segunda-feira, 30 de abril de 2012

Eu sou a porta. (Jo 10,9)

Face à incompreensão, por parte dos seus ouvintes, da identificação daquele que escutam com o pastor prometido a Israel, Jesus vê-se obrigado a recorrer à imagem da porta, a essa metáfora em que se apresenta como a passagem pela qual os homens podem e devem passar para alcançar a vida.
É uma imagem extremamente sugestiva e rica, pois a porta faz recordar a casa, o abrigo, o local que protege e também o local de reunião da família. Por outro lado, a porta sugere também o acolhimento, a abertura para que o outro entre e partilhe connosco, a comunidade aberta ao que chega.
Com esta imagem da porta Jesus abre um campo imenso de possibilidades, ainda que a passagem seja aquela que mais ganha preponderância, uma vez que também esta ideia faz alusão à Pascoa, a grande passagem. Jesus é assim a Páscoa, a saída do Egipto para entrar na terra prometida, a passagem dos homens para Deus e de Deus para os homens, Jesus é a nova Aliança.
E neste sentido da passagem há que ter presente que Jesus apresenta um movimento de entrada e um movimento de saída, há um entrar pela porta e um sair pela porta.
Somos assim convidados a entrar na sua intimidade, na relação com Deus em Jesus Cristo, a passar a porta para dentro, mas para o fazer temos que sair das nossas certezas e infidelidades, temos que sair para fora do nosso mundo escravizado.
Por outro lado, e no sentido inverso, se somos convidados a passar a porta no sentido de sair, é porque a intimidade vivida com Jesus, a experiência divina nos impele e obriga a partilhá-la, a trazê-la ao mundo, a entrar com a liberdade e a verdade de Jesus nos campos que necessitam de ser convertidos.
Não podemos portanto deixar de escutar a voz de Jesus, que como Bom Pastor nos chama e nos convida a entrar e a sair dele e por ele, a ganhar a vida na sua vida e a partilhá-la com os outros que necessitam.
A porta está aberta, foi aberta para que possamos passar, atrevamo-nos a transpô-la.

Ilustração: “Mulher da Bretanha à soleira da porta”, de Anna Bilinska-Bohdanowicz, Museu Nacional de Varsóvia.

domingo, 29 de abril de 2012

Homilia do IV Domingo do Tempo Pascal

No Evangelho de São João, que escutamos este domingo, por duas vezes Jesus se apresenta como o bom Pastor, “Eu Sou o Bom Pastor”. Tal afirmação e reiteração supõe que existem maus pastores, e sobretudo que os ouvintes de Jesus os podiam identificar, os podiam contrastar com ele próprio de modo a aferir da bondade e da maldade presente em cada um.
Esta identificação dos maus pastores por parte dos ouvintes e discípulos era possível em virtude da profecia de Ezequiel, profecia que apontava os defeitos e maus comportamentos daqueles que deveriam ser os pastores do povo de Israel, aqueles que o Senhor Deus tinha chamado a conduzir o povo.
Nessa profecia (Ex 34) podemos apreciar a crítica feita aos dirigentes do povo, a condenação da exploração do povo, simbolicamente representado no rebanho que deve ser conduzido, cuidado, alimentado. Os pastores faziam exactamente o contrário e alimentavam-se das ovelhas, exploravam-nas e conduziam-nas ao desespero face à Aliança estabelecida com Deus.
Ao afirmar-se como Bom Pastor Jesus apresenta o modelo e o projecto de Deus, o amor daquele que é chamado e enviado para conduzir o rebanho e o povo entregando a sua própria vida, fazendo-se servo de todos, garantindo a vida àqueles que foram entregues ao seu cuidado.
E é ao referir esta entrega da vida que Jesus desencadeia a crítica e a rejeição daqueles que o escutam e cujos ecos encontramos nos versículos seguintes àqueles que lemos. Jesus apresenta-se como candidato ao trono de Israel e como Messias, mas de uma forma que se distancia da concepção tradicional, pois se o Messias e o rei eram desejados e esperados era para garantirem o bem estar do povo, a sua vitória e glória, era para viverem e não para perderem a vida.
A imagem pela qual Jesus é percebido é uma imagem de fraqueza, de insanidade, uma imagem que não vai ao encontro da concepção tradicional, uma concepção triunfalista de eleição que conduziu à separação do povo e à inviabilidade da missão outorgada por Deus na celebração da Aliança. O povo eleito, que devia ter conduzido os outros povos à Aliança de Deus, tinha-se refugiado na sua eleição e deixado de cumprir a missão.
Por isso Jesus não deixa de referir, e desta forma assumir a concepção universal da Aliança, que havia outras ovelhas que não eram daquele rebanho e que necessitavam ser reunidas num só rebanho e sob um só pastor. Todos os homens e todos os povos deviam participar do único rebanho que Deus Pai desejava e a sua missão era levar a cabo essa unidade.
Outro elemento extremamente significativo da afirmação de Jesus é a liberdade, a liberdade com que o pastor assume a sua missão, pela qual não só é capaz de entregar a própria vida como retomá-la. Jesus assume essa liberdade e capacidade como o mandamento que recebeu do Pai, ou seja, como a missão que livremente assume levar a cabo. Jesus Bom Pastor existe e move-se na liberdade da vontade do Pai, e por isso não só é amado pelo Pai como é capaz de amar todos os homens, de os conduzir ao rebanho da filiação divina.
Ao concluir-se hoje a Semana de Oração pelas Vocações com referências claras à necessidade de pastores para conduzir o povo de Deus, tornam-se significativas esta liberdade de que fala Jesus e este projecto de um só rebanho, de um só povo de reis profetas e sacerdotes.
Neste sentido, não podemos esquecer que nenhuma vocação é possível sem liberdade e necessita da liberdade para crescer e desenvolver-se. A liberdade permite a resposta consciente bem como a responsabilização face a essa resposta. A liberdade permite o movimento da relação com Deus, a partilha da sua intimidade, sem qualquer preconceito ou temor, uma vez que se sabe, se percebe, que a opção tomada é uma resposta de amor a outro amor que a precedeu.
Por outro lado, a vocação de cada um, vivida livremente, constitui-se uma pedra viva na construção do templo de Deus, uma força que dinamiza a construção da unidade representada num só rebanho. Cada um, cada vocação na sua singularidade está chamada a viver a unidade que deriva da filiação divina que Jesus nos alcançou pela sua resposta livre ao amor do Pai, está chamada a ser a voz que apela a seguir o único e verdadeiro Bom Pastor.
Que o Senhor Jesus pela força do Espírito Santo nos faça crescer na consciência da nossa liberdade de filhos de Deus e na responsabilidade de trabalharmos em conjunto pela unidade de todos os homens.

Ilustração: “Bom Pastor”, Recolha de desenhos, Biblioteca Nacional de França, Cota: Etíope 389, fólio 1 verso.

sábado, 28 de abril de 2012

Também vós quereis ir embora? (Jo 6,67)

As palavras de Jesus sobre o Pão da Vida foram muito duras, os seus ouvintes não foram capazes de as aceitar. Mas se tal aconteceu não foi porque Jesus lhes falou da necessidade de comer a sua carne e beber o seu sangue, mas porque tal proposta implicava um compromisso, uma adesão, a aceitação do dom que Jesus oferecia e a alteração de vida que tal aceitação acarretava.
Muitos dos discípulos abandonaram Jesus face às palavras duras, manifestando dessa forma como o seguimento de Jesus não é fácil e como o grupo dos discípulos viveu verdadeiramente momentos de tensão, momentos difíceis que nenhum Evangelista escamoteou nem deixou de referir. Seguir Jesus é de facto algo radical e não nos podemos enganar nem ter ilusões.
E é perante essa deserção dos discípulos que Jesus coloca a pergunta ao grupo dos doze, aos mais íntimos, “também vós quereis ir embora?”.
Pergunta necessária e urgente na medida em que a oferta de Jesus, o dom da vida não se pode aceitar coagido, sem liberdade, sem uma decisão pessoal e intransmissível. Na relação com Jesus e na aceitação do dom da sua vida nada se pode opor, nada pode ser contestado. É um dom que se faz e é um dom que se recebe.
O acolhimento do dom que Jesus nos faz acarreta o dom inteiro de nós próprios àquele que se nos oferece, a partilha da vida com ele. O acolhimento do dom de Jesus é assim a maior exigência, e por isso tantos o abandonaram, pois exige a nossa vida, a nossa entrega amorosa e total, e isso não pode jamais ocorrer sem liberdade.
Neste sentido não podemos pensar em lançar a mão sobre o dom de Jesus e os dons de Deus e encerrá-los egoisticamente para nós. Ao fazê-lo estamos a enganar-nos a nós próprios e a perder esses mesmos dons, porque eles acontecem na nossa vida na medida em que os partilhamos, na medida em que os colocamos nas mãos abertas para que outros os possam receber.
Ao dar a sua vida por nós, Jesus ensina-nos a receber o dom de Deus, o dom da sua vida, dando a nossa vida pelos nossos irmãos. Neste sentido não podemos deixar de ter presente as palavras da Carta de São Tiago, “não vos enganeis meus amados irmãos, toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vêm do alto, descendo do Pai das Luzes”.
Assim, tudo o que damos, tudo o que procuramos fazer no sentido da fidelidade ao dom de Deus torna-se dom perfeito e bom em sintonia com o dom que recebemos de Deus.

Ilustração: “Cristo e os Apóstolos”, iluminura do Evangelho do Mosteiro Antonievo Siysky, Rússia.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Se não comerdes a carne do Filho do homem (Jo 6,53)

Ao afirmar aos seus ouvintes que se não comessem a carne do Filho do homem não teriam a vida em si, Jesus provoca o escândalo daquela gente, um escândalo que ainda hoje atinge muito homens, pois tal como naquele dia estas palavras não perderam nada da sua dimensão enigmática nem provocadora da razão humana.
A história, e alguns acontecimentos não muito distantes no tempo, mostram-nos que em determinadas situações estas palavras foram levadas à letra e a sobrevivência do homem garantiu-se à custa da antropofagia, embora Jesus não explicite de maneira nenhuma a forma como se poderá processar essa alimentação do seu corpo e do seu sangue.
Tendo em conta o contexto e a cultura em que Jesus se insere não podemos assumir de maneira nenhuma que Jesus fala de antropofagia, que se refere literalmente à sua carne e ao seu sangue. De facto era uma aberração civilizacional.
Para compreender estas palavras e a sua dimensão temos que ter presente o que Jesus disse sobre o Pão do Céu, sobre a sua natureza, a sua origem e a sua missão, ou seja, como enviado do céu, de natureza divina, a sua missão é dar a vida divina aos homens, mas tal só pode acontecer na dimensão carnal, no assumir da humanidade, no mistério da encarnação.
A dimensão humana de Jesus e a sua aceitação são imprescindíveis para o acesso à oferta de Deus, é a carne do Filho do homem que proporciona ao homem o acesso à divindade, o alimento para a vida que está para além da carne, porque o homem não vive só de pão mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
É essa Palavra, feita carne humana em Jesus Cristo que pode alimentar, que pode dar a vida, porque de outra forma ao homem seria impossível uma vez que se teria que suplantar na sua condição, o que por si próprio lhe é impossível.
Comer a carne do Filho do homem significa assim assumir e integrar o mistério da Encarnação da Palavra de Deus, acreditar em Jesus enquanto homem como Filho de Deus, portador da vida divina para todos os homens. Significa igualmente assumir que na nossa carne, na nossa dimensão humana, se traduz hoje e aqui o mesmo desafio de alimentação, o mesmo convite de Deus a viver segundo a sua vontade para em amor sermos alimento uns dos outros.
O Senhor convida-nos assim a tomar a sua carne, o seu amor obediente ao Pai, o seu exemplo de entrega, para na nossa entrega igualmente obediente fazermos presente o alimento que vivifica, o amor louco de Deus por todos os homens.
É porque Jesus vive da vida e da intimidade com o Pai, que é a vida total, que Jesus pode dar sem se perder a sua vida para a vida do mundo. E é na medida que nós vivemos da vida e da intimidade com Jesus, caminho verdade e vida, que nós poderemos dar também a vida sem a perder e retomá-la nele mesmo para a eternidade.

Ilustração: “Sangue do Redentor”, de Bartolomeo Passerotti.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

Quem comer deste pão viverá eternamente (Jo 6,51)

Ao apresentar-se como Pão da Vida, como alimento, Jesus diz àqueles que o escutam e a cada um de nós que quem comer deste pão viverá eternamente.
Podemos perguntar-nos como é possível, afinal que pão é este que tem a capacidade de alimentar para a eternidade? Haverá de facto um alimento que nos salva da morte, que nos dará a subsistência para além dos anos da vida?
São Tomás de Aquino no seu Comentário ao Evangelho de São João apresenta a seguinte explicação:
“É necessário dizer que a intenção do Senhor é a seguinte: desce do céu o pão que pode dar a vida, ora ele é esse que desce, pelo que ele é o pão que desce do céu. E se o pão que desce do céu dá a vida eterna, é porque todo o alimento alimenta segundo a propriedade da sua natureza. Ora as realidades celestes são incorruptíveis, pelo que este alimento, sendo celeste, não se corrompe, e por consequência vivifica também enquanto se conservar. Aquele que o tiver comido não morrerá jamais. Da mesma maneira que se um alimento corporal não se corrompendo, ao ser comido, não deixa de vivificar.” (Comentário sobre São João, 955)
Jesus é para cada um de nós pão do céu, pão de vida eterna, porque ele mesmo é eterno, porque é a vida, e portanto todos os que se alimentam dele são assumidos por essa vida e essa eternidade.
Senhor Jesus que eu tenha sempre fome e sede de ti!

Ilustração: “Jesus Pão da Vida”, de Juan de Juanes, Colecção Sammlung Esterházy, Budapeste.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Senhor cooperava com eles. (Mc 16,20)

O Evangelho de São Marcos, cuja festa hoje celebramos, termina com estas palavras, “o Senhor cooperava com eles confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam”.
É surpreendente a fé e a confiança de São Marcos, a revolução radical operada na concepção de Deus, que não se apresenta como um concorrente, como alguém estranho em competição, mas alguém próximo e cooperante. O Senhor cooperava com eles.
Ao partirem para anunciar a Boa Nova de Jesus, depois da ascensão ao céu, os discípulos não se sentem sozinhos, nem abandonados, unicamente entregues a si próprios e às suas capacidades limitadas.
Ao percorrerem os caminhos do mundo e ao enfrentarem os desafios do testemunho da sua fé em Jesus sentem-se acompanhados, sentem-se apoiados pelo mesmo Jesus que professam como Filho de Deus. O Senhor está com eles em todos os momentos.
Uma presença e uma cooperação que não eximem de saber fazer as coisas, de viver com radicalidade, de usar a inteligência e o discernimento para testemunhar a fé. A cooperação do Senhor não é como uma varinha mágica, não é um seguro ou pronto-socorro, ao qual se recorre quando as coisas não correm bem ou não se sabe como fazer. O Senhor é a vida e por isso é a inspiração, é a atitude, está presente nos gestos e nas palavras, vai à frente nos desafios, acompanha nos momentos de incerteza e fica como um selo que perdura na vida dos outros.
O Senhor é a inspiração no sentido do ar que se respira, do alento que anima, do oceano em que se movem e por isso está presente em tudo o que os discípulos fazem, ele configura pelo Espírito o espírito e a palavra dos discípulos que falam e agem já não por si mas por Cristo.
Como diz São Paulo “já não sou eu que vivo é Cristo que vive em mim”, Cristo faz-se presença em mim na medida da minha adesão à sua acção em mim, à minha intimidade transfigurante com ele.
Perguntamos muitas vezes como é que aqueles quase analfabetos discípulos conseguiram converter tanta gente, levar a Boa Nova de Jesus a tanto lado, e nós mal conseguimos tocar aqueles que vivem connosco, que partilham tantas dimensões da nossa vida.
Não sei se a resposta para a nossa ineficácia testemunhal não está na nossa falta de fé e confiança dessa presença de Jesus connosco, da sua cooperação connosco. Se colocarmos da nossa parte tudo o que é necessário, Deus não contribuirá com a sua parte?
Que o Senhor aumente a nossa fé e a nossa confiança na sua presença e na sua cooperação, e não nos desanime os resultados que não vemos, porque a uns cabe semear, a outros regar e a outros colher, e como nos revela Jesus a sua Palavra não volta sem ter produzido os seus frutos.
Anunciemos portanto em palavras e em obras a Palavra, o mesmo Senhor Jesus Filho do Homem e Filho de Deus.

Ilustração: “Jesus e os Apóstolos”, Tiffany Glass and Decorating Company 1890, na Galeria Richard H. Driehaus, Chicago.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Que sinal nos dás para vermos e acreditarmos em ti? (Jo 6,30)

É um ponto central da nossa cultura, da nossa forma moderna de estar no mundo e na vida, ter os pés bem assentes na terra, ser precavidos e preventivos. Procura-se que haja pouca margem para um qualquer imprevisto, tudo tem que estar assegurado.
Neste sentido não investimos, não nos implicamos em nenhuma realização sem antes a estudar detalhadamente, sem perceber quais os seus pontos fortes e debilidades, sem ter uma perspectiva dos resultados e dos riscos que são necessários correr.
A multidão que se encontra com Jesus depois da multiplicação dos pães situa-se na mesma atitude, nesta mesma mentalidade moderna, e assim, mesmo depois de ter visto o milagre da multiplicação dos pães, de ter sido saciada, continua a pedir um sinal, algo que de facto os prenda, os leve a acreditar.
Tal como quase todos nós em algum momento da vida, a multidão exige uma garantia para acreditar, para se dispor a seguir Jesus sem qualquer relutância, sem qualquer dúvida, de uma forma total e radical. No fundo aquela multidão acredita que nada aparece de graça, nada cai do céu, porque apenas de graça e do céu caiu o pão que comeram no deserto, o maná.
A multidão opõe a Jesus e à sua oferta o modelo e o protótipo de Moisés, a quem atribuem o milagre do maná no deserto, o maior sinal de solicitude de Deus para com o seu povo, pois alimentou-o com esse pão caído do céu durante quarenta anos. Jesus é desta forma desafiado a fazer algo tão extraordinário como o que fez Moisés, para que dessa forma seja confirmado como profeta.
Jesus, esclarecendo o milagre de que afinal Moisés tinha sido apenas intermediário, apresenta-se como o verdadeiro pão descido do céu, como o verdadeiro e maior sinal de solicitude de Deus para com o povo, para com a humanidade. Não era já um alimento para o corpo físico que era enviado aos homens, mas a própria vida, a oferta da vida, e de uma vida eterna.
Jesus é a oferta mais gratuita, o mais excelente dom, e por isso não há espaço para garantias nem provas, ele mesmo é a garantia e a prova e ou se aceita ou se recusa. Jesus em si mesmo é o sinal por excelência, é o maior milagre que Deus podia realizar e portanto nada mais há a pedir.
Ao celebrarmos a Semana de Oração pelas Vocações peçamos ao Senhor que toque os nossos corações, e o de muitos jovens, para que acreditemos e o sigamos sem cairmos na tentação da demanda de garantias, aceitando que ele é o único e verdadeiro sinal, acreditando que ele é a mais cabal garantia da felicidade a que Deus nos chama a viver.

Ilustração: “Cristo em casa de Marta e Maria”, de Jan Vermeer van Delft, National Gallery of Scotland, Edimburgo.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Que devemos nós fazer? (Jo 6,28)

A narração que São João nos faz, após o milagre da multiplicação dos pães, da busca e dos desencontros da multidão com Jesus nas margens do lago de Tiberíades, é estonteante, pois enquanto uns vão outros voltam, enquanto uns aparecem outros desaparecem. Parece um jogo de escondidas.
Contudo, se tal acontece, se a multidão busca Jesus e este não se deixa encontrar, é para que possamos perceber, tal como é explicado pelo próprio Jesus àquela multidão, que há algo mais que procurar, que mais que o pão que mata a fome é necessário procurá-lo a ele próprio. Necessitamos afinar o nosso desejo.
Por isso, quando a multidão em uníssono, de forma impessoal, pergunta o que deve fazer, Jesus responde que “a obra de Deus consiste em acreditar naquele que foi enviado”.
Há assim a necessidade de passar do fazer ao crer, do externo ao interno, de deixar o anonimato da multidão para entrar e iniciar uma relação pessoal. Há a necessidade de abandonar os comportamentos miméticos, as repetições ritualizadas e as pressões sociais e do grupo, para estabelecer uma relação única e irrepetível, uma relação livre.
Acreditar, e acreditar em Jesus Cristo significa uma relação que compromete e envolve toda a pessoa com a sua história, os seus pontos fortes e as suas debilidades, uma adesão a outra pessoa que determina que a resposta seja única, pois também Jesus é único e único somos cada um de nós.
Neste sentido quanto temos ainda que aprender e libertar-nos, deixar de lado as tentativas de comparação, os estereótipos da fé, porque de facto cada um de nós e cada relação estabelecida com Deus por Jesus Cristo é sempre única e pessoal, intransmissível, irrepetível, viva e actual.
Podem contestar-nos que tal modo de relação mete medo, assusta, deixa na incerteza de saber que terreno pisamos, nos coloca no fio do arame; mas não será para podermos viver dessa forma que todos os dias o Senhor nos convida a rezar “Pai seja feita a tua vontade assim na terra com no céu”?

Ilustração: “Jesus ensinando no lago”, de Gerbrand van den Eeckhout.

domingo, 22 de abril de 2012

Notas Dominicanas do Diário de frei Joaquim de São José

Graças à investigação e estudo de Maria Luísa Cabral foi publicado no final do ano de 2011, pela Biblioteca Nacional de Portugal, na sua colecção “Fontes”, o Diário da Viagem de Frei Joaquim de São José, franciscano, ao Capítulo Geral electivo da Ordem, celebrado na cidade de Roma no ano de 1750.

É interessante, embora por outra parte frustrante, observar como este homem de meados do século dezoito, formado no Colégio de Santo Antão, nas Aulas do Convento de São Domingos de Lisboa, na Universidade de Coimbra, Mestre de Filosofia no Colégio de São Pedro de Coimbra, para o qual adquiriu uma avultada porção de livros, Visitador Apostólico da Província e posteriormente Prior Provincial da mesma, percorre e visita um conjunto notável de cidades na sua viagem de Lisboa a Roma e pouco mais regista de significativo que as bibliotecas que tem a possibilidade de visitar e as relíquias que lhe são facultadas venerar.

Havia muito mais para ver e para apontar, mas parece que apenas lhe interessaram as bibliotecas, os centros de estudos e as relíquias ou lugares de devoção. Tudo o mais são praticamente dados e notas sobre hospedarias e caminhos, despesas e transportes, como se fosse voltar a fazer a viagem.
No décimo sétimo dia de jornada escreve que “é certo que se despe de muita bisonhice quem vem adestrar-se a países estrangeiros”, embora no seu caso pareça que tal não aconteceu, testemunhando dessa forma a ambivalência cultural portuguesa da época, fascinada pelos livros e a cultura das luzes mas aferrada à religiosidade devocional popular.

Inevitavelmente, e pelos interesses evidenciados, frei Joaquim de São José encontrou-se com a Ordem de São Domingos na sua viagem até Roma e é por essa razão que o referimos, pois no seu Diário encontram-se vários registos dominicanos que importa salvar.

O primeiro deles acontece na cidade de Barcelona:
“Agora dizemos o mais principal do muito que vimos. Vimos o convento de Santa Catarina dos Religiosos Dominicos. A igreja é excelente e o coro também; tem capelas muito boas; é espaçosíssima a de Nossa Senhora do Rosário cujo zimbório tem três ordens de muita elegância. Nesta igreja está a sepultura de São Raimundo de Peñafort com distinção, e junto a ela, a capela do mesmo Santo com seu corpo em primoroso caixão de boas pedras. Tem formosas [dependências] este convento entre as quais se distingue muito a livraria posto que os livros, sendo muitos e bons, não têm aquele primor de encadernação que ordinariamente têm os das nossas livrarias de Portugal.
Esta livraria era do Reverendíssimo Frei Tomás Ripoll Geral Dominicano que a aplicou a este convento. Vimos também o [?] dos serviços e nela a formosíssima e perfeitíssima imagem de Nossa Senhora das Dores.” (113)

O segundo na cidade italiana de Turim:
“As ruas também são recomendáveis e me pareceu exceder a todas a via Padi, onde está a Universidade de Turim, que tem belo claustro, bons gerais, quatro Mestres de cada faculdade a duas ou três mil libras cada um; os Padres Dominicos são os que mais frequentemente lêem Teologia nesta Universidade; na qual em matérias de Física, todos são modernos, cartesianos, etc., e ainda os Franciscano que seguem a Escoto.” (129)

O terceiro registo acontece na cidade italiana de Modena:
“Vimos a soldadesca e palácio do Duque de Modena: o palácio é bom e de bela forma mas não me pareceu muito grande. Trabalha-se ainda nele, como também no Convento de São Domingos, cuja igreja é excelente per modum crucis com admirável artificio assim no todo, como nas alturas, que são de jaspes primorosos e iguais pinturas nos quadros.” (135)

O quarto acontece na cidade de Bolonha:
“Deixadas já as mais coisas dou ultimamente notícia de que fui adorar o corpo do grande Padre São Domingos que se conserva em primorosa urna de mármores finíssimos e finíssima escultura que toquei, e palpei com devoção e atenção. A capela é seguro depósito de tal tesouro, de elegantes, e finas pedras. Igual a esta é a da Senhora do Rosário que está defronte à porta do Evangelho. Toda esta igreja, coro e convento dos Padres Dominicos de Bolonha é coisa belíssima e magnífica.” (138)

O último registo acontece já em Roma e ilustra uma praxe que era comum:
“Em um dia desta semana veio o Padre Geral dos Dominicos com a sua comunidade reconhecer ao Reverendíssimo Geral de Aracoeli, cerimónia que se faz com toda a demonstração de fraternidade, e da mesma forma correspondem os Franciscanos aos Dominicos na eleição do Geral destes.” (159)
Por estas breves notas podemos apreciar a forma sucinta como frei Joaquim de São José escreveu o Diário da sua viagem, bem como os seus interesses, condicionados uma e outros ao tempo que certamente não seria muito e ao cansaço que seria bastante.

Ilustração:
1 – Túmulo de São Raimundo de Peñafort. Hoje na Catedral de Barcelona.
2 – Cúpula da igreja de São Domingos em Modena.
3 – Capela e tumulo de São Domingos em Bolonha.



Homilia do III Domingo do Tempo Pascal

As leituras deste domingo apontam para uma realidade que não foi para os discípulos, nem é para nós, estática, fixa, mas pelo contrário uma realidade que evolui, que se constrói e reconstrói até à verdade da plenitude. Essa realidade é a do conhecimento de Jesus Cristo.
Na leitura dos Actos dos Apóstolos, e muito concretamente neste trecho do discurso ao povo, São Pedro confessa que agora sabe que agiram por ignorância. “Agora eu sei que vós agistes por ignorância, mas tal aconteceu para se cumprirem as Escrituras”.
Há assim uma oposição entre o conhecimento de Pedro, o conhecimento que agora possui, e a ignorância do povo, assim como há uma oposição entre o conhecimento de Pedro antes da ressurreição e após a ressurreição, pois é só agora que sabe.
Esta oposição do conhecimento antes e após a ressurreição é facilmente verificável ao longo dos Evangelhos, pois em diversos momentos encontramos os discípulos com uma imagem e uma compreensão da missão de Jesus completamente equivocada, distante da verdade e do que lhes era manifestado.
Encontramos ecos das suas pretensões de poder e governo, de glória numa revolução, e a constatação do desabar destas expectativas aquando da prisão e morte de Jesus, fugindo cada um para seu sítio. O seguimento e o conhecimento de Jesus, ainda que íntimo, estavam condicionados por essas expectativas e pretensões.
Será a ressurreição de Jesus e a experiência do ressuscitado nas suas diversas aparições que fará com que o conhecimento seja reconduzido à verdade, e permita a Pedro poder dizer que agora sabe o que antes não sabia e aquilo que o povo desconhece.
Esta transformação é possível graças às aparições do ressuscitado, mas não só, porque se fosse graças apenas a esse dado poderiam, e poderíamos também nós, ficar na ideia vaga de um espírito, de um fantasma poderoso, de um ente superior.
A aparição de Jesus no meio dos discípulos, depois da manifestação em Emaús, que São Lucas nos relata, é neste aspecto paradigmática, pois não só lhes aparece enquanto ressuscitado, em outra dimensão, como nessa aparição os remete para a experiência física e histórica vivida anteriormente e para a leitura dessa mesma experiência à luz das palavras da revelação contidas nos profetas e na lei.
O conhecimento verdadeiro e cabal de Jesus é assim possível na medida em que a experiência de intimidade que os discípulos puderam viver e o aparente desastre com a morte na cruz são enquadradas nas promessas messiânicas e são confirmadas com a experiência da presença do ressuscitado.
E nesta leitura enquadrante não podemos deixar de ter presente que em nenhuma promessa da Lei, dos profetas ou dos Salmos se fala do nome de Jesus de Nazaré, se define ou projecta uma história concreta, mas define-se e constrói-se uma aliança, uma história de relação de Deus com os homens cada vez mais próxima e mais íntima.
Com Jesus Cristo essa história fez-se vida, fez-se actualidade e possibilidade para todos os homens e mulheres de todos os tempos, fez-se paternidade e filiação divinas e os discípulos experimentaram isso e por essa razão foram convidados a partilhá-las e testemunhá-las aos outros.
Por isso São João na sua carta diz que conhecemos verdadeiramente a Jesus na medida em que guardamos os seus mandamentos, em que procuramos que o amor de Deus seja perfeito em nós, ou seja, quando à semelhança de Jesus procuramos nas nossas limitações e fragilidades viver a relação de filiação que também ele viveu, a aliança que Deus oferece à humanidade, manifestando no amor e na amizade a intimidade divina a que são convidados todos os homens.
À medida que vamos fazendo a leitura da nossa relação, da nossa história da Aliança, à luz da Palavra de Deus e da história e pessoa de Jesus, percebemos como muitas vezes estamos longe do conhecimento verdadeiro, como o nosso conhecimento é superficial ou até equivocado e por isso necessitado de reformulação ou aprofundamento.
Necessitamos por isso voltar cada dia à Palavra de Deus, à história de Jesus e à partilha fraterna das nossas experiências e passos dados na fé e no seguimento, pois só dessa forma nos poderemos ir libertando do peso dos nosso egoísmos e das nossas infidelidades e fortalecendo na confiança dos passos ainda a dar.
Que o Espírito Santo, verdadeiro conhecimento do Pai e do Filho, nos ilumine no desejo e aumente a esperança no alcance da plenitude da verdade.

Ilustração: “A pregação de São Pedro”, de Fra Angélico. Tabernáculo Linaioli, Museu de São Marcos, Florença.

sábado, 21 de abril de 2012

Viram Jesus caminhando sobre o mar (Jo 6,19)

Quase que escapa à nossa imaginação a cena que São João relata de Jesus vir ter com os discípulos que se encontram na barca caminhando sobre as águas. Mas se tal acontece, se a imaginação nos falha, é porque a cena não só é verdadeiramente extraordinária mas também porque há ainda em cada um de nós um temor ancestral das águas.
Não acreditamos como os antigos que os mares e oceanos estão cheios de monstros, que nas profundidades do mar habitam as forças maléficas, os poderes do mal e da morte; mas não deixamos de ter um respeito e temor por aquela imensidão de água, por um espaço do qual parece que procedemos mas no qual nos sentimos ameaçados na segurança e na vida.
Não podemos por isso criticar e condenar os discípulos ao ficarem cheios de medo ao verem Jesus caminhar sobre as águas, podia ser mais um espírito das profundidades, uma força do mal que vinha ao encontro deles.
Mas se Jesus caminha sobre as águas é porque é o seu criador, foi ele que as separou da terra e lhes traçou os limites. Por outro lado é também o vencedor das forças do mal e da morte e por isso pode caminhar vitoriosamente sobre as águas.
À luz da paixão, morte e ressurreição de Jesus este acontecimento extraordinário adquire uma nova perspectiva, porque o verdadeiramente inacreditável aconteceu, o Filho de Deus feito homem venceu a morte, caminha sobre todas as águas mortíferas e sobre as ondas mais tormentosas, pode caminhar sobre tudo o que destrói o homem.
E neste sentido a caminhada de Jesus sobre as águas não pode ser uma fonte de angústia e temor, mas pelo contrário uma fonte de confiança e alegria, um convite a caminharmos nessa liberdade que nos advém da vitória de Jesus manifestada na ressurreição.
Jesus ao chegar à barca diz aos discípulos que não temam, que é ele que vem ao seu encontro. O mesmo convite nos deixa a nós face às tormentas e às vagas tantas vezes alterosas da nossa vida. Não temamos o Senhor venceu a morte.

Ilustração: “Jesus caminhando sobre as águas”, de Amédée Varint.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um rapazito com cinco pães e dois peixes (Jo 6,9)

Jesus sobe ao monte e uma multidão vem ter com ele, uma multidão que sobe e se aproxima de mãos vazias, uma multidão ávida e desorientada, como um rebanho sem pastor.
A preocupação nasce nos discípulos e Filipe não se coíbe de a exprimir quando responde à pergunta do Mestre sobre a forma de alimentar aquela multidão: “Duzentos denários não chegarão para dar uma migalha a cada um”.
Contudo, Jesus sabia o que iria fazer, Jesus sabia qual era a verdadeira fome daquela gente e porque trepavam ao monte para o encontrar. Aquela multidão tinha de facto fome, mas o seu alimento não estava ao alcance nem do ouro nem da prata.
É um rapazito, um desconhecido, um pobre, que tem o alimento, cinco pães e dois peixes, uma insignificância face àquela multidão, mas o suficiente para com amor alimentar e ainda encher doze cestos.
Não podemos deixar de ver neste rapazito a pessoa de Jesus e o mistério da sua encarnação, a sua pobreza feita oferta, o dom da sua vida, o Filho do Homem pelo qual não dão nada, não oferecem nenhum reconhecimento para além da servidão à necessidade momentânea, mas que na sua pobreza e pequenez é capaz de se fazer alimento e alimentar. E com tão pouco, apenas cinco pães e dois peixes.
Este rapazito convida-nos a apresentar igualmente a nossa pobreza, os nossos parcos e fracos recursos, a nossa insignificância, porque ao fazê-lo estamos a colocar-nos na peugada de Jesus, a assumir a sua aniquilação e a sua oferta para que os outros se pudessem alimentar.
Jesus não nos pede muito, ou se calhar até nos pede muito ao pedir-nos tudo, como os cinco pães e dois peixes daquele rapazito, mas tal pedido acarreta consigo a possibilidade da multiplicação e portanto a abundância, doze cestos de pedaços que não se podem desperdiçar.
Quem deixar casas, terras, família por minha causa receberá cem vezes mais e quem disponibilizar o pouco que tenha verá o fruto da sua oferta multiplicado.
Que a promessa de Jesus e o testemunho dos doze cestos que sobraram nos incentivem e encorajem a entregar tudo o que o Senhor necessitar para alimentar a multidão com fome.

Ilustração: “Cristo alimentando as multidões”, de Bernardo Strozzi, Museu Pushkin, Moscovo.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Deus dá o Espírito sem medida (Jo 3,34)

Jesus Cristo revela-nos que o Pai dá o Espírito sem medida, o Espírito que ele prometeu aos seus discípulos para depois da ressurreição, o Espírito que sobre eles soprou na manhã de Páscoa.
Para receber o Espírito apenas uma condição, o acolhimento do Filho, o acolhimento da pessoa de Jesus e da sua vida, do que significa o seu mistério de amor expresso no mistério da encarnação.
Senhor Jesus também para nós, e para tantos homens e mulheres nossos irmãos, pedimos o Espírito sem medida. Envia-nos o Espírito sem medida, o Espírito que nos iluminará e fortalecerá no testemunho do teu amor neste nosso mundo e circunstância.
Dá-nos Senhor o Espírito para que as tuas palavras se transformem em vida em nós, para que o teu amor seja o nosso amor, para que o nosso testemunho seja verdadeiramente de ti e não de nós.
Como João Baptista necessitamos diminuir para que tu cresças, necessitamos ser menos egocêntricos para que tu sejas o centro, para que sejas em nós como foste em Paulo de Tarso, a vida em mim, a vida em nós.
Envia-nos Senhor o teu Espírito sem medida!

Ilustração: “Maria irmã de Marta espera por Jesus”, Nicolaj Nicolajewitsch Ge, Galeria Tretyakov, Moscovo.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Quem pratica a verdade aproxima-se da luz (Jo 3,21)

As palavras de Jesus “quem pratica a verdade aproxima-se da luz” colocam-nos face a face com uma realidade que escapa aos nossos parâmetros e concepções habituais, ou seja, que a verdade tem uma dimensão de practicidade que na medida em que é exercida nos aproxima da luz.
Estamos assim em processo, numa caminhada, em peregrinação, num movimento que nos aproxima da luz enquanto praticantes da verdade. A vida cristã, a fé, coloca-nos no caminho em sentido e direcção a Deus, ao encontro da verdade última que buscamos.
E em cada dia a Palavra de Deus nos livros do Antigo Testamento, nos Evangelhos e Epistolas desperta-nos, confirma-nos ou coloca-nos em causa nesse mesmo caminhar.
A Palavra de Deus tem esse efeito acutilante de não nos deixar permanecer na mesma situação e nos mesmos dados, como se tivéssemos chegado ao fim. Há sempre mais, há sempre necessidade de partir, de despertar, de aferir do caminhado e do que ainda falta caminhar.
Como dizia Santa Catarina de Sena, quanto mais aprofundamos no mistério de Deus, na verdade, e nos aproximamos da luz, mais necessidade e desejo sentimos de aprofundar, há uma sede em nós que se torna ainda mais viva.
Por isso, quando alguém se interroga sobre a monotonia da vida cristã, e muito particularmente da vida monacal e conventual, a resposta que se encontra nos irmãos e irmãs que optaram por uma vida de clausura, é que não existe monotonia, não existe fastio nem aborrecimento em fazer sempre o mesmo, porque o mesmo, as rotinas, são sempre portos de chegada e praias de partida, movimentos encadeados do grande movimento em direcção a Deus.
Em cada dia necessitamos escolher de novo, praticar a verdade e colocarmo-nos ou recolocarmo-nos em aproximação à luz. Necessitamos fazer da luz uma opção sempre renovada e assumida, de modo a que possa desfazer as nossas trevas, os nossos medos e preguiças, o nosso imobilismo tão frequente.

Ilustração: “O que é a Verdade? Cristo e Pilatos”, de Nicolaj Nicolajewitsch Ge, Galeria Tretyakov, Moscovo.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Como haveis de acreditar? (Jo 3,14)

Todos nós sabemos como foi difícil para Jesus fazer-se compreender, tanto junto dos discípulos que tinha escolhido para partilharem a sua intimidade, como junto de todos aqueles que se aproximavam dele com alguma questão, fossem eles fariseus ou saduceus, simples povo necessitado de pão ou escribas conhecedores da lei.
Face a esta dificuldade percebemos também as diversas tentativas de Jesus, a persistência e insistência uma vez que era necessário dar a conhecer a sua missão. Percebemos a forma como Jesus tudo fez para ser compreendido, ainda que algumas vezes abdique dessa obrigação face à recusa dos seus interlocutores em aceitarem o que lhes apresenta e revela.
Neste sentido surgem as parábolas, que se apresentam como enigmas ou pelo contrário como histórias perfeitamente compreensíveis para os ouvintes, pois Jesus fala das realidades da vida, das realidades do quotidiano, da vida daqueles que o ouviam.
É face a esta experiência e aos seus desaires, à incompreensão dos ouvintes, que Jesus acaba por confessar a Nicodemos a impossibilidade de falar das realidades do céu, pois se os homens não compreendiam as realidades terrenas e não acreditavam, como poderiam compreender e acreditar se lhes falasse das realidades divinas do céu?
De facto os seus ouvintes, tal como tantas vezes nós próprios, sofriam desse desejo de controlar o conhecimento que lhes era oferecido, de pela razão apoderarem-se dele de modo a moldá-lo a si mesmos e às suas necessidades. Tal como Nicodemos formulavam sempre a questão do porquê e do como, que ainda hoje nós formulamos.
E no entanto há questões que não têm respostas, há realidades face às quais não nos interrogamos, aceitamos simplesmente, porque como no amor há razões que a razão desconhece. Também na fé há razões que a razão desconhece, realidades a que a razão por si só não consegue dar uma resposta.
A fé exige assim a aventura, o arriscar os cumes da confiança numa realidade, e sobretudo numa pessoa, que nos escapa, que se nos apresenta como incógnita e incompreensível. A fé exige o amor, uma experiência de paixão e enamoramento que dá a razão sem razão de se acreditar, de se avançar apesar da noite ou da cegueira em que nos encontramos.
Necessitamos por isso perder o medo de avançar, apesar da noite; necessitamos libertar-nos desse desejo de tudo compreender, de tudo racionalizar, de tudo querer controlar. A fé é um dom que nos é oferecido para gradualmente ir iluminando as nossas trevas e a nossa cegueira e essa iluminação será cada vez mais intensa e verdadeira na medida do nosso amor.

Ilustração: “Nicodemos”, de Nicolay Nicolayewitsch Ge, Galeria Tretyakov, Moscovo.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Nicodemos veio de noite ter com Jesus (Jo 3,1)

Nicodemos é uma personagem do Evangelho de São João bastante interessante, uma personagem que se aproxima de nós em muitos aspectos, pois não só reconhece Jesus como alguém vindo de Deus, mas vive esse reconhecimento de forma clandestina, oculta, por medo de ser expulso do seu circulo de amigos e relações sociais.
Quantos de nós por causa do mesmo medo, da pressão social, do preconceito de sermos considerados “antigos”, obscurantistas, não vivemos a nossa fé em Jesus da mesma forma oculta, sem a testemunhar corajosamente? E no entanto, quantos dos nossos amigos, companheiros de trabalho, familiares, não estão necessitados de um sinal de esperança, de confiança, da nossa fé em Jesus?
O pobre Nicodemos vem de noite ter com Jesus, vem de noite por medo, mas vem de noite por causa daquilo que ainda lhe falta ver, da cegueira que não lhe permite ver a luz nova e do dia que desponta diante de si. Nicodemos reconhece Jesus com alguém vindo de Deus, como alguém especial, cujas obras manifestam essa particularidade divina. Contudo não é capaz de ir mais além, fica de alguma forma pela constatação do que lhe permite a visão.
Perante isto Jesus coloca Nicodemos diante da necessidade de nascer de novo, de abandonar a noite em que se encontra, de abandonar as garantias e verdades que lhe são dadas pela constatação das obras, pela visão exterior e física. Jesus abala Nicodemos nas suas certezas e pede-lhe a confiança no desconhecido, nesse não saber de onde se vem nem para onde se vai.
Inevitavelmente Nicodemos não compreende Jesus e custa-lhe a aceitar o que lhe é proposto, porque o pedido que Jesus lhe faz é que abandone as suas garantias, que se arrisque a nascer de novo, que não tenha mais medo nem dos outros que o podem marginalizar nem do desconhecido em que se envolverá.
Nicodemos necessita abandonar a noite, arriscar-se a viver o dia com todas as suas consequências, pois só dessa forma poderá de facto e em verdade conhecer aquele que vem visitar de noite e desde já reconhece como vindo de Deus. Nicodemos não pode permanecer na noite ainda que ela seja necessária para perceber o dia.
Também nós necessitamos tomar consciência da nossa noite, da busca e do desejo de conhecer mais profundamente Jesus, mas para que tal aconteça e se faça dia temos obrigatoriamente que abandonar as nossas convicções superficiais, arriscar entrar nesse processo do Espírito que como o vento nos trás não sabemos de onde e nos leva também para onde não sabemos.
Acreditar em Jesus Cristo, procurá-lo em verdade, significa colocar-se em movimento, imbuir-se de um espírito de peregrinação, porque o que sabemos e alcançamos é sempre uma ponta do iceberg que falta conhecer e palmilhar. Seguir Jesus é um nascer constante, um parto contínuo até ao definitivo momento do encontro com a verdade da face de Deus.
Que o medo e o desconhecido não nos paralise nesse nascimento, neste peregrinar, e a confiança e o amor com que o abordamos seja testemunho para os nossos irmãos nos seguirem e se arriscarem na mesma aventura.

Ilustração: “Nidocemos e Jesus num terraço durante a noite”, de Henry Ossawa Tanner, Academia de Belas Artes de Pensilvânia.

domingo, 15 de abril de 2012

Homilia do II Domingo do Tempo Pascal

Celebramos o dia do Senhor oito dias depois de termos celebrado a Páscoa da Ressurreição de Jesus. Uma vez mais nos reunimos para fazer memória desse acontecimento e alimentar a nossa fé.
Alimentar a nossa fé na misericórdia do Senhor, que de há uns anos a esta parte, e por iniciativa do Papa João Paulo II, somos convidados a meditar neste domingo a seguir à Páscoa através do Evangelho de São João e da profissão de fé de São Tomé.
Fé que foi pedida aos discípulos, que é pedida a cada um de nós, e se apresenta como um desafio, um grande desafio, na medida que tal como Tomé também ao longo da história e hoje mais do que nunca muitos de nós repetimos as palavras “se não vir não acreditarei”.
A visão apresenta-se-nos como um sentido que nos dá acesso à verdade, e no entanto todos nós fazemos experiências que são bem verdadeiras, nas quais acreditamos e que não podem ser, nem são, quantificáveis nem visionáveis.
Basta imaginar a emoção face ao belo, o horror face ao sofrimento, as gargalhadas de alegria de uma criança ou as lágrimas de dor pela perda de alguém que se ama. São experiências verdadeiras nas quais acreditamos sem nos interrogarmos sobre a sua quantificação, sem as questionarmos na sua verdade. Há vida nessas realidades, uma força que as torna inabaláveis, intocáveis na sua veracidade.
O encontro de Jesus com Tomé, passados oito dias sobre a ressurreição é um convite a fazer uma experiência dessa magnitude, um convite a acreditar em algo que está para lá do visível, a acreditar em algo que à visão física e à razão se apresenta como impossível.
Neste sentido, temos que ter presente que no Evangelho de São João ver não corresponde linearmente à visão física, mas à percepção de uma realidade cuja dimensão e verdade se capta pela acção do Espírito Santo, por um estar em sintonia com o acontecimento em si mesmo.
O convite de Jesus a que Tomé toque as suas chagas, meta a mão no seu lado, não é assim um convite a uma verificação empírica, porque a própria presença de Jesus com os sinais da crucifixão era já a manifestação da verdade da ressurreição. Tomé não necessitava tocar, como de facto não tocou, apesar das representações da arte tantas vezes o colocarem a espreitar para dentro do lado aberto de Jesus.
O convite de Jesus é um convite à percepção e ao acolhimento do que significavam essas chagas, esse lado aberto, a uma interpretação do sinal da misericórdia que se lhe manifestava. Daquele lado aberto tinha manado sangue e água, tinha brotado para os homens a fonte da misericórdia de Deus e Tomé é convidado a vê-la e a acolhê-la.
Tomé, e cada um de nós, é assim convidado a ver e a acolher a misericórdia de Deus, a aceitar a manifestação do poder de Deus não só sobre a morte, manifestado no Ressuscitado, mas também sobre o pecado. Ter fé significa acreditar que Deus é capaz de ressuscitar mas também que o ódio e a violência não têm a última palavra, a vida e o poder de Deus têm capacidade para os vencer, porque de contrário Deus não seria Deus.
Ao assumir a fé e o seu poder temos que assumir também que inevitavelmente tem consequências, sendo a primeira delas o testemunho.
Quando nos trâmites da sua paixão Jesus é trazido a Pilatos, diz-lhe que veio para dar testemunho da verdade, que essa era a sua missão, que para isso tinha vindo ao mundo, tinha sido enviado pelo Pai.
Ao aparecer aos discípulos e ao deixar-lhes a paz também Jesus envia os discípulos para que os pecados possam ser perdoados, ou seja, a misericórdia era-lhes transmitida de modo a poderem fazer uso dela junto dos outros homens e mulheres, tornando-a desse modo eficiente, manejável.
Tal como Jesus tinha sido enviado pelo Pai para manifestar a misericórdia, para a dar aos homens de forma superabundante, também os discípulos são enviados a viver e a manifestar a misericórdia de Deus junto dos outros, propagando em cadeia esse dom recebido e percebido nas marcas da paixão e na ressurreição.
A fé em Jesus Cristo ressuscitado coloca-nos assim em missão de misericórdia, vivendo-a nas nossas relações, manifestando-a na nossa caridade e amizade para com aqueles com quem vivemos, propagando-a pelo testemunho de que o bem vence o mal, que a morte nas suas mais diversas manifestações não têm a última palavra.
Acolhamos pois a graça da misericórdia que o Senhor nos manifesta e oferece e procuremos testemunhá-la aos nossos irmãos em todos os gestos e atitudes da nossa vida pessoal, social e religiosa.

Ilustração: “A dúvida de Tomé”, de Cima da Conegliano, National Gallery, Londres.

sábado, 14 de abril de 2012

Proclamai a Boa Nova a toda a criatura (Mc 16,15)

Proclamar a Boa Nova a toda a criatura ressoa hoje com uma dimensão de urgência de alguma forma surpreendente. São vários e vastos e domínios que desconhecem a Boa Nova de Jesus Cristo Ressuscitado.
E nesta proclamação estão incluídos o espírito e a carne, o homem em todas as suas mais diversas dimensões e realizações. Nada pode ficar de fora porque Jesus Cristo assumiu toda a realidade humana no seu mistério de encarnação e na ressurreição.
São também objecto desta proclamação da Boa Nova a própria natureza, pois se a ecologia é hoje um movimento importante e urgente na defesa do planeta, ela é também uma manifestação da preservação da natureza que Deus colocou ao serviço do homem e Jesus Cristo também resgatou com a sua morte.
A economia desenfreada, a exploração exaustiva da terra, todos os crimes ambientais, o desequilíbrio entre os recursos naturais e a sua sustentável utilização colocam o homem face a uma catástrofe que mostra o quanto o mesmo homem se afastou do projecto de Deus, da harmonia e equilíbrio que toda a criação divina manifesta.
Anunciar assim a toda a criação a Boa Nova de Jesus ressuscitado é anunciar o equilíbrio e a harmonia que são possíveis, a justiça e a verdade como meios para a construção da paz, o conforto no sofrimento, a urgência de um trabalho comum para a preservação dos recursos e uma sustentável utilização por todos.
Nesta missão segue à nossa frente São Francisco como exemplo, como testemunho que é possível uma proclamação da Boa Nova aos animais e plantas, uma espiritualidade ecológica cristã fundada e fundamentada em Jesus Cristo e na sua acção redentora.
Proclamemos pois a Boa Nova de Jesus Cristo, a alegria da salvação destinada e oferecida a todos os homens e a todas as criaturas da obra da criação, a salvação que ainda é possível a terra mãe em que habitamos.

Ilustração: “São Francisco de Assis”, de Albert Chevallier Tayler.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Celebração da Eucaristia pelos Provinciais Europeus no Convento de São Domingos de Lisboa

No âmbito do Encontro dos Provinciais Europeus da Ordem dos Pregadores, a realizar-se por estes dias em Lisboa, celebrou-se ontem, dia 12 de Abril, uma Eucaristia no Convento de São Domingos de Lisboa para assinalar os cinquenta anos de restauração da Província.
Esta celebração, para além de ser um momento de convívio dos participantes no Encontro Europeu com a comunidade dominicana de Lisboa, foi também a oportunidade para congregar os Priores Provinciais das diversas Províncias europeias que de alguma forma contribuíram para a história da restauração da Província portuguesa.
Deixamos algumas imagens para a memória da celebração Eucarística e do Convívio.
Momento de preparação para a celebração com a paramentação dos celebrantes.
Cortejo de entrada do Priores Provinciais para a Eucaristia.
Saudação ao altar ao início da Celebração Eucarística.
Mestre da Ordem frei Bruno Cadoré a dirigir-se para o seu lugar na Celebração.
Saudação de boas-vindas do Prior Provincial frei José Nunes.
Grupo de Priores Provinciais com frei Esteban da Província de Aragão.
Grupo de Priores Provinciais com frei Pedro Juan.
Participante na Eucaristia fazendo a Leitura.
Frei Fernando Ferreira entoando o Salmo Responsorial.
Prior do Convento de São Domingos frei Filipe lendo o Evangelho.
Presidente da Celebração frei José Nunes com frei Bruno Cadoré e frei Filipe.
Aspecto das mesas do refeitório para o jantar de convívio.
Mesa do jantar com frei José Nunes e outros irmãos.
Mesa do jantar com frei Jerónimo, frei José Maria, frei Xavier, André e frei José Manuel.
Mesa do jantar com frei Francolino, frei Miguel de Burgos, frei Bernardino Prella, frei Bento, frei Pedro Juan e…
Mesa do jantar com Irmãs Dominicanas e outros frades europeus.
Mesa do jantar com Mestre da Ordem frei Bruno Cadoré e outros frades.

Mesa do jantar com frei Miguel dos Santos, frei José Geraldes, frei Gonçalo e outros frades europeus.

Mesa do jantar com frei Rui Grácio e outros frades europeus.

Mesa do jantar com frei Javier Carballo e outros frades europeus.
Aspecto geral do refeitório do convento durante o jantar.
Serviço às mesas do frei Gonçalo Diniz.
O chefe da cozinha nunca pode largar o avental.
Frei Francisco em simpática conversação com convidado.
O Prior frei Filipe sempre atento e ao serviço dos convidados.
Frei Miguel de Burgos assinando o Livro das Visitas do Convento.
Frei Bruno Cadoré, Mestre da Ordem dos Pregadores.

Na margem do mar de Tiberiades (Jo 21,1)

É a terceira aparição de Jesus aos discípulos depois da ressurreição, como que para mostrar que a ressurreição não é um consolo para enfrentar a morte, a tragédia da morte. Se assim fosse de pouco serviria.
A ressurreição é a porta misteriosa, a abertura a uma realidade que se nos apresenta no mar turbulento e na noite escura da nossa vida, como uma margem segura, a terra firme em que poderemos descansar, a margem em que Jesus nos espera com a refeição pronta. É também a margem na qual Jesus nos espera para coroar os nossos trabalhos, para culminar os esforços do nosso trabalho e da escuta atenta à sua palavra.
Como Pedro e os Apóstolos podemos andar toda a noite na faina da pesca, e poderemos não apanhar nada, chegar de redes vazias. A escuta da Palavra de Jesus pode iluminar-nos na pesca e fazer com que cheguemos à margem com as redes cheias de grandes peixes.
E na margem Jesus já nos espera com o pão e o peixe sobre as brasas, indicando-nos tal como aos discípulos que não necessita dos nossos alimentos, porque o seu alimento é fazer a vontade do Pai, mas nós necessitamos do seu alimento, da refeição que ele nos preparou e nos oferece.
Neste sentido a Eucaristia apresenta-se-nos como a margem por agora possível, uma primeira experiência, um ensaio da ressurreição, pois temos ao nosso dispor o alimento do Corpo do Senhor ressuscitado, a verdade da sua Palavra, o encontro na fraternidade dos irmãos que se reúnem para apresentar a Deus as suas ofertas.
Na nossa busca e nas nossas fainas que saibamos manter os olhos firmes na margem, na qual Jesus se pode apresentar a qualquer momento para nos chamar e oferecer o alimento que preparou para nós, o seu amor que arde como um fogo.

Ilustração: “Jesus aparece nas margens do lago”, oficina de Hans Leonhard Schaufelin. Colecção deMikhail Perchenko, Rússia.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Receita de Emaús (Lc 24,13-35)

Antes de mais tenho que dizer que a ideia desta receita me foi sugerida pelas Dominicanas do Mosteiro de Beaufort, em França, por uma meditação que prepararam para a “lectio divina” do dia de hoje. Segundo elas é uma receita fácil de realizar, simples e acessível a qualquer um e portanto a todos.
Iniciamos a preparação desta iguaria, deste prato sublime, apresentando a Deus a nossas incompreensões, as nossas dúvidas, os desesperos e desilusões. Afinal tudo aquilo que nos leva a afastar de Jerusalém como os dois discípulos.
Depois juntamos a esta apresentação, a esta nossa situação de caminho para longe, o encontro com o desconhecido, um desconhecido que se nos junta no caminho e nos abre a compreensão à Palavra de Deus e de modo muito particular ao mistério da paixão, morte e ressurreição de Cristo. Afinal todos nós estivemos ali presentes.
Misturados muito bem estes dois ingredientes, a nossa dor e derrota com a dor e a vitória de Cristo graças ao amor, podemos juntar a hospitalidade, esse convite a que o outro fique connosco.
Este último ingrediente é a mistura de outros dois ingredientes, a hospitalidade do totalmente outro com a hospitalidade dos outros, dando assim origem a uma substância que confirma a presença de cada um dos ingredientes aglutinados.
Podemos então levar ao forno e deixar cozer, deixar o coração arder de desejo para que a massa cresça, o amor se desenvolva, reconhecendo a presença do fermento de Cristo em nós, nos outros, na Igreja e na Eucaristia.
Como muitas outras receitas, esta receita não tem contra-indicações e pode ser consumida sem qualquer moderação em qualquer idade e situação, seja verão ou inverno, faça sol ou faça chuva.

Ilustração: “Ceia de Emaús”, de aluno de Caravágio, Kunsthistorisches Museum, Viena.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Vai ter com os meus irmãos e diz-lhes… (Jo 20,17)

Maria Madalena é no Evangelho de São João uma profunda fonte de acesso ao mistério de Jesus, pois não só testemunhou a sua morte na cruz, era uma das mulheres que vindo da Galileia com Jesus se encontrava em Jerusalém aquando da sua morte, e mais precisamente junto da mãe de Jesus, como depois na manhã da ressurreição foi a primeira testemunha da revelação do ressuscitado.
É nesta manhã de Páscoa e neste encontro que Maria Madalena é encarregue de uma urgente e certamente difícil missão, ir anunciar aos discípulos, àqueles que tinham fugido no momento de perigo e ameaça, que Jesus tinha ressuscitado e os precederia na Galileia.
Maria Madalena assume desta forma a função daqueles mesmos anjos que ela tinha encontrado no interior do túmulo onde tinham depositado Jesus mas no qual já nada existia e que lhe tinham perguntado porque chorava. Maria Madalena transforma-se em anjo, o mensageiro encarregue de levar a Boa nova da ressurreição de Jesus.
Maria Madalena é assim solicitada a assumir a ousadia de tomar a palavra junto dos discípulos, de testemunhar uma realidade inusitada, ela que como mulher e na cultura vigente não seria digna de crédito. Ela deve dizer quem viu e o que ouviu.
A mensagem de Maria Madalena é extremamente importante, de uma importância que ultrapassa a própria ressurreição, pois o que Jesus lhe pede que anuncie é que sobe para o seu Pai e nosso Pai, para o seu Deus e o nosso Deus.
E Maria Madalena pode fazer este anúncio, pode anunciar aos discípulos de uma forma credível a mensagem de Jesus na medida em que ela própria a tinha já experimentado. Quando Jesus a chama pelo seu nome, Maria, está a convidá-la a entrar na inteligência e compreensão da natureza de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, Filho do Pai e Irmão de todos os homens, pessoa que vive em relação, que foi capaz de estabelecer pontes de relação, a amizade entre Deus e os homens.
Também ao proibi-la de o agarrar, de o deter, Jesus mostra a Maria Madalena que ele pertence já a outra realidade que está para além do mundo físico, uma realidade que os homens são convidados também a assumir e a viver, a realidade da filiação e da fraternidade que está para além da carne e do sangue.
Nesta fraternidade e filiação propostas e iniciadas por Jesus o homem pode descobrir que tem um Deus que é pai da humanidade, e pela qual se apaixonou de tal modo que foi capaz de lhe entregar o próprio filho para a recuperar.
Maria Madalena é assim convidada pelo Senhor ressuscitado a anunciar aos seus irmãos que Jesus foi libertado da morte e todos os homens foram libertados da exclusão do pecado. E como ela também nós somos convidados a realizar o mesmo anúncio, a levar aos nossos irmãos a mesma Boa Nova.

Ilustração: “Noli me tangere, da Oficina de Peter Paul Rubens, Rijksmuseum, Amesterdão.