terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não façais da casa de meu Pai casa de comércio (Jo 2,16)

Ao celebrarmos a festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão a liturgia da Palavra apresenta-nos o texto do evangelista São João no qual nos é relatado o gesto violento de Jesus expulsar os vendilhões do templo. É um texto que nos pode interrogar, na medida em que celebramos a festa da dedicação de um espaço de culto, sobre o sentido de um templo dedicado a Deus, quando Jesus nos disse que o verdadeiro templo de adoração de Deus é o coração. São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios também não deixa de nos interpelar neste mesmo sentido quando diz que somos templos do Espírito Santo, templos de Deus e portanto devemos viver de acordo e coerentemente com essa natureza e dignidade.
Assim sendo, que sentido faz um espaço, um templo, uma reunião para a celebração da fé, quando cada um a pode celebrar no seu coração através do acolhimento livre e responsável da Palavra de Deus, quando e como quiser? Para que serve a igreja e porque vamos à igreja?
É verdade que somos templos de Deus e o acolhimento da Palavra se faz individualmente, não há outra forma, mas é verdade também que somos pedras vivas, que constituímos um corpo, somos membros de um corpo, de um povo que caminha, um povo frágil e pecador e por isso necessita do apoio do outro, da força do outro, do exemplo do outro para caminhar de uma forma mais suave e fidedigna.
E também não podemos esquecer que o projecto de Jesus Cristo é um projecto de família, de uma nova comunidade, fundada não sobre laços de sangue, mas sobre relações de amor recíproco e de misericórdia. E para que esta nova família cresça, se constitua, tem que se reunir, tem que estar e partilhar a sua relação, tem que se construir. A casa, o espaço de culto, a igreja, é o lugar onde é possível essa reunião, e sobretudo a construção dessa relação que, como corpo, se faz com a cabeça que é Jesus Cristo, e que nos precede e alimenta na caminhada.
Nesta construção e processo vivencial não podemos esquecer as palavras de Jesus quando expulsava os vendedores do templo, ou seja, que não façamos da casa de seu Pai, da sua casa e nossa casa um lugar de comércio.
E podemos fazê-lo, tanto na igreja como no templo interior do nosso coração, ou até fazemo-lo na igreja porque já o fizemos no nosso coração. É extremamente fácil entrarmos em negociação com Deus, em prometer determinadas coerências ou fidelidades, uma conversão de vida, em troca de um favor ou uma graça. Quantas vezes já o fizemos, esquecendo-nos que não só estamos a criar uma barreira à liberdade e acção de Deus, como nos estamos a colocar como centro, como capacidade de realização que não temos e só nos pode advir da livre aceitação da bondade de Deus e dos seus planos.
Necessitamos assim pedir ao Senhor que expulse de nós e do nosso coração essas forças que persistem em querer que negociemos e nos impedem de aceitar pobre e humildemente a vontade de Deus e a sua força redentora.
Na aguarela de Alexander Ivanov que ilustra este texto, o esboço impreciso dos vendedores deixa à nossa imaginação e discernimento o que podemos assumir como comércio do nosso coração, no qual somente Cristo com toda a cor e toda a luz deve reinar e ser Senhor.

1 comentário:

  1. Frei José Carlos,

    Ao recordar-nos a celebração da festa da Dedicação da Basílica de São João Latrão partilha connosco um texto que nos esclarece, vivo, belo, ilustrado de forma tão expressiva. Diz-nos de forma clara, ao celebramos a “festa da dedicação de um espaço de culto, sobre o sentido de um templo dedicado a Deus, quando Jesus nos disse que o verdadeiro templo de adoração de Deus é o coração” …
    Lembra-nos que …”somos templos de Deus e o acolhimento da Palavra se faz individualmente, não há outra forma, mas é verdade também que somos pedras vivas, que constituímos um corpo, somos membros de um corpo”… e que …”o projecto de Jesus Cristo é um projecto de família, de uma nova comunidade, fundada não sobre laços de sangue, mas sobre relações de amor recíproco e de misericórdia. E para que esta nova família cresça, se constitua, tem que se reunir, tem que estar e partilhar a sua relação, tem que se construir. A casa, o espaço de culto, a igreja, é o lugar onde é possível essa reunião, e sobretudo a construção dessa relação que, como corpo, se faz com a cabeça que é Jesus Cristo, e que nos precede e alimenta na caminhada.”
    Salienta-nos ainda, de forma aberta, que “tanto na igreja como no templo interior do nosso coração” podemos no diálogo com Deus “negociar”.
    Peçamos com o Frei José Carlos, que …” o Senhor expulse de nós e do nosso coração essas forças que persistem em querer que negociemos e nos impedem de aceitar pobre e humildemente a vontade de Deus e a sua força redentora.”
    Obrigada por esta partilha que nos desinstala, que nos remete para um auto-exame de consciência, para o nosso percurso de vida, no qual, certas atitudes e comportamentos assumidos de forma ligeira, impedem-nos de reflectir nos verdadeiros actos, caindo facilmente no “comércio do nosso coração”.
    Que Jesus o abençoe e ilumine no Caminho que prossegue e para que possa continuar a partilhar connosco a palavra do Evangelho vivificada. Bem haja, Frei José Carlos.
    Um abraço fraterno
    MJS

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