quinta-feira, 26 de julho de 2012

Muitos justos desejaram ver o que vós vedes (Mt 13,17)

É este o desabafo de Jesus para os seus discípulos, depois da constatação que nem os milagres nem as palavras, ainda que ditas sob a forma de parábola, conseguiam converter o coração de muitos daqueles que o procuravam e escutavam. Tal como a profecia de Isaías tinha anunciado, viam e escutavam, mas não se convertiam, e portanto demonstravam que nem viam nem escutavam verdadeiramente.
Contudo, ao longo da história da revelação de Deus muitos homens e mulheres, profetas e justos, tinham desejado ver e escutar o que naquele momento era possível ver e escutar, o próprio Deus falando a linguagem humana, Deus presente entre os homens como um deles, excepto no pecado.
Entre os homens e mulheres que tinham tido este desejo encontra-se Joaquim e Ana, aqueles que o Evangelho apócrifo de São Tiago apresenta como os pais daquela que seria a mãe do Salvador, a Virgem Maria.
Durante muitos anos, e quase até à sua velhice, tinham desejado e esperado um filho, mas a esterilidade de Ana não lhes permitia essa felicidade. Apesar disso, a fé e a confiança deste homem e mulher não esmoreceram e como tal alcançaram o bem desejado, uma filha na sua velhice.
Desta forma, e à semelhança do que se passará mais tarde com Isabel e Zacarias, outro casal estéril da família, é pela confiança no poder de Deus, que não desampara aqueles que o procuram, que o milagre acontece.
A história do nascimento de Maria, da sua concepção, para além das semelhanças com a história de São João Baptista, assemelha-se profundamente à história do profeta Samuel, pois tal como este também Maria é entregue ao cuidado do templo sendo ainda uma criança.
O autor do dito Proto Evangelho de Tiago insere assim os progenitores de Maria, São Joaquim e Santa Ana na grande linhagem da história da salvação, associando-os a uma fragilidade humana traduzida na esterilidade e a uma grandeza da fé traduzida na esperança e na entrega da filha alcançada de Deus.
Sem verem, Joaquim e Ana acreditaram na promessa de Deus, acreditaram que era possível uma outra realidade, a filha desejada. E quando a viram presente, foram capazes de a entregar como dom que era, foram capazes de a deixar de ver para que fosse totalmente de Deus entregando-a no templo.
Estes são afinal os desafios da fé, esperar sem ver, acreditar sem ver, e quando se vê ou se alcança o esperado, entregá-lo para que possa continuar a ser dom, liberdade contra a apropriação que nos conduz à idolatria.
 
 
Ilustração: “A educação da Virgem”, de Giovanni Battista Tiepolo, na igreja de Nossa Senhora da Consolação, Veneza.

5 comentários:

  1. Frei José Carlos,

    Bem-haja por recordar-nos os desafios da fé, ...” esperar sem ver, acreditar sem ver, e quando se vê ou se alcança o esperado, entregá-lo para que possa continuar a ser dom, liberdade contra a apropriação que nos conduz à idolatria”.
    Peçamos com humildade ao Senhor que reforce a nossa fé e a confiança no poder de Deus, “que não desampara aqueles que o procuram, e o milagre acontece”, como nos recorda no texto da Meditação.
    Obrigada, Frei José Carlos, pela partilha da Meditação, profunda, que encoraja-nos e desafia-nos. Que o Senhor o abençõe e proteja.
    Peçamos à Virgem Santíssima que interceda junto de Jesus para que continue a restabelecer-se.
    Bom descanso.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

    ResponderEliminar
  2. Frei José Carlos,

    Permita-me, Frei José Carlos, que partilhe de novo o texto da oração que transcrevo:

    RECEBER
    CADA DIA COMO
    UM DOM


    Ajuda-me, Senhor, a receber cada dia como um dom. Ajuda-me a reconhecer que nada me falta, que
    Tu me dotaste de tudo aquilo que é necessário para fazer da vida uma coisa feliz e com sentido. Mesmo
    que me falte o universo inteiro, nada verdadeiramente me falta. Mesmo que eu espere muito do amanhã,
    devo saber que tenho tudo hoje. Ajuda-me a despoluir o olhar agravado por juízos, consumos, ressentimentos.
    Que eu saiba acolher a vida como a oportunidade que ela é.

    (In, Um Deus Que Dança, Itinerários para a Oração, José Tolentino Mendonça, 2011)

    Peçamos ao Senhor que nos ampare no trilhar do nosso peregrinar com fé e confiança no poder de Deus, “que não desampara aqueles que o procuram, e o milagre acontece”, como nos recorda no texto da Meditação.
    Peçamos à Virgem Santíssima que interceda junto de Jesus para que continue a restabelecer-se. Bom descanso.
    Oremos ao Senhor para que todos crentes e não crentes que partiram para férias recebam a bênção e a protecção do Senhor e possam usufruir o descanso que desejam e merecem.
    Votos de um bom domingo.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

    ResponderEliminar
  3. Frei José Carlos,

    Permita-me, Frei José Carlos, que partilhe de novo o texto da oração que transcrevo:


    A VENTANIA
    DE DEUS

    Penso nos vários sentidos que a palavra Espírito tem no texto bíblico: sopro, hálito vital, vento ...
    E é isso que me apetece rezar esta manhã, Senhor. Sopra sobre o indeciso, venha o sussurro do Teu alento
    íntimo renovar o hesitante, a ventania de Deus nos mova. Parecemo-nos tanto a embarcações travadas,
    velas erguidas sem a energia de novas praias, de intactos e aventurosos cabos ... Os nossos barcos rodam apenas
    em redor de si próprios. Manda, Senhor, a pulsão do Espírito, o ânimo criador que incessantemente nos coloca ao
    encontro da novidade e da beleza do Teu Reino.

    (In, Um Deus Que Dança, Itinerários para a Oração, José Tolentino Mendonça, 2011)

    Peçamos ao Senhor que guie o Frei José Carlos no Caminho da Luz e o Espírito Santo interceda junto de Deus para que continue a restabelecer-se com determinação, confiança e paz.
    Que o Senhor o ilumine, abençõe e proteja e que cada dia da semana seja um dia de Deus.
    Bom descanso.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

    ResponderEliminar
  4. Espero, Frei José Carlos, que este silêncio seja sinal do envolvimento mais próximo e mais envolvente do seio familiar. Com tantos corações a rodeá-lo entregando-o ao cuidado do Senhor, desejo-lhe umas boas e retemperantes férias.
    Um abraço,
    GVA

    ResponderEliminar
  5. Frei José Carlos,

    As leituras que vamos fazendo ou revisitando, as preocupações que vamos vivendo a diversos níveis, as partilhas, em particular as espirituais que, se entrelaçam com a satisfação do bem-estar fisíco, num ser único que somos, leva-me a partilhar, de novo, uma oração para rezarmos e um poema do Padre José Tolentino de Mendonça, se me permite.


    Faz-nos trilhar, Senhor, a estrada da confiança. Dá-nos um coração capaz de amar serenamente aquilo que somos ou que não somos. Ensina-nos a devolver a todos os teus filhos e a todas as criaturas a extraordinária Bondade com que nos amas. Ensina-nos que é possível olhar a noite não para dizer que pesa em todo lugar o escuro, mas que a qualquer momento uma Luz se levantará.

    Dá-nos ousadia de criar e recriar continuamente, mesmo partindo daquilo que não é ideal, nem perfeito. E quando nos sentirmos mais frágeis ou sobrecarregados recebamos, com igual confiança, a nossa vida como Dom e cada dia como um dia Teu.

    (In, Livro “Um Deus que dança” do Pe. José Tolentino Mendonça)


    Poema: O Fermento de Deus

    Os que se afadigam com duros fardos,
    Os que esgotaram entre canseiras sua porção:
    Como ramo que reverdece terão ainda vigor.

    Os de ânimo abatido levantarão o olhar;
    Uma estrela guiará nossos passos dispersos:
    Não mais seremos expostos à solidão.

    Ao que chora será dito: <>

    Ao da margem alguém gritará:
    <>

    Os que lamentam tesouros gastos
    Reaprenderão a esperar pelo orvalho.

    E em qualquer canto da terra,
    Quem reparte a vida e a beleza
    Será chamado o fermento de Deus.

    Pe. José Tolentino Mendonça

    Peçamos ao Senhor que o Frei José Carlos continue a restabelecer-se, encontrando a harmonia interior e exterior, acompanhado por Jesus que não nos abandona, pela Família, pelos Irmãos, pelos amigos (as).
    Que o Senhor abençõe e proteja o Frei José Carlos.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

    ResponderEliminar