quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Pede-se um sinal. (Lc 11,29)

A geração contemporânea de Jesus pede um sinal depois de tantos sinais realizados e manifestados. Um sinal que não lhes será dado, uma vez que objectivamente também não serão capazes de o ler, de o decifrar.
Tal como aquela geração também nós muitas vezes pedimos sinais, esquecendo-nos de ler aqueles mesmos que estão à nossa porta e à nossa frente. Tal como aquela geração também nós sofremos muitas vezes, frequentemente, de incapacidade de visão, de falta de atenção. Não é por isso estranho que Simone Weil tenha dito que o nosso pecado é a desatenção.
De facto, como não reconhecer e assumir que muitas vezes passamos ao lado dos sinais, dos pequenos e grandes sinais, da presença amorosa de Deus na nossa vida. Quantas vezes não descobrimos, ou nos custa a assumir, a mão protectora de Deus que nos guia e conduz.
Neste sentido o nosso processo de conversão passa também pela atenção, por essa capacidade de estar atento e reconhecer em tantas circunstâncias e realidades da nossa vida a presença e revelação de Deus. Deus caminha ao nosso lado, ainda que nós tantas vezes nos esqueçamos ou tentemos caminhar sem ser ao seu lado.
Procuremos por isso nesta Quaresma estar um pouco mais atentos, mais despertos para esses pequenos sinais que nos podem revelar a presença de Deus, a sua acção na nossa vida. Esses sinais podem ser bastante simples, como o sorriso de uma criança face à nossa indisposição. Que os saibamos discernir na sua dimensão divina.

Ilustração: “Collina”, pormenor, de Sir Joshua Reynolds, Museu de Arte de Columbus, Ohio.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Quando orardes... (Mt 6,7)

A recomendação de Jesus quanto à oração deixa entrever a dificuldade que temos de a realizar, de a viver tal como São Paulo nos recomenda na Primeira Carta aos Tessalonicenses, “orai sem cessar” (1Ts 5,17), ou na Carta aos Romanos, “perseverando na oração” (Rm 12,13).
Jesus reconhece que temos dificuldade em estar num estado constante de alerta e relação, num estado de oração sem interrupção. As diversas circunstâncias da vida e do nosso quotidiano dispersam-nos e por isso não é por acaso que os grandes padres do deserto, quando se propuseram viver nesse estado de oração contínua, deixaram tudo e se embrenharam no deserto e na solidão.
Contudo, a vida eremítica do deserto não faz parte do comum da vida cristã, é de alguma forma uma excepção que por isso mesmo nos convida a procurar viver o mandamento de Jesus na circunstância da nossa situação, no risco da possibilidade de infidelidade.
“Quando orardes”, ou seja quando o Espírito despertar em nós esse desejo, essa necessidade de elevarmos a nossa palavra e o nosso coração a Deus, quando o tempo se propiciar, não podemos desperdiçar a oportunidade esbanjando-a em palavras que não têm sentido, em um discurso que não nos coloca em relação, numa superficialidade do cumprimento de um rito ou uma obrigação.
No momento em que nos propomos orar, dirigir a nossa palavra ao Pai, em que a oração brota em nós como uma sede ou uma falha que é necessário preencher, devemos colocar o coração na presença do Senhor, apresentar-lhe a nossa disponibilidade para que o Espírito realize a sua missão e a sua obra.
Como nos diz o profeta Isaías “a palavra que sai da boca de Deus não volta sem ter produzido o seu efeito”, e no nosso caso o despertar do Espírito, os seus gemidos, não desaparecem sem terem cumprido a sua missão, ou seja sem nos ter recolocado no coração de Deus.
Razão mais que suficiente para que ao primeiro sinal de oração, do despertar desse gemido inefável do Espírito no nosso coração, nos coloquemos em presença de Deus, nos disponibilizemos para deixar que as palavras se silenciem para que fale o coração e o mesmo Espírito.
É uma oportunidade que certamente muitas vezes nos aparece, nas mais diversas circunstâncias do dia e que não podemos desperdiçar, uma vez que por intermédio delas nos colocamos em relação com Deus nosso Pai e nosso Salvador.

 
Ilustração: “Samuel ainda criança”, de Sir Joshua Reynolds, Museu Fabre.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Sempre que o fizestes a um dos meus irmãos mais pequeninos. (Mt 25,40)

Uma das grandes novidades, se podemos chamar novidade, que encontramos nos ensinamentos de Jesus é que não nos salvamos sozinhos, não nos podemos salvar sozinhos. A nossa salvação é oferecida por Deus e intermediada pelos nossos irmãos.
Esta novidade opõe-se de forma paradigmática à resposta e pergunta que Caim dá a Deus depois de ter assassinado o seu irmão Abel, “serei eu porventura guarda do meu irmão?”.
À luz daquilo que a revelação nos ensina, e de modo particular a palavra de Jesus, a verdade é que somos guardas dos nossos irmãos, somos responsáveis por eles e por isso esta afirmação conclusiva de Jesus de que o que fizermos aos nossos irmãos é a ele que o fazemos e o que deixarmos de fazer é a ele que o deixamos de fazer.
A salvação não é assim um assunto pessoal, um assunto que resolvo exclusivamente com Deus, mas é um assunto universal, social, comunitário, que nos envolve a todos. Toda a humanidade, e cada um de nós particularmente, necessita neste processo de caminhada para Deus da presença e da solidariedade dos outros, de um apoio conjunto para que possamos todos partilhar da mesma alegria da vitória final.
Neste sentido somos convidados por Jesus a acolher a graça de nos sabermos e sentirmos filhos do mesmo Pai do céu e portanto todos irmãos. Ao acolhermos esta graça a perspectiva da nossa vida alarga-se e dilata-se, e de tal modo, que o Reino de Deus se torna presente e história activa, actuante.
Peçamos portanto ao Senhor esta consciência de nos sabermos responsáveis pelos nossos irmãos, pelos homens e mulheres que partilham a nossa caminhada de vida.

Ilustração: “Caim e Abel”, de László Hegedus, Galeria Nacional da Hungria.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Homilia do I Domingo da Quaresma

O Evangelho de São Marcos que escutamos e lemos neste ano litúrgico tem essa característica maravilhosa e um tanto estranha de colocar Jesus sempre em caminhada, em movimento de um lado para o outro, e assim o vemos na leitura de hoje a ser impelido para o deserto e dali passados quarenta dias a dirigir-se para a Galileia. Jesus está sempre a caminho de qualquer lugar.
Na Idade Média na espiritualidade cristã desenvolveu-se uma grande corrente penitencial e assim encontramos um numeroso conjunto de homens e mulheres que se colocam também eles em movimento para se penitenciarem, pelo mal que tinham cometido, realizando peregrinações tanto a Jerusalém como a Santiago de Compostela ou a Roma. O esforço da caminhada e os perigos que corriam, a luta por chegar ao lugar de veneração, devolvia-lhes a paz do perdão relativamente ao mal que pudessem ter cometido.
Também nós neste início de Quaresma, neste primeiro domingo, nos colocamos em caminhada, em peregrinação até Jerusalém. E não vamos a pé como os peregrinos medievais, e alguns que ainda hoje se lançam nesse aventura, mas vamos de coração, porque sabemos que em Jerusalém entra Jesus como rei e é aclamado pela multidão, em Jerusalém é julgado ignominiosamente, às portas de Jerusalém é crucificado e em Jerusalém na manhã de Páscoa aparece aos seus discípulos.
Durante os quarenta dias da Quaresma propomo-nos fazer a peregrinação até esse lugar, ou melhor, até ao grande acontecimento que se dá nessa cidade, que é a entrega por amor e a ressurreição por causa desse mesmo amor, um acontecimento que nos garante a companhia nesta nossa caminhada apesar da solidão e do cansaço que por vezes possamos sentir.
E como em qualquer caminhada, ou peregrinação necessitamos de um mapa, uma mochila e companheiros de viagem. A minha experiência pessoal de peregrino a Santiago de Compostela permite-me garantir-vos o quanto são fundamentais estes elementos e partilhar convosco esta situação de peregrino.
Assim, necessitamos de um mapa para saber onde vamos e por donde temos que ir, para não nos perdermos, para que o ânimo se mantenha elevado, na medida em que vamos fazendo contas às etapas superadas, em que vamos percebendo como a meta se perfila logo ali ao passar da curva.
Nesta nossa peregrinação da Quaresma até à Pascoa a oração, e nomeadamente a oração bíblica, é o nosso mapa, o guia pelo qual podemos aferir o sentido da nossa direcção, o guia que nos permite reforçar o ânimo e a esperança apesar das dificuldades da caminhada. Na oração percebemos os montes e os vales, os momentos fortes e os mais frágeis, ganhamos percepção sobre o ritmo da nossa própria caminhada e luz sobre a meta que nos propomos alcançar. Na oração iluminada pela Palavra de Deus, que a Igreja nos convida a meditar mais profundamente neste tempo, vamos percebendo como alguém já fez o caminho, a peregrinação e nos deixou notas e ajudas para que a possamos também nós fazer.
Para qualquer caminhada ou peregrinação necessitamos também de uma mochila, um saco que colocamos às costas com o que basicamente necessitamos. E apesar dos avisos amigos raramente partimos com o verdadeiramente necessário, carregamos sempre mais qualquer coisa na eventualidade de uma necessidade. E assim desde o primeiro momento carregamos com peso supérfluo que nos dificulta a caminhada, e do qual em algum momento teremos que nos libertar para poder continuar a caminhar.
Na nossa peregrinação da Quaresma esta necessidade de ligeireza torna-se urgente e por isso somos convidados ao jejum e à abstinência, a libertar-nos de qualquer coisa que nos dificulta a caminhada. Pode ser um jejum alimentar, que na sua dimensão física, puramente orgânica nos desperta para a fome de Deus que existe em nós, mas pode ser também a abstinência de qualquer outra coisa que nos impede de olhar para o outro com outros olhos e de partilhar com ele o que temos.
Quando hoje nos é sugerido que podemos abster-nos de televisão, de internet, ou até de telemóvel, temos que assumir que se o fazemos é porque queremos fazer a experiência de algo diferente, porque queremos experimentar, voltar a experimentar, a alegria de uma conversa cara a cara com um amigo, de ler um livro que nos enriquecerá pela novidade da sua própria leitura.
Aligeirar a carga da nossa mochila, reduzi-la ao verdadeiramente essencial, é para nos facilitar a caminhada, é para nos proporcionar uma liberdade maior de movimentos e experiências. Neste sentido vão as palavras de Jesus quando recomendava aos seus discípulos que não levassem alforge para o caminho. É necessário agilidade e liberdade.
Por fim a caminhada e qualquer peregrinação faz-se com maior facilidade se nos sentimos acompanhados, se encontramos companhia com quem partilhar o caminho, o tempo, as alegrias, as dores e sofrimentos. É verdade que cada um tem o seu ritmo e devemos respeitá-lo não forçando ninguém nem a caminhar mais rápido nem a ir mais devagar. Contudo, o momento da chegada, quando no caminho nos ajudámos, é o momento da alegria e da festa, porque todos sabem por onde se passou e o que foi necessário sofrer para poder chegar ali. Afinal o caminho de um é o caminho de todos.
A Quaresma apresenta-se-nos neste sentido como a caminhada em que profundamente podemos fazer essa experiência de caminhar juntos, de partilhar e carregar com os pesos dos outros, de oferecer uma palavra amiga ou um braço para levantar. A Quaresma apresenta-se como essa possibilidade de os mais fortes carregaram as cargas dos mais fracos de modo a que ninguém fique para trás e todos se encontrarem à chegada da Páscoa.
Esta é a nossa peregrinação até à Pascoa da Ressurreição, uma peregrinação exigente, dura se a vivermos em autenticidade, mas altamente gratificante, na medida em que, na cidade de Jerusalém que buscamos na eternidade, nos encontraremos todos juntos na alegria da vitória do amor sobre todas as debilidades, fraquezas e infidelidades, porque o amor é sempre mais forte que a morte.

Ilustração: “Cruz de Hierro pela manhã”, no Caminho de Santiago. Maio de 2010.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Senhor saciará a tua alma nos lugares desertos (Is 58,11)

Na geografia do nosso coração e da nossa vida espiritual há momentos em que sem porquê nos damos conta do deserto, do deserto em que nos perdemos, em cujo horizonte as dunas de areia movediça se alteram vedando-nos até a miragem do oásis.
E a sede aperta, o corpo ressente-se do calor abrasador que nos amolece ou do frio nocturno que nos tolhe. Buscamos a fonte, procuramos no horizonte o oásis que imaginamos nos satisfará e saciará.
No entanto é ali, naquele deserto, naquelas mesmas dunas que se movem e nos barram, que é possível saciar-se e matar a sede e matar a fome. O Senhor saciará a tua alma nos lugares desertos.
O deserto, esse espaço de tentação e de confronto, onde as lutas são inevitáveis, onde o demónio vem ao nosso encontro propondo-nos a glória em troca da escravidão, onde também Deus vem ao nosso encontro para o combate da sua marca.
E quantas vezes nos vergamos à vitória da glória escravizante, quantas vezes nos deixamos vencer por essa satisfação momentânea que nos é oferecida pelo demónio. É mais fácil, uma vez que parece que fica tudo resolvido.
Pelo contrário, o combate com Deus não termina, permanece em aberto como uma ferida, como essa marca que nos faz coxear como Jacob. A satisfação da alma no deserto provoca mais sede e mais fome, necessidade de mais luta, de uma luta para permanecer no deserto e com sede e com fome de modo a ser saciado. É tão duro.
E por isso matamos a fome e a sede no oásis que imaginamos, deixamo-nos levar pela servidão que nos anestesia e deixa num estado de letargia.
Senhor, tu que nos conduzes ao deserto, sê a nossa força de combate, o desejo de permanecer com fome e com sede, de permanecer por ti e contigo.

Ilustração: “Estudo para oração pela morte no deserto”, de Elihu Vedder, Colecção American Art, no Museu de Brooklyn.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Mudar de vida ou conversão

Decidimos na última reunião comunitária que nas sextas-feiras da Quaresma íamos fazer algo de diferente nos nossos jantares.
Aproveitando o grupo de pessoas que acolhíamos no convento para rezar, para viver um momento mais forte de penitência e oração, nós nos associávamos a eles.
Neste sentido, o nosso Prior frei Filipe organizou um jantar leve, frugal, e convidou-nos a um silêncio a que já não estamos habituados, ou eu já lhe perdi o jeito, ou nunca o tive, possivelmente um pouco de qualquer uma destas coisas.
Enquanto jantávamos ao som de uma música de piano não fui capaz de me silenciar, e não é porque tivesse dito alguma palavra ou sentisse necessidade de conversar. Nada disso, bem pelo contrário.
Aquelas músicas de piano faziam-me lembrar um outro jantar há uns anos atrás, num restaurante ainda a cheirar a novo, em que eu e outra pessoa conversávamos e provávamos um vinho, e alguém tocava ao piano uma música que nos envolvia e fazia daquele momento um momento especial. E então o silêncio calava fundo no coração.
Hoje, pelo contrário...
As pessoas que partilharam connosco o jantar e este silêncio musical fizeram-no no desejo de uma conversão, de uma mudança nas suas vidas. Tal como elas também eu estou a necessitar mudar de vida, a converter-me. Que o Senhor nos ilumine os passos a dar.

Ilustração: “Mulher ao piano”, de Poul Friis Nybo, pintor dinamarquês.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Lembranças das Celebrações da Palavra no Externato Marista de Lisboa

Uma vez mais estou a chegar a casa depois de passar o dia no Externato Marista de Lisboa, celebrando a Palavra de Deus com cinco turmas, 5ºC, 6ºA, 6ºD, 8ºA, 11º1A, e alguns pais que puderam participar.
Uma vez mais um dia de inebriamento na alegria daqueles alunos, no seu desejo de procurar fazer melhor as coisas que ainda não foram capazes de fazer, de progredir e de crescer.
E uma vez mais a oportunidade para dar graças a Deus por este banho de juventude, de esperança, de poder constatar que há tanto de bom nestes jovens, de que Deus vai continuando a fazer história connosco ainda que muitas vezes nós nos esqueçamos de fazer história com ele.
Ficam as lembranças e as recordações, a alegria e a emoção até à lágrima, de quem se sente um bem-aventurado de Deus por poder participar e partilhar destas celebrações em que Deus nos toca num sorriso, numa nota desafinada, num segundo de atenção à palavra que dirigimos e sentimos escutada.
Louvado sejas meu Senhor pela alegria, pela amizade, pela felicidade de sorrindo e brincando te poder anunciar como Pai que nos amas.


















Ilustrações: Recordações e Guião da Celebração

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Quarta-feira de Cinzas

Iniciamos o tempo forte da Quaresma com a imposição das cinzas, com esse rito que nos recorda que somos pó e ao pó havemos de voltar, que nos devemos arrepender e acreditar no Evangelho.
A leitura do Evangelho de São Mateus recorda-nos a possibilidade da hipocrisia na nossa relação com Deus, a possibilidade de actos cumpridos apenas por vaidade e para que os outros olhem.
Neste sentido este primeiro dia da Quaresma convida-nos à interioridade, a sermos homens e mulheres de interior, do privado, pois é no interior do quarto que se deve rezar, é na ignorância da mão esquerda que se deve realizar a partilha com os outros, é sem qualquer sinal exterior que se deve viver o jejum.
Paralelamente este primeiro dia da Quaresma e o seu convite à interioridade dirige-se também à simplicidade, uma vez que na ausência da necessidade de máscaras nos tornamos mais simples, mais lineares; não necessitamos de fazer nada para estar no palco ou sob a luz dos holofotes, porque não é esse o nosso lugar.
Estamos onde devemos estar e como devemos estar, porque sabemos e confiamos que Deus nos vê, nos conhece; antes mesmo de qualquer gesto ou qualquer acto ele sabe a bondade ou o amor que lhes dá origem, ele sabe o quanto é origem.
E neste sentido, tudo se ilumina, tudo se transforma, porque mesmo o gesto mais humilde, mais pobre, mais simples é fruto da sua acção em nós, é fruto do seu amor presente em nós, ainda que secreto e para ficar no segredo.

Ilustração: “Cristo em casa de Marta e Maria”, de jan Vermeer, Galeria Nacional da Escócia, Edimburgo.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ficaram calados (Mc 9,34)

Tinham discutido no caminho entre si quem era o maior entre eles, tinham trocado as palavras sem se darem conta que mais que as palavras trocadas entre si, Jesus escutava os sentimentos que lhes brotava no coração.
E quando confrontados com a pergunta sobre o que tinham discutido ficaram mudos, em silêncio, envergonhados porque tinham manifestado uma grande desconsideração pelo mestre e pelos companheiros, porque tinham revelado os sentimentos pouco nobres que os habitava e os deixava numa posição muito pouco recomendável.
Afinal o seguimento de Jesus, o seu companheirismo não era assim tão gratuito, tão livre como queriam aparentar, havia interesses em jogo, interesses de poder e supremacia sobre os outros que tinham sido descobertos naquele palavreado trocado entre eles.
Face a este silêncio revelador de como ainda estavam longe do que lhes tinha ensinado ainda há pouco sobre a sua missão e a morte que o esperava, Jesus apresenta-lhes uma criança e coloca-os diante da oferta que sempre lhes fez e continua a fazer.
Segui-lo, querer ser o primeiro no seguimento significa acolher, acolher como se acolhe uma criança com o que ela tem de novidade mas também de fragilidade e pequenez. O maior será assim aquele que for capaz de se abrir ao acolhimento, de se entregar sem âncoras nem escoras de apoio a essa fragilidade que é dom.
A importância do acolher é tão significativa que Jesus repete quatro vezes o verbo, num binómio primeiro que diz respeito à criança em correlação com ele, e depois noutro binómio em que a relação já se estabelece entre ele e o Pai.
Ser o primeiro, querer ser o maior e o que tem o poder é assim colocar-se em último lugar porque aí a disponibilidade para o acolhimento é mais provável, uma vez que nada está garantido nada é certo.
Que o Senhor ilumine os nossos desejos e nos ajude a acolhê-lo com essa fé e confiança de que só no acolhimento podemos progredir e alcançar alguma coisa do dom que nos oferece.

Ilustração: “Jesus com as crianças”, de autor não identificado.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Espírito mudo e surdo, eu te ordeno que saias! (Mc 9,25)

Do meio da multidão alguém grita por socorro a Jesus, um pai pede ajuda para o seu filho que tem um espírito mudo. Os discípulos não tinham sido capazes de o expulsar, de realizar aquele milagre, algo que deixa Jesus de certo modo desesperado com a falta daquela gente.
Quando chegam a casa, depois do milagre operado e da desesperação do Mestre, os discípulos não se envergonham de perguntar a Jesus como não lhes tinha sido possível expulsar o espírito mudo, ao que Jesus responde que só com a oração era possível.
Com esta resposta Jesus coloca em evidência o que estava em causa naquele milagre, a razão porque eles não tinham sido capazes e ele tinha sido capaz.
Se a oração era o remédio e a possibilidade de realizar aquela expulsão de espírito era porque aquele espírito mudo e surdo se encontrava nos antípodas da mesma oração, que ao contrário da mudez e da surdez do mal é escuta e diálogo.
Com este milagre Jesus mostra-nos que a palavra nos foi novamente entregue, que recuperámos a possibilidade de escutar Deus e de falar a Deus, que fomos colocados em relação de diálogo, de um diálogo que se concretiza na oração.
Assim curados e recuperados para o diálogo não nos fechemos no nosso mutismo ou na surdez de não querer ouvir Deus, mas disponhamo-nos a escutá-lo, a falar-lhe, porque como diz o salmista no Salmo 9, “O Senhor jamais abandona aqueles que o procuram”.

Ilustração: “Jesus curando um surdo mudo”, de Bartholomeus Breenbergh, Museu do Louvre.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

VII Domingo do Tempo Comum

Dentro de três dias daremos início à Quaresma e na medida em que desejamos e queremos viver esse tempo de preparação para a Pascoa de uma forma mais intensa, mais rica, as leituras da Palavra de Deus deste domingo podem ser assumidas por cada um de nós como uma proposta de um programa de vida.
Neste sentido temos que assumir, antes de mais, que aquele homem que está no catre e é levado à presença de Jesus é cada um de nós, nas suas mais diversas paralisias, nas suas mais diversas situações de vida que o impedem de viver em plenitude, de gozar da alegria dos dons que Deus nos vai oferecendo. Temos que assumir que na nossa vida há uma dose de pecado, de infidelidade que necessita ser apresentada a Jesus para que possa ser perdoada, para que possa ser redimida e se encontre capacitada para a verdadeira realização.
A Quaresma pode assim apresentar-se como esse tempo propício para a consciencialização de como estamos longe de casa como o filho pródigo, e de como queremos que o Senhor venha a nossa casa, como Zaqueu o quis e para isso expôs-se ao encontro com Jesus no inusitado de subir a uma árvore.
Por outro lado temos que assumir que diante de nós e nesta caminhada para nos encontrarmos com Jesus e alcançar a sua cura se encontra uma multidão que nos impede o acesso, que nos barra a passagem e por isso é necessário subir, fazer um esforço suplementar para que nos possamos encontrar face a face com Jesus que perdoa e cura.
Na vida do nosso dia a dia podemos encontrar esta multidão nas mais diversas realidades que nos tiram o tempo, a paciência, a capacidade de acreditar, e por isso necessitamos assumir a necessidade de um esforço, de uma luta, que as práticas penitenciais que a Igreja nos oferece neste tempo quaresmal nos podem ajudar.
A oração que a Igreja nos convida a viver de uma forma mais intensa, ainda que para alguns se possa traduzir num mero exercício externo, mas ainda assim necessário, é o meio para nos encontrarmos com Deus na intimidade, com a sua história de amor connosco, uma história que como nos diz o profeta Isaías é sempre uma novidade, um fazer de novo.
A esmola é por seu lado a oportunidade e o meio para nos descentrarmos de nós próprios, de ver o que ainda temos e falta aos outros e por isso partilhamos; é a oportunidade de viver e aprender a viver com um pouco menos, um menos que nos faz ter mais confiança em Deus e consciência do quanto afinal temos sido beneficiados pela graça de Deus.
O jejum por outro lado, no que representa de experiência de limite, de experimentar a fome física, pode e deve ajudar-nos a tomar consciência de como vivemos em permanente fome de realização, fome de Deus, e por mais que nos saciemos nunca essa fome deixará de existir enquanto Deus não for verdadeiramente o nosso alimento. Por alguma razão quando no deserto o diabo apresenta a Jesus o pão para saciar a sua fome de quarenta dias, Jesus responde que não só de pão vive o homem.
Podemos traduzir o jejum por outras realidades de que abdicamos, de que nos abstemos, como a televisão, a internet ou o cigarro, mas a sensação de fome, de uma necessidade física não pode ser completamente colocada de parte, uma vez que essa experiência não só nos desperta para necessidade que muitos dos nossos irmãos e irmãos passam, mas também para a fome de Deus que nos habita.
De facto como posso ter uma noção da fome de Deus, da necessidade premente de Deus na minha vida, se não nunca fiz a experiência da necessidade de alimento, a experiência da fome? Ou, como cantava o nosso irmão frei José Augusto Mourão, como posso saber a dor se nunca fui ferido?
No entanto tudo isto só tem sentido, só ganha valor, na medida em que nos propomos a fazer da nossa vida um sim, a aceitar o sim de Deus à nossa condição e à nossa história, a acolher o dom de Deus que se nos oferece como se ofereceu àquele homem paralisado num catre.
E neste aspecto temos que ter presente que Jesus viu e assumiu que era grande a fé daquela gente, uma fé que não foi explicitada nem manifestada em nenhum pedido, em nenhuma palavra, mas apenas no esforço de colocar o paralítico diante de Jesus. É esse o grande desafio, colocarmo-nos diante de Deus, esforçados, tendo feito tudo o que estava ao nosso alcance, ainda que apesar disso paralisados.
Porque todo o nosso esforço não tem outra razão de ser senão o de manifestar a nossa disponibilidade ao dom de Deus, o acolhimento à acção de Jesus, que é quem tem verdadeiramente o dom de nos curar e de nos pôr a andar.
Procuremos pois fazer o que nos compete, o que está ao nosso alcance, porque da parte de Deus a sua disponibilidade é inerente e prévia, é uma acção continua de oferecimento e dom.

Ilustração: “Jesus cura o paralítico descido pelo telhado”, gravura de Bernhard Rode.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Beato Angélico em luz e cor

Terminou há um mês uma exposição no Museu Jacquemart-André em Paris sobre frei Angélico, cujo tema era “Frei Angélico e os mestres da luz”.
Este tema e a sua escolha prendem-se inevitavelmente com a questão da luz e da cor que podemos apreciar nas obras do Beato Angélico, uma luz e uma cor usados de uma forma muito pessoal.
Contemplando o quadro da Anunciação que se encontra no Museu do Prado, Eugénio D’Ors escreveu que nesta tela se começa a entender que em pintura a cor seja uma coisa bastante distinta da luz, quase contraditória.
Frei Angélico não é um pintor colorista, ainda que as suas cores sejam bastante vivas, mas é um pintor luminoso, sedento da alma que se revela na pintura; não é um pintor que nos pretende embriagar no vórtice das cores, mas um pintor que nos pretende dar a paz, deixar-nos tranquilos.
Neste sentido, a luz que frei Angélico coloca na sua pintura transforma o que pinta, e por isso a sua carreira artística é uma evolução no tratamento da luz e da cor. Na sua época juvenil a luz agarra-se ao corpo como uma substância física, uma pele de uma outra natureza, enquanto que as cores se plasmam na sua excessiva pureza. Na época da maturidade a luz e a cor integram-se de tal maneira que uma e outra são penetradas mutuamente e transformam-se em algo único.
A radiação luminosa que se multiplica pelo céu, em Cristo, na Virgem Maria, nos Santos e nos Profetas, nos Anjos e nos Apóstolos parece já não ser deste mundo, mas de uma outra dimensão que se deixou transfigurar por uma luz divina. Não surpreende por isso que Giorgio Vasari, que pôde observar o trabalho de frei Angélico tenha comentado “que os santos que pinta frei Angélico têm mais graça e semelhança de santos que os de outro pintor qualquer”.
Também neste sentido se expressa Sergei Averintsev, professor de literatura clássica na Rússia e membro da Academia Pontifícia das Ciências Sociais, desde 1994 quando o Papa João Paulo II o convidou até 2003 quando faleceu, quando diz que a obra de frei Angélico é aquela que no ocidente mais se aproxima da concepção ortodoxa do ícone no sentido da relação de santidade do pintor e a sacralidade da pintura.
Na pintura do Beato Angélico espelha-se a santidade do homem que pintou. Saibamos nós também comunicar alguma coisa de divino àquilo que fazemos

Ilustração: “A Coroação da Virgem”, de Fra Angélico, Galeria dos Uffizi, Florença.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Celebrações da Palavra com as Turmas do Externato Marista de Lisboa

Estou a chegar a casa de uma Celebração da Palavra no Externato Marista de Lisboa, da terceira do dia de hoje e a última desta semana, pois já em dias anteriores tive a alegria de celebrar a Palavra de Deus com os alunos do Externato.

Todos os anos é uma experiência nova, uma experiência que me enriquece pela diversidade, pela imaginação, pela alegria colocada e pelo empenho manifestado de que a celebração seja a melhor.

Iniciei o dia com uma celebração do quinto ano, a turma B, que como está a dar os primeiros passos nesta caminhada escolheu como mote e tema da celebração “Nasce a amizade entre nós”.

Por volta da hora de almoço celebrei com os finalistas da turma 1/A do décimo segundo ano, aqueles que já chegaram à “Meta”, que já percorreram os caminhos da amizade e do enriquecimento mutuo e por isso levam uma experiência que todos desejamos que não desperdicem.

Ao final da tarde a turma B do sétimo ano, aqueles que se encontram a iniciar um outro ciclo, e por isso é necessário tentar de novo, mas tentar com as experiências e riquezas já acumuladas no segundo ciclo, e por isso o tema da celebração “Conhece e aceita”.
Costumo dizer-lhes como fico feliz por participar nas celebrações, como me carregam as baterias, me enchem de gozo, ainda que me questione se acreditam, pois é natural no adolescente dar pouco crédito à palavra dos mais velhos.
Mas ainda assim, não deixa de ser verdade, não deixam de me prover da sua alegria, que depois baila entre os refrãos das músicas que cantamos e vou trauteando pelo caminho de regresso a casa, ou já aqui sentado à secretária.

E por isso, e por eles, pelos momentos vividos e partilhados, por vê-los crescer dou graças a Deus, e peço a bênção do Senhor para cada um, para que tenham a força e a ousadia de continuarem a acreditar que o bem é possível e a plenitude da realização está ao nosso alcance com Jesus.

Ilustrações. Lembrança da Celebração do 5ºB, Lembrança da Celebração do 12º1/A, e Guião da Celebração da Palavra do 7ºB.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

No caminho Jesus perguntou-lhes “quem sou Eu?” (Mc 8,27)

Após vários acontecimentos significativos, reveladores da verdade da pessoa de Jesus, chega a hora da verdade, a hora do confronto com a questão “quem sou eu”. É o momento de aferir o conhecimento adquirido, por aquilo que os outros dizem, mas sobretudo por aquilo que foi experimentado, vivido na intimidade com o Mestre.
Contudo, podemos perguntar-nos se esta questão, se este confronto, não seria mais fácil, mais viável à volta de uma mesa, uma situação afinal tão frequente na vida de Jesus e dos discípulos. Quantas vezes não se sentaram juntos e trocaram ideias…
Mas é no caminho, fazendo o caminho para as povoações de Cesareia de Filipe, para as zonas pagãs, que Jesus coloca a questão, como se houvesse uma necessidade de uma resposta antes de entrarem nessas zonas.
É também neste caminho que Jesus revela pela primeira vez aos discípulos o seu fim, a morte trágica que o espera, uma morte no coração da terra e do povo considerado santo, o eleito de Deus, e não na terra pagã para a qual se dirigem.
A pergunta de Jesus e a resposta de Pedro é assim um colocar-se em situação, é perceber que a pergunta de Jesus e a resposta a Jesus se dão em caminho, se dão em processo, é uma revelação e portanto não existem de forma estática, definitiva. Jesus continua a colocar a questão e continuamos a necessitar responder em cada momento quem é de facto Jesus para nós.
E necessitamos responder nessa passagem da terra eleita para a terra pagã, na passagem das nossas garantias e concepções estabelecidas para a novidade e a diferença da verdade de Jesus Cristo que nos é revelada. Como nos diz o profeta Isaías “os caminhos do Senhor não são os nossos caminhos”, mas é nos seus caminhos que nos podemos encontrar com ele e podemos responder “tu és o Messias de Deus”.
E ainda assim, e aí, a nossa resposta pode ser contraposta pelas palavras de Jesus que não foram a carne nem o sangue que nos deram esse conhecimento, ou seja, que apesar de tudo há ainda algo para descobrir, há ainda um caminho que necessitamos continuar a trilhar.
Jesus apresentou-se-nos como o “Caminho” e neste sentido só por ele podemos chegar ao verdadeiro conhecimento, à verdadeira resposta à pergunta. Que o medo do esforço a aplicar não nos paralise no desejo de encontrar a resposta verdadeira.

Ilustração: “Caminho de Santiago junto às ruínas de San Miguel, depois de Hontanas. Maio de 2010.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Vês alguma coisa? (Mc 8,23)

Ao chegar a Betsaida trouxeram a Jesus um cego para que lhe tocasse. Jesus tomou o cego pela mão, conduziu-o para fora da aldeia, deitou-lhe saliva nos olhos, impôs-lhe as mãos por duas vezes e após um primeiro momento de uma visão turva o cego começou a ver perfeitamente. Entre a primeira e segunda imposição das mãos, a pergunta se via alguma coisa, e a resposta surpreendente de ver os homens como se fossem árvores a andar.
Esta cura do cego de Betsaida confronta-nos com uma realidade que muitas vezes nos custa a viver, que nos custa a aceitar, e que é a realidade do tempo, do processo no tempo. Frequentemente deixamo-nos levar por essa tentação de querer um processo de conversão imediato, rápido, em que o tempo é dispensável.
A cura do cego de Betsaida mostra-nos que Jesus está disposto a perder tempo connosco, que nos quer conduzir pela mão, que nos quer levar para fora dos nossos ambientes, que nos interroga e age sobre nós até que vejamos claramente a luz que brilha. A visão da luz é um processo que exige tempo, por vezes muito tempo.
A cura do cego de Betsaida, como outros milagres e curas operadas por Jesus, mostra-nos que ele age progressivamente, que usa de delicadeza e paciência para connosco, que nos procura no sentido de um encontro pessoal, que há uma habituação à luz da sua presença e pessoa.
E contudo, nós queremos tudo imediatamente, deixamo-nos levar pela necessidade de resultados imediatos que marca a nossa cultura e forma de estar no mundo actual.
A pergunta de Jesus, “vês alguma coisa”, é neste sentido uma pergunta que se repete e à qual em cada dia devemos ir dando uma resposta diferente, uma resposta que passa da realidade turva, de ver os homens caminhando como árvores, até à luz perfeita de ver os homens como iguais e filhos de Deus.
Faz Senhor que eu veja, que eu me vá habituando a ver a tua luz para poder um dia contemplá-la em todo o seu esplendor.

Ilustração: “Cristo curando o cego”, de El Greco, Metropolitan Museum of Art.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Fiz de ti a luz das nações (Act 13,47)

Ao anunciar a Boa Nova de Jesus aos judeus da diáspora e ao não ser acolhido por eles, Paulo e Barnabé viraram-se para os gentios, assumindo as palavras da profecia de Isaías de ser luz para as nações, para todas as nações.
À semelhança de Paulo e Barnabé também os dois santos que hoje celebramos, Cirilo e Metódio, assumiram estas palavras do profeta, também eles procuraram ser luz para as nações eslavas levando-lhes a Boa Nova da salvação de Jesus.
E esta dimensão da luz, de iluminar os homens, foi tão significativa na sua missão que ainda hoje a Igreja Ortodoxa e a sua espiritualidade está profundamente marcada por ela. Uma marca que não se impõe, que não se anuncia, mas que se vive a partir da grande festa e manifestação cristológica que é a Transfiguração.
Neste sentido, toda a ascese, toda a busca de fidelidade, se dirige à transfiguração, ao alcance da luz interior, uma luz que servirá de guia para outros homens e mulheres, que servirá de conforto nos momentos de escuridão e sofrimento da humanidade.
Não estranha por isso que todos os grandes místicos ortodoxos sejam reconhecidos pela sua luz interior, pela sua transfiguração, como aconteceu com São Serafim de Sarov ou Santo Ambrósio de Optina, entre outros. A santidade manifesta-se também nessa luz que irradia de cada um deles.
Luz radiante que podemos encontrar igualmente nas liturgias ortodoxa e oriental, luz que se reflecte no ouro que reveste as paredes das igrejas, que ilumina cada ícone, que assinala os diversos momentos da própria celebração. Tudo converge para a manifestação e participação na luz divina.
Neste sentido temos bastante a aprender com os nossos irmãos ortodoxos e orientais, ou pelo menos a reencontrar, porque também neste nosso mundo ocidental necessitamos de ser luz para aqueles que partilham o nosso dia a dia e a nossa vida. É uma exigência da fé e da esperança em Jesus e que se traduz na caridade sem fronteiras e sem preconceitos.
Procuremos pois imbuir-nos dessa luz que vem de Deus para a poder partilhar com os outros, para podermos ser luz, ainda que pequenina, para os nossos irmãos e irmãs que buscam na noite escura.

Ilustração: “Velas na igreja do Mosteiro Arkadiou, Creta”, de Wouter Hagens.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Nenhum sinal lhes será dado (Mc 8,12)

O Evangelho de São Marcos conta-nos que depois de vários milagres de Jesus, e de modo particular do milagre da multiplicação dos pães para quatro mil pessoas, os fariseus lhe pediram um sinal do céu, algo de extraordinário que os libertasse das suas dúvidas, ou nem tanto, possivelmente algo que confirmasse a sua suspeita de modo a poderem organizar ainda mais rapidamente o seu desaparecimento.
O pedido de um sinal por parte dos fariseus, face aos milagres já operados por Jesus, é de facto um pedido estranho, um pedido que nos leva a suspeitar que apenas se tratava de mais uma armadilha, um estratagema para apanhar Jesus, porque da parte deles não havia qualquer interesse verdadeiro em Jesus, ou numa adesão a esse Jesus que se lhes revelava como sendo do céu através dos milagres já operados.
É certamente por esta razão que Jesus diz que nenhum sinal lhes será dado, que nada de mais extraordinário realizará para provocar uma outra atitude naqueles homens, porque de facto o que já tinha realizado e dito era suficiente para uma alteração, para um interesse verdadeiro, para uma adesão.
A resposta de Jesus e esta negação a um sinal, tem por outro lado uma razão muito mais intrínseca à própria condição e natureza do sinal face à realidade em si mesma. Um sinal pode desviar a atenção e a centralidade daquilo que deve ser o centro, o fundamental, o que dá razão ao próprio sinal. Ao aceder ao pedido de um sinal, Jesus colocaria o importante e significativo fora de si próprio, fora da sua esfera e na esfera de um acontecimento ou realidade que nada tinha de próprio.
É diante desta resposta de Jesus e da sua razão que também nós nos devemos interrogar sobre a nossa demanda de sinais e a sua aceitação, a orientação das nossas estratégias e planos por esses mesmo sinais. Num plano meramente leigo, civil, podemos interrogar-nos se quando dizemos que a economia está a dar sinais de retoma, de facto está, ou são apenas dimensões particulares que concebemos como leitura do todo, e que não é correcta nem corresponde à verdade.
Mas na nossa vida de fé e seguimento de Jesus esta leitura e demanda de sinais alcança uma importância ainda muito mais significativa, porque o que Jesus pede na fé e aos seus discípulos é uma adesão à sua pessoa, o estabelecimento de uma relação, e não uma adesão por um sinal que é apenas um manifestação externa, o resultado de uma acção.
Há assim uma forte tentação, e até certo ponto uma grande imaturidade na fé e na adesão a Jesus quando lhe pedimos um sinal, uma manifestação do seu amor, do seu interesse e carinho por nós, da sua presença vigilante e protectora na nossa vida. Necessitamos despojar-nos dessa tentação, dessa leitura e apreensão sinalética, para nos encontrarmos verdadeiramente com aquele que ele é, o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. Só na medida do nosso despojamento, da libertação das nossas propensões e pretensões concentracionárias e idolátricas, e a abertura ao dom de Deus, no que tem de indizível e incomensurável, nos encontraremos verdadeiramente com ele.
Que o Senhor purifique o nosso coração desse desejo de imagens e sinais e aumente em nós a vontade de perseverantemente o buscarmos no silêncio da sua presença amorosa.

Ilustração: “Retrato de Cristo”, de Elisabetta Sirani, Museu de Arte de Ponce, Puerto Rico.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Homilia do VI Domingo do Tempo Comum

A leitura que escutámos do Livro do Levitico apresenta-nos uma prescrição, uma norma, que tem uma grande dose de marginalização, ainda que ela aconteça por um princípio sanitário, numa de tentativa de preservação do contágio de doenças.
As leis dirigidas à conservação da saúde pública obrigava os doentes, os que podiam ser fonte de contágio a viver fora das cidades e aldeias, a ter comportamentos que os identificavam e excluíam do convívio social, e constituam em impuros aqueles que se aproximavam ou tocavam nesses excluídos, pessoas incapazes de poderem corresponder a todas as exigências da vida em comum e do culto religioso.
O Evangelho de São Marcos narra-nos como Jesus assumiu essa exclusão, como assumiu participar e partilhar a exclusão a que estavam votados não só os leprosos, como acontece no episódio narrado hoje, mas também a que estavam votados outros homens e mulheres pela sua situação social ou profissional. A fazê-lo Jesus traduz em gestos quotidianos a sua luta e a sua missão fundamental de acabar com a exclusão a que estavam votados todos os homens pelo pecado, princípio fundamental de toda e qualquer exclusão.
E como nos diz o evangelista, por causa desta partilha da exclusão do leproso Jesus foi também excluído, colocou-se na situação de impossibilidade de convívio social segundo as leis e por isso já não podia entrar nas cidades, ficando nos campos e lugares desertos onde as pessoas vinham ter com ele.
Esta experiência, e à luz do relato que nos é feito da conversa com o leproso, é para nós um desafio e um exemplo, pois também nós muitas vezes somos abordados no sentido de pôr em prática a nossa vontade, correndo o risco de também sermos excluídos por esse exercício coerente e fraterno.
Quantas vezes e nas mais diversas situações e realidades da nossa vida não nos foi já dito, “se quiseres podes ajudar-me”, se quiseres podes fazer alguma coisa por mim, se quiseres podes partilhar da minha situação? Quantas vezes afinal não foram deixadas à nossa vontade, e à liberdade de responder, um conjunto de situações que poderiam ser diferentes?
A nível da família e das suas relações de partilha e fraternidade, a nível profissional e da justiça e verdade das nossas responsabilidades, a nível social e da implicação na construção de uma sociedade mais justa, na comunidade eclesial e na nossa participação mais activa, um leque vasto de oportunidades para implicarmos a nossa vontade, e também de experimentarmos a exclusão, a marginalização porque nos propusemos ser diferentes ou fazer as coisas de forma diferente.
Todos nós, os mais pequenos no recreio da escola, os jovens no grupo de amigos, e até os adultos no meio profissional, já fizemos essa experiência de sermos olhados de lado, criticados, marginalizados porque na nossa liberdade e com a nossa vontade optámos por ser diferentes, por fazer de forma diferente do comum e do politicamente correcto.
E quando tal acontece ou vier a acontecer não podemos esquecer, nem retirar do nosso horizonte as palavras que Jesus deixou àqueles que o quisessem seguir, que a cruz fazia parte do seu seguimento, era uma experiência pela qual passariam todos os seus verdadeiros discípulos e seguidores.
Por outro lado não podemos esquecer também as palavras de São Paulo aos Coríntios, que ser imitadores de Jesus Cristo é procurar fazer todas as coisas para glória de Deus, uma glória que como nos diz Santo Ireneu de Lyon é o homem vivo. Assim, todas as realidades da vida do homem, todas as suas acções devem estar orientadas para esta glorificação, que passa inevitavelmente pela glorificação no homem naquilo que tem de melhor e conduz à sua plenitude e cabal realização.
Quando agimos segundo este princípio qualquer exclusão ou marginalização só pode ser assumida como um sinal de que de facto o caminho trilhado, a opção tomada é a verdadeira e aquela que mais nos dignifica como homens e mulheres e mais glorifica a Deus, e a exclusão na sua natureza é apenas a manifestação revoltada das forças do mal em derrota ou fraqueza.
Peçamos por isso ao Senhor a coragem e a luz do Espírito para aceitarmos responder livre e convictamente às solicitações de ajuda que nos surjam e para não nos deixarmos abalar pela exclusão ou marginalização, mas pelo contrário para encontrarmos nelas a confirmação da verdade e da dignidade com que Deus é glorificado pelas nossas acções.

Ilustração: “Jesus curando um leproso”, de Jean-Marie Melchior Doze.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Faz que os surdos ouçam e os mudos falem (Mc 7,37)

Ao regressar de Tiro e Sidónia Jesus encontra-se com um surdo-mudo que lhe apresentam. Uma vez mais Jesus enche-se de compaixão e afastando-se um pouco da multidão cura aquele homem.
Este episódio narrado por São Marcos está marcado por uma dimensão de contradição que não pode deixar de nos interrogar e fazer pensar, porque Jesus cura o surdo-mudo, dá-lhe poder para ouvir e falar, mas depois proíbe que se divulgue o milagre que tinha operado.
Afinal de que serve aquela cura se não é para falar e para ouvir, para anunciar a Boa Nova salvadora de Jesus? Porquê calar uma dimensão ou consequência da própria missão de Jesus?
As respostas para estas questões podemos certamente encontrá-las nos mesmos gestos de Jesus que operam a cura, nesse enfiar o dedo nos ouvidos e tocar com a sua saliva a língua do mundo, na oração ao Pai para poder dizer “effathá”.
Os gestos de Jesus prendem-se com os gestos criadores, com uma nova humanidade que se gera pelo seu toque e pela sua vida, uma nova humanidade que se abre à novidade da presença e da acção de Deus. Não estamos diante de uma simples cura de surdez e mudez, de um simples gesto taumatúrgico.
O silêncio solicitado por Jesus quanto ao milagre é assim apenas um pedido no sentido da centralização da cura operada, do reconhecimento do que verdadeiramente aconteceu, que afinal é muito mais que uma cura, pois é uma nova criação.
Neste sentido a nossa participação na escuta da Palavra e no seu anúncio, a nossa abertura e acolhimento à oferta da Palavra viva de Deus, significa uma participação numa nova humanidade, numa possibilidade de outra vida e outra história, a vida redimida por Jesus e a história da salvação.
Prontifiquemo-nos portanto a escutar e a acolher a Palavra de Deus, a participar activamente nessa nova criação.

Ilustração: “Cura do surdo-mudo”, Bíblia Ottheinrich, Bayerische Staatsbibliothek.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

As migalhas das crianças para os cachorrinhos (Mc 7,28)

Ó ousadia humilde, pedir as migalhas
depois de recusado o pão!
Ó fé sem fronteiras, de mulher pagã!
Como foi possível, chegares tão longe?
Aos pés do Senhor que é alimento,
e não receberes o pão!
Umas migalhas, umas míseras migalhas,
e te contentas!
Só isso basta, umas migalhas…
Elas são já do pão, o possível do pão
que se parte e reparte e também
chega aos cachorrinhos sob a mesa.
Ó humildade de mãe aflita,
qualquer pouco te basta.
E nós mendigando a mesa
farta e gorda, cheia de iguarias,
glutões querendo sempre mais
e mais e melhor.
E umas migalhas bastam,
umas migalhas desse pão do céu
recebidas na humildade.
Satisfeitos ou iludidos por banquetes,
esquecemos que o pouco basta,
apenas um pouco de um raio de sol,
uma borboleta bailando, uma gota de água
ou o cheiro da terra molhada.
Uma migalha Senhor,
ensina-nos a apreciar as migalhas,
do pão nosso e do Pai Nosso.

Ilustração: “As pequenas pedintes”, de William-Adolphe Bouguereau

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O que contamina o homem vem do seu interior (Mc 7,23)

Jesus diz aos seus discípulos que o que contamina o homem é o que sai do seu interior, do seu coração. Contudo, nós continuamos muitas vezes a pensar e a agir como se o mal que realizamos nos viesse de fora, como se a intenção fosse exterior a nós, provocada por outro ou outrem.
E a realidade em que mais facilmente podemos conferir este nosso funcionamento é nas nossas relações humanas, o que justifica também que a maior parte dos vícios que Jesus aponta como nascidos no coração do homem assentem nas relações, na vida e contacto com os outros.
Quantas vezes não reagimos já violentamente, injustamente, face a uma palavra sem qualquer valor, sem qualquer maldade, mas que assumimos e consideramos como dirigida a nós, como carregada de qualquer culpabilização ou condenação. E no entanto não é nada, não tem nada, não vale nada.
Ao fazer um análise critica e verdadeira das nossas reacções percebemos que afinal o tom e a maldade, a culpa ou condenação, estava no nosso coração, habitava dentro de nós ainda que inconscientemente.
A lista que Jesus enumera tem essa mais valia de nos mostrar como muitos dos nossos vícios nascem dessa nossa má situação face às realidades que envolvem os outros, à sua autonomia, à bondade e generosidade que Deus tem com eles. Assim são os roubos, as injustiças, a fraude, a ambição, a inveja e a difamação, que não só nos colocam a desejar o que o outro tem, como também nos colocam numa situação de incapacidade de apreciação das realidades dos outros.
Os outros aparecem-nos como inimigos ou adversários a derrotar e não como companheiros de caminhada com quem temos e devemos partilhar os dons que recebemos e apreciar os dons que se nos oferecem através deles.
Por outro lado os vícios como o orgulho, a insensatez, a devassidão, a imoralidade não nos deixam ter uma verdadeira medida de nós mesmos, porque ou está exagerada ou é deficitária, e nesse sentido não nos encontramos com a verdade de Deus em nós, com o melhor que temos para frutificar e o pior que temos para combater.
Necessitamos por isso de um exercício quotidiano de encontro connosco próprios para nos redimensionarmos à luz dos olhos de Deus, da forma como verdadeiramente Deus nos vê, nem mais nem menos. Esse encontro conduzirá certamente à verdade, à descoberta de todas as potencialidades que Deus nos oferece, e das potencialidades dos outros que devemos agradecer e louvar, porque também elas consideradas em verdade nos purificam e centram na verdadeira dimensão de nós próprios.
Jesus diz à multidão que o escuta que quem tenha ouvidos para ouvir ouça, ouçamos também nós o que o nosso coração diz para nos podermos libertar do que está a mais e podermos acolher o que nos falta.

Ilustração: “Inveja”, em “Sete Pecados Mortais”, de Hieronymus Bosch, Museu do Prado, Madrid.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um dos soldados trespassou o lado do Senhor (Jo 19,34)

Tudo está terminado
A noite aproxima-se e o frio faz sentir-se
O vento como lâminas
Que cortam a pele.
E uma lâmina de ferro duro e frio
Corta, penetra, abre
Trespassa a pele já escura e sem vida
Do corpo suspenso no madeiro.
Ó porta sublime, ó passagem esplendorosa
Abriu-se a porta da nova arca de Noé
E podemos entrar para sobreviver ao dilúvio.
Abriu-se na carne ainda rubra o mar vermelho
E podemos atravessar para a terra prometida.
Rasgou-se o véu do santo dos santos
E a presença de Deus fica à mão de todos
Visível no homem exposto à morte
Entregue por amor
Cordeiro destinado ao sacrifício.
E corre sangue e corre água
Uma fonte se abre para o homem
Um rochedo novo neste peregrinar desértico.
Uma padieira e um umbral tingidos
Sob o qual nos refugiamos
À passagem do anjo exterminador
Neste exílio egípcio.
Neste pórtico nos acolhemos e refugiamos
Protege-nos Senhor.

Ilustração: “Crucifixão com frade dominicano”, atribuído a Hermann Schadeberg, Museu de Unterlinden.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

As pessoas logo reconheceram Jesus (Mc 6,54)

Conta-nos São Marcos que Jesus e os discípulos atravessaram o lago e aportaram em Genesaré e logo que Jesus pôs os pés em terra a população o reconheceu.
Facto surpreendente porque este reconhecimento leva a atitudes verdadeiramente inusitadas. Ao reconhecerem Jesus vão pelas aldeias procurando os doentes e trazem-nos para que Jesus os cure ou os deixe pelo menos tocar na orla do manto.
Na simplicidade do relato São Marcos mostra-nos que o reconhecimento de Jesus tem consequências, e consequências que se traduzem em gestos de caridade e solidariedade, em atitudes de evangelização.
Depois do encontro com Jesus e do seu reconhecimento, ou seja da experiência de que ele é o Filho de Deus, o Salvador, é impossível não partir para anunciar aos outros, para trazer os outros ao mesmo conhecimento. Faz parte da confirmação do conhecimento de Jesus essa necessidade de o dar a conhecer.
Como diz São Tomás de Aquino relativamente ao bem, podemos dizer em relação ao conhecimento de Jesus, é por si mesmo comunicável, difusor, incapaz de se conter em si mesmo, necessita difundir-se para que outros possam gozar da mesma presença e reconhecimento.
Realidade dinâmica que nos coloca algumas interrogações, pois quando silenciamos a Boa Nova de Jesus, quando não o damos a conhecer, podemos perguntar até que ponto o conhecemos e reconhecemos.
Quando algo de bom nos acontece com que alegria corremos a partilhar com outros, a anunciar a novidade. Contudo, com Jesus como nos deixamos ficar pelo silêncio, tantas vezes pela indiferença, por um anúncio tímido e envergonhado, como se não houvesse nada para partilhar, algo de bom para anunciar.
E por isso mesmo, alguns dos nossos amigos e conhecidos jazem nos seus catres de dor e solidão, muitas vezes de desespero, pois não há quem lhes anuncie a alegria da Boa Nova de Jesus, não há quem os transporte até à porta onde se encontra Jesus para pelo menos tocarem a orla do manto.
Que a atitude dos habitantes de Genesaré nos descomplexe da timidez de anunciar Jesus e no incentive a trazer os nossos amigos e conhecidos a tocar pelo menos a orla do manto, a humanidade do Filho de Deus que é a nossa humanidade.

Ilustração: “A Santa Rússia”, de Mikhail Vasilievic Nesterov, Rússia.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Homilia do V Domingo do Tempo Comum

O trecho do Evangelho de São Marcos que escutámos coloca diante de nós a hipótese daquilo que seria o quotidiano da vida de Jesus naqueles três anos que medeiam entre o início da sua vida pública e a sua morte em Jerusalém.
Dias marcados por um ritmo alucinante em que a pregação se conjugava com os milagres e as curas, as paragens e a visita a casa dos amigos com uma deambulação pelas aldeias, as exigências da multidão frenética com o silêncio da oração isolada.
Um ritmo de vida que poderíamos dizer alucinante, muito próximo ou parecido com o nosso, com o que levamos nos tempos presentes, salvaguardadas as distâncias e as diferenças.
É neste ritmo, usando a expressão de Job, mais veloz que a lançadeira de um tear, que muitas vezes e frequentemente caímos no desânimo e no desespero, agitando-nos angustiados desde a manhã até à noite, como se a vida não passasse de um sopro.
Tudo nos parece vão e sem sentido, uma luta por qualquer coisa que no fundo não nos chega a satisfazer, a preencher as expectativas, em que nos sentimos como escravos ou mercenários lutando e trabalhando para outro alguém que verdadeiramente gozará do fruto do nosso trabalho ou luta.
Sentimentos que levam a questionar-nos sobre a felicidade e contrastam com as palavras de São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios, em que nos diz que se fez tudo para todos para ganhar alguns a todo o custo. Ou seja, o esforço e o aparente sem sentido pode revelar-se pleno de sentido e de razões, pode ser felicidade, se estiver presente o objectivo do Evangelho.
É interessante e extremamente importante ver que São Paulo parte para a apresentação da sua missão e do seu trabalho alucinante, da liberdade que tem para o fazer e da obrigação a que se sente chamado. A sua fé, o seu encontro com Jesus responsabiliza-o a anunciar, a proclamar o Evangelho de Jesus a todos e sem desfalecer. Essa é a sua obrigação. Contudo, fá-lo com total liberdade, sem esperança de qualquer reconhecimento ou compensação para além do próprio Evangelho que anuncia, da própria realidade a que se sente obrigado.
E à luz destas duas circunstâncias tudo ganha um novo sentido, tudo pode ser lucro ainda que aos olhos humanos e do mundo possa parecer uma humilhação, uma perda de tempo ou desperdício de energias. Há um extra que faz com que o sentido seja recuperado e transcendente ao imediato e visível.
Como cristãos, do relato do quotidiano de Jesus e do sentido que São Paulo confere a cada uma das coisas que realiza no seu quotidiano, derivam desafios e responsabilidades que não podemos deixar de assumir para que o nosso próprio quotidiano e as nossas actividades sejam recentradas na verdade da sua mesma existência.
Assim, não podemos esquecer que tal como Jesus estamos convocados a fazer o bem, a ajudar o outro, incluindo a “sogra” que pode estar doente. A caridade deve marcar a nossa atitude e postura face aos outros.
E como não é fácil, Jesus não deixou de nos dar o exemplo, nem de nos mostrar a fonte para superarmos essas dificuldades, a oração, essa oportunidade e momento de nos reencontrarmos com Deus, connosco próprios e com aqueles que nos rodeiam e as tarefas que temos que cumprir.
É na oração e a partir dela que as realidades adquirem uma nova dimensão, em que o fazer-se tudo para todos ganha sentido, porque ainda que os ganhos sejam poucos eles são sempre uma participação numa realidade maior e total, são sempre participações do activo da empresa, usando uma linguagem financeira.
Neste sentido pode ajudar-nos uma ideia que marca a espiritualidade ortodoxa, mormente dos “staretz” russos, e que podemos encontrar presente numa passagem do “Diálogo de Motovilov com Serafim de Sarov”, e que é a ideia da transfiguração.
Se Motovilov diz a Serafim de Sarov que não o pode olhar de caras porque ele brilha de luz, Serafim de Sarov responde a Motovilov que se o vê brilhar é porque também ele brilha.
Somos chamados a transfigurar-nos em luz para poder iluminar os outros e iluminar todas as realidades dessa mesma luz divina que partilhamos e usufruímos pela intimidade divina em que vivemos. E nessa luz, nesse processo de transfiguração, não há realidades sem sentido, ou angustiantes, porque mesmo a realidade mais pavorosa como a morte se transfigura em acolhimento nos braços do Pai.
Peçamos por isso ao Senhor que nos cative a frequentar a sua intimidade, a gozar da sua luz transfigurante, para que também nós transfigurados possamos iluminar e transfigurar tudo o que toquemos ou façamos. Apenas pelo gozo da mesma luz divina em tudo e em todos.

Ilustração: “Ícone da Transfiguração”, do Mosteiro Spaso-Preobrazhensky, Yaroslavl.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ordenação de frei Gonçalo Diniz no Convento de Cristo Rei no Porto

Aproveitando a ocorrência do trigésimo terceiro aniversário de elevação a paróquia da igreja do Convento de Cristo Rei, no Porto, que aconteceu com o decreto de D. António Ferreira Borges de 2 de Fevereiro de 1979, celebrou-se hoje a ordenação de presbítero de frei Gonçalo Pereira Diniz.
Entre a família de sangue e religiosa, muitos amigos e convidados e os fiéis da paróquia, o Bispo Emérito do Porto D. João Miranda Teixeira, concedeu a ordem do presbiterado ao frei Gonçalo, no decorrer da celebração da Eucaristia ao meio-dia de hoje, dia quatro de Fevereiro.
Seguiu-se depois um almoço convívio no Centro Paroquial, no qual não só pudemos felicitar o novo presbítero que a Província de Portugal da Ordem dos Pregadores tem, como também conviver com os irmãos e amigos que já há algum tempo não víamos.
Foi um momento de alegria do qual deixamos aqui o testemunho fotográfico da celebração litúrgica.

Preparação do cortejo de entrada.
Cortejo de entrada para a celebração.
O Presidente da celebração D. João Miranda Teixeira junto do altar e rodeado do Prior Provincial frei José Manuel Nunes, do Prior do Convento do Porto frei Miguel Martins dos Santos e do Pároco de Cristo Rei frei Pedro Fernandes.
Frei Gonçalo Diniz e família no momento da homilia.
Frei Gonçalo no momento da promessa de obediência ao Bispo e aos seus legítimos superiores.
Prostração do frei Gonçalo no momento da Ladainha dos Santos.
Momento em que o Bispo D. João Miranda Teixeira reza a Oração Consacratória.
Imposição das mãos por parte dos irmãos presbíteros presentes.
Abraço de felicitação e acolhimento.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pede a cabeça de João Baptista. (Mc 6,24)

O Evangelho de São Marcos narra de forma detalhada a morte de João Baptista, uma morte provocada pelo capricho de uma mulher infiel, pela fraqueza de um rei que faz uma promessa tonta, e pela fidelidade do profeta à Lei de Deus. Conjugam-se em oposição as fidelidades e infidelidades e deparamos com um crime bárbaro.
Diz-nos São Marcos que Herodes gostava de ouvir João, que tinha até por ele uma certa simpatia e por isso o tentava proteger. Simpatia um tanto ou quanto limitada porque Herodes mantinha João na prisão e não deixava de se sentir incomodado sempre que ele lhe apontava os comportamentos incorrectos.
Por outro lado temos Herodíades, a mulher que Herodes tinha tomado de seu irmão Filipe, e que face às acusações de João Baptista não perde a oportunidade de o silenciar. A sorte, ou a coincidência, naquele banquete ofereceu-lhe a oportunidade de se livrar dele de uma vez para sempre. “Pede a cabeça de João Baptista”.
Herodes face à promessa feita à filha de Herodíades e ao respeito e consideração dos convidados, não recusa o pedido, não se deixa vencer pela simpatia por João, mas bem pelo contrário deixa-se vencer e dominar pela imagem que tem que aparentar diante dos convidados. “Que tragam a cabeça de João numa bandeja”.
É significativo que São Marcos narre este acontecimento, a morte de João Baptista, no intervalo que vai do envio dos doze em missão e o seu regresso, e o inicie com a indicação de que Herodes tinha ouvido falar de Jesus. Ao fazer isto, o autor do Evangelho quer colocar-nos perante o perigo do anúncio de Jesus, da fidelidade e dos custos que ela pode acarretar.
Herodes simpatiza com João mas não vai além disso, como também não irão além disso muitos outros que ouvirão falar Jesus ou falar de Jesus. Entre o ouvir e o compromisso há uma distância que é necessário atravessar.
E atravessar essa distância significa estar disposto a ser fiel aos princípios e à palavra, a manter a coerência sem medo e sem qualquer respeito humano ou vergonha. Há princípios dos quais não se pode abdicar, mesmo que isso nos possa colocar em oposição com outros.
E tal como Herodíades, haverá sempre alguém que pedirá a cabeça, que tentará eliminar aquele que objecta, que discorda, que levanta questões e incomoda, que procura ser fiel, espelhando na sua fidelidade a infidelidade dos outros.
A missão de ser discípulo de Jesus, de anunciar a sua Boa Nova, está indelevelmente marcada por esta condição de contradição, de ser sinal de contradição, e por isso inevitavelmente haverá sempre alguém a pedir a cabeça.
Peçamos ao Senhor Jesus a graça e a coragem de não pactuarmos, de não deixarmos de ter sempre presente a fidelidade a que o Senhor nos chama a viver, uma fidelidade a construir em cada dia e em cada momento por pequenos actos corajosos de amor por Aquele que é o Senhor da vida.

Ilustração: “O Banquete de Herodes”, de Lucas Cranach o Velho, Wadsworth Atheneum.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Apresentação de Jesus no Templo (Lc 2,22-40)

Passados quarenta dias sobre o seu nascimento eis que os pais do menino Jesus, Maria e José, o trazem ao templo para cumprir o que estava prescrito na Lei sobre o resgate dos primogénitos.
No templo e à sua espera encontra-se Simeão, esse velho piedoso e justo que toda a vida tem esperado por aquele momento, por ver a consolação de Israel. Que surpresa e que ternura, ver aquele velho homem com o menino de quarenta dias nos braços, um menino que é um dom, uma revelação que confirma o fim do seu tempo de espera.
Tem assim sentido a festa e tradição ortodoxa que termina o tempo de Natal com esta festa que designa “Festa do Encontro”, porque de facto se encontram o que espera e o esperado das nações.
Em Simeão revela-se esta nossa condição de seres em expectativa, em esperança, realidades que derivam do mesmo amor, porque só espera aquele que ama. E Simeão amava o seu Senhor, esperava pacientemente por se encontrar com ele, como lhe tinha sido prometido e revelado.
E face ao menino, àquele pobre menino, Simeão canta de alegria que agora pode partir em paz, que o Senhor o pode levar, pois viu a luz das nações, a salvação oferecida a todos os povos. E tudo naquele menino, acarinhado entre os braços! Como é possível Simeão veres tanto em tão pequena criança?
Este reconhecimento, esta visão só é possível àqueles que vivem na escuta e na expectativa, vigilantes e atentos, confiantes que o Senhor vem, mesmo que tarde, e por isso apaixonadamente se espera, permanecendo no amor e na escuta atenta.
Concede-nos Senhor esse dom de te aguardarmos, de estarmos vigilantes na expectativa, para que te possamos reconhecer e dizer como Simeão “é agora Senhor que vens”!

Ilustração: “O Cântico de Simeão”, de Aert de Gelder, na Real Galeria de Pintura Mauritshuis.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

E ficavam perplexos a seu respeito. (Mc 6,3)



A visita de Jesus à sua terra é surpreendente pelo contraste e perplexidade que provoca naqueles que o ouvem ensinar na sinagoga. Tão surpreendente que Jesus se vê obrigado a confessar que nenhum profeta é bem acolhido na sua terra.
Há naqueles homens e mulheres que o escutam um dilema tremendo, porque são capazes de reconhecer a sua sabedoria extraordinária, a forma como Jesus fala com autoridade, são capazes de se admirar, mas depois chocam com o conhecimento que tinham da sua família e do seu passado na aldeia.
E perante este conhecimento ficam à porta da adesão a Jesus, não são capazes de passar do seu conhecimento histórico para a nova realidade que se abre diante deles. Bloqueio que é tanto mais flagrante quanto mais são capazes de fazer uma comparação, têm elementos que lhes permite aferir da diferença, consubstanciar uma opção.
Contudo, este dilema e esta recusa de os seus o acolherem, de reconhecerem a sua missão, mostra como o mistério e o processo do acolhimento não é uma questão estritamente racional; há o dom da graça, há o sentimento de necessidade, há a abertura a uma novidade, há o mecanismo do dom e do amor.
E é isto que este episódio nos mostra, que o acolhimento de Jesus e da sua verdade se processa por uma abertura sem preconceitos, livre, sem elementos que permitam julgar. Jesus é um dom, uma oferta de Deus, e portanto resta-nos acolhê-lo, fazê-lo nosso, com tudo o que encerra de novidade, de inusitado, de extravagante face às nossas expectativas e juízos.
Como a criança extasiada face ao presente que lhe é oferecido, deixemo-nos nós também extasiar pela oferta de Deus que vem até nós, e que virá sempre que nos abrirmos ao acolhimento.

Ilustração: “Os rapazes das bolas de sabão”, de Giulio del Torre.