quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Esforçai-vos por entrar pela porta estreita (Lc 13,24)

As palavras de Jesus apelando ao esforço para entrar pela porta estreita são uma provocação à nossa conversão, um convite premente à nossa conversão diária. São também a confirmação de que a conversão não é um privilégio de apenas uns quantos, que não se entra no Reino dos Céu, não se experimenta a salvação por méritos próprios, ou a golpes de violência. Afinal Deus quer que todos os homens se salvem e por isso os últimos serão os primeiros, os fracos e os excluídos, aqueles que poderemos considerar pecadores preceder-nos-ão nos céus.
A salvação é assim uma realidade que não está nas nossas mãos, nos ultrapassa porque está nas mãos de Deus, mas que exige da nossa parte disposição, desejo, reconhecimento da sua necessidade. Não somos nós que nos salvamos, mas é Deus que nos salva através da nossa disposição, abertura e acolhimento a esse dom que nos faz.
A salvação como realidade exterior a nós mesmos e às nossas forças pressupõe intrinsecamente a expressão coerente do seu acolhimento. Não podemos esperar uma salvação sem que a vivamos no nosso dia a dia através de gestos e palavras que a concretizam, que a vão tornando actual e visível, mostrando acolhida e aceitada.
Ora isto implica passar pela porta estreita de que fala Jesus, implica um esforço que se traduz numa ascese de vida, numa disciplina, num conjunto de limites que reconhecemos e vivemos porque enquadram interiormente a concretização do acolhimento que fazemos do dom da salvação. Ninguém pensa pintar um quadro sem uma tela, tintas e pincéis e sem misturar as cores e aplicá-las mais ou menos grosseiramente sobre a tela, arriscando a sujar-se com a tinta que escorre pelos pincéis. E não se pinta um quadro no reverso da tela. Assim no acolhimento do dom da salvação, não se faz no reverso do que ela mesma significa, do que ela mesma é enquanto dom de vida.
E depois não podemos esquecer que a porta estreita, na sua realidade e verdade, na sua concretude e objectividade, nos está apontada, nos foi indicada de uma forma inquestionável na pessoa e na vida de Jesus. “Eu sou a porta e aquele que passar por mim será salvo” disse ele. A porta é a sua humanidade, o seu exemplo de vida, a sua entrega amorosa, a sua divindade escondida na nossa figura humana para que fosse possível vencer o último inimigo que é a morte.
Não é fácil, Jesus experimentou-o e avisou-nos disso, mas à semelhança do seu exemplo e do que experimentou também nos disse que na medida em que nos entregarmos nas mãos de Deus, “Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito”, assim seremos mais ou menos capazes de passar a porta. Ou melhor, de ser passados pela porta.

3 comentários:

  1. Frei José Carlos,

    Ao partilhar connosco este belo texto, tendo presente as palavras de Jesus “esforçai-vos por entrar pela porta estreita (Lc, 13-24) vem recordar-nos, sem escamotear a realidade, quão difícil é a salvação, que a mesma pressupõe que exista vontade, disponibilidade, receptividade, e o reconhecimento da sua necessidade. E lembra-nos algo ainda mais importante que ...” a salvação é assim uma realidade que não está nas nossas mãos, nos ultrapassa porque está nas mãos de Deus,… que “é Deus que nos salva através da nossa disposição, abertura e acolhimento a esse dom que nos faz.”…
    Salienta-nos igualmente que para esperar uma salvação é necessária vivê-la no nosso quotidiano, revelando-a através de “gestos e palavras que a concretizam”. E neste convite à “conversão diária” está implícita a passagem pela porta estreita de que fala Jesus que …”se traduz numa ascese de vida, numa disciplina, num conjunto de limites que reconhecemos e vivemos porque enquadram interiormente a concretização do acolhimento que fazemos do dom da salvação.”…
    Jesus ao dizer …“Eu sou a porta e aquele que passar por mim será salvo”… exorta-nos a seguir e a meditar no seu exemplo de vida e na sua entrega para nos salvar.
    E o Frei José Carlos diz-nos com palavras belas e de grande profundidade espiritual …”A porta é a sua humanidade, o seu exemplo de vida, a sua entrega amorosa, a sua divindade escondida na nossa figura humana para que fosse possível vencer o último inimigo que é a morte.”
    Obrigada Frei José Carlos, por esta importante partilha que nos exorta a seguir o exemplo de Jesus. Bem haja.
    Um abraço fraterno
    MJS

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  2. Bom dia Frei José Carlos,
    Que o nosso dia seja uma entrega do nosso espírito ao Pai, que o Senhor Jesus seja o nosso exemplo de vida, que o Espírito Santo nos ilumine para que saibamos encontrar a passagem pela porta estreita.
    Tenha um santo dia,
    GVA

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  3. Esse entrar pela porta estreita ,quer dizer nada mais nada menos que nascer de novo, na converssa com Nicodemos JESUS foi bem enfático,nada adianta ser mero religioso estar todo dia na igreja, e não ser nascido de novo

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