domingo, 14 de abril de 2013

Homília do III Domingo do Tempo Pascal

O Evangelho deste terceiro domingo da Páscoa termina com o convite de Jesus a Pedro, “segue-me”. É um convite pessoal que, se no texto evangélico se dirige Pedro, na sua actualidade se dirige a cada um de nós, hoje se dirige a cada um de nós.
É o remate de um encontro, da terceira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, marcado por gestos de grande ternura e intimidade, mas também de grande exigência na medida em que Jesus confronta Pedro com a verdade do amor. Só pode seguir Jesus quem vive na sua amizade e com a sua verdade.
Na sucessão de momentos que marcam este encontro temos antes de mais os gestos e os sinais da grande ternura de Jesus, do carinho e do amor de Jesus pelos seus amigos e discípulos. Não podemos deixar de olhar para a forma íntima, amigável, como Jesus trata os discípulos quando lhes aparece, “rapazes tendes alguma coisa de comer”.
É uma expressão que identifica uma relação marcada pela cumplicidade, por experiências de grande intimidade e conhecimento, que coloca os intervenientes numa dimensão de igualdade e de familiaridade.
Quando Jesus lhes recomenda que deitem as redes para o outro lado do barco esta mesma cumplicidade e conhecimento estão subjacentes, pois não há qualquer questionamento de autoridade. Os discípulos ainda que não reconhecendo Jesus reconhecem a sua experiência de pescador. É como se Jesus fosse de todo o crédito no que lhes recomendava.
Após o milagre, e o reconhecimento por parte do discípulo amado, quando chegam a terra, os discípulos encontram já sobre as brasas peixe e pão, a refeição preparada por Jesus. É um sinal da ceia que celebraram antes da paixão, mas para a qual agora são convidados a contribuir do seu trabalho e do seu esforço, são convidados a ter um papel activo trazendo alguns dos peixes que pescaram.
Este primeiro momento do encontro mostra-nos assim a atenção de Jesus, a sua doçura, o seu carinho e amizade para com os discípulos, uma atenção e um carinho que também hoje se faz sentir por cada um de nós, por todo o homem e toda a mulher.
Como chamou os discípulos por rapazes e lhes preparou a comida para os confortar depois de uma noite de trabalho, também hoje a nós nos trata com intimidade e nos prepara a comida, nos oferece o seu alimento na Palavra que escutamos e no Pão que comungamos.
Contudo, não podemos deixar de ter presente que esta proximidade e intimidade de Jesus exigem uma reciprocidade, exigem uma fidelidade, que encontramos expressa nas perguntas que Jesus faz a Pedro sobre o amor.
Face à tripla negação de Pedro no momento da paixão, Jesus interroga por três vezes o discípulo sobre o seu amor, conduzindo desta forma o discípulo ao sentido do amor de Jesus e ao amor que lhe é pedido. Não se trata de uma condenação nem de um teimar reclamante sobre a falha de Pedro, mas de uma dialéctica conducente à consciência de que apesar das faltas o amor é mais importante, o amor pode superar a falha.
O amor e a solicitude de Jesus não se deixam embaraçar pelas falhas e traições e os discípulos, como cada um de nós, deve libertar-se de qualquer embaraço, qualquer sentimento de culpa que possa impedir a relação e a intimidade com aquele que nos ama.
Hoje iniciamos também a quinquagésima semana de oração pelas vocações e ao falarmos de vocação e vocações não podemos deixar de ter presentes este amor solícito que Jesus manifesta pelos seus discípulos e a fidelidade amorosa que nos pede para além das nossas fraquezas e defeitos.
Tal como há dois mil anos Jesus continua a chamar de modo particular e pessoal cada homem e mulher ao seu seguimento, um seguimento que não pode esquecer a condição humana e as suas limitações, nem prescindir da confiança total no amor de Deus.
Quer se seja sacerdote, religiosa consagrada, casado ou solteira, qualquer que seja a vocação a que o Senhor chama, uma certeza é necessariamente fundamental, o chamamento de Deus é sempre no sentido de transformar o ordinário e comum em algo verdadeiramente extraordinário.
E tal é possível e acontece no jogo do amor de Deus e do amor do homem, na paixão de Deus pelo homem e na resposta fiel deste para com Deus.
 
Ilustração: “Apascenta as minhas ovelhas”, de Peter Paul Rubens, Wallace Collection, Londres.   

  

2 comentários:

  1. Frei José Carlos,

    Ao ler esta maravilhosa Homilia do III Domingo do Tempo Pascal,tão rica de sentido e profunda,que nos propôs para a nossa reflexão,que muito gostei.Bem-haja,Frei José Carlos,pelas belas palavras partilhadas,que nos dão força para prosseguir o caminho,tantas vezes com mais dificuldades de ultrapassar.Como nos diz o Frei José Carlos,mas tal é possível e acontece no jogo do amor de Deus e do amor do homem,na paixão de Deus pelo homem e na resposta fiel deste para com Deus.Obrigada,pela partilha profunda e magnificamente ilustrada.Que o Senhor o ilumine o guarde e o proteja .Desejo-lhe uma boa semana.Uma boa noite e um bom descanso.
    Um braço fraterno.
    AD

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  2. Frei José Carlos,

    Leio e fico a meditar e a saborear cada uma das palavras do texto da Homília do III Domingo do Tempo Pascal que teceu e partilha. Acontece-me como provavelmente a alguns de nós quando leio o Evangelho imaginar o cenário onde os acontecimentos se desenrolaram e tentar perceber a novidade de Jesus, o que trouxe de novo à nossa condição humana, quando se fez um de nós excepto no pecado.
    Como Frei José Carlos nos recorda …” É o remate de um encontro, da terceira aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos, marcado por gestos de grande ternura e intimidade, mas também de grande exigência na medida em que Jesus confronta Pedro com a verdade do amor. Só pode seguir Jesus quem vive na sua amizade e com a sua verdade.”…
    O local escolhido por Jesus neste terceiro encontro com os discípulos se é familiar aos mesmos antes de seguirem Jesus, o mar, hoje, para muitos de nós, significa não só um meio onde é possível as povoações ribeirinhas irem buscar a sobrevivência, como no passado, e parte da alimentação humana e outros recursos, via de trocas comerciais, mas tem uma outra dimensão, é igualmente, espaço de libertação, de horizonte sem limite, de contemplação, silêncio e beleza. E penso que é nesta última dimensão que Jesus escolheu o mar para como nos afirma no texto, num “primeiro momento do encontro” mostrar-nos …” a atenção de Jesus, a sua doçura, o seu carinho e amizade para com os discípulos, uma atenção e um carinho que também hoje se faz sentir por cada um de nós, por todo o homem e toda a mulher”. Mas Jesus vai mais longe como Frei José Carlos nos salienta ao mostrar-nos que veio não para nos condenar mas para amar e salvar todos e cada um de nós, na Sua infinita misericórdia.
    E, continuo a citar algumas das passagens do texto que me tocam …” Como chamou os discípulos por rapazes e lhes preparou a comida para os confortar depois de uma noite de trabalho, também hoje a nós nos trata com intimidade e nos prepara a comida, nos oferece o seu alimento na Palavra que escutamos e no Pão que comungamos.
    Contudo, não podemos deixar de ter presente que esta proximidade e intimidade de Jesus exigem uma reciprocidade, exigem uma fidelidade, que encontramos expressa nas perguntas que Jesus faz a Pedro sobre o amor. (…)
    (…) O amor e a solicitude de Jesus não se deixam embaraçar pelas falhas e traições e os discípulos, como cada um de nós, deve libertar-se de qualquer embaraço, qualquer sentimento de culpa que possa impedir a relação e a intimidade com aquele que nos ama. (…)
    (…)Tal como há dois mil anos Jesus continua a chamar de modo particular e pessoal cada homem e mulher ao seu seguimento, um seguimento que não pode esquecer a condição humana e as suas limitações, nem prescindir da confiança total no amor de Deus.”…
    Grata, Frei José Carlos, pela partilha da Homília, profunda, ilustrada com beleza, pelas palavras de estímulo e de confiança que nos transmite. Que o Senhor o ilumine, o guarde e o proteja.
    Bom descanso.
    Votos de uma boa semana.
    Um abraço fraterno,
    Maria José Silva

    P.S. Permita-me, Frei José Carlos, que partilhe de novo o texto de uma oração.

    A ESTRADA
    DA CONFIANÇA

    Faz-nos trilhar, Senhor, a estrada da confiança. Dá-nos um coração capaz de amar serenamente aquilo que somos ou que não somos, aquilo com que sonhámos ou as coisas que não escolhemos e que, contudo, fazem parte da nossa vida.
    Ensina-nos a devolver a todos os Teus filhos e a todas as criaturas a extraordinária Bondade com que nos amas. Não permitas que o nosso espírito se feche no medo ou no ressentimento: ensina-nos que é possível olhar a noite não para dizer que pesa em todo o lugar o escuro, mas que a qualquer momento uma luz se levantará.
    Dá-nos ousadia de criar e recriar continuamente mesmo partindo daquilo que não é ideal, nem perfeito. E quando nos sentirmos mais frágeis ou sobrecarregados recebamos, com igual confiança, a nossa vida como um Dom e cada dia como um dia de Deus.

    (In, Um Deus Que Dança, Itinerários para a Oração, José Tolentino Mendonça, 2011

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