trinta e oito anos que estava enfermo.
Queres ser curado, perguntou-lhe Jesus, cheio de compaixão pelo estado daquele homem, cheio de compaixão pelo seu sofrimento. Era a primeira vez que se encontravam, o pobre homem não sabia quem ele era e por isso surpreendido pela pergunta nada lhe pede. A iniciativa é de Jesus, é ele que vem ao encontro do enfermo, é ele que vem ao encontro de cada um de nós. E a mesma pergunta baila ainda nos seus lábios, queres ser curado?
A resposta do paralítico mostra-nos que não tinha percebido nada, ou como é tão comum no Evangelho de São João ficou preso na materialidade das palavras de Jesus sem perceber de facto o que ele lhe dizia. Assim, responde a Jesus que não tem ninguém que o ajude a lançar-se para a piscina quando a água se agita. É um pobre e um pobre até da solidariedade humana, pois ninguém o ajuda a curar-se.
Jesus quer no entanto outra cura, não o quer lançar para dentro das águas, quer curá-lo pela sua própria palavra, palavra que criou as águas e as acalmou numa noite de tempestade. Jesus quer a cura total daquele homem.
Levanta-te, toma a tua enxerga e anda, ordena-lhe Jesus. E no mesmo instante o homem ficou curado, tomou a sua enxerga e começou a andar.
É uma ordem de Jesus, uma ordem que o paralítico executa sem questionar e sem hesitar. Podemos interrogar-nos como tal foi possível, porque o homem apenas se tinha queixado da falta de ajuda para se lançar à água e Jesus em nada o ajudava nesse sentido. Só a autoridade da palavra de Jesus podiam ter movido a confiança do homem.
É uma ordem e uma palavra que também hoje nos são dirigidas, porque se queremos responder à pergunta de Jesus se queremos ser curados, temos que assumir que uma resposta positiva acarreta inevitavelmente colocar-se de pé, carregar com a enxerga e caminhar.
Colocar-se de pé na nossa dignidade de homens e mulheres, de filhos de Deus, herdeiros do reino dos céus. Só de pé podemos ser quem somos, temos dignidade, podemos erguer os olhos para Deus e olhar os olhos dos nossos irmãos. Só de pé estamos em condições e com forças para carregar a nossa enxerga.
Enxerga que não é mais que a nossa condição nas suas limitações, o fardo da nossa existência tantas vezes desviada do bom caminho. São Tomás, no seu Comentário ao Evangelho de São João, diz que esta enxerga sobre a qual o paralítico repousa é o pecado e que a toma às costas quando assume a penitência por esse pecado.
Hoje carregamos a nossa enxerga quando conscientes das nossas fragilidades e limitações, das nossas infidelidades, olhamos os olhos dos irmãos, esperamos confiantemente em Deus e procuramos caminhar nas vias do bem e da verdade.
Queremos ser curados e nesse sentido à ordem de Jesus assumimos quem somos, carregamos com a nossa história tantas vezes de infidelidade e seguimos o caminho. E se alguém nos disser que não podemos seguir porque é sábado, porque não podemos carregar com a enxerga que é demasiado escandalosa, resta-nos apenas responder como o paralítico “aquele que me curou disse-me para andar e carregar com a minha enxerga”, a sua palavra e o seu poder é maior que qualquer sábado que qualquer infidelidade ou pecado. É por ele e pela sua palavra que caminho.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O pai do filho pródigo

Foi há muitos anos que o amparei nos meus braços, acabava de vir a este mundo e já cheio de energia dava os primeiros berros. O seu irmão mais velho, de volta de mim, puxava-me o manto para que lho mostrasse, queria ver o irmão mais novo. Cresceram juntos embora cada um à sua maneira, cada um com as suas particularidades.
Um dia, ainda não há muito, chegou junto de mim e pediu-me o que lhe pertencia, o que lhe era devido por ser meu filho. Há muito que eu o sabia, há muito que o esperava, a sua energia não se contentava com a rotina do dia a dia, com as normas e as regras. Como um cavalo selvagem necessitava sentir-se livre, vaguear pelas planícies verdejantes.
Dei-lhe o que lhe pertencia e com mágoa vi-o partir, vi-o abandonar o meu regaço e tudo o mais que também era dele. O seu irmão mais velho ficou comigo e ainda hoje olha por mim e por aquilo que é nosso. Do alto desta colina, da porta de casa, perscruto o horizonte na esperança de que regresse, desejoso que regresse.
Olhando o horizonte e o sol que declina, pergunto-me por onde andará, quais serão os seus caminhos, quem serão as suas companhias. No fundo do coração desejo que volte mas que volte livre e sem medo. Eu estou aqui à espera dele, de braços abertos e coração latente de misericórdia para o acolher. Que venha…
Porque não vens? Porque tardas tanto em vir? Eu não quero nada mais que o teu regresso, o regresso ao meu regaço.
Eu sei que é penoso regressar, é necessário colocar confiança no outro, confiar em mim que sou teu pai. Mas será que alguma vez te desiludi? Não te dei o que me pedistes quando o pedistes? Não te deixei livremente partir quando isso tanto me custou? Porque tens medo de mim, de onde te veio esse medo?
Sei que o medo é fruto do desconhecimento, só o que não conhecemos nos mete medo. Contudo, tu conheces-me, sabes do que é capaz o meu amor por ti. Não te dei já tanto? A liberdade, o poder, a autonomia… que te poderia dar mais que não te dei?
Aqui, no alpendre da casa, à medida que o dia se esvai espero por ti, hoje como ontem, amanhã como hoje, espero e esperarei por ti. Não posso ir ao teu encontro porque não sei por onde andas, se soubesse buscar-te-ia como uma ovelha perdida do meu rebanho. Como não sei, fico aqui, esperando como uma sentinela que desperte a aurora, que venhas e regresses. A todos os que passam pelo caminho por onde partistes digo na esperança de que te encontrem e te possam dizer: “regressa que te espero cheio de amor”.

domingo, 14 de março de 2010

Homilia Domingo IV da Quaresma

O quarto domingo da quaresma é conhecido como o domingo da alegria, “Domenica laetare”, uma alegria que encontramos espelhada no Salmo Responsorial que nos convida a louvar e a dar graças ao Senhor e encontramos no Evangelho de São Lucas na festa que o pai dá por causa do regresso do filho pródigo.
A parábola do filho pródigo é um dos trechos mais célebres dos Evangelhos, ainda que seja apenas uma história, uma parábola, que aparece no Evangelho de São Lucas. A sua importância e reconhecimento funda-se na mensagem que veicula, nessa revelação da misericórdia de Deus para com todos os pecadores que na sua humildade reconhecem o erro e regressam à verdade e à casa paterna de Deus.
A parábola na sua história e com os seus personagens constrói-se à volta da figura do pai, pai de dois filhos, um que parte e outro que fica, um que regressa e provoca a festa e outro que não quer entrar e participar da festa. É uma relação triangular, simétrica, em que o pai funciona como eixo e centro, que provoca pelas atitudes e rupturas, face a ele próprio como centro ordenador, relações completamente assimétricas.
O filho mais novo abandona a casa e o amor do pai, enquanto que o mais velho fica e permanece no amor do pai. Esbanjados os bens levados de casa, reconhecida a perda e a infidelidade, o filho mais novo regressa e o pai sai ao seu encontro. O pai que sempre tinha estado ali, que o esperava e por isso o reconhece ainda de longe e vai ao seu encontro para o cobrir de beijos.
O filho mais velho regressa também a casa, não de esbanjar os bens do pai como o irmão mais novo, mas como fielmente sempre tinha feito de um dia de trabalho. Regressa a casa mas não quer entrar e então o pai sai também ao seu encontro, suplicante para que entre e participe da festa e da sua alegria.
O pai é o mesmo, a atitude é a mesma e tanto um filho como o outro são buscados, procurados para que entrem e estejam com ele, participem da sua alegria e do seu amor. A atitude do pai é apenas amor e ternura, por um e por outro, ainda que um amor e uma ternura lúcida, justa, pois reconhece a situação de cada filho. O pai reconhece a fidelidade do filho mais velho, a sua permanência junto dele, mas de uma forma terrível reconhece também a situação do filho mais novo, ele estava morto. O filho mais novo estava morto enquanto que o filho mais velho sempre esteve vivo. Era por isso necessário festejar e participar da festa, uma festa de vivos e de vida.
Aos olhos do pai os filhos estão simétrica e diametralmente opostos mas a atitude e reacção face ao seu amor por ambos pode colocá-los inversa e assimetricamente opostos, porque para o pai o que conta, o que lhe importa, não é o que os filhos fizeram, o que cada um fez, mas aquilo que lhe permitem fazer naquele momento. O que importa não é o acolhimento que o pai dispensa aos filhos mas a abertura que os filhos dispensam ao acolhimento do pai. O pai esteve sempre lá, o pai foi ao encontro de cada um deles quando regressaram.
E é aqui que reside a tragédia e o horror desta parábola de Jesus, porque o filho mais novo, que agiu mal, regressa a casa para pedir perdão e ser acolhido pelo pai, ele vem aberto e disposto ao que o pai possa fazer com ele, vem remotamente esperançado do perdão do pai, enquanto que pelo contrário o filho mais velho regressa a casa cheio dos bens que lhe pertencem, presunçoso da presença constante e fiel, incapaz no entanto de aceitar o perdão, de aceitar que o pai acolha na mesma condição aquele que o tinha abandonado e ultrajado com o esbanjamento dos bens. Revela-se assim o abismo tremendo que separa os dois filhos e o abismo que os separa do próprio pai, abismo que não é a história pessoal de cada um, mas a capacidade de acolhimento do perdão do pai.
A simetria existente rompe-se e cada um dos filhos distancia-se ou aproxima-se do pai na medida do arrependimento, do reconhecimento das suas faltas e incapacidades, do acolhimento do amor do pai por si e pelo outro. O amor do pai exerce-se e tanto para um como para outro apenas há uma condição, que deixem o pai exercer o seu amor e a sua misericórdia, que se rendam aos seus critérios, que o deixem ser pai.
Para cada um de nós esta parábola é um convite à mesma atitude, é um convite à nossa abertura ao dom de Deus, ao seu perdão, porque dessa forma é que podemos colaborar e cooperar na obra de reconciliação divina em nós.
Deus veio e vem ao nosso encontro mas a eficácia da sua misericórdia, do seu perdão, só pode acontecer na medida em que o acolhermos e deixarmos operar. São Paulo na Carta aos Coríntios deixa-nos o mesmo convite, o mesmo apelo, “deixai-vos reconciliar com Deus” e o tempo da quaresma é o tempo privilegiado para fazermos esta experiência. Não deixemos passar o tempo nem a oportunidade.

sábado, 13 de março de 2010

O regresso do filho pródigo

Voltemos para o Senhor, Ele nos curará, Ele tratará as nossas feridas, Ele nos fará viver de novo.
São palavras do profeta Oseias, um convite para o povo de Israel regressar confiante ao Senhor seu Deus. Podem ser também palavras para cada um de nós como o foram para o filho pródigo da parábola que amanhã contemplaremos no Evangelho de São Lucas.
Cada um de nós, a humanidade inteira, é este filho pródigo, este filho mais novo que pediu todos os seus bens e saiu de casa para procurar a satisfação e o prazer de viver de acordo com os seus critérios e as suas paixões.
Em casa tínhamos tudo, as sandálias novas, as roupas ricas, as jóias e os anéis para os dedos, o vitelo gordo, o amor do pai e a companhia do irmão mais velho. Éramos como noivos adornados para a sua noiva e tudo estava pronto para o banquete. Mas quisemos deixar tudo isso, preferimos a incerteza da aventura, da vida levada sem responsabilidades, o risco de tudo ter e tudo perder, a essa vida que nos parecia tão normal, tão cheia mas ao mesmo tempo tão vazia. Necessitávamos perder tudo, experimentar a degradação mais humilhante para nos apercebermos do que tínhamos e éramos e do que perdêramos.
Quantas vezes ao ver as alfarrobas que os porcos comiam nos vinha à memória os licores e os manjares da casa paterna, o leite e o mel, os vinhos doces e o azeite que escorria pela barba do pai. Como era doloroso sentir o estômago vazio e saber que havia tanta comida em casa do pai.
Mas como voltar, como regressar e pedir perdão? Não significa isto reconhecer que errámos, que fizemos o que não devíamos? Não significa isto morrer para as nossas vaidades, para o nosso orgulho, para a nossa auto satisfação e egocentrismo?
Contudo, se não morrermos para nós próprios não poderemos voltar, seremos incapazes de dar até o primeiro passo, de fazer todo o longo caminho de regresso. A nossa morte, a morte das nossas realidades é que nos pode colocar em caminho, é que nos avança para os passos a dar.
E chegaremos? Como chegaremos? Cheios de feridas e marcas do caminho e dos desastres, dos encontros que foram desencontros, do mal que nos fizemos a nós próprios por não querer reconhecer como estávamos e estamos necessitados de uma mão, de um abraço, de um beijo. Chegaremos?
Mas não conhecemos nós o nosso pai? Não fomos criados por ele? Porque tememos? Se nos colocarmos em caminho, se dermos os primeiros passos ele virá ao nosso encontro, ver-nos-á de longe e virá até nós. Não vem agora porque ainda não demos os primeiros passos, porque ainda não estamos profunda e verdadeiramente convictos de que queremos regressar, de que queremos fazer o caminho de regresso e passar pela experiência das nossas próprias mortes.
O pai está à nossa espera, já vem ao nosso encontro para nos abrir os braços e nos acolher, ponhamos força na nossa convicção e nas nossas pernas e demos os primeiros passos ao seu encontro. Ele já vem aí.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Encontro de Jesus com o escriba

Um escriba aproximou-se de Jesus e perguntou-lhe: Qual é o primeiro dos mandamentos.
E Jesus respondeu-lhe…
Quanta gente se aproxima de Jesus, uns para o interrogarem, outros para serem curados, alguns para lhe armarem ciladas teológicas, multidões que o querem fazer rei porque os saciou com um pouco de pão, um ou outro que pretende mudar de vida, que pretende segui-lo, uns quantos que se reconhecem pecadores e se abeiram dele para serem libertados.
Como eles também nós nos podemos e devemos aproximar de Jesus, trazendo-lhe o que somos e o que fazemos, as nossas infidelidades e os nossos desejos de o seguir, as nossas dúvidas e interrogações. Necessitamos apresentar-lhe o que nos toca, o que nos faz e ainda nos falta fazer para lhe sermos mais fiéis.
Necessitamos coragem e confiança, mas se as tivermos, e apresentarmos a Deus em Jesus o que nos traz inquietos e preocupados, alcançaremos uma resposta como encontrou o escriba que lhe perguntou pelos mandamentos. E mais que uma resposta, uma confirmação da nossa fé e da nossa proximidade no caminho, na medida em que como o escriba reconhecermos que o Senhor tem razão e fala a verdade nas respostas que nos dá.
Apresentemos ao Senhor Jesus nosso Deus as nossas questões, as nossas dúvidas e ansiedades, o que nos tira a paz, e o Senhor nos dará uma resposta que nos confirmará na nossa busca do Reino de Deus.

Solilóquio de André Nunes da Silva ao Santíssimo Sacramento

Solilóquio ao Santíssimo Sacramento incluindo o Mistério da Cruz às Costas de André Nunes da Silva

Divina obreia, que cerra / Aquela carta que ao golfo
Do mundo sempre inconstante / Serve de roteiro, e porto.
Em cujo papel, a Fé / Advertida lê, sem olhos,
Em cinco breves palavras / De todo um Deus, o ser todo.

A quém Sábio instituíste, / Humano, e divino Esposo,
Porque no mar da Paixão / Vos decifrasse os escolhos.
Quando o Soberano Lenho / Fiando sacros despojos
Na morte a vida buscáveis, / Na pena acháveis o logro.

A aquele madeiro Santo, / Que foi por divino abandono,
Para vossa morte porta, / Para nossa vida porto.
Chave foi com que do céu / Nos abristes o tesouro,
Que para ser chave mestra / Até com guardas a noto.

Porque estava destinada, / Para ser remédio nosso,
Lhe destes Senhor os braços, / Sobre lhe dares os ombros.
Tanto afectais nesse lenho / Os tormentos rigorosos,
Que de novo lhe dais glórias, / Se vos dá penas de novo.

Cruz santa, aumentai-lhe as dores, / Que de seus extremos colho,
Que se lhe afrouxais as ânsias / Vos há-de virar o rosto.
Das duas acções que teve / Árvore sacra convosco,
No princípio, e fim das penas, / Na vida, e na morte o provo.

Enquanto penas lhe destes / Vos deu os braços gostoso,
Porém tanto que afrouxaram, / Vos voltou as costas logo.
Quando ruínas padecia, / Por culpas o mundo todo,
Então porque não caísse, / Pusestes à ruína o ombro.

Oh quanto! Senhor, ò quanto / Pesadas as culpas noto,
Pois quem sustenta o criado / Pediu à terra socorro.
Mas sendo vós Deus, e sendo / A Carga pecados toscos,
Impróprio era em vós parar, / Parar na terra era próprio.

Do incruento sacrifício, / Recordação do penoso,
Que nesta cruz padecestes / Por salvar o mundo todo.
De minha dor lastimado / Oh pelicano amoroso,
Este pródigo admiti, / Purificai este monstro.

Que sendo-me (doce Amor) / Do mundo no vario golfo
Roteiro o Pão, tábua a Cruz / Tomarei seguro porto.[1]

[1] FALCONI, Francisco – Rosário do Santíssimo Sacramento, Lisboa, Domingos Carneiro, 1662.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Restauração da Província Dominicana de Portugal

Há quarenta e oito anos atrás, neste mesmo dia onze de Março, era restaurada a Província de Portugal da Ordem dos Pregadores.
Extinta em 1834 com a expulsão das Ordens Religiosas só em 1962 viria a ser restaurada depois de um longo processo de reconstituição e para o qual contribuíram diversos irmãos e muitos sacrifícios.
As fotografias anexas são da festa da visita do Mestre da Ordem Frei Michael Browne, realizada aquando da restauração da Província.




































A cura do mudo por Jesus

Um mudo é curado e a multidão fica admirada. Outros olham o milagre e questionam invejosamente no seu coração o poder com que o milagre é feito.
O mudo é curado, curado não pelo poder do senhor das moscas, significado etimológico de belzebu, como alguns pensam em seu coração, mas pela própria Palavra que se fez carne, que se fez homem como nós para nos curar de todos os nossos mutismos, surdezes e cegueiras.
Foi a Palavra que nos criou, foi a Palavra que nos transmitiu os mandamentos, foi a Palavra que ecoou na voz dos profetas, foi a Palavra que veio até nós, foi a Palavra que na cruz nos resgatou da morte que ela mesma experimentou na nossa carne.
Como é possível que ainda estejamos mudos, que ainda nos deixemos distrair pelo ruído de fundo do senhor das moscas que não quer mais que distrair-nos da Palavra que nos pode dar a vida?
A vinda da Palavra até nós é um convite à abertura dos nossos ouvidos bem como ao louvor que a palavra nos possibilita. Vivamos assim as realidades diversas da Palavra, da que nos é possível e da de Deus que é verdade.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Convento de São Domingos de Benfica em 1551

Em 1551, o Arcebispo de Lisboa D. Fernando de Meneses Coutinho de Vasconcelos ordenou ao seu Guarda Roupa Cristóvão Rodrigues de Oliveira que elaborasse um relatório dos rendimentos do arcebispado e das diversas igrejas que o compunham, bem como das gentes que habitavam e formavam a cidade.
Tendo primariamente um objectivo económico, este inquérito permite-nos hoje ter uma visão da cidade de Lisboa não só a nível dos rendimentos eclesiásticos, mas também social e religioso, pois permite-nos um conhecimento do universo congregacional que habitava a cidade e das devoções que nela se desenvolviam através das irmandades e confrarias.
O resultado deste levantamento foi publicado poucos anos mais tarde, possivelmente em 1554, na oficina de imprensa de Germão Galhardo. O autor justifica a publicação do sumário, pois assim se chama a obra, dizendo que os dados recolhidos eram demasiado importantes para o conhecimento da cidade e da sua vida para que ficassem reservados apenas a uma pessoa ou a um grupo restrito.
Obviamente que neste Sumário encontramos dados sobre os conventos dominicanos que havia na cidade. Sobre o Convento de São Domingos de Benfica encontramos o seguinte:
O convento situa-se a meia légua fora dos muros da cidade e nele habitam 33 frades professos.
Tem 5 capelas de missa quotidiana e administradores e ainda celebra mais algumas missas pelas almas dos fiéis defuntos.
Vale a renda do convento 2.500 cruzados. E tem 6 servidores para a comunidade.[1]

[1] SUMÁRIO em que brevemente se contém algumas coisas assim eclesiásticas como seculares que há na cidade de Lisboa. Lisboa, Germão Galhardo, 1554. BNL-RES-84-V – http://purl.pt/14435

terça-feira, 9 de março de 2010

O Postulantado Dominicano Português

O postulantado, ou pré-noviciado como também é conhecido, é o tempo que os candidatos à Ordem experimentam e vivem antes de entrarem para o noviciado. É assim a primeira etapa do aspirante no caminho até à profissão solene, momento da decisão e compromisso definitivo com a Ordem.
Durante muitos anos este tempo de aprendizagem e aproximação não teve um carácter institucional e ficava ao critério dos irmãos e das comunidades, que conheciam o aspirante, o tempo e o modo que tinha que viver para entrar para o noviciado. O próprio Livro das Constituições da Ordem, no seu número 167, ainda hoje deixa às Províncias a liberdade da organização deste tempo de aproximação e conhecimento mútuo, porque se para o candidato é um tempo de conhecimento da Ordem, da sua vida e história, para a Ordem e a Província é também um período para o conhecimento das capacidades do aspirante a essa mesma vida.
Depois do Concílio Vaticano II e mais recentemente devido às circunstâncias dos próprios candidatos, que chegam cada vez mais com uma cultura religiosa muito deficitária, optou-se em geral e nomeadamente a nível das Províncias Ibéricas por determinar um período de um ano para este tempo do postulantado. É um ano para conhecimento, adaptação e crescimento, um ano de transição gradual da vida laical para a vida religiosa consagrada.
Desde Julho de dois mil e nove, e face a uma necessidade de reorganização de estruturas e rentabilização de recursos, numa reunião de todos os Definitórios Ibéricos, decidiu-se pela constituição de um único Postulantado para todas as Províncias Ibéricas, optando-se pela comunidade e convento de São Paulo de Valladolid para sede dessa realidade.
A Província de Portugal, pela sua particularidade histórica e linguística, e ainda que integrando o projecto comum, ficou com alguma autonomia e é nesse sentido e por essa razão que mantém o seu postulante numa comunidade portuguesa. De futuro a opção poderá ser outra, mas caberá sempre à Província e aos que a governam a decisão.
Coube também à Província, já há alguns anos atrás, a decisão de integrar ou não os candidatos que surgem no Vicariato de Angola, estrutura dependente ainda da Província portuguesa por número insuficiente de irmãos para constituir uma Provincia. Face às suas realidades culturais e aos problemas que experiências anteriores suscitaram a nível de integração e reintegração, optou-se a nível Provincial por deixar que os candidatos do Vicariato fizessem a sua formação no continente africano. Desta forma podem experimentar de uma forma mais concreta o que é a vida dominicana no continente africano, as várias realidades africanas, como também permitir uma avaliação mais real e concreta, porque feita no local, das capacidades para a vida religiosa e dominicana de cada um.
Neste sentido e quando nos perguntam por comunidades de língua portuguesa e experiências mais transatlânticas temos que ter em conta estas realidades e circunstâncias bem como a filiação de cada irmão a uma Província. Assim um frade do Brasil é e deve ser filho da Província do Brasil, enquanto que um português é deve ser filho da Província de Portugal, embora como em tudo haja excepções e um brasileiro possa entrar na Província de Portugal e um português entrar na Província do Brasil. Tendo comunidades locais, com história e missão local, devemos procurar que os candidatos integrem essas comunidades, as Províncias de cada país ou região, para que também a sua vocação tenha uma realidade que permita um aferir da verdade e sentido vocacional. De contrário poderemos estar a permitir uma certa ilusão ou até alienação vocacional pois o chamamento de Deus é sempre para uma realidade histórica e actual que é a nossa, a da nossa circunstância, com tudo o que ela comporta.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Homilia Domingo III da Quaresma

A resposta de Jesus a estes homens que comentam os acidentes trágicos e a morte de alguns dos habitantes de Jerusalém deixa-nos um pouco perplexos, uma vez que encerra em si uma condenação, uma inevitabilidade, que depois a parábola da figueira elimina do seu âmbito.
Mas se tal acontece, se as palavras de Jesus são duras, isso fica a dever-se à lógica que está subjacente a cada discurso, a lógica de Deus e a lógica do homem que são completamente diferentes.
Para os discípulos que apresentaram a Jesus a morte dos galileus por Pilatos e os que morreram soterrados pela torre de Siloé a lógica utilizada foi a da retribuição, a da condenação linear por causa dos seus maus procedimentos. É a nossa concepção humana mais frequente, a que está mais de acordo com a nossa índole e por isso a que utilizamos para enquadrar as relações de Deus com os homens.
Ainda hoje e passados dois mil anos sobre as palavras de salvação de Jesus continuamos a pensar assim e por isso muitos de nós nos interrogámos sobre o que estaria errado, o que tinham feito de errado aquelas pessoas que morreram nas catástrofes do Haiti, da Madeira e do Chile. Inevitavelmente pensamos sempre em termos de retribuição, de condenação por aquilo que fazemos ou os outros fazem de errado. Estamos ainda na lógica do dente por dente, olho por olho.
Ora a lógica de Deus é diferente, a concepção de Deus das suas relações com os homens é diferente e por isso Jesus diz que todos aqueles que morreram não morreram por serem mais pecadores que os outros. A própria história da salvação mostra-nos como Deus sempre procurou agir assim, como Deus se preocupa com os homens e deixa a porta aberta à conversão, à mudança de vida.
A leitura do Livro do Êxodo e o encontro de Moisés com a sarça-ardente é um exemplo disso, Deus quer enviar Moisés ao Egipto, um homem foragido daquele mesmo lugar, para libertar o seu povo. Deus ouviu e conhece o sofrimento do povo e não o pode suportar mais. Deus conhece os nossos sofrimentos e também não os suporta, espera no entanto que nos aproximemos da sarça para que nos possa enviar como libertadores, ainda que sejamos também nós foragidos dessa terra e desse povo necessitado de libertação.
Mais tarde, quando o povo atravessa já o deserto e comete o pecado da idolatria e a ira de Deus se inflama, Moisés vai interceder pelo povo e vai mostrar a Deus como tinha sido o seu amor que tinha trazido o povo até ali e portanto não se podia contradizer nesse amor libertador aniquilando-o por causa de uma falta. Deus abre-se à possibilidade da conversão.
Neste sentido a parábola da figueira, que Jesus conta face a esta lógica humana da retribuição, assumindo simbolicamente toda a história da salvação, é por isso muito elucidativa porque o vinhateiro que se oferece para cuidar e adubar a figueira deixa em aberto todas as possibilidades. Ele não presume que dos cuidados nasçam os frutos, talvez possa vir a haver algum fruto, ou seja está aberto a tudo ainda que da sua parte tudo faça para que haja esses frutos esperados e devidos.
A história de Deus com os homens tem sido isso mesmo, não tem sido outra senão a tentativa de que o homem produza algum fruto. Nesse sentido estabeleceu a Aliança com o povo de Israel, escolheu-o para ser seu mensageiro entre todos os povos, enviou-lhe os profetas quando eles foram infiéis e incapazes de cumprir a missão que lhes tinha sido destinada e por fim querendo que de facto todos os homens tivessem acesso à sua salvação enviou-lhes o próprio Filho. Enviou-nos o seu próprio Filho.
De facto Deus quer a nossa vida, a nossa salvação, vem ao nosso encontro, mas deixa-nos a liberdade de o acolhermos e de produzirmos frutos, ele não nos pode forçar a isso, apenas nos aduba e cuida com a sua palavra e o seu amor.
E é nesta nossa resposta, na possibilidade da nossa resposta, que se insere a segunda parte do comentário de Jesus aos acidentes e às mortes, “se não vos converterdes morrereis todos da mesma forma”. Não é que a morte seja querida por Deus, não é que ele se queira vingar das nossas más acções através de uma morte dolorosa ou violenta, bem pelo contrário, essa morte a acontecer acontecerá porque nos integrámos, porque assumimos a violência e a morte que é inerente ao próprio pecado e da qual não nos poderemos libertar se não nos voltarmos para Deus, se não abandonarmos o circuito do encerramento violento e mortal. Há uma lógica da morte e da violência no pecado e só abandonando esse pecado escapamos às consequências dessa violência e dessa morte.
Para que tal aconteça temos que ter presentes a advertência de São Paulo aos Coríntios, quem julga estar de pé tome cuidado para não cair, temos que estar vigilantes para não nos deixarmos levar e arrastar por essa lógica e essa violência.
Mas sobretudo e para além da nossa vigilância temos que apoiar-nos e fortalecer-nos na esperança de Deus em nós, nessa esperança que aguarda que depois de todos os cuidados ainda sejamos capazes de produzir algum fruto. Com as nossas limitações é bem possível que não mas com a graça de Deus é bem possível que sim.
Deixemo-nos assim cuidar por Deus e abramo-nos à acção da sua graça em nós dispondo do pouco que temos e somos para que ele faça alguma coisa de nós. Como dizia numa revelação a Santa Faustina tudo o demais é dele apenas a nossa miséria é nossa, ofereçamos-lhe portanto o que é nosso para que o deixe de ser.

sábado, 6 de março de 2010

Homilia Domingo II da Quaresma

A caminho da Páscoa o momento da transfiguração, depois das tentações do deserto a manifestação da glória de Jesus, uma nova revelação da sua natureza e filiação divina.
Para nós e aos olhos humanos é uma cena extraordinária, algo verdadeiramente sublime e por isso como Pedro desejamos e desejaríamos construir três tendas para continuar a usufruir do privilégio da contemplação da glória de Deus.
Contudo, do outro lado, para os outros olhos, os de Deus e da corte celeste, de que Elias e Moisés são cidadãos, esta transfiguração é algo tão normal como banal, ou até extraordinária na medida em que acontece por momentos aquilo que para eles é uma realidade constante. Os cidadãos do céu contemplam a glória da transfiguração constantemente, participam dela e dela recebem a sua glória.
A transfiguração de Jesus é no entanto algo inquietante porque nos deixa nessa expectativa e nessa interrogação do porquê ali, só ali e só para aqueles três, Pedro, Tiago e João. Porque não se transfigurou Jesus diante dos outros discípulos? Porque não se transfigurou mais vezes? Porque não deixou que a sua glória se manifestasse mais vezes?
A ressurreição foi o outro momento da manifestação da sua glória mas a verdade é que ninguém estava lá presente, ninguém a pôde ver para a testemunhar como viram e testemunharam Pedro, Tiago e João esta transfiguração que o Evangelho de Lucas registou.
Jesus passou a sua vida com uma grande discrição, quase um anonimato de que os milagres são apenas pequenos sinais, como estrelas na noite escura, da sua natureza e poder divino. Porque foste tão discreto Senhor? Porque não te manifestastes mais gloriosamente? Certamente outros e muitos mais teriam acreditado em ti.
E aqui é que reside o problema, aqui é que está a questão, no acreditar, na fé em Jesus Cristo, porque a sua vida, a sua revelação foi um processo que deixou e deixa ao homem a possibilidade e a liberdade de acreditar.
Assumindo a nossa condição humana, revelando-se na nossa carne, o Filho de Deus não se nos quis impor, bem pelo contrário, levemente como quem chama por nós, sussurrou-nos a sua glória e deixou-nos a liberdade para o aceitarmos ou não, para o reconhecermos ou não. Deus quer a nossa fé e não a nossa subjugação, quer a nossa adesão livre e não a nossa escravatura temerosa.
Por isso mesmo Jesus nunca se impôs a ninguém e mesmo depois da ressurreição quando apareceu aos discípulos, àqueles que o tinham acompanhado, nunca se lhes manifestou de modo glorioso, apoteótico, de modo a deixá-los presos mais pelo medo que pela fé. Bem pelo contrário manifestou-se como eles o conheciam, como o tinham conhecido, caminhando à beira do mar, comendo com eles o peixe que tinham pescado.
O Jesus glorioso da ressurreição, o transfigurado pela vitória da morte aparece aos seus amigos e discípulos como humanamente sempre o haviam conhecido.
A transfiguração é assim o inverso, ou a negação da própria glória, e se por momentos Jesus se manifesta na condição da sua essência e natureza não é para assustar os discípulos, para os aprisionar na sua relação, mas para confortá-los, sustentá-los na sua fé que dentro de muito pouco tempo iria ser posta à prova.
A transfiguração é neste sentido mais um gesto de amor de Jesus, um gesto para fortalecimento da pouca fé daqueles que estavam destinados a serem as colunas da Igreja. Um gesto de amor porque se adapta e limita à condição daqueles mesmos que são testemunhas, porque como era de todos sabido, do próprio Deus que se manifesta, ninguém pode ver o rosto de Deus, a sua glória, e continuar vivo. Deus manifesta-se a Pedro, Tiago e João na medida em que lhes era possível contemplar a sua glória.
Nesta caminhada penitencial para a Páscoa a transfiguração aparece-nos assim como uma revelação da dimensão do Deus que veio e vem ao nosso encontro para nos salvar, uma dimensão humana, uma dimensão que somos capazes de suportar. E neste sentido não podemos nem devemos procurar Deus com o objectivo de nos subjugarmos, de prescindirmos de nós, de nos perdermos. Deus quer-nos livres, filhos, e sobretudo inteiros, íntegros naquilo que nos constitui como homens e mulheres de verdade. Deus não quer nem necessita de marionetas, de bonecos de sombra chineses, Deus quer e necessita de homens e mulheres que se transfiguram revelando na sua humanidade a glória divina que os habita e à qual estão destinados para toda a eternidade.
É este o caminho para a Páscoa, o mais poderá ser alienação e não o queremos viver.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Solilóquio de André Nunes da Silva ao Santíssimo Sacramento

Solilóquio ao Santíssimo Sacramento, incluindo o Mistério da Coroa de espinhos, de André Nunes da Silva

Divino e gostoso Trigo, / Que entre espinhas fecundastes
Pois quanto mais vos cobriam / Mais vos regavam com sangue.
A vós minha alma se chega: / Mas, para que a glória alcance
Que nos dais no trigo, é bem / Que pelas espinhas passe.

Desse circulo glorioso / Aonde assistis triunfante,
Fazei Senhor, que a Coroa, / Que já padecestes, baixe.
Bárbaro junco a teceu, / Que quis vosso amor constante,
Por coroar-me de glórias, / Que espinhas vos coroassem.

Oh pasmo! Ò terror! Que em Deus, / E nos homens, se juntassem
De uma parte tanto amor, / Tanto ódio da outra parte.
Por satisfazer piedoso / Do divino amor os lances,
Unistes os dois extremos / Da grandeza, e da humildade.

Para seres rosa pura / Na Aurora da Cruz, fragrante,
Vos deu a Coroa espinhos. / Vos deu nácares o Sangue.
A medida do tormento / Picado estáveis de amante,
Como em tanta aberta boca / Purpúreas línguas aplaudem.

Os rubis, e as esmeraldas / Feudo a humanas majestades
Coral húmido os formou, / Foram juncos penetrantes.
Tanto o golfo do tormento / Esgotou vosso amor grande,
Que o lavro da penitência / Nessa Coroa o alcançastes.

De coral coberta a neve / Ao mundo mostrou no transe,
Que o claro Sol de justiça / Se punha em ondas de sangue.
Alma, agora, agora, podes. / (não te detenhas cobarde)
Lavar as manchas das culpas / Em tão caudalosos mares.

Neste golfo, cujas ondas / De meu peito a pedra batem,
Pois logras marés de rosas, / Será razão que te embarques.
Que tendo o Pão por [por] estrela / E tendo por mar o Sangue
Tomarás porto seguro / Farás ditosa viagem.[1]

[1] FALCONI, Francisco – Rosário do Santíssimo Sacramento, Lisboa, Domingos Carneiro, 1662.