Depois do incidente
com a mulher apanhada em adultério encontramo-nos no auge da polémica de Jesus
com as autoridades religiosas do templo e da cidade de Jerusalém.
Face às suas palavras
e aos seus gestos, como a cura do cego de nascença, alguns começam a
questionar-se sobre este homem, este profeta que desafia as autoridades, que
tem uma palavra que cativa e transforma.
Alguns começam mesmo a
acreditar nele e regressam de alguma forma diferentes, como os guardas do
templo que não foram capazes de o prender por causa das palavras com autoridade
como nunca tinham escutado.
Outros no entanto
radicalizam as discussões e as questões, e ainda que tendo aderido ao grupo de discípulos
ficam profundamente incomodados quando Jesus os confronta com a necessidade de acreditar
nele de maneira a modificarem as suas vidas.
Há a necessidade de
permanecer na sua palavra, de não ficar apenas na satisfação do momento e do
simpático, porque só através dessa permanência a palavra poderá operar uma verdadeira
libertação, uma alteração da vida.
É face a esta
liberdade, à libertação que se oferece, que alguns dos que tinham aderido a
Jesus se revoltam e questionam e colocam em causa as suas palavras, pois afinal
eles eram descendentes de Abraão e não se sentiam escravos necessitados de
libertação.
Num desafio sem igual,
Jesus confronta estes homens, que se consideravam livres, com a necessidade das
obras de Abraão, de agirem como Abraão tinham agido, pois só dessas forma se
poderiam considerar verdadeiramente livres.
Jesus recorre ao mais
fundamental, ao elemento mais profundo da identidade do povo, a fé de Abraão, a
sua resposta e adesão a uma proposta da parte de Deus completamente insuspeita,
completamente nova e radical.
Afinal Abraão é
convidado por Deus a deixar a sua terra, a sua família, o que conhece e lhe dá segurança,
para partir para uma terra que desconhece e para uma promessa de descendência que
pode não vir a acontecer.
Abraão acreditou na
palavra e na promessa de Deus e afinal é isso que Jesus espera e pede àqueles
homens, que acreditem na sua palavra, que confiem, que tenham fé, ainda que
isso implique igualmente abandonar as seguranças do conhecido.
Permanecer na palavra,
que não é um lugar físico como uma casa ou um oásis no meio do deserto, é
afinal permanecer no dinamismo da fé, na aventura de quem arrisca confiante, é
permanecer na fecundidade da promessa que é feita por quem não pode mentir nem
se pode enganar.
Num mundo em que
tantas ofertas de liberdade se nos apresentam, com as contrapartidas que todos
conhecemos, Jesus oferece-nos ainda hoje a liberdade, a sua liberdade, uma
liberdade que nasce da verdade de sermos homens chamados à plenitude acolhendo
a condição de ser filhos de Deus.
Ilustração: Jornada de
Abraão de Ur para Canaã, de József Molnár, Galeria Nacional da Hungria.
Frei José Carlos,
ResponderEliminarA liberdade cristã não é um direito hereditário ou adquirido para sempre. É um dom de Deus para todos os que escutam e praticam a Sua palavra. Frequentemente não temos consciência que precisamos libertar-nos. Como nos afirma …” Há a necessidade de permanecer na sua palavra, de não ficar apenas na satisfação do momento e do simpático, porque só através dessa permanência a palavra poderá operar uma verdadeira libertação, uma alteração da vida.”… A liberdade que Jesus nos oferece é difícil de viver e pressupõe de cada um de nós um compromisso permanente. Mas Jesus está connosco atento à transformação de cada um de nós para estender-nos as mãos sempre que é necessário.
Grata, Frei José Carlos, pela partilha da Meditação, profunda, maravilhosamente ilustrada, pela confiança e força que nos transmite, por recordar-nos que …” Jesus oferece-nos ainda hoje a liberdade, a sua liberdade, uma liberdade que nasce da verdade de sermos homens chamados à plenitude acolhendo a condição de ser filhos de Deus”.
Que o Senhor o ilumine, o guarde e abençoe.
Bom descanso.
Um abraço fraterno,
Maria José Silva