domingo, 9 de dezembro de 2012

Homilia II Domingo do Advento

Neste segundo domingo do Advento, e como acontece todos os anos, encontramo-nos com a figura de João Baptista e confrontamo-nos com a sua pregação. Uma vez mais somos convidados a preparar o caminho do Senhor, a endireitar as veredas e a aplanar os montes para que toda a criatura veja a salvação de Deus.
Este convite e esta tarefa ganham contudo um outro significado e uma outra dimensão se tivermos presente o que São Paulo escreve aos cristãos da comunidade de Filipos, palavras redigidas aquando da prisão do apóstolo em Éfeso.
Neste sentido, não podemos deixar de ter presente a confiança a que São Paulo convida os filipenses, uma confiança que radica no facto de Deus ter começado uma obra boa em cada um deles e na comunidade.
De facto, muitas vezes esquecemos este pormenor fundamental e caímos na tentação de que tudo está na nossa mão, somos tentados a pensar que a perfeição e a santificação são obra nossa, esquecendo-nos que quem verdadeiramente nos aperfeiçoa e santifica é Deus pela sua graça em nós.
Deus já começou a sua obra em nós, não só pelo baptismo que recebemos mas igualmente pelo facto de nos ter criado, de nos ter dado a vida. Somos já obra das suas mãos e por isso devemos viver confiantes de que Deus não a deixará abandonada nem por completar.
Contudo, tal obra de Deus, tal acção em nós, não nos desvincula da obrigação de colocarmos o que nos compete, de realizar a tarefa que está na nossa mão, e que mais não é que prepararmos o nosso coração para a acção mesma de Deus, é abrir-nos à acção de Deus, é acolher Deus que vem ao nosso encontro.
Somos assim convidados e à luz das palavras da pregação de João Baptista a endireitar as nossas veredas, a aplanar os nossos montes, a procurar viver libertos daquelas realidades intrínsecas ou extrínsecas a nós mesmos que impedem ou dificultam a plena acção de Deus, o processo de santificação e perfeição.
São Paulo na carta aos Filipenses aponta-lhes como instrumento para esta libertação que somos convidados a realizar o crescimento da caridade em ciência e discernimento, para que se possa distinguir o que é melhor e nos tornemos puros e irrepreensíveis.
Necessitamos por isso, no nosso processo de conversão, de partir da confiança de Deus em nós e do amor que nos é natural e intrínseco, centelha da vida divina em nós.
Como todos sabemos, aquilo que é objecto de amor é mais cuidado, recebe maior atenção e protecção, e na nossa vida de fé tais atitudes devem estar presentes não só na nossa relação com Deus mas também com aqueles com quem vivemos.
Porque não aplanar o nosso egoísmo, o nosso egocentrismo, a nossa avidez de consumo ou poder, amando aquilo que de facto nos pode realizar e levar à plenitude da perfeição e da vida que em nós já foi começada.
Porque não procuramos verdadeiramente o amor de Deus e o amor dos irmãos, a prossecução da vontade de Deus quando sabemos que isso é garante de uma felicidade?
Tarefas exigentes e para as quais necessitamos, como São Paulo nos recorda, da ciência e do discernimento, de um exercício diário de ajustamento ao bem, à verdade e à justiça a partir do amor a que Deus nos convida a todos.
Deus vem ao nosso encontro, vem completar a obra que iniciou em nós, obra para a qual deseja e espera a nossa colaboração através do exercício da sabedoria de escolhermos o bem e rejeitarmos o mal para que a sua acção seja mais profícua e completa em nós.
O tempo do Advento, esta preparação para a comemoração do nascimento do nosso Salvador, é mais uma oportunidade de nos reencontrarmos com esta necessidade de discernir, de aferirmos da nossa abertura à acção de Deus que vem ao nosso encontro.
Procuremos pois aproveitá-la, recordando com alegria a parte que Deus já tomou em nós, e apresentando-lhe o que ainda não deixámos que fosse tomado pelo pouco amor que lhe votamos.
 
Ilustração: “A Criação de Adão”, por Michelangelo Buonarroti, Capela Sistina, Vaticano.

 

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