quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

A crise interior de João Baptista

Ao ver chegar o fim dos seus dias e da sua missão como precursor do Messias São João Baptista vive uma profunda crise interior, um grande dilema, pois no seu coração e na sua razão chocam-se a esperança do Messias libertador do povo de Israel e as acções um tanto ou quanto desconcertantes e estranhas de Jesus, em quem ele tinha reconhecido um dia o Messias. Encarcerado por ordem de Herodes, consciente do fim trágico e violento que o espera João vive nesse dilema da verdade sobre o Messias e sobre Jesus.
À luz da tradição o Messias era alguém que libertaria o povo de Israel, alguém que exerceria o poder da justiça, que realizaria o julgamento sobre os bons e os maus. Contudo, aquele que João tinha reconhecido como Messias não estava a fazer nada disso, não estava a corresponder ao modelo do Messias esperado, bem pelo contrário parece que fazia tudo para contrariar esse mesmo modelo e imagem tradicional. Ter-se-ia enganado?
É assim, e para tentar encontrar luz para a sua missão, para o que tinha sido a sua missão, para o que via e para a esperança que o habitava, e para a justificação do reconhecimento anterior do Messias naquele Jesus, que envia dois dos seus discípulos ter com Jesus para lhe trazerem uma resposta. Afinal és tu o Messias esperado, ou equivoquei-me no reconhecimento que fiz?
Para confirmar a fé de João, a sua missão e a sua vida, e o reconhecimento que tinha realizado do Messias, Jesus não só realiza várias curas diante dos enviados como os remete para a profecia de Isaías, afinal a profecia que João tinha assumido com a sua vida, à qual tinha tentado ser fiel com a sua pregação, com o seu apelo à conversão.
Perante a profecia de Isaías e os milagres operados é fácil para os enviados e para João perceber que aquele Jesus era verdadeiramente o Messias. Poderá então João ter-se enganado na concepção do Messias, na ideia tradicional que o marcava e o fazia estar neste dilema? Se aquele Messias curava e perdoava os pecados de que modo e quando exerceria a justiça?
A verdade é que pela cura, pelos milagres, pelos sinais da misericórdia de Deus Jesus estava já a exercer o julgamento e a libertação que marcava o modelo messiânico. Só que não exercia essas realidades de acordo com as concepções humanas, com os parâmetros humanos, de que estava enfermado o modelo, e por isso o equívoco, por isso a incerteza e a dúvida. Jesus salva e julga de acordo com o amor de Deus pelos homens e não pelos critérios dos homens para com Deus.
Este dilema de João é para nós uma imagem de algumas realidades que também vivemos quando Jesus, Deus, se nos apresenta de uma forma que não corresponde aos nossos critérios, às nossas expectativas. Há como que um desencontro entre o nosso salvador e o verdadeiro Deus que nos vem salvar, uma desproporção entre as nossas concepções humanas e a realidade divina. Assim, resta-nos um trabalho contínuo de transformação do nosso olhar, dos nossos critérios, um despojamento das nossas contrafeitas imagens de Deus para que a verdadeira divindade se possa revelar e salvar-nos.

1 comentário:

  1. Frei José Carlos,

    O texto que preparou e partilha connosco é profundo, interroga-nos sobre como vemos Jesus, o que esperamos de Deus. E quantas vezes vacilamos porque dificilmente aceitamos a vontade divina, temos dificuldade em compreendê-la. Vamos rezando ao longo da vida o Pai Nosso, repetindo , por vezes, sem interiorizarmos, “seja feita a Vossa vontade...” mas perante determinados acontecimentos temos dificuldade em aceitar essa vontade.
    E passo a citá-lo, se me permite ...” Jesus salva e julga de acordo com o amor de Deus pelos homens e não pelos
    critérios dos homens para com Deus.
    Este dilema de João é para nós uma imagem de algumas realidades que também vivemos quando Jesus, Deus, se nos apresenta de uma forma que não corresponde aos nossos critérios, às nossas expectativas. Há como que um desencontro entre o nosso salvador e o verdadeiro Deus que nos vem salvar, uma desproporção entre as nossas concepções humanas e a realidade divina.”
    Frei José Carlos quando olhamos à nossa volta, quando nos debruçamos sobre a Humanidade, como nos sentimos? Tristes, inquietos, impotentes, mesmo sabendo que diariamente vamos pedindo e desejando com muita fé e esperança, “Vinde, Senhor Jesus”.
    Peçamos a Jesus que nos ajude a abrir as nossas “portas interiores” para recebê-Lo, e sermos capazes de escutar o “murmurar” constante das Suas palavras, por forma a que “um trabalho contínuo de transformação do nosso olhar, dos nossos critérios, um despojamento das nossas contrafeitas imagens de Deus para que a verdadeira divindade se possa revelar e salvar-nos.”
    Obrigada por este texto que nos esclarece e encoraja, aonde podemos voltar sempre para beber o alimento das palavras que connosco partilha (talvez um dia também em suporte de papel para lermos e meditarmos em qualquer lugar e para partilhar mais facilmente com o nosso próximo).
    Bem haja Frei José Carlos.
    Um abraço fraterno
    Maria José Silva

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