sábado, 30 de novembro de 2013

Ordem de extravagantes

 
A Madre Jeanne contou-me que quando o Padre Hermel, já sacerdote, quis ser dominicano, Monsenhor Fuzet, Arcebispo de Rouen, lhe respondeu apenas: Um vagabundo mais para essa Ordem de extravagantes!
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Frades dominicanos em Lourdes aquando da Peregrinação do Rosário de 2013.

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Sabei que está próximo o Reino de Deus. (Lc 21,32)

Ao aproximar-se o término de mais um ano litúrgico as leituras apontam-nos a realidade do Reino de Deus, o momento da vinda do Reino de Deus.
E sem que nos demos conta vamos protelando a concretização desse Reino para um tempo futuro, vamos projectando o Reino para um tempo indistinto, para uma meta história em que já não contamos participar.
Contudo, e apesar da linguagem apocalíptica e as referências escatológicas, não podemos deixar de ter bem presente que para Jesus a realidade do Reino acontece agora, o Reino está já presente entre os homens e de um modo muito significativo depois da incarnação do Verbo de Deus na história dos homens.
Não nos estranha assim que ao falar do Reino de Deus Jesus diga que ele está próximo, que aquela geração que é sua contemporânea é testemunha do acontecimento desse Reino, que tal como os brotes da figueira anunciam a chegada do verão também há sinais que indiciam a presença do Reino.
Mas se os homens não são capazes de reconhecer esse Reino, não são capazes de o perceber, tal deve-se ao facto de haver uma resistência intrínseca a qualquer definição. O Reino de Deus escapa à temporalidade e aos conceitos dos homens e por isso Jesus sempre se referiu a ele por parábolas. O Reino de Deus é semelhante a qualquer coisa, é semelhante aos brotes das árvores que anunciam o verão.
Neste sentido, e tendo presente que Jesus fala da sua vinda, se refere à sua vinda ao meio dos homens, e não ao seu regresso futuro, temos que aceitar que o Reino acontece hoje, que o Reino não se define em conceitos mas se torna real e presente na nossa história e na nossa vida pelo acolhimento de Jesus, do Verbo do Pai feito carne por cada um de nós.
A nossa caridade, a nossa fidelidade, a luta pela justiça e pela verdade, o bem que procuramos fazer, todas as realidades que estão imbuídas do espirito de Jesus são assim indícios da presença do Reino, da sua progressiva realização.
Tendo presente uma expressão do frei José Augusto Mourão, que dizia que o Reino de Deus era um sintagma vazio, a nossa missão face ao Reino é assim de preenchimento do vazio, é de actualização da sua realidade nunca confinada e nunca terminada.
Procuremos pois acolher Jesus e pelos nossos gestos traduzir em realidades quotidianas o Reino que já é, está a ser e virá a ser em plenitude.

 
Ilustração:  Ícone de Jesus Cristo Pantocrator, Mosteiro Kizhi, Carélia, Rússia.

Os grandes países fazem grandes homens

 
Os grandes países fazem também os grandes homens. Há certas dimensões espirituais da vida que implicam uma certa grandeza material e que asseguram também uma certa amplitude do génio.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Estátua de Pictet de Rochemond coberta com neve em Genebra.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A vossa libertação está próxima! (Lc 21,28)

Ao termos presentes os dados históricos e circunstanciais em que Jesus anuncia a destruição de Jerusalém e do seu templo, este anúncio não nos soa estranho, mas bem pelo contrário, aparece-nos como uma constatação de alguém muito atento à realidade.
O país e a cidade estavam ocupados e sob o jugo do império romano, a exploração e a violência era cada vez maior, e da parte do povo havia uma revolta interior, um desejo de libertação que por vezes explodia em movimentos radicais de guerrilha e subversão.
Presentes estes dados era fácil perceber que mais dia menos dia, mais ano menos ano, a situação se tornaria explosiva, conflituosa até ao ponto de um dos oponentes ter que ser completamente eliminado. A força e o poder militar romano levaram a melhor e foi Jerusalém que foi destruída pelas tropas de Tito no ano setenta.
Face a esta perspectiva do futuro, Jesus aponta um outro caminho, uma solução que conduzirá a uma outra revolução, muito mais significativa e transformadora das realidades. Face à possibilidade da violência Jesus oferece a paz, a concórdia, o convite a erguer a cabeça porque a libertação está próxima.
Não se trata já de aniquilar o outro, mas de perceber em nós e no outro uma dignidade que nos ergue, que nos distingue e identifica. Somos ambos filhos do mesmo Deus e portanto é no respeito mutuo, na colaboração reciproca para o crescimento pleno, que podemos alcançar a nossa dignidade como homens.
A libertação não é assim uma acção exterior, o fruto de uma luta violenta, mas um estado interior, uma realidade que nos habita e portanto está mais próxima de nós que os nossos próprios gestos de libertação.
No momento social e histórico em que vivemos, fragmentado por tentativas de libertação de um jugo económico que nos oprime, não podemos esquecer que essa libertação está no nosso interior, começa na dignificação de cada um e de todos, e que necessitamos urgentemente de ideias, mais que palavras.
Como diz Goethe “tende-se a colocar muitas palavras onde faltam as ideias”, e se as palavras já nos cansaram, é urgente recuperar a ideia da dignidade do homem e da mulher, a dignidade do trabalho como forma de colaboração humana na obra divina.
Necessitamos erguer-nos, erguer-nos como Filhos de Deus, uma vez que a libertação habita já dentro de nós no valor divino de cada homem e mulher que somos.

 
Ilustração: “Macabeus”, de Wojciech Stattler, Museu Nacional de Cracóvia.

 

A importância das obras de arte

 
A importância das obras de arte é que elas instalam na imaginação dos homens formas que aí se tornam prolificas, geradoras de outras formas das quais não se saba nada ao princípio.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Vaso dourado dos Jardins do Palácio de Versailles.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não deveis preparar a vossa defesa! (Lc 21,14)

Face ao anúncio de perseguições, de ameaças de morte, da traição dos mais próximos, por causa do seu nome, Jesus adverte os discípulos para que não se preocupem com a preparação da defesa.
Proposta estranha, advertência desconcertante, que nos deixa entregues aos carrascos, aos perseguidores, sem que uma palavra deva ser proferida.
Contudo, a história não deixa de nos dar exemplos, testemunhos, de como este conselho de Jesus é verdadeiramente significativo, de como é uma arma terrível que pode de facto produzir efeitos insuspeitos naqueles que violentam e ofendem, que perseguem e matam.
A história da Igreja, e sobretudo a história das perseguições aos cristãos nos mais diversos tempos e espaços geográficos, testemunha-nos que o silêncio fiel, a perseverança na fé até ao fim, é uma sabedoria que provoca o mundo e o questiona.
O sangue dos mártires, no seu silêncio, na sua fidelidade é, e tem sido ao longo dos tempos, semente de novos cristãos. O dom da vida entregue por Jesus, pela verdade do homem que ele nos revela, pela justiça que devemos uns aos outros como irmãos, é interpelador da nossa vida e da nossa posição face a ela.
E se temos a graça de viver num país no qual os cristãos não são perseguidos não podemos esquecer aqueles com os quais tal não acontece, bem como o desafio que nos apresenta a indiferença de tantos dos nossos irmãos, que nãos nos perseguem nem nos violentam, mas que nos urgem no mesmo testemunho fiel e perseverante dos mártires, pois a indiferença é outra manifestação da luta contra Deus, certamente até mais insidiosa.
Necessitamos portanto, pela oração, pela frequência dos sacramentos, pela caridade diligente, alimentar e fortalecer a nossa fé, aproximar-nos de Jesus Cristo como vitória sobre o mal, de modo a que a nossa vida seja um eloquente testemunho pela confiança depositada.

 
Ilustração: “A Jovem Mártir” de Paul Delaroche, Museu do Louvre, Paris.

A essência que nos dignifica

 
Se não nos esforçarmos por descobrir a essência religiosa, o sentido mágico das coisas, não faremos mais que acrescentar novas fontes de embrutecimento àquelas que são oferecidas hoje aos povos.
Marie-Alain Couturier, citando Miró

Ilustração: Alameda de acesso a quinta em Vernier em dia de neve.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Tudo será destruído! (Lc 21,6)

É diante de um templo ornado das mais belas pedras, construído com orgulho, que Jesus declara que nada ficará de pé, que nada se aguentará, que tudo será destruído.
Podemos imaginar a surpresa, o espanto e até o escândalo dos discípulos e de todos os que o ouviam. Aquele templo era uma grande obra, feita com o melhor que a terra podia oferecer e o engenho humano podia conceber.
Diante destas palavras de Jesus podemos perguntar-nos se Jesus é afinal mais um profeta das desgraças como tantos outros que se apresentaram ao longo da história e ainda hoje se apresentam àqueles que os querem ouvir.
Mas a verdade é que Jesus se apresenta nesta sua profecia, nesta profecia da destruição do templo de Jerusalém, como um guia precioso, como alguém que vem indicar um outro fim, uma outra possibilidade para o homem, assim ele esteja disposto a acolhê-la.
A profecia de Jesus sobre a destruição do templo faz-nos passar do templo e da Jerusalém terrestre para o templo e a Jerusalém celeste, faz-nos passar da precariedade e finitude de todas as realidades deste mundo para aquelas mesmas realidades que são eternas.
Estamos assim diante de um apelo a uma conversão, a uma profunda transformação das nossas realidades e da forma como lidamos com elas. Tudo é passageiro e provisório, este mundo e esta história constituem-se de finitude.
Neste processo de transformação necessitamos antes de mais de converter o nosso olhar, perceber como diz a raposa ao Principezinho de Saint-Exupéry que “o essencial é invisível aos olhos”, que as realidades pequenas e tantas vezes imperceptíveis, reconhecidas e valorizadas, são aquelas mesmas que dão sentido e mudam a vida.
Por outro lado, esta conversão do olhar repercute-se também no horizonte existencial, no termo final em que fixamos os nossos olhos e a partir do qual olhamos também as outras realidades. Alguém que olha o amor de Deus na eternidade não pode deixar de olhar de forma amorosa as diversas realidades que povoam o seu quotidiano e a sua vida.
Procuremos pois purificar o nosso olhar, dar-lhe um novo prisma, e seguir aquele que se apresentou como a Luz, a verdadeira luz para a humanidade, nós que tantas vezes andamos às escuras como cegos.

 
Ilustração: Parábola do Cego guiando outros cegos, de Pieter Bruegel o Jovem.

 

O amor que dá vida

 
Nós sabemos que passámos da morte à Vida na medida que amamos os nossos irmãos. Trata-se desta Vida que é o próprio Deus. De maneira que nós não conhecemos Deus senão pela caridade para com os nossos irmãos. Aquele que não ama permanece na morte.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Rosa vermelha do jardim da casa dos meus pais.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Os pedaços do paraíso

 
O paraíso não existe sobre a terra, mas existe nela alguns pedaços. Existe sobre a terra um paraíso feito em pedaços.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Jardins do Palácio de Queluz.

domingo, 24 de novembro de 2013

Homília da Solenidade de Cristo Rei

Celebramos hoje a Solenidade de Cristo Rei, instituída em 1925 pelo Papa Pio XI, e com esta celebração encerramos o Ano da Fé proclamado pelo Papa Bento XVI e oferecido à Igreja e ao mundo como uma oportunidade para crescermos numa fé em Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, mais esclarecida, mais dinâmica e mais consequente.
Neste sentido, as leituras desta Solenidade de Cristo Rei são uma oportunidade para nos confrontarmos com as questões que se colocam à nossa fé em Jesus Cristo e aos desafios que ela acarreta, nesta linha do esclarecimento, do dinamismo e das consequências.
A leitura da Carta de São Paulo aos Colossenses dá-nos a chave para compreendermos a realeza de Jesus, uma realeza que se diferencia e até opõe à realeza política, mundana, que podemos ver espelhada nas expectativas dos soldados e dos judeus quando junto à cruz de Jesus lhe pedem que se salve e manifeste dessa forma o seu poder.
E por estranho que nos pareça, estas expectativas manifestadas por aqueles que representavam os poderes do mundo, habitam ainda hoje o nosso coração, as nossas aspirações e até a nossa fé. Quantas vezes não solicitámos já junto de Deus esta mesma manifestação de poder? Quantas vezes não solicitamos um Deus agente, activo, em favor dos nossos desejos e das nossas necessidades mais mundanas e históricas?
Para São Paulo a realeza de Jesus manifesta-se na sua morte na cruz, revela-se nesse acto profundo de misericórdia de entregar a vida em favor dos outros, em favor do perdão dos homens. A entrega de Jesus é um acto incomparável, sem qualquer medida, impossível ao homem, impossível até à compreensão humana na sua racionalidade.
Mas é neste acto supremo de loucura, como muitos o entendem, que se revela todo o poder de Deus, que se revela a sua realeza, uma vez que é o acto supremo de poder, um poder que não aniquila o outro, que não elimina o pecador, aquele que está em dívida, mas pelo contrário, o reabilita, o transforma e o torna justo. É esta revolução que Jesus provoca na condição humana que manifesta o seu poder.
Contudo, este poder escapa aos olhos humanos, escapa à nossa visão mais histórica, e só com o olhar da fé se torna perceptível e compreensível. Não se pode perceber o poder de Deus, a realeza manifestada em Jesus crucificado e aniquilado, sem qualquer força ou poder humano, senão pela fé.
E é esta fé que o chamado bom ladrão manifesta quando, face às provocações dos outros, judeus, soldados, e companheiro de crime, solicita a Jesus que se lembre dele quando vier na sua realeza. É um pedido de tal modo extraordinário, revelador do que está em causa, da fé que é necessária face àquele que tem diante de si, que trata Jesus pelo seu nome, caso único em todo o Evangelho de São Lucas.
Ao fazê-lo, ao dirigir-se a Jesus pelo nome que lhe tinha sido dado pelo pai, e que na sua acepção significa “Deus Salva”, o bom ladrão abre as portas à manifestação do poder de Deus, à realeza de Jesus. O bom ladrão manifesta que a realeza e o poder de Jesus não é um algo externo ou exterior ao homem, manifesta que é acção própria e intrínseca de Deus, e acontece numa relação pessoal, numa relação de intimidade mutua.
A resposta de Jesus ao pedido do bom ladrão manifesta no entanto que ele estava um pouco equivocado, tal como acontece muitas vezes com tantos de nós, ou seja, que o seu poder e a sua realeza não se encontram no futuro, não se encontram na eternidade, mas são actuais, são daqui e de agora, e portanto realizam-se no presente, são actualmente operantes.
Esta afirmação de Jesus provoca inevitavelmente alguns desafios na forma como nos situamos na nossa fé e na nossa relação com ele e a sua acção salvadora na nossa vida. Assim, não podemos deixar de assumir que a nossa vida deve ser um constante exercício, uma batalha, para que tal como nos diz São Paulo tudo seja submetido ao poder e ao reinado de Jesus, porque só sob o seu poder as coisas subsistem e adquirem o seu verdadeiro e pleno valor.
Não podemos deixar de ter presente também, e viver com essa confiança, que o poder de Jesus se realiza actualmente, é operante na nossa vida na medida da relação de fé intima e pessoal que estabelecemos e procuramos viver quotidianamente.
Desta forma, ao celebrarmos a Solenidade de Cristo Rei, e ao concluirmos com ela mais um ano litúrgico, assumimos que apesar das nossas fraquezas, dos nossos pecados, como o bom ladrão, nos dispomos e oferecemos para participar na realeza de Jesus, reconhecemos na fragilidade de Jesus na cruz o poder de nos salvar e transformar.

 
Ilustração: Vitral de Jesus Cristo Rei, igreja Anglicana de São João Baptista de Ashfield, Austrália.

A experiência do amor de Deus

 
Nós experimentamos o amor de Deus por nós em Cristo. E como se faz essa experiência? Deus não nos indica que uma única via: testemunhar aos nossos irmãos este mesmo amor que ele nos testemunha em Cristo, que ele quer testemunhar nele por nós.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Peregrinos na esplanada do Santuário de Lourdes.

sábado, 23 de novembro de 2013

Tudo o que é eterno

 
Tudo o que é eterno é ao mesmo tempo actual, igualmente a relação individual universal.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Lago com deus da mitologia antiga nos Jardins do Palácio de Versailles.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

O que engrandecemos

 
Apenas engrandecemos as coisas pelas quais estamos dispostos a nos sacrificar.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Hortênsias brancas do jardim da casa dos meus pais.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A arte da fé

 
A partir do momento em que se desce a arte sacra para a colocar ao nível das pessoas, não é mais um acto de fé mas um acto de propaganda.
Marie-Alain Couturier citando Braque

Ilustração: Capela-mor e Cúpula da igreja do Convento de Mafra.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A arte que é mentira

 
Em arte tudo o que não é novo é mentira, fala-se com as palavras dos outros. O estilo é o próprio homem.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Azulejos com pomba na estação de Metro do Alto dos Moinhos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

O que faz o valor

 
Van Gogh, Soutine, Matisse. O que faz a vida e o valor de uma obra é que todo o homem aí está presente. Ela vinga-se de toda a partilha.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Estátua de Luís XIV no Palácio de Versailles.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Felizes se o mistério subsiste

 
A violência insensata das paixões vem também do desejo de fazer cair certas barreiras que acreditamos que uma fez derrubadas certos seres nos serão mais verdadeiramente entregues, verdadeiramente unidos. Derrubadas as barreiras não há mais ilusões, os dois seres permanecem ainda separados, diferentes um do outro e reservados, recusados. Felizes serão se algum mistério subsiste ainda.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Escultura mitológica do jardim do Palácio de Queluz.

domingo, 17 de novembro de 2013

Homília do XXXIII Domingo do Tempo Comum

O texto do Evangelho de São Lucas que acabámos de escutar dá-nos, através de uma breve referência, uma ideia da grandiosidade do templo de Jerusalém, um templo iniciado por Herodes o Grande e terminado no ano sessenta e três da nossa era.
No momento histórico em que decorre o acontecimento que São Lucas nos transmite, o templo estava já bastante adiantado, era já uma obra magnífica e esplendorosa que deixava todos os que subiam a Jerusalém verdadeiramente maravilhados. Era uma verdadeira obra-prima e uma glória não só para o rei mas para todo o povo.
O comentário de Jesus sobre a finitude dessa mesma obra e a precaridade dessa grandeza aparece assim como uma provocação, como uma blasfémia face ao conceito generalizado que tal grandiosidade era da vontade de Deus, era um sinal divino. O comentário aparece também como um atentado ao orgulho colectivo e por isso não admira que seja usado no momento do julgamento de Jesus como acusação para a sua condenação.
Mas, se as palavras de Jesus são de certa forma proféticas relativamente à vida do templo, que foi destruído sete anos depois de concluído, no ano setenta da nossa era, pelas tropas romanas do imperador Tito, elas são fundamentalmente uma chamada de atenção, um convite a perceber que tudo neste mundo é efémero, é passageiro, mesmo as obras mais grandiosas.
Ao dizer que daquela grandiosidade não ficaria pedra sobre pedra Jesus está a alertar os seus ouvintes, e cada um de nós que hoje escutamos o Evangelho, que os nossos sonhos e ilusões de poder, de glória, de fama e imortalidade terrestre são meramente sonhos e ilusões, são realidades passageiras que não passam disso mesmo. Há algo mais fundamental a que temos que prestar atenção.
Como acontece em muitos outros momentos do Evangelho, os ouvintes de Jesus não perceberam nada e face ao anúncio catastrófico do futuro interessaram-se inevitavelmente por querer saber como podiam discernir esse mundo de destruição de que Jesus falava, como podiam preparar-se para o fim do mundo.
Como era previsível Jesus não lhes respondeu, não lhes disse quais os sinais, bem pelo contrário, alertou-os para o cuidado a ter com esse desejo de saber e para as respostas pretensiosas que tantas vezes são oferecidas pelos profetas das desgraças.
Face às realidades que fazem parte e constituem este mundo em que vivemos, as catástrofes naturais como a que recentemente pudemos observar nas Filipinas, as guerras que se travam entre povos como na Síria, Jesus teve a coragem de lhes dar a sua verdadeira dimensão, de as apontar como realidades intrínsecas ao nosso sistema e à nossa condição e de as desmistificar da codificação apocalíptica habitual.
Os sinais do fim do mundo não se encontram assim na horizontalidade deste mundo, na dimensão natural e nas suas condições e leis constituintes, mas encontram-se num combate que nos transcende, num combate vertical de que Jesus é o primogénito como combatente e como vencedor.
Para Jesus se há algum sinal apocalíptico, algum sinal do fim do mundo, ele desenvolve-se e acontece na perseguição por causa do seu nome, acontece no facto de homens e mulheres serem odiados, perseguidos, maltratados por causa do seu nome.
Os sinais do fim do mundo jogam-se assim na fidelidade e na perseverança, acontecem na medida em que nasce o sol de justiça para aqueles que temem o nome de Deus e vivem confiantes que a força e a ajuda divina não lhes faltará face aos desafios que lhes são colocados pela sua situação no mundo.
Neste sentido, e tal como recomenda São Paulo aos Tessalonicenses, os cristãos não devem viver ocupados em futilidades, não devem desesperar da situação e das realidades deste mundo como se o fim estivesse eminente, mas devem viver tranquilos, confiantes, ganhando o pão de cada dia, conscientes de que a sua luta diária, a sua perseverança na fé face ao perigo da tibieza é o mais evidente sinal do fim do mundo, pois é manifestação de uma vitória e de uma vida que já nos foi alcançada por aquele que foi sacrificado por causa do nome de Deus.
Procuremos pois viver os desafios de testemunho confiantes que a nossa defesa já foi preparada e que pela vitória de Jesus nem um só cabelo da nossa cabeça se perderá se perseverarmos na nossa fidelidade.

 
Ilustração: “A destruição do Templo de Jerusalém”, de Francesco Hayez, Academia de Veneza.  

As imagens que ainda necessitamos

 
Não acredito, acima de tudo, que o ambiente evangélico seja favorável à arte. Ele é demasiado puro: um cristianismo autêntico e totalmente vivido não terá nenhuma necessidade dela. Não é mais que um sinal da nossa miséria, da nossa incurável lassitude. Não é senão por fraqueza, por indigência, que temos necessidade de imagens. Na vida contemplativa é bom que não se necessite. “É melhor para vós que eu me vá.” (Jo16,7) E as mais toleráveis são as mais primitivas ou as mais sagradas.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Imagem da Virgem com o Menino oferecida pelo Externato Marista de Lisboa.

sábado, 16 de novembro de 2013

Pouco para o essencial

 
Possivelmente dentro de alguns milénios, e sobre as nossas ruinas, a Sabedoria ter-nos-á ensinado que muito poucas coisas são suficientes para o essencial.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Rosa do jardim da casa dos meus pais.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O que os artistas traduzem

 
Os artistas existem para traduzir os acontecimentos do seu tempo, mas eles fazem-no com sinais que não são legíveis por todos.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Reflexo no espelho de um piano, obra de arte contemporânea no Museu de Arte e História de Genebra.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Criar oásis de poesia

 
Num mundo mecânico e naturalista, quando for necessário criar oásis de poesia, demoliremos por todas as partes o que subsiste ainda de centros de encantamento e de esconderijo do sonho, os cenários do passado, as solidões naturais.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Vela em noite de vigília no Santuário de Lourdes.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Celebração Marista na Capela de Nossa Senhora das Descobertas no Colombo

 
Passava pouco das cinco da tarde quando nos encontrámos na Capela do Externato Marista de Lisboa. Pouco depois partimos em caminhada, poderíamos dizer em peregrinação, até ao Centro Comercial Colombo.


Ali, na Capela de Nossa Senhora das Descobertas, esperava-nos mais um momento deste caminho de peregrinação que iniciámos alguns meses atrás e que já nos levou até Fátima a pé no mês de Maio passado.
 

Foi uma experiência única, que exigiu esforço e perseverança, mas que deixou marcas e marcas profundas. Por isso decidimos continuar a caminhar, a aprofundar a nossa fé, a nossa pertença à Igreja, optámos por não deixar esta experiência isolada e perdida nas nossas vidas.
 

Outros caminhos há para fazer, uma outra peregrinação para viver, e neste sentido nos temos vindo a encontrar e a preparar, a tentar perceber o que afinal Deus nos quer dizer nestes nossos tempos e nestas nossas vidas. Estamos em caminho e queremos caminhar.
 

Tal como aconteceu com o profeta Samuel, que Deus não deixou de chamar apesar da incompreensão do chamamento, também hoje Deus nos chama e espera a nossa resposta. Tal como Jesus enviou os setenta e dois discípulos a anunciar a Boa Nova do Reino também hoje Jesus nos envia a proclamar a alegria do seu amor, a felicidade de vida que nos oferece.



Hoje vivemos e experimentámos, uma vez mais, como unidos em comunidade, como um corpo vivo e coeso, podemos fazer o caminho mais facilmente, podemos testemunhar a nossa fé com mais fidelidade e verdade.


Como cantávamos na celebração da Eucaristia o “Senhor maravilhas fez em mim” e por isso cada um “vai chegar onde Deus o levar”.

 
 
Ilustração: Fotografias da celebração na Capela de Nossa Senhora das Descobertas no Colombo.

Fala Senhor que o teu servo escuta!


Fala Senhor que o teu servo escuta!

É a proposta de reflexão para o segundo encontro com os alunos do Externato Marista de Lisboa que em Maio passado foram a Fátima a pé e optaram por continuar a sua caminhada de fé e pertença eclesial.

Neste segundo encontro celebraremos pelas 18.00 horas a Eucaristia na Capela do Centro Comercial Colombo, um desafio ao discernimento dos diferentes apelos e chamamentos a que hoje todos somos submetidos.

 
Ilustração: A bussola entregue a cada membro do grupo no primeiro encontro.

As fronteiras que nos aprisionam

 
As fronteiras, todos os limites, mesmo naturais, podem tornar-se os muros de uma prisão; salvar num grupo e numa vida tudo o que permite ultrapassá-las: filosofia, religião, a arte de rezar.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Porta medieval da Abadia de Saint Gallen na Suíça.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mudar o coração?

 
Para além das acções está o nosso coração: tu não tens grande coisa a mudar na tua vida, mas e no teu coração?
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Escultura da fonte no centro do jardim interior do Museu de Arte e História de Genebra.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A vontade de Deus é a nossa santificação

 
A vontade de Deus é a nossa santificação. Se não nos tornamos santos permanecemos em divida em relação ao fim para que fomos criados. Assim, tudo o que conta verdadeiramente é discernir a vontade de Deus para nós.
Edith Stein, Santa Teresa Benedita da Cruz

Ilustração: Orquídea rosa.

domingo, 10 de novembro de 2013

Homília do XXXII Domingo do Tempo comum

Celebrámos há uma semana a Festa de Todos os Santos e imediatamente a seguir comemorámos os Fiéis Defuntos. De uma forma mais consciente ou inconsciente confrontámo-nos com o mistério da ressurreição que celebramos em cada Eucaristia e de que nos fala de modo particular a Liturgia da Palavra de hoje.
O Evangelho de São Lucas que escutámos apresenta-nos um grupo que não acredita na ressurreição, os saduceus, e que se apresenta a Jesus para lhe colocar uma questão, que não deixa de ser pertinente face à concepção habitual da ressurreição.
Concepção que encontramos igualmente reproduzida no Livro dos Macabeus, e na leitura que escutámos, quando vemos um dos jovens entregar os seus membros para o sacrifício, confiante que esses mesmos membros lhe seriam devolvidos no momento da ressurreição.
Estamos assim perante uma concepção mecanicista, uma concepção da ressurreição alicerçada nos nossos mecanismos humanos compensatórios, aritméticos, que não deixa de colocar problemas nem questões como as que colocaram os saduceus a Jesus.
Esta concepção está ainda hoje presente na nossa forma mais elementar de pensarmos a ressurreição, que nos aparece em muitas circunstâncias como uma compensação, um perfeccionismo, face às nossas limitações humanas e terrestres. Não nos estranha nem nos desconcerta concebermos a ressurreição como uma vida eterna sem problemas nem defeitos, uma vida em plenitude em contraposição aos limites e imperfeições desta vida terrena.
Contudo, e ainda que assim seja, essa plenitude não é uma extensão das nossas realidades humanas, dos nossos desejos humanos. Há uma diferença substancial que se prende com a nossa condição e natureza, e que Jesus bem realça ao responder aos saduceus, quando lhes diz que na ressurreição seremos como os anjos. 
Não se trata tanto de género ou sexo, mas da nossa situação face aos outros e a nós próprios, uma vez que estaremos apenas focados na realidade divina, a nossa existência será uma adoração contínua e plena de Deus, viveremos completa e plenamente no Deus vivo.
Face a esta realidade e à diferença substancial inerente à vida tal como a conhecemos, colocam-se dois grandes desafios como são a morte e a nossa relação com os outros neste mesmo mundo.
Relativamente aos outros, aos nossos irmãos e irmãs com quem somos chamados a partilhar a vida e a procurar construir o Reino de Deus, temos que ter presente que eles são desde já o modo de experimentarmos a descentralização de nós próprios e a centralidade do outro, o modo mais aproximativo de vivermos a centralidade de Deus.
O amor ao outro, a caridade, a fraternidade, a amizade, coloca-nos de certa forma já fora de nós, numa existência adoradora da divindade que habita em cada um de nós e dos outros homens e mulheres. Pelo amor experimentamos já a nossa existência ressuscitada, ainda que numa dimensão muito ténue e limitada face à realidade plena e eterna. Contudo, não podemos deixar de a experimentar e de ir insistindo nela, uma vez que é a forma de desde já apreendermos a vida perfeita na ressurreição.
O outro grande desafio que nos coloca a ressurreição é a morte, que não pode ser vista como um acidente de percurso, uma passagem obrigatória, mas um combate que abrange toda a nossa vida e no qual somos acompanhados por Jesus.
A morte não se resume a um momento, a um passar desta para a outra vida, mas é uma realidade que nos acompanha e que se vai ultrapassando e vencendo na medida em que combatemos pela verdade e pela justiça, em que nos envolvemos em combates pela vida, pela paz, e pelo progresso de toda a humanidade, em suma, na medida em que vamos assumindo a vida vivida em plenitude.
A nossa acção humanitária, no seu sentido mais radical, em solidariedade com a acção redentora de Jesus, vai tornando realidade a profissão de fé em que proclamamos Jesus Cristo como o primogénito dos mortos. Ele é o primeiro e nós seguimos pelo seu caminho que leva à vitória, conscientes e confiantes que o espirito entregue na cruz nas mãos do Pai nos é devolvido em pleno como ressurreição.
A vida vivida em radicalidade, comprometida com os outros e o seu bem, descentrada de nós e da nossa satisfação egoísta, entregue com fidelidade nas mãos de Deus, é assim desde já uma experiência da ressurreição, a experiência possível, mas que nos prepara para a verdadeira e total centralidade em Deus, para a vida vivida em Deus e por Deus.
Como nos diz Jesus, o nosso Deus é um Deus de vivos, para quem todos estão vivos, pelo que só uma vida verdadeiramente vivida em todo o seu potencial pode dar um verdadeiro testemunho da ressurreição. Procuremos pois viver em plenitude a vida que nos foi concedida, testemunhando dessa forma a ressurreição em que acreditamos.

 
Ilustração: Frescos de Viktor Vasnetsov na Catedral de São Vladimir em Kiev.  

O coração consome-se a possuir

 
A verdade é que não podemos tudo ter na vida, é necessário portanto resignar-se, e o mal é que finalmente o que desejamos mais é o que não chegamos a ter. Porque o coração consome-se a possuir bem mais que a desejar.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Flores da Madeira.

sábado, 9 de novembro de 2013

Liberdade e escravatura

 
Como as verdadeiras liberdades as verdadeiras escravaturas são interiores. Bem longe de escravizar certos quadros libertam, ou melhor, o preço de certas escravaturas asseguram liberdades mais elevadas, mais puras.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Escultura da escadaria nobre do Museu de História e Arte de Genebra.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Sobre os adversários

 
Não subestimar o adversário, não apenas a sua força mas a sua dignidade de homem.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Armadura do Museu de História e Arte de Genebra.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Dois sentidos da liberdade

 
Dois sentidos da liberdade, duas maneiras de ser um homem livre, em extensão e em profundidade. Ser livre de tudo amar. Ser livre de ir tão longe quanto se possa e que se queira numa certa estrada, num certo amor ou numa ideia. E estes dois sentidos frequentemente são contrários, quem se estende até ao infinito permanece superficial.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Nuvens entre a floresta perto de San Sebastian, Espanha.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Sobre os defeitos

 
Sempre recusei ver os defeitos dos homens que eu admirava. Finalmente acredito ter ganho bastante com isso.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Busto de Luís XIV de Bernini no Palácio de Versalhes.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Sobre o amor do bem

 
Alguns amam o bem porque ele é o bem, perfeição do homem. Outros simplesmente porque ele nos conforma e nos une a Deus apenas amado.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Ramo de rosas brancas.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A dignidade da arte

 
O que faz a dignidade da arte é ela elevar o corpo, os sentidos, ao modo de conhecimento dos espíritos, desinteressado, sem contacto e sem possessão.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Escultura de Diana caçadora no Palácio de Versalhes.

domingo, 3 de novembro de 2013

Homília do XXXI Domingo doTempo Comum

Zaqueu é certamente uma das figuras mais conhecidas e populares dos Evangelhos e essa popularidade advêm-lhe da circunstância do seu encontro com Jesus, do ridículo a que se sujeita para poder ver Jesus. Como tão frequentemente acontece gostamos de nos rir das desgraças dos outros.
Diz-nos o Evangelho de São Lucas que Zaqueu não só era um homem rico, como era o chefe dos publicanos da cidade de Jericó, razão para ser temido e odiado, pois tinha o poder de dialogar directamente com os opressores romanos e de se aproveitar do dinheiro que cobrava dos impostos. Esta relação com o poder estrangeiro e a sua actividade fiscal colocava-o nas fronteiras da sociedade judaica, na marginalidade face ao grupo e à religião.
São Lucas refere-nos ainda que Zaqueu era de pequena estatura, limitação física que diante da possibilidade de ver Jesus foi usada, por aqueles que Zaqueu explorava, para se vingarem dele. Que melhor oportunidade que aquela para lhe fazer sentir na pele a humilhação da injustiça e da exploração?
Face a estas limitações e circunstâncias Zaqueu age habilmente como sempre fez e como homem calculista vai antecipadamente colocar-se num lugar mais à frente e sobe a uma árvore para poder ver Jesus que passa.
Podemos imaginar o riso, a chacota, que tal atitude provocou, pois um dos homens mais importantes da cidade é obrigado a subir a uma árvore para poder ver Jesus. O seu poder e o seu dinheiro não lhe permitiam afinal tudo.
É face a esta ousadia de Zaqueu que Jesus ao passar por ali o olha e o convida a descer e a acolhê-lo em sua casa. Jesus vem ao encontro do desejo de Zaqueu, como vem ao encontro do desejo de cada um de nós. Tal como refere o Evangelho de São Lucas, Jesus tem necessidade de ficar naquela casa, na casa de Zaqueu.
Ao dirigir-se a Zaqueu e ao querer ficar na sua casa Jesus manifesta a necessidade de ter alguém que o acolha, manifesta a sua indiferença face às alturas e aos estatutos dos homens, manifesta a inversão do processo de conhecimento de Deus.
Zaqueu tinha subido a um sicómoro para ver Jesus, mas ao pedir-lhe que desça das alturas em que se colocou, Jesus mostra-lhe, como nos mostra a cada um de nós, que não é nas alturas que devemos procurar Deus, mas descendo à nossa condição, percebendo o próprio mistério da encarnação que é igualmente uma descida à nossa condição humana.
O convite de Jesus a que Zaqueu desça do sicómoro é um convite à humanização do conhecimento e da relação com Deus, que se tornou próximo, que se fez um de nós, que encarnou no Jesus de Nazaré. Deus deixou de necessitar de estratégias de aproximação porque vem ao encontro da humanidade.
E vem ao encontro da humanidade sem olhar a estatutos ou condições, sem se importar se somos mais ou menos pequenos, mais ou menos pecadores. Deus vem ao encontro de todo o homem porque é sua criatura e porque no coração de cada um habita esse desejo do encontro.
No caso de Zaqueu, como em tantos outros nos Evangelhos, e até no próprio mistério da incarnação, Deus sujeita-se à crítica, sujeita-se à desconsideração por parte daqueles que se consideram bons, puros e inteligentes. Deus e Jesus aceitam ser criticados pela sua misericórdia, pelo facto de acolherem e deixarem-se acolher pelos pecadores, por aqueles que não tem lugar na sociedade.
Este movimento, esta acção de Deus, tem com resultado primário a alegria que Zaqueu experimenta ao receber Jesus em sua casa, um resultado que se repercute na mudança de vida, na conversão, que em Zaqueu se traduziu na restituição daquilo que não era dele.
Jesus continua hoje a dizer-nos que quer ficar em nossa casa, continua a convidar-nos a descer dos nossos esquemas religiosos para nos encontrarmos intimamente com ele numa relação pessoal e próxima, continua a oferecer-nos a alegria que nasce do seu encontro e da sua habitação em nós.
Diante deste convite e desta oferta, importa perguntar se estamos dispostos a esta experiência com todas as suas consequências, se a ousadia e irreverência de Zaqueu são também nossas. Estou eu disposto a dar o meu testemunho de fé ainda que tal provoque os outros na sua apreciação e consideração?
Que a confiança em Deus que vem ao nosso encontro, que quer ficar em nossa casa, nos liberte do medo e dos respeitos humanos que impedem ou obscurecem a ousadia do nosso testemunho de fé.

 
Ilustração: Medalhão decorativo dos confessionários da igreja da Abadia de Saint-Gallen com o episódio de Zaqueu.

A grande obra é o teu coração

 
Porquê obstinar-se por grandes obras? A tua “obra” é o teu coração.
Marie-Alain Couturier

Ilustração: Fachada do corpo central do Palácio de Versalhes vista do jardim.