domingo, 31 de maio de 2009

Homilia Domingo de Pentecostes

A Igreja celebra hoje, passados cinquenta dias sobre a Páscoa, o domingo de Pentecostes. Ao falarmos de Pentecostes imediatamente nos vem à memória a narração que escutávamos na primeira leitura do Livro dos Actos dos Apóstolos.
É essa a primeira imagem do Pentecostes, do grupo dos discípulos reunidos no cenáculo, com a Virgem Maria presente, e sobre os quais bailam as línguas de fogo do Espírito Santo. É esta também a imagem mais comum na arte, na pintura e na escultura.
Contudo, a liturgia da Palavra deste domingo apresenta-nos um outro relato do Pentecostes, o relato do Evangelho de São João, e que difere bastante do relato feito pelo evangelista Lucas no livro dos Actos dos Apóstolos. No Evangelho de São João a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos acontece durante uma aparição de Jesus após a sua ressurreição.
Para compreendermos esta diferença narrativa temos que ter presente alguns dados exteriores às leituras que escutámos. Assim, a narração dos Actos dos Apóstolos é a consequência da Ascensão de Jesus ao céu e que Lucas narra no final do seu Evangelho. É também a consequência, ou melhor, o cumprimento da promessa de Jesus, pois Jesus tinha prometido aos seus discípulos que depois de subir para o Pai lhes enviaria o Espírito Santo para os fortalecer na missão de testemunharem a sua Boa Nova.
No Evangelho de São João a Ascensão de Jesus ao céu é inerente à ressurreição, não é um acontecimento independente e isolado e por isso na manhã de Páscoa quando Jesus se encontra com Maria Madalena diz-lhe deixa-me porque ainda não subi para o meu e vosso Pai. A aparição de Jesus aos discípulos narrada por São João é assim uma aparição de Jesus ascendido ao céu.
Habitualmente lemos esta aparição no contexto da ressurreição, no contexto das manifestações de Jesus como ressuscitado. Ao apresentar-se hoje como leitura do acontecimento do Pentecostes não podemos deixar de a meditar na sua riqueza e no que ela nos pode ajudar a compreender e a viver o dom do Espírito Santo.
Neste sentido temos que olhar para as palavras de Jesus, para essa saudação de Jesus para que a paz esteja com os discípulos. Sendo a paz um dom do Espírito Santo como vemos na leitura da Carta de São Paulo aos Gálatas é surpreendente que Jesus apele à paz ao apresentar-se. Mas a verdade é que é necessário que o homem tenha o seu coração em paz para que o Espírito Santo possa vir habitar nele.
Há uma necessidade de paz humana, de uma paz que resulta da vitória do bem sobre o mal, ou como diz São Paulo aos Gálatas, sobre as tendências da carne, para que o Espírito Santo venha e outorgue a verdadeira paz que vem do Espírito Santo. Há necessidade de uma paz limitada, frágil, possível às nossas limitações humanas para que a paz total e verdadeira de Deus aconteça.
A vinda do Espírito Santo não acontece no entanto sem a dimensão do sacrifico, da crucifixão, de que também São Paulo fala. Ao mostrar aos discípulos o seu lado aberto e as feridas dos cravos que o prenderam à cruz, Jesus mostra esse caminho de sofrimento pelo qual o Espírito Santo nos chega. Se Jesus não se tivesse entregue, se não tivesse cumprido a vontade do Pai, não existiria a possibilidade da vinda do Espírito Santo. Como Ele próprio diz no Evangelho de São João, é necessário que sofra e morra às mãos dos infiéis para que o Espírito possa vir.
Esta dimensão sacrificial não pode ser esquecida, nem ao fazer-se memória de Jesus Cristo, nem ao querer-se ser fiel aos seus mandamentos. Há uma dimensão de morte inerente à vinda do Espírito, a morte de todas as obras da carne, do mal, que impedem essa vinda. E não podemos escamotear a questão não falando da morte, desse sofrimento que é inerente a qualquer nascimento e vitória. Não é fácil vencermos as nossas tendências mais carnais e possessivas, mas é necessário para que o Espírito venha.
E ao vir, como nos diz São João, vem como um sopro, como uma nova vida que se inicia. Este pormenor de Jesus soprar sobre os Apóstolos o Espírito Santo evoca a criação do homem no princípio do mundo, quando Deus pegando no homem que tinha formado do pó da terra lhe insuflou a vida pelas narinas. A vinda do Espírito Santo é assim uma nova criação, faz dos homens carnais e condenados ao pó da terra, seres espirituais e elevados à glória do céu. A partir daqui a vida é outra, é a vida do Espírito que não pode deixar de se traduzir em comportamentos e atitudes diferentes quer face à vida, quer face à morte, quer face à alegria quer face ao sofrimento, quer face ao bem quer face ao mal.
Cabe-nos hoje na vida, perante as suas múltiplas realidades fazer a experiência da descida do Espírito Santo. Pode acontecer que suceda num momento especial, como o relatado pelos Actos dos Apóstolos, mas o mais certo é que vá acontecendo e ocorrendo no nosso dia a dia e no nosso fazer quotidiano, e se revista das dimensões com que se revestiu na aparição aos discípulos de que São João dá testemunho. Para viver essa vinda temos que estar atentos e perceber que em momentos como aqueles em que perdoamos, que em momentos em que fazemos alguma coisa gratuitamente, que em momentos em que procuramos construir o bem e a felicidade, o Espírito Santo se faz presente e desce sobre nós e sobre aqueles que estão connosco.
Vinde Espírito Santo, enchei o coração dos vossos fiéis e renovaremos a face da terra.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

O Saque Francês de 1808 ao Mosteiro de Santa Catarina de Sena de Évora

Durante o saque de Évora pelo exército francês nos fatídicos dias 29, 30 e 31 de Julho de 1808, como o convento de São Domingos, também os mosteiros femininos dominicanos foram assaltados e espoliados dos seus bens.
D. Maria Cândida Amália da Conceição Boto do Amaral fez para a obra “Évora Lastimosa” a relação do acontecido e das perdas sofridas no Mosteiro de Santa Catarina de Sena.
Como diz, e graças a Deus e a alguns guardas que acudiram no sábado à tarde, dia 30, não sofreram nenhuma perda de vida, nem nenhum atentado físico, embora muitas vezes tivessem estado em perigo de morte. E não só as monjas da comunidade, mas também o numeroso grupo de pessoas que se tinha refugiado no mosteiro na esperança de encontrar alguma protecção.
O assalto ao mosteiro começou imediatamente após a entrada das tropas francesas na cidade, eram quatro horas da tarde. Escalaram a porta da portaria e teriam feito o mesmo à porta que dava para a clausura se não lhe tivesse sido aberta. Foi uma decisão da comunidade, que teve como consequência a posterior invasão da clausura por bandos de soldados e a destruição de tudo o que encontraram. Segundo diz D. Maria Cândida roubaram e quebraram tudo o que era das religiosas e das pessoas que com elas estavam refugiadas.
Na igreja roubaram todas as imagens sagradas e quebraram a imagem do crucificado que presidia ao altar-mor. No âmbito das pratas e alfaias litúrgicas é dito que roubaram uma âmbula, duas patenas, umas colherzinhas e a lâmpada do Capítulo, e não levaram mais porque o resto já tinha ido.
A relação de D. Maria Cândida é muito breve e concisa, mas em alguns pontos levanta algumas questões, como no caso das pratas. Ao dizer que já tinham ido, não nos diz para onde nem por quem. Teriam sido roubadas? Pelo apresentado parece que não, que tinha havido outra circunstância que as tinha feito desaparecer. Teriam sido enviadas para Lisboa, de acordo com a ordem dada por Junot e que o Prior Provincial frei José Inácio Sanches enviou para todos os conventos e mosteiros, para que lhe fosse dada cumprimento? É certamente o mais provável, que as religiosas tivessem cumprido a ordem de Junot e tivessem enviado as melhores pratas que tinham, ficando apenas com a necessária para o culto e roubada neste momento do saque.
Outra questão que este relato suscita é a das imagens roubadas. Para serem roubadas e levadas pode-se supor que eram imagens de vulto pequeno, fáceis de transportar e certamente preciosas para originarem esse interesse e o roubo consequente. Seria de facto assim, ou ao dizer que foram roubadas as imagens a relatora está-se apenas a referir aos resplendores de prata? Porque nos outros relatos dos assaltos é isso que interessa à avidez dos soldados franceses. O que se teria de facto passado?
No Mosteiro de Santa Catarina de Sena ao contrário do que aconteceu em São Domingos e em muitas outras casas religiosas não houve profanação do sacrário e das sagradas espécies, pois como nos é dito apesar dos fortes puxões não conseguiram abrir o sacrário. Para o autor da obra “Évora Lastimosa” este facto compensa todas as demais perdas acontecidas.
[1]

[1] Cf. SILVA, José Joaquim da – Évora Lastimosa II, in O Saque de Évora pelos Franceses em 1808. Lisboa, Caleidoscópio, 2008, 110.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Devoção das Quinze Terças-Feiras

4ª TERÇA-FEIRA – QUARTO GOZO – VIDA E PAZ
Saudação
Deus vos salve honra da Igreja, Domingos piedosíssimo. Deus vos salve protector de todos os que a vós recorrem. Deus vos salve, celeste habitante, socorrei-me com vossos rogos.
Meditação
Considera como o Paraíso com um rio de paz consola e alegra a alma de nosso Pai São Domingos, porque possui uma vida de eternidade felicíssima, vida beata, imortal, segura, tranquila, casta, pura; vida santa que não experimenta tristezas, nem dores, nem morte; vida santa sem manchas, sem ânsias, sem perturbação, onde não há lisonjas da carne nem enganos, onde não há inimigo que o combata nem inferno que o atemorize, e onde logra gozos infinitos.
Solilóquio
Atende ó alma se queres paz e alegria, é necessário que te voltes para Deus que é a fonte da verdadeira paz. Essa tua vida é caduca, frágil, incerta, cansada, impura, e cheia de misérias e pecados, e quanto mais a amas tanto mais te atormenta. O espírito da paz é dom do Céu; se és toda terrena, dada aos prazeres dos sentidos, como podes querer possuir a paz?
Súplica
Altíssimo Senhor, eu busco sempre a paz, e não a acho, porque sempre temo o que mereço por minhas culpas. A minha consciência me remorde, os segredos do meu coração me repreendem, e se o amor me ministra pensamentos de salvação logo o temor me ocupa o coração. Ai que dos meus pecados vem tanto susto! Consolai-me ó Jesus, e vós ó Santíssimo Patriarca alcançai-me que a minha alma goze uma paz de santa confiança. Ámen.

Pai-Nosso, Dez Avé Marias, Glória ao Pai, Salvé Rainha e o Responsório de São Domingos como na primeira Terça-feira.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Homilia Domingo da Ascensão do Senhor

Celebramos neste domingo a festa da Ascensão do Senhor ao céu. A leitura que escutámos dos Actos dos Apóstolos é o texto que mais desenvolve este acontecimento, acontecimento que não encontramos relatado nem no Evangelho de São João nem no Evangelho de São Mateus. Face a esta constatação ficamos até com a impressão que os discípulos que acompanharam Jesus, que conviveram com Jesus não acharam muito importante esta elevação ao Céu.
E a verdade é que para Jesus este acontecimento não é por si muito significativo, o importante e verdadeiramente significativo foi a ressurreição e por isso é que nem Mateus nem João falam da ascensão, porque para eles foi de facto a ressurreição o momento da ascensão. Isso se pode constatar quando Jesus se encontra com Maria Madalena e lhe diz “deixa-me porque ainda não subi para o meu Pai e vosso Pai”.
A ascensão de Jesus ao céu, como momento final da sua passagem pela condição humana, é importante para a comunidade dos crentes, dos discípulos de Jesus e para cada um dos crentes em particular, e por isso é que o celebramos com uma festa particular, para salientar essa importância e a sua dimensão.
Um primeiro ponto a considerar nesta celebração e a partir deste momento é que desde já o homem, cada um de nós, tem junto de Deus um advogado de defesa. E um advogado que tem conhecimento da nossa condição de seres finitos, de seres frágeis e limitados e por isso mesmo é capaz de se compadecer por nós e de interceder por nós junto do Pai.
Ainda neste aspecto temos que considerar que à direita de Deus Pai se sentou o Filho, mas sentou-se com Ele a nossa natureza humana e por assim dizer cada um de nós. Ora isto deve dar-nos uma grande confiança, uma grande esperança, mas também um sentido muito forte da responsabilidade que tal facto acarreta. Como filhos de Deus, como seres divinos, que partilham da natureza e eternidade divina, a nossa vida, os nossos comportamentos e os nossos valores não podem continuar a ser os valores do mundo, da finitude e da nossa condição de pecadores. Temos que agir e devemos agir como filhos de Deus procurando como Jesus na sua condição humana conformar o mundo à vontade do Pai, aos planos de salvação e de felicidade de Deus.
O segundo ponto a considerar a partir da ascensão de Jesus ao céu é o seu mandamento de evangelização, de anúncio da sua boa nova a todos os homens. Ao partir para junto do Pai, Jesus deixa aos seus discípulos o mandato de anunciarem o seu amor a todos os homens. E nós como discípulos devemos levá-lo a cabo não só por ser um mandamento seu, o mandamento da despedida, mas porque temos consciência da nossa natureza, dessa realidade divina de que falava antes.
Como seres que somos filhos de Deus, que conhecemos o projecto de amor de Deus, que fazemos a experiência desse mesmo amor, não podemos deixar de anunciar o projecto de Deus, como diz São Paulo não podemos deixar de dar razões da nossa esperança, da esperança a que fomos chamados.
E para o fazer temos que ter em atenção um equilíbrio tenso, uma realidade que se prende a dois pólos opostos e de que a pergunta dos anjos aos discípulos “porque estais a olhar para o céu” é a expressão mais veemente.
Para anunciar Jesus Cristo, o projecto de salvação de Deus, temos que olhar para o céu, temos que fazer a experiência pessoal e intima da revelação de Deus. Ninguém pode anunciar aquilo que não tem, aquilo que não vivenciou e fez vida sua. Só depois disso o anúncio terá credibilidade, terá aceitação, porque já não será um discurso retórico, mas será um testemunho, e um testemunho é muito mais comunicador.
Contudo, e esta é uma das grandes tentações, podemos reduzir o nosso testemunho a uma breve experiência, a um breve momento, refugiando-nos nessa outra experiência da intimidade com Deus. Ao fazê-lo estamos a contradizer o mandamento de Deus, que nos mandou anunciar e portanto devemos no nosso dia a dia, na nossa vida procurar encontrar esse equilibro, essa capacidade que nos permite encontrarmo-nos com Deus para fazer a experiência da sua intimidade, mas que nos permite também ter tempo e disponibilidade para comunicar aos outros o fruto dessa intimidade e relação pessoal.
É este o grande desafio desta festa e celebração da ascensão de Jesus ao céu. Peçamos ao Senhor que nos ilumine para encontrarmos o equilíbrio adequado.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

São Domingos de Évora e os Franceses em 1808

O Saque dos Franceses no Convento de São Domingos de Évora em 1808

O Convento de São Domingos de Évora foi fundado em 1286. Nos primeiros anos era uma pequena casa que como diz frei Luís de Sousa servia apenas para agasalho dos frades. Com o passar dos anos e o crescimento da própria cidade de Évora o convento foi também crescendo, de forma que ao tempo de frei Luís de Sousa tinha capacidade para albergar e sustentar quarenta frades.
Quando os franceses entraram na cidade de Évora no fatídico dia 29 de Julho de 1808 encontraram uma casa e uma comunidade que não lhes podia passar indiferente. Pelo espólio artístico que chegou até nós, uma vez que o convento não chegou, pois foi totalmente demolido passado algum tempo depois da exclaustração, era uma casa rica e portanto apetecível para o saque.
Frei Sebastião da Silveira, membro da comunidade do convento de Évora à data da invasão e saque, relatou para a obra Évora Lastimosa o que nesse dia e seguintes aconteceu e o prejuízo que o convento teve.
Neste relato percebe-se que o Sacristão Mor, frei Vicente de Santa Barbara, foi um dos membros mais activos e diligentes em toda a situação, tanto no socorro e protecção de alguns membros, como na perda de grande parte das pratas, facto não devido à sua incúria mas inexperiência e até inocência.
Quando os franceses se aproximaram da cidade e portanto se tornou eminente o saque e as represálias, frei Vicente de Santa Barbara foi esconder os objectos de prata nos sacrários da igreja e capelas, com esperança de que ali estivessem salvaguardados. Foi um erro tremendo, porque entrando os franceses no convento e na igreja foram os primeiros lugares que vasculharam. O convento perdeu assim grande parte das suas alfaias litúrgicas, cálices, patenas, navetas, castiçais e toda a demais prata de serviço, escapando ao roubo apenas a magnífica custódia, o cofre de figuras de relevo usado na Quinta-feira Santa e a preciosa cruz da relíquia do Santo Lenho. A custódia e o cofre ficaram amassados e desfigurados na tentativa de comprovar se eram ou não de prata. Salvou estas peças, como diz frei Sebastião da Silveira, o fraco conhecimento de metais da soldadesca francesa.
Em relação às imagens, que em outros conventos e igrejas foram destruídas, mutiladas, ou que perderam os resplendores de prata, nada nos é dito, pelo que não podemos aferir dos estragos causados no património artístico que compunha a igreja e que certamente houve.
Mas se frei Vicente de Santa Barbara perdeu a prata da igreja, a sua diligência conseguiu salvar várias vidas, a daqueles que com ele se esconderam no campanário da igreja, ao qual uma escada de caracol escura e estreita não permitiu o acesso dos franceses. Passados os primeiros momentos do saque será dali que frei Vicente acorrerá a recolher as hóstias da profanação dos sacrários, a sepultar os mortos na noite de sábado, dia 30 de Julho, e a comprovar os estragos e destruição ocorrida em todo o convento. Segundo o relatado todas as portas foram destruídas, permitindo o saque do comum e do privado de cada cela conventual. Na capela do dormitório o sacrário foi também arrombado e profanado.
Neste assalto e apesar da diligência de frei Vicente de Santa Barbara morreram várias pessoas. Morreu o porteiro do convento, um empregado secular e certamente numa tentativa de impedir a entrada das tropas francesas no convento. Morreu um outro secular na cerca, um criado do convento e certamente também a defender a propriedade. Numa cela morreu Filipe de Reboredo Mesquita, entrado em idade e cego, e o seu criado particular. Tinham-se refugiado ambos no convento com esperança de encontrarem alguma segurança.
Os frades que morreram no convento foram frei Joaquim Machado e frei João Duro, Prior do convento, que frei Vicente de Santa Barbara ainda encontra exangue quando abandona o esconderijo. Fora do convento e em combate morreu frei Miguel do Rosário, o irmão Cantor da comunidade. Colocado numa guarita na muralha do Rocio tinha trabalhado arduamente na defesa da cidade. Dali teria morto mais de trinta franceses.
O convento de Évora perdeu assim neste ataque e saque, para além da prata e outro património não especificado, cinco membros da comunidade, a saber:
o Padre Prior Frei João Duro;
o Padre Frei Joaquim Machado;
o Padre Cantor Frei Miguel do Rosário;
e dois seculares empregados em tarefas do convento.
Relativamente aos outros membros que compunham a comunidade nada nos é dito, pelo que não podemos dizer se tinham conseguido fugir, se estavam escondidos com frei Vicente na torre do campanário ou o que lhes aconteceu. A verdade é que há data a comunidade era ainda composta por um bom número de religiosos e portanto há ainda histórias pessoais para desvendar.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Devoção das Quinze Terças-Feiras

3ª TERÇA-FEIRA – TERCEIRO GOZO – POSSE DE DEUS
Saudação
Deus vos salve honra da Igreja, Domingos piedosíssimo. Deus vos salve protector de todos os que a vós recorrem. Deus vos salve, celeste habitante, socorrei-me com vossos rogos.
Meditação
Consideremos como o nosso Pai São Domingos, conhecendo e amando a Deus, possui o Sumo Bem por uma eternidade, sem temor de perdê-lo mais. Esta posse segura é um gozo inestimável e tranquilíssimo. Onde o bem que se ama se pode perder, o amor está cheio de sustos, mas o nosso Patriarca possui a sua felicidade com os seguros de lhe durar quanto o Sumo Bem é para sempre.
Solilóquio
Aprende ó alma, que não acaba mais quem deveras começa a amar e a servir a Deus, e pouco aproveita o começar se não se perseverar. Deus é eterno e imutável, e tem preparado à tua alma uma eternidade de glória; mas não lhe agrada que tu o ames e logo o deixes, nem leva a bem que sejas distraída e tépida no teu serviço, mas quer que tu sejas constante e imutável para o possuíres sem mais perdê-lo.
Súplica
Dulcíssimo Senhor, que eu vos busque a vós e que eu não me aparte mais de vós. Uma e outra coisa são dom vosso. Eu por mim sou instável e tenho o coração mais inconstante que uma volúvel roda, se eu não me firmo em vós volto aos pecados. Compungi-me Jesus meu, perdoai-me, dai-me a constância da vossa graça, e não suceda mais que eu caia; e pelos merecimentos do nosso Pai São Domingos concedei-me que eu seja sempre fervoroso e constante. Amen.

Pai-Nosso, Dez Avé Marias, Glória ao Pai, Salvé Rainha e o Responsório de São Domingos como na primeira Terça-feira.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

O Mito de São Domingos na Batalha de Muret

SÃO DOMINGOS E A BATALHA DE MURET

Há em todos nós uma tendência para ao contarmos uma história acrescentarmos sempre algo de novo, algo que é nosso e nos insere de alguma forma nessa história. Diz o povo que quem conta um conto acrescenta um ponto.
Com a história de São Domingos acontece exactamente assim. Apesar de os primeiros biógrafos nos quererem contar a história como ela verdadeiramente aconteceu, a verdade é que em alguns casos e momentos da vida de São Domingos se deixaram levantar pela fantasia, por um desejo de prestigio, mais que pela fidelidade à verdade histórica.
Tal falta à verdade acontece com a participação de São Domingos na cruzada e mais concretamente na batalha de Muret. Na história de São Domingos é mais um mito, um mito que se plasmou graficamente em imagens como nos painéis de azulejos que podemos apreciar na igreja do Convento de São Domingos de Elvas.
Conta a história:
Era por Setembro de 1213. Andavam os hereges senhores do campo, e o Conde de Monfort repartidas as poucas gentes que tinha pelas terras ganhas, estava encerrado com poucos no Castelo de Muret, praça-forte sobre o rio Garona. Foram sobre ele os Condes hereges com tamanho poder que ameaçavam toda a França. Levavam em seu favor o rei D. Pedro de Aragão acompanhado de um exército vitorioso. […]
Foi conselho que se armassem todos das armas santas dos Sacramentos da Confissão e sagrada Comunhão. Assim animados, abrem as portas, põe-se o Santo na dianteira com o sagrado guião de Cristo crucificado nas mãos. Arremeteu aquele pequeno esquadrão aos inimigos com um trovão de alarido. […]
E notou-se nele mais ao claro, o que já em outros recontros tinham os homens visto, que sendo o Santo nos acometimentos o dianteiro, nem em sua pessoa, nem na figura do santo Crucifixo, tocou nunca lança, nem seta, nem outro tiro, ficando para inteira confirmação do milagre a haste em que ia arvorado, crespa de muitas setas que a pregaram. Este Crucifixo por memória do sucesso se guarda e mostra hoje no nosso convento de Toulouse
”.[1]
Este relato que encontramos na História de São Domingos de Frei Luís de Sousa é mais um na longa carreira do mito, que se iniciou com o grande historiador dos primeiros tempos da Ordem que foi Bernardo Gui. É ele que ao copiar para a sua história de São Domingos a crónica de Pedro de Vaux de Cernay, na qual se narra que o bispo Fulco abençoava os cavaleiros e combatentes com um crucifixo, e inserindo o nome de São Domingos numa vigília de oração, possibilita que posteriormente o imaginário hagiográfico coloque o crucifixo nas mãos de Domingos e este à frente dos corpos católicos em combate.
Porque a verdade histórica e os documentos que existem colocam-nos Domingos a alguma distância deste acontecimento. São Domingos não participou na vigília de oração, não esteve nas reuniões dos grandes dignitários e religiosos com o Conde Simão de Monfort, nessa data estava em Carcassone como vigário do bispo que participava nos combates.
Como era incómodo e até de certa forma desprestigiante que o fundador da Ordem não tivesse tomado parte na glória da cruzada e das suas batalhas, na militia Christi que combatera os hereges, que São Domingos se tivesse de alguma forma demarcado da situação política ou religiosa de violência, os primeiros historiados e a hagiografia vão integrá-lo nessa história da forma mais maravilhosa possível, milagrosamente.
[1] SOUSA, Frei Luís de – História de São Domingos. Volume I. Porto, Edição Lello Editores, 1977, 43-44.

domingo, 17 de maio de 2009

Homilia VI Domingo do Tempo Pascal

“O que vos mando é que vos ameis uns aos outros.”
É este o mandamento de Jesus para os seus discípulos, para aqueles que acreditam nele como Filho de Deus, como revelação do amor de Deus. Contudo, quando olhamos para a nossa vida pessoal de crentes e para a nossa vida de comunidade deparamos com uma falta quase constante no cumprimento deste mandamento. O que é que se passa afinal com este mandamento de Jesus para que seja tão difícil de viver? Como é que falhamos numa coisa que deveria ser tão simples, que é tão simples.
Se Jesus nos tivesse ordenado sacrifícios insuportáveis, regras fora da nossa possibilidade humana, era natural que falhássemos no cumprimento desses mandamentos. Se nos tivessem sido impostas regras de pureza, como por exemplo os judeus ainda hoje possuem, não era estranho que falhássemos e portanto não nos pudéssemos aproximar de Deus e do seu altar.
Contudo, com Jesus nada disso nos foi imposto, o seu mandamento é que nos amemos uns aos outros. Como é então tão difícil viver o mandamento do amor?
Uma das primeiras razões e justificações para esta nossa dificuldade radica na forma superficial como vivemos o amor, até como falamos do amor e o concebemos. O mais normal é que falemos do amor como um sentimento, como mais uma paixão da alma. No entanto, e como bem diz o Papa Bento XVI na sua encíclica “Deus é amor”, esse sentimento a que chamamos amor é apenas uma imagem pálida do verdadeiro e total amor. Podemos dizer que é um indício, uma prova do verdadeiro amor, mas não é o verdadeiro amor.
E não é o verdadeiro amor, e aqui está a outra razão da dificuldade em vivermos o mandamento de Jesus, porque é um amor apropiante, um sentimento possuidor. Todas as nossas provas de amor, as nossas relações de amor, são de alguma forma de possessão, queremos que o outro seja nosso. E por isso até dizemos é o meu amor, é o meu namorado, são os meus filhos. As nossas relações humanas estão assim inquinadas com esta necessidade de possuir, esta dimensão que não nos deixa livres nem liberta os outros.
A outra realidade do nosso amor superficial, e que não permite que o vivamos em verdade e totalidade, é que ele está marcado também por uma forte tendência narcisista. Olhamos e amamos o outro a partir da imagem de nós próprios, e mais frequentemente julgamos os outros a partir da nossa imagem e da insatisfação que obtemos pela falta de resultados nos nossos objectivos apossessantes.
Estas três realidades, paixão da alma, necessidade possessiva e narcisismo são as realidades ou dimensões que dificultam a nossa vivência do mandamento de Jesus de nos amarmos uns aos outros. Mas se nos dificultam a vivência, a verdade é que não a impedem, e está na nossa mão procurarmos a solução, a forma de o vivermos.
Antes de mais e face ao amor temos que ter presente que ele é um dom, é uma oferta de Deus e por isso não o podemos chamar nosso. O amor verdadeiro nasce no nosso coração e na nossa vida como dom de Deus, como sinal do amor de Deus por nós, por aqueles que vivem connosco e partilham a nossa vida, como sinal pela humanidade inteira. Como nos dizia São João na leitura da sua Primeira Carta, o amor vem de Deus, é sempre dom de Deus, e portanto quase que poderíamos dizer que é algo estranho a nós. O exemplo mais flagrante desta realidade é quando gostamos de alguém quando não vemos razões para isso e até quando toda a gente nos fala mal desse outro. Porque temos esse sentimento, que racionalmente não é justificável? Não será um sinal do amor dom de Deus?
Outra realidade a ter presente para a vivência do verdadeiro amor, e ainda nesta dimensão de dom, é que ele deve ser sempre oferta. É algo que oferecemos ao outro, aos outros, e não alguma coisa que queremos do outro. Infelizmente as nossas carências afectivas levam-nos mais a querer o amor do outro que a oferecer o nosso amor. É como se tivéssemos medo de nos perdermos, de ficarmos desprotegidos por oferecermos o amor de Deus que há em nós.
Um terceiro elemento a considerar é que o verdadeiro amor é liberdade e libertador, não nos aferra a nada nem a ninguém, nem quer possuir nada nem ninguém, bem pelo contrário quer que o outro seja livremente o que Deus deseja que ele seja.
Dizer isto não equivale a dizer que é fácil, porque não é. A verdade é que é bem difícil e por isso o exemplo mais cabal que temos da vivência do amor verdadeiro, como dom divino, como oferta voluntária e libertadora é um homem suspenso numa cruz. Jesus crucificado é o testemunho do verdadeiro amor, é o exemplo, mas para nós deve ser a fonte de onde procuramos ou devemos procurar beber e viver o verdadeiro amor.
Hoje em dia, a espiritualidade e até as devoções particulares, erradicaram do seu horizonte o Jesus crucificado. Em muitas igrejas o crucifixo desapareceu, a nossa igreja é disso um exemplo, e em muitos oratórios pessoais e particulares é mais habitual encontrarmos um ícone ortodoxo que um crucifixo. O que fizemos do crucificado? Incomoda-nos?
Verdade seja dita, que é bem possível que sim, que nos incomode, e até bastante, porque naquela cruz e naquele corpo está a expressão total do dom livre do amor. E como nos custa tanto isso, como é um aguilhão ao nosso amor-próprio, ao nosso narcisismo, ao nosso egoísmo.
Mas se virmos as vidas dos santos, e até as suas representações iconográficas, sejam eles místicos de clausura ou grandes missionários no mundo, como Santa Catarina de Sena, São João da Cruz, São Francisco Xavier, encontramos em todos uma grande devoção e contemplação de Jesus crucificado. Era nesse símbolo, mas sobretudo nessa realidade que encontravam a força para os desafios que tinham na vida e a fonte para o amor que tinham pela Igreja e pela salvação dos homens. A cruz era a fonte do seu amor.
Peçamos ao Senhor que nos conceda a graça de o contemplarmos na maior expressão do amor e de nos conformarmos cada vez mais a essa expressão, porque aí saberemos que conhecemos a Deus e nascemos para Deus.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Beata Imelda Lambertini, Memória a questionar-nos

BEATA IMELDA LAMBERTINI

A Ordem de São Domingos celebra hoje dia treze de Maio, dia da aparição da Virgem Maria em Fátima, a memória da Beata Imelda.
O seu culto foi aprovado pelo Papa Leão XII em 1826 e por vontade do Papa São Pio X foi proclamada padroeira e modelo das crianças que fazem a primeira comunhão. Durante muitos anos e para muitos dos nossos irmãos e irmãs mais velhos foi um exemplo, um testemunho que não passou despercebido, pois havia qualquer coisa que atraía na história e na figura da Beata Imelda.
Hoje quase não sabemos quem é, pela voragem dos tempos e das reformas desapareceu do nosso quotidiano e do nosso imaginário. Cabe aqui perguntar que exemplo e modelo se oferece hoje às crianças que fazem a primeira comunhão? O Francisco de Fátima em alguns lugares e grupos religiosos é apresentado como modelo; mas e nos nossos lugares dominicanos, nos nosso grupos, paróquias e colégios? Não teremos algo a oferecer, um exemplo e um modelo que pela paixão e pelo extraordinário do sucedido pode perfeitamente atrair as crianças que fazem a primeira comunhão?
Diz o povo que dá Deus nozes a quem não tem dentes, que não sejamos nós objecto deste refrão sabendo usar aquilo que é nosso e que a tradição nos legou. À luz das palavras do Evangelho saibamos nós tirar coisas e novas do nosso tesouro, do nosso património comum e dispô-las ao serviço do Reino de Jesus Cristo.

A beata Imelda nasceu em Bolonha nos inícios do século XIV e recebeu como nome de baptismo o nome de Madalena. Originária da nobre família Lambertini entrou para o mosteiro fundado por Diana de Andaló em Bolonha. Recebeu o hábito quando tinha onze anos, ou seja, quando era ainda uma criança que se devia dedicar mais à brincadeira que às duras penitências e mortificações a que passou a dedicar-se.
Esta idade vai ser para ela o maior obstáculo na prossecução da sua vida espiritual, e não por qualquer falta da sua parte, mas pela falta de confiança daqueles que estavam responsáveis por ela e pela sua vida espiritual na capacidade de receber a Sagrada Comunhão. Devido à sua tenra idade o confessor e capelão das monjas considerava que Imelda, nome que recebeu depois de tomar hábito, não estava apta a comungar, não tinha ainda noção da total dimensão do sacramento para o poder receber. O que diria hoje das nossas crianças…
Esta falta de confiança e exclusão do resto da comunidade que comungava provocou em Imelda um grande sofrimento, ao mesmo tempo que uma grande paixão e ardor pelo sacramento da Eucaristia. Assim, num dia em que toda a comunidade tinha comungado menos ela, terminada a celebração deixou-se ficar sozinha na igreja, confessando ao Senhor a sua dor e tristeza por não o ter recebido.
“Meu Jesus e meu Senhor, assim quereis que fique esta vossa humilde serva, ardendo e consumindo-se nas abrasadas chamas dos seus desejos? Eu como serva ferida e afectada anelo a fonte desse Diviníssimo Sacramento e com tanto maior tormento me vejo excluída, quando a ele me acho mais próxima. O meu amante coração se reduz a cinzas neste incêndio. Porque razão meu Deus quereis, que eu só entre as demais esposas seja excluída das vossas delicias? Acaso por ser pequena e menina? Não pode ser, porque vós dissestes aos Apóstolos que deixassem chegar a vós os pequenos e meninos.”
Com este fervor e ardente desejo orava Imelda quando saiu do sacrário uma hóstia com tal esplendor e glória que não só iluminava a igreja como todo o mosteiro. Ficou o Santíssimo exposto e suspenso no ar, rodeado de uma corte angélica e diante dos seus olhos.
Quando chegou a comunidade à igreja e deparou com tal fenómeno mandou chamar imediatamente o capelão que recolhendo a sagrada hóstia numa patena a deu a comer à jovem Imelda. Foi tal a alegria e o incêndio de amor, que cruzando os braços sobre o peito em acção de graças, entregou o seu espírito para arder de amor eternamente no coro dos serafins. Era o dia 12 de Maio de 1333, véspera e vigília da festa da Ascensão do Senhor.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Festa de Santa Joana Princesa de Portugal

SANTA JOANA PRINCESA

A Ordem de São Domingos celebra hoje a festa de Santa Joana Princesa, filha natural do rei D. Afonso V e filha religiosa do Mosteiro de Jesus de Aveiro.
Nasceu em 1452 e pelo facto de ser herdeira jurada do trono, pela morte do irmão mais velho, durante a ausência do pai e do irmão mais novo foi regente do Reino. Esta condição de jurada pelas Cortes trouxe-lhe alguns trabalhos e sofrimento aquando da entrada para o mosteiro, pois não era senhora de si nem da sua vontade. Já no mosteiro e mesmo depois de professa teve ainda que suportar as diligências do irmão, que por várias vezes a tentou demover da decisão tomada e retirar da clausura.
A Princesa Santa Joana viveu dezoito anos no mosteiro de Aveiro, vindo a falecer a 12 de Maio de 1490.
Na sua representação iconográfica aparecem como elementos identificadores três coroas reais, o hábito, a coroa de espinhos e o crucifixo.
As três coroas representam os três pretendentes a casamento que recusou. Foram eles Maximiliano, filho do imperador Frederico e rei dos Romanos, Ricardo III de Inglaterra e Luís XI de França. O hábito é o de monja dominicana e a coroa de espinhos o nome religioso que tomou aquando da profissão, pois passou a chamar-se Soror Joana da Coroa de Espinhos. O crucifixo representa a grande devoção que sempre mostrou pela paixão e morte de Jesus e por este símbolo da nossa salvação.
Assim a descrevem na sua vida de clausura religiosa:
“Não houve hábito de virtude que ela não vestisse com o da religião. Foi sumamente humilde, ocupando-se nos ministérios mais ínfimos e trabalhosos do mosteiro, como carregar sobre os delicados e reais ombros pedras e tijolos para a fábrica da sua cela e mais obras da casa. Amaçava o pão, lavava a roupa, varria as casas e em todo o trabalho não só igualava mas excedia a todas.
Na pobreza foi tão fina que se despojou de tudo, até de um relicário e uma cruz de relíquias que lhe tinha dado a rainha sua mãe quando estava a morrer para que se lembrasse dela. Como eram peças de ouro julgou que não convinham ao seu estado.
Foi tão exacta na observância regular que não passou um ponto do que mandam as nossas Constituições, não querendo que dela fizessem diferença de uma religiosa conversa das mais humildes. Já mais quis ouvir o título de Alteza ou Princesa, trocando todos pelo de Soror Joana da Coroa de Espinhos. Se a Prioresa, designando as freiras para os Ofícios ou ocupações da semana a mandava nomear por Infanta Soror Joana, servia-lhe isto de grande mortificação e o sentia com vivas lágrimas. A familiaridade com que tratava a todas era como se fossem iguais em tudo.
No tempo das recreações as suas práticas eram de coisas espirituais. Era tão diligente em conservar a pureza da consciência, que além de ser nas suas acções e palavras vigilantíssima, fazia todos os dias rigoroso exame apontando o mínimo escrúpulo ou sombra de defeito num livrinho de memória que trazia consigo.
Desde o dia em que vestiu o hábito não desceu mais à grade senão para tratar matérias espirituais com pessoas graves e de singular espírito. Na caridade foi ardentíssima e deixando em silêncio as esmolas que fazia, é inexplicável o afecto e ternura com que servia às enfermas, consolando-as e abatendo-se a exercitar os ofícios mais vis. Se sabia que alguma freira estava aflita buscava-a logo para aliviá-la e fazia diligência por saber a causa para dar lhe o remédio. Estava tão satisfeita da nova vida que se lhe enxergava no rosto o contentamento da alma, e costumava dizer que se no mundo havia estado que invejar era o da religião.
Sendo o voto da obediência o grilhão mais pesado, a Soror Joana parecia facilíssimo, dizendo que de boa vontade mercara com a mesma vida o ser Religiosa, quando não fosse por outra coisa mais que por estar sujeita a outrem e renunciar à própria vontade de que se seguiam tantos danos.
Com o exemplo da Santa Princesa se aumentava nas mais a observância, o retiro e o exercício de todas as virtudes, envergonhando-se e confundindo-se de se mostrarem mimosas e delicadas à vista de uma senhora humilde e rigorosa consigo”.[1]
Quando olhamos para os nossos mimos, privilégios e regalias, para o que hoje exigimos na vida religiosa, como nos devíamos sentir envergonhados e confundidos e interrogar sobre quais deveriam ser as nossas verdadeiras prioridades e preocupações para sermos um testemunho no mundo.
[1] LIMA, Fr. Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 321.

Devoção das Quinze Terças-Feiras

2ª TERÇA-FEIRA – SEGUNDO GOZO – AMOR BEMAVENTURADO

Saudação
Deus vos salve honra da Igreja, Domingos piedosíssimo. Deus vos salve protector de todos os que a vós recorrem. Deus vos salve, celeste habitante, socorrei-me com vossos rogos.
Meditação
Consideremos como o nosso Pai São Domingos no Paraíso arde em amor e está cheio de júbilo num mar de paz; que entre o lume da Glória é atraído com a vontade a uma perpétua união com Deus, amando-o como seu princípio e fim, do qual amor resulta na alma do nosso Santo um gozo indizível que não lhe há-de faltar jamais.
Solilóquio
Mas se o nosso Patriarca é todo amor no Paraíso, arde também por ti ó pecador filho e te fala ao coração, dizendo: Só Deus, ó alma, é digno do teu coração e fora de Deus não há mais bem; e tu não o amas, antes vives mergulhada em mil amores? Guarda-te ó alma destes afectos de amor-próprio, porque crescem até ao desprezo de Deus, e tu que farás se perdes a Deus para sempre?
Súplica
Não permitais, ó Jesus, que eu viva nestas trevas e em amores de morte e perdição; mas desapegai o meu coração de todo o terreno e desordenado afecto, e infundi na minha alma o vosso Divino Amor. Aqui tendes, ó Jesus meu, o meu coração, purificai-o, governai-o, possui-o, e vós ó Domingos intercedei por mim. Amen.

Pai-Nosso, Dez Avé Marias, Glória ao Pai, Salvé Rainha e o Responsório de São Domingos como na primeira Terça-feira.

A oração dominicana

A ORAÇÃO DOMINICANA – ORAÇÃO EM COMUM

Entre as várias fontes documentais que existem sobre a vida de São Domingos, temos um pequeno opúsculo, um pequeno tratado, que se chama Os Nove Modos de Orar de São Domingos. É um trabalho do século XIV, bastante rico em ilustrações, e através do qual podemos visualizar os modos como São Domingos rezava, ora de joelhos, ora de pé, com os braços elevados para o céu, em forma de cruz, ou até sentado a estudar.
Se hoje as técnicas orientais de meditação nos chamam a atenção para a importância do corpo na oração, da postura corporal, temos que ter presente e não esquecer que a grande tradição orante e espiritual cristã não esqueceu o corpo. Este pequeno tratado medieval é disso um exemplo, bem como o são os tratados sobre as lágrimas e os suspiros. Na idade média todo o corpo rezava acompanhando o espírito.
Estes gestos e a forma como São Domingos rezava não deixaram de impressionar os seus companheiros, que de noite e às escondidas o iam espreitar. Os testemunhos do seu processo de canonização dizem mesmo que raramente se deitava, que passava grande parte da noite em oração e por essa razão era frequente vê-lo adormecer à hora das refeições. Esta oração nocturna de final de jornada, e podemos dizer de alguma forma privada, era um complemento da oração comum que todos celebravam e São Domingos animava quando algum irmão menos fervoroso se deixava dormir ou não cantava como devia cantar.
A oração para São Domingos, simultaneamente terna e dura, era uma realidade constante, e por isso se plasmava também numa dimensão física, manifestando a sua robustez humana e espiritual.
Nos Modos de Orar de São Domingos o nono e último modo de orar é o modo da oração do caminho, a oração das andanças. Não nos deve chocar este elemento, não só porque São Domingos calcorreou os caminhos da Europa, fez a experiência do andar imenso, mas também porque qualquer medieval não tinha nenhum problema em fazer cinquenta quilómetros por dia para chegar a um local seguro e descansar. Caminhar era uma experiência comum e simultaneamente espiritual. Para quem já fez o Caminho de Santiago sabe como o caminho se pode fazer oração, se faz oração a cada passo dado.
Contudo, o caminho só se faz oração em certas condições, condições essas que são as mesmas que se requerem para que a vida se faça também oração. A vida activa do nosso quotidiano transforma-se em oração quando ela é rezada, tal como no caminho. Toda a realidade é susceptível de ser santificada, se para tal for oferecida a Deus, se rezarmos por ela.
Mas se a nossa vida cristã e religiosa tem vocação para uma oração contínua, tal só acontece aos poucos, e muito concretamente na medida em que se vive uma vida de oração propriamente dita. Uma vida em oração é o trabalho de uma vida de oração.
É por esta razão que a vida religiosa dá tanta importância ao exercício diário da oração, a esse respirar da alma, pautado por uma distribuição diária com horas e ritmos próprios. Para alguns pode ser um peso, um fardo, mas na verdade é uma libertação, um privilégio dado apenas a alguns, facto que nos devia obrigar a cuidar um pouco mais o nosso Oficio da Liturgia das Horas, essa acção diária de santificar as horas do dia através da recitação ou do canto das Laudes, Vésperas e Completas.
Os dominicanos conservam o essencial do que era, e ainda hoje é, considerado como a oração monástica, embora esta oração mais que monástica seja a oração de todo o povo cristão, de todas as comunidades, que a exemplo das comunidades primitivas se reúnem para louvar o Senhor pela manhã e agradecer ao final do dia tudo o vivido. Neste sentido o Oficio Divino da Liturgia das Horas é um tesouro da Igreja que é proposto a todos.
É portanto normal, deveria ser normal, ainda que às vezes assim não aconteça, que os dominicanos se encontrem em comunidade para celebrar com alegria, beleza e solenidade a Liturgia das Horas. Este exercício celebra os mistérios de Cristo e os Santos da Igreja, e ao fazê-lo procura e vive a mesma objectividade que procuram e vivem o estudo e a vida comum. Tudo está em relação e apoiando-se mutuamente.
Desde o princípio e por vontade de São Domingos que a liturgia dominicana se caracteriza pela brevidade e rapidez. Mas se tal foi a vontade de São Domingos era para que os frades se pudessem dedicar ao estudo e à pregação, à salvação das almas, e não certamente para que se deixassem ficar na cama preguiçosamente ou para que faltassem pelas razões mais banais. Esta brevidade e rapidez deram origem por vezes a uma celebração monocórdica, insípida, ou então a um aligeiramento tão grande que a oração já não parecia nada do que devia ser.
A análise histórica diz-nos que o desejo de São Domingos tinha fundamento no Oficio monástico ao estilo de Cluny, carregado de tal conjunto de floreados que impedia qualquer outro tipo de actividade. Contrariamente a esse estilo São Domingos queria um Oficio breve, simples, livre de ornatos musicais gregorianos que impedissem o trabalho apostólico. Esta simplicidade não significava no entanto ausência, ou desleixo, cortes conducentes a uma mediocridade; a tradição litúrgica da Ordem confirma-nos o contrário, como o simples foi bastante bem cuidado e vivido e por isso se constituiu uma liturgia própria rica de textos e melodias.
Hoje em pleno século vinte e um devemos interrogar-nos, face às solicitudes pastorais, se podemos dar-nos ao luxo de gastar algum tempo do dia a celebrar a Liturgia das Horas em comum, procurando a beleza, o bom gosto, o cuidado na simplicidade e brevidade que sempre nos caracterizou.
Verdade seja dita, e com todas as letras, se não nos dermos a esse luxo, se não disponibilizarmos tempo do nosso dia, dos nossos afazeres para rezarmos em comum, simples e belamente, a nossa pregação não será a mesma, ressentir-se-á dessa falta. Seguindo o pensamento de São Tomás é necessário contemplar para transmitir, e a contemplação dos irmãos em oração comum pode fundamentar de uma outra forma muito do que podemos dizer e transmitir.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A Virgem Maria serve os frades dominicanos

A Virgem Maria serve os frades pregadores

A espiritualidade cristã medieval é marcada por uma forte devoção filial à Virgem Maria, por vezes até exagerada. Assim, não estranha que quase todas as Ordens e Congregações religiosas vinculem a sua fundação a qualquer intervenção miraculosa da Virgem e haja muitos milagres que têm Maria como protagonista. Com os dominicanos também assim aconteceu, inserindo-se dessa forma a Ordem na grande corrente devocional mariana.
Na tradição primitiva dominicana podemos comprovar como a devoção era também filiar, absorvente e como em todas as outras Ordens, considerada como algo exclusivo e muito próprio. Como escreveu o Mestre da Ordem frei Humberto de Romans, os dominicanos amam e honram mais que ninguém a Virgem Maria e a Vigem Maria ama os dominicanos mais que quaisquer outros.
A obra de frei Gerard de Frachet, Vitae Fratrum Ordinis Praedicatorum, está cheia de histórias de milagres e visões marianas, de actos sobrenaturais que demonstram essa predilecção da Virgem Maria pela Ordem de Pregadores.
Apresentamos hoje um desses gestos extraordinários, e que a arte plasmou neste painel da igreja de São Paulo de Almada que podemos apreciar na fotografia anexa.

Estando frei Tiago a comer no refeitório do convento de Pisa, comeu uma vez tão pouco, que logo depois do almoço um dos irmãos se aproximou dele e lhe perguntou:
Frei Tiago como é que comestes tão pouco hoje, quase mesmo nada, tendo os frades tão boa comida?
Respondeu-lhe frei Tiago que nunca como naquele dia tinha comido tão bem, ao que o interlocutor retorquiu como era tal possível se o tinha visto comer tão pouco.
Explicou-lhe então frei Tiago:
Eu nunca comi tão bem como hoje porque nunca tive um servo como vocês tiveram hoje, pois vi claramente Nossa Senhora, a Virgem Maria, a servir os frades e a prepara-lhes todos os pratos. Fiquei tão confortado com isto que pela alegria do meu espírito, pouco ou nada pude comer
.
[1]
[1] FRACHET, Gerard de – As Vidas dos Irmãos. Fátima, Edição do Secretariado Provincial Dominicanos, 1990, 41.

CARTA AO PRIOR DA CARTUXA

Carta ao Prior da Cartuxa D. Joaquim José de Santa Ana

Por vezes, quando menos esperamos acontece algo, encontramos alguma coisa, que nos enche de surpresa e de alegria. Pode ser algo grandioso que nos enche os olhos, mas pode ser também uma coisa tão pequena, ou tão banal, que o facto de ainda existir ou a encontrarmos nos enche de alegria.
Desfolhando um livro antigo, marcando a última página lida por alguém encontrei uma carta, ou melhor, o resto de uma carta, porque o tempo ou alguma mão menos caridosa a rasgou e lhe roubou uma parte do papel e portanto da mensagem que transportava.
É um papel insignificante e por isso mesmo surpreendente; o que me interroga é como conseguiu escapar à voragem do tempo e à nossa inclinação para nos livrarmos do imperfeito e do que tantas vezes consideramos lixo.
Mas ainda bem que escapou, que este livro lhe serviu de protecção e guarda, porque desta forma chegou até nós a carta de alguém que não está tranquilo, uma pessoa que sabe da próxima chegada dos franceses e do que isso acarreta. A esse texto acresce um outro, de outro punho, já com um assunto diferente, como se pode ver pela fotografia. É um testemunho documental, mais um, das invasões francesas em 1807-1808, e da zona de Évora, face ao endereço que encontramos, bem como das relações pessoais existentes entre o emissário e o receptor do documento. Diz assim:

Endereço
Ao Reverendíssimo Padre Senhor Dom Joaquim José de Santa Ana
Guarde Deus muitos anos
No seu Convento da Cartuxa
Carta
[…] contínuos avisos que tenho de Caste[la] […] [in]falível a entrada dos Franceses, […] consequência a guerra entre estas […] nossa, me obriga a partir já, para ver […] alguma coisa do estrago que todos temem […] [av]iso que me demorarei, e assim de Albu[…] [esc]reverei por Campo Maior, e avisarei do destino […] [re]solvo tomar, segundo as circunstâncias. Não [tenho] tempo para mais, que me dá pressa o Re(?). Sou teu do C. N
Recomendações às parentas e Senhoras Conhecidas
A Madre Abadessa outra vez me manda dizer a Vossa Reverência não se agaste pelo que vai, pois assim como nós estimamos tudo de Vossa reverência nos manda por esmola assim deve Vossa Reverência aceitar o que vai sem enfado para nos dar a doutrina com o exemplo. São formais palavras de Vossa Reverencia […]

domingo, 10 de maio de 2009

HOMILIA V DOMINGO DO TEMPO PASCAL



“Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que está em mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto”.
(Jo 15,1)
Esta alegoria vinícola de Jesus coloca-nos perante uma realidade inevitável, até dolorosa e por isso facilmente rejeitável; nós somos sarmentos, ramos de uma videira, e nesta condição o que é próprio é ser podado, é ser sacrificado para que a videira possa dar frutos e bons frutos.
Para a nossa cultura hedonista, assente sobre o prazer, sobre o bem-estar, esta alegoria pode parecer-nos estranha, inaceitável, pois quem é que está disposto a sacrificar-se, a perder-se para que outro possa crescer? Ou até, a sacrificar alguma coisa para obter um outro resultado mais positivo em outra realidade completamente incontrolável?
Contudo, e ainda na nossa cultura, eficiente, produtiva, esta metáfora é aquela que mais se aproxima de uma prática comum. Os economistas e gestores sabem perfeitamente como muitas vezes para aumentar os resultados é necessário fazer cortes aqui e ali. A nossa realidade económica e social é neste aspecto bastante dura e mais que demonstrativa.
Mas, e ainda que a actual situação económica e financeira deva merecer a nossa atenção, interessa-nos reflectir sobre esta alegoria de Jesus para perceber que estamos todos nesta condição de ser podados, talhados, e que é um processo que não tem fim, um processo que se desenvolve quotidianamente no nosso ser cristão.
Aproximar-se de Cristo, manter-se em união com Ele não significa ficarmos livres de perigos, de provas ou sofrimentos, bem pelo contrário, pode significar até um aumento, que nos pode conduzir ao desânimo, ao cansaço, ao abandono, pois segundo a nossa opinião a cruz que o Senhor nos entregou é demasiado grande e pesada
Num Diálogo com Santa Catarina de Siena Deus disse-lhe que os servidores que se mantém nele são mais experimentados, são mais atribulados, para que possam dar mais fruto e de melhor qualidade, e também para que possam comprovar a virtude que habita neles. Palavras mais ou menos semelhantes foram dita a Santa Teresa de Ávila, ao que ela respondeu, não admira portanto que tenhas tão poucos amigos.
E isso acontece porque não é fácil aceitar estas palavras, palavras que nos dizem que é da nossa condição sermos moldados, podados, e que quando há que passar por isso, há que passar por isso, não há fuga possível. Não é fácil aceitarmo-nos sarmentos a podar.
Mas, e é um pormenor importante, a poda é sempre um momento de passagem, um acontecimento que se produz uma vez por ano, podíamos dizer quase um acidente. O mais difícil, e que nos deve colocar em alerta, é o inverno, essa estação em que a cepa da videira vive sem sarmentos, sem ramos verdes, em que a nossa vida é colocada em questão por um vazio ou um sem sentido daquilo que fazemos. Como viver de Cristo e com Cristo quando estamos no inverno, quando tudo perdeu o sentido e a razão de ser? Como podemos cuidar da nossa alma, da nossa fé, quando a memória nos traz a violência das vindimas e da feitura do vinho e a incerteza dos frutos e da qualidade desses frutos que aparecerão no futuro. Como viver cristãmente quando já não temos a certeza da validade do conselho de morrer por amor de Cristo?
A resposta a estas questões é permanecer, estar, pois para passar a prova do inverno é imprescindível e inevitável permanecer, ficar vigilante e de guarda. O inverno é longo, por vezes demasiado longo, mas mesmo assim é necessário permanecer, aprofundar as raízes para enriquecer a seiva e alimentar o potencial de frutos a nascer. Mas como o fazer é a pergunta que tantas vezes nos colocamos e para a qual tantas outras vezes não encontramos a resposta.
E a resposta é no mínimo surpreendente e pode ser para os mais novos até escandalosa, a resposta é o nosso dever. É o nosso dever que nos permitirá permanecer, não desfalecer nem desanimar, e esperar os frutos que o verão nos trará. Quando a prova nos bate à porta, quando o coração sangra de sofrimento, quando o entusiasmo anda pelos mínimos, quando apetece atirar a toalha ao chão, quando já não vemos sentido, o nosso dever é o último refúgio, a nossa última fonte de energia. Permanecemos e fazemos o que já ninguém espera, às vezes nem nós próprios, porque é o nosso dever.
Neste sentido o dever é uma arma fortíssima, um desafio incomensurável, porque quando tudo nos aponta o fundo, nós olhamos para esse fundo e não nos afundamos. Quando tudo parece perdido nós continuamos a acreditar.
Mas ao falar de dever, temos que ter presente que há dever e dever e se hoje temos bastante vergonha em falar de dever é porque na nossa concepção colocámos o dever nos antípodas do amor, quando o contrário é bem mais verdade; e também porque nos esquecemos, ou não queremos ver, como o dever é o último refúgio da liberdade, ao contrário da prisão de que tantos fazemos alarido que é.
A concepção de dever de que tantos fugimos ou queremos fugir é a concepção kantiana do século dezoito, que subtilmente se infiltrou na piedade e religiosidade católica a que hoje chamamos de conservadora ou rigorista. E neste sentido ainda bem que queremos fugir dela, e deste dever, porque é uma força que se nos impõe de fora e portanto nos coarcta da nossa liberdade.
O dever que é uma arma fortíssima, o refúgio de liberdade, é uma força que vem das profundezas da alma, podemos dizer com toda a convicção que é um dom de Deus, porque essa força se chama caridade, se chama amor. E à luz do amor, à luz da caridade, nada é feito à força, nada pode ser preso.
É este o nosso dever, o dever do amor, o dever que é capaz de dizer até mesmo a Deus, num desafio total, Jesus tu já não me amas, mas ainda assim eu continuo a amar-te! Estas palavras loucas e ousadas, fruto do dever de rezar, forçarão o dever de Deus de se colocar ao nosso lado, de nos escutar. É apenas um exemplo com uma formulação exagerada do que o dever nos conseguirá, podemos aplicá-lo a muitas outras situações e realidades da nossa vida.
Peçamos assim ao Senhor que nos conceda o discernimento para saber quais são os nossos deveres e para que nunca nos esqueçamos que o primeiro deles é amar ao próximo como Deus nos amou.

ABERTURA SALA MUSEU MADRE TERESA DE SALDANHA

A Sala Museu Madre Teresa de Saldanha

Poderão os objectos dizer-nos algo da vida e daqueles que os possuíram? Parece que sim, e a inauguração neste sábado, dia 9 de Maio, da sala museu Madre Teresa de Saldanha, é disso um exemplo.
Dispostos por algumas salas encontramos objectos que pertenceram à Madre Teresa de Saldanha, objectos pessoais, jóias, roupa, objectos de devoção e culto, documentos, livros e mobiliário, pinturas e fotografias. Encontramos também objectos que pertencem à Congregação na medida em que são testemunho mais da vida do grupo que da pessoa em si. E encontramos ainda objectos que nos dizem algo do passado, do passado anterior à Madre Teresa de Saldanha, objectos recuperados dos antigos mosteiros dominicanos e que as irmãs ocuparam nos primeiros anos de vida da Congregação.
São objectos que nos dizem muito, que nos podem dizer muito, ainda que isolados por detrás do vidro das vitrinas onde estão expostos para o nosso olhar curioso, e iluminados por uma luz que de tão artificial e técnica nos deixa uma sensação de incomunicabilidade.
O quadro com a pintura de Santa Rosa de Viterbo conta-nos a data do seu nascimento no Palácio da Anunciada a 4 de Setembro de 1837, três anos depois do decreto de exclaustração das Ordens Religiosas. Conta-nos também a profunda espiritualidade cristológica da Madre Teresa, de como nos momentos de decisão e de perigo foi no Senhor Jesus que se refugiou. Os outros crucifixos que se encontram na exposição, as relíquias de Santos e os livros de devoções confirmam-nos essa espiritualidade e devoção.
O piano, que tocou enquanto menina e depois mulher conta-nos a sua alegria, mas também o seu nível social, a sua origem e a sua educação. Os outros objectos de mobiliários mostram-nos a sua condição económica e como o seguimento de Jesus obriga a um desprendimento, a uma revalorização de tudo o que temos à luz do serviço do reino a que destinamos esses mesmos objectos. São nossos, mas são fundamentalmente de Deus e estão ao nosso serviço para servir os irmãos e as irmãs. Podemos imaginar a música que Teresa de Saldanha tocava neste piano para alegrar algum momento de festa comunitária.
A imagem de São Domingos que a Madre Teresa de Saldanha quis ter como patrono e pai para a sua obra. É interessante notar a estreita relação ideológica e registar como uma mulher do século XIX foi capaz de dizer “quem é liberal não pode deixar de ser dominicano”. Que visão alargada, audaz e tão próxima do Nosso Pai São Domingos.
Os objectos contam-nos assim muito, mas para uma mais profunda comunicação necessitam de tempo de contemplação, de tempo para uma relação perspectiva e comunicativa. Espero ter um dia destes esse tempo, porque acredito que ainda não me disseram tudo do que há para dizer. Há sempre mais a dizer…

sexta-feira, 8 de maio de 2009

FESTA DO PATROCÍNIO DA VIRGEM MARIA À ORDEM DE PREGADORES

PATROCÍNIO DA VIRGEM MARIA

Antes da Reforma litúrgica, proporcionada pelo Concílio Vaticano II, o calendário litúrgico da Ordem Dominicana tinha incorporado e assumido numerosas festas e invocações Marianas que se celebravam na totalidade da Igreja.
As únicas festas que a Ordem tinha como próprias eram a Festa da Virgem do Rosário, celebrada no primeiro domingo de Outubro, e a Festa do Patrocínio da Virgem Maria para com a Ordem de Pregadores.
A tradição reporta esta festa ao tempo de São Domingos, mas a verdade é que, ainda que haja uma tradição e uma liturgia marcadamente Marianas desde o princípio da Ordem, esta festa só foi incorporada na liturgia da Ordem em 1725.
Nessa altura a festa foi assignada ao dia 22 de Dezembro, data da Bula de aprovação da Ordem dada a São Domingos pelo Papa. Hoje, depois da reforma litúrgica, celebra-se a 8 de Maio.
Esta festa tem por objectivo comemorar a protecção especial da Ordem Dominicana, que foi outorgada à Virgem Maria pelo próprio Jesus Cristo, segundo uma visão que São Domingos teve.
Relato da Visão
Retirou-se Domingos para a igreja e pondo-se a orar foi arrebatado por êxtase à presença divina a cujo lado estava a Imperatriz do Céu vestida de um manto azul.
Viu também assistentes para muitos fundadores das religiões, acompanhados de grande número dos seus filhos, e notando que se não achava em tão venturoso consistório algum dominicano, estremeceu-se-lhe a alma e com copiosas lágrimas e suspiros testificou este sentimento: “Como assim poderoso Senhor? Religiosos de todas as Ordens na vossa presença e nenhum dos meus filhos?”.
Compadeceu-se a Suprema majestade e lhe respondeu: “Domingos não te aflijas. Eu tenho entregue à minha Mãe o teu instituto, recorre a ela.
Então descobriu a Senhora o riquíssimo manto, tão dilatado que se estendia por todo o Império e recolhia na sua sombra um número inumerável de santos e santas da nossa religião.
Esta vista lhe trocou os pesares em contentamentos e o fez admirar a Soberana protecção, que o Redentor e sua Mãe mostravam dos seus futuros filhos, o amor que eles deviam ter a esta Senhora e a confiança com que nas suas aflições deviam recorrer a ela.[1]
Perante este tão grande patrocínio e protecção não podemos deixar de recorrer à Virgem Maria, nem deixar de a louvar por tudo o que nos tem concedido.
Oração
Ó Deus, que sob o Patrocínio especial da Bem-Aventurada Virgem Maria, quisestes que fosse instituído para a salvação das almas a Ordem de Pregadores, e que fosse cumulada dos seus perpétuos benefícios, concedei-nos que celebrando hoje a sua memória, com o socorro da sua protecção, cheguemos à glória celeste. Por Jesus Cristo Nosso Senhor.


[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo III. Lisboa, Oficina de António Pedrozo Galram, 1710, 306-307.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

FONTES PARA A HISTÓRIA DE SÃO DOMINGOS

Outras Fontes Documentais para a História de São Domingos

Um dos factos que chama a atenção em São Domingos, e numa tentativa de reconstituição da história da sua vida e da sua obra, é a falta de documentos autógrafos, ou seja, do seu punho. Ao contrário de São Francisco seu contemporâneo não encontramos escritos do fundador da Ordem de Pregadores.
Este facto torna-se ainda mais estranho quando os primeiros biógrafos e muitas das testemunhas do seu processo de canonização dizem que ele escrevia constantemente cartas aos seus frades espalhados pela Europa.
Podíamos duvidar destas afirmações se não tivesse chegado até nós uma dessas cartas, uma única, e que permite confirmar a verdade do que é dito. É uma carta que São Domingos escreveu às monjas de Madrid, a um grupo de mulheres que tinha conhecido aquando da sua viagem a Espanha em 1219 e que se tinham colocado sob a protecção da Ordem. Mas o que aconteceu às outras? Como foi possível que tivessem desaparecido? Porque não desapareceram só as cartas pessoais, desapareceram também aquelas, pelo menos duas, que serviram para convocar os Capítulos Gerais de 1220 e 1221. Podemos acreditar que houve bastante descuido, ou que a mobilidade dos frades não permitia a acumulação de coisas que impedissem essa mesma mobilidade.
Contudo, e ainda que não tenhamos as cartas que São Domingos escreveu, temos um conjunto de documentos onde a sua pessoa é referida ou atestada com assinatura. As Bulas Papais, as cartas de apresentação aos bispos das dioceses por onde passava, os privilégios que lhe são outorgados, actas de reuniões no âmbito da cruzada contra os cátaros, um processo de conversão, ou seja um conjunto de documentos diplomáticos e jurídicos que atestam não só a sua pessoa e actividades mas também os princípios da Ordem.
Interessantes são também as referências que se encontram em documentos extra Ordem, as referências feitas por gente que não tinha nada a ver com os dominicanos, como são as da Crónica de Guilherme de Puylaurens, capelão do Conde Raimundo VI, ou as da História Albigensis de Pedro de Vaux de Cernay.
Para além desta documentação, convém referir uma outra, de um outro género bastante diferente, quase oposto se poderia dizer, e que ajudou a construir a história de Domingos, ou pelo menos, a imagem hagiográfica que passou para a história. São os relatos dos milagres, que encontramos no processo de canonização e num outro texto, muito pessoal e até íntimo, como é a narração da Beata Cecília, uma monja do Mosteiro de São Sixto de Roma que conheceu São Domingos.
Serão estes relatos de milagres, de acções extraordinárias, que fundamentarão a iconografia da imagem de São Domingos, enquanto que os documentos diplomáticos e jurídicos forjarão a imagem histórica austera e inquisitorial. Uma e outra têm a mesma e única fonte mas estão turvadas pelos factores que as originaram e portanto é necessário clarificá-las, purificá-las, para podermos ver e encontrar-nos na medida do possível com a verdadeira pessoa de São Domingos de Guzman.

FONTES PARA A HISTÓRIA DE SÃO DOMINGOS

As Legendas de São Domingos

Se o “Libellus” do Beato Jordão de Saxónia é a primeira e principal obra com carácter histórico sobre São Domingos, e portanto a melhor fonte para o conhecer, não podemos deixar de lado, nem esquecer, as obras que se lhe seguiram; obras que tiveram um maior carácter divulgativo que histórico, mas que não nos podem ser indiferentes na construção da história e da vida de São Domingos.
A primeira dessas obras “Legenda Sancti Dominici” é a do dominicano espanhol Pedro Ferrando, que entre 1237 e 1242 foi encarregue de escrever um texto que servisse para ser lido comunitariamente, e mormente para ser lido nos serviços litúrgicos. É a primeira Legenda e na qual se recolhe o texto do Beato Jordão e mais algumas tradições, nomeadamente as que tinha escutado em Espanha.
Em 1245 Constantino de Orvieto recebe do Capítulo Geral a missão para refazer a obra de Pedro Ferrando. Em 1247 o fruto do seu trabalho é apresentado ao novo Capítulo Geral. É uma obra onde o maravilhoso e o extraordinário pontifica de sobremaneira, ficando o fundamento histórico reduzido ao mínimo indispensável. O maior valor da obra assenta na lista dos milagres que regista, tem mais 47 milagres que a Legenda de Pedro Ferrando, e muitos deles posteriores à morte de São Domingos.
A partir destes dois textos, o quinto Mestre da Ordem Frei Humberto de Romans tentou redigir aquela que queria que fosse a Legenda definitiva. Não podemos esquecer que este desejo se enquadra no seu trabalho de normalização e regulamentação orgânica da Ordem, que levou a cabo enquanto Mestre da Ordem.
A par destas obras imbuídas de um certo carácter histórico, “científico”, foram aparecendo outras obras, pequenas biografias que se destinavam ao uso dos pregadores nos seus sermões. Temos assim a obra de Bartolomeu de Trento, escrita entre 1245 e 1251, a obra de Rodrigo de Cerrato, escrita entre 1270 e 1281, e a obra de Tiago de Voragine, incorporada na sua colecção de histórias de Santos chamada “Legenda Dourada”. Tomás de Cantimpré e Estêvão de Borbon entre 1256 e 1263 escrevem também as suas vidas do fundador da Ordem de Pregadores.
Devido à grande e diversa produção, e certamente a alguns exageros, os Capítulos Gerais de 1255 e 1256 ordenaram que se procedesse a uma investigação completa e fundamentada. O resultado desta ordenação é a obra do francês Gerardo de Frachet “Vitae Fratrum Ordinis Praedicatorum”. As viagens pela Europa e um bom número de contactos permitiu-lhe recolher muita informação e muitos relatos de milagres, que no conjunto da obra acabaram por prevalecer sobre os dados históricos que hoje a nós nos interessariam muito mais.
Já perto do final do século XIII Estêvão de Salagnac escreve uma outra vida de São Domingos e dos primeiros frades e pouco depois o alemão Teodorico de Apoldia fazia de certo modo a síntese de todas as lendas e histórias hagiográficas anteriores na sua volumosa obra Libellus sobre a vida morte e milagres de São Domingos.
A estas obras e a mais um conjunto de crónicas anónimas há que acrescentar a grande obra de Bernardo Gui. Prior, inquisidor em Toulouse entre 1307 e 1323, e amante da história, Bernardo Gui leu tudo o que anteriormente a ele se tinha escrito sobre São Domingos e a Ordem. Recolheu documentos, testemunhos escritos e orais, que hoje de outra forma seriam desconhecidos, e com eles escreveu não só a vida de São Domingos mas também a de todos os seus predecessores no governo da Província de Toulouse e da Provença. É um documento histórico único.
Esta enumeração, que não é exaustiva, dá-nos uma ideia do interesse que as primeiras gerações, de modo particular durante o século XIII, tiveram pela história e vida do fundador Domingos de Guzman, bem como daqueles que o acompanharam na fundação da Ordem e sucessivas fundações de conventos e Províncias.
A razão deste interesse não se prende apenas com a canonização, com a necessidade de ter material hagiográfico para a divulgação de São Domingos, prende-se sobretudo com a necessidade de não perder a memória, de não perder as manifestações e prodígios que ajudaram e podiam ajudar a Ordem e os frades a serem conscientes da sua prestigiosa origem.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

ICONOGRAFIA SÃO VICENTE FERRER

SÃO VICENTE FERRER

São Vicente Ferrer nasceu em Valência, Espanha, em 1350. Depois de uma meninice à sombra do convento dominicano da cidade professou na Ordem de São Domingos em 1367, com dezassete anos de idade.
Distinguiu-se como grande pregador e é por essa sua faceta e missão que a iconografia o identifica. Entre os elementos iconográficos que o identificam destacam-se aqueles que se prendem com o milagre da pregação ocorrido em Salamanca, como são as asas do anjo, o livro do Apocalipse e a frase Timete Deum et date illi honorem, quia venit hora iudicis eius (Ap 14,7) proferida pelo anjo e ao qual se associa a trombeta.
É desta forma que nos relata o milagre Frei Manuel de Lima, no Agiológio Dominicano:

“Teve notícia de que em Salamanca alguns ouvintes murmuravam dos seus sermões; ao outro dia sobe ao púlpito e ponderando que São João no seu Apocalipse vira um anjo, que pregava as vizinhanças do dia do Juízo, continua dizendo: Eu sou este Anjo do Apocalipse, eu sou o mesmo anjo que em figura se representou a São João.
Alvoroçou-se o auditório, os censuradores desembuçaram o seu desagrado, e São Vicente depois de uma breve pausa, torna a dizer: Sossegai, sossegai os escândalos. Agora acaba de expirar uma mulher à porta de São Pólo, venha aqui esse cadáver e ouçamos o seu testemunho.
Veio o cadáver, apresentou-se e descobriu-se diante do púlpito e perguntou-lhe o Santo: Mulher sou eu o Anjo do Apocalipse que publica a hora do Juízo universal?
Sim
, diz a mulher, tu és esse Anjo, tu o que foi representado naquela visão.
Torna a perguntar-lhe São Vicente: Queres ficar com vida, ou queres ir para a sepultura?
Quero viver, respondeu a mulher. Pois vive, disse o Santo e viveu largos anos, perene testemunha de tão multiplicados prodígios.”[1]
[1] LIMA, Frei Manuel de – Agiológio Dominico, Tomo II. Lisboa, Officina de António Pedrozo Galrram, 1710, 32.

DEVOÇÃO DAS QUINZE TERÇA-FEIRAS

1ª TERÇA-FEIRA – PRIMEIRO GOZO – CONHECIMENTO GLORIOSO
Saudação
Deus vos salve honra da Igreja, Domingos piedosíssimo. Deus vos salve protector de todos os que a vós recorrem. Deus vos salve, celeste habitante, socorrei-me com vossos rogos.
Meditação
Consideremos como a alma de nosso grande Pai São Domingos reina bem-aventurada no Céu; e tem por fonte do primeiro gozo ver a Deus em Deus, a luz na luz, o Sol no Sol, o Sumo Bem sem sombra ou véu, onde enlevada com o entendimento cheio de glória no mar da Divina essência não pode alienar-se daquela luz incriada, mas em Deus entende, o que ao mesmo Deus agrada manifestar-lhe.
Solilóquio
Eis-me aqui ó alma, aonde te chama o nosso Santíssimo Patriarca, e como te ensina, que comeces neste desterro de morte um Paraíso de vida; e à semelhança dos Santos que procures sempre conhecer a Deus, cuidar em Deus, em Deus meditar, de sorte que não tenhas na tua vida coisa mais amada que Deus, de Deus queiras todos os bens e de Deus solicites todas as graças que podes desejar.
Súplica
Ó Deus e Senhor meu, iluminai o meu entendimento com a sabedoria da vossa luz, de modo que não seja já mais enganado destas sombras terrenas e transitórias, mas coloque debaixo dos pés o mundo e suas vaidades, e diante dos olhos traga sempre esculpido Deus para servi-lo sem respeitos humanos e manifestá-lo a todas as criaturas. Amen.

Pai-Nosso, Dez Avé Marias, Glória ao Pai, o que vem a ser um Mistério ou Década cada Terça-feira. Se concluirá com a Salvé Rainha e o Responsório de São Domingos.

RESPONSÓRIO DE SÃO DOMINGOS

RESPONSÓRIO DE SÃO DOMINGOS

Ó admirável esperança que destes aos que na hora da vossa morte vos choravam prometendo que depois dela lhes havíeis de ser mais útil!
- Cumpri ó Pai amado a vossa palavra, ajudando-nos com os vossos rogos.
Vós que resplandecestes com tantos milagres nos corpos dos enfermos conseguindo-nos o socorro de Cristo, curai-nos das enfermidades de nossos maus costumes!
- Cumpri ó Pai amado a vossa palavra, ajudando-nos com os vossos rogos.
Glória seja dada ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo!
- Cumpri ó Pai amado a vossa palavra, ajudando-nos com os vossos rogos.
Orai por nós Bem-Aventurado Pai São Domingos!
Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

Oremos:
Deus que vos dignastes ilustrar a vossa Igreja com os gloriosos merecimentos e doutrinas do Bem-Aventurado São Domingos, vosso Confessor e nosso amoroso Pai, concedei-nos que pela sua intercessão não sejamos destituídos dos socorros temporais, e sempre cresçamos em empenho e benefícios espirituais. Por Jesus Cristo Nosso Senhor. Amen.

JACULATÓRIAS
Patriarca Santíssimo de Jesus muito amado, sede de vossos filhos compassivo advogado.
Patriarca Santíssimo Esposo de Maria, assisti-nos propício na última agonia.
Patriarca Santíssimo do Rosário autor, alcançai boa morte a todo o pecador.
O Divino Socorro assista sempre convosco. Amen.

DEVOÇÃO DAS QUINZE TERÇAS-FEIRAS

DEVOÇÃO DAS QUINZE TERÇAS-FEIRAS

Quando nos encontramos com irmãos e irmãs, e até com fiéis devotos de São Domingos, mais avançados na idade, ouvimos por vezes falar de algumas devoções e actos de piedade que existiam antigamente e que hoje os frades mais jovens desconhecem completamente.
O tempo e algumas ideias “modernistas” originaram essa perda da memória e da prática de exercícios devocionais, que na sua simplicidade e exclusividade, às vezes até exagerada, davam um certo sentido de pertença, que hoje nos falta e nos faz falta.
Entre essas diversas devoções dominicanas encontrava-se a Devoção das Quinze Terças-feiras, devoção que concilia o louvor a São Domingos com a veneração do Santíssimo Rosário e a prática dos Sacramentos da Igreja, de modo especial a Eucaristia.
No livro “Collecção de Devoções do Glorioso Patriarca São Domingos”, do Padre Frei Roberto de Jesus Maria do Rosário, publicado em Lisboa em 1763 encontramos a apresentação e explicação da devoção e duas fórmulas para a sua prática. Nesta apresentação é interessante notar o cuidado na liberdade do exercício, bem como a atenção para que ele não seja desculpa nem impedimento para o cumprimento das obrigações.

Devoção das quinze terças-feiras de nosso glorioso Patriarca S. Domingos

São as Terças-feiras na nossa Religião dedicadas ao nosso Santíssimo Patriarca. Para obsequiá-lo, conciliarem mais o seu agrado, e segurarem melhor o seu patrocínio, podem, não só seus filhos e filhas, mas também outros quaisquer fiéis, em qualquer tempo do ano, escolher quinze terças-feiras sucessivas, se puder ser, e principalmente as antecedentes à sua festa de Agosto, em honra dos quinze mistérios do Santíssimo Rosário; nas quais confessando-se, comungando e visitando a igreja da nossa Ordem, e aí rogando pela exaltação da Santa Madre Igreja, propagação da Fé, extirpação das heresias, e paz entre os Príncipes Cristãos, lucram em cada terça-feira que assim o fizerem, cem dias de relaxação das penitências devidas. E elegendo o devoto uma das ditas terças-feiras, qual quiser, e nela fazendo as mesmas diligências de Confissão, Comunhão e Visita, e oração pela Santa Madre Igreja, e etc., e além destas jejuando na dita terça-feira escolhida, ou na véspera, lucra Indulgência Plenária. Este exercício se pode fazer muitas vezes no ano, e com muito merecimento, mas o lucro das Indulgências é só uma vez no ano. Esta devoção das quinze Terças-feiras, com venturosa experiência, a praticaram e praticam muitas almas; a aprovaram muitos Sumos Pontífices e depois de Alexandre VII e dos dois Clementes IX e X a favoreceu o Santíssimo Padre Bento XIV, fazendo-a mas frutuosa com a concessão das referidas graças no Decreto expedido em 7 de Dezembro de 1753.
Alguns acrescentam outras obras, como jejuar as quinze Terças-feiras todas, ouvir Missa, rezar e meditar antes dela um Mistério do Rosário, começando do primeiro na primeira Terça-feira e seguindo-os por sua ordem nas mais Terças-feiras até o último na última Terça-feira; porém as obras que o Pontífice assina e que somente pede, para se lucrarem as graças que concede, são as mencionadas acima.
Adiante verá dois exercícios para as referidas quinze Terças-feiras: escolhe qual te agradar, ou faz um de manhã, outro de tarde ou à noite, com tanto que não faltes às obrigações.

terça-feira, 5 de maio de 2009

FONTES PARA A HISTÓRIA DE SÃO DOMINGOS


O “Libellus de principiis Ordinis Praedicatorum” de Jordão de Saxónia

Jordão de Saxónia nasceu em 1180, dez anos depois de São Domingos, em Burgsberg, hoje actual Alemanha. Era oriundo de uma família nobre e por isso foi enviado para Paris para realizar ali a sua formação académica e universitária.
Era em Paris que se encontrava quando no verão de 1219 passou por ali São Domingos para visitar o recém fundado convento dos frades pregadores, mais tarde conhecido por convento de Saint-Jacques.
Jordão foi escutar a sua pregação e por causa dessa pregação um ano mais tarde estava a tomar o hábito dos dominicanos e pouco depois representava esse mesmo convento de Paris no que foi o primeiro Capítulo Geral da Ordem celebrado em Bolonha.
No ano de 1221 é nomeado Prior Provincial da Lombardia e quando São Domingos morre nesse mesmo ano é eleito Mestre da Ordem, cargo que ocupou durante dezasseis anos.
Jordão de Saxónia morreu num naufrágio no Mediterrâneo oriental, quando regressava de visitar os conventos que entretanto se tinham estabelecido na Terra Santa.
Como nos diz no prólogo do seu Libellus, da sua história de São Domingos, conviveu com o fundador da Ordem muito pouco tempo, apenas os três últimos anos de vida daquele. Por isso quando se propõe, devido aos vários pedidos dos irmãos, redigir a história e a vida do fundador e dos primeiros irmãos que o acompanharam, vai alicerçar a sua narração não só naquilo que viu e ouviu pessoalmente, mas sobretudo no que ouviu de outros irmãos, daqueles que acompanharam Domingos nos primeiros momentos da fundação da Ordem e foram testemunhas das alegrias e dificuldades vividas.
A intenção de Jordão de Saxónia, ainda que utilizando os testemunhos directos, é de fazer uma obra de história, poderíamos dizer com qualidade científica. Hoje sabemos que o seu trabalho não está isento de erros, mas ainda assim é a primeira e a mais absoluta fonte para o conhecimento de São Domingos. Tudo o que foi escrito depois não pôde nem pode deixar de a ter em conta.
Num ambiente de veneração por São Domingos, o processo de canonização estava iniciado e a previsão de uma boa conclusão era legitima, Jordão de Saxónia não deixa de narrar a vida de São Domingos de uma forma simples, discreta, numa forma muito distante de um livro hagiográfico. E ainda que se encontre algum tipo de veneração na narração dos acontecimentos, a grande preocupação é procurar fazer uma obra de historiador. É isso que demandam e exigem os irmãos que querem saber as origens. A existência de testemunhas vivas desses momentos urge a aplicação e o trabalho, pois de contrário não ficará nada para além da ignorância dos tempos.
Mas para além do objectivo histórico, Jordão de Saxónia, como Mestre da Ordem, tem um outro objectivo, objectivo esse que se encontra no prólogo da obra e que ainda hoje nos motiva e deve motivar sempre que queremos contar a história de São Domingos.
Quanto segue, amadíssimos irmãos e filhos, foi reunido sobretudo para vossa edificação e consolo, recebei-o devotamente e ardei em desejos de emular a primeira caridade dos nossos frades.”
Escrever, ler, conhecer, a vida de São Domingos deve servir para nos edificarmos e ardermos em desejos de criativa fidelidade e amorosa semelhança.

domingo, 3 de maio de 2009

ORAÇÃO DE SANTA CATARINA DE SENA À VIRGEM MARIA


ORAÇÃO DE SANTA CATARINA À VIRGEM MARIA

Prosseguimos o nosso mês mariano e dominicano com a apresentação de uma oração de Santa Catarina de Sena à Virgem Maria. Mais concretamente são os primeiros parágrafos de uma longa oração mariana e uma das mais belas do conjunto de orações de Santa Catarina.
É uma oração que foi composta na festa da Anunciação, a 25 de Março de 1379, dia em que Catarina cumpria o seu trigésimo segundo aniversário. Foi composta em Roma e certamente tem alguma influência na sua composição o facto de Catarina viver por esta data perto da igreja dominicana de Santa Maria Supra Minerva, cuja invocação é a da Anunciação.

Oh Maria, Maria templo da Trindade! Oh Maria, portadora do fogo! Maria que ofereces misericórdia, que germinas o fruto, que redimes o género humano, porque sofrendo a carne que é tua no Verbo, foi novamente redimido o mundo.
Oh Maria, terra fértil! És a nova planta de que recebemos a fragrante flor do Verbo, Unigénito Filho de Deus, pois em ti, terra fértil, foi semeado esse Verbo. És a terra e és a planta. Oh Maria, carro de fogo! Tu levaste o fogo escondido e velado debaixo do pó da tua humanidade.
Oh Maria, vaso de humildade no qual está e arde a luz do verdadeiro conhecimento com que te elevastes sobre ti mesma. Por isso agradastes ao Pai eterno e te chamou e te levou até si, amando-te com amor singular. Com a luz e o fogo da tua caridade, e com o unguento da tua humildade atraístes e inclinastes a Divindade para que viesse a ti, embora antes tivesse sido impelido a vir até nós pelo ardentíssimo fogo da sua inestimável caridade
.”[1]

[1] Cf. OBRAS DE SANTA CATALINA DE SIENA, Edição preparada por José Salvador y Conde. Madrid, BAC, 2007, 475.

HOMILIA DOMINGO IV DO TEMPO PASCAL


Homilia Domingo IV do Tempo Pascal

Eu sou o Bom Pastor, conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me”.
Estas palavras de Jesus são o centro do Evangelho de São João que acabámos de escutar e são elas que dão razão e fundamentam o facto de chamarmos a este quarto domingo da Páscoa domingo do Bom Pastor.
São palavras que já ouvimos bastantes vezes, das quais até temos consciência da sua implicação na nossa vida, ainda que muitas vezes nos esqueçamos dessas implicações e de como elas são radicais, de como foram radicais para Jesus e são também para nós.
Ao dizer que são palavras radicais não quero dizer que são arriscadas, perigosas, e ainda que o sejam, não significam aqui isso, radicais conforme a própria palavra indica significa que têm raiz, que não são palavras para levar ao vento nem viver de ânimo leve.
Jesus viveu esta radicalidade das palavras nas consequências que elas lhe acarretaram, a condenação à morte, mas também na origem e fonte delas mesmas, a relação de intimidade e de vida com o Pai.
Quando Jesus diz “Eu sou” está a colocar-se numa realidade e a dar-se uma identidade que pertencia exclusivamente a Deus. Depois de Deus se ter revelado no deserto a Moisés como aquele que “Eu Sou”, quando lhe disse desde a sarça-ardente como se chamava, esta afirmação pessoal de identidade estava banida do dizer comum. Era um interdito, algo impronunciável, não só porque afinal era o nome de Deus mas também a essência da sua existência, do seu ser. Deus é Aquele que é.
Ao assumir estas palavras para si Jesus dá-se esta mesma identidade, assume-se como sendo também Deus, o mesmo Deus que se tinha revelado a Moisés. E pode fazê-lo porque como Ele próprio nos diz conhece o Pai e o Pai conhece-o, mas mais importante ainda, pode dizê-lo porque o Pai o ama e ele cumpre o mandamento do Pai entregando a sua vida.
A segunda parte da afirmação identificadora “O Bom Pastor” está também carregada de identidade radical, uma identidade que deriva das promessas proféticas de que Israel teria um dia um chefe que seria como um pastor, um bom pastor. Ao dizer que era o Bom Pastor Jesus assume-se como o Messias que tinha sido prometido pelos profetas e de modo especial pelo profeta Ezequiel. O pastor da promessa era alguém que cuidaria das ovelhas dando-lhes a sua própria vida, que cuidaria delas com toda a solicitude e diligência, que não seria como os mercenários ou os pastores contratados que se servem das ovelhas para se cuidarem a si próprios.
Muitos dos discípulos e seguidores de Jesus perceberam o alcance destas afirmações e por isso imediatamente a seguir abandonaram Jesus, dizendo que ele estava possuído pelo demónio. Fizeram-no não só pela carga teológica destas palavras, pelo que elas tinham de blasfemo face àquilo que acreditavam, mas também pelas consequências que lhes são inerentes e que Jesus explicita quando diz que conhece as ovelhas e as ovelhas que são suas o conhecem.
Estas palavras estão para nós, hoje, carregadas de consequências e de radicalidade, porque se a primeira parte da expressão se aplica a Jesus, esta segunda parte aplica-se totalmente a nós, e a nós que nos dizemos cristãos.
Aplicam-se a nós quando assumimos e temos consciência de que Deus nos conhece. E conhece-nos não só pela obra da criação, somos obras das suas mãos, e por isso sabe do que somos feitos, mas também pela obra da redenção, pelo mistério da incarnação. Quando o Filho de Deus cumpriu a vontade do Pai e se fez homem como nós, excepto no pecado, experimentou a totalidade da nossa condição, dos nossos limites e fragilidades e por isso tem um conhecimento cabal da nossa natureza e condição. Deus conhece-nos na nossa condição humana, mas conhece-nos também na nossa condição e relação pessoal, Ele trata-nos a cada um pelo seu próprio nome. Como na manhã de Páscoa chamou Maria Madalena pelo seu nome, “Maria”, em cada dia chama o nosso nome para que o conheçamos.
E aqui cabe perguntar se nós conhecemos o nosso Pastor, se nós como ovelhas ouvimos a sua voz e sabemos o que nos convida a fazer, se de facto vivemos as palavras do Salmo “o Senhor é meu pastor nada me falta, conduziu-me às fontes mais puras e lá restaurou as minhas forças”.
À luz destas palavras do Salmo e do que nos é dito pelo Evangelho que escutámos, a nossa condição de ovelhas é a que mais facilmente assumimos e se nos aplica. Contudo, não podemos esquecer que todos nós estamos também intimados a ser pastores, a cuidar das ovelhas que estão à nossa volta e ao nosso cuidado. Se na nossa identidade e relação com Deus somos ovelhas, na nossa identidade e relação fraterna estamos chamados a ser pastores, a cuidar e as conduzir os outros às fontes mais puras e a restaurar as suas forças.
Os sacerdotes foram pelo mandato apostólico dado a Pedro encarregues de uma forma especial desse cuidado de conduzir as ovelhas, os fiéis, e por essa razão neste domingo se celebra também o dia de oração pelas vocações sacerdotais e consagradas. Mas ao seu exemplo, cada um de nós está responsável da mesma tarefa, e por isso é até uma feliz coincidência que este domingo do Bom Pastor coincida com o dia da Mãe. Poderemos ter uma imagem mais real, mais concreta, da solicitude pastoral, do amor pelas suas ovelhas, que a imagem de uma mãe que cuida dos seus filhos?
Aqui em Portugal não conheço, mas já vi várias em Espanha, imagens e invocações da Virgem Maria como Boa Pastora. Não estamos todos nós chamados a ser bons pastores, a exercer o cuidado maternal de uns pelos outros?
A esposa amada do Cântico dos Cânticos pede quase no início desse belo poema bíblico que o seu amado lhe indique onde levar as ovelhas a pastar e a descansar para que ela possa ir também. O esposo amado responde-lhe que siga o caminho dos rebanhos, que para nós não são mais que os caminhos daqueles que nos precederam na fé e nos servem de exemplo de fidelidade, de solicitude e de amor pela Igreja de Cristo, pelo rebanho cristão.
Peçamos também ao Senhor como a esposa amada do Cântico dos Cânticos, não já que nos indique onde, porque o sabemos, mas como, de que modo nesta sociedade e nestes nossos tempos tão dispersos podemos ser ovelhas que escutam e pastores que anunciam.