segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Votos de Bom Ano de 2013

 
Ao aproximar-se a entrada do ano de 2013 quero desejar a todos os amigos, acompanhantes deste espaço e cibernautas, um Feliz Ano Novo, cheio das bençãos de Deus.
 
Ilustração: Luz de vela na noite de Lisboa.

O que não morre

 
O que não morre é o amor de Deus, é a profunda alegria de pensar que para uma outra alma, e quem sabe para uma multidão de pobres cabeças apoiadas no teu coração, fostes, ainda que perecível e mortal, uma fonte de alegria e de vida eterna.
Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Monumento à Imperatriz Sissi, assassinada nas margens do lago em Genebra.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Os desejos que revelam Deus

 
Deus dá-se a conhecer pelos desejos que ele suscita em nós de O servir, de permanecer na sua presença; mas estes desejos, ordinariamente, não suprimem os outros desejos que tornam o serviço de Deus exigente, pesado e difícil. Os desejos provenientes de Deus andam quase sempre associados a outros desejos menos puros.
Dom Samuel
Ilustração: Túmulo e estátua do Duque de Rohan, chefe dos huguenotes franceses na Catedral de São Pedro em Genebra.

Homilia Festa da Sagrada Família de Jesus Maria e José

Creio que todos nós, ou quase, conhecemos a saga do “Sozinho em Casa”, que praticamente nos últimos anos nos tem sido impingida nesta quadra natalícia por vários canais televisivos. Todos nos recordamos, ou quase, de uma família tão absorvida pelo Natal, pela azáfama dos preparativos e pela necessidade de viajar, que acaba por esquecer o filho mais novo em casa.
Ao lermos no Evangelho de São Lucas o episódio da perda e encontro de Jesus por parte de Maria e de José em Jerusalém, podemos sem querer associar a família de Nazaré a esta família suficientemente louca que encontramos no filme e à perda de um filho por distracção. Face ao que nos conta o Evangelho poderíamos dizer que Maria e José podiam ter tido um pouco mais de cuidado.
Contudo, tal ideia nada tem de relacionável, e não só porque nos confrontamos com duas famílias completamente diferentes, no espaço, no tempo e nas circunstâncias, mas sobretudo porque a perda e encontro de Jesus em Jerusalém é uma metáfora proléptica de uma outra perda e encontro que ocorrerá também em Jerusalém e será objectivamente estruturante para todas as perdas e encontros que encontramos nos Evangelhos.
Neste sentido, e olhando um pouco mais atentamente para o relato e os dados fornecidos, não podemos deixar de ter presente que o dia de jornada que Maria e José realizam não só os tinha afastado suficientemente de Jerusalém como aproximado bastante da sua terra Nazaré. O descuido de Maria e José é assim bastante grave, quase simétrico ao desespero com que depois procuram Jesus, e por isso pouco plausível.
Por outro lado, não podemos deixar de ter presentes os três dias que levam a encontrar Jesus, três dias que correspondem aos mesmos três dias do sepultamento de Jesus, à mesma circunstância da perda de Jesus por parte dos discípulos e à sua busca e encontro na manhã de Páscoa por Maria Madalena.
De facto, a perda e encontro de Jesus em Jerusalém por parte de Maria e José corresponde num nível familiar, patriarcal, de clã, à mesma perda e encontro do grupo dos discípulos e das suas pretensões e aspirações. Há um sentimento de propriedade, de apropriação do outro, e neste caso de Jesus, que é completamente eliminado e iluminado na nova realidade.
A perda e encontro de Jesus no templo por parte de Maria e José correspondem a essa afirmação dolorosa e provocadora de que o filho devia ocupar-se das coisas do Pai e da casa do Pai. Jesus traça assim a fronteira entre a propriedade da filiação, da obediência que devia a Maria e a José, e da sua natureza divina e missão. Jesus não era propriedade deles nem estava ao serviço das suas pretensões e expectativas.
O mesmo acontecerá mais tarde com os discípulos, onde esta necessidade de eliminar a apropriação será bastante forte e para a qual a paixão e a morte serão o processo mais concreto, mais factível, ainda que igualmente mais doloroso, para o encontro com a desapropriação, com a liberdade e diferença da missão e pessoa de Jesus.
Face a isto, se a perda e encontro de Jesus em Jerusalém eliminam a pretensão e o desejo de apropriação do outro como propriedade em virtude das mais diversas possibilidades de relação, ilumina igualmente o novo tipo de relações que são possíveis a partir da incarnação do Filho de Deus e da filiação divina em que somos integrados.  
Como é possível encontrar em outros acontecimentos narrados pelos Evangelhos, e nomeadamente naqueles que se referem ao louvor da maternidade de Maria, com Jesus as relações, familiares, hierárquicas, sociais, profissionais ou de amizade, devem ser estabelecidas e fundamentadas no cumprimento da vontade do Pai, no cuidado da casa do Pai.
A celebração da Festa da Sagrada Família no âmbito da oitava do Natal é assim um convite à iluminação das nossas diversas relações, nesse sentido de que devem ser uma busca, uma procura, uma atenção ao outro enquanto imagem de Deus e portanto templo do Espirito Santo e habitação do Pai.
Num momento histórico em que em várias partes do mundo se reclama o direito de adopção para alguns grupos específicos, enquanto em outras partes se reclama o direito da decisão sobre a vida do gerado, podemos e devemos questionar-nos se tais reivindicações assentam na atenção ao outro enquanto templos de Deus ou se pelo contrário não são apenas reivindicações de mais uma apropriação, de um desejo do outro, e neste caso de um outro sem poder e indefeso, como meio de satisfação pessoal, mais um bem descartável da nossa sociedade de consumo.
O Evangelho diz-nos que depois do incidente de Jerusalém Jesus regressou com Maria e José a Nazaré, que lhes era obediente e ia crescendo em sabedoria, estatura e graça diante de Deus e dos homens. Que também nós procuremos crescer em sabedoria, estatura e graça diante de Deus, acolhendo a diferença dos nossos irmãos e procurando que a paz de Cristo reine em todos os corações através da caridade libertadora que nos devemos uns aos outros por Jesus Cristo nosso Senhor.
 
Ilustração: “Sagrada Família”, de Cláudio Coelho, Museu de Belas Artes de Budapeste.

 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Mel para debutantes

 
Deus não se encontra no terreno das emoções, porque ele não é material nem sensível. E se coloca à sensibilidade algum atractivo para sustentar a vontade, o amor que daí resulta é menos perfeito. É um pouco de mel para debutantes…
Dom Samuel citando “De Veritate” de São Tomás de Aquino
Ilustração: Interior de Casinha de Bonecas na Exposição de Miniaturas em Genebra.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A experiência inolvidável de Deus

 
Apreciar Deus, tocar Deus, é ser capaz de O captar ao experimentar o que Ele exige, sabendo concretamente dar-se a Ele. Sentimos a sua existência nesse face a face, no que me pede e no que eu lhe respondo. Não é sempre doce nem consolador, mas aquele que deu já alguns passos para se aproximar sabe bem que nada lhe é comparável.
Dom Samuel
Ilustração: Fachada da Catedral de São Pedro em Genebra com a estátua do Profeta Jeremias.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A graça de fazer o bem

 
Deus pode dar gratuitamente à sua criatura a graça de fazer o bem, o qual será a sua coroa eterna, em recompensa dos esforços perseverantes e sem conclusão, ainda que humanamente sejam vãos no seu sentido próprio.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel
Ilustração: Pássaro tomando banho no lago Le Léman em Genebra.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Viver no minuto novo

 
Vivamos plenamente a ocasião nova de viver bem, com Deus, no minuto novo que nasce. Que Deus me guarde de limitar alguma vez a abundância das suas graças por meio de definições à minha medida.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Relógio das Flores no Jardin Anglais em Genebra.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Oração a Jesus neste Natal 2012

Aqui estou, diante de Ti, Senhor,
verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.

Eu creio que Tu estás presente,
e eu tenho necessidade de Ti.

Eu creio que vindo regularmente,
muitas vezes,
Tu me darás precisamente o que me falta,
 
que não é muito claro para mim,
mas é muito claro para ti
e sabes que saciará a minha grande sede.

 
 
Ilustração: “Virgem Maria com o Menino Jesus”, atribuído a Marcantónio Franceschini, Museu de Belas artes de Honolulu.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Votos de Santo Natal

Votos de Santo Natal

 

 
Alegrem-se os céus e exulte a terra
Ressoe o mar e tudo o que ele contém
Exultem os campos e quanto neles existe
Alegrem-se as árvores das florestas
Diante do Senhor que vem.


 
A todos os amigos e a todos os que por este dia passarem por aqui os meus votos de um Santo Natal, votos de uma grande alegria no menino que nasceu, no filho que nos foi dado para nossa salvação.

 
Ilustração: “Virgem com o Menino”, de Cornelius de Baellieur.

O dom de si é a medida

 
O dom de si ao Senhor e a atenção aos outros limitam o egoísmo, reduzem a voracidade, atenuam o medo, colocam cada coisa no seu justo lugar. O que necessitamos, a nossa satisfação, encontra assim a sua medida, sem grandes raciocínios, pois o nosso bem último não depende mais dela.
Dom Samuel

Ilustração: Árvore em tons outonais junto à estufa temperada do Jardim Botânico de Genebra.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Homília IV Domingo do Advento

O quarto domingo do Advento situa-nos no portal frente ao Natal, estamos quase a chegar depois de uma caminhada que este ano de dois mil e doze se fez mais curta, uma vez que celebramos o nascimento de Deus Menino já amanhã à noite.
Neste portal adventício, e enquanto aguardamos vigilantes, gostava de partilhar convosco uma experiência pessoal, alguns acontecimentos do meu dia de ontem e que vão ao encontro do que escutávamos na leitura da Epístola aos Hebreus, “eis-me aqui, eu venho para fazer a tua vontade”, palavras que apesar de tudo nos custam a fazer vida, a dar-lhe corpo.
Sei que uma amiga muito querida não aprovaria esta partilha, esta quase que confissão, e que preferiria que não me expusesse, que não revelasse o que me vai na alma. Contudo, acredito que todas as nossas experiências, até as mais tristes, quando lidas à luz da Palavra de Deus e partilhadas no amor de Deus, podem ajudar-nos mutuamente no caminho da nossa fidelidade ao que Deus nos pede.
Antes da partilha do sucedido alertar-vos para algo que todos sabeis, mas que por vezes nos esquecemos. Os sacerdotes e os consagrados são como vós homens e mulheres em processo, em busca de uma fidelidade que muitas vezes esbarra nas limitações e fragilidades da nossa humanidade e da nossa condição de pecadores. Não somos santos, nem anjos, buscamos como vós, muitas vezes às apalpadelas, a nossa resposta à vontade de Deus.
Mas eis o que passou. Ontem à tarde, e enquanto no sossego do meu quarto tentava preparar a homília para esta celebração, fui interrompido nesse trabalho, pois como administrador do convento era necessária a minha presença para a resolução de um problema logístico.
Como era uma questão que me levou algum tempo, à medida que a ia realizando ia deixando crescer no meu coração algum azedume, uma certa revolta, pois tinha a homília para preparar e não havia maneira de me despachar. O que considerava importante estava a ficar para trás face a uma questão de hortaliças.
Contudo, a par da minha revolta e azedume não saía da minha cabeça a letra de um velho cântico religioso, um velho cântico dos encontros vocacionais nos anos oitenta, “são muitos os convidados, quase ninguém tem tempo, se ouvires a voz do vento, querendo-te enganar, a decisão é tua”.
Ao final do dia, diante da imagem do Menino Jesus, à luz de uma vela e fazendo o meu exame de consciência para agradecer a Deus o vivido e pedir perdão do que não tinha vivido segundo a sua vontade, deparei-me novamente com este cântico e os meus sentimentos de azedume e revolta.
Naquele momento de oração, o Espirito Santo revelava-me o que afinal me tinha tentado dizer quando, no meio da tarefa que me aborrecia, o cântico surgiu na minha memória. De facto, são muitos os convidados mas poucos têm tempo e poucos assumem a decisão do serviço. O vento das coisas que consideramos importantes distrai-nos do que o Senhor nos convida a viver segundo a sua vontade aqui e agora.
Temos vindo a caminhar neste Advento para celebrar a Incarnação do Filho de Deus, o assumir de um corpo para nos resgatar da nossa condição mortal, o nascimento do Menino Jesus, e contudo nunca mais nos habitamos a assumir a incarnação no nosso dia-a-dia, nas nossas tarefas mais humildes, descobrindo como aí se cumpre a vontade de Deus, de como aí assumimos o nosso sim a Deus, tal como Maria o assumiu face ao anjo e ao anúncio de um filho fruto da graça de Deus.
O episódio da visitação de Maria a sua prima Isabel, depois de saber que ela esperava também um filho, como nos conta o Evangelista São Lucas que acabámos de ler, devia ser para nós um incentivo mais desta necessidade de incarnação humilde, de um serviço aos outros sem qualquer expectativa de recompensa ou elogio.
A nossa fé, o saber-se amados por Deus, chamados a servi-lo na incarnação actual do seu amor e do seu projecto salvador, devia levar-nos apressadamente para fora de nós, como levou Maria para fora de sua casa e do seu conforto, devia fazer-nos subir as montanhas das dificuldades e das diferenças do que se nos apresenta como tarefa ou trabalho a realizar.
Ao encontrar Isabel, Maria é elogiada pela sua prima como feliz por ter acreditado no cumprimento de tudo o que lhe tinha sido dito da parte do Senhor. Também nós nos devíamos colocar nesta sintonia, abraçar esta confiança e esta fé de que, o que o Senhor nos pede, é a sua vontade e portanto na medida do acreditado e vivido nos conduz à bem-aventurança, à felicidade porque aspiramos.
Que o Senhor nos ilumine e vá colocando no nosso coração e na nossa consciência essas pequenas palavras, essas músicas, ou imagens, que nos despertam para o cumprimento da sua vontade, para a aceitação da sua vontade nas nossas consideradas insignificâncias.
O Natal é tempo de paz, tempo do Príncipe da Paz, que ela habite os nossos corações e nos faça apreciar com verdadeira alegria e amor todas as realidades.
 
Ilustração:
1 – “Eremita rezando nas ruinas de um templo romano”, de Hubert Robert, Museu J. Paul Getty, Los Angeles.
2 – “Visitação”, de Mariotto Albertinelli, Galeria dos Uffizi, Florença.
 

A experiência do poder de Deus

 
Nenhum cristão duvida que Deus é Todo-Poderoso. Sabê-lo é precioso, mas demasiado curto para dissipar as nossas inquietações. Quantos são aqueles que experimentam o seu amor concretamente para que ele os sustenha?
Dom Samuel

Ilustração: Crucifixo da Basílica Notre Dame de Genebra.

sábado, 22 de dezembro de 2012

A minha alma glorifica o Senhor (Lc 1,46)

Em cada tarde, quando a Igreja reza as Vésperas, as palavras do cântico de louvor de Maria ressoam novamente na boca do homem.
Desde tempos imemoriais, à hora em que o sol se recolhe ao outro lado do mundo, o cântico de Maria eleva-se dos nossos lábios e dos nossos corações, num louvor unânime à obra de Deus para com os homens.
À porta da celebração do Natal eis que o Evangelho do dia nos apresenta e faz novamente cantar o cântico de louvor da Virgem Maria, confrontando-nos com uma repetição que vamos realizando todos os dias para que estas mesmas palavras da Virgem se façam vida na nossa vida.
Por elas, e à semelhança da Virgem Maria, o Senhor vai-nos preparando um coração de servo, de alguém que se encontra em missão, de homens e mulheres que sabem exaltar e rejubilar de alegria face às obras maravilhosas do seu Criador e Senhor.
O Magnificat vai-nos assim preparando cada dia e em cada ano para a celebração do Natal, vai aquecendo as nossas cordas vocais para na noite mais bela do ano podermos cantar com os anjos “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens”.
O Magnificat, cântico de louvor da Virgem Maria pelas obras que o Senhor realizou e realiza, coloca-nos em sintonia com o nascimento do Menino Deus, vai-nos unindo à obra salvadora de Deus, num uníssono que une o céu e a terra.
Procuremos neste final de tarde cantar o Magnificat unindo-nos a todos os homens e mulheres que o cantam louvando a Deus, e àqueles que, ainda não o cantando, o vivem no sofrimento da carne e na humildade do serviço que prestam.
Que a nossa alma glorifique o Senhor por todas as obras de amor e humildade.
 
Ilustração: “Visitação”, de Franz Anton Maulbertsch. Detalhe do fresco na Catedral de Vac Hungria.

É Deus que vem

 
Na oração é Deus quem age, é Deus que se dá, que vem habitar em nós, que nos alimenta na Eucaristia. É sempre Deus que vem ao nosso encontro.
Dom Samuel

Ilustração: Símbolos eucarísticos do Sacrário da Basílica de Notre Dame de Genebra.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Maria dirigiu-se apressadamente para casa de Zacarias ( Lc 1,39)

A narração da visita da Virgem Maria a sua prima Isabel é marcada pelo ritmo que a mesma Virgem Maria toma depois do anúncio do Anjo Gabriel. Tudo se passa demasiado depressa.
O ritmo de Maria não é no entanto exclusivo, porque parece que toda a natureza se enche da mesma alegria e da mesma pressa, é como se o tempo urgisse, se algo estivesse eminente.
E assim descobrimos que a pressa de Maria é acompanhada pela pressa de João no seio de sua mãe Isabel, ele exulta, salta de alegria face à visita daquela que transporta em si o Senhor, parecendo querer fazer-se voz que brada no deserto já ali.
Em virtude da alegria e da pressa de João também Isabel exulta, se enche de pressa para ir ao encontro daquela que é digna de toda a reverência, acolhendo-a em sua casa com o maior louvor à bendita entre todas as mulheres, “Bem-Aventurada aquela que acreditou”.
Na azáfama da preparação do Natal, em que percorremos apressadamente as estantes das lojas para uma última prenda que nos falta, podemos perguntar-nos como essa pressa é fruto de uma alegria e de uma novidade que revolucionou a nossa vida.
Na ansiedade de nos despacharmos, podemos perguntar em que medida as nossas andanças são encontro, são visita ao outro para que também ele exulte e se apresse na preparação do acolhimento do Senhor que vem.
Ainda nos faltam uns dias até à noite de Natal e um fim-de-semana que será certamente de muitas pressas, de alguma tensão, pois procuramos ainda mais alguma coisa, falta-nos ainda qualquer coisa.
Nestas andanças, como muito poderia ser diferente se assumisse-mos uma atitude diferente, uma atitude de alegria e compreensão, uma postura de fazer feliz aquele outro que se cruza connosco.
Um sorriso, uma palavra de simpatia, uma música de Natal que trauteamos enquanto percorremos os corredores de prateleiras e que inevitavelmente nos coloca em outra sintonia, numa onda diferente, com um rosto mais alegre e um coração mais aberto.
O Natal pode ser diferente, pequenos gestos e atitudes podem mudar o rumo, e cada um de nós pode fazer isso.
 
Ilustração: “A Visitação”, de Jerónimo Ezquerra, Museu Carmen Thyssen, Málaga.

Viver com o outro

 
Aprende-se a viver em relação com os outros interessando-se por eles mas sem depender deles, numa forma de amizade que é um dom e não uma possessão.
Dom Samuel

Ilustração: Monumento à união do Cantão de Genebra à Confederação Suíça em Genebra.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Gabriel entrou no lugar onde Maria estava (Lc 1,28)

O primeiro capítulo do Evangelho de São Lucas apresenta-nos as histórias e a acção de Deus nos momentos que precederam o nascimento de João Baptista e de Jesus.
Nele podemos acompanhar dois anúncios diferentes, duas visitas do Anjo Gabriel a personagens distintas, as quais pelas missões a que estão destinadas se envolvem de forma diferente nessas mesmas visitas.
Assim, não podemos deixar de observar que enquanto Zacarias entra no templo e ali se encontra com o anjo do Senhor, no caso de Maria é Gabriel que invade a casa daquela a quem é enviado. As circunstâncias do encontro e do anúncio são diferentes, como o espaço físico em que decorrem, e as consequências também são igualmente diferentes, pois Zacarias sai mudo do interior do templo enquanto Maria sai cantando para casa de sua prima Isabel.
Estas diferenças históricas e redaccionais evidenciam a distância que separa Zacarias de Maria, ou melhor, evidenciam a distância nos processos de aproximação a Deus, da possibilidade da revelação de Deus.
Assim, no caso de Zacarias, encontramos uma dimensão e um processo humano, uma entrada no templo para um ritual, que pela sua mesma prática e rotina possibilitaram a inviabilidade do acolhimento da oferta de Deus.
Quase poderíamos dizer que em Zacarias nos encontramos todos nós quando nos abeiramos de Deus com os nossos rituais, encerrados nas nossas capacidades, limitados pela nossa condição de religiosos, no sentido mais profundo da palavra quando se refere àqueles que se ligam a algo ou alguém.
Zacarias tinha sonhado um filho, tinha-o desejado, certamente tinha pedido a Deus um descendente, a libertação do opróbrio da infertilidade, mas no momento de uma resposta da parte de Deus, a sua experiência do divino não o deixou acolher a oferta de Deus, a surpresa para além de todo o conhecido.
Maria, inversamente é alguém que não esperou um filho, ainda nem sequer teve tempo para isso, e por outro lado desde há muito tempo que aspira a uma virgindade, que se consagrou ao Senhor na intimidade da sua vida concebida sem pecado.
A entrada do anjo Gabriel em sua casa, no seu espaço, apresenta-se assim como uma reviravolta dos seus planos e propósitos, como um verdadeiro encontro, pois é Deus que vem até ela, que se apresenta surpreendentemente com uma proposta.
Neste sentido, a entrada do Anjo Gabriel em casa de Maria é uma imagem do mistério de Incarnação do Filho de Deus, do mistério de salvação, pois é Deus que vem ao encontro do homem, é Deus que se oferece sem esquemas e sem condições de prova.
Também hoje Deus continua a vir e continua a oferecer-se sem exigências condicionais, e no seu amor espera que não nos deixemos bloquear ou cegar pelos nossos próprios esquemas e rituais de ligação e relação com o divino.
Deus continua a fazer-se presente pela surpresa, pelo inusitado como uma criança deitada numa manjedoura, que no frio da noite e face à recusa de hospedagem oferece os seus braços a todos os que o quiserem acolher. Desejemos e procuremos acolhê-lo nos nossos braços e levá-lo connosco.
 
Ilustração: “Anunciação do Anjo Gabriel e Maria”, de Vladimir Borovikovsky, Museu Estatal Russo, São Petersburgo.

O nosso papel parcial

 
Nós não temos mais que um papel parcial. Como acontece para todos, o nosso papel é parcial e tem as suas exigências e os seus limites.
Dom Samuel

Ilustração: Peças do xadrez do jardim Promenade des Bastions em Genebra.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Tu vais ficar sem poder falar (Lc 1,20)

A história de Isabel e Zacarias que o Evangelho de São Lucas hoje nos apresenta é uma história bem conhecida da tradição bíblica, pois encontramos vários casais que sofreram de esterilidade e foram visitados e abençoados por Deus nesse seu sofrimento pela graça de um filho, de um descendente.
Temos a história de Abraão e Sara, de Isaac e Rebeca, de Jacob e Raquel, os membros das primeiras gerações da linhagem da promessa de Deus, como se fosse absolutamente necessário vincar o dom de Deus, a paternidade divina e a absoluta pobreza do homem que nem sequer é capaz de ter uma descendência sem a acção de Deus.
A história de Zacarias e Isabel é no entanto marcada por um acontecimento paradoxal, uma circunstância que uma vez mais mostra a disparidade do poder do homem e da acção de Deus, pois o pai daquele que é a voz que clama no deserto é impossibilitado de falar, Zacarias é silenciado pelo anjo que lhe anuncia o nascimento de um descendente.
Este paradoxo é no entanto a metáfora de uma profecia, de uma realidade humana e divina que Zacarias experimenta de modo total na sua própria carne, ou seja, a palavra necessita do silêncio para nascer, a Palavra de Deus gera-se no silêncio.
Experimentamos assim desta forma e pelo mutismo de Zacarias que a Palavra de Deus, que a sua força, o seu poder, a sua densidade se encontra nos antípodas do barulho, da discussão e da algazarra. A Palavra de Deus gera-se no silêncio, nasce no silêncio.
E esta realidade, esta circunstância é de tal modo importante e significativa que ao aproximar-se o Natal nos confrontamos com a Incarnação do Verbo de Deus, somos colocados diante do nascimento do Menino, de um “infans”, que em latim tanto significa menino como aquele que não fala.
Na carne que Deus assume da nossa humanidade revela-se assim a sua Palavra, mas revela-se através de um silêncio infantil, prenhe de vitalidade, que é necessário escutar, ver, habitar, amar, para que se faça audível e se ouça.
Do silêncio de Zacarias nascerá a voz que clama no deserto, do silêncio de Deus feito menino nascerá a nossa salvação, do nosso silêncio na contemplação destes mistérios nascerá a voz de Deus em nós. Procuremos pois silenciar-nos para escutar o amor que nos canta.
 
Ilustração: “Virgem Maria com o Menino Jesus e São João”, de Gerhard Wilhelm von Reutern, Museu Estatal Russo, São Petersburgo.   

Aceitar a vocação a que Deus me chama

 
Se Deus quis colocar-me à parte aceito a minha vocação, mesmo que ela seja para mim obscuridade, esforços infatigáveis, jugo incompreensível, peso que me custa a levar.
Dom Samuel

Ilustração: Estátua do Profeta Jeremias junto à Catedral de São Pedro de Genebra.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

José filho de David (Mt 1,20)

A narração do nascimento de Jesus segundo o Evangelho de São Mateus coloca diante de nós a figura de José, do esposo de Maria, e do dilema que é obrigado a atravessar por causa de Maria se encontrar à espera de um filho que não é seu.
Como solução para este problema José engendra no seu coração a mentira de uma vida dupla, o repúdio daquela que ama, mas que não pode ser público para não difamar Maria e porque, como nos diz o Evangelista, José era justo.
Frequentemente lê-se este dilema e a solução encontrada por José num parâmetro social e jurídico, pois sabemos que de acordo com a lei de Moisés toda a mulher apanhada em adultério deveria ser castigada até à morte por apedrejamento.
Contudo, esta leitura deixa de parte a riqueza histórica e da revelação de Deus que deriva da genealogia que precede imediatamente a narração do nascimento, e que encontra o seu eco mais perfeito no facto de José ser apresentado como justo.
Neste sentido, o dilema de José não se prende com questões sociais e com a pena a que Maria poderia ser sujeita. Tal como outras figuras do Antigo Testamento José vê-se diante do mistério de Deus, diante de um Deus que se lhe apresenta num filho, e para o qual José não se considera digno.
Não é por isso estranho que quando o anjo lhe aparece, para o confrontar com a sua solução, o apelide de “filho de David”. De facto, e tal como David, José tem medo de acolher a nova arca da Aliança, de a trazer para dentro da Jerusalém que é a sua vida e o seu coração. José não se considera digno de tal participação no mistério salvador de Deus, tal como David também não se tinha sentido digno diante da arca da Aliança.
A anunciação do anjo a José é assim um convite ao acolhimento do mistério de Deus, à participação na história divina apesar da condição pecadora, da indignidade que cada um pode sentir. A confiança na acção misteriosa de Deus é a possibilidade da doação de um nome, de uma paternidade que não tem nada de carnal nem genético.
Ao caminhar em direcção ao Natal somo assim convidados a libertar-nos do medo de Deus, do mistério de Deus, a aceitar participar na sua acção salvadora juntos dos homens; somos confrontados com as formas com que tantas vezes no aproximamos de Deus mas que não nos viabilizam a relação por causa desse medo, por essa consciência de indignidade.
Deus que vem ao nosso encontro sabe de que somos formados, e ao assumir a nossa carne assumiu também a nossa indignidade, a superação da nossa indignidade pela sua imensa dignidade e amor, o que objectivamente nos liberta para um outro tipo de relação e de fé mais confiante e mais adulta.
 
Ilustração: “São José com o Menino Jesus”, de Juan António Frias y Escalante, Museu Hermitage, São Petersburgo.

Aceitar a preciosidade

 
Religiosos ou leigos aceito que ao meu lado há gente mais santa que eu, sem duvidar contudo que a minha vida é preciosa aos olhos de Deus. Aceito o meu destino, as minhas infidelidades, as minhas perdas, o que elas fizeram de mim e daqueles que feri.
Dom Samuel

Ilustração: Ramo de Rosas Amarelas de florista em Genebra.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Genealogia de Jesus Cristo (Mt 1,1)

O Natal aproxima-se a passos largos e uma semana apenas nos separa da comemoração do nascimento do Filho de Deus entre os homens.
Como uma espécie de pórtico do que vamos celebrar e viver, a Liturgia da Palavra deste primeiro dia da semana preparatória apresenta-nos a genealogia com que São Mateus dá início ao seu Evangelho.
Uma sucessão de nomes e filiações entrecortadas por gerações e acontecimentos trágicos, como o pecado de David quando desejou a mulher de Urias e a deportação para a Babilónia, pela inserção de quatro nomes de mulheres históricas que colocam a realidade da estrangeira na sucessão patriarcal.
Nesta genealogia não podemos contudo deixar de passar em branco as duas figuras masculinas que iniciam e terminam a linhagem, Abraão e José, esposo de Maria. Quarenta e duas gerações os separam, mas unem-se no mesmo mistério face aos filhos que têm.
Abraão concebe um filho que lhe foi prometido por Deus, um filho único e muito amado, mas que terá que apresentar ao Senhor para ser sacrificado. Liberto da morte, Isaac é o continuador da geração, mas situa-se já em outra órbita, em outro plano. Depois do momento do sacrifício Isaac já não é mais um filho de Abraão, mas uma propriedade de Deus entregue a Abraão. A paternidade é assim divina, é uma oferta de Deus.
José, esposo de Maria, vai encontrar-se com a mesma radicalidade da paternidade, e assim, não tendo concebido nenhum filho, vê-se convidado a aceitar o Filho de Deus, o dom que Deus lhe faz de uma geração de que não é nem pode ser progenitor.
A genealogia que São Mateus elabora, entre muitas outras realidades ligadas à história da salvação, está objectivamente constituída no sentido de mostrar que é Deus que age, que é Deus que é Pai e aos homens cabe aceitar essa paternidade, a oferta de vida que Deus faz.
Ao prepararmos o Natal, a celebração do nascimento do Filho de Deus, somos através desta genealogia convidados a reconhecer o dom de Deus, a reconhecer a necessidade da abdicação da nossa “paternidade”, do nosso espirito de propriedade, para podermos acolher o Filho que o Pai nos entrega em cuidado.
 
Ilustração: “O sacrifício de Isaac”, de David Teniers o Jovem, Kunsthistorisches Museum.

Cada dia é uma oferta

 
Eu sei que cada aurora é uma oferta para reconstruir sobre as fundações e sobre as ruínas do passado.
Dom Samuel

Ilustração: Neblina sobre a Serra da Estrela

domingo, 16 de dezembro de 2012

Homilia III Domingo do Advento

As leituras que escutámos do profeta Sofonias e do Apóstolo São Paulo convidam-nos à alegria, a alegrarmo-nos pelo Senhor que está próximo de nós como diz São Paulo ou no meio de nós como diz Sofonias.
Este convite do profeta e do apóstolo é um convite que, como vemos, parte da presença de Deus, de um Deus que é próximo e se faz presente, e de que o mistério da Incarnação do Filho é o grande testemunho, a grande prova.
Inevitavelmente, este mistério e esta presença não deixam de provocar consequências na história dos homens e na nossa própria vida, razão para nos determos um pouco nos modos da presença de Deus entre nós, pois podemos cair numa ideia de um Deus distante, um Deus que habita nos céus ou que incarnou há dois mil anos e portanto igualmente se mantém distante.
Neste sentido, e como que de forma paradigmática, não podemos passar ao lado da oração, das nossas tentativas de diálogo com Deus e que habitualmente esbarram com um muro de silêncio. Parece que Deus está ausente e distante e uma parede nos separa dele.
Contudo, quando nos damos à oração, quando permanecemos apesar do silêncio, que é a mesma resposta de Deus, descobrimos como Deus está presente, como o nosso coração se alegra e se fortalece com essa presença desapercebida pelos sentidos mas sentida pelo coração.
Também no nosso dia-a-dia e nas mais diversas circunstâncias corremos o mesmo risco de silêncio e a mesma possibilidade de encontro com a presença de Deus, que não acontece certamente mais frequentemente porque buscamos de uma forma palpável aquilo que só se pode encontrar pela revelação, por um toque ao de leve, um sussurrar de brisa.
Deus está presente, está junto de nós e no meio de nós, mas apenas o podemos notar na medida em que estamos atentos às insinuações da sua presença, aos pequenos sinais que nos revelam a sua presença e a sua acção, como são a alegria ou a satisfação de termos feito algo bem, da palavra correcta que proferimos.
Quando João Baptista pregava no deserto junto ao Jordão, aqueles que se aproximavam dele perguntavam o que deviam fazer, e tal como eles também nós perguntamos muitas vezes como devemos fazer, ou o que devemos fazer para que a presença de Deus se nos torne mais visível e mais visível aos olhos do mundo.
João Baptista responde a esta questão de uma forma muito pragmática, colocando em evidência o quotidiano e a possibilidade de revelação e encontro com Deus nessa mesma circunstância. Deus está na cozinha, presente entre os tachos e as panelas, usando uma expressão de uma conferência do Padre Tolentino Mendonça.
De facto, Deus está no meio de nós nas nossas actividades, nos nossos processos quotidianos e por isso tanto para os publicanos como para os soldados a resposta de João Baptista ao que fazer não é outra que o habitual, o que estrutura e fundamenta o nosso ser, o que está prescrito e o que nos corresponde.
São as nossas actividades diárias realizadas com justiça, com verdade, nas suas limitações, com satisfação e sem qualquer violência que podem conduzir ao encontro com a presença de Deus, à sua revelação no meio de nós.
Por outro lado, São João deixa também outra pista, outra possibilidade de encontro, através da partilha do que possuímos, da caridade que podemos e devemos ter uns para com os outros. E esta caridade e partilha não se reduzem ao material, à capa ou ao pão que podemos partilhar com aqueles que não têm, mas diz respeito também ao tempo que podemos colocar ao serviço do próximo necessitado.
Uma passagem no dia de ontem pelas urgências do Hospital de Santa Maria de Lisboa mostrou-me uma vez mais como uma palavra amiga, um pouco de tempo, o acompanhar alguém pode ser de facto um momento de partilha extremamente forte e um encontro objectivo com Deus através do outro.
E tudo isto, conscientes de que, como João Baptista, não somos dignos, que somos meros instrumentos, e para realizar qualquer coisa que realizemos necessitamos de ser fortalecidos por aquele que é mais forte que nós, que tem o poder do fogo para nos purificar como o ouro no crisol e nos iluminar como uma tocha na noite.
Nesta caminhada para o Natal, imagem do advento que vivemos toda a vida enquanto aguardamos o encontro com Deus face a face, somos neste terceiro domingo convidados à alegria, a esse dom que deriva da confiança de que Deus está connosco e vem sempre ao nosso encontro nos nossos mais diversos caminhos.
Procuremos pois viver alegremente, confiantes, tranquilos, possibilitando nos nossos mais pequenos afazeres o sussurrar da presença de Deus, que nos conforta e nos alenta a prosseguir a sua busca e o seu encontro em plenitude.

 
Ilustração: “A alegria dos pais”, de Kirill Vikentevich Lemokh, Museu de Arte de Kaluga.

A nossa missão é salvar

 
Nós estamos neste mundo para salvar os nossos irmãos da morte eterna, nós que sabemos da ressurreição; que a nossa fraqueza não impeça de os socorrer, que o nosso amor cresça e não diminua jamais, tal como o da nossa Mãe Maria.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Aspecto lateral do interior da capela da Igreja da Santíssima Trindade em Genebra.

sábado, 15 de dezembro de 2012

O caminho para Deus

 
Deus faz bem o que faz, e só nele tenho confiança. A via do Amor, o caminho nobre da Cruz, conduz até Ele, tenho a certeza. O “porquê” e o “como” são secundários.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Pássaro nos jardins do Museu Ariana em Genebra.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

A importância de ordem

 
A única coisa que me inquieta é a tua liberdade; não é bom estar sem obrigações concretas, sem ordem. Mas sem dúvida Deus providenciará dentro de pouco.
Carta de Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Estátua em bronze no Jardim La perle du Lac em Genebra.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Caminhos para a alegria e santidade

 
A caridade e a mortificação física são os caminhos da alegria e da santidade. Também eu os pisei antigamente durante algum tempo! Mas o gosto da arte impediu-me de ter esta terrível simplicidade de intenção sem a qual não há amizade íntima com Deus.
Carta de Paul Claudel a Louis Massignon

Ilustração: Grande Hall do Museu Ariana em Genebra.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

O que o amor solicita

 
Quando dareis vós ao Amor Eterno tudo o que de facto ele solicita em vós e por vós?
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Estátua feminina no Jardim La Perle du Lac em Genebra.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Oferta a Deus

 
Quem sou eu não importa, se Deus me permite de lhe oferecer por este testemunho, e de vos testemunhar também, um pouco de todo o reconhecimento que vos devo. Ofereço antecipadamente a Deus o sacrifício pleno de tudo o que ainda possuo.
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Cedro dourado do Jardim Botânico de Genebra.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Tu já preparastes o bem

 
Porque não rezar a Deus suplicando-lhe desta forma: “Tu não me proporias escolher o meu bem, se tu não o tivesses já preparado para me o oferecer, na tua mão. Que seja a tua vontade e não a minha.”
Carta de Louis Massignon a Paul Claudel

Ilustração: Flor da Estufa Quente do Jardim Botânico de Genebra.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Homilia II Domingo do Advento

Neste segundo domingo do Advento, e como acontece todos os anos, encontramo-nos com a figura de João Baptista e confrontamo-nos com a sua pregação. Uma vez mais somos convidados a preparar o caminho do Senhor, a endireitar as veredas e a aplanar os montes para que toda a criatura veja a salvação de Deus.
Este convite e esta tarefa ganham contudo um outro significado e uma outra dimensão se tivermos presente o que São Paulo escreve aos cristãos da comunidade de Filipos, palavras redigidas aquando da prisão do apóstolo em Éfeso.
Neste sentido, não podemos deixar de ter presente a confiança a que São Paulo convida os filipenses, uma confiança que radica no facto de Deus ter começado uma obra boa em cada um deles e na comunidade.
De facto, muitas vezes esquecemos este pormenor fundamental e caímos na tentação de que tudo está na nossa mão, somos tentados a pensar que a perfeição e a santificação são obra nossa, esquecendo-nos que quem verdadeiramente nos aperfeiçoa e santifica é Deus pela sua graça em nós.
Deus já começou a sua obra em nós, não só pelo baptismo que recebemos mas igualmente pelo facto de nos ter criado, de nos ter dado a vida. Somos já obra das suas mãos e por isso devemos viver confiantes de que Deus não a deixará abandonada nem por completar.
Contudo, tal obra de Deus, tal acção em nós, não nos desvincula da obrigação de colocarmos o que nos compete, de realizar a tarefa que está na nossa mão, e que mais não é que prepararmos o nosso coração para a acção mesma de Deus, é abrir-nos à acção de Deus, é acolher Deus que vem ao nosso encontro.
Somos assim convidados e à luz das palavras da pregação de João Baptista a endireitar as nossas veredas, a aplanar os nossos montes, a procurar viver libertos daquelas realidades intrínsecas ou extrínsecas a nós mesmos que impedem ou dificultam a plena acção de Deus, o processo de santificação e perfeição.
São Paulo na carta aos Filipenses aponta-lhes como instrumento para esta libertação que somos convidados a realizar o crescimento da caridade em ciência e discernimento, para que se possa distinguir o que é melhor e nos tornemos puros e irrepreensíveis.
Necessitamos por isso, no nosso processo de conversão, de partir da confiança de Deus em nós e do amor que nos é natural e intrínseco, centelha da vida divina em nós.
Como todos sabemos, aquilo que é objecto de amor é mais cuidado, recebe maior atenção e protecção, e na nossa vida de fé tais atitudes devem estar presentes não só na nossa relação com Deus mas também com aqueles com quem vivemos.
Porque não aplanar o nosso egoísmo, o nosso egocentrismo, a nossa avidez de consumo ou poder, amando aquilo que de facto nos pode realizar e levar à plenitude da perfeição e da vida que em nós já foi começada.
Porque não procuramos verdadeiramente o amor de Deus e o amor dos irmãos, a prossecução da vontade de Deus quando sabemos que isso é garante de uma felicidade?
Tarefas exigentes e para as quais necessitamos, como São Paulo nos recorda, da ciência e do discernimento, de um exercício diário de ajustamento ao bem, à verdade e à justiça a partir do amor a que Deus nos convida a todos.
Deus vem ao nosso encontro, vem completar a obra que iniciou em nós, obra para a qual deseja e espera a nossa colaboração através do exercício da sabedoria de escolhermos o bem e rejeitarmos o mal para que a sua acção seja mais profícua e completa em nós.
O tempo do Advento, esta preparação para a comemoração do nascimento do nosso Salvador, é mais uma oportunidade de nos reencontrarmos com esta necessidade de discernir, de aferirmos da nossa abertura à acção de Deus que vem ao nosso encontro.
Procuremos pois aproveitá-la, recordando com alegria a parte que Deus já tomou em nós, e apresentando-lhe o que ainda não deixámos que fosse tomado pelo pouco amor que lhe votamos.
 
Ilustração: “A Criação de Adão”, por Michelangelo Buonarroti, Capela Sistina, Vaticano.