quinta-feira, 23 de março de 2017

Um homem forte guarda o seu palácio. (Lc 11, 21)

Jesus realiza mais um milagre, expulsa um demónio, e o mudo liberto da possessão começou a falar. Como sempre a multidão que assistiu ao acontecimento comenta, reage, uns louvando outros criticando, uns acreditando outros querendo provas. Uma discussão sobre o poder se gera à volta de Jesus.
E é nesta discussão que Jesus nos apresenta aquela que podemos considerar uma realidade propensa à tentação, a confiança nas nossas forças e nas nossas armas, porque um homem forte e bem armado pode guardar o seu palácio. Quantas vezes não fazemos esta experiência, quantas vezes não nos fiamos no que temos, seja força, seja poder, seja prestígio? Quantas vezes acreditamos estar seguros com o que temos!
No entanto, e como Jesus alerta os seus ouvintes, nós desconhecemos a força do outro, pode aparecer alguém mais forte e mais bem armado que nos pode deitar por terra, que nos pode retirar as armas e as bases da segurança e obrigar a entregar o nosso palácio.
As história bíblicas apresentam-nos vários exemplos desta possibilidade, e apresentam-nos mesmo a possibilidade de isso acontecer com as forças obscuras que muitas vezes nos impedem de fazer o bem e fazer as coisas bem feitas. Forças que nos desarmam e vencem.
Jesus passou também por esta experiência nas tentações do deserto, mas se o adversário não o venceu, não o desarmou nem se apoderou do palácio da sua vontade, foi porque Jesus se apoiou na Palavra de Deus, porque soube responder às invectivas do inimigo com as armas da Palavra divina e a assistência do Espirito Santo.
Hoje Jesus assegura-nos esse mesmo apoio e por isso nos diz que só vence quem está com ele, só junta quem junta com ele, só vive quem vive com ele, ele é o homem forte no qual nos podemos apoiar para defender o nosso palácio.
Jesus venceu o maligno e venceu-o com armas poderosas, as armas do amor e da obediência, da humildade e da confiança em Deus Pai, e oferece-nos a sua protecção, se nos acolhermos a ele, se nos colocamos sob a sua guarda e protecção. Esta é a condição, e não há meios-termos, ou estamos com ele ou estamos contra ele. É afinal uma escolha radical e total que compromete toda a minha vida.
Procuremos pois fazer as escolhas acertadas, sem medo de nos acolhermos sob a protecção de Jesus, à guarda dos seus exércitos celestes.

 
Ilustração:
“Ecce homo com as Arma Christi”, de Jan Mostaert, Hamburg Kunsthalle, Alemanha.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Não vim revogar mas completar! (Mt 5,17)

Se havia alguma dúvida, relativamente à sua relação com a Lei, Jesus não deixa que ela se mantenha. Ele não é contra a Lei, os mandamentos, os preceitos, confiados por Moisés ao povo para que ele pudesse seguir o caminho da vida.
Os seus frequentes contenciosos com os escribas, os doutores da Lei, os fariseus e os anciãos do povo é que nos podem provocar essa ideia, mas ela está bem longe do propósito de Jesus que no contexto do Sermão da montanha diz claramente que não veio revogar a Lei, mas pelo contrário completá-la.
Se alguém tinha alguma pretensão a uma revolução, ela cai por terra, e de uma forma radical quando Jesus diz que nem o mais pequeno sinal deixará de ser cumprido, que aquele que cumpriu a lei na sua radicalidade e assim a ensinar aos outros será o maior no reino dos Céus.
Contudo, se os mandamentos e os preceitos permanecem como uma referência inquestionável, a palavra e a vida de Jesus mostram-nos que devem adquirir uma outra dimensão, que não podem esquecer o fim para que foram constituídos, ou seja a vida e o caminho da felicidade, o homem e a sua realização plena.
Jesus confirma a Lei de Moisés, não rejeita nenhum dos pequenos preceitos, vive-os no seu quotidiano, mas redimensiona-os à luz da dimensão profética e da verdade que os constitui. Jesus liberta os mandamentos e os preceitos da rigidez moralizante, do espirito condenatório e elitista, da dimensão marginalizante que tinham adquirido com o tempo.
Jesus assume os mandamentos e os preceitos mas partindo sempre do homem e das suas condições, das suas circunstâncias, que Ortega y Gasset tanto gostava de referir, pois as leis não têm sentido no vazio, numa realidade sem relações. Jesus assume os mandamentos e os preceitos como um desafio a superar, como uma dimensão profética de uma realidade a que o homem está destinado e para a qual não pode deixar de se inclinar.
E são estas dimensões, profética e humana, que estão implícitas quando Jesus deixa como resumo de toda a Lei o mandamento do amor como ele o viveu, “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. O cumprimento perfeito dos mandamentos passa assim pela imitação de Jesus, pela imitação do seu amor sem medida. É o amor que marca a diferença!

 
Ilustração:
“Cristo e o jovem rico”, de Andrey Mironov, 2010.

terça-feira, 21 de março de 2017

Perdoar até sete vezes? (Mt 18,21)

Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-lhe se um irmão o ofendesse o deveria perdoar até sete vezes. Conhecendo nós, antecipadamente, a resposta de Jesus, podemos dizer que Pedro estava a ser muito pobrezinho, muito pouco fraterno, a ficar muito aquém do que Jesus pedia.
Contudo, não podemos deixar de ter presente que o número sete é o símbolo da plenitude, o que significa que afinal Pedro não estava a ser mesquinho, mas estava já a elevar a fasquia do perdão. A pergunta de Pedro encerra já um projecto de plenitude, de um perdão enorme.
A resposta de Jesus, que Pedro deve perdoar setenta vezes sete, ultrapassa contudo a dimensão da plenitude, ela visa mostrar que há uma outra dimensão do perdão a assumir, a dimensão divina, de contrário o homem nunca chegará a perdoar verdadeiramente.
Para compreender a resposta de Jesus temos que remontar à leitura do livro do Génesis, à escalada de violência que acarreta a vingança. Em Génesis 4,24 um descendente de Caim clama a todos os que o querem ouvir: “Matei um homem porque me feriu, matei um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec será vingado setenta vezes sete!”
Jesus conhecendo o coração do homem, sabendo como facilmente se inclina para a vingança e para guardar no coração o ressentimento, pede a Pedro que entre na lógica do amor, que assuma viver na espiral da misericórdia, pois só deve forma se pode perdoar mais que sete vezes e mais que setenta vezes.
Após a ressurreição, Pedro vai fazer a experiência das palavras de Jesus, do perdão concedido setenta vezes sete, da espiral de misericórdia que é convidado a viver. Após as diversas negações na noite da paixão, Pedro necessita do perdão de Jesus, mas não apenas do perdão humano em toda a sua plenitude, Pedro necessita do perdão misericordioso que o restabelece e restaura na sua dignidade.
“Pedro, tu amas-me”, é a pergunta de Jesus. E a cada resposta afirmativa de Pedro, Jesus confirma-o no seu amor, “apascenta as minhas ovelhas”. É o perdão desmesurado, o perdão do amor, o perdão que restaura a dignidade de Pedro, o perdão divino, o perdão daquele que sabe tudo e tudo pode assumir em si pelo seu amor infinito.
A Quaresma é o tempo favorável para fazer a experiência do perdão dado e recebido sem medida, com um amor infinito, com uma dimensão divina. Saibamos pois acolher a oportunidade perdoando misericordiosamente, restaurando o outro na sua dignidade com o perdão transfigurado pelo amor de Deus.

 
Ilustração:
“São Pedro penitente”, de Gerard van Honthorst, Bonhams Auctions 2007.

segunda-feira, 20 de março de 2017

A casa de meu Pai. (Lc 2,49)

O seu nome não é referido, como se fosse uma personagem de segundo plano, mas José está lá, no templo de Jerusalém, junto de Maria, procurando Jesus, sofrendo pela incerteza do sucedido. No momento do encontro uma palavra remete-o ainda mais para o anonimato: não sabíeis que eu devia estar na casa de meu pai?
A casa de meu pai, o templo de Jerusalém! E a casa de Nazaré? Aquelas humildes quatro paredes que o acolhiam e lhe davam protecção, entre as quais aprendia o ofício de carpinteiro e a fé dos patriarcas? Aquela casa que Maria alegrava com a sua ternura como o lírio do campo alegra os vales e que ele cuidava como um templo divino, o lugar sagrado da habitação do amor!
Podemos assumir que José compreendeu as palavras de Jesus, a sua referência a Deus como Pai, pois Deus é o pai amoroso de todo o povo eleito, mas também não podemos deixar de assumir que ainda assim as palavras de Jesus foram como uma espada que lhe trespassou o coração.
Todos criamos expectativas, todos desejamos os filhos como propriedade nossa, como uma realização pessoal, e afinal como Jesus para José eles são apenas um dom, um desafio ao medo e ao amor. Quem nunca sentiu o medo da responsabilidade face à contemplação do filho amado?
Ver crescer Jesus junto de Maria, partilhando a intimidade do lar e aprendendo a profissão de carpinteiro, deve ter sido uma alegria e uma fonte de acção de graças para José. No silêncio e na humildade, nesse quase anonimato, o homem justo participa do projecto de Deus cooperando sem pretensões, assumindo as responsabilidades com amor, procurando ser o servo fiel que espera a vinda do seu senhor para o servir, para lhe entregar o fruto do seu amor transfigurado pela renúncia à vontade própria.   
Nesta nossa caminhada quaresmal o encontro de Jesus no templo entre os doutores e a resposta que dá a Maria e a José põem de relevo o sacrifício pedido a José, a abnegação dos seus projectos e sonhos para viver uma aventura de amor no silêncio e na humildade do anonimato.
José na vida de Jesus e na história da nossa salvação convida-nos a morrer para nós próprios, a morrer na nossa vontade, para que em nós nasça e viva o Filho de Deus.

 
Ilustração:
“A morte de São José”, de Bartolomeo Altomonte, Dorotheum, Viena.

domingo, 19 de março de 2017

Homilia do III Domingo da Quaresma

O Evangelho deste terceiro domingo da Quaresma apresenta-nos o encontro de Jesus com a samaritana junto ao poço de Jacob. É um texto longo, com um diálogo muito bonito e rico, e por essa razão um dos textos de formação para aqueles adultos que se preparam para receber o baptismo.
Todos nós estamos presentes naquele encontro na pessoa da samaritana, e por isso como baptizados não podemos deixar de regressar sempre a este encontro e perceber o que ele nos ilumina no seguimento de Jesus, na nossa busca de fidelidade àquilo que Deus nos pede.
Neste sentido, iniciamos a nossa reflexão e abordagem a partir da própria samaritana e da sua vida e circunstância do encontro. É uma mulher que sofre certamente de marginalização e por isso vem àquela hora tão imprópria buscar água ao poço. Poderíamos dizer que vem às escondidas tal como Nicodemos foi de noite ao encontro de Jesus.
A marginalização deriva da sua vida relacional, dessa busca de realização em relações humanas que não acabam de a satisfazer. A samaritana é uma mulher de amor, que sofre pelo amor que busca e não encontra. E é mergulhada nessa insatisfação que o Senhor vem ao seu encontro quando pede que lhe dê de beber.
Mas a samaritana não é apenas uma mulher marginalizada, vitima do amor que busca, ela é também uma mulher forte, uma mulher que é capaz de responder a quem a provoca, como acontece com Jesus. O pedido tem assim uma resposta altiva e assertiva, pois como era possível que um judeu lhe pedisse água, quando tal pedido acarretaria uma contaminação, uma perda de pureza legal. Seria uma provocação? E como tinha ele uma água viva, se não tinha um balde e até lhe estava a pedir de beber?
A samaritana não é tonta, bem pelo contrário, é uma mulher sábia e diligente que é capaz de manter um diálogo, de desenvolver uma busca para encontrar respostas, até para aquela situação estranha e provocadora daquele judeu sentado à beira do poço que lhe pede de beber e imediatamente lhe oferece uma água viva que não se vê de onde lhe provém.
É nesta estranheza e discrepância que se vai desenvolver todo o diálogo entre ela e Jesus, colocando de manifesto algo que nos diz respeito como é o desencontro entre aquilo que queremos ouvir de Deus, as respostas que esperamos, e o que Deus verdadeiramente nos diz.
Envolvida no seu sofrimento, nas suas preocupações, a samaritana deseja uma água que a liberte de ter que voltar ao poço, uma água que lhe facilite a vida. Contrariamente ao desejado, Jesus oferece-lhe uma água viva, uma fonte que brota em si própria, mas que não a liberta das obrigações quotidianas e da responsabilidade da lida da casa e de voltar ali para buscar água.
Também nós muitas vezes queremos ouvir de Deus as respostas que nos convêm, que nos facilitariam a vida, que nos resolveriam os problemas, mas Deus dá-nos outra resposta, que é sempre uma resposta de vida, um dom que nos permite mais do que desejamos, que nos permite olhar os problemas por outro prisma, que é uma nascente de realização em nós. Necessitamos por isso estar atentos, de ouvidos e coração bem abertos para ouvir a voz do Senhor.
Neste encontro não podemos ficar apenas na pessoa da samaritana, necessitamos olhar Jesus que tem um papel activo, provocador, e muito pedagógico. Jesus sabiamente vai ao encontro daquela mulher, confrontando-a com a verdade da sua vida e da sua busca, com a sua própria fé, mas sem a condenar ou descriminar pela sua vida.
Mesmo quando lhe pede que vá chamar o seu marido, não é para lhe atirar em cara a sua desordem afectiva, mas porque de acordo com os costumes e leis a mulher não deveria falar com estranhos senão diante do seu marido. A conversa ia já adiantada, Jesus tinha já preso a atenção da samaritana, e por isso, para a sua continuação, era necessária a presença do marido. O assunto era já demasiado sério para se permitir uma conversa ligeira.
Jesus não marginaliza nem condena, não discute nem entra em controvérsias com a samaritana, apenas e como bom mestre a conduz ao encontro da verdade, à necessidade de haver adoradores em espirito e verdade, de homens e mulheres que reconheçam a sua sede de Deus e a busquem saciar com amor e verdade. Jesus conduz a samaritana a si própria, centra-a na sua fé e esperança e mostra-lhe o potencial que está escondido e ela tem buscado sem saber encontrar.
Não podemos deixar de notar que o evangelista traça neste encontro uma dimensão de Jesus muito humana, um homem cansado, com sede e até com fome, pois os discípulos foram à cidade comprar alimentos. Contudo, esta dimensão humana, esta imagem de fragilidade não pode deixar de nos sensibilizar, uma vez que ela é expressão do mistério da encarnação, desse mistério de Deus que se fez homem e frágil como nós para que nos pudéssemos encontrar com ele.
Quando Jesus mergulha na fraqueza da samaritana, expressa por exemplo na sua preguiça de não ter que voltar à fonte, está também ele fraco, cansado, poderíamos dizer sem vontade de voltar ali mais, partilhando a mesma condição daquela mulher. Deus coloca-se ao nosso lado, partilha as nossas dores e cansaços, para nos oferecer a água viva do Espirito, do seu Espirito que nos ilumina e resgata dessa condição.
Tal como nos dizia São Paulo na Carta aos Romanos da segunda leitura, Deus prova o seu amor por nós nesta fraqueza, partilhando a nossa vida quando somos pecadores, derramando em nossos corações o seu amor pelo Espirito que nos foi dado. E é com esta confiança e nesta esperança que devemos viver, que devemos buscar cada dia a fidelidade.
A cada um de nós, nas alegrias e tristezas das nossas vidas, nas conquistas e nos desaires, Jesus continua a dizer “dá-me de beber”. Que o saibamos escutar, que não nos deixemos distrair pelas preocupações e ruídos do mundo, para que tal como ele saibamos dizer: o meu alimento, o que verdadeiramente me mata a sede e a fome é fazer a vontade do Pai.

 
Ilustração:
1 – “Jesus e a Samaritana”, de Angelika Kauffmann, Neue Pinakothek, Munique.
2 – “Jesus e a Samaritana”, de Odilon Redon, Städel, Frankfurt am Main.

sábado, 18 de março de 2017

O pai saiu ao seu encontro. (Lc 15,28)

Jesus apresentou-lhes mais uma parábola, a eles que eram publicanos e pecadores, e a eles que eram escribas e doutores da lei. Todos tinham vindo para o ouvir, ainda que as razões fossem diferentes. Contudo, a história servia a uns e servia a outros, abrissem os ouvidos e dispusessem o coração à novidade.
Um pai com dois filhos, um pai que ama infinitamente, dois filhos que desconhecem o amor do pai. Um filho que parte e outro que fica, um que esbanja tudo o que recebe e outro que tudo guarda. Situações e histórias diferentes mas o mesmo centro, o pai que ama sem medida.
E um pai que assume no seu amor uma atitude, a do acolhimento inquestionável, a disponibilidade para ir ao encontro dos filhos, pois ambos regressam a casa, cada um da sua situação e história.
O pai da parábola é a imagem do Pai do Céu, de Deus que vem ao nosso encontro, estejamos nós mais próximos ou mais longe, cheguemos nós de histórias complicadas de aventuras e esbanjamentos ou de histórias quotidianas de rotina e austeridade.
Deus vem até àquele que pecador se dirige ao seu encontro, não querendo já nada mais que ser tratado por servo, mas que o Pai acolhe com alegria e dignidade, fazendo uma festa porque aquele filho estava morto e voltou à vida.
Deus vem ao encontro daquele que não quer entrar, que ainda que partilhando a intimidade da casa desconhece o amor do Pai por todos os filhos, desconhece a alegria do acolhimento e do encontro. Deus vem ao encontro daqueles que não querem entrar de livre vontade, e daqueles que partilhando a casa não permitem que outros entrem.
Nas fraquezas e desastres de cada filho, o pai sai sempre ao encontro, ao encontro de cada um deles e das suas situações, não querendo nada mais que cada um entre na festa do seu amor, da largueza do seu coração, faça a experiência do seu amor.
Diante deste Pai, em que acreditamos como nosso Deus Salvador, o que nos impede de nos dirigirmos a ele? O peso e a escuridão dos nossos pecados, da nossa via errante e aventureira? O peso e o desânimo das nossas rotinas? O nosso egoísmo e avareza face aos outros e face aos bens, diante do amor que nos devemos?
Deus nosso Pai não se interessa por isso, a sua misericórdia é capaz de aniquilar as nossas misérias, a ele interessa-lhe a nossa disposição ao encontro e à participação na sua festa, no seu amor. Um coração aberto e disposto a esse amor fará sempre a experiência de Deus acolhedor e em caminho até si.
Levantemo-nos pois para ir ao encontro do Pai que vem já de braços abertos!

 
Ilustração:
“O regresso do filho pródigo”, de Nikolay Losov, Museu Nacional de Belas Artes da República Bielorrússia.   

sexta-feira, 17 de março de 2017

Mandou os servos para receber os frutos. (Mt 21,34)

O Evangelho de São Mateus informa-nos que a parábola dos vinhateiros homicidas se dirige aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, que eles perceberam bem a mensagem e só não prenderam Jesus porque tiveram medo do povo.
Na parábola está entendida a história da revelação, os profetas que Deus tinha enviado e não tinham sido escutados, que tinham sido assassinados, mas está também e de forma profética a realidade que se perfila no horizonte para Jesus, o filho e herdeiro enviado numa última tentativa de colecta dos frutos.
Assim, face a esta primeira leitura, podemos assumir que a parábola pouco tem a dizer-nos, fala-nos de acontecimentos do passado, dirige-se a destinatários concretos que somos capazes de identificar e não somos nós. Mas será bem assim?
Sãos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, surpreendentemente, que nos colocam em jogo, ao dizerem que o dono entregará a sua vinha querida a outros vinhateiros que lhe entreguem os frutos a devido tempo. Nós sabemos que somos nós, que a pedra rejeitada por aqueles homens, e que é o Filho, se tornou para nós pedra angular.
Cumpre-nos assim perguntar como estamos a cuidar a vinha, que frutos dispomos para entregar, mas também como estamos a acolher os servos que o dono da vinha nos envia hoje para receber esses frutos? Porque o Senhor continua a mandar os seus servos.
A vinha nova, cuidada e murada que nos foi confiada, é a vinha da graça divina, da filiação divina alcançada por Jesus Cristo. Os frutos que somos chamados a apresentar são os frutos do Espirito Santo, a caridade, a alegria, a paz, a paciência, a benignidade, a bondade, a longanimidade, a mansidão, a fé, a modéstia, a continência e a castidade.
Os nossos irmãos, homens e mulheres que se cruzam connosco todos os dias na intimidade da família, nos postos de trabalho, no anonimato da rua, são os servos que o Senhor continua a enviar para que possam recolher os frutos da sua vinha. O dono da vinha não vem por si próprio recolher os frutos, mas envia os seus servos, os homens e mulheres.
Que amor lhes retribuo? Que alegria lhes partilho? Que paz lhes concedo? Como os acolho com paciência? Como sou capaz de perdoar a falta cometida? Que tempo lhes concedo para mudarem? Como lhes testemunho a minha fé? Como as minhas atitudes e modos de ser os provocam? Que castidade desenvolvemos nas relações que estabelecemos?
Os servos do Senhor continuam a vir bater à porta, a procurar os frutos devidos, que tenho eu para lhes dar, sabendo que cada um deles é tão proprietário da vinha como eu pela morte do Filho que nos fez herdeiros.

 
Ilustração:
“Parábola dos vinhateiros homicidas”, de Andrey Mironov, 2013.

quinta-feira, 16 de março de 2017

Há entre nós um grande abismo! (Lc 16,26)


A parábola do rico e do pobre Lázaro é uma peça extraordinária de redacção, um texto em que se percebe que o Evangelista São Lucas teve muito cuidado na construção dos contrastes, na apresentação dos elementos que evidenciam os abismos que construímos.
É a situação do rico e do pobre neste mundo, o abismo entre a pobreza e a riqueza que os separa, é o abismo entre o seio de Abraão e a mansão dos mortos, é o abismo da satisfação de um e a infelicidade de outro, nesta vida e na outra.
A parábola mostra-nos como é muito fácil construir um abismo, uma separação intransponível, basta-nos para tal faltar com um dedo que pode saciar a sede, um gesto simples que pode ser preterido porque estamos distraídos com a nossa satisfação.
Aquele homem rico, satisfeito com os seus prazeres, nunca foi capaz de olhar para Lázaro, de partilhar com ele o que quer que fosse, mas vai solicitar a sua ajuda para matar a sede que o atormenta. Poderíamos dizer, que atrevimento!
Assim sendo, a primeira lição a retirar desta parábola é a do perigo da riqueza para a construção de muros, de abismos, que nos impedem de olhar e aproximar do outro. Mas há outra lição ainda a retirar e que se prende com a construção de abismos porque não estamos atentos à Palavra, abismo que desenvolve todos os outros abismos.
Quando o desgraçado rico pede a Abraão que envie Lázaro a casa dos seus irmãos, pois diante de um morto podem converter-se e mudar de vida, a resposta de Abraão é que possuem já os profetas e Moisés para poderem mudar de vida. Não será um ressuscitado a provocar-lhes a alteração de vida.  
A resposta insinua inevitavelmente uma falta de resposta face à ressurreição de Jesus, mas mostra também que é pela Palavra que se pode mudar de vida, que se podem construir pontes, que não nos encerramos em nós próprios.
Não é a ressurreição, e neste caso de Jesus, que pode mudar a atitude de alguém, mas a fé nas suas palavras, na revelação de Deus, em Moisés e nos profetas. É a adesão à Palavra, é a escuta da Palavra e a busca da fidelidade a essa Palavra que impedem a construção dos abismos.
A ressurreição de um morto pode provocar temor, espanto, até um propósito de mudança, mas não a convicção da palavra dada e recebida. Os discípulos de Jesus vivem e testemunham a ressurreição porque acreditaram na palavra, porque estabeleceram uma relação. É a escuta da Palavra de Deus que vai orientar o nosso coração e nos vai ajudar a olhar toda a realidade de forma diferente.
Procuremos pois escutar atentamente a Palavra para inviabilizar qualquer abismo entre nós e com Deus.

 
Ilustração:
“O Rico e o pobre Lázaro”, de Hendrick ter Brugghen, Central Museum in Utrecht.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Não sabeis o que estais a pedir! (Mt 20, 22)

A mãe dos filhos de Zebedeu, Tiago e João, aproxima-se de Jesus para lhe fazer um pedido, que o mestre ordene que no seu reino os seus filhos se sentem à sua direita e à sua esquerda. Pedido motivado certamente pelo amor de mãe, mas ainda assim surpreendente e até estranho no grupo dos discípulos de Jesus. Tendo em conta a reacção dos outros discípulos, da sua indignação, a mãe de Tiago e João tinha ido longe de mais no que estava a pedir.
Esta ousadia da mãe dos filhos de Zebedeu torna-se ainda mais gritante e provocadora na medida em que pouco antes Jesus tinha anunciado, pela terceira vez, o fim que o esperava em Jerusalém, a sua paixão e morte, a negação e rejeição por parte de todos. Como poderia aquela mulher estar a fazer tal pedido face ao anunciado?
O despropósito do pedido agrava-se ainda mais se tivermos em conta tudo o que o Evangelho de São Mateus nos apresenta previamente das palavras e encontros de Jesus. É o encontro com o homem rico que não é capaz de se separar das suas riquezas, é a pergunta de Pedro sobre a recompensa daqueles que como eles deixaram tudo para seguir Jesus, e por fim é a parábola dos trabalhadores do final do dia que recebem tanto como os da manhã, pois os últimos serão os primeiros.
Jesus já tinha vindo a colocar as coisas no devido sítio, a apresentar a radicalidade do seguimento e como era necessário desprender-se de muito, até do que se poderia considerar justo, para o seguir, para ter um lugar consigo, um lugar no último lugar que é o primeiro. Mas enquanto Jesus falava de serviço e humildade, de dom de si próprio sem esperança de recompensa, os discípulos apenas pensavam na promoção, nos lugares de poder e governo.
Na lógica e nos planos de Jesus ser o primeiro significa ser o servo de todos, ser aquele que é capaz de se desprender das coisas que lhe são mais caras e esperar confiante que a recompensa virá, não pelo trabalho realizado, mas pela justiça do amor vivido. O importante é o vivido verdadeiramente. E Jesus abre-nos o caminho deste processo de vida através do seu dom total, do dom até à cruz.
Seguir Jesus é assim partilhar com ele os nossos sofrimentos, eliminar os dos nossos irmãos, amar e perseverar nesse amor apesar das dificuldades, é entregar a sua vida no serviço humilde do quotidiano, muitas vezes sem qualquer agradecimento, sem qualquer glória, escondidos como o fermento na massa. Neste silêncio o Pai mede o peso do nosso amor e chama-nos a entrar na sua intimidade, a partilhar a glória do mistério da encarnação.
A mãe dos filhos de Zebedeu e todas as circunstâncias que tornam o seu pedido despropositado, infeliz, convidam-nos a repensar a nossa oração e o que pedimos a Deus. Estaremos a pedir o que nos convêm, ou estaremos a pedir que em nós se faça vida a vontade de Deus? Senhor afasta de mim este cálice, contudo não se faça a minha vontade mas a tua!

Ilustração:
“Encontro de Jesus com os filhos e mulher de Zebedeu”, de Paolo Veronese, Musée de Grenoble.   

terça-feira, 14 de março de 2017

O maior entre vós será servo. (Mt 23,11)

É diante da multidão que Jesus fala aos seus discípulos sobre os escribas e os fariseus e a duplicidade de vida que levam, sobre a hipocrisia do que exigem aos outros mas se recusam a praticar e viver. É um aviso, um apelo, para que assim não aconteça com eles.
Jesus inicia esta série de imprecações e críticas contra os fariseus e escribas, que vai ocupar todo o capítulo vinte e três do Evangelho de São Mateus, colocando em evidência o exterior, as marcas externas que apenas têm como objectivo diferenciar, demarcar-se dos outros, aparentar aquilo que se não é ou vive. São as ricas vestimentas, as borlas e filactérias, os primeiros lugares, os títulos e deferências que enganam o outro, a máscara do orgulho para se ser considerado pelo que se não é.
Com os seus discípulos tal não pode acontecer, não podem viver à custa da imagem e para a imagem, para o que os outros podem pensar. E tal não pode acontecer porque antes de mais são irmãos, são todos irmãos, e viver como irmãos supõe humildade e verdade, calor humano, um espirito de serviço e sobretudo um dom de entrega muito forte.
Os irmãos que vivem como irmãos não estão dependentes do que os outros podem pensar, vivem em liberdade porque se conhecem e reconhecem, porque o outro é parte de si, porque sabem que o que entregam e confiam uns aos outros é verdadeiro e irrepetível, inegociável.
E como viver como irmãos representa um esforço, uma aplicação contínua, Jesus apresenta-se como modelo a seguir, mostra-nos a verdadeira fraternidade em termos práticos, de uma forma radical humilhando-se até à morte pelos seus irmãos, pelo amor de os resgatar da morte.
Sabemos que os discípulos não participaram deste último momento, com excepção de João e as mulheres que acompanharam Jesus até à crucifixão, mas sabemos como foram objecto de um gesto que os transtornou e os marcou de forma indelével neste aprender da humildade e do serviço aos outros, de ser o maior sendo o servo de todos.
Quando o mestre se ajoelhou diante de cada um deles para lhes lavar os pés a transformação aconteceu, no fundo do coração aqueles homens pressentiram o que mais tarde perceberam, que o amor não tem limites, que o amor serve na maior humildade, que o amor se entrega totalmente.
Não era o maior de entre eles que se humilhava, pelo contrário esse até teve alguma dificuldade em perceber o gesto de Jesus, mas era o próprio Mestre que se inclinava e como um servo lhes lavava os pés, até àquele que depois o traiu e entregou. Como poderiam eles aspirar a maior glória que a glória da humildade do serviço manifestada pelo Mestre? Como podemos nós aspirar a outras glórias?

 
Ilustração:
“Jesus lavando os pés aos apóstolos”, de Palma Giovane, San Giovanni in Bragora, Veneza.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Sede misericordiosos! (Lc 6,36)

No regresso de uma viagem apostólica, respondendo às questões que os jornalistas lhe colocavam, o Papa Francisco disse: “quem sou eu para julgar?”.
O mesmo somos nós convidados a dizer quando nos encontramos diante de um irmão que fez alguma coisa que nos destabiliza, que nos provoca nos nossos esquemas, expectativas e até valores. Quem sou eu para julgar o outro?
Afinal sou tão frágil como ele, transporto em mim pulsões e traumas que também me levam a respostas e actos absurdos, incoerentes. Se em mim há algo que desconheço e em algumas situações me domina sem que eu queira, como vou saber o que há no coração e na vida do outro e provocou aquele acto ou situação?
Face às nossas fragilidades, a misericórdia a que o Senhor nos convoca e desafia é basicamente a de um espirito de nova oportunidade. Todos temos direito a uma nova oportunidade, e por isso Jesus diz que se um irmão nos vier pedir perdão sete vezes temos que estar dispostos a perdoar setenta vezes.
É esta disponibilidade que também experimentamos na misericórdia divina, pois apesar dos nossos pecados e infidelidades Deus permanece fiel e disposto a perdoar. No Senhor está o perdão e a misericórdia, e como conhece o nosso coração, como conhece o mais opaco de nós próprios, não pode deixar de se compadecer e perdoar.
Esta natureza e inevitabilidade de Deus não podem contudo deixar-nos à vontade, na medida em que o perdão e a misericórdia divina exigem um eco da nossa parte, uma cooperação se assim se pode dizer, e que se traduz no perdão e no acolhimento dos nossos irmãos que falham e nos ofendem.
Como diz Jesus, não julgar, não condenar, perdoar, é estender a mão à misericórdia e ao perdão de Deus, é introduzi-los na nossa vida através da experiência realizada. Só quem perdoa e se compadece pode perceber e sentir o perdão de Deus e a sua misericórdia.
A medida que usarmos será a medida usada connosco, e por isso a largueza de acolhimento e compreensão, a misericórdia entregue será retribuída de forma múltipla e abundante. Porque fomos fiéis no pouco, que é a nossa condição humana frágil e pecadora, ser-nos-á confiado o cêntuplo nesta vida e na glória eterna.
Procuremos pois viver neste espirito, assumindo sem preconceitos, mas com amor, um amor profundo e divino, as palavras de Jesus na cruz: “perdoa-lhes Pai pois não sabem o que fazem”.

 
Ilustração:
“A Crucifixão”, de Philippe de Champaigne, Museu do Louvre.

domingo, 12 de março de 2017

Homilia do II Domingo da Quaresma

Todos os anos no segundo domingo da Quaresma somos confrontados com a narração da transfiguração de Jesus no alto do monte Tabor. Surpreendentemente, e apesar de só três discípulos terem presenciado este momento e de lhes ter sido dito para não revelarem nada a ninguém, os três evangelistas sinópticos narram este acontecimento como se fosse algo verdadeiramente significativo, demasiado importante para ser esquecido ou ficar apenas na privacidade de poucas testemunhas.
Sabemos que a transfiguração ocorre depois de Jesus ter anunciado aos discípulos a sua paixão e morte em Jerusalém, o futuro que o espera, e que se afasta bastante do que são as expectativas dos discípulos. Podemos dizer que a transfiguração é um apoio, um vislumbrar do que afinal está em jogo e vai para além do inevitável e trágico da morte, um incentivo a passar a barreira da dor e do sofrimento da perda do mestre.
Contudo, e sabendo também nós o pouco que os discípulos percebiam e intuíam da pessoa e missão de Jesus, é de todo plausível assumir que tão pouco perceberam alguma coisa do momento da transfiguração. Só as aparições do ressuscitado lhes terá permitido perceber o que afinal lhes tinha sido dado contemplar na transfiguração, a glória do Filho escondida na nossa roupagem humana.
E é esta uma das razões para a importância e significado dados pelos evangelistas ao momento da transfiguração, pois o que de facto está em jogo é a nossa humanidade, a humanidade onde habita a glória de Deus.
A assistência de um público numeroso àquele momento teria como consequência a busca do espectacular, do maravilhoso de Cristo, a busca de um super-homem, quando não é esse o objectivo da manifestação. Se tal tivesse acontecido Santo Ireneu perderia a oportunidade e as razões para dizer que a glória de Deus é o homem vivo, o homem vivo na sua humanidade e chamado a santificar essa humanidade assumindo plenamente a glória que o habita.
A transfiguração é de facto um vislumbre da glória divina, glória que habitou entre nós na pessoa e na carne de Jesus Cristo pelo mistério da encarnação, e que nos assumiu também ali naquele momento quando envolveu Pedro Tiago e João sob a mesma sombra. Todos participaram e foram assumidos na manifestação da glória, pois de contrário e como foi dito em outros momentos não teriam sobrevivido, pois ninguém pode ver a glória de Deus e viver.
Esta consciência do perigo de morte face à glória de Deus está patente no medo dos três discípulos envolvidos pela nuvem, no seu cair por terra, pois sabiam que não podiam ver a glória divina. Mas o medo torna-se maior e mais angustiante quando se percebe que a manifestação da glória divina acontece na pessoa de um homem, daquele Jesus que eles conheciam e admiravam mas que desconheciam na sua identidade divina, na sua glória natural.
Se pensarmos com um pouco de seriedade, não podemos deixar de assumir que de facto é assustador, até aterrador, pensar que a glória de Deus habita num homem, habita em cada um de nós, que há uma luz e uma força que estão para além de nós próprios e que nos assume e incorpora, mas que de certa maneira evitamos porque nos é mais fácil viver sem a assumir, sem a ter presente.
A transfiguração de Jesus é uma promessa da nossa transfiguração, podemos até dizer que é a sua antecipação ao realizar-se na humanidade de Jesus, mas que pela nossa fragilidade humana não nos é ainda permitido viver em plenitude.
Vivemos assim como Abraão num momento de promessa, de proposta divina, que exige sair da nossa terra, da nossa família, do nosso conhecido e da nossa zona de conforto para entrar numa dinâmica de passagem, de peregrinação, para entrar num processo que fará de nós mais do que somos e podemos ver agora.
Sermos testemunhas da transfiguração, assumi-la como um mistério que nos pertence, é entrar nessa dinâmica proposta a Abraão de ser mais, de ser uma bênção para todos os povos e todos os homens. Aquele que se sabe habitado pela glória divina não pode deixar de abençoar e procurar ser uma bênção para todos aqueles que com ele se cruzam. Paulo pede isso mesmo a Timóteo na leitura que escutámos, quando lhe afirma que fomos chamados à santidade pelo desígnio de Deus.
Nas circunstâncias da nossa vida com as suas dificuldades e limitações, a transfiguração vai realizando-se na medida em que vamos estando abertos e dispostos à graça de Deus, à escuta da palavra do Filho que nos revela a nossa identidade e o amor do Pai por cada um dos seus filhos. Nessa atitude cooperante com a graça, podemos descer do monte, das nossas experiências intimas com Deus que nos iluminam e fortalecem, e podemos encontrar-nos de rosto transfigurado pelo amor com os nossos irmãos que nos aguardam no seu sofrimento e nas suas necessidades.
Que a Palavra de Deus, escutada, meditada, rezada, nesta Quaresma, nos faça assumir a glória que nos habita e somos chamados a venerar em cada um dos nossos irmãos.

 
Ilustração:
“Transfiguração de Jesus”, de Francesco Zuccarelli, Lempertz Auctions.
“Abraão e os três anjos”, de Giovanni Battista Tiepolo, Museu do Prado.

sábado, 11 de março de 2017

Sede perfeitos como o vosso Pai celeste. (Mt 5,48)

Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito é a recomendação que Jesus deixa aos discípulos, a cada um de nós em particular, na sua circunstância de vida.
Recomendação que à primeira vista nos parece exagerada, pois sabemos que frequentemente fazemos as coisas de modo imperfeito, atabalhoado, sem pensarmos muito. A sabedoria popular diz mesmo que a pressa é inimiga da perfeição, e fazemos tanta coisa à pressa.
Recomendação que assumida de forma irreflectida nos pode conduzir a um perfeccionismo, a um exagero em que o centro está em nós, ou em que apenas nos interessa o seu alcance, desprezando tudo o mais. A perfeição é um fétiche que nos satisfaz, que exclusivamente nos orienta e conduz.
E contudo a recomendação permanece, apesar dos perigos e desvios, como algo a que não nos podemos subtrair. A perfeição é o nosso fim, e é-o inevitavelmente, na medida em que o nosso fim é Deus, a suma perfeição.
Deste modo, temos que olhar com atenção para a perfeição que nos é exigida e oferecida, pois devemos ser perfeitos como o Pai celeste é perfeito. A perfeição do Pai joga-se no amor, na misericórdia, nessa capacidade de fazer chover sobe justos e injustos, de amar mesmo aqueles que não o amam ou até o desprezam e negam.
A perfeição que nos é pedida é assim a da liberalidade, a da capacidade de nos descentrarmos de nós próprios para olhar e estar com os outros, para os compreender e aceitar, para os acolher com todas as suas falhas e misérias. A perfeição que nos é pedida é a do amor sem medida e sem contrapartidas, a da nossa humildade face aos desaires dos outros porque não somos melhores que eles.
A perfeição é assim fazer algo de extraordinário com o nosso amor, com o acolhimento que o outro nos solicita à semelhança de Deus que se apresenta para ser acolhido e amado.

 
Ilustração:
“A conversão de Maria Madalena”, de Paolo Veronese, National Gallery, Londres

sexta-feira, 10 de março de 2017

Vai reconciliar-te com o teu irmão. (Mt 5,23)

É Deus que nos ordena a reconciliação com os nossos irmãos, é um mandato divino. Podemos questionar a exigência que Deus nos coloca, mas se ele a faz, se nos exige a reconciliação, é porque somos irmãos, somos todos seus filhos.
Por outro lado esta exigência nasce da sua misericórdia, do perdão que nos concede; se somos perdoados nada mais natural que perdoemos, nada mais lógico que façamos a experiência do perdão para que possamos sentir o perdão recebido de Deus.
É verdade que há palavras que ferem e até que matam, que há insultos que perduram, gestos que parecem impossíveis de ultrapassar, um conjunto de situações que colocam como que uma pedra no nosso coração, uma pedra que não sabemos como mover. Como perdoar?
Para o podermos fazer não podemos deixar de pedir, não podemos deixar de colocar nos nossos lábios e no nosso coração, com perseverança a toda a prova, as palavras do salmista quando diz que “o Senhor cura os corações esmagados e trata as suas feridas”.
Neste tempo de Quaresma oferece-se-nos uma oportunidade, um tempo favorável, para nos encontrarmos e reconhecermos as nossas feridas de coração, o que nos oprime o coração.
Diante das nossas prisões internas, dos gestos ofensivos, poderemos ser discípulos de Jesus, começando por fazer oferta dessas mágoas e feridas ao Senhor, iluminando-as e purificando-as no seu amor e no seu perdão.
Ao fazê-lo superaremos a justiça dos fariseus e dos escribas, pois tudo será medido e pesado à luz do amor de Deus que entregou o seu Filho para nos resgatar do nosso pecado. Não será a lei o principio definidor, mas o amor.
 
Ilustração:
“Reconciliação”, escultura de Josefina de Vasconcelos, Versöhnungskapelle,Berlim.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Pedi e dar-se-vos-á! (Mt 7,7)

Na continuidade da oração do Pai-Nosso, Jesus apresenta aos seus discípulos a oração de petição, a oração que dirigimos ao Pai para que nos alcance algum bem, alguma resposta, uma solução, a resolução de algum problema.
A sequência dos verbos, pedir, procurar, bater, acentua a condição inerente e fundamental desta oração, a confiança total no Pai que responde. É a um pai que nos dirigimos e pedimos, um pai que nos ama e quer a nossa felicidade.
O amor e a bondade dos pais nesta vida e nesta terra são um reflexo da bondade e do amor do Pai do Céu, e portanto, como nos diz Jesus, se os pais são capazes de dar coisas boas aos filhos como não haveria de acontecer o mesmo com o Pai do Céu.
Contudo, acontece muitas vezes que depois de termos rezado, de termos pedido alguma coisa a Deus, nasce em nós um sentimento de que não fomos escutados, que o nosso pedido não foi atendido. São os momentos de provação que não terminamos de compreender.
É nesses momentos e perante essas realidades, que não se resolvem como desejamos e esperamos, que a nossa oração deve ser mais intensa, mais confiante, pedindo a Deus que nos conceda a graça de o louvarmos no meio das nossas tribulações.
É a oração da confiança total, da confiança no seu amor, da confiança na sua sabedoria. Ele conhece-nos melhor que nós próprios, e não deixará nunca de nos conceder o que é melhor para nós. Quem sabe se o melhor não é a graça de aceitar a nossa debilidade, a nossa finitude, a circunstância da nossa história que tem um princípio e um fim.
Por experiência sabemos que a oração pacifica e reconforta o nosso coração. Que a nossa oração nesta Quaresma seja uma experiência mais intensa desta paz e bondade para podermos permanecer em todas as circunstâncias no louvor do Pai que nos ama.

 
Ilustração:
“A morte de São José”, de Paolo de Matteis, Museu Cívico de Castel Nuovo, Nápoles.   

quarta-feira, 8 de março de 2017

Fizeram penitência ao ouvir Jonas. (Lc 11,32)

Jonas é um profeta pouco habitual, um homem chamado por Deus, mas que tem imensas dificuldades em assumir a missão confiada. Para grande surpresa sua, a pregação que realiza em Nínive alcança os seus fins, todos os homens se submetem a uma penitência para que a cidade não pereça ao castigo divino.
Inusitadamente, na sua pregação, e face à incredulidade dos seus ouvintes, Jesus vai servir-se deste profeta e da sua missão para colocar em destaque a atitude perversa daqueles que o ouvem e exigem um sinal. A esta exigência Jesus responde que nenhum sinal lhes será dado mais que o sinal de Jonas.
E o sinal de Jonas, o que leva à penitência dos ninivitas, é a sua pregação, é o anúncio da condenação que foi proferida sobre a cidade. Perante tal anúncio todos mudam de vida, todos assumem atitudes de conversão.
É esta a atitude que Jesus esperava dos seus ouvintes, essa adesão simples e sem qualquer questionamento, pois também ele apelava a uma mudança de vida, e mais, oferecia livremente essa mudança de vida.
Jesus é assim o sinal por excelência para acreditar e mudar de vida e portanto a questão que coloca é a do acolhimento desse sinal, dessa presença transfiguradora. Se os ninivitas acreditaram em Deus por intermédio de Jonas e mudaram de vida porque não acreditam aqueles que ouvem Jesus? Porque não mudam de vida pela sua palavra e pelos sinais que a acompanham e confirmam?
Jesus é o sinal, é a presença, é a realidade, e a questão que nos coloca é porque nos custa tanto aderir a ele, porque adiamos de um dia para o outro a nossa adesão e conversão. Após um dia de pregação na grande cidade os ninivitas fizeram penitência, porque não somos nós tão diligentes na mesma atitude?
É aqui e agora, na oportunidade que se nos oferece, que o Senhor nos pede a atitude de mudança, a conversão, a adesão a si próprio como nosso Redentor que é.

 
Ilustração:
“Jonas pregando aos ninivitas”, iluminura do Livro de Horas do Condestável Anne de Montmorency, Museu Condé.

terça-feira, 7 de março de 2017

Pai nosso que estais nos Céus. (Mt 6,9)

Rezar não é uma tarefa fácil, por vezes torna-se mesmo difícil, como uma prova ou um desafio que não sabemos como ultrapassar, como vencer.
A oração é uma prova de perseverança, de continuidade, uma longa maratona na qual frequentemente não sabemos como e onde colocar os pés, como manter o ritmo para chegar à meta.
A pedido dos discípulos Jesus ensina-lhes como rezar comunicando-lhes apenas o Pai-Nosso, a oração que certamente rezava quando se retirava sozinho para os montes e que os discípulos desejavam conhecer face à vista do que ela produzia naquele que rezava e eles levemente intuíam.
Face à oração do Pai-Nosso, percebemos que a oração não é mais que fazer-se um com Jesus, nós que fomos feitos à sua imagem. Ele é o modelo da nossa imagem, o nosso irmão filho primogénito e por isso não podemos deixar de nos guiar pela sua mão, não podemos deixar de rezar como ele e com as suas palavras.
Rezar exige-nos assim mover-se na oração que Jesus rezava e ensinou, para compreender o que ele compreende, para pedir o que ele pede, para amar como ele ama, para perdoar de todo o nosso coração tal como ele perdoa.
Rezando e seguindo a oração de Jesus somos colocados no seu encalce, integramo-nos no seu seguimento, que fará de nós filhos verdadeiros, filhos muito amados do Pai.
Rezemos pois a oração que Jesus nos ensinou, Pai nosso…

 
Ilustração:
“A Agonia no jardim das oliveiras”, de George Richmond, Yale Center for British Art, New Haven, USA.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Senhor quando foi que te vimos? (Mt 25,37)

Jesus faz uma descrição da sua vinda na glória e do julgamento que nesse momento será realizado. Uma surpresa para todos na medida em que uns serão colocados de um lado e outros do outro, em que uns serão chamados benditos e outros malditos.
O critério de selecção e diferenciação é o da acção, o das obras realizadas ou deixadas de realizar aos mais pequenos, aos mais fracos, aos humildes, aos pobres, àqueles que Jesus identifica consigo próprio.
Mas se do lado de Jesus, da perspectiva do juiz, a insistência se coloca no agir, nas obras que foram feitas ou deixadas de fazer aos mais pequenos, do lado daqueles que as fizeram ou deixaram de fazer a insistência é colocada no olhar. Quando te vimos?
O olhar, a forma como se vê o outro, é assim a grande chave para a realização ou não das obras que nos podem alcançar a herança eterna, que nos podem colocar de um ou outro lado do juiz.
Jesus identifica-se com todos os humildes da terra, Jesus está presente em cada um deles, mas só o nosso olhar de amor, o nosso olhar convertido à pessoa de Jesus, nos pode dar essa visão, e a partir dela o discernimento das melhores obras a realizar.
Nós seremos julgado pelas nossas obras, como nos diz Jesus, mas seremos julgados paralelamente pelo nosso olhar, pelo olhar misericordioso e terno que é capaz de ver em cada dos nossos irmãos a pessoa de Jesus.
Tal como diz São João, no fim seremos julgados pelo amor, o amor que transfigura o olhar, pelo amor que reconhece no outro a presença de Deus, pelo amor que se actualiza em acção e obra de misericórdia.

 
Ilustração:
“O Juízo Final”, de Fra Angélico, Gemäldegalerie, Berlim.