segunda-feira, 30 de junho de 2014

A eternidade de um beijo

 
O Eterno não está no princípio do tempo? Por essa razão ele encontra-se no coração do hoje, e posso pressenti-lo nos cinco segundos dum beijo. O Imenso não está no princípio do espaço? Ele é assim o segredo do aqui, e posso vislumbrá-lo no duplo decímetro de um olhar!
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 125.
 
Ilustração: Estátua de Vénus e Adónis de Canova do Museu de História e Arte de Genebra.

domingo, 29 de junho de 2014

Homilia da Solenidade de São Pedro e São Paulo

De acordo com uma tradição bastante antiga celebramos hoje conjuntamente os martírios de São Pedro e São Paulo, fazendo memória única das vidas e das missões daqueles dois apóstolos que são conhecidos como as colunas da Igreja.
As leituras que escutámos e que nos apresentam estes dois discípulos, na sua diversidade e unidade, mostram-nos que não há missão sem a protecção do Senhor e que essa missão não prescinde da nossa realidade e condição humana.
Neste sentido a história da evasão de Pedro da cadeia de Jerusalém, na qual o rei Herodes o tinha mandado prender, é bastante sugestiva quando lemos os diversos elementos numa dimensão alegórica.
Assim, não podemos perder de vista que a primeira ordem do anjo a Pedro é que ele se ponha de pé, se levante da sua prostração, e que imediatamente coloque o seu cinto e calce as suas sandálias. São necessidades materiais para que abandone a prisão, mas sugerem-nos também como o chamamento do Senhor nos obriga a erguer-nos da nossa condição pecadora, a tomar a nossa vida em mãos e a agir diligentemente para seguirmos o seu apelo.
Deus quer e necessita que tomemos a nossa realidade humana em mãos, que a elevemos à dignidade divina quando escutamos a sua palavra e a acolhemos prontamente. Mas para que a nossa obra possa ser de facto concretizada necessitamos envolver-nos num manto, que não serve para nos esconder, mas que nos protege e permite seguir em frente. O manto em que Pedro se envolve é o manto da fé, é o manto da confiança de que Deus não abandona aqueles que ama e se colocaram à sua disposição.
Erguido na sua condição, envolvido pela fé, Pedro pode passar as diversas barreiras, pode ultrapassar as hostilidades levantadas contra ele, e pode afirmar convictamente que o Senhor liberta, que o Senhor protege, que o Senhor não desampara aqueles que se comprometem com Ele.
A leitura da Carta de São Paulo a Timóteo vai na mesma linha de pensamento e assim também Paulo reconhece ao discípulo predilecto que a sua vida foi uma história difícil, complexa e exigente, mas que em todas as circunstâncias nunca deixou de sentir a protecção de Deus. Ao ter guardado a fé, ao ter-se deixado envolver pelo manto da fé em Jesus, pôde combater o bom combate e terminar a sua carreira, que se perspectiva mais exigente e dolorosa face à situação de prisão.
É face a esta experiência e a esta consciência que Paulo apela a Timóteo que não deixe de guardar a fé, que não deixe de ser exigente na sua missão e exigente com aqueles que lhe foram confiados como cristãos e discípulos de Jesus. Se Deus concede alguma graça, se o Espirito Santo ilumina e permite dizer que Jesus é o Messias Filho de Deus, é para que essa graça e essa verdade possam chegar a outros, para que cada um possa ser ponte e elo de ligação para com Deus que vem ao nosso encontro.
Os itinerários e percursos de Paulo e Pedro são assim um modelo e um exemplo para cada um de nós, são como que um paradigma do nosso caminhar espiritual.
Caminho que passa antes de mais por uma conversão, por uma mudança de vida expressa nesse levantar-se, quer seja numa situação de prisão, como aquela em que se encontra Pedro, quer seja numa situação de queda, como a que Paulo sofreu a caminho de Damasco. Deus não nos quer pelo chão nem prisioneiros das realidades que não nos dignificam nem realizam como pessoas e filhos de Deus.
Este caminho de conversão está marcado por um encontro que nos serve para aferir dos passos a dar, das energias que possuímos e das que necessitamos. É o momento do encontro pessoal com Jesus, esse momento que nos faz descobrir como somos muitas vezes incapazes de dar os passos necessários e por isso somos levados por Jesus aos ombros, como ovelha perdida e achada.
É este conforto, esta segurança, esta consciência, que desperta em nós a fé, essa certeza de que não estamos abandonados, mas somos queridos e amados de Deus. Ele vela por nós e como um mendigo demanda apenas o nosso amor, o amor que nos realiza, que nos faz ser o que somos verdadeiramente.
Assumindo esta realidade podemos ser um signo eloquente diante dos outros e diante do mundo, podemos tal como Pedro e Paulo levar a cabo a missão, combater o bom combate e esperar com alegria a coroa de glória. Assumindo esta realidade podemos responder e dizer quem Jesus é. Não já uma resposta estereotipada, doutrinal, escutada da boca de outros, mas uma resposta única e pessoal, a resposta que o Espirito Santo brotou em nós pelo acolhimento que lhe proporcionámos.
Que a felicidade de Pedro e de Paulo ao reconhecerem Jesus como o Messias Filho de Deus nos alcance igualmente e o testemunho do sangue derramado de cada um deles seja para nós um alento nos combates e dificuldades da vida como cristãos.

 
Ilustração:
1 – “A libertação de Pedro”, de Rafael, Salas de Júlio II, Palácio do Vaticano.
2 – “A Conversão de São Paulo”, de Nicolas-Bernard Lepicie.

Sinais que se trocam

 
A criatura faz sinal ao seu Criador, mas o Criador faz de volta sinal para a criatura, uma vez que desde toda a eternidade ele quer unir-se por amor.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 121.

Ilustração: Rio Nabão junto à Ermida de Nossa Senhora da Lapa, Tomar.

sábado, 28 de junho de 2014

O que nos salva

 
O que salva no cristianismo não é um arquétipo atemporal e abstracto, mas o acontecimento de uma carne, num determinado lugar e numa época precisa. A sua vitória não é por outro lado a vitória de um Imortal, mas de um Ressuscitado, o que quer dizer, de quem morreu, e de uma morte horrível, e cuja vida, sendo mais forte, assume esta morte como ocasião de uma oferenda sem restrições.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 99.

Ilustração: Mosaico do baptistério da igreja de São Paulo em Genebra.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

A eternidade é a fonte

 
É um contra-senso pensar que a eternidade poderá destruir o fulgor de um ser, uma vez que, por definição, ela é a sua fonte.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 99.

Ilustração: Avenas iluminadas pelo sol.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

O mal da queda

 
O mal, com efeito, não está na queda, mas na obstinação de não a reconhecer, uma vez que esta obstinação nos fecha a possibilidade de reerguer-se.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 103.

Ilustração: Troncos cobertos de neve do Jardim Eaux-Vives em Genebra.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Uma palavra simples

 
Foi suficiente que a bela jovem pronunciasse uma palavra simples para que o simples fizesse entender a sua promessa inaudita: o bom dia, o dia feliz finalmente realizado, essa luz sem declínio que invocamos no limiar de todo o encontro, e que não é nada mais que o cume da felicidade, a eternidade encontrada e o resgate do tempo perdido…
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 14.

Ilustração: Escultura feminina de bronze dos jardins do Palácio de Versalhes.

terça-feira, 24 de junho de 2014

A saudação virtuosa

 
O salamaleque, mesmo superficial, está carregado de um sentido que a obra mais bela mais não faz que explicitar. A grande travessia de Dante não recebe o seu impulso dum simples bom-dia dado por Beatriz Portinari numa tarde de 1278? Foi às três horas numa rua de Florença: “Ela saudou-me tão virtuosamente que pareceu-me entrever o cume da felicidade eterna”!

Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 14.

Ilustração: Nascer do sol sobre o lago Leman a caminho de Neuchatel.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Oração que frusta a censura

 
Alguns fazem prosa sem o saber, mas nós fazemos todos, e sem nos darmos conta, escatologia. O inconsciente coloca nos nossos lábios essa oração que frustra toda a censura. Apesar da minha incredulidade, transporto esse desejo liminar, sinal de entrada à brecha profana, oração para além de mim no cerimonial universal: invoco o “Bom Dia”, como um outro que surgirá com todas as portas cerradas e dirá “a paz esteja convosco”.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 15.

Ilustração: Brincos de rainha do jardim da casa dos meus pais.

domingo, 22 de junho de 2014

Homilia da Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo

As entradas das nossas cidades, em alguns pontos das auto-estradas, estão povoadas de painéis publicitários, e uma boa parte deles oferecem-nos comida, apresentam-nos restaurantes a visitar, determinados pratos típicos a experimentar.
Seremos nós capazes de imaginar um painel em que nos é oferecida uma mesa posta para nos acolher, uma mesa na qual está um pão que não é necessário pagar e um vinho que nos faz viver eternamente?
Ainda que não encontremos este painel em qualquer via-rápida ou auto-estrada em que viajemos, a verdade é que ele está todos os dias exposto, patente para quem quiser olhar para ele, é-nos apresentado todos os dias em cada igreja, às suas portas nos horários quotidianos de cada celebração da Eucaristia.
E quando nos damos conta das ofertas publicitárias que procuram satisfazer o nosso desejo de eternidade, expresso em paisagens paradisíacas, corpos perfeitos, em jogos cujas vidas se podem repetir indefinidamente, podemos e certamente devemos interrogar-nos porque a nossa oferta não é dita em conta, porque as nossas igrejas se encontram vazias à hora da celebração da Eucaristia.
Como um elemento mais para reflexão, é interessante notar que a Festa do Corpus Christi, a solenidade que hoje celebramos, nasceu num momento em que a fé na presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados era colocada em causa. Contudo, esta festa não foi uma resposta da hierarquia, uma imposição doutrinal, mas a resposta viva do povo, dos crentes, que conduziu a uma veneração das realidades visíveis do mistério, como são o pão e o vinho consagrados.
Assim, e face à perda do gosto pelo pão dos anjos, à perda do desejo desse vinho da salvação, a uma certa repetição do momento histórico fundacional desta festa da Igreja, não é de todo descabido olhar e pensar à luz das leituras bíblicas desta celebração o que significa a Eucaristia, porque nos reunimos cada dia para a celebrar este mistério que não é mais que o dom supremo que Jesus deixou aos seus discípulos.
A leitura do Livro do Deuteronómio que escutámos é um convite a recordar as acções de Deus para com o povo eleito durante a sua caminhada no deserto. Também a Eucaristia é um recordar das acções de Jesus, é uma resposta ao pedido de Jesus na última ceia para que se fizesse memória daquele momento e daqueles gestos, da sua vida entregue.
Contudo, tanto para o texto do Livro do Deuteronómio, como para o pedido de Jesus, fazer memória não significa apenas recordar o passado, os gestos e actos passados, não é fazer história, mas é fazer presente o agente dessa história e os resultados das acções desenvolvidas. Deus continua presente e continua a agir e a acompanhar o homem na sua história. A Eucaristia é a tomada de consciência dessa realidade activa, se assim se pode falar.
A leitura do Livro do Deuteronómio coloca também diante de nós a experiência do deserto, numa imagem metafórica a nossa experiência de vida com as suas limitações e dificuldades, com o seu sofrimento e desafios. Experiência que não é estranha a Deus, à qual ele não é indiferente, e por isso mesmo se faz presente, ora como nuvem protectora, ora como desafio normativo, como alimento caído do céu e como água que brota do rochedo.
A Eucaristia é também esta presença substancial e protectora de Deus no nosso caminhar, uma presença que descobrimos não já nos grandes gestos, nas manifestações teofânicas, mas no interior do coração, numa força e numa luz que nos impelem para a batalha, que nos fortalecem para os desafios e combates. O pão e o vinho consagrados, corpo e sangue de Jesus, são o alimento que nos é oferecido para enfrentar essas realidades com outra força e sabedoria.
O corpo e o sangue de Jesus têm no entanto uma outra missão para além da nutrição espiritual, uma vez que desenvolvem em nós uma outra realidade muito mais significativa, mais radical, como é a da nossa transfiguração. Tal como bem disse Santo Agostinho, quando nós comungamos somos transformados naquilo que comungamos, somos assumidos por aquele que comungamos.
A comunhão do corpo e sangue de Jesus é a comunhão da sua realidade divina na proporção em que a sua encarnação foi a comunhão da nossa realidade humana. Aquele que se fez carne como nós ao gerar no seio de Maria faz-nos filhos de Deus como ele ao alimentar-nos do seu corpo. Ele que vive e permanece no Pai permite pela comunhão da sua carne e do seu sangue que vivamos e permaneçamos também no Pai.
A Eucaristia é assim a oportunidade da experiência da eternidade, de entrarmos na intimidade da vida divina, uma vez que nos deixamos assumir pelo Corpo de Cristo que comungamos. A Eucaristia é a acção que nos permite construir a unidade, construir a Igreja, uma vez que pela comunhão somos membros vivos do mesmo corpo glorioso de Jesus.
Assim sendo, não deveríamos necessitar de qualquer painel publicitário para nos convidar à Eucaristia, não deveríamos necessitar de qualquer apelo dos sacerdotes, os simples desejos de fraternidade, de um mundo melhor, de felicidade eterna nos deveriam arrastar.
A Eucaristia responde aos nossos desejos e anseios mais profundos e por isso hoje cantamos e louvamos por esse dom tão maravilhoso que Deus nos fez.

 
Ilustração:
1 – “Cristo com a Hóstia”, de Paolo de San Leocádio, Museu Nacional de Poznan.
2 – “A Comunhão”, de Alexey Venetsianov, Museus Russos.

O que se diz num aperto de mãos

 
O autêntico aperto de mãos consiste nesse tacto no qual cada um aperta o outro docemente até ao ponto em que as duas pressões se igualam, como em uma chave de abóbada: aperto que não é de submissão mas de cuidado, receptividade activa que se opõe à passividade indolente. Não é a promessa de uma situação, no qual um não se importa com o outro, mas o acolhimento do outro tal como se oferece, sem o deformar.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 15.

Ilustração: Vaso de violetas do cabo da casa dos meus pais.

sábado, 21 de junho de 2014

O princípio funcional do inferno

 
Por outro lado, os falsos pregadores que brandem a geena antes de mais como um lugar de dores atrozes não podem mais que malograr o seu golpe: quem poderá converter um sadomasoquista ameaçando-o com um suplício? O princípio do inferno não é o castigo corporal mas a privação voluntária da visão divina!
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 25.

Ilustração: Escultura dos Jardins do Palácio de Queluz.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

O lugar da tolerância divina

 
Os falsos generosos que pretendem que a doutrina do inferno é intolerável caiem no maior contra-senso. De facto, o inferno é precisamente o lugar da tolerância divina: Deus inclina-se diante daquele que recusa livremente e conscientemente a sua graça, e tolera sem mais essa dissidência, porque se pode arrebatar uma alma, não quer de maneira nenhuma raptá-la.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 25.

Ilustração: Papoilas do jardim do Convento de Santo Tomás de Ávila.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

A comunhão do paraíso

 
O paraíso comum, ou seja, aberto a todos na comunhão mais íntima, é o verdadeiro paraíso de luz; mas o condenado prefere ser o primeiro no seu mundo sombrio e artificial que mais um entre os outros sob a fonte da claridade.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 26.

Ilustração: Pôr do sol no Museu de Serralves

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A finitude que se experimenta

 
A finitude viva, aquela que faz imediatamente mal, não se experimenta tanto diante do nada como diante do outro, sobretudo se esse outro me excede, ultrapassa os limites, me saca das minhas últimas trincheiras. Sobretudo se é um certo Judeu, aquele que a uma pergunta responde com um apelo, e a um problema com um mistério.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 29.

Ilustração: Igreja paroquial de Vernier, Genebra.

terça-feira, 17 de junho de 2014

A difamação do paraíso

 
Difamamos o paraíso receando as suas extensões enfadonhas, mas é para não admitir que temos antes de mais medo do seu êxtase demasiado ousado: ser entregue ao totalmente outro, tão próximo com a sua realidade que não espero, à sua liberdade que vem surpreender-me, à sua alegria que me desborda até ao despedaçar da minha estreita capacidade…
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 28.

Ilustração: Tronco ferido dum cedro do Jardim de Serralves.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

A nossa finitude pelo outro

 
Nós podemos reconhecer que a finitude marcada pela morte é menos frágil que aquela que é revelada pela alegria. Frequentemente teremos que voltar a esta evidência: dar a morte está mais à mão que satisfazer de felicidade. Eu posso matar-me a mim próprio, mas não posso, por mim próprio, beatificar-me… A morte física não é assim tão cruel como me parece quando comparada com o que evidencia a minha impotência para ser feliz.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 31.

Ilustração: Jardim des Eaux Vives de Genebra coberto de neve.  

domingo, 15 de junho de 2014

Homilia da Solenidade da Santíssima Trindade

Celebramos neste domingo a Solenidade da Santíssima Trindade, no domingo imediatamente a seguir à conclusão do tempo pascal e à celebração da Solenidade do Pentecostes.
Celebramos aquele que podemos considerar o mistério mais englobante da nossa fé, um mistério cujo acesso se torna mais fácil na medida em que nos apoiamos nos outros dois grandes mistério da nossa fé, o mistério da Encarnação do Filho de Deus e o mistério da nossa Redenção, que podemos considerar como portas de acesso.
Neste sentido, não podemos deixar de partir da grande realidade que é o facto de deus ser um conceito filosófico, um conceito que pretende designar a causa primeira e a causa última de todas as realidades e de modo muito concreto da realidade que é a humanidade.
Deus aparece como um princípio e um fim e portanto como uma realidade que está para lá do conhecimento humano, pelo que apenas se pode falar dessa realidade através de imagens, de analogias e metáforas. Deus existe portanto num discurso que face às diversas possibilidades de concepção conduz à incompatibilidade, à exclusão e ao confronto.
Tais realidades evidenciam que é impossível ao homem conhecer Deus, que é impossível ao homem falar de Deus uma vez que as suas capacidades são limitadas para tal conhecimento e discurso. Só Deus pode permitir ao homem esse conhecimento na medida em que deixa o seu silêncio, na medida em que vem ao encontro do homem.
E é esse encontro, esse caminho que podemos constatar na história da revelação cristã, na história da revelação do mistério da Santíssima Trindade, de Deus que é família e quer ser mais família com os homens.
Neste sentido, é fundamental não perdermos de vista o encontro de Moisés com Deus no episódio da sarça-ardente, quando Deus se revela que é aquele que é, ou seja, quando se revela como uma realidade existente para aquele que se encontra com ele e se dispõe a acolhê-lo.
A leitura do Livro do Êxodo que escutámos vem reforçar ainda mais esta ideia quando Moisés pede a Deus que se digne habitar com o povo e caminhar com ele, esse Deus que não tinha nome, que não podia ser encarcerado num templo e manipulado num nome, mas que podia caminhar e fazer daquele povo a sua herança.
A revelação de Deus, de que o Antigo Testamento nos dá notícia, mostra-nos que ao contrário dos povos vizinhos do Médio Oriente o Deus dos pais de Israel não se confunde com a natureza nem com os poderes cósmicos, não é um deus impessoal e distante, mas pelo contrário é um Deus próximo, cheio de compaixão, um Deus pessoal que estabelece uma relação, que revela a sua existência pelo amor que tem aos homens.
São este amor e a limitação natural da linguagem humana, para a compreensão cabal de Deus que vem ao encontro do homem, que conduzem ao grande momento da revelação de Deus que acontece com o mistério da Encarnação. Deus faz-se homem, aproxima-se totalmente do homem para que o homem se possa aproximar totalmente de Deus e possa ser filho de Deus.
O mistério da Encarnação, do Verbo que se faz carne, permite-nos perceber esse amor de Deus, esse seu desejo de ser conhecido e amado pelo homem, e por isso no Evangelho de São João ouvimos Jesus dizer que quem o vê está a ver o Pai. Há uma unidade e intimidade impossível de quebrar e portanto abre-se uma nova via de conhecimento e de relação do homem com Deus.
Via esta que permanece um mistério, um mistério que apenas o Espirito Santo pode desvendar, porque só no Espirito Santo e pelo Espirito Santo é possível dizer que Jesus é o Senhor, é possível acolher o amor de Deus Pai manifestado pelo Filho e na vida entregue do Filho para o resgate do homem.
O Espirito Santo é assim o nosso pedagogo, aquele que nos vai abrindo os olhos e iluminando o nosso mísero conhecimento para entrar na grande relação que Deus estabeleceu com a humanidade e estabelece com cada um de nós.
O Espirito Santo ajuda-nos a compreender como Deus está connosco, como somos templos de Deus, e como pela paz e a fraternidade, a busca comum da perfeição, podemos manifestar neste mundo a comunhão intrínseca de Deus que é Pai, Filho e Espirito Santo.
A celebração desta Eucaristia é também manifestação e experiência dessa comunhão que Deus quer viver connosco, saibamos pois aproveitar o momento para fortalecer os nossos laços de amor e de fraternidade, assim como a nossa filiação divina.

 
Ilustração:
1 – “Disputa sobre a Santíssima Trindade”, de Andrea del Sarto. Palácio Pitti, Florença.
2 –  “Santíssima Trindade”, de Hendrick van Balen. Saint-Jacobskerk, Antuérpia.

Deus Redentor

 
A noção de um Deus Redentor não me reenvia a uma miséria corporal, mas a uma miséria espiritual da qual não saberei libertar-me pelas minhas próprias forças.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 31.

Ilustração: Escultura em relevo das paredes da capela do Palácio de Versalhes.

sábado, 14 de junho de 2014

Deus Criador

 
A noção de um Deus Criador reenvia-me não a um qualquer nada futuro, mas ao nada que sou por mim próprio, a esse nada primordial do qual a cada instante lhe sou devedor por me resgatar.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 31.

Ilustração: Candelabro da Galeria dos Espelhos no Palácio de Versalhes.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O paraíso nos move

 
O paraíso pode estar em outro lugar, mas em todo o caso ele existe já como força aspirante. Ele exerce pressão sobre o nosso mundo, quebra o ciclo das satisfações animais, instiga-nos a procurar sempre mais além… Primeiro motor imóvel da história ou último refúgio intangível da ilusão, utopia de um amanhã que legitima o massacre de hoje, ou recompensa dum julgamento que urge as obras de misericórdia, o paraíso é o horizonte de todas as nossas esperanças e a medida de todas as nossas desgraças.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 40.

Ilustração: Torre Eiffel em Paris.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Falar do paraíso

 
Falar do paraíso, desde logo, não é cair no arbitrário e promover a evasão? Pode ser! Mas não tentar meditar sobre a sua verdadeira natureza é abandonar o terreno a todas as contrafacções. Desprezar à partida o paraíso celeste é deixar livre curso às paródias terrestres do mesmo.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 40.

Ilustração: Bassin de Apolon nos jardins do Palácio de Versalhes.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Querer experimentar tudo

 
Querer experimentar tudo é não apreender de nada o sabor. O desejo de tudo experimentar antes de partir, tão difuso entre os desejos pretendidos, enraíza-se num niilismo: nenhum ser neste mundo tem profundidade ou consistência, e este mesmo mundo não é mais vasto que uma prisão, uma vez que todos os possíveis são susceptíveis de serem atingidos.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 52.

Ilustração: Nora de poço de rega junto à Ermida da Senhora da Lapa

terça-feira, 10 de junho de 2014

A igreja militante

 
Na sua condição terrestre, a Igreja é sempre militante: querer a Igreja triunfante no século é confundir o tempo e a eternidade, naturalizar o sobrenatural, mundanizar o Espirito e, sob o pretexto de sacralização do político, conduzir a uma secularização do religioso.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 53.

Ilustração: Escudo de Armas sobre a porta principal da Igreja do Loreto em Lisboa.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A grande batalha

 
Enganei-me quando me propus destruir a Igreja e a Lei. A batalha que nós temos que travar desenrola-se no nosso próprio espirito. Há ali um momento luminoso, possivelmente uma única vez na nossa vida, e nesse momento vemos a única coisa que importa. É nesse momento que as grandes batalhas são perdidas ou ganhas, pois então, fazemos parte do exército celeste.
William Butler Yeats, La Licorne aux étoiles, 157.

Ilustração: Decoração da abóbada da capela do Santíssimo Sacramento da Igreja da Encarnação ao Chiado, Lisboa.  

domingo, 8 de junho de 2014

Homilia da Solenidade do Pentecostes

Celebramos a solenidade do Pentecostes, um acontecimento e um mistério que a leitura dos Actos dos Apóstolos e do Evangelho de São João nos apresentavam de forma diferente.
Não podemos dizer que os diferentes relatos estão em contradição, ou que se opõe, bem pelo contrário, partindo do mesmo princípio que é o dom do Espirito por Jesus Cristo apresentam facetas que se complementam e iluminam.
Neste sentido, o relato que os Actos dos Apóstolos nos apresenta parte de duas realidades, dois acontecimentos prévios que são relidos e assumidos à luz da novidade de Jesus e do mistério da sua ressurreição.
São Lucas, ao descrever a descida do Espirito Santo sobre os apóstolos, tem presente, e aí insere o acontecimento cristão, a festa judaica das colheitas, a festa de agradecimento do dom da lei e da posse da terra, o Pentecostes judaico, bem como o grande acontecimento da torre de Babel, quando os homens tentaram alcançar os céus pelos seus meios e foram dispersos pela diferenciação das línguas.
Partindo destes acontecimentos, o autor dos Actos dos Apóstolos mostra como o Espirito Santo, o Espirito dado por Jesus, permite o mútuo conhecimento e a unidade dos povos, uma única linguagem acessível a todos os homens e mulheres. Em oposição à tentação da torre de Babel, de alcançar os céus pelos seus próprios meios, o Pentecostes é a oferta dessa acessibilidade na medida do acolhimento do Espirito Santo prometido por Jesus.
Por outro lado, se o Pentecostes judaico celebrava o dom da lei, escrita sobre tábuas de pedra, a descida do Espirito Santo punha em evidência a nova lei já gravada no coração, tal como tinha sido prometido e profetizado pelo profeta Ezequiel.
Coração que, podemos dizer, é um dos elementos centrais do relato que nos é apresentado pelo Evangelho de São João, Evangelho que congrega a ressurreição, a ascensão e a descida do Espirito Santo num mesmo dia, evidenciando dessa forma a unidade intrínseca dos três acontecimentos. É pela ressurreição que Jesus é elevado aos céus e é pela ressurreição que se cria a possibilidade da vinda do Espirito Santo sobre os apóstolos.
A centralidade do coração é colocada em destaque pelo convite de Jesus, convite que se repete no momento em que o ressuscitado se faz presente no meio dos apóstolos, “a paz esteja convosco”.
Esta tradicional e comum saudação, “Shalom”, adquire neste contexto uma outra dimensão, deixando de ser um cumprimento quotidiano, para adquirir uma dimensão reconciliadora, uma dimensão de perdão, que é necessário para que o futuro e a missão outorgadas anteriormente se possam desenvolver.  
A saudação de Jesus vai ao encontro de um processo de culpabilização e de medo no qual os discípulos se tinham enredado face ao abandono e traições aquando da prisão, condenação e morte do mestre. Era essa culpa que não lhes permitia sair fora, lançar mão da missão, e até viver plenamente o mistério da ressurreição de Jesus.
A saudação de Jesus, a paz que é necessária, é o impulso para sair dessa rede de culpa, é a oportunidade para aceitar que apesar dos erros e das falhas, das traições, Jesus continuava a contar com eles para a realização da missão. Só na medida da libertação dessa culpa perderiam o medo e poderiam abrir-se e acolher o Espirito Santo, o Espirito de Jesus.
Este apelo e convite de Jesus, esta saudação, continua hoje a ser extremamente importante para nós, e é necessário que tomemos consciência dele no momento do Pentecostes, nesta celebração do dom do Espirito Santo.
De facto, não poderemos acolher em verdade e de forma plena o Espírito que Deus nos envia se não estivermos em paz, se não nos tivermos perdoado nas nossas falhas e faltas, conscientes que Deus nos conhece nas nossas debilidades, mas ainda assim não deixa de apostar em nós, não deixa de contar connosco para realizar o seu projecto.
É esse acolhimento do perdão, de uma nova oportunidade que Deus nos concede, que nos permite anunciar e realizar a missão do perdão que Jesus nos indicou. Se não tivermos feito a experiência de nos sabermos perdoados não seremos capazes de levar o perdão aos outros.
E esta experiência é extremamente importante para não cairmos na tentação em que caiu a comunidade de Corinto à qual São Paulo se dirige na leitura que escutámos, a tentação da superioridade. Se soubermos perdoar saberemos apreciar os dons dos Espirito Santo, saberemos valorizar a diferença e viver com cada um e com todos como membros activos de um corpo vivo.
Desta forma poderemos tornar presente e actual a experiência do Pentecostes que os Actos dos Apóstolos nos apresentam, porque a linguagem da aceitação, do perdão e do amor é compreensível em qualquer língua e a qualquer homem.
Se vivermos a lei gravada no coração, a lei a que Jesus sempre se reportou e que o Espirito Santo faz brilhar na sua divinidade, poderemos construir a unidade dos homens e mulheres expressa nesse projecto da torre de Babel, assente agora já não no nosso desejo de chegar ao céu, mas de acolher o céu que veio até nós.

 
Ilustração:
1 – “Pentecostes”, de Grão Vasco, da capela da portaria do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra.
2 – “Pentecostes”, painel de azulejos na capela de Nossa Senhora de Fátima, Pousada.

 

O eleito

 
O eleito, por definição, é aquele que completamente não se escolheu, mas que escolheu deixar-se escolher, que consentiu deixar-se eleger por um outro que não ele para uma missão diferente das suas próprias. Se ele se realiza, não é a partir do seu plano, mas a partir de um projecto que o ultrapassa.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 28.

Ilustração: Alunos do Externato Marista passando junto de um cruzeiro a caminho de Fátima.

sábado, 7 de junho de 2014

A palavra prodigiosa

 
Bom dia! Nada de mais ordinário. Nada de mais prodigioso. Esta palavra, de facto, escapa-nos duas vezes: a primeira vez como um reflexo, a segunda como uma promessa.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 13.

Ilustração: Campo com oliveiras na Serra d’Aire, Fátima.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O paraíso que me realiza

 
O paraíso é por definição o lugar de toda a perfeição. Se ele é uma perfeição de mim, a adoração beatífica não significará um abolir, mas um cumprir, de tal modo que eu serei ainda mais eu próprio e mais distinto dos outros no céu que sobre a terra.
Fabrice Hadjadj, Le Paradis à la porte, 23.

Ilustração: Orquídea rosa da casa dos meus pais.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Querer possuir o outro

 
Querer possuir o outro por mim próprio, tanto quanto me é possível, é não consentir jamais a recebê-lo pelo Outro, tanto quanto ele me é impossível; e é portanto acabar por absorver os seus restos e encontrar-se só, se é que se pode falar de “encontrar” lá onde a bem da verdade não paramos de fugir.
Fabrice Hadjadj, Le Paradis à la porte, 280.

Ilustração: Recanto do jardim da casa dos meus pais.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

A vida excede os projectos

 
A vida excede sempre os nossos projectos, ela frustra o prazer planificado, ela oferece a felicidade da qual não estávamos à espera.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 270.

Ilustração: Glicínia em tons de outono no Jardim de Serralves.

terça-feira, 3 de junho de 2014

A melhor parte está fora de nós

 
A melhor parte de nós próprios está fora de nós, a nossa capacidade de acolher o outro não nos pertence, uma vez que nos acolheríamos a nós próprios, mas é-nos dada no inesperado do encontro.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 271.

Ilustração: Grupos de alunos Maristas no momento da partida na Peregrinação a pé a Fátima.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Vós me deixareis só! (Jo 16,32)

A última ceia de Jesus com os discípulos, antes da sua paixão, é um momento paradoxal, um momento em que a luz e as trevas se fazem presentes, em que o amor e a traição se contrastam de tal maneira que é impossível ficar insensível.
É nesta ceia que os discípulos aparecem perdidos, desconcertados face aos gestos de Jesus, como a lavagem dos pés. Mas por outro lado, e após as diversas promessas do Espirito Santo, que lhes era tão estranho como tudo o que viviam, afirmam a Jesus que agora lhes falava claro, que agora tudo se tornava compreensível.
Como estavam enganados, e como Jesus bem o sabia! Por isso diante da confiança que eles manifestavam Jesus coloca-os imediatamente face ao abandono, à dispersão que a sua prisão provocaria. Afinal, na compreensão que diziam ter havia ainda outros interesses presentes.
O anúncio de Jesus, marcado certamente pela tristeza, não está carregado de azedume nem de revolta, enuncia-se apenas como uma evidência face às circunstâncias. O abandono dos discípulos não se compara com o amor do Pai, amor e presença que permanecem para além de todas as circunstâncias.
Este anúncio de Jesus, e o convite que se lhe segue para que tenham a paz, mostra-nos o olhar mais largo de Jesus, a sua perspectiva de futuro, a confiança que deposita nos discípulos para além do imediato e do abandono. Jesus acredita na recuperação da fidelidade, na conversão dos discípulos.
Esta confiança e esta visão mais alargada deveriam ser para nós um alento, um incentivo a não temer o regresso à fé, o regresso à Igreja, a não temer a conversão. Jesus conhece-nos e conhece as nossas infidelidades, sabe quantas vezes o deixámos só e o abandonámos.
A nossa fé pode fraquejar, a nossa fidelidade pode andar um pouco frouxa, mas ainda assim Jesus deixa-nos a sua paz, abre-nos a porta da sua confiança para que possamos regressar, para que retomemos a relação com ele.
Ele nunca está só, mas nós podemos ficar sós, e por essa razão nos deixa a sua paz para não nos perdermos na nossa solidão.

 
Ilustração: “Jesus lavando os pés aos discípulos”, Iluminura dos Evangelhos de Otto III, Biblioteca Estatal de Munique.   

A alegria chega de fora

 
A alegria, segundo Proust, chega por qualquer coisa “fora de nós”, mas ela só é verdadeiramente profunda se descobrir “em nós” as nascentes ignoradas, e só é verdadeiramente viva se nos comprometer completamente numa obra que a recolhe e a comunica. A sua emoção torna-se missão.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 273.

Ilustração: Flores de rododendros do Jardim de Serralves.

domingo, 1 de junho de 2014

Homilia do VII Domingo Pascal Solenidade da Ascensão de Jesus

Celebramos hoje a Solenidade da Ascensão de Jesus aos céus, uma celebração que decorre dos dados fornecidos pelos Actos dos Apóstolos que escutámos na primeira leitura: quarenta dias depois da ressurreição Jesus subiu ao Céu.
É uma celebração e um acontecimento que não deixam de nos questionar, de nos confrontar com alguns desafios da nossa fé, do nosso processo de seguimento de Jesus, os quais estão bem patentes no próprio texto dos Actos dos Apóstolos e no Evangelho de São Mateus.
Nos Actos dos Apóstolos é-nos dito que os discípulos ficaram a olhar para o céu e que foi necessário que dois homens vestidos de brancos lhes aparecessem para os fazer regressar à realidade, ao verdadeiro sentido do mistério que viviam.
Por outro lado o Evangelho transmite-nos a dúvida que habitava o coração de alguns discípulos face ao que estavam a viver e como foi necessário que Jesus se aproximasse para lhes dizer como estava presente e como essa presença se tornaria visível pela missão que lhes tinha sido confiada.
A dúvida e a alienação são assim duas tentações que se apresentam inevitavelmente a todo aquele que escuta Jesus, que o conhece, e se propõe segui-lo; são realidades que desafiam a fé na sua verdade e concretização, na sua dinâmica de vida.
E tal como os discípulos, também nós sofremos dessa tentação de ficar a olhar para o céu, de nos refugiarmos na nossa oração intimista, no nosso misticismo, no nosso grupo eclesial, naquelas realidades que hoje se denominam “zonas de conforto” e existem no nosso processo de fé e seguimento, esquecendo os outros e esquecendo sobretudo que somos membros vivos de um corpo e como tal estamos chamados ao movimento e à acção.  
Movimento e acção que podem ser outra tentação, uma tentação até mais fácil de sofrer, uma vez que nos oferece uma visão de frutos imediatos, o que satisfaz o nosso orgulho, o nosso egocentrismo. Razão suficiente para nos obrigarmos a um equilíbrio, a seguir o exemplo de Jesus, que viveu um verdadeiro activismo, mas nunca deixou de salvaguardar os momentos de silêncio e solidão que lhe permitiam a união íntima com o Pai.
Este equilíbrio entre a acção e o silêncio, entre a oração e a missão, é assim o desafio que se coloca a todo o discípulo de Jesus, um desafio que se coloca no nosso quotidiano quando temos tantas tarefas e cuidados que nos absorvem, que nos fatigam e tantas vezes nos fazem desesperar.
O momento de encontro, a nossa oração, o nosso momento de silêncio e meditação, podem ser a oportunidade para encontrar a paz, a luz e a força para as actividades que nos cansam, bem como o sentido para aquelas que nos despertam na dor e no sofrimento.
A dúvida é a outra grande tentação que nos assalta na nossa caminhada de fé, uma tentação que o Evangelho não tem qualquer vergonha em assumir que também atingiu os discípulos, e portanto podemos dizer que é irmã gémea da própria fé.
E se a dúvida adquire uma conotação negativa, tal advém-lhe da possibilidade de ela nos encerrar, de nos fechar à descoberta e à prossecução das realidades. Pelo contrário, quando a dúvida se apresenta como uma força de descoberta, como um motor do conhecimento que se deseja, ela é verdadeiramente positiva e deve ser cuidada.
No seguimento de Jesus, no caminho da fé, a dúvida leva-nos, ou deveria levar-nos, a um processo de conhecimento, a uma busca das razões, a uma compreensão da esperança e dos tesouros que nos estão destinados tal como nos é dito pela Carta aos Efésios, e portanto tem uma missão positiva, uma missão esclarecedora.
Neste sentido, aquilo que acontece no mistério da ascensão de Jesus, e que pode gerar dúvidas, era objectivamente necessário, ou seja, era necessário que Jesus se ocultasse fisicamente, que regressasse ao seio do Pai, para que pudesse estar e permanecer para sempre junto dos seus discípulos, de todos aqueles que acreditassem nele, e para que pudesse ser conhecido como verdadeiramente deve ser conhecido.
A presença física seria um obstáculo a um conhecimento pleno e verdadeiro, a uma relação mais íntima, à relação de espirito e comunhão, à prossecução da própria missão que Jesus tinha outorgado aos discípulos, pois existiria sempre a tentação do encerramento, daquilo que poderíamos denominar um autismo crístico, que de certa maneira acontece nos momentos prévios ao Pentecostes, quando estão todos encerrados em casa.
A ausência de Jesus para junto do Pai é a garantia da sua permanência, em todo o lugar e até ao fim dos tempos, assim como a potencialização da realização da missão, do anúncio da boa nova da redenção e do mandamento do amor, missão que é a manifestação visível e até palpável dessa mesma presença.
Afinal onde estiverem dois ou três reunidos em seu nome, seja para louvar a Deus, seja para realizar uma obra de justiça, seja para dignificar o homem na sua natureza humana e divina, Jesus não deixa de estar presente e não deixa de estar vivo.
Peçamos pois ao Senhor que nos conceda um espirito de sabedoria para o ver presente e actuante em todas as nossas obras, e para que qualquer dúvida que nos atinja nos leve a procurá-lo com mais intensidade no silêncio da oração e da partilha fraterna.

 
Ilustração:
1 – “Ascensão de Jesus ao Céu”, de Benjamin West, Denver Art Museum.    
2 – “Ascensão de Jesus”, Pintura exposta na Casa do Deães em Ávila.

Para encontrar a fonte

 
Procurar e encontrar a fonte, é ser capaz de difundir a frescura.
Fabrice Hadjadj, Le paradis à la porte, 273.

Ilustração: Fonte e espelhos de água do Jardim de Serralves.