domingo, 20 de fevereiro de 2011

Homilia do VII Domingo do Tempo Comum

Concluímos hoje no Evangelho de São Mateus a leitura do Sermão da Montanha e ao fazê-lo deparamos com um dos maiores desafios deixados por Jesus aos seus discípulos. Olhando ao nosso redor, aos valores por que nos regemos, ou habitualmente nos deixamos reger, à forma incólume como convivemos uns com os outros, às formas de injustiça e violência que sustentamos consciente e inconscientemente na construção da sociedade, não é de estranhar que nos sintamos impotentes, desalentados perante tais realidades, e que consideremos que é mais viável cruzar os braços face aos desafios que Jesus nos coloca do que lutar por eles.
Não era mais fácil deixar-nos com o que nos foi dito no passado, olho por olho e dente por dente? Não era uma relação de forças mais equilibrada, equivalente? Não estava tudo tão bem ordenado? Sabíamos quais eram os nossos direitos e também os nossos deveres face à violação desses mesmos direitos, pagávamos na mesma moeda, nem mais nem menos. E tudo ficava resolvido.
Aliás essa lei, esse equilíbrio, era já uma evolução, um sinal de equilíbrio e perfeição, pois já não nos deixávamos levar pelo ódio e pelo desejo de destruir tudo à nossa volta, de destruir tudo o que era do outro, apenas pagava com o mesmo mal o mal provocado. Como se diz “quem a ferros mata a ferros morre”, e tudo ficava resolvido. Ou mais ou menos.
Contudo, e como nos diz Jesus, foi para a perfeição que ele veio habitar entre os homens, para nos revelar a perfeição de Deus, e para nos encaminhar na perfeição através do aperfeiçoamento da lei pela qual nos regíamos e regemos. E por isso a lei da reciprocidade tinha que sofrer uma evolução, tinha que ganhar um outro grau de exigência e radicalidade, não podia continuar num equilíbrio tão frágil e propenso à destruição.
E é essa perfeição que Jesus hoje nos aponta, quando numa série de adágios nos coloca perante a necessidade de nos ultrapassarmos a nós próprios, de lutarmos contra a nossa propensão natural para a violência e a resposta imediata, e de através de gestos e actos inusitados e até incompreensíveis revelarmos a outra face possível da realidade, a face eternamente divina.
Desta forma a primeira proposta de Jesus vai no sentido da recusa da resposta violenta, no sentido da libertação do círculo de violência através da não resistência ao homem mau. Pode contudo parecer uma cobardia, uma fraqueza, uma falsa humildade, até um acto que pode também ele ser tomado como violento, e por isso, para que seja verdadeiramente interruptor do ciclo de violência Jesus convida-nos a desarmar pelo abandono vulnerável, oferecendo também a outra face.
Nesse momento estamos completamente na mão do outro, à sua disposição, e isso pode revelar-lhe a irracionalidade do seu acto, o exagero, assim como o nosso dom e o desejo de fraternidade para além de tudo. A iniciativa da entrega mostra o amor sem medida e a fraternidade almejada. Renuncia-se à reacção simétrica e à reciprocidade em virtude de uma opção pelo dom e pela iniciativa da oferta sem retribuição.
Mas se este enunciado já não é simples e nos confronta diariamente com a nossa propensão para o equilibro de forças e a reciprocidade de pagamentos, Jesus vai mais longe e eleva ainda mais o grau do desafio ao convidar-nos a renunciar à equivalência até mesmo no bem, a romper com os nossos sistemas de similitudes.
Assim, face à facilidade de nos relacionarmos pacificamente com aqueles que nos são próximos, que nos são semelhantes, que estão de acordo connosco e partilham do nosso clã, Jesus convida-nos a olhar o outro como sempre outro, e a reconhecer no outro que pode ser o inimigo a possibilidade de um caminho para a alteridade irredutível. Assim o inimigo, o outro desconhecido, é sempre a possibilidade de uma relação na medida em que sendo alteridade pode ser reconhecido e reconhecer-nos. Fazendo eco do que ainda há dias dizia o frei José Augusto Mourão numa conferência, “é possível comunicar com o inimigo mas não com quem é mau”. E assim descobrimos que aquele que é o outro não é aquele que está próximo de nós, mas aquele, ou aqueles, de quem nos aproximamos, a quem damos essa possibilidade de uma relação e de comunicação.
Não podemos assim deixar de reconhecer e concluir que, à luz das palavras de Jesus, são o dom e a capacidade de doação e entrega, os meios capazes de transfigurar e superar a violência, os mecanismos da morte e da destruição. Só o que se dá e quem se dá pode gerar vida e manifestar essa outra realidade tão importante na vida e mensagem de Jesus que é a da filiação, o facto de sermos filhos de Deus.
Assim, quando Jesus conclui o Sermão da Montanha solicitando-nos a ser perfeitos como o Pai do Céu é perfeito, não nos está a atirar com uma carga demasiado pesada, uma impossibilidade angustiante face à perfeição de Deus, e nem nos está a escravizar a um novo código moral feito de exigências desumanas. Bem pelo contrário, fazendo apelo à lei, Jesus revela a forma diferente de agir do Pai, uma forma que não se funda na perfeição escrupulosa da lei, mas na perfeição da dimensão filial, na perfeição da via do amor filial. E é essa perfeição que todos nós devemos procurar viver com o auxílio da graça de Deus.

2 comentários:

  1. Frei José Carlos,

    Obrigada pela Homilia do VII Domingo do Tempo Comum quando concluímos a leitura do Sermão da Montanha no Evangelho de São Mateus (5, 38-48). É um texto muito profundo que faz-nos repensar os nossos pensamentos, palavras e comportamentos relativamente ao outro, do qual fazem parte os nossos inimigos. É uma partilha que toca na essência do ser cristão, que nos desinstala. E se os desafios assumem a forma de “justiça perfeita”, da “utopia”, não podemos ficar de braços cruzados.
    Se alguma dúvida existisse para aceitarmos os desafios que Jesus nos deixou, a visão da serenidade e paciência com que Jesus sofreu todos os actos da cruxificação e as palavras proferidas “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34), constitui o melhor incentivo para que tudo façamos para “amar os nossos inimigos”, cientes da radicalidade do desafio, da transformação que é necessária operar em nossos corações, no caminho da perfeição.
    Como ouvimos e lemos anteriormente, Jesus “não quis alterar as leis, mas aperfeicoá-las”.
    ...” E é essa perfeição que Jesus hoje nos aponta, quando numa série de adágios nos coloca perante a necessidade de nos ultrapassarmos a nós próprios, de lutarmos contra a nossa propensão natural para a violência e a resposta imediata, e de através de gestos e actos inusitados e até incompreensíveis revelarmos a outra face possível da realidade, a face eternamente divina”, … como nos afirma.
    A recusa à não violência não é um acto de covardia, é um acto de amor, é ter “Deus Pai como modelo da nossa vida” .
    E como nos diz …”Nesse momento estamos completamente na mão do outro, à sua disposição, e isso pode revelar-lhe a irracionalidade do seu acto, o exagero, assim como o nosso dom e o desejo de fraternidade para além de tudo. A iniciativa da entrega mostra o amor sem medida e a fraternidade almejada. Renuncia-se à reacção simétrica e à reciprocidade em virtude de uma opção pelo dom e pela iniciativa da oferta sem retribuição.” Mas Jesus vai mais longe …
    Viver, conviver, aceitar os que partilham as nossas “similitudes”, que nos são semelhantes é relativamente fácil.
    Mas como tão bem nos diz….” Jesus convida-nos a olhar o outro como sempre outro, e a reconhecer no outro que pode ser o inimigo a possibilidade de um caminho para a alteridade irredutível”. (…)”E assim descobrimos que aquele que é o outro não é aquele que está próximo de nós, mas aquele, ou aqueles, de quem nos aproximamos, a quem damos essa possibilidade de uma relação e de comunicação.”
    Saibamos ser compassivos e misericordiosos com o nosso semelhante, como Deus Pai é connosco, mostrando-nos disponíveis a modificar as nossas atitudes e palavras para com o nosso próximo, no caminho da perfeição.
    Obrigada, Frei José Carlos, por nos recordar que …”são o dom e a capacidade de doação e entrega, os meios capazes de transfigurar e superar a violência, os mecanismos da morte e da destruição.”
    Bem haja Frei José Carlos.
    Continuação de um bom domingo. Votos de uma boa semana.
    Um abraço fraterno.
    Maria José Silva

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  2. Frei José Carlos,
    Não desistindo de o ler nem de partilhar o que escreve,confronto-me muitas vezes com a parca capacidade de comentar os seus textos, providenciais e oportunos, ficando-me pelo silêncio, rejeitando a incorrecção, a inutilidade.
    Bem-vindos são,ao iluminarem o entendimento da Palavra Divina, ao esclarecerem dúvidas, ao encorajarem a tomada de atitudes, tantas vezes difíceis como a de dar a outra face...mas genuinamente promotores de fraternidade, de contentamento e satisfação de, pelo irmão, amar o Senhor.
    Tenha uma boa semana,
    GVA

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