sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A semente germina e cresce sem o semeador. (Mc 4,27)

É inquestionável que todos nós gostamos de ver os frutos do nosso trabalho, que apreciamos a possibilidade de controlar o desenvolvimento dos nossos projectos, e que muitas vezes desejamos que rapidamente o projecto chegue ao seu termo, produza os seus melhores frutos.
No âmbito da Igreja os agentes pastorais não estão isentos nem inumes a este desejo e também aqui desejamos rapidamente ver os frutos do nosso trabalho, do nosso apostolado, aspiramos a controlar o desenvolvimento dos nossos projectos e missões.
O Evangelho, e muito concretamente as parábolas de Jesus nas quais o Reino de Deus é comparado à sementeira, apresenta-nos no entanto outra realidade, vem de certa forma em contramão às nossas aspirações e desejos, mostra-nos como sofremos de uma grave tentação.
Para Deus e face à Palavra que é semeada não interessam os terrenos, os tipos de terreno nos quais a semente da Palavra cai. O importante é que o semeador lança a semente, sem qualquer preocupação de rentabilidade.
Para Deus também não importa o tempo, ou melhor a rapidez da produção, porque Deus tem tempo e parte do princípio que é necessário tempo para que a semente da Palavra germine, cresça, e chegue a dar frutos, e muitas vezes frutos insuspeitos.
Neste sentido, devemos aprender como é importante a paciência, como é necessário o tempo de espera, como há um mistério que nos ultrapassa e sobre o qual não temos controlo nem conhecimento pleno.
A nós, agentes pastorais, não nos deve preocupar a produção dos frutos, os terrenos em que semente cai, mas sim a sementeira, a qualidade da sementeira, porque é essa a nossa missão, é esse o nosso trabalho, sair a semear. A terra pertence ao outro e a força da semente a Deus.
Se o Senhor nos chama ao seu trabalho, à sementeira da Palavra, saibamos nós confiar, fazer confiança na boa terra em que lançamos a semente e na força e acção de Deus que no maior segredo trabalha a terra de cada coração. É a nossa confiança que pode ajudar a produzir os frutos.

 
Ilustração: “O Semeador”, de Robert Zünd.

Há um laço indissolúvel

 
Há um laço indissolúvel entre Deus e nós. Encontrar-nos é encontrá-lo e encontrá-lo é encontrar-nos.
Maurice Zundel

Ilustração: Pormenor do túmulo do Mestre da Ordem Manuel Suarez em Caleruega.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Também falas quando te calas

 
Senhor, nunca nos deixes esquecer que tu falas também quando tu te calas.
Soren Kierkegaard

Ilustração: Tons de outono ao sol no Jardim de Serralves.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Respeito para encontrar

 
O que permite o encontro com alguém diferente é o respeito, aceitar que o outro seja outro que não eu, que ele tenha diferenças e que essas diferenças me colocam problemas.
Geneviève de Taisne

Ilustração: Baloiços à neve no jardim de Vernier.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Tua mãe e teus irmãos estão lá fora! (Mc 3,32)

A missão de Jesus, as suas acções e gestos provocaram inevitavelmente comentários, murmúrios, uma onda de insinuações que rapidamente alcançou a casa da família.
É devido a essas insinuações, aos boatos malévolos que começaram a circular, que a sua mãe e os seus irmãos se põem em caminho para o encontrar e trazer de volta a casa.
Mas eis que ao encontrá-lo se deparam com uma situação que no mínimo lhes barra o acesso, uma multidão aglomera-se à volta de Jesus e impede-os de chegar perto, impede-os mesmo de entrar na casa na qual Jesus se encontra.
Estabelece-se assim uma fronteira, como que dois mundos, que rapidamente na palavra de Jesus assumem sentidos contrários, pois há uns que estão dentro e há outros que estão fora, há uns que escutam a palavra e a põem em prática e há outros que não passam da escuta.
E surpreendentemente aqueles, ou melhor, aquela que escuta a palavra e a põe em prática encontra-se fora, impossibilitada de se aproximar, é uma das excluídas do grupo que se encontra dentro e à escuta.
A palavra de Jesus é assim cortante como uma espada e deixa-nos suspensos nas nossas próprias fronteiras, nas etiquetas que tantas vezes colocamos uns aos outros.
Quem pode dizer que o que está fora não se encontra dentro e quem está dentro não se encontra fora? Em que base se fundam as nossas fronteiras que tantas vezes têm deixado irmãos do lado de fora?
De facto aqueles que se consideram dentro podem estar verdadeiramente fora na medida em que não vivem de acordo com a vontade de Deus, e aqueles que se encontram fora podem estar mais dentro do que cremos, ou do que eles mesmos se imaginam, na medida em que vivem na vontade de Deus.
Jesus desafia-nos assim a ter muita atenção face à liberdade do Espirito, às formas tantas vezes dolorosas como coarctamos a liberdade de acção do Espirito.
Saibamos acolher com alegria a grande diversidade da vida, a multiplicidade dos dons, a liberdade do Espirito que sopra mas não sabemos de onde vem nem para onde vai.
Como discípulos de Jesus a missão que nos confiada foi a de acolher, a de agregar, a de fazer crescer a família cristã na liberdade e no amor. Não é fácil, também não o foi para Jesus, mas sabemos que vale a pena.

 
Ilustração: “Jesus despede-se de sua mãe”, de Piotr Stachiewicz, Museu Nacional de Varsóvia.        

A essência da virtude

 
A essência da virtude (virtus) encontra-se mais no bom que no difícil. A medida da virtude não depende do grau de dificuldade mas do grau da bondade.
São Tomás de Aquino, Suma Teológica II,II,108.

Ilustração: Pérgula do Jardim de Serralves, no Porto.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Acreditar é confiar

 
Acreditar em Deus é confiar Nele, aderir incondicionalmente ao que Ele quis revelar à humanidade, e assumi-lo como algo próprio.
Cardeal Carlos Amigo

Ilustração: Rosa salmão do jardim de casa dos meus pais.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Homilia do III Domingo do Tempo Comum

O Evangelho que acabámos de escutar apresenta-nos os primeiros passos da vida pública de Jesus, passos simples, sem nada de extraordinário, marcados apenas pelo convite a uns quantos para que o sigam.
Esta simplicidade dos começos está no entanto carregada de sentido, de força, que podemos constatar na situação geográfica em que tal acontece e no sem sentido do convite feito por Jesus, ser pescadores de homens.
A situação geográfica, Cafarnaum, território de Neftali e de Zabulão, terra dos gentios, marca inequivocamente a fronteira, o espaço de fronteira em que Jesus se coloca. O projecto de Jesus distancia-se assim não só de Jerusalém mas também do seu espaço habitual, da sua Galileia natural.
Desde os primeiros momentos vemos aquilo que depois vamos encontrar em todo o Evangelho, em toda a vida de Jesus, a busca e o encontro daqueles que estão excluídos ou que são marginalizados. Cafarnaum é já o sinal indiciador desta orientação de Jesus.
Cafarnaum representa também, e para além da marginalidade, a universalidade da missão de Jesus, pois aquela cidade e o seu território era terra conquistada pelos gentios no passado, era terra aberta a outras ideias e a outros povos.
Diante desta situação, e desta escolha de Jesus, podemos e devemos perguntar-nos pelo nosso posicionamento em termos de Igreja, ou seja, como enfrentamos os desafios da fronteira, da marginalidade e da universalidade.
E esta pergunta tem ainda mais sentido quando nos deparamos nos nossos ambientes comunitários e paroquiais com espíritos de grupo, com um egocentrismo comunitário que nos impede de dar um passo no sentido do conhecimento e do acolhimento do outro.
Custa-nos tanto colocar no lugar do outro, dar ao outro a oportunidade de partilhar as suas experiências e os seus motivos, as raízes de pertença que são comuns mas que tantas vezes não partilhamos nem somos capazes de fortalecer pela nossa partilha e solidariedade.
E este desafio, esta realidade, é tanto mais importante quanto percebemos que desde o primeiro momento aquilo que Jesus pede é que se seja pescadores de homens, que deixemos as nossas redes habituais e nos arrisquemos na pesca dos homens.
Convite e proposta por demais estranha e extravagante, que deve ter sido difícil de compreender, mas que ainda assim não teve qualquer oposição, qualquer questionamento. Diz-nos o Evangelho que os discípulos deixaram as redes e os barcos e seguiram Jesus.
No final da história ficamos a saber que não foi bem assim, que os pescadores continuaram ligados às suas redes e à sua pesca no lago, e que foi necessário um encontro após a ressurreição de Jesus nas margens desse mesmo lago para que eles percebessem o total alcance do convite que desde o primeiro momento lhes tinha sido feito.
O encontro após a ressurreição, em que Jesus partilha o pão e os peixes, mostra-nos que na realidade daqueles homens havia algo a mudar, mas não era fundamentalmente a sua profissão e actividade quotidiana.
O convite a ser pescadores de homens é afinal um convite a uma relação profunda com Jesus, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, a um outro sentido para a vida, e a uma outra relação com os homens, irmãos que devem partilhar do nosso amor.
Neste sentido, e como o convite se mantém vivo e actual, não podemos deixar de ter bem presente as palavras de São Paulo aos Coríntios, ou seja, que a nossa fé, o nosso testemunho, a nossa missão, não é mais que dar a conhecer Jesus Cristo, o amor de Deus que nos entrega o seu filho para que por ele possamos também ser filhos.
Uma vez mais somos convidados a deixar o nosso egocentrismo comunitário ou grupal, e a consciencializar-nos que não somos pescadores de homens para nós, para o nosso grupo ou comunidade, mas somos anunciadores de Jesus Cristo, pescadores de homens para Cristo.
À luz da imagem da maternidade, que são Paulo também usa para se expressar face àqueles que lhe são queridos na fé, também nós somos chamados a ser mães e pais dos nossos irmãos na fé, a gerar para Jesus Cristo novos irmãos na fé.
Saibamos escutar o convite de Jesus a segui-lo e a pescar homens para o seu Reino, nunca esquecendo que a nossa acção e missão é mais uma página que se acrescenta ao Evangelho, a nossa página, objecto de alegria para nós, para os nossos irmãos e para Deus.

 
Ilustração: “Jesus ressuscitado junto ao lago”, de Hans Leonhard Schaufelein, Colecção Mikhail Perchenko.

Convite do Deus amante

 
O Evangelho convida, antes de mais, a responder ao Deus amante que nos salva. Se esse convite não brilha com força e atractivo, o edifício moral da Igreja corre o risco de converter-se num castelo de cartas, e aí está o nosso maior perigo.
Papa Francisco, Evangelii Gaudium

Ilustração: Esplanada e Castelo de Lourdes.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Decisões dificeis por amor

 
Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e novidade. Amar a Igreja significa também ter o valor de tomar decisões difíceis, sofridas. Não regresso à vida privada, não abandono a cruz, apenas permaneço de outro modo junto do Senhor Crucificado.
Papa Bento XVI, Última Audiência
 
Ilustração: Porta da Capela de São Gallus na Abadia de Saint Gallen, Suíça.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Conselhos para viver melhor

 
Atraem-me as pessoas que conseguiram superar os seus limites, as que rompem barreiras. Estes são os meus conselhos para viver melhor: pondera uns minutos, descobre o teu talento, transmite optimismo, aceita-te a ti próprio e sê autêntico e generoso.
Valentin Fuster

Ilustração: Árvore do Jardim de Serralves ao Por do Sol de Outono

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Só a voz do coração

 
Só a voz do coração nos salvará do desespero nos momentos sombrios da nossa vida.
Susana Tamaro

Ilustração: O Salvador na Avenida do Brasil na Foz do Porto.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Quem fica satisfeito?

 
Quem, procurando verdadeiramente a oração, pode alcançar um sentimento de suficiência ou de satisfação?
Fabrice Hadjadj

Ilustração: Amor Perfeito Amarelo do Jardim da Mairie de Vernier.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Não se reza por mandamento

 
Tomás de Aquino distingue a oração do mandamento. Ordena-se a um inferior, submetido à nossa vontade. Reza-se a um igual ou superior, não submetido à nossa vontade. Impossível portanto de rezar sob comando.
Fabrice Hadjadj

Ilustração: Rocha batida pelo mar entre o Castelo do Queijo e a Foz.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A oração que não se consegue

 
Não conseguir chegar a rezar, mas desejá-lo, e oferecer esta impotência, é já a oração do Espirito nos nossos corações.
Fabrice Hadjadj, Panorama, Janeiro 2014.

Ilustração: Estátua ao Salvamento na Avenida do Brasil na Foz do Porto.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Homilia do II Domingo do Tempo Comum

O Evangelho de São João que acabámos de escutar continua a situar-nos no acontecimento do baptismo de Jesus e face ao que nos é narrado ficamos um tanto ou quanto surpreendidos quando ouvimos João Baptista afirmar que não conhecia Jesus, que tinha sido Aquele que o enviou a baptizar que o assinalou e identificou.
A nossa surpresa procede do facto de sabermos que João exultou de alegria no seio de sua mãe Isabel quando foi visitada por Maria, que havia um parentesco entre os dois, laços sanguíneos e até espirituais, e que muito provavelmente Jesus fez parte do grupo dos discípulos de João durante algum tempo.
Contudo, temos que assumir que estas circunstâncias não invalidam a afirmação de João Baptista, mas pelo contrário manifestam uma realidade que todos nós experimentamos, umas vezes face aos nossos conhecidos e às pessoas que nos são queridas, e inevitavelmente sempre face a Jesus. Aliás, se não a experimentarmos estaremos muito provavelmente equivocados em relação a Jesus.
João Baptista, que tinha consciência da sua missão, que se sabia enviado a preparar os caminhos para alguém que viria depois de si, descobre no momento do baptismo de Jesus que afinal aquele que ele conhecia, que era seu familiar e companheiro, era alguém diferente, era o Cordeiro de Deus, era o Filho de Deus.
João possuía o conhecimento histórico, sensorial, do quotidiano, mas no momento do baptismo de Jesus é-lhe revelado pelo Espirito Santo a verdadeira identidade e dimensão daquele que ele pensava conhecer. Ele descobre que afinal aquele Jesus que tinha vindo depois dele o ultrapassava e se colocava à sua frente.
Esta experiência de João é muito significativa em termos de paradigma para cada um de nós, pois também o nosso conhecimento de Jesus necessita de, em algum momento, sofrer uma revolução, uma reviravolta, um confronto com a profunda realidade de Jesus. Necessitamos a comunicação do Espirito Santo para nos encontrarmos verdadeiramente com Jesus que é o Filho de Deus.
Por esta razão, muitos dos nossos irmãos são incapazes de passar da imagem do Jesus histórico, da imagem do profeta ou do líder revolucionário por quem têm alguma admiração. Muitos outros, alguns de nós certamente, ficamos na imagem do Jesus que nos conforta, que nos apoia, do Jesus nosso amigo e nosso irmão.
A experiência de João Baptista no momento do baptismo de Jesus mostra-nos que temos que ir mais além, que temos que assumir que Jesus é a luz que ilumina o nosso ser humano e a existência de toda a humanidade, que ele é o homem total com o qual nos temos que configurar para alcançarmos a plenitude. Jesus é a luz enviada por Deus para que a salvação divina chegue a todos os confins da terra humana.
Neste sentido não deixa de ser significativo que o texto evangélico coloque na boca de João Baptista a palavra “homem”, o homem que era antes mas que passou à frente de João, convidando-nos dessa forma a tomar consciência da humanidade de Jesus e de como a nossa humanidade está assumida por Jesus na sua totalidade e no que ela tem de potencial de realização plena.
Contudo, para que esta consciência se desenvolva temos que aceitar que só o Espirito Santo nos pode ensinar e dar a conhecer o verdadeiro Jesus, o homem de Nazaré que se descobre também ele no momento do baptismo não um servo mas um filho amado, o mesmo Espirito que revela a João que aquele amigo é o Cordeiro de Deus para tirar o pecado do mundo.
E temos que aceitar também que, para que tal aconteça ou possa acontecer, não podemos perder de vista a humildade com que João se submete ao convite de Jesus quando lhe diz que é necessário que seja baptizado, que se cumpra toda a justiça. Necessitamos deixar-nos ensinar, necessitamos estar abertos à novidade de Deus na nossa vida e na história dos homens.
A humildade, necessária ao conhecimento verdadeiro de Jesus, é também a virtude que necessitamos cultivar para responder ao desafio da unidade dos cristãos, cuja semana de oração estamos a celebrar. Só na humildade e com um grande espirito de abertura e acolhimento podemos sentir-nos unidos a outros que são diferentes e pensam de maneira diferente, mas buscam o mesmo fim que é a configuração na santidade com Jesus Cristo.
Procuremos pois nestes dias de oração pela unidade dos cristãos rezar por esta intenção e desafio do mundo à Igreja, assim como testemunhar do nosso mesmo desejo construindo a unidade com aqueles que estão à nossa volta através do acolhimento humilde e fraterno.
Alicerçados na experiência de fé de que Jesus é o Filho de Deus e por ele somos também filhos de Deus, possamos ser sinais no mundo para que os nossos irmãos nos acompanhem no caminho verdadeiro da Vida.

Ilustração:
1 – “Encontro de Jesus e João Baptista enquanto jovens”, de Matteo Rosselli, Hampel Leiloeiros.
2 – “São João Baptista”, de Adam Elsheimer, Petworth House.

A carta particular

 
A Escritura, diz-nos São Paulo, é como uma carta particular de Cristo dirigida a cada um de nós, escrita não com tinta, mas com o espirito de Deus vivo, adaptada não a uma mesa de pedra mas ao nosso coração de carne.
Carta de Paul Claudel ao Padre Joseph Biard

Ilustração: Bola em granito de uma escadaria do Jardim de Serralves no Porto.

sábado, 18 de janeiro de 2014

O que dar às almas

 
Não sei se há alguma coisa mais necessária e mais urgente que dar às almas o gosto da Escritura.
Carta de Paul Claudel ao Padre Joseph Biard

Ilustração: Fonte dos espelhos de água do Jardim de Serralves no Porto

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A missão pessoal do cristão

 
Eu nunca tive a presunção de acreditar que lhe podia fornecer qualquer coisa de novo, apenas e simplesmente tentei elucidar o que ela (Igreja) me ensinava, evangelizar pouco a pouco com os raios da sua luz as regiões ainda pagãs e selvagens do meu coração e da minha inteligência.
Carta de Paul Claudel ao dominicano fr. Humbert Bouessé

Ilustração: Abóbada da capela dos Macabeus na Catedral de São Pedro de Genebra.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Valores versus Valores

Tal como acontece todos os meses reuniu-se hoje a Vigararia de Porto Poente. É um momento de encontro e trabalho do conjunto dos párocos e diáconos desta zona da cidade e diocese do Porto.
Na reunião de hoje tivemos a oportunidade de escutar uma pequena reflexão, apresentada pelo Padre João Santos, sobre a necessidade de esclarecer e afirmar os verdadeiros valores.
O que se segue são algumas notas desta apresentação, que pela sua actualidade creio que merecem uma partilha mais generalizada e uma reflexão pessoal.
O contágio social
É inquestionável que todos somos influenciados pela sociedade e pelos grupos em que estamos integrados. Também os membros da Igreja não escapam a este princípio, assim como não escapam à influência e aos valores, ou pseudo valores, que são transmitidos pelos meios de comunicação.     
Estamos contagiados por estes valores, que em muitos casos se opõem e entram em conflito com os valores evangélicos, provocando uma espécie de esquizofrenia espiritual, ou síndroma bipolar.
A velocidade
Entre os valores com que somos contagiados, ou até contaminados, encontra-se a velocidade. Vivemos na era da velocidade, em que qualquer atraso nos desespera. Tudo se mede pelo segundo, ou centésimo de segundo, pela velocidade dos impulsos. Desejamos a velocidade da luz.
E contudo, a natureza mostra-nos que o tempo é um bem não só precioso como necessário. Necessitamos tempo para crescer, para amadurecer, para dar uma outra qualidade à vida e ao que fazemos. Ao tempo, como valor, associa-se a paciência, uma virtude tão pouco cultivada como apreciada.
A facilidade
Associada à velocidade anda a facilidade, o pouco cuidado, uma vez que é necessário responder rapidamente e portanto não se pode perder tempo a cuidar, a aprimorar o que fazemos. Importa mais o já feito que o bem feito.
Neste sentido seria interessante perguntar-nos se alguma da nossa frustração, da nossa insatisfação face ao trabalho realizado não deriva desta facilidade, do cuidado da beleza e da bondade que nos moldam mas aos quais não nos deixam dedicar o tempo necessário.
A Novidade
Andamos todos ávidos de novidade, como se o último modelo do que quer que seja nos trouxesse a felicidade. E depois verificamos que continuamos no mesmo sítio, do mesmo modo, não foi o último modelo que nos fez ser mais felizes.
Necessitamos aprender a ser atletas de fundo, de maratona, a repetir os exercícios como no ginásio até que se ganhe a massa muscular desejada ou necessária. A novidade que devemos procurar é afinal a oferta de cada dia e das suas realizações, é o hoje que é de Deus que vem ao meu encontro.
O melhor
O desejo de ser o melhor, o maior, é uma tentação que nos pode arrastar e devorar. É verdade que não podemos deixar de aspirar ao melhor, à plenitude que podemos alcançar ou realizar.
Contudo, não podemos deixar-nos escravizar por esse desejo, ele deve ser alimentado de forma equilibrada, reconhecendo e aceitando que há limites, que há fragilidades.
A plenitude pode ser alcançada pela fórmula de São Paulo, ou seja, quando sou fraco então é que sou forte, nas debilidades descubro as minhas forças, e pelo serviço discreto que se orienta pelo bem do outro, pelo melhor do outro.
A actividade
A actividade constante que nos é exigida hoje leva inevitavelmente ao activismo, a uma espécie de febre que não nos deixa tranquilos, sossegados, que exige mais actividade como compensação satisfatória.
Este activismo pode encontrar-se no pensar, no sentir e no agir, gerando consequentemente a neurose, a ansiedade e o esgotamento com que tantas vezes nos vemos confrontados.
Face a isto, importa perguntar, se eu tenho que fazer tudo, e tudo ao mesmo tempo. Importa perguntar se ainda que necessário é imprescindível.
 
Que saibamos acolher o tempo presente como um dom que Deus nos oferece, e com paciência esperar os frutos do nosso trabalho cuidado, amado, perseverantemente feito com humildade.

 
Ilustração: Escultura de soldado no fontanário da Confederação em Genebra.

O que peço à Escritura

 
O que eu peço à Escritura, como a Sulamita que interroga os guardas da cidade, é que me fale do meu Salvador bem-amado.
Carta de Paul Claudel ao Padre Brunot

Ilustração: Mosaico na Basílica de Lourdes.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O amor engrandece

 
Nada de grandioso se faz senão pelo amor e pela humildade que o inspira!

Carta do Padre Couturier a Paul Claudel

Ilustração: Campo coberto de neve entre Winterthur e Zurique.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Sei quem tu és! (Mc 1,24)

Jesus dirige-se à sinagoga de Cafarnaum como costumava fazer todos os sábados. Vai com o seu grupo de discípulos, recentemente reunido, respondendo-lhes de certa forma à pergunta que tinham feito pouco depois do baptismo no Jordão, “onde moras”.
Jesus mora também na sinagoga, no espaço da escuta da Lei e dos Profetas, e era necessário que os discípulos percebessem que ele era a Palavra viva cujo eco se ouvia naquele espaço, o Verbo que na Lei e pelos Profetas se oferecia ao povo eleito naquele espaço.
Esta entrada na sinagoga é ocasião para um confronto, confronto que se mantém constante em toda a primeira parte do Evangelho de São Marcos, o confronto com o espirito das trevas, com o mal que aprisiona o homem.
Manifestando o seu conhecimento ancestral, o espirito impuro que possuía um homem revela a todos os presentes quem é Jesus, o Santo de Deus, ainda que nenhum dos presentes o compreenda, tome verdadeiro conhecimento e sentido do que é proferido.
Tal como aconteceu com o primeiro homem, o mal insinua-se, afronta o homem Jesus com a provocação da sua identidade e do seu poder, estende uma rede que convida à resposta, a um aprisionamento na provocação.
Esta provocação mostra que o espirito não está equivocado, que sabe muito bem quem tem diante de si, e que essa presença é de facto uma ameaça, representa o seu fim, ele sabe que aquele homem tem o poder divino para o destruir.
Evitando a armadilha da sedução, Jesus corta toda a hipótese de diálogo, e com autoridade ordena apenas que o espirito se cale e abandone aquele homem. Jesus manifesta o seu poder, a sua autoridade, revela aos discípulos e a todos os presentes que há um tempo novo, que a vitória sobre o mal está em processo, e ele é essa vitória.
Graças a Deus podemos dizer que não estamos possuídos pelo mal, mas já não podemos dizer que não tenhamos pactuado com este mesmo mal, que em certos momentos não nos tenhamos deixado seduzir, encantar pelas suas palavras que manifestam o poder que há em nós.
Face a estas capitulações necessitamos recordar a força da palavra de Jesus, recordar que não podemos responder ao espirito impuro do mal, entrar em diálogo com ele, mas tal como Jesus exprimir a nossa fé reduzindo-o ao silêncio, expulsando-o com a autoridade de Jesus nossa vitória sobre o mal.
Que a Palavra de Jesus ganhe autoridade na nossa vida e todo o mal seja por ela expulso.

 
Ilustração: “Jesus curando o possesso de um espirito impuro”, vitral da Catedral de Estrasburgo.  

O casamento

 
Uma vez que Jesus fez do casamento um grande sacramento, que ele esteja, Ele, entre vós os dois, que vos ameis Nele, que actueis nele e que lhes deis filhos e filhas para que Ele aumente a sua redenção e povoe o seu céu de eleitos.
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: O Sonho de José no tecto da igreja da Encarnação ao Chiado, Lisboa.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Deus não nos esquece

 
Ó admirável bondade, inenarrável misericórdia de Deus! Enquanto nós o esquecemos, ele constrói com amor a nossa felicidade terrestre e eterna!
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: Camélias ao sol de inverno no Jardim de Serralves, Porto.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Homilia da Festa do Baptismo do Senhor

Meus Irmãos
Celebramos hoje a Festa do Baptismo do Senhor e com ela damos por encerrado o tempo do Natal, o tempo em que somos convidados pela Igreja a contemplar de um modo mais profundo o mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
Como conclusão deste tempo, a Festa do Baptismo do Senhor assume as diversas dimensões do mistério da Encarnação celebradas nas festas que nos precederam, e revela-nos uma outra extremamente significativa que é a da filiação divina, a da adopção por parte de Deus, no seu Filho Jesus, de toda a humanidade.
Neste sentido, e tendo presente o que nos relatam os Evangelhos, não podemos deixar de observar que o baptismo a que Jesus se submete foi uma verdadeira e profunda experiência de Deus. Uma experiência profundamente alterante da sua consciência e da sua situação, e que se pode constatar quando Jesus regressa a Nazaré depois do baptismo e aqueles que o conheciam ficam admirados com a sua palavra e a sua doutrina.
Face a esta admiração, temos que assumir que durante os trinta anos de vida em Nazaré Jesus não se diferenciou dos seus conhecidos nem familiares, e que ao aproximar-se de João Baptista foi mais um, como tantos dos seus contemporâneos, certamente com curiosidade e um desejo de conversão, de mudança de vida.
A oposição que João manifesta em baptizar Jesus advém certamente da familiaridade, assim como do conhecimento da bondade e da justiça com que Jesus vivia, à semelhança de José que o tinha educado e que os Evangelhos nos apresentam como um homem justo. João reconhece e assume que a vida de Jesus está já para lá da sua missão, da conversão que solicitava a todos os outros.
Contudo, e tal como Jesus lhe diz, há a necessidade de que o baptismo se celebre, que Jesus participe com humildade do projecto de conversão que João apresenta. A justiça e bondade com que tinha vivido até àquele momento apelavam a uma plenitude, a uma outra satisfação que o baptismo lhe podia proporcionar.
O consentimento de João associado ao desejo de Jesus vai assim permitir que se produza algo completamente extraordinário, um acontecimento único, como é a revelação do amor de Deus pelo Filho, a manifestação da predilecção e eleição pela humanidade.
No baptismo Jesus experimenta e João contempla o amor que Deus tem pela humanidade, como a humanidade e a divindade estão profundamente unidas e não se realizam nem alcançam a sua plenitude sem essa união. Nem Deus se realiza sem o homem nem o homem se realiza sem Deus.
A vida de Jesus, iluminada pela palavra dos profetas, pela experiência do povo eleito, adquire nesta experiência do baptismo no Jordão uma nova dimensão, uma outra transcendência que o evangelista São Mateus deixa patente quando nos comunica que uma voz do céu se fez ouvir e o apresentou como filho muito amado.
Assumindo as palavras do profeta Isaías, a proclamação do Pai do Céu altera a consciência identitária de Jesus. Se até ali Jesus tinha vivido como servo eleito, como alguém que se sente e sabe protegido por Deus, como convidado a viver em santidade, Deus Pai revela-lhe que a sua submissão e o seu desejo, a sua vida de justiça, o elevavam ao estatuo de Filho, lhe davam a dignidade de Filho muito amado.
O impacto desta experiência e revelação é de tal modo significativo que após o baptismo vemos Jesus a dirigir-se ao deserto, como se tivesse necessidade de um tempo para reorientar a sua vida, para se situar face ao que lhe tinha sido anunciado, para assumir em pleno a sua identidade revelada. As tentações do deserto não são afinal mais que a luta, o discernimento, face à forma como assumir de forma concreta essa identidade.
Depois do baptismo e do deserto Jesus assume a identidade daquele que está convocado a levar a justiça de Deus a todos os homens, justiça que não se traduz em dar a cada um segundo o que lhe é de direito, mas se traduz em misericórdia, em adequação de vida ao plano filial de Deus para cada um e para toda a humanidade. Jesus assume que a sua obediência é realização plena da justiça de Deus.
Como consequência destas experiências encontramos Jesus a expressar uma crítica feroz a toda a religião estereotipada, à religião de tal modo ritualizada que se torna obstáculo à relação pessoal e íntima com Deus, e a anunciar a todos os homens o amor do Pai, a delicadeza do seu amor, a sua bondade e misericórdia, o desejo de que os homens sejam verdadeiramente livres para poderem experimentar o amor em plenitude.
Como baptizados em Jesus Cristo não podemos deixar de ter presente e assumir que à semelhança de Jesus esta experiência do baptismo é de tal modo transformante que a nossa vida não pode deixar de ser uma vida de santidade, uma vida de manifestação da justiça de Deus, afinal uma vida que testemunha do amor filial que o Pai do Céu tem por todos nós.
Procuremos pois viver com humildade e responsabilidade esta nossa condição, testemunhando nas mais diversas circunstâncias a liberdade e o amor filiais que Deus a todos nos convida a viver.

 
Ilustração:
1 – “Baptismo de Cristo”, de Domenico Tintoretto, Museu Capitolino.
2 – “Meditando”, de Vasily Polenov. Museus Russos.
 

Apenas ser fiel

 
Seja-lhe apenas fiel e confiante. Ame todos e tudo o que Ele ama e deteste tudo o resto!
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: Capela Luterana de Vernier em dia de neve, Suíça.

sábado, 11 de janeiro de 2014

O futuro é de Deus

 
Sobre o que será o seu futuro, deixe a Deus a preocupação. É um bom pai, que o ama infinitamente mais que o amor que você pode sentir por si próprio.
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: Cedro coberto de neve em Vernier, Suíça.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

À escuta de Deus

 
Deus pode falar sempre e nós devemos humildemente escutá-lo.
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: Banco com sol de inverno no Jardim de Serralves.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Não olhar o passado

 
Não olhe mais para o passado, não pense nele sequer. Deus que é bom quis humilhá-lo, quis mostrar-lhe no que nos tornamos e até onde vamos sem a sua graça, agora acabou e já está na terra prometida.
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel

Ilustração: Estátua “A Vaga” no jardim de Vernier, Suíça.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A oração que não é boa

 
Há orações que não são boas, porque o objecto amado, pelo qual se reza, não é amado em Deus, mas oferece-se demasiado sensual ao espirito e ao coração.
 
Carta do Padre Michel Caillava a Paul Claudel (I,334)

Ilustração: Camélia do Jardim de Serralves no Porto.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Manda-os embora! (Mc 6,36)

Tudo se passa num descampado, parece que longe das aldeias mais próximas, a uma hora suficientemente adiantada para deixar os discípulos bastante preocupados.
É uma multidão que se encontra ali, e Jesus parece distraído da sua precariedade tão empolgado está com a pregação, com a palavra que parece ganhar eco naqueles ouvintes.
É face a esta realidade que os discípulos, preocupados com o bem-estar de todos, se dirigem ao Mestre e lhe apontam o perigo da situação, convidando-o por isso a enviá-los embora, de regresso às suas aldeias e às suas casas.
Procuram libertar-se e libertar Jesus da responsabilidade daquela multidão sofrer e passar mal, quer seja com fome quer seja com o regresso nocturno a casa. Mas, com esta preocupação, estão também a ser um obstáculo à pregação de Jesus, à missão do anúncio da Boa Nova.
E Jesus não o pode tolerar, não o pode aceitar, pois foi para aquela multidão que ele veio, foi para as multidões que se quiserem aproximar dele. Jesus não pode mandar ninguém embora.
E se os escolheu a eles, discípulos, foi para participarem da sua missão, da sua preocupação e desejo, foi para fazerem a experiência pessoal com ele da congregação, a experiência da palavra que une e alimenta, que constitui comunidade.
O convite desafiante a que alimentem aquela multidão é afinal um convite à participação na sua missão, um desafio ao acolhimento do outro, à partilha da palavra que une e alimenta.
A Eucaristia que celebramos cada dia continua esse desafio, ao mesmo tempo que continua o milagre realizado, pois em cada celebração a Palavra continua a querer congregar-nos e continua a oferecer-se em alimento.
Aprendamos pois com Jesus a não mandar ninguém embora, a partilhar o nosso pouco pão, a nossa palavra vacilante, a nossa fé com todos aqueles que se cruzam connosco ou connosco partilham o desejo e a fome da escuta.

 
Ilustração: “A multiplicação dos pães”, de Jacopo Tintoretto, Escola Grande de São Roque de Veneza.  

Livra-nos do ídolos

 
A oração que deveria elevar-se sem cessar dos nossos corações, mais que qualquer outra, é: “Senhor livra-nos dos Ídolos”, ídolos da facilidade, do oportunismo e da demagogia.
Carta do Padre Chaussade a Paul Claudel

Ilustração: Alameda de árvores cobertas de neve em Vernier, Suíça.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Jesus começou a proclamar: “arrependei-vos” (Mt 4,17)

Ao saber que João tinha sido preso, Jesus retirou-se de Nazaré para Cafarnaum e dali começou a pregar o arrependimento em virtude da proximidade do reino dos céus.
Num primeiro momento parece que Jesus prossegue a missão de João, parece que se situa na continuidade, como um discípulo que sente necessidade de continuar a missão do mestre após o seu desaparecimento.
Contudo, quando olhamos com um pouco de atenção percebemos que há de facto entre Jesus e João uma ruptura, uma perspectiva completamente diferente, que é denunciada antes de mais pela própria localização espacial de actuação.
João tinha-se retirado para o deserto e junto ao rio Jordão baptizava todos os que pertenciam ao povo e que se aproximavam com um espirito de conversão. Pelo contrário, Jesus revela-se na cidade, junto das multidões, faz o seu anúncio num espaço e contexto em que todos se podem aproximar. Cafarnaum é a cidade da estrada do mar, ponto de confluência de povos, da diversidade racial e cultural.
João, apesar do deserto, não deixa de se manter no coração da tradição, no eixo estrutural do templo e da lei, enquanto Jesus vai até às fronteiras, vai até junto daqueles que eram marginalizados e excluídos pela lei, contesta a religião do templo.
Jesus não espera que os homens venham ter com ele, mas vai ao seu encontro, e esta iniciativa de Jesus é para nós um motivo de esperança e de confiança, até um apelo premente à vigilância, pois se estivermos atentos e vigilantes podemos encontrar-nos com Jesus nos nossos mundos mais sombrios, nas nossas andanças mais errantes.
Nas nossas trevas e no nosso sofrimento Jesus vem ao nosso encontro, na nossa exclusão e marginalidade não nos deixa sozinhos nem abandonados. Motivo mais que suficiente para não desesperarmos.
Contudo, esta esperança e confiança, a vigilância que lhe é necessária, não nos isenta de uma alteração de vida, da conversão. Nas fronteiras em que Jesus nos pode alcançar ecoará sempre o convite à mudança de vida, a proclamação da necessidade de uma outra vida.
Saibamos pois estar atentos, perceber a voz de Jesus no meio da multidão, no meio de tantas solicitações e ruídos que caracterizam a cidade, da diversidade das situações em que nos movemos.

 
Ilustração: “Conversão de Santo Agostinho”, de Fra Angélico, Museu Thomas-Henry.

 

União de vontades

 
União plena da vontade à vontade de Deus, qualquer que ela possa ser, no esquecimento total de si. Trabalhe nisto, aplique-se a isto.
Carta de Charles de Foucauld a Paul Claudel

Ilustração: Folhas de castanheiro com sol de outono.

domingo, 5 de janeiro de 2014

União à vontade de Deus

 
Neste mundo a união da vontade à vontade divina, por amor, é o amor de Deus.
Carta de Charles de Foucauld a Paul Claudel

Ilustração: Capela em Vernier, Suíça.

Homilia Solenidade da Epifania do Senhor

Celebramos hoje a Solenidade da Epifania do Senhor, o mistério da revelação de Deus aos homens, e como acontecimento evangélico paradigmático deste mistério encontramo-nos com a adoração dos reis magos vindos do oriente.
É um desses acontecimentos que encontramos nos chamados Evangelhos da Infância, que são como que uma introdução, um pórtico, dos Evangelhos de São Lucas e São Mateus. Evangelhos da Infância que não podem ser lidos à luz da investigação histórica, uma vez que as narrações ali desenvolvidas não existem para satisfação da nossa curiosidade relativamente aos primeiros anos da vida de Jesus.
Bem pelo contrário, encontramo-nos face a narrações que só alcançam a sua verdadeira dimensão e verdade quando lidas à luz da Páscoa, à luz do grande mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus.
Neste sentido, o anúncio dos anjos aos pastores que pudemos contemplar e meditar na noite de Natal, face aos títulos cristológicos anunciados, não pode ser dissociado do anúncio às mulheres que na manhã de Páscoa correm ao túmulo de Jesus e se encontram também ali com outros anjos que lhes anunciam a ressurreição.
O anúncio dos anjos na noite do nascimento do Salvador é assim uma prefiguração do anúncio da manhã de Páscoa, tal como a adoração dos reis vindos do oriente é a prefiguração, a metáfora, da adoração do fim dos tempos, da plenitude gloriosa que o profeta Isaías também já anuncia na primeira leitura desta solenidade.
A adoração dos magos, com o que comporta de encontros e desencontros é assim a manifestação clara que Jesus não é uma propriedade particular, uma especificidade local, mas aquilo que podemos chamar no verdadeiro sentido da palavra “património da humanidade”.
Jesus, no seu mistério pertence a toda a humanidade, dirige-se a toda a humanidade e os reis magos vindos do oriente mais não representam que simbolicamente essa mesma humanidade na sua diversidade original e na busca do divino que lhe é inerente, acredite-se ou não em Jesus Cristo como Filho de Deus.
Por outro lado, a adoração dos magos, com a acidentada passagem por Jerusalém e o encontro com Herodes, é a manifestação da revolução que Jesus opera face ao mal, uma vez que Jesus põe a descoberto o mal que afecta o homem e contagia todas as instituições humanas. Desde o seu nascimento Jesus manifesta-se como uma ameaça ao mal e ao poder que se constitui sobre o mal e coloca em causa a humanidade.
A adoração dos reis magos enquanto representação da busca do divino, inerente à humanidade, é para cada um de nós um verdadeiro apelo, um desafio, à consciencialização do processo em que estamos envolvidos. E neste sentido, a passagem por Jerusalém não é um desastre, ou um equívoco sinistro, mas a explicitação da necessidade de uma orientação divina, do encontro com o mistério da revelação.
Estes homens vindos do oriente perceberam pelos seus conhecimentos e pelo seu estudo, pela sua inteligência, que a natureza lhes manifestava algo de extraordinário. O mundo tal como o conhecemos manifesta a obra de Deus, a sua acção, e a sua presença. Diante de tal realidade colocaram-se em caminho, arriscaram o desconhecido e outros mundos, outras culturas, até outros sinais, para compreender na sua plenitude o que antes tinham intuído, percebido pelas suas capacidades.
A passagem por Jerusalém foi a oportunidade para se encontrarem e confrontarem com os dados da revelação, com a necessidade da fé que aprofunda e desafia os próprios conhecimentos adquiridos. A partir dali puderam encontrar o menino, puderam compreender os sinais que tinham visto na natureza e o seu cabal significado.
Este processo, esta caminhada, é inerente a toda a humanidade e, tal como aconteceu com os reis magos, é feito de avanços e recuos, de perdas e encontros, de incertezas que só são vencidas na medida em que se arrisca a fé, em que se acolhe o dom de Deus, em que se aceita que Deus vem ao nosso encontro e se nos manifesta das mais diversas formas.
Dado o encontro com o menino, a adoração, os reis regressam por outro caminho, porque é impossível voltar pelo mesmo caminho depois do encontro com o Salvador, com aquele que é a luz que ilumina cabalmente o homem na sua essência e revela Deus na sua natureza.
Desta forma, a epifania de Jesus, a manifestação de Deus, é para todos nós um motivo de esperança, de vivermos cheios de esperança, uma vez que nos revela que as nossas buscas nos conduzem sempre, mais tarde ou mais cedo, ao encontro com o salvador, e que a nossa humanidade em nada sai diminuída por essa busca e esse reconhecimento.
A epifania de Jesus manifesta-nos afinal que Deus assumiu a nossa humanidade e com a incarnação do Filho esta mesma humanidade readquiriu a dignidade divina perdida. Saibamos viver com dignidade a herança que nos foi confiada em Cristo Jesus.

 
Ilustração: “Adoração dos Magos”, de Abraham Bloemaert, Museu Central de Utrecht.