terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Manda-os embora! (Mc 6,36)

Tudo se passa num descampado, parece que longe das aldeias mais próximas, a uma hora suficientemente adiantada para deixar os discípulos bastante preocupados.
É uma multidão que se encontra ali, e Jesus parece distraído da sua precariedade tão empolgado está com a pregação, com a palavra que parece ganhar eco naqueles ouvintes.
É face a esta realidade que os discípulos, preocupados com o bem-estar de todos, se dirigem ao Mestre e lhe apontam o perigo da situação, convidando-o por isso a enviá-los embora, de regresso às suas aldeias e às suas casas.
Procuram libertar-se e libertar Jesus da responsabilidade daquela multidão sofrer e passar mal, quer seja com fome quer seja com o regresso nocturno a casa. Mas, com esta preocupação, estão também a ser um obstáculo à pregação de Jesus, à missão do anúncio da Boa Nova.
E Jesus não o pode tolerar, não o pode aceitar, pois foi para aquela multidão que ele veio, foi para as multidões que se quiserem aproximar dele. Jesus não pode mandar ninguém embora.
E se os escolheu a eles, discípulos, foi para participarem da sua missão, da sua preocupação e desejo, foi para fazerem a experiência pessoal com ele da congregação, a experiência da palavra que une e alimenta, que constitui comunidade.
O convite desafiante a que alimentem aquela multidão é afinal um convite à participação na sua missão, um desafio ao acolhimento do outro, à partilha da palavra que une e alimenta.
A Eucaristia que celebramos cada dia continua esse desafio, ao mesmo tempo que continua o milagre realizado, pois em cada celebração a Palavra continua a querer congregar-nos e continua a oferecer-se em alimento.
Aprendamos pois com Jesus a não mandar ninguém embora, a partilhar o nosso pouco pão, a nossa palavra vacilante, a nossa fé com todos aqueles que se cruzam connosco ou connosco partilham o desejo e a fome da escuta.

 
Ilustração: “A multiplicação dos pães”, de Jacopo Tintoretto, Escola Grande de São Roque de Veneza.  

2 comentários:

  1. Mais uma vez o apelo à partilha... I.T.

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  2. Caro Frei José Carlos,

    Na realidade pouco nos interessa o lugar, a hora e o meio utilizado para o anúncio da pregação quando a Palavra nos toca e é uma mais-valia, fonte de reflexão, que nos questiona, orienta ou conforta.
    No episódio relatado, como nos recorda ...” Jesus não pode mandar ninguém embora. E se os escolheu a eles, discípulos, foi para participarem da sua missão, da sua preocupação e desejo, foi para fazerem a experiência pessoal com ele da congregação, a experiência da palavra que une e alimenta, que constitui comunidade.
    O convite desafiante a que alimentem aquela multidão é afinal um convite à participação na sua missão, um desafio ao acolhimento do outro, à partilha da palavra que une e alimenta.” …
    Na realidade de cada um de nós, com as nossas inseguranças de vária ordem, que o Senhor nos dê a sabedoria e o discernimento para termos a capacidade, o amor e a compaixão a “Aprendermos pois com Jesus a não mandar ninguém embora, a partilhar o nosso pouco pão, a nossa palavra vacilante, a nossa fé com todos aqueles que se cruzam connosco ou connosco partilham o desejo e a fome da escuta”, como nos convida.
    Grata, Frei José Carlos, pela partilha da Meditação, profunda, que nos questiona. Bem-haja. Que o Senhor o ilumine, o abençoe e o guarde.
    Bom descanso.
    Um abraço mui fraterno e amigo,
    Maria José Silva

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